Entre a Catástrofe e a Possibilidade: Comunicação, Antropoceno e Decolonização em Disputa

Texto produzido para a disciplina Estudos Críticos da Comunicação – Turma B, 2025/1
FABICO/UFRGS
Prof. Marcelo Bergamin Conter

por
Luíza de Matos Babot
Maria Luiza Grison Fontana

1. Introdução

A comunicação é uma das ferramentas mais poderosas da sociedade contemporânea. Por meio dela, criamos narrativas, formamos imaginários, damos voz a causas e, muitas vezes, também as silenciamos. É através da comunicação que nos constituímos como sujeitos e coletividades, que disputam os sentidos e legitimamos práticas. Ao mesmo tempo em que permite a circulação de ideias e afetos, a comunicação também pode ser instrumento de dominação, exclusão e apagamento.

Vivemos hoje um momento histórico que muitos chamam de Antropoceno, época marcada pela profunda interferência humana na Terra e na vida de todas as espécies. Esse conceito, embora contestado por diversas correntes críticas, evidencia a magnitude do impacto humano sobre os sistemas naturais, revelando uma crise civilizatória sem precedentes. O Antropoceno não é apenas uma questão ambiental, é uma crise de valores, de modelos de desenvolvimento, de formas de viver e de se relacionar com o mundo.

Neste contexto, a comunicação ocupa um papel paradoxal: pode tanto ampliar a consciência ecológica e apoiar lutas por justiça, quanto reforçar lógicas coloniais, extrativistas e consumistas. A mídia, a publicidade, as redes sociais e as tecnologias da informação participam ativamente da manutenção de um sistema que produz desigualdade, devastação e silenciamento, ao mesmo tempo em que oferecem ferramentas para denunciar, resistir e imaginar outros mundos possíveis.

Este ensaio tem como objetivo refletir criticamente sobre os impasses da comunicação no Antropoceno, especialmente quando mobilizada em campanhas publicitárias que tratam de temas como meio ambiente e diversidade racial. Busca-se compreender até que ponto essas campanhas contribuem para a transformação do mundo e até que ponto reforçam estruturas de poder que sustentam o colapso planetário. A análise parte da premissa de que a comunicação não é apenas discurso, mas também prática material, política e afetiva.

O corpus da análise é composto por campanhas publicitárias de grandes marcas, como Natura e Heineken, que utilizam discursos ecológicos e de diversidade para promover seus produtos. Também são observadas campanhas de organizações como Amazon Watch e Instituto Socioambiental, que operam a partir de outras lógicas e valores. Essas campanhas são lidas como sintomas e manifestações de um tempo em que o cuidado se tornou uma estética, a diversidade virou um slogan, e a ecologia foi apropriada pelo marketing.

A análise dialoga com textos fundamentais para o campo: “Os Paradoxos da Comunicação ante o Antropoceno” (Silva & Aguiar, 2020), “Descolonizando o Conhecimento” (Kilomba, 2016), “Transformações perceptivas e afetivas na Idade da Terra” (Danowski, 2022) e “Ideias para adiar o fim do mundo” (Krenak, 2019). Esses autores oferecem chaves teóricas potentes para pensar os desafios contemporâneos da comunicação em um mundo em crise.

A abordagem teórica proposta une três perspectivas principais: a geologia da mídia, que propõe uma leitura material e ecológica da tecnologia; a crítica decolonial, que questiona os padrões de saber e poder impostos pela colonialidade; e o pensamento indígena brasileiro, que oferece outras formas de imaginar o mundo e habitar a Terra. A partir desse entrelaçamento, buscamos especular sobre o que seria uma comunicação verdadeiramente comprometida com a vida humana e não humana no presente.

2. O Antropoceno como paisagem comunicacional

Silva e Aguiar (2020) apresentam o Antropoceno como uma nova camada geológica moldada pela ação humana. O nome sugere que o ser humano se tornou uma força capaz de alterar os ciclos da natureza, algo antes atribuído apenas a vulcões, oceanos e terremotos. Mas o que significa falar de comunicação nesse cenário? Como pensar o papel da comunicação em um mundo profundamente atravessado por desequilíbrios ecológicos, desigualdades sociais e crises políticas?

