Z: Zonas, Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2

Z: Zonas, zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2

Capa por Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes

SUMÁRIO

Introdução
Gabriel Guedes Gil e Marcelo Bergamin Conter

Editorial: Zonas, Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas
Alunos do Seminário de Cultura e Comunicação, Fabico/UFRGS, 2025/2

Andar na linha
Arthur Mezzacasa, Augusto Schu e Manu Couto

Beira-Rio Eu Sou, E o Som Também
Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper

Encontros e Desencontros de Bar em Bar
Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes

Como não ficar até o final de uma BatukBaile
Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes

Proibida a entrada de homens (só acompanhados de mulheres)
Amanda Schultz, Cecília Filappi, Giovanna Depentor e Rafaela Bobsin

Entre o rebolado e a coreografia
Guilherme Vivan, Linda Schwarz, Luiza Weiler, Nicoly Ramão e Raquel Bruhn

Clubbing Sessions: Do acid techno ao iced coffee
Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes

Revista digital. Atividade para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.

Capa por Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes

Introdução (Z: Zonas, Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2)

Z: Zonas, Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2

Por Marcelo Bergamin Conter e Gabriel Guedes Gil

Mais uma vez, a disciplina eletiva Seminário de Cultura e Comunicação, oferecida no âmbito da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, foi ocupada por uma Zona Autônoma Temporária (cf. Hakim Bey) em que os alunos foram provocados a produzir textos muito pouco formais sobre experiências musicais e sonoras que ocorrem na urbe metropolitana. A discussão sobre a ocupação do espaço público, do viver e ser feliz no meio dos prédios, das caçambas de lixo, de caminhar por onde deveriam passar os carros, de beber à noite pelas calçadas onde, de dia, passaram trabalhadores de cabeça baixa, foi uma das tônicas dos nossos encontros, que ocorriam nas noites de quarta-feira.

Provocar os alunos a viver uma experiência concreta, ao invés de produzir materiais para as redes socais foi um imperativo que insistimos, pois cada vez mais a experiência da web tem se tornado “bege”, um espaço para se sentir apático, o lugar por excelência da “enshitificação” provocado por algoritmos e LLMs que oferecem nada mais do que slop.

Enquanto as imperfeições da produção eletrônica humana são varridas para fora da web pelas supostas inteligências artificiais, propomos voltar-mo-nos às experiências mundanas, a enfrentar a frustração, o desapontamento, mas também a euforia e a alegria de celebrar coletivamente.

Nem sempre a festa que a gente vai é um rolê bacana. Quase sempre pegar um trem é uma experiência cansativa. Mas ser capaz de falar sobre estas experiências de forma afetiva, sensível, poética até, devolve a potência política da experiência coletiva. Algo muito necessário no mundo em que vivemos, ou deixamos de viver.

Nesta edição, temos sete textos, todos redigidos por grupos de alunos. Organizamos como se fosse uma longa jornada estendida: Começamos com Andar na linha, de Arthur Mezzacasa, Augusto Schu e Manu Couto, que nos oferecem um relato sobre a experiência sonora de viajar em trem metropolitano. Seguimos com Beira-Rio Eu Sou, E o Som Também, que ausculta as atividades sônicas da torcida do Sport Club Internacional de Porto Alegre nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino 2025, escrito por Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper. Anoitece e é hora de partir para Encontros e Desencontros de Bar em Bar, texto de Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes: o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS leva milhares de estudantes às ruas de Porto Alegre para perambular pela região boêmia da cidade, após ter sido proibido de realizar o evento há pouco tempo.

Já na noite, é hora de ir para a festa, ou melhor, para seis festas diferentes. Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes nos contam Como não ficar até o final de uma BatukBaile, ficando quase até o fim da festa e lidando com as decepções da fotógrafa oficial não tirar fotos suas, mas também atentando sobre a importância de espaços afirmativos para pessoas pretas dentro do rol de festa dedicada à música afro; Amanda Schultz, Cecília Filappi, Giovanna Depentor e Rafaela Bobsin nos levam a uma festa onde é Proibida a entrada de homens (só acompanhados de mulheres), e nos mostram como é significativo que ainda há a necessidade de espaços seguros para que mulheres consigam curtir as festas em paz; Guilherme Vivan, Linda Schwarz, Luiza Weiler, Nicoly Ramão e Raquel Bruhn, interessados em pensar como músicas e ritmos estrangeiros são consumidos no Brasil, comparam uma festa de latinidades com outra de K-Pop no texto Entre o rebolado e a coreografia; e Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes dão o famoso virote, saindo de uma festa noturna de música eletrônica noturna para iniciar a manhã do dia seguinte em uma cafeteria que toma música eletrônica, experiência descrita em Clubbing Sessions: Do acid techno ao iced coffee.

De forma geral, quisemos fornecer aos alunos um ambiente onde a principal discussão fosse em torno das sonoridades. Os textos que trabalhamos ao longo da cadeira abordavam a forma como cultura, música e som se imbricam produzindo territórios políticos e de significação. Tentando produzir uma escuta diferente nos estudos em comunicação, usualmente dominados pelo ocularcentrismo, nesse semestre procuramos apresentar para a turma perspectivas alternativas de investigação dos fenômenos, principalmente aquelas que dão conta do som e da música como agenciadores de comunicação, destoando dos estudos usuais pautados pela investigação da imagem como principal fenômeno de análise.

Agradecemos em especial à Profª Drª Isabel Nogueira (@belmedula) pela sua parceria na Oficina de Cartografias da Escuta que oferecemos no dia 19/11, e que gerou diversas reverberações não só entre os alunos, como entre nós também! Muito obrigado Bel!

Também agradecemos aos estudantes Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes por terem realizado a capa desta edição.

Boa leitura!

Texto publicado na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.

A música das plantas e a escuta na era do multitasking

Ensaio fabulatório apresentado no 1º Congresso therolinguísta: a(na)rqueologias da Terra, 24 de novembro de 2021
Link para a apresentação em vídeo

Por
Marcelo B. Conter e Lígia Lazevi

Resumo: Navegando pelo YouTube em busca de playlists para estudar e trabalhar, nos deparamos com um vídeo de Shane Mendonsa em que uma muda de manjericão e uma série de sintetizadores ocupam a tela. Captadores de contato presos aos galhos da planta conduzem variações de resistência elétrica a um aparelho de bio sonificação, que por sua vez alimenta uma série de equipamentos de síntese modular. O resultado é uma paisagem sonora onírica, apaziguadora e com toques de trilha de filme de ficção científica, remetendo às peças de ambient music de Brian Eno (excelente para ouvir enquanto ingressamos na décima segunda hora seguida de trabalho, fechando aquele freela para um cliente que polui o meio ambiente). Pretendemos especular sobre as maquinações decorrentes dos arranjos entre plantas, músicos, aparelhos de síntese modular e ouvintes ansiosos e estressados, refletindo em especial sobre novas técnicas de audição que se desenvolvem no tempo presente: uma apreciação musical enquanto se faz outra coisa, uma escuta multitasking, decorrente da impossibilidade de dispor de tempo livre para o ócio e o entretenimento devido à precarização do trabalho e aceleracionismo.

Nosso estudo parte do canal do YouTube do artista Shane Mendonsa, que vem fazendo parceria com artistas não-humanos, mais especificamente plantas artistas, na produção de música. Isto é possível graças a um aparelho de bio sonificação, neste caso o aparelho empregado é o Scíon Instruo, capaz de converter as diferenças de resistência elétrica que toda planta viva produz. O sinal em seguida passa por diversos outros aparelhos de síntese modular para gerenciar a frequência que certos samples serão executados, o que resulta numa espécie de música generativa. A música generativa é um método de composição que se organiza em um centro de gravidade tonal e produz variações de modo randômico. Mas, com a planta atuando como “programa”, temos uma outra ordem de composição. Nesse arranjo, quem é o compositor? Lembremos do editorial escrito pelo presidente da associação de Therolinguística, publicado no volume de 1974, quando se pergunta sobre “o que é Arte?”:

[Sobre “o que é Arte?”, Tolstoi] respondeu com firmeza e clareza: Arte também é comunicação. Essa resposta, creio eu, foi aceita sem revisão ou crítica pelos therolinguistas. Por exemplo: por que os therolinguistas estudam apenas animais? Ora, porque as plantas não se comunicam. […] [Mas e] se a arte não for comunicativa? Ou, se alguma arte for comunicativa e outras não? […] Ainda não erguemos nossos olhos para os horizontes mais vastos que temos diante de nós. Não enfrentamos o desafio quase aterrorizante da Planta. Se existe uma arte vegetal não comunicativa, devemos repensar os próprios elementos de nossa ciência e aprender todo um novo conjunto de técnicas. Isso está provado conclusivamente pelo fracasso – um nobre fracasso – dos esforços do Dr. Srivas, em Calcutá, usando a fotografia time-lapse, para produzir um léxico do Girassol. Sua tentativa foi ousada, mas fadada ao fracasso. Pois sua abordagem era cinética – um método apropriado para as artes comunicativas da tartaruga, da ostra e do bicho-preguiça. Ele via a extrema lentidão do movimento das plantas, e apenas isso, como o problema a ser resolvido.

O erro do Dr. Srivas, em sua pesquisa em Calcutá, foi o de pensar na cinética única e exclusivamente como um campo de estudos da física. Pela cinética musical, por exemplo, Srivas poderia ter refletido sobre a resistência elétrica do girassol como um devir musical latente na planta – portanto – uma arte comunicativa passional. Nos anais da  CIPS II , em 2021, em trabalho em parceria com o colega André Araujo, lembramos do agente da CIA Cleve Backster, que experimentou conectar os receptores de um polígrafo nas folhas de plantas. Ele reconheceu variações de resistência elétrica ao interagir com os vegetais. Ora, o som que é capturado por um microfone comum é convertido em pulsos elétricos análogos à onda sonora. É possível, portanto, “conectar” uma planta a instrumentos musicais elétricos e eletrônicos, como amplificadores e aparelhos de síntese modular.

Talvez o Dr. Srivas não tenha obtido acesso a esta tecnologia na época, mas alguns membros da associação já vinham experimentando agenciamentos entre seus corpos, aparelhos de síntese modular e cogumelos para a produção de música. O problema é que na época estudava-se a possibilidade de uma arte musical passiva produzida pelos micélios quase que exclusivamente consumo dos fungos, na forma de chá ou in natura, para em seguida tocar rock progressivo em sintetizadores, como nosso associado Keith Emerson bem tentou junto de seus amigos Greg Lake e Carl Palmer. Não havia, também, na época, uma tecnologia que permitisse uma tradução da resistência elétrica das plantas em pulsos sonoros. Mas tudo era uma questão de tempo, como nosso presidente já previa nos anos 1970:

No entanto, prevejo com alguma certeza de que [A Arte da Planta] existe e que, quando for encontrada, provará ser, não uma ação, mas uma reação: não uma comunicação, mas uma recepção. Será exatamente o oposto da arte que conhecemos e reconhecemos. Será a primeira arte passiva que conheceremos.