Segundo os autores, o sistema comunicacional atual está intimamente ligado aos processos que sustentam o Antropoceno. A comunicação digital, muitas vezes percebida como imaterial, leve ou “verde”, é, na verdade, sustentada por uma infraestrutura altamente poluente e exploratória. Por trás de cada clique, de cada post e de cada propaganda, existe uma cadeia de extração mineral, trabalho precarizado, consumo de energia e produção de lixo eletrônico. A internet, os smartphones e as redes sociais dependem de data centers gigantescos, cabos submarinos e mineração intensiva, elementos que conectam a comunicação contemporânea diretamente à lógica extrativista.

A comunicação, portanto, não é neutra: ela tem corpo, peso e impacto. Ela consome recursos naturais, explora corpos humanos, emite carbono e, muitas vezes, colabora com o aprofundamento das desigualdades globais. Essa compreensão materialista da comunicação nos obriga a repensar suas promessas e seus limites, especialmente quando ela é mobilizada como ferramenta de transformação.

Ao mesmo tempo, é também pela comunicação que muitos desses problemas se tornam visíveis. Documentários, reportagens, campanhas de conscientização e denúncias nas redes sociais ajudam a nomear e a enfrentar o colapso. As tecnologias digitais, embora carreguem contradições, têm sido aliadas importantes na articulação de resistências e na visibilização de lutas invisibilizadas pelos grandes meios.

É aí que surge o paradoxo central deste ensaio: a comunicação é, ao mesmo tempo, ferramenta de denúncia e mecanismo de reprodução das mesmas lógicas que critica. Ela pode empoderar sujeitos e comunidades, mas também pode capturar suas vozes e transformá-las em capital simbólico para marcas e empresas. O sistema comunicacional se move entre o encantamento e o controle, entre a escuta e o silenciamento.
As campanhas de marcas que se dizem sustentáveis são exemplos disso. A Natura, por exemplo, aposta em narrativas que valorizam a Amazônia e os povos indígenas. A Heineken promove comerciais que celebram a diversidade. Mas até que ponto essas mensagens são realmente comprometidas com a transformação social e ambiental? Quando observamos a infraestrutura por trás dessas campanhas, eventos, peças audiovisuais, mídia paga e logística, percebemos que muitas vezes o discurso é verde, mas a prática segue os padrões do mercado capitalista.

É fundamental, portanto, olhar para além do conteúdo das mensagens e observar os modos de produção, os valores mobilizados e os efeitos concretos dessas comunicações. O Antropoceno, como paisagem comunicacional, exige uma leitura crítica e sensível, capaz de reconhecer os riscos da estetização do cuidado e da mercantilização da diferença.

3. Estética do colapso: a publicidade e a performance do cuidado

A publicidade tem o poder de moldar afetos, desejos e identidades. Ela nos diz o que devemos querer, como devemos viver e até quem devemos ser. No Antropoceno, essa indústria passou a incorporar pautas ambientais e sociais em sua linguagem. Fala-se de responsabilidade, de impacto positivo, de diversidade. No entanto, quando olhamos com mais cuidado, percebemos que muitas dessas campanhas transformam o cuidado em performance e o colapso em espetáculo.

Essa apropriação de causas legítimas como estratégia de comunicação é um fenômeno crescente. Termos como “greenwashing” e “wokewashing” ganharam destaque justamente para nomear esse movimento de instrumentalização do discurso social e ambiental em benefício das marcas. A ideia de “lavagem verde” refere-se ao uso de retóricas ecológicas sem compromisso real com a sustentabilidade, enquanto a “lavagem progressista” diz respeito à apropriação de pautas identitárias para melhorar a imagem pública de empresas que, na prática, não promovem mudanças estruturais.

A produção de sentido é cuidadosamente calculada. As imagens são belas, os textos são emocionantes, os protagonistas são diversos. Mas o objetivo final segue sendo o mesmo: vender. Ao apropriar-se de discursos progressistas, a publicidade esvazia seu conteúdo político e o transforma em mais um produto. A dor se torna capital simbólico; a luta, enredo de comercial; o engajamento, uma métrica de marketing. A ética é substituída por uma estética do cuidado, em que o gesto simbólico vale mais do que o compromisso prático.

É o que vemos em diversas campanhas voltadas à sustentabilidade. A estética da natureza é usada para vender cosméticos, cervejas e roupas. Fala-se em reflorestamento, mas não se menciona o impacto da cadeia produtiva. Defende-se a diversidade, mas os cargos de liderança seguem homogêneos. As vozes das campanhas são cuidadosamente escolhidas para não incomodar demais. E os corpos que aparecem são, quase sempre, corpos já aceitos pelo mercado.