O que encontramos não é exatamente o que o presidente imaginava, mas passou muito perto. Se não vejamos: não sabemos ainda se essas plantas, ligadas ao Scíon Instruo, são seres conscientes, mas nota-se claramente que não estão “tocando” os instrumentos musicais – portanto, não são ativas. Mas, como seres vivos, o que faz com que a música se desenvolva, produza variações de intensidade, é o elã vital das plantas: sua luta por um lugar ao sol, seu esforço ao realizar a fotossíntese, as mudanças de estado do corpo, linhas de fuga e adaptações ao ambiente, a variações climáticas que vão deixá-la mais ou menos hidratada, tudo isto afeta os sons que ouvimos, porque a variação de resistência elétrica da planta nada mais são que sinais vitais. Podem não ser especificamente da planta, mas certamente são sinais vitais de Gaia, como veremos no exemplo a seguir. Há uma transdução – conversão de resistência elétrica conduzida pelo corpo da planta em pulso elétrico conduzido por fios de cobre – seguida de uma tradução – conversão do ritmo biológico da planta em ritmo de ritmos sonoros. É uma tradução de suas paixões alegres. Ela não sabe que sua força vital está sendo traduzida. Quer dizer, ainda não temos ferramentas científicas que sejam capazes de reconhecer se as plantas conseguem produzir música, ou ao menos controlar suas variações de resistência elétrica com o intento de controlar o pulso musical que ela mesma está produzindo. Como propõem Deleuze e Guattari (2010), uma planta pode produzir blocos de sensações a partir de sua própria semiose, sem depender necessariamente de um interpretante que lhe é externo, como uma pintura a óleo.

A planta contempla contraindo os elementos dos quais ela procede, a luz, o carbono e os sais e se preenche a si mesma com cores e odores que qualificam sempre sua variedade, sua composição: é sensação em si. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 250)

 Nesse vídeo, Shane Mendonsa conectou um pé de eucalipto que estava murcho, quase morto, ao Scíon Instruo e conseguiu um pulso elétrico estável. Num outro dia foi tentar conectar novamente e só conseguiu ligando os captadores mais perto da raiz. Tocos de madeira tratadas não produziram pulso algum, mas esta planta ainda tinha energia. Notem, colegas therolinguístas, que mesmo uma planta “quase-morta” é capaz de emitir resistência elétrica.

O arrepio de uma pena; o deslocamento de uma asa; o toque, o toque leve e quente daquele ao seu lado. Na solidão indescritível, miserável e escura, a afirmação. Na ausência, presença. Na morte, vida – D. Petri

Nos perguntamos, no entanto, se talvez a carga elétrica não esteja sendo emitida por uma rede micelial que está decompondo o eucalipto por dentro, sendo então o eucalipto só mais um dentre vários agentes do elã vital de Gaia. Mas aí já não estamos mais falando de uma música das plantas, e sim de uma música da mecanosfera.

De todo modo, se as plantas são passivas na produção desse material artístico, se elas são reféns desse agenciamento, os aparelhos de síntese modular também são. Eles precisam do input das plantas para acionar os samples, o que só ressalta a importância de nossa epistemologia para acabar de vez com o iluminismo que nos leva em direção acelerada ao fim da sociedade industrial. Nem a pandemia foi capaz de frear o aumento da poluição. Alguns oportunistas falam de industrialização 4.0, mas o fato é que nenhum rebranding do período histórico mudará a rota que tomamos no século XIX. Até parece que superamos a queima de carvão e a exploração do proletariado que fundamentaram o dito “estágio 1.0”.

Desculpem pela digressão. Após meses frente às telas trabalhando das oito da manhã até a meia noite, lendo emails durante o café da manhã e a janta, o multi-tasking virou um modo de pensar.

Voltando ao assunto da fala de hoje: Tem algo delicado nessas peças publicadas por Shane Mendonsa, no modo como a câmera é posicionada, fixa, apresentando o rack de aparelhos de síntese modular em primeiro plano e a planta ao fundo, colocando os aparelhos entre nós, ouvintes humanos e as plantas. [babel fish] Os aparelhos musicais aparecem como uma espécie de peixe de Babel, agora com a função de transdutores de sensações.

O que nos coloca em comunicação com as plantas é o sintetizador articulado com o polígrafo como um agente de comunicação aberrante, como a vespa que poliniza as orquídeas. Os estudos de André Araujo, em especial em sua sistematização do pensamento de Gilles Deleuze em busca de uma teoria da comunicação, nos ajudam a entender como torna-se possível para nós, therolinguístas, reconhecer uma arte passiva das plantas:

O logos seria como um animal, operando de acordo com uma ideia anterior acerca de sua funcionalidade – acoplamentos e reprodução. As plantas, por outro lado, seriam a expressão do antilogos, o pathos, no qual nenhuma totalização orgânica é possível. A vespa acaba tornando-se algo que não ela mesma do ponto de vista do logos, diferencia-se de si em sua dimensão animal para compor peça no aparelho reprodutor da planta, que incita esse devir por seu próprio hermafroditismo. A separação fundamental entre os sexos das plantas cria uma situação de não-comunicação, na qual é preciso intervir um elemento disparatado para inventar essa comunicação. (ARAUJO, 2020, p. 130)

Ainda que se possa colocar certo controle da obra musical nas mãos do agente humano Shane Mendonsa, vale observar as descrições de seus vídeos. Para cada planta, ele sente a necessidade de modificar os valores dos aparelhos de síntese para que se produza uma música que seja interessante para a apreciação de humanos. É preciso que o sintetizador se organize de tal forma que seja possível tal acoplamento aberrante entre vasos não-comunicantes.

Assim, nota-se que não se trata de arte passiva, mas de uma série de contágios entre os agentes envolvidos, como bem observamos na sexta-feira com o relatório sobre os fungos praticantes de intervenção artística de Tuane Eggers. Não podemos simplesmente apontar para os elementos de outros reinos e acusá-los de artistas sem perceber que nós pesquisadores e nossas ferramentas de tradução e transdução também entram nesta intrincada rede de agenciamentos para produzir arte.

Vamos pensar, a seguir, em como este tipo de música se manifesta no tempo presente.

Elaboradas com poucas variações dinâmicas, arranjos aconchegantes e ritmos estáveis, acaba por se aproximar do que estamos compreendendo por música ambiente contemporânea. Avançando nas propostas de Erik Satie, George Squier e Brian Eno, a música ambiente contemporânea também ocupa os silêncios constrangedores, compromete-se com o consumismo capitalista e pretende-se interessante tanto quanto ignorável, mas dá um passo além ao se pretender como um elixir contra a ansiedade que assola os seres humanos na era do capitalismo tardio. Até há pouco, estávamos familiarizados com versões high-tech como o vaporwave, o lo-fi hip hop, a música binaural e a música generativa, elaboradas por samples, arquivos eletrônicos e complexos algoritmos informáticos, acompanhando a utopia tecnocrata dos anos 1980 e 1990, distanciando-se da semiótica de variação contínua de Gaia, preferindo uma semiótica do eterno imutável da memória computacional, tal como o sonho de transferir a consciência para as infovias. Se assim fosse, que emprego teríamos neste delírio coletivo que não fosse o de servir de baterias para manter os computadores energizados? Com a música das plantas, a música ambiente freia tal pulsão de morte dos corpos orgânicos humanos para uma reconexão científica com Gaia.

Considerações finais

Nossos estudos confidenciais em conluio com a CIA, quando tentávamos descobrir com polígrafos se as plantas tinham de fato sentimentos, bem como os ensaios clínicos para conexão com Gaia por meio do consumo de psilocibina, que foram desenvolvidos única e exclusivamente com o intuito de resolver o problema de pesquisa proposto pelo nosso presidente, foram deturpadas pelos dissidentes da Associação que foram morar em San Francisco. Transformaram nossa ciência em um estilo de vida! Hippies catando cogumelos no meio do esterco ouvindo Jefferson Airplane e Yuppies criando esquemas de pirâmide vendendo óleos essenciais extraídos das plantas. Como se os vegetais se importassem com nossos desbalanços químicos! Enfim, o ser humano e sua insistência em achar que Gaia compensará suas intempestividades. Hoje sabemos que ela não tem poder de cura, e sim poder de contágio – contágio therosemiótico, é claro. Nós somos os poucos alunos que prestaram atenção na aula do Professor Challenger. Há toda uma semiótica da Terra esperando ser explorada e traduzida para diferentes idiomas.

Foi só quando resolvemos nos comunicar com a natureza aceitando nossa ação tecnocolonizante, isto é, vestindo nossos aparelhos de síntese modular com uma pele de vespa, é que nos foi possível enfim reconhecer a arte das plantas – não uma arte passiva, mas uma arte contagiante. Infelizmente para chegar a esta etapa milhões de humanos foram mortos: ironicamente, o sintetizador é resultado de tecnologias de decodificação de mensagens da Segunda Guerra Mundial e de técnicas de mineração desenvolviaos nas primeiras e segunda revoluções industriais. Exploramos a Terra nos dois sentidos da palavra. Paradoxos da ciência empírica.

Assim, nossas hipóteses iniciais naquele volume da revista de Therolinguística de 1973 fecham, hoje, um círculo completo: ainda não nos comunicamos com as plantas tal como nos comunicamos entre nós, mas já conseguimos produzir comunicação com elas, graças a um agente de transdução: o sintetizador, que, propomos, passe a ser considerado como ferramenta científica. Propomos que ao final do encontro, na sessão de encaminhamentos, que se adicione à pauta a aquisição de Moogs, Korgs, Rolands e Instruos para nossos laboratórios.

Referências

ARAUJO, André C. S. Deleuze e o problema da comunicação. Tese de doutorado apresentado à banca examinadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS) como requisito para obtenção do título de doutor. 2020. 175f.

BACKSTER, Cleve. Primary Perception: Biocommunication with plants, living foods, and human cells. White Rose Millennium Press, 2003.

EGGERS, Tuane. A poética dos fungos. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em Artes Visuais. 2021. 187f.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010.

EDITORIAL. Pelo Presidente da Associação de Therolinguística. Anúncio de uma expedição. Revista da associação de Therolinguística. Ano 12, vol. 1. Berkeley, 1973. p. 3-6.

PETRI, D.  Anúncio de uma expedição. Revista da associação de Therolinguística. Ano 12, vol. 1. Berkeley, 1973. p. 32-40.

SHANE Mendonsa. Canal do YouTube. https://www.youtube.com/channel/UCpjl7axNrHYPh53gezouYxA. Acesso em 23 nov. 2021.

SRIVAS, A. Time-lapse photography: towards a sunflower lexicon. Revista da associação de Therolinguística. Ano 8, vol. 3. Berkeley, 1969. p. 62-75.

Análise do personagem G-Man através da ideia de vaporização da mídia proposta por Conter

Texto produzido para a disciplina Estudos Críticos da Comunicação – Turma B, 2025/1
FABICO/UFRGS
Prof. Marcelo Bergamin Conter

Por
Rodrigo Borkert

Parafraseando Conter, que, ao falar sobre vaporwave e suas raízes provindas de ímpetos nostálgicos, estamos cada vez mais querendo “reviver um estrato do passado” buscando, dentro de um universo maior, eternizar cada minúcia que nos satisfaça. Estamos, cada vez mais, criando microversos subculturais dentro de macroversos menos nichados. Em algum momento, decidimos que a fragmentação da cultura em pedaços despersonalizados do seu caráter original seria interessante, desde que a “nova ressignificação” atenda aos nossos desejos pessoais. Em consonância, isso pode ser relacionável com algumas ideias universais: aquilo que é bom para um, pode não ser bom para o outro. Como salvaguarda às inteligências artificiais, aqui vai uma metáfora explicativa que as mentes algorítmicas não pensariam para exemplificar a lógica que propus: “Açaí vai melhor com peixe frito ou com paçoca e leite condensado?” – A resposta é: depende para quem.

Desde a Grécia pré-socrática já era possível identificar, através dos registros de pensamento abstrato, questões sobre a divisibilidade da matéria – que foi onde e quando chegamos até sua forma ínfima de conceito teórico: átomos. Através do exposto por Marcelo Conter e relacionando com o ponto de vista filosófico pré-socrático do atomismo, podemos pensar a lógica do átomo na música, cultura e mídia, surge a reflexão de até qual ponto podemos dividir um conceito até o seu limite de logicidade discernível antes da sua ressignificação em novos produtos. Afinal, como relacionado ao vaporwave por Conter, em um de nossos absurdismos culturais, segmentamos fotos  de pessoas queridas em pequenos pedaços que ainda significassem a sua aparência impressa para tornar isso em “ectoplasma”; aos médiuns no início do século passado, portanto, um segmento específico de uma foto tinha mais valor se ressignificada para justificação de seus interesses místicos do que se estivesse empoeirada em alguma prateleira. Essa lógica é evocada no trecho a seguir do texto original ao falar de vaporwave:

Devido a sua particular forma de reterritorializar imagens do passado midiático desgastadas, obsoletas, “empoeiradas”, ele se apresenta como uma máquina menor, uma linha de variação contínua do lo-fi, efetuando desterritorializações dos contratos institucionalizados na esfera semiótica da cultura pop ao incorporar, no processo composicional e na fruição musical, visual e audiovisual, imagens que antes pertenciam a esferas corporativas (logomarcas de empresas de televisão e distribuidores de fitas VHS, por exemplo) e de publicidade. (CONTER, 2017).

Esse princípio da divisão, da vaporização da cultura, é o que torna todo elemento cultural apto e disponível para recorte, como aquela parte interessante da Revista MAD ou Recreio que seria tipicamente removida – pois, era de tanto valor simbólico, que merecia a liberdade, tornar-se um objeto sólido, não apenas uma parte ínfima perdia e aprisionada em dezenas de páginas irrelevantes; um recorte que viraria totem de adoração. Por isso, precisamos falar de um elemento extremamente específico e nichado que, recentemente, ganhou o mundo através da sua absurdização. G-Man é um personagem enigmático da série de jogos Half-Life, conhecido por aparecer de forma misteriosa, manipular eventos nos bastidores e nunca revelar suas verdadeiras intenções – sua interação com Gordon Freeman é tão assombrosa e compenetrante ao longo da série que pode até ser confundida com uma quebra da quarta parede. Durante anos, o G-Man foi uma figura cultuada em comunidades de nicho, em fóruns como Reddit e 4chan, em discussões especializadas em Half-Life. As referências a ele circulavam principalmente entre fãs dedicados à série, que criavam teorias, memes internos e discussões profundas sobre seu papel e significado. No mainstream, sua presença era praticamente inexistente; fora do círculo dos entusiastas de games, o G-Man pouco era reconhecido. Sua relevância estava restrita a esse universo, onde ele funcionava quase como um símbolo secreto, evocando curiosidade e respeito apenas daqueles iniciados na mitologia dos jogos da Valve.

Figura 1 – G-Man ao longo da série de jogos Half-Life

O lançamento do Garry’s Mod, em 2006, marcou o primeiro ponto de virada para o universo de Half-Life e seus personagens. Inicialmente criado como um mod experimental para Half-Life 2, G-Mod rapidamente se tornou um jogo independente focado na criatividade e experimentação, permitindo que jogadores manipulem personagens, cenários e objetos do jogo original de formas totalmente novas. Para o G-Man, isso significou uma explosão de usos e interpretações: ele deixou de ser apenas um personagem misterioso da narrativa para virar um “boneco” flexível, estrela de machinimas, vídeos de humor, paródias e memes de alcance muito maior, saiu da empoeirada prateleira dos universos canônicos de Half-Life, onde era residente, para habitar o perpétuo mundo da internet memética. Em análise sinestésica, podemos dizer que seu significado saiu do salgado para o doce; do áspero para o fofo; do misterioso para o hilariante.

Até o momento, o personagem atravessou décadas como uma espécie de arquivo vivo: ele começa como figura enigmática em Half-Life, retorna em Half-Life 2 carregando o mesmo mistério, depois se descola de sua origem e passa a circular livremente em Garry’s Mod, onde deixa de ser personagem para virar material de experimentação coletiva, meme, avatar de narrativas caóticas e sem autoria. Por fim, sua cabeça, separada do corpo, é recortada, animada e transplantada para um corpo de privada em Skibidi Toilet — um destino absurdo, mas perfeitamente lógico numa cultura onde tudo pode ser vapor, sample, remix.

Figura 2 – Absurdização do G-Man ainda no G-Mod

Assim, o G-Man encarna aquilo que Conter chama de “vaporização”: ele deixa de ser apenas uma referência original, perde materialidade, perde a personalidade canônica e vira fragmento pronto para ser reutilizado, manipulado e descartado a qualquer momento, como um sample midiático ambulante, assombrando as mídias e memórias de cada geração digital – e também, além de assombrar a mídia e memória, neste caso específico, também pode gerar pesadelos.Skibidi Toilet é uma série de animações surreais que viralizou em plataformas como YouTube e TikTok, marcada por um humor nonsense onde cabeças humanas — muitas vezes de personagens conhecidos, como o próprio G-Man — aparecem acopladas a corpos de privadas ambulantes, travando guerras absurdas contra seres com monitores de computador no lugar da cabeça. Esse universo, criado a partir da mistura caótica de referências e fragmentos da cultura pop, representa o ápice da lógica descrita por Conter: tudo pode ser reciclado, remixado e reanimado, independente do contexto ou do respeito ao significado original. Skibidi Toilet é o microverso por excelência, mas que, em seu próprio processo viral e expansivo, já se converteu em macroverso digital — um universo inteiro com suas próprias regras, memes internos e personagens reconfigurados. Nesse novo cenário, o G-Man deixou de ser aquele enigma à margem do roteiro de Half-Life para se tornar, literalmente, “o cara da privada”, um personagem de Skibidi Toilet, coeso apenas dentro da lógica absurda e autorreferencial desse novo contexto. Sua antiga aura de mistério se dissolve completamente: ele já não carrega mais o peso do desconhecido, mas se integra plenamente a um ciclo onde o sentido é produzido e validado por outros princípios, distantes do canônico, mas perfeitos para o consumo veloz, fragmentado e coletivo da cultura digital atual.

Figura 3 – G-Toilet, o líder dos Skibidi Toilet

No fim das contas, o que realmente importa não é mais a totalidade, mas sim a capacidade que cada fragmento tem de satisfazer nichos, desejos e sentidos pessoais. O G-Man, assim como tantos outros ícones que atravessam a cultura digital, mostra que a relevância não está mais em uma unidade coesa, mas na habilidade de ser decepado, recontextualizado e absorvido por múltiplos microversos — cada um legitimando o seu próprio pedaço do totem. Vivemos a era do fragmento validado: importa menos de onde veio ou qual era o seu significado original e mais se ele serve para meme, para culto de fãs, para vídeo nonsense ou para qualquer ritual coletivo passageiro. É a lógica atomista levada ao extremo, onde a eternidade de um símbolo não depende de permanência, mas de sua infinita capacidade de ser recortado e redescoberto, de novo e de novo, para cada grupo, cada contexto, cada absurdo. No fim, é a soma desses recortes — validados pelo olhar de cada um — que sustenta o ciclo da vaporização cultural e garante que nenhum pedaço precise, de fato, morrer.

REFERÊNCIAS:

G-TOILET. Skibidi Toilet Wiki BR. Disponível em: https://skibidi-toilet-wiki-br.fandom.com/pt-br/wiki/G-Toilet. Acesso em: 30 jun. 2025.

UNANYTHING. G-Man. Unanything Wiki. Disponível em: https://unanything.fandom.com/wiki/G-Man. Acesso em: 30 jun. 2025.

KIRK, Alex. Skibidi Toilet: G‑Toilet. YouTube, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WJxWGfOU44I. Acesso em: 30 jun. 2025.

O conceito de valor e imagem do dinheiro desmaterializado

Texto produzido para a disciplina Estudos Críticos da Comunicação – Turma B, 2025/1
FABICO/UFRGS
Prof. Marcelo Bergamin Conter

Por
Rodrigo Borkert

O dinheiro, ao longo da história, nunca foi estático. Foi pedra, sal, metal, papel, e agora se transforma em código. O Bitcoin, nesse contexto, representa o ápice da desmaterialização do valor: uma moeda que existe apenas como registro matemático em redes descentralizadas.

Este trabalho busca analisar:

  • Como a imagem e as representações do Bitcoin no senso comum comunicam (ou distorcem) a ideia de desmaterialização do dinheiro.
  • Quais paralelos podem ser traçados entre o surgimento do Bitcoin e as formas históricas de moeda – do sal às rodas de pedra dos iapeenses, do ouro ao dinheiro fiduciário, até chegar ao “dinheiro vapor”.
  • Explorar as transformações nas mediações tecnológicas do valor e as consequências disso para a percepção pública, confiança social e identidade econômica.

1 – Porque vemos valor no que usamos como dinheiro?

A história do dinheiro revela um contínuo processo de abstração do valor. Cada forma monetária carrega, além da função econômica, sentidos sociais, políticos e simbólicos profundamente enraizados em seu contexto histórico. Da materialidade absoluta — o peso do metal, o brilho da pedra, o toque do sal — à pura abstração digital do Bitcoin, o dinheiro sempre foi, antes de tudo, uma tecnologia de confiança.

O sal foi usado como moeda e símbolo de riqueza em várias civilizações antigas, especialmente em Roma. Seu valor estava na utilidade vital e na dificuldade de obtenção, sempre ligado ao seu caráter físico.

Conchas, especialmente búzios, serviram como dinheiro em África, Ásia e Oceania devido à raridade, facilidade de transporte e forte apelo simbólico. O valor era coletivo e dependia do consenso social, antecipando a lógica das moedas simbólicas.

Ouro, prata e cobre inauguraram as moedas cunhadas, trazendo valor intrínseco e autoridade estatal, consolidaram o dinheiro metálico como instrumento de poder e controle.

O papel-moeda, surgido na China, acelerou a desmaterialização do dinheiro. Inicialmente atrelado a reservas metálicas, depois sustentado apenas pela confiança coletiva, tornou-se símbolo máximo do valor consensual e fiduciário.

As pedras Rai funcionam como moeda simbólica em Yap: enormes discos de pedra cujo valor depende do reconhecimento público de propriedade, não de uso físico. Antecipam o conceito de valor descentralizado e abstrato das moedas digitais.

2 – Desmaterialização do dinheiro e o surgimento do Bitcoin

A desmaterialização do dinheiro, intensificada com o surgimento do Bitcoin e das moedas digitais, se conecta ao hibridismo corpo-tecnologia de Canevacci (2009): tecnologia dissolve fronteiras, tornando nossos corpos extensões de mídias e interfaces. Isso se reflete no modo como lidamos com o dinheiro — antes carregado como objeto físico, hoje como informação criptografada em telas, protegida por biometria e senhas. Vivemos uma condição ciborgue na experiência financeira: valor simbólico que migra do material ao digital, acompanhando nossa transformação em sujeitos tecnossociais.