Trata-se de uma performance da inclusão, em que o outro é representado, mas não convidado a participar das decisões. As campanhas constroem uma narrativa em que a empresa aparece como aliada da causa, mas, ao mesmo tempo, preserva intacta sua lógica de funcionamento. O cuidado é estetizado, domesticado, transformado em emoção publicitária. Não há conflito, não há incômodo, não há política, apenas afeto e consumo.

Essa lógica transforma a diferença em algo palatável, algo que pode ser consumido sem confronto. A diversidade é encenada, mas não vivida. O ambientalismo é promovido, mas não praticado. A publicidade se torna, assim, uma forma de acomodação, e não de ruptura. Como aponta o filósofo Mark Fisher, vivemos uma era de “realismo capitalista”, onde até mesmo a crítica ao sistema é absorvida por ele como mais um produto a ser comercializado.

A estética do colapso, portanto, não apenas representa a crise, mas participa de sua manutenção. Ao transformar o fim do mundo em imagem sedutora, a publicidade desativa o potencial transformador da comunicação. Em vez de criar espaços de escuta e diálogo, ela reforça uma lógica de mercado que esvazia as lutas e neutraliza os conflitos.

4. Quem pode falar? A descolonização do saber e da escuta

Grada Kilomba (2016) nos oferece uma pergunta fundamental: quem tem o direito de falar? E mais do que isso: quem é escutado quando fala? Essa pergunta atravessa não apenas a produção de conhecimento, mas também o campo da comunicação e da publicidade, onde certas vozes são sistematicamente silenciadas, enquanto outras são amplificadas e legitimadas.

Em muitos contextos comunicacionais, a resposta ainda é a mesma de séculos atrás. O saber válido continua sendo aquele produzido por corpos brancos, masculinos e ocidentais. Vozes negras, indígenas, periféricas, femininas, são muitas vezes consideradas emocionais, subjetivas, pouco confiáveis. Seus saberes são vistos como “experiências de vida”, não como conhecimento legítimo. A colonialidade do saber persiste na forma como selecionamos quem tem autoridade para narrar o mundo e como descartamos saberes que não se encaixam na lógica racionalista do Ocidente.

Kilomba fala da máscara colonial, que impedia os escravizados de falar. Hoje, essa máscara continua operando de formas mais sutis: através da exclusão das universidades, dos espaços midiáticos, das empresas de comunicação. Mesmo quando se fala de diversidade, frequentemente são os mesmos corpos que narram, e os mesmos ouvidos que escutam. A pluralidade é permitida desde que não desestabilize as estruturas. A escuta é simulada, mas não praticada.

Essa lógica também está presente nas campanhas publicitárias. Muitas se apropriam de imagens e discursos de grupos historicamente silenciados, mas sem envolvê-los de fato no processo de criação. Usam suas estéticas, suas lutas, seus símbolos, mas não suas vozes. A diferença é convertida em identidade de marca, e não em transformação de estruturas. A inclusão vira um recurso retórico, e não um compromisso real.

Descolonizar a comunicação exige, portanto, mais do que incluir novas imagens. Exige escutar outros modos de ver o mundo, outras epistemologias, outros modos de habitar a Terra. Exige reconhecer que conhecimento é também corpo, história, memória, afetividade. Exige abrir espaço para que as narrativas periféricas, indígenas, quilombolas e feministas deixem de ser apenas objeto de campanhas e passem a ser agentes da comunicação.

Além disso, é necessário problematizar a ideia de “dar voz”, frequentemente usada em campanhas de responsabilidade social. Ninguém precisa que lhe deem voz, todas as pessoas já têm voz. O que falta são espaços de escuta, reconhecimento e poder de fala. A comunicação descolonial não é um favor, mas um direito. Não se trata de representatividade simbólica, mas de transformação real das estruturas que decidem quem pode falar e ser ouvido.

Como nos lembra Kilomba, descolonizar é também recontar as histórias que nos contaram, e que nos contamos. É criar narrativas que não apenas desafiam o colonialismo, mas que também revelam os modos de existir que resistem a ele há séculos. É transformar a comunicação em território de justiça, memória e reencantamento.

5. Comunicação como resistência: entre o digital e o ancestral

Apesar de todas as contradições e limitações que apontamos, é fundamental reconhecer que a comunicação também pode ser um território potente de resistência e transformação. Muitas comunidades historicamente marginalizadas têm se apropriado das tecnologias digitais para fortalecer suas lutas, preservar suas culturas e construir redes de solidariedade que atravessam fronteiras físicas e simbólicas.