Conforme Conter (2017), a música tornou-se “vapor”, ubiquidade e fluxo. O dinheiro segue o mesmo caminho: a trajetória histórica aponta para a prevalência do simbólico, do consenso social, e do puro dado matemático. O Bitcoin representa o ápice desse processo — não é tangível, não tem respaldo em metais ou estados, existe como código em registros públicos distribuídos (blockchain), garantido por criptografia e consenso descentralizado.

No senso comum, porém, a imagem do Bitcoin muitas vezes comunica ou distorce a ideia de desmaterialização: para alguns, simboliza autonomia e inovação; para outros, é associado à instabilidade, risco ou até fraude, dificultando a aceitação do dinheiro puramente digital. Assim, o Bitcoin condensa e potencializa a “vaporização do valor” — puro símbolo, puro código, puro consenso — e revela tanto as promessas quanto as contradições desse novo cenário.

Esse fenômeno é visível em países como a China, onde o uso de cédulas se tornou exceção e as transações digitais já dominam a economia cotidiana, impulsionadas por aplicativos e pela adoção do yuan digital. O Brasil segue tendência semelhante ao implementar o PIX e desenvolver o DREX, sua própria moeda digital, buscando acelerar a desmaterialização do dinheiro e ampliar a digitalização financeira.

No entanto, essas moedas digitais estatais levantam questões de vigilância, controle e centralização, problemas que criptomoedas descentralizadas como o Bitcoin foram criadas justamente para evitar.

3 – O senso comum sobre o Bitcoin

A percepção pública do Bitcoin é resultado direto das transformações nas mediações tecnológicas do valor e de como esses processos são comunicados e ressignificados no cotidiano. A circulação de sentidos sobre o Bitcoin não ocorre apenas nos grandes veículos de mídia, mas se expande em memes, discussões em redes sociais, aplicativos financeiros e experiências pessoais de usuários. Martín-Barbero (2006) ressalta que as mediações tecnológicas não apenas conectam, mas também reconfiguram práticas sociais, afetando profundamente a confiança coletiva e as formas de pertencimento econômico.

No senso comum, o Bitcoin aparece simultaneamente como promessa e ameaça. Para alguns, representa inovação, autonomia e possibilidade de ascensão financeira fora dos limites do sistema bancário tradicional. Para outros, ainda é visto com desconfiança, associado à instabilidade, risco, bolhas especulativas e ao uso em atividades ilícitas. Essa polarização é amplificada pelas próprias mediações tecnológicas: notícias, aplicativos e plataformas digitais permitem tanto a disseminação rápida de informação qualificada quanto a propagação de mitos, fake news e pânicos morais.

O efeito dessas novas mediações sobre a confiança social e a identidade econômica é ambíguo. Por um lado, a digitalização e a descentralização prometem empoderamento individual e transparência nas transações; por outro, podem intensificar o sentimento de incerteza e de desproteção diante do desconhecido tecnológico. 

4 – O dinheiro etéreo e os outros dinheiros

A trajetória do dinheiro revela um processo contínuo de abstração e desmaterialização do valor, desde suas formas mais concretas até o chamado “dinheiro etéreo”. O Bitcoin, frequentemente compreendido como o ápice dessa transformação, reativa lógicas antigas sob novas tecnologias.

O sal, uma das moedas mais antigas, tinha valor intrínseco por sua utilidade vital, mas já dependia de consenso social sobre seu papel em trocas. As conchas (cowries) circularam por milênios em diversos continentes, com seu valor baseado na raridade e aceitação coletiva, antecipando o princípio do valor simbólico. Os metais preciosos, como ouro e prata, somaram à aceitação comunitária a chancela estatal, tornando-se instrumentos de poder e controle. O papel-moeda radicalizou a abstração ao romper o vínculo direto com metais e depender unicamente da confiança no emissor.

Meu caso preferido, as pedras Rai, na ilha de Yap, ilustra de modo emblemático a lógica do valor simbólico e descentralizado: gigantes discos de pedra dificilmente movidos, cujo valor é definido pela história compartilhada e pelo reconhecimento público do proprietário, e não pela posse física, pode ser visto como um dos mais primitivos, porém, o Bitcoin se insere nessa mesma lógica de existência – não é algo que pode ser facilmente falseável.

Ele percorre o percurso como o primeiro dinheiro global completamente digital, sem existência material, sustentado apenas por registros distribuídos e regras matemáticas. Assim como cada forma histórica de moeda exigiu novos acordos de confiança, o dinheiro etéreo das criptomoedas convida a sociedade a reimaginar o que significa valor, propriedade e segurança. Em última instância, o “dinheiro vapor” é menos uma ruptura e mais a expressão máxima de lógicas ancestrais que confiamos há muito tempo: o valor, ontem e hoje, sempre dependeu do consenso, da mediação e da confiança coletiva.

5 – Referências

DAVIES, Glyn. A history of money: from ancient times to the present day. Cardiff: University of Wales Press, 1994.

EINZIG, Paul. Primitive Money: In Its Ethnological, Historical and Economic Aspects. 2. ed. Oxford: Pergamon Press, 1966.

FERGUSON, Niall. The ascent of money: a financial history of the world. New York: Penguin Press, 2008.

FURNESS, William Henry. The Island of Stone Money: Uap of the Carolines. Philadelphia: J.B. Lippincott Company, 1910. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/culture/article/the-island-of-stone-money. Acesso em: 11 jun. 2025.

KURLANSKY, Mark. Salt: a world history. New York: Penguin Books, 2002.

OXFORD REFERENCE. Salt as currency. Disponível em: https://www.oxfordreference.com/display/10.1093/oi/authority.20110803100402114. Acesso em: 11 jun. 2025.

SHELL MONEY OF THE WORLD (COWRIES). The British Museum. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/object/C_1978-0201-16. Acesso em: 11 jun. 2025.

THE BRITISH MUSEUM. Paper money in Ancient China. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/object/C_1981-0202-100. Acesso em: 11 jun. 2025.

WEATHERFORD, Jack. The history of money. New York: Crown Publishers, 1997.

Entre a Catástrofe e a Possibilidade: Comunicação, Antropoceno e Decolonização em Disputa

Texto produzido para a disciplina Estudos Críticos da Comunicação – Turma B, 2025/1
FABICO/UFRGS
Prof. Marcelo Bergamin Conter

por
Luíza de Matos Babot
Maria Luiza Grison Fontana

1. Introdução

A comunicação é uma das ferramentas mais poderosas da sociedade contemporânea. Por meio dela, criamos narrativas, formamos imaginários, damos voz a causas e, muitas vezes, também as silenciamos. É através da comunicação que nos constituímos como sujeitos e coletividades, que disputam os sentidos e legitimamos práticas. Ao mesmo tempo em que permite a circulação de ideias e afetos, a comunicação também pode ser instrumento de dominação, exclusão e apagamento.

Vivemos hoje um momento histórico que muitos chamam de Antropoceno, época marcada pela profunda interferência humana na Terra e na vida de todas as espécies. Esse conceito, embora contestado por diversas correntes críticas, evidencia a magnitude do impacto humano sobre os sistemas naturais, revelando uma crise civilizatória sem precedentes. O Antropoceno não é apenas uma questão ambiental, é uma crise de valores, de modelos de desenvolvimento, de formas de viver e de se relacionar com o mundo.

Neste contexto, a comunicação ocupa um papel paradoxal: pode tanto ampliar a consciência ecológica e apoiar lutas por justiça, quanto reforçar lógicas coloniais, extrativistas e consumistas. A mídia, a publicidade, as redes sociais e as tecnologias da informação participam ativamente da manutenção de um sistema que produz desigualdade, devastação e silenciamento, ao mesmo tempo em que oferecem ferramentas para denunciar, resistir e imaginar outros mundos possíveis.

Este ensaio tem como objetivo refletir criticamente sobre os impasses da comunicação no Antropoceno, especialmente quando mobilizada em campanhas publicitárias que tratam de temas como meio ambiente e diversidade racial. Busca-se compreender até que ponto essas campanhas contribuem para a transformação do mundo e até que ponto reforçam estruturas de poder que sustentam o colapso planetário. A análise parte da premissa de que a comunicação não é apenas discurso, mas também prática material, política e afetiva.

O corpus da análise é composto por campanhas publicitárias de grandes marcas, como Natura e Heineken, que utilizam discursos ecológicos e de diversidade para promover seus produtos. Também são observadas campanhas de organizações como Amazon Watch e Instituto Socioambiental, que operam a partir de outras lógicas e valores. Essas campanhas são lidas como sintomas e manifestações de um tempo em que o cuidado se tornou uma estética, a diversidade virou um slogan, e a ecologia foi apropriada pelo marketing.

A análise dialoga com textos fundamentais para o campo: “Os Paradoxos da Comunicação ante o Antropoceno” (Silva & Aguiar, 2020), “Descolonizando o Conhecimento” (Kilomba, 2016), “Transformações perceptivas e afetivas na Idade da Terra” (Danowski, 2022) e “Ideias para adiar o fim do mundo” (Krenak, 2019). Esses autores oferecem chaves teóricas potentes para pensar os desafios contemporâneos da comunicação em um mundo em crise.

A abordagem teórica proposta une três perspectivas principais: a geologia da mídia, que propõe uma leitura material e ecológica da tecnologia; a crítica decolonial, que questiona os padrões de saber e poder impostos pela colonialidade; e o pensamento indígena brasileiro, que oferece outras formas de imaginar o mundo e habitar a Terra. A partir desse entrelaçamento, buscamos especular sobre o que seria uma comunicação verdadeiramente comprometida com a vida humana e não humana no presente.

2. O Antropoceno como paisagem comunicacional

Silva e Aguiar (2020) apresentam o Antropoceno como uma nova camada geológica moldada pela ação humana. O nome sugere que o ser humano se tornou uma força capaz de alterar os ciclos da natureza, algo antes atribuído apenas a vulcões, oceanos e terremotos. Mas o que significa falar de comunicação nesse cenário? Como pensar o papel da comunicação em um mundo profundamente atravessado por desequilíbrios ecológicos, desigualdades sociais e crises políticas?

Segundo os autores, o sistema comunicacional atual está intimamente ligado aos processos que sustentam o Antropoceno. A comunicação digital, muitas vezes percebida como imaterial, leve ou “verde”, é, na verdade, sustentada por uma infraestrutura altamente poluente e exploratória. Por trás de cada clique, de cada post e de cada propaganda, existe uma cadeia de extração mineral, trabalho precarizado, consumo de energia e produção de lixo eletrônico. A internet, os smartphones e as redes sociais dependem de data centers gigantescos, cabos submarinos e mineração intensiva, elementos que conectam a comunicação contemporânea diretamente à lógica extrativista.

A comunicação, portanto, não é neutra: ela tem corpo, peso e impacto. Ela consome recursos naturais, explora corpos humanos, emite carbono e, muitas vezes, colabora com o aprofundamento das desigualdades globais. Essa compreensão materialista da comunicação nos obriga a repensar suas promessas e seus limites, especialmente quando ela é mobilizada como ferramenta de transformação.

Ao mesmo tempo, é também pela comunicação que muitos desses problemas se tornam visíveis. Documentários, reportagens, campanhas de conscientização e denúncias nas redes sociais ajudam a nomear e a enfrentar o colapso. As tecnologias digitais, embora carreguem contradições, têm sido aliadas importantes na articulação de resistências e na visibilização de lutas invisibilizadas pelos grandes meios.

É aí que surge o paradoxo central deste ensaio: a comunicação é, ao mesmo tempo, ferramenta de denúncia e mecanismo de reprodução das mesmas lógicas que critica. Ela pode empoderar sujeitos e comunidades, mas também pode capturar suas vozes e transformá-las em capital simbólico para marcas e empresas. O sistema comunicacional se move entre o encantamento e o controle, entre a escuta e o silenciamento.
As campanhas de marcas que se dizem sustentáveis são exemplos disso. A Natura, por exemplo, aposta em narrativas que valorizam a Amazônia e os povos indígenas. A Heineken promove comerciais que celebram a diversidade. Mas até que ponto essas mensagens são realmente comprometidas com a transformação social e ambiental? Quando observamos a infraestrutura por trás dessas campanhas, eventos, peças audiovisuais, mídia paga e logística, percebemos que muitas vezes o discurso é verde, mas a prática segue os padrões do mercado capitalista.

É fundamental, portanto, olhar para além do conteúdo das mensagens e observar os modos de produção, os valores mobilizados e os efeitos concretos dessas comunicações. O Antropoceno, como paisagem comunicacional, exige uma leitura crítica e sensível, capaz de reconhecer os riscos da estetização do cuidado e da mercantilização da diferença.

3. Estética do colapso: a publicidade e a performance do cuidado

A publicidade tem o poder de moldar afetos, desejos e identidades. Ela nos diz o que devemos querer, como devemos viver e até quem devemos ser. No Antropoceno, essa indústria passou a incorporar pautas ambientais e sociais em sua linguagem. Fala-se de responsabilidade, de impacto positivo, de diversidade. No entanto, quando olhamos com mais cuidado, percebemos que muitas dessas campanhas transformam o cuidado em performance e o colapso em espetáculo.

Essa apropriação de causas legítimas como estratégia de comunicação é um fenômeno crescente. Termos como “greenwashing” e “wokewashing” ganharam destaque justamente para nomear esse movimento de instrumentalização do discurso social e ambiental em benefício das marcas. A ideia de “lavagem verde” refere-se ao uso de retóricas ecológicas sem compromisso real com a sustentabilidade, enquanto a “lavagem progressista” diz respeito à apropriação de pautas identitárias para melhorar a imagem pública de empresas que, na prática, não promovem mudanças estruturais.

A produção de sentido é cuidadosamente calculada. As imagens são belas, os textos são emocionantes, os protagonistas são diversos. Mas o objetivo final segue sendo o mesmo: vender. Ao apropriar-se de discursos progressistas, a publicidade esvazia seu conteúdo político e o transforma em mais um produto. A dor se torna capital simbólico; a luta, enredo de comercial; o engajamento, uma métrica de marketing. A ética é substituída por uma estética do cuidado, em que o gesto simbólico vale mais do que o compromisso prático.

É o que vemos em diversas campanhas voltadas à sustentabilidade. A estética da natureza é usada para vender cosméticos, cervejas e roupas. Fala-se em reflorestamento, mas não se menciona o impacto da cadeia produtiva. Defende-se a diversidade, mas os cargos de liderança seguem homogêneos. As vozes das campanhas são cuidadosamente escolhidas para não incomodar demais. E os corpos que aparecem são, quase sempre, corpos já aceitos pelo mercado.

Trata-se de uma performance da inclusão, em que o outro é representado, mas não convidado a participar das decisões. As campanhas constroem uma narrativa em que a empresa aparece como aliada da causa, mas, ao mesmo tempo, preserva intacta sua lógica de funcionamento. O cuidado é estetizado, domesticado, transformado em emoção publicitária. Não há conflito, não há incômodo, não há política, apenas afeto e consumo.

Essa lógica transforma a diferença em algo palatável, algo que pode ser consumido sem confronto. A diversidade é encenada, mas não vivida. O ambientalismo é promovido, mas não praticado. A publicidade se torna, assim, uma forma de acomodação, e não de ruptura. Como aponta o filósofo Mark Fisher, vivemos uma era de “realismo capitalista”, onde até mesmo a crítica ao sistema é absorvida por ele como mais um produto a ser comercializado.

A estética do colapso, portanto, não apenas representa a crise, mas participa de sua manutenção. Ao transformar o fim do mundo em imagem sedutora, a publicidade desativa o potencial transformador da comunicação. Em vez de criar espaços de escuta e diálogo, ela reforça uma lógica de mercado que esvazia as lutas e neutraliza os conflitos.

4. Quem pode falar? A descolonização do saber e da escuta

Grada Kilomba (2016) nos oferece uma pergunta fundamental: quem tem o direito de falar? E mais do que isso: quem é escutado quando fala? Essa pergunta atravessa não apenas a produção de conhecimento, mas também o campo da comunicação e da publicidade, onde certas vozes são sistematicamente silenciadas, enquanto outras são amplificadas e legitimadas.

Em muitos contextos comunicacionais, a resposta ainda é a mesma de séculos atrás. O saber válido continua sendo aquele produzido por corpos brancos, masculinos e ocidentais. Vozes negras, indígenas, periféricas, femininas, são muitas vezes consideradas emocionais, subjetivas, pouco confiáveis. Seus saberes são vistos como “experiências de vida”, não como conhecimento legítimo. A colonialidade do saber persiste na forma como selecionamos quem tem autoridade para narrar o mundo e como descartamos saberes que não se encaixam na lógica racionalista do Ocidente.

Kilomba fala da máscara colonial, que impedia os escravizados de falar. Hoje, essa máscara continua operando de formas mais sutis: através da exclusão das universidades, dos espaços midiáticos, das empresas de comunicação. Mesmo quando se fala de diversidade, frequentemente são os mesmos corpos que narram, e os mesmos ouvidos que escutam. A pluralidade é permitida desde que não desestabilize as estruturas. A escuta é simulada, mas não praticada.

Essa lógica também está presente nas campanhas publicitárias. Muitas se apropriam de imagens e discursos de grupos historicamente silenciados, mas sem envolvê-los de fato no processo de criação. Usam suas estéticas, suas lutas, seus símbolos, mas não suas vozes. A diferença é convertida em identidade de marca, e não em transformação de estruturas. A inclusão vira um recurso retórico, e não um compromisso real.

Descolonizar a comunicação exige, portanto, mais do que incluir novas imagens. Exige escutar outros modos de ver o mundo, outras epistemologias, outros modos de habitar a Terra. Exige reconhecer que conhecimento é também corpo, história, memória, afetividade. Exige abrir espaço para que as narrativas periféricas, indígenas, quilombolas e feministas deixem de ser apenas objeto de campanhas e passem a ser agentes da comunicação.

Além disso, é necessário problematizar a ideia de “dar voz”, frequentemente usada em campanhas de responsabilidade social. Ninguém precisa que lhe deem voz, todas as pessoas já têm voz. O que falta são espaços de escuta, reconhecimento e poder de fala. A comunicação descolonial não é um favor, mas um direito. Não se trata de representatividade simbólica, mas de transformação real das estruturas que decidem quem pode falar e ser ouvido.

Como nos lembra Kilomba, descolonizar é também recontar as histórias que nos contaram, e que nos contamos. É criar narrativas que não apenas desafiam o colonialismo, mas que também revelam os modos de existir que resistem a ele há séculos. É transformar a comunicação em território de justiça, memória e reencantamento.

5. Comunicação como resistência: entre o digital e o ancestral

Apesar de todas as contradições e limitações que apontamos, é fundamental reconhecer que a comunicação também pode ser um território potente de resistência e transformação. Muitas comunidades historicamente marginalizadas têm se apropriado das tecnologias digitais para fortalecer suas lutas, preservar suas culturas e construir redes de solidariedade que atravessam fronteiras físicas e simbólicas.

Povos indígenas, como os Yanomami, exemplificam esse uso estratégico das mídias digitais. Eles utilizam as redes sociais para denunciar invasões em seus territórios, divulgar seus modos de vida e sensibilizar a opinião pública nacional e internacional. Através de vídeos, fotografias e relatos diretos, esses povos apresentam suas realidades de forma autônoma, contestando narrativas estereotipadas e o apagamento midiático que sofrem há séculos.

Nesses casos, as mídias digitais são ressignificadas. Elas deixam de ser apenas ferramentas do capital e se tornam meios de expressão ancestral. A tecnologia, que carrega a marca do extrativismo, passa a ser usada para proteger a floresta, para denunciar a violência e para fortalecer identidades. O celular, símbolo da modernidade, vira ferramenta de encantamento e resistência.

Essa apropriação crítica das tecnologias contemporâneas é um exemplo daquilo que Danowski (2022) propõe: a necessidade de transformar nossos modos de percepção e afeto para lidar com a crise planetária. Para isso, é preciso abandonar a visão da Terra como mero recurso a ser explorado e passar a reconhecê-la como sujeito, como ente com quem nos relacionamos em reciprocidade.

Essa transformação implica também repensar o tempo e as formas de existência. Não se trata de um progresso linear e acumulativo, mas de abrir espaço para outros tempos, outras lógicas, outras cosmologias, aquelas que sempre coexistiram na diversidade dos povos que habitam este planeta. A comunicação, portanto, deve ultrapassar a simples transmissão de mensagens e se tornar uma partilha de mundos.

Para isso, é preciso escutar com atenção quem há muito tempo já fala: os povos da floresta, os saberes da oralidade, os conhecimentos que foram marginalizados pelo projeto moderno. A comunicação como resistência se faz no diálogo entre o digital e o ancestral, no entrelaçamento de tecnologias e saberes, na criação de espaços de escuta e acolhimento que desafiam as hierarquias do saber.

Essa perspectiva nos aponta para uma comunicação que seja prática de cuidado, que reconheça a multiplicidade de vozes e modos de ser, que seja capaz de habitar o tempo da Terra e das gerações futuras. É uma comunicação que entende sua responsabilidade ética e política na construção de um mundo mais justo e sustentável.

6. Fabular mundos: entre o marketing verde e o encantamento

Ailton Krenak (2019) nos convida a adiar o fim do mundo. Mas o que isso quer dizer? Para ele, o mundo que está acabando é um mundo específico: o mundo branco, capitalista, urbano, racional. Esse mundo está em colapso porque perdeu a conexão com o encantamento, com a natureza, com o outro.

Adiar o fim do mundo é uma tarefa comunicacional. Requer que contemos outras histórias, que criemos outros imaginários, que escutemos outras vozes. Essa tarefa implica repensar a forma como falhamos o mundo, não apenas como simples representação, mas como criação de possibilidades de existência.

A publicidade, nesse cenário, pode escolher dois caminhos distintos. Pode continuar servindo ao capital, utilizando discursos progressistas como estratégia de venda, reproduzindo a lógica do mercado e da exploração. Ou pode se reinventar como prática ética, afetiva e comprometida com a vida. Pode escolher entre o marketing verde e a criação de narrativas que encantam o mundo.

Campanhas como as da ONG Amazon Watch ou do Instituto Socioambiental mostram que é possível comunicar de outra forma. Elas não falam apenas sobre os povos da floresta; falam com eles. Não tratam a natureza como mera paisagem, mas como personagem com agência própria. Não criam desejos artificiais, mas despertam afetos e reflexões que provocam a responsabilização e o cuidado.