Povos indígenas, como os Yanomami, exemplificam esse uso estratégico das mídias digitais. Eles utilizam as redes sociais para denunciar invasões em seus territórios, divulgar seus modos de vida e sensibilizar a opinião pública nacional e internacional. Através de vídeos, fotografias e relatos diretos, esses povos apresentam suas realidades de forma autônoma, contestando narrativas estereotipadas e o apagamento midiático que sofrem há séculos.

Nesses casos, as mídias digitais são ressignificadas. Elas deixam de ser apenas ferramentas do capital e se tornam meios de expressão ancestral. A tecnologia, que carrega a marca do extrativismo, passa a ser usada para proteger a floresta, para denunciar a violência e para fortalecer identidades. O celular, símbolo da modernidade, vira ferramenta de encantamento e resistência.

Essa apropriação crítica das tecnologias contemporâneas é um exemplo daquilo que Danowski (2022) propõe: a necessidade de transformar nossos modos de percepção e afeto para lidar com a crise planetária. Para isso, é preciso abandonar a visão da Terra como mero recurso a ser explorado e passar a reconhecê-la como sujeito, como ente com quem nos relacionamos em reciprocidade.

Essa transformação implica também repensar o tempo e as formas de existência. Não se trata de um progresso linear e acumulativo, mas de abrir espaço para outros tempos, outras lógicas, outras cosmologias, aquelas que sempre coexistiram na diversidade dos povos que habitam este planeta. A comunicação, portanto, deve ultrapassar a simples transmissão de mensagens e se tornar uma partilha de mundos.

Para isso, é preciso escutar com atenção quem há muito tempo já fala: os povos da floresta, os saberes da oralidade, os conhecimentos que foram marginalizados pelo projeto moderno. A comunicação como resistência se faz no diálogo entre o digital e o ancestral, no entrelaçamento de tecnologias e saberes, na criação de espaços de escuta e acolhimento que desafiam as hierarquias do saber.

Essa perspectiva nos aponta para uma comunicação que seja prática de cuidado, que reconheça a multiplicidade de vozes e modos de ser, que seja capaz de habitar o tempo da Terra e das gerações futuras. É uma comunicação que entende sua responsabilidade ética e política na construção de um mundo mais justo e sustentável.

6. Fabular mundos: entre o marketing verde e o encantamento

Ailton Krenak (2019) nos convida a adiar o fim do mundo. Mas o que isso quer dizer? Para ele, o mundo que está acabando é um mundo específico: o mundo branco, capitalista, urbano, racional. Esse mundo está em colapso porque perdeu a conexão com o encantamento, com a natureza, com o outro.

Adiar o fim do mundo é uma tarefa comunicacional. Requer que contemos outras histórias, que criemos outros imaginários, que escutemos outras vozes. Essa tarefa implica repensar a forma como falhamos o mundo, não apenas como simples representação, mas como criação de possibilidades de existência.

A publicidade, nesse cenário, pode escolher dois caminhos distintos. Pode continuar servindo ao capital, utilizando discursos progressistas como estratégia de venda, reproduzindo a lógica do mercado e da exploração. Ou pode se reinventar como prática ética, afetiva e comprometida com a vida. Pode escolher entre o marketing verde e a criação de narrativas que encantam o mundo.

Campanhas como as da ONG Amazon Watch ou do Instituto Socioambiental mostram que é possível comunicar de outra forma. Elas não falam apenas sobre os povos da floresta; falam com eles. Não tratam a natureza como mera paisagem, mas como personagem com agência própria. Não criam desejos artificiais, mas despertam afetos e reflexões que provocam a responsabilização e o cuidado.

Essas iniciativas, mesmo com suas limitações e contradições, apontam para um horizonte possível: o de uma comunicação que seja prática de cuidado, gesto político, forma de existência. Uma comunicação que não apenas vende um produto ou uma ideia, mas que cria mundos possíveis, que amplia a imaginação coletiva para além do capital.
Essa comunicação é capaz de reconhecer que o fim do mundo não é inevitável, mas uma possibilidade que pode ser enfrentada com esperança, luta e criatividade. É a comunicação que se faz a partir da Terra, dos corpos, dos afetos, das memórias — que escuta o passado e imagina o futuro em um presente aberto.