Essas iniciativas, mesmo com suas limitações e contradições, apontam para um horizonte possível: o de uma comunicação que seja prática de cuidado, gesto político, forma de existência. Uma comunicação que não apenas vende um produto ou uma ideia, mas que cria mundos possíveis, que amplia a imaginação coletiva para além do capital.
Essa comunicação é capaz de reconhecer que o fim do mundo não é inevitável, mas uma possibilidade que pode ser enfrentada com esperança, luta e criatividade. É a comunicação que se faz a partir da Terra, dos corpos, dos afetos, das memórias — que escuta o passado e imagina o futuro em um presente aberto.

7. Análise Crítica: a ambiguidade das campanhas ESG das marcas Natura e Heineken

As campanhas ESG das marcas Natura e Heineken evidenciam, de maneira emblemática, a contradição central da comunicação no Antropoceno: ao mesmo tempo em que promovem discursos alinhados à sustentabilidade e à diversidade, estão inseridas em uma lógica de mercado que tem como finalidade última a intensificação do consumo e a manutenção do modelo capitalista que produz os próprios problemas que tentam combater.

A Natura construiu sua imagem publicitária associada ao respeito à floresta amazônica e às populações indígenas. Seus comerciais frequentemente exaltam a biodiversidade, o uso de ingredientes naturais e práticas de comércio justo. Contudo, essa valorização da natureza é instrumentalizada para fins comerciais, sendo transformada em um ativo simbólico a serviço da marca. Em campanhas como “Amazônia Viva” -imagens anexadas abaixo-, por exemplo, a floresta aparece como paisagem de fundo e a cultura indígena como estética, mas a cadeia produtiva que sustenta os cosméticos continua apoiada em logística intensiva, processos industriais e circulação global de mercadorias — todas práticas que geram emissão de carbono, resíduos e extração contínua de recursos naturais.

Figura 1: Banner da campanha “Amazônia Viva”, da Natura

Figura 2: Banner da campanha “Amazônia Viva”, da Natura

O mesmo pode ser observado na atuação da Heineken, que adota o discurso da diversidade como estratégia central de comunicação. A marca investe em campanhas com protagonismo de minorias e com mensagens de inclusão, como na série de peças “Open Your World”, anexadas abaixo. No entanto, essa representatividade muitas vezes se limita à superfície. A inclusão é performada, mas não vivenciada estruturalmente. Os valores progressistas funcionam como gatilho emocional, não como compromisso político. A diversidade torna-se recurso retórico, e não transformação institucional. Além disso, campanhas que incentivam o “consumo responsável” de bebidas alcoólicas inserem-se em um sistema que lucra justamente com o consumo em larga escala, reforçando o paradoxo central entre cuidado simbólico e prática danosa.

Campanha “Perfect Man”, da série “Open Your World” da Heineken

Essa dualidade, como afirmam Silva e Aguiar (2020), revela uma comunicação que é simultaneamente denúncia e reprodução: as marcas narram o colapso, mas seguem alimentando-o. A Terra, os corpos diversos e os saberes ancestrais tornam-se ferramentas publicitárias apropriadas por empresas que operam sob um paradigma antropocêntrico, em que o ser humano — sobretudo o consumidor urbano — permanece no centro das decisões e do valor de uso. As ações sustentáveis são pensadas em função do humano, e não em uma lógica de reciprocidade ecológica, como propõem Danowski (2022) e Krenak (2019).

Nesse cenário, as campanhas ESG tornam-se parte do que Fisher (2009) chama de realismo capitalista: até mesmo a crítica ao sistema é convertida em mercadoria. A publicidade se atualiza para acompanhar as demandas éticas contemporâneas, mas sem alterar sua lógica fundamental. A floresta é representada, mas não preservada; os corpos racializados aparecem, mas não decidem; a diversidade é celebrada, mas os modos de vida alternativos continuam sendo marginalizados.

Portanto, ainda que as campanhas da Natura e da Heineken apresentem avanços no plano simbólico da comunicação, seu funcionamento está profundamente enraizado em estruturas que priorizam a lucratividade e a manutenção da centralidade humana no ecossistema. São ações que reduzem a sustentabilidade a uma estética e transformam o cuidado em performance, reforçando a lógica de um sistema que mascara a crise que ele mesmo produz.

8. A ruptura do antropocentrismo nas campanhas da Amazon Watch e do Instituto Socioambiental

Em contraste com as campanhas de grandes marcas que se apropriam de discursos ecológicos para fins mercadológicos, organizações como Amazon Watch e o Instituto Socioambiental (ISA) propõem outra forma de comunicar: uma comunicação que não se sustenta em estratégias de mercado, mas em alianças éticas, políticas e territoriais com povos originários e comunidades tradicionais.

Essas campanhas operam a partir de lógicas contra-hegemônicas, nas quais a natureza não é representada como recurso estético nem o indígena como símbolo exótico, mas sim como sujeitos políticos e epistemológicos que reivindicam agência sobre seus territórios, modos de vida e saberes. Como observa Krenak (2019), adiar o fim do mundo exige escutar outras vozes e imaginar mundos para além do capital — tarefa que está no cerne dessas organizações.

As campanhas da Amazon Watch, por exemplo, ao denunciar a violência contra povos indígenas ou ao convocar ações de boicote a empresas que devastam a Amazônia, não buscam construir uma imagem institucional simpática ao consumidor, mas mobilizar afetos, indignação e solidariedade. Como observado nas imagens abaixo, há um deslocamento do foco: do produto para o território, do consumo para a resistência, da marca para o coletivo. O que está em jogo não é a reputação de uma empresa, mas a sobrevivência de modos de existência ameaçados por projetos extrativistas e políticas de desmonte ambiental.

Figura 3: campanha “Protect and defend the Amazon”


Figura 4: campanha de combate aos “Gold Gangs” e crime organizado

O Instituto Socioambiental também atua com forte presença comunicacional, produzindo campanhas, relatórios e materiais audiovisuais – como os exemplos abaixo – que visam informar, sensibilizar e pressionar o poder público e o setor privado. Em peças como “Territórios Vivos”, o ISA mostra como os territórios indígenas e tradicionais são os que mais protegem a biodiversidade, reforçando uma visão relacional e não hierárquica entre humanos e natureza — em oposição à visão antropocêntrica dominante nas campanhas corporativas.

Figura 5: arte gráfica “Terra de Mulheres ou povos da floresta”

Figura 6: campanha #PeoplesOfTheForest, fotografia de lideranças indígenas

O que distingue essas campanhas, portanto, não é apenas o conteúdo, mas o modo de produção, os sujeitos envolvidos e os efeitos pretendidos. Diferente das campanhas ESG de empresas como Natura e Heineken, que esteticizam o cuidado e performam a inclusão sem alterar estruturas, Amazon Watch e ISA promovem uma comunicação que parte da escuta, da reciprocidade e da construção coletiva. Como destacam Silva e Aguiar (2020), uma comunicação crítica no Antropoceno precisa deixar de representar o outro para comunicar com o outro.

Além disso, essas campanhas desafiam a lógica do tempo linear e do progresso acumulativo do capitalismo, ao valorizar cosmologias que compreendem a Terra como ser vivo e os territórios como extensão da vida dos povos. Danowski (2022) propõe uma transformação perceptiva e afetiva na maneira como habitamos o planeta, e isso se reflete diretamente na estética e na estratégia das campanhas dessas organizações: há menos espetáculo e mais política, menos sedução e mais mobilização.

Em suma, as campanhas da Amazon Watch e do Instituto Socioambiental rompem com o paradigma antropocêntrico ao reconhecerem os direitos da Terra, das águas, dos animais e dos povos como indissociáveis. Elas exemplificam que uma comunicação verdadeiramente comprometida com a sustentabilidade não pode estar a serviço da mercantilização da vida, mas deve ser um gesto ético e político de defesa do comum.

9. Conclusão

A comunicação no Antropoceno é atravessada por paradoxos profundos. Pode ser motor de um colapso ou instrumento de sua superação. Pode reforçar estruturas coloniais ou ajudar a destruí-las. Pode estetizar a diferença ou escutá-la de verdade. Pode ser palco de dominação ou de resistência. Essa ambivalência revela os desafios e as possibilidades que temos diante de nós.

Este ensaio procurou explorar essas tensões a partir de campanhas publicitárias que utilizam discursos ambientais e de diversidade. Mostramos como muitas dessas campanhas operam uma performance do cuidado, sem transformar estruturas. Mas também destacamos experiências que indicam caminhos para uma comunicação mais ética, sensível e comprometida com a vida.

Para isso, é preciso descolonizar o olhar, o saber e a escuta. É preciso reconhecer que comunicação não é apenas técnica, mas política. Não é apenas conteúdo, mas forma de relação. E não é apenas sobre o que se diz, mas sobre quem diz, para quem, e em nome de quê.

Entre o colapso e a reinvenção, entre o marketing e o encantamento, a comunicação é, hoje, um dos principais campos de disputa pelo futuro do planeta. Cabe a nós escolher que histórias queremos contar. E, mais importante, que mundos queremos ajudar a criar.

Referências

DANOWSKI, Déborah. Transformações perceptivas e afetivas na Idade da Terra. In: VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo; DANOWSKI, Déborah; SALDANHA, Rafael (orgs.). Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra. Rio de Janeiro: Machado, 2022.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. 2. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SILVA, Dayana K. M.; AGUIAR, Carlos E. S. Os paradoxos da comunicação ante o Antropoceno. Eco-Pós, UFRJ. v. 23, n. 2, 2020.

In memoriam: Dimas Gabriel Ely Coutinho

Make Fabico Weird Again #1

Por Augusto de Souza Both, Caio Paiva de Mattos e Diego Zapata de Oliveira

Uma das expressões mais antigas e universais da humanidade diz que quando uma pessoa falece, acaba virando uma estrelinha no céu. Talvez seja uma forma de conforto para si e para os outros, um eufemismo que ajuda a suportar a dor mais cruel e a saudade mais insanável que um ser humano pode ter. Ainda assim, a mais humana. Ninguém pode brigar com a natureza e sua grande e impiedosa imposição: tudo que é vivo, vai morrer um dia. Por isso mesmo, nos aliamos a ela e fazemos de um de seus astros mais graciosos e admirável – a estrela – a moradia acolhedora de entes queridos que acabam partindo deste plano.

Nessas férias, o céu da Fabico ganhou uma estrela. Uma estrela não, uma constelação. Dimas, o menino da risada fácil e do abraço para todas as horas, que amava o futebol e o jornalismo acima de tudo, agora entra para o mapa celeste fabicano na imagem da constelação que carrega o mesmo nome da pequena cidade em que nasceu e viveu a maior parte de sua vida: Cruzeiro do Sul. A constelação Crux – como também é conhecida – é importante, famosa e deslumbrante. Dentre as 88 existentes, é a única que se encontra destacada na bandeira do Brasil, e, por tamanho prestígio, não há morador mais digno de tal privilégio que Dimas Gabriel Ely Coutinho.

Um rapaz simples, que nunca desrespeitou ninguém à sua volta, Dimas era uma pessoa ímpar, daquelas que a pureza e o amor que exalam se encontram poucas vezes na vida. Contava piada como poucos e tinha amigos em todos os lugares em que seus pés podiam chegar, sempre levando alegria por onde passou. Sua casa, ponto de encontro de muitos fabicanos, sempre esteve aberta e pronta para uma janta e para uma risada. Ali ele cuidava de todos como se fossem da família. Jornalista nato, era curioso, cuidadoso com as palavras e ético, sempre preocupado em ajudar os mais necessitados. Dimas era único.