7. Análise Crítica: a ambiguidade das campanhas ESG das marcas Natura e Heineken

As campanhas ESG das marcas Natura e Heineken evidenciam, de maneira emblemática, a contradição central da comunicação no Antropoceno: ao mesmo tempo em que promovem discursos alinhados à sustentabilidade e à diversidade, estão inseridas em uma lógica de mercado que tem como finalidade última a intensificação do consumo e a manutenção do modelo capitalista que produz os próprios problemas que tentam combater.

A Natura construiu sua imagem publicitária associada ao respeito à floresta amazônica e às populações indígenas. Seus comerciais frequentemente exaltam a biodiversidade, o uso de ingredientes naturais e práticas de comércio justo. Contudo, essa valorização da natureza é instrumentalizada para fins comerciais, sendo transformada em um ativo simbólico a serviço da marca. Em campanhas como “Amazônia Viva” -imagens anexadas abaixo-, por exemplo, a floresta aparece como paisagem de fundo e a cultura indígena como estética, mas a cadeia produtiva que sustenta os cosméticos continua apoiada em logística intensiva, processos industriais e circulação global de mercadorias — todas práticas que geram emissão de carbono, resíduos e extração contínua de recursos naturais.

Figura 1: Banner da campanha “Amazônia Viva”, da Natura

Figura 2: Banner da campanha “Amazônia Viva”, da Natura

O mesmo pode ser observado na atuação da Heineken, que adota o discurso da diversidade como estratégia central de comunicação. A marca investe em campanhas com protagonismo de minorias e com mensagens de inclusão, como na série de peças “Open Your World”, anexadas abaixo. No entanto, essa representatividade muitas vezes se limita à superfície. A inclusão é performada, mas não vivenciada estruturalmente. Os valores progressistas funcionam como gatilho emocional, não como compromisso político. A diversidade torna-se recurso retórico, e não transformação institucional. Além disso, campanhas que incentivam o “consumo responsável” de bebidas alcoólicas inserem-se em um sistema que lucra justamente com o consumo em larga escala, reforçando o paradoxo central entre cuidado simbólico e prática danosa.

Campanha “Perfect Man”, da série “Open Your World” da Heineken

Essa dualidade, como afirmam Silva e Aguiar (2020), revela uma comunicação que é simultaneamente denúncia e reprodução: as marcas narram o colapso, mas seguem alimentando-o. A Terra, os corpos diversos e os saberes ancestrais tornam-se ferramentas publicitárias apropriadas por empresas que operam sob um paradigma antropocêntrico, em que o ser humano — sobretudo o consumidor urbano — permanece no centro das decisões e do valor de uso. As ações sustentáveis são pensadas em função do humano, e não em uma lógica de reciprocidade ecológica, como propõem Danowski (2022) e Krenak (2019).

Nesse cenário, as campanhas ESG tornam-se parte do que Fisher (2009) chama de realismo capitalista: até mesmo a crítica ao sistema é convertida em mercadoria. A publicidade se atualiza para acompanhar as demandas éticas contemporâneas, mas sem alterar sua lógica fundamental. A floresta é representada, mas não preservada; os corpos racializados aparecem, mas não decidem; a diversidade é celebrada, mas os modos de vida alternativos continuam sendo marginalizados.

Portanto, ainda que as campanhas da Natura e da Heineken apresentem avanços no plano simbólico da comunicação, seu funcionamento está profundamente enraizado em estruturas que priorizam a lucratividade e a manutenção da centralidade humana no ecossistema. São ações que reduzem a sustentabilidade a uma estética e transformam o cuidado em performance, reforçando a lógica de um sistema que mascara a crise que ele mesmo produz.

8. A ruptura do antropocentrismo nas campanhas da Amazon Watch e do Instituto Socioambiental

Em contraste com as campanhas de grandes marcas que se apropriam de discursos ecológicos para fins mercadológicos, organizações como Amazon Watch e o Instituto Socioambiental (ISA) propõem outra forma de comunicar: uma comunicação que não se sustenta em estratégias de mercado, mas em alianças éticas, políticas e territoriais com povos originários e comunidades tradicionais.

Essas campanhas operam a partir de lógicas contra-hegemônicas, nas quais a natureza não é representada como recurso estético nem o indígena como símbolo exótico, mas sim como sujeitos políticos e epistemológicos que reivindicam agência sobre seus territórios, modos de vida e saberes. Como observa Krenak (2019), adiar o fim do mundo exige escutar outras vozes e imaginar mundos para além do capital — tarefa que está no cerne dessas organizações.