Hoje, um vazio. Um vazio no eterno apartamento da rua Domingos Crescêncio, que guarda memórias de encontros e reuniões inesquecíveis. Um vazio na Fabico, onde ele deixou marcas em colegas e professores que se depararam com um talento fora do comum. Um vazio na Arena do Grêmio e na Arena Alviazul, lugares nos quais para sempre faltarão alento, apoio e gritos de um torcedor fanático. Um vazio em Cruzeiro do Sul, em Lajeado, em Porto Alegre, em todo lugar. Mas no céu, jamais. Pelo contrário, está maior, mais completo e mais alegre. Agora, ele tem em 5 estrelinhas do Hemisfério Sul um motivo a mais para se orgulhar. Descanse em paz, nosso querido e eterno amigo Dimas, e se possível, cuide bem da Fabico aí de cima.

Com carinho, Augusto, Caio e Diego.

Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Editorial – Make Fabico Weird Again: um manifesto

Make Fabico Weird Again #1

por Marcelo Bergamin Conter

Eu não fiz graduação na Fabico. Estava a 35 quilômetros de distância, cursando Publicidade e Propaganda na Unisinos, entre 2003 e 2008, no auge do indie rock, curtindo um show da Viana Moog aqui, um show da Deus e o Diabo lá, curtindo a pista do Beco e tantas outras noites possíveis e impossíveis. Até tocava em uma banda, a Musical Amizade, que tirava uma onda com esse nome de conjunto de bailão, mas que na verdade misturava eletrorock com atonalismo e referências acadêmicas. Éramos todos bolsistas de iniciação científicas e apaixonados por pesquisa. Existia uma forte relação entre a vida na universidade e a vida boêmia.

Quando cheguei no prédio da Fabico para fazer mestrado no PPGCOM em 2010, não demorou muito para fazer amizade com outros doidões. Descobri que na graduação havia uma galera revisitando o situacionismo da turma do Debord, tirando foto analógica na penumbra da noite, com flash estourado, pelados no meio do mato, fazendo show com gerador elétrico no meio da Av. Oswaldo Aranha; tinha os cinéfilos projetando filme Trash B japonês em pleno DACOM à luz do dia, seguido de debates filosóficos sobre as relações entre corpo e tecnologia nas culturas orientais; tinha um grupo que fazia um blog maluco de jornalismo gonzo, investigando o mundo underground de Porto Alegre; tinha até uma turma que imprimia uma revista mensal contando com o apoio do acaso para fazer as cópias; tudo isso desvinculado da sala de aula ou qualquer projeto de pesquisa, ensino ou extensão. As maluquices floresciam como erva daninha daquele território insuspeitamente instalado no campus Saúde durante a ditadura militar, longe de todos os outros cursos de humanas e de artes.

Recentemente, com minha entrada como professor na Fabico em janeiro de 2024 notei que movimentos independentes como estes sumiram da Fabico. Conversando com ex-alunos, alunos atuais e colegas técnicos e docentes, logo se percebe que isso se dá por uma complexa conjectura: está mais difícil de se manter porque o custo de vida aumentou, então muitos alunos estagiam, trabalham e ainda mantém um freela pra descolar um extra; tem bem menos bolsas para reter os alunos no campus, e as que tem pagam pouco; há também resquícios da pandemia, o impacto da enchente de 2024 e a redução do transporte público.

Há ainda mais um ingrediente.

Uma mudança na vida noturna da cidade.

Desde que a Copa do Mundo de 2014 terminou, assistimos a um longo processo de cerceamento da vida noturna em Porto Alegre. Bares não podem vender na rua depois da meia noite; o barulho deve ser muito bem controlado também; há um projeto urbano de migrar a vida noturna para o Quarto Distrito, mas a ocupação dessa zona, até o momento, inviabiliza a circulação a pé de bar a bar. Nota-se algo similar em vários pontos da orla. Cada vez menos Porto Alegre é uma cidade feita para os pedestres e cada vez mais para os carros: o espaço público é um estorvo que se enfrenta no caminho de um espaço privado para outro. Que fazer senão enfrentar os espigões de vidro simplesmente parando de pé na rua segurando um litrão, como Dom Quixote em frente aos moinhos? Se Porto Alegre não facilita nem dá condições para as cenas noturnas prosperarem, criaremos nós mesmos a noite que a gente quer ter.

A disciplina eletiva Seminário de Cultura e Comunicação da Fabico, do segundo semestre de 2024, apareceu como uma brecha para que pudéssemos especular, refletir criticamente e finalmente investigar os modos pelos quais diferentes modos de ser e estar na noite tem resistido ao capitalismo tardio e ao projeto neoliberal que acomete não só Porto Alegre, mas algumas outras cidades do Rio Grande do Sul também. Além disso, também foi oferecido como opção aos alunos que escrevessem resenhas e análises de discos ou perfis de artistas que lhes interessassem.

Talvez seja nostalgia minha e uma falsa sensação de que há dez anos a Fabico fosse mais esquisita que hoje. Talvez a cota de doidões seja a mesma. Mas numa época em que o ócio e a deriva são interditados por todas as instâncias, até mesmo por nossos próprios corpos disciplinados e docilizados, oferecer um espaço para aflorar afetos políticos pela vida noturna me pareceu urgente. Como vimos em aula no texto da Shannon Garland, “Nigel Thrift e Ash Amin (2013) argumentam que o afeto é crucial para a articulação de qualquer projeto político, pois os afetos fazem o sentimento de como mundo deveria ser adquirir força e desejo para sujeitos políticos individuais” (2020, p. 138).  Make Fabico Weird Again.

Texto publicado na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Jogando como música: Uma análise sobre a experiência de torcer na Geral do Grêmio

Make Fabico Weird Again #1

por Augusto de Souza Both, Caio Paiva de Mattos e Dimas Gabriel Ely Coutinho

Vivenciar e estar junto à Geral do Grêmio, e de certa forma as torcidas organizadas de um clube esportivo como um todo, é uma experiência muito única. Apesar de, em shows de músicas, haver uma certa semelhança entre o comportamento dos indivíduos presentes em um evento determinado (cantar músicas com um sentimento de pertencimento por um tempo que, em média, passa de horas), se trata de duas situações completamente diferentes.

Enquanto, em um concerto, você consome um produto e, de certa forma, pode exigir um certo nível de qualidade que vai estar atrelada a expectativa quanto aos músicos e ao valor desembolsado para estar presente no evento, em uma partida de futebol, porém, uma torcida organizada é a própria fonte musical, e cabe ao público, que também está pagando e consumindo um produto (o jogo de futebol), sem receber um pagamento por isso, o dever de cantar e envolver o resto do público.

Este senso de apoio incondicional sem fins lucrativos, entretanto, consegue estabelecer laços para com o restante da torcida e com o clube que são fundamentais para o desenvolvimento de uma união entre os três. É incontável o número de casos em que, no meio musical, disputas por dinheiro e créditos foi o estopim para brigas, discussões e até encerramentos de projetos.

Na Geral do Grêmio, entretanto, a motivação dos participantes é o amor ao clube, e isso proporciona um comportamento diferente de seus integrantes. Por suposto que, dentro da organização, existem também disputas por poder e influência, mas suas maiores preocupações estão ligadas ao bom funcionamento do clube, e não às rendas e alcance midiático, fato que, na maior parte das vezes, coloca as motivações coletivas muito acima das individuais, e facilita o convívio.

Um dia na Geral do Grêmio

Um jogo do Grêmio começa muito antes do apito inicial. É possível ver a concentração da torcida nos arredores da Arena do Grêmio várias horas antes da partida.

A configuração do estádio do “imortal tricolor” é diferente da maioria dos estádios do Brasil. A Arena do Grêmio foi construída no bairro Humaitá, que é uma área de menor poder aquisitivo em Porto Alegre. A região hoje concentra um grande número de bares que conseguem se sustentar pelo movimento gerado nos jogos do clube.

Como não é permitida a venda de bebidas alcoólicas dentro do estádio, os torcedores costumam chegar bem antes da partida para beber e fazer o tradicional “churrasquinho” pré-jogo.

Para garantir que o estádio esteja decorado, um grupo de torcedores vai ao estádio horas antes para colocar os “trapos” (como são chamadas as faixas que são colocados no estádio). Tem torcedores que são responsáveis por levar os instrumentos para o estádio.

A Geral do Grêmio costuma fazer a tradicional caminhada antes de entrar no estádio. A torcida se encontra no Bar da Geral e vai junta ao estádio até chegar na arquibancada norte. Esse setor é o mais barato, e o único que não possui cadeiras, local onde os torcedores podem pular e fazer sua festa.

Quando conversamos para realizar esse trabalho, percebemos que as nossas experiências e vivências de estádio eram muito diferentes por sermos de diferentes regiões do estádio e termos começado a frequentar o estádio em momentos diferentes, por isso decidimos cada um apresentar sua visão e contar a sua história com a banda tricolor.

Augusto

Vou aos jogos do Grêmio na Arena do Grêmio desde 2013, mas meu primeiro jogo no setor norte do estádio, onde se encontra a Geral do Grêmio, foi em junho de 2024. A demora se deve a algumas prevenções tomadas no sentido de segurança. Sou de Passo Fundo e morei lá por toda minha vida antes de entrar na UFRGS, então vinha poucas vezes frequentar o estádio para assistir aos jogos, e por consequência não sabia as coisas que poderiam acontecer dentro de uma torcida organizada. Ademais, era uma criança.

Todas as vezes que tinha ido e assistido o jogo de diferentes setores, eu já cantava as músicas, pois todas estão disponíveis no Spotify, mas nunca sentia que os torcedores ao meu redor estavam em sintonia e, em certos momentos, até me sentia deslocado, visto que era o único que sabia muitas letras de cor.

Neste ano, já adulto, maduro e acompanhado de amigos que já frequentavam o espaço, decidi me aventurar e assistir jogos de dentro desta torcida que está no imaginário de todo bom gremista desde sempre. A primeira vez foi no jogo Grêmio x Flamengo pela 27ª rodada do Brasileirão de 2024. Lá, a sensação foi completamente diferente. Uma energia de apoio incondicional que se traduz em uma cantoria motivante do primeiro ao último minuto do jogo. Durante momentos complicados de partidas, depois de gols do adversário e até no final de jogos em que o resultado positivo já é praticamente impossível de ser alcançado, o ambiente destinado a Geral do Grêmio gira em outra atmosfera.

Ali, consegui sentir de perto o quanto a bateria e os instrumentos de sopro utilizados pela Geral são de fato um pulmão para o resto da Geral, e, consequentemente, para o estádio inteiro. Um sentimento de que, se a canção não for entregue com a alma, o time não vai render o suficiente. Uma conexão que jamais havia sentido antes.

Costumo dizer que, quando vou em um jogo para analisar tecnicamente e sentir as nuances de jogadas altamente complexas e treinadas que envolvem uma partida de futebol, fico em outros setores do estádio. Mas, quando sinto que o jogo em que vou assistir requer uma vibração maior da arquibancada e uma declaração de amor da torcida para que os jogadores sintam a grandeza do time que representam, eu vou na Geral. Ali, consigo me declarar ao time que escolhi torcer desde antes de aprender a falar.

O setor da Geral, também, é um lugar com legislação própria. Lembro-me bem de assistir a várias pessoas serem expulsas do espaço por não cantarem, e, por este único e simples fato, serem consideradas torcedores de outros times infiltrados, o que mostra a importância dos cânticos na construção da identidade daqueles torcedores. Ao serem levados para fora dali por integrantes da Geral, eram retirados por funcionários oficiais do estádio sem qualquer consideração, mostrando que as regras ali, apesar de não escritas, são claras e respeitadas.

Pessoalmente, sinto que a Geral do Grêmio é o coração do clube. Sem ela, nada mais no clube pulsaria com a mesma intensidade. O apoio nos momentos difíceis, a crítica nos momentos necessários, as celebrações históricas nos momentos em que um título viraria apenas mais um simples objeto em uma sala de troféus. Ali, vive-se Grêmio, e o Grêmio vive ali.

Caio

Fui em doze jogos esse ano, em variados setores do estádio, e as experiências foram bem diferentes. Em todos os setores, em algum momento, as músicas influenciaram e incendiaram a torcida, porém na Cadeira Gold senti que o pessoal não cantava tanto. Acredito que isso ocorra, pois, esse setor possui o ticket elevado, levando um público que enxerga o jogo de outra maneira. Fui lá com carteirinha de sócio emprestada e me senti deslocado, pois eu cantava, gritava e xingava e às vezes até me olhavam torto por isso. Inclusive em 2022, o agora ex-presidente estava presente nos Camarotes e a diferença de reação dos presentes foi marcante, enquanto na Cadeira Gold os torcedores aplaudiram e tiveram com aplausos e gritos apoio, os torcedores da Arquibancada Norte reagiram com vaias e xingamentos. O momento do clube não era bom, o que mostra que a Geral é um reflexo do povo, com real consciência social, diferente de quem frequenta a Gold.

Nas superiores, a torcida canta e apoia muito mais. Inclusive, no jogo contra o Juventude, no fim de novembro, foi surreal o que vi acontecer no estádio. Empatamos depois dos 40 do segundo tempo e a Geral fez o estádio inflamar de uma forma que nunca tinha visto, a Arena virou um caldeirão e o time ganhou um gás absurdo no final do jogo, esse jogo eu senti que o Grêmio só conseguiu o empate pela força da torcida. Arrisco dizer que se o jogo tivesse mais 10 minutos, teríamos virado o jogo.

Já na Geral, fui pela primeira vez num jogo contra o Fortaleza em uma sexta-feira, início de noite. É de fato uma experiência única. O povo canta, fuma, pula, grita e apoia o tempo todo. Obviamente por conta das faixas não é o jogo todo que tu vai conseguir ver, mas a festa é algo que todo torcedor do Grêmio deveria viver uma vez na vida. Não é lugar para qualquer um, mas vale a experiência. A outra foi contra o São Paulo no fim do Campeonato Brasileiro num domingo às 16h. O setor tava lotado e pulsando, se alguém não cantasse em algum momento seria cobrado (como aconteceu comigo que, ao faltar ar de tanto cantar parei um pouco, fui empurrado por um membro da organizada me gritando pra cantar com cara de brabo) e também se alguém pegasse o celular imediatamente seria cobrado. Estava muito quente e muito apertado, mas pelo menos o Grêmio ganhou e no fim todos saíram satisfeitos.

Além disso, as experiências com a organizada foram bem legais nos arredores da Arena. Com cantorias, roda punk e bebida voando pro alto, foi algo que eu não esperava viver, mas achei bem legal. Esse ano acabei me aproximando mais das vivências com a Geral e foi muito interessante, acredito que valeu bastante a pena e ano que vem estarei lá de novo.

Dimas

Acredito que do nosso grupo, eu seja o cara com maior relação com estádios de futebol e vivência em arquibancadas. Por ninguém da minha família ter relação com estádio e eu morar em Cruzeiro do Sul até o começo desse ano. Conheci a Arena do Grêmio em 2022, ano que o clube estava na série B. De cara me encontrei, apesar da fase terrível que o clube estava, eu me encontrava em um lugar com pessoas que compartilhavam o mesmo que eu pelo meu clube de coração, me senti em casa.

Como por condições financeiras eu não conseguia ir com a frequência que eu queria para Porto Alegre. Comecei a frequentar estádios mais perto da minha cidade. Assisti jogos da terceira divisão do campeonato gaúcho, jogos do Lajeadense contra times horríveis, campeonatos amadores. Todas essas experiências foram muito legais, ver outras torcidas, conhecer outras realidades, mas nada se comparava com estar no meio da Geral do Grêmio.

Enquanto morava em Cruzeiro, eu ia de barca (como a torcida chama o ônibus de excursão) com o pessoal da Geral de Lajeado. Nas viagens era comum ver o pessoal levando os seus coolers e bebendo durante o caminho. Muitos, quando chegavam em Porto Alegre, já estavam totalmente alucinados. No fundo do ônibus, ficava o setor que carinhosamente era chamado de “cracolândia tricolor”, era possível ver pessoas fumando maconha e até cheirando pó. Essas questões com bebidas e drogas é algo bem visível na cultura das torcidas organizadas. O caminho inteiro cantando as músicas da Geral. Inclusive na volta, era comum a parada no “Paradouro 22”. Uma parada, que teoricamente era pra comer, virava uma desculpa para fazer festa. Os torcedores se reuniam, cantavam e tocavam os instrumentos como se ainda estivessem no jogo.

Esse ano, por causa da enchente, o Grêmio ficou impossibilitado de jogar em Porto Alegre. Fui em alguns jogos em Caxias do Sul e cheguei a ir para Curitiba acompanhar um jogo da Libertadores contra Estudiantes de La Plata. A experiência de viajar mais de 600 quilômetros para acompanhar meu time foi fantástica. O Grêmio já estava classificado, o jogo não valia nada. Mesmo assim, mais de trinta mil torcedores lotaram o estádio e fizeram a festa mais linda que eu já vi. A atmosfera no estádio era absurda, foi uma das maiores provas de amor que eu já vi uma torcida fazer por seu clube. Ver que tanta gente saiu do Rio Grande do Sul, com toda situação que o estado vivia, para acompanhar o Grêmio era algo quase que inimaginável. Eu fui com o pessoal de Lajeado, uma das cidades mais atingidas pelas cheias de maio. Mesmo assim, a torcida da região lotou dois ônibus (que não tinham nenhuma condição para uma viagem tão longa) e enfrentou mais de quatorze horas de viagem para chegar ao Paraná. Toda essa experiência foi algo imensurável e que eu guardarei com muito carinho pelo resto da vida.

Estar na Geral sempre pra mim é sempre bom. Estar no meio da loucura, abraçar desconhecidos, é um sentimento muito louco. O estádio talvez seja o único lugar que as divergências ideológicas, de classe e de gênero, fiquem por algum tempo de lado, por um bem maior chamado Grêmio.

Análise das letras da Geral

Resolvemos fazer uma análise das músicas da Geral do Grêmio. Como critério usamos as músicas que mais escutamos no ano de 2024 nos jogos que assistimos do Grêmio na arena. Traremos percepções mais gerais e trechos das músicas que apresentam essas visões.

O primeiro fator que chama a atenção é a quantidade de músicas que a torcida do Grêmio canta nos jogos, diferente de muitas outras torcidas que têm poucas músicas, elencamos de cabeça que pelo menos quinze músicas diferentes foram cantadas nesse período.

Algumas letras incluem referências explícitas ao uso de álcool e, em menor medida, drogas, refletindo um estereótipo de vida boêmia que é, de certa forma, romantizado nesse contexto cultural. Esse “culto” ao álcool e às drogas aparece como uma representação de um estilo de vida despreocupado e intenso, que se conecta ao futebol como um espaço de liberdade e emoção. Dentre os exemplos seguem os trechos das músicas a seguir:

  • “Eu sou borracho sim senhor, e bebo todas que vier.” – Música: Borracho sim senhor
  • “No meio da alegria, não teve aquele que não bebeu.” – Música: Fui Numa festa na geral do Grêmio
  • “Quiero que legalice la marihuana, para fumar un porro por la mañana. Quiero beber un vino y una cerveza, para tener el Grêmio en la cabeza.” – Música: Quiero Que Legalice
  • “Vou torcer pro Grêmio bebendo vinho e o Mundial é o meu caminho.” – Música: Bebendo vinho

Torcer vai além de estar presente nos jogos; é uma expressão de amor incondicional pelo clube. Percebemos que as letras fazem muitas referências para mostrar o quanto a torcida se doa para estar no jogo e o quanto o Grêmio é o seu motivo de viver, inclusive que a torcida daria a vida pelo clube. Dentre os exemplos seguem os trechos das músicas a seguir:

  • “Pelo Grêmio decidi viver, faça tudo que puder, hoje temos que vencer.” – Música: Pelo Grêmio eu decidi viver
  • “Eu daria minha vida, só para poder te ver sair campeão.” – Música: Renato outra vez nos fez campeão
  • “Amor descontrolado, nunca vou deixar de lado. Sempre junto ao tricolor, eu te sigo aonde for” – Música: Amor descontrolado
  • “Quero que saiba pelo Grêmio eu dou a vida, pra quem não entende o tricolor é minha alegria” – Música: Te sigo a vida inteira

Outra coisa que percebemos é a forte relação da torcida do Grêmio com as torcidas da Argentina e do Uruguai, o que se reflete diretamente nas músicas cantadas pela Geral. A torcida do Grêmio se considera uma “barra brava”, sendo o seu jeito de torcer muito inspirado pelas torcidas dos países vizinhos. Muitas das canções mais populares da torcida gremista são versões adaptadas de músicas tradicionais dessas regiões, especialmente da Argentina. A influência da cultura de arquibancada desses países é visível na maneira como as melodias e ritmos das torcidas argentinas e uruguaias são incorporadas ao repertório da Geral do Grêmio. Dentre os exemplos pode-se citar:

  • Música: Somos do bairro da Azenha – Música da torcida do Boca: River decime qué siente
  • Música: Pelo Grêmio eu decidi viver – Música da torcida do River: Borracho
  • Música: Quiero que legalice – Música é cantada por vários clubes argentinos
  • Música: Banda louca do imortal – Música da torcida do Independiente: Quiero ganar la Copa Libertadores

Importância das músicas para formação de novos torcedores

Para entender a relação das músicas para formação de novos torcedores, conversamos com o torcedor do Grêmio e influenciador digital Jeferson Lisboa.  Conhecido na Internet como FBI Tricolor, o jovem de 21 anos dedica-se a produzir conteúdos indo a todos os jogos do Grêmio e mostrando a torcida.

AUGUSTO: Qual você considera o papel da Geral do Grêmio e das músicas na formação de novos torcedores, principalmente das crianças?

JEFERSON: Fundamental, as crianças gostam muito da geral. A caminhada da geral sempre tem crianças junto, nos vídeos eu tento sempre mostrar as crianças. As músicas da Geral formam os torcedores.

CAIO: Alguma criança já te falou que virou torcedor por causa de ti? Ou que já assistiu o seu conteúdo?

JEFERSON: Que virou torcedor por causa de mim não. Mas muitas crianças me param para tirar fotos. Muitos pais me marcam nos stories com os filhos assistindo os vídeos e cantando junto. Eu acho meu trabalho importante nesse sentido, sempre tento cuidar do meu