As campanhas da Amazon Watch, por exemplo, ao denunciar a violência contra povos indígenas ou ao convocar ações de boicote a empresas que devastam a Amazônia, não buscam construir uma imagem institucional simpática ao consumidor, mas mobilizar afetos, indignação e solidariedade. Como observado nas imagens abaixo, há um deslocamento do foco: do produto para o território, do consumo para a resistência, da marca para o coletivo. O que está em jogo não é a reputação de uma empresa, mas a sobrevivência de modos de existência ameaçados por projetos extrativistas e políticas de desmonte ambiental.

Figura 3: campanha “Protect and defend the Amazon”


Figura 4: campanha de combate aos “Gold Gangs” e crime organizado

O Instituto Socioambiental também atua com forte presença comunicacional, produzindo campanhas, relatórios e materiais audiovisuais – como os exemplos abaixo – que visam informar, sensibilizar e pressionar o poder público e o setor privado. Em peças como “Territórios Vivos”, o ISA mostra como os territórios indígenas e tradicionais são os que mais protegem a biodiversidade, reforçando uma visão relacional e não hierárquica entre humanos e natureza — em oposição à visão antropocêntrica dominante nas campanhas corporativas.

Figura 5: arte gráfica “Terra de Mulheres ou povos da floresta”

Figura 6: campanha #PeoplesOfTheForest, fotografia de lideranças indígenas

O que distingue essas campanhas, portanto, não é apenas o conteúdo, mas o modo de produção, os sujeitos envolvidos e os efeitos pretendidos. Diferente das campanhas ESG de empresas como Natura e Heineken, que esteticizam o cuidado e performam a inclusão sem alterar estruturas, Amazon Watch e ISA promovem uma comunicação que parte da escuta, da reciprocidade e da construção coletiva. Como destacam Silva e Aguiar (2020), uma comunicação crítica no Antropoceno precisa deixar de representar o outro para comunicar com o outro.

Além disso, essas campanhas desafiam a lógica do tempo linear e do progresso acumulativo do capitalismo, ao valorizar cosmologias que compreendem a Terra como ser vivo e os territórios como extensão da vida dos povos. Danowski (2022) propõe uma transformação perceptiva e afetiva na maneira como habitamos o planeta, e isso se reflete diretamente na estética e na estratégia das campanhas dessas organizações: há menos espetáculo e mais política, menos sedução e mais mobilização.

Em suma, as campanhas da Amazon Watch e do Instituto Socioambiental rompem com o paradigma antropocêntrico ao reconhecerem os direitos da Terra, das águas, dos animais e dos povos como indissociáveis. Elas exemplificam que uma comunicação verdadeiramente comprometida com a sustentabilidade não pode estar a serviço da mercantilização da vida, mas deve ser um gesto ético e político de defesa do comum.

9. Conclusão

A comunicação no Antropoceno é atravessada por paradoxos profundos. Pode ser motor de um colapso ou instrumento de sua superação. Pode reforçar estruturas coloniais ou ajudar a destruí-las. Pode estetizar a diferença ou escutá-la de verdade. Pode ser palco de dominação ou de resistência. Essa ambivalência revela os desafios e as possibilidades que temos diante de nós.

Este ensaio procurou explorar essas tensões a partir de campanhas publicitárias que utilizam discursos ambientais e de diversidade. Mostramos como muitas dessas campanhas operam uma performance do cuidado, sem transformar estruturas. Mas também destacamos experiências que indicam caminhos para uma comunicação mais ética, sensível e comprometida com a vida.

Para isso, é preciso descolonizar o olhar, o saber e a escuta. É preciso reconhecer que comunicação não é apenas técnica, mas política. Não é apenas conteúdo, mas forma de relação. E não é apenas sobre o que se diz, mas sobre quem diz, para quem, e em nome de quê.

Entre o colapso e a reinvenção, entre o marketing e o encantamento, a comunicação é, hoje, um dos principais campos de disputa pelo futuro do planeta. Cabe a nós escolher que histórias queremos contar. E, mais importante, que mundos queremos ajudar a criar.

Referências

DANOWSKI, Déborah. Transformações perceptivas e afetivas na Idade da Terra. In: VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo; DANOWSKI, Déborah; SALDANHA, Rafael (orgs.). Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra. Rio de Janeiro: Machado, 2022.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. 2. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SILVA, Dayana K. M.; AGUIAR, Carlos E. S. Os paradoxos da comunicação ante o Antropoceno. Eco-Pós, UFRJ. v. 23, n. 2, 2020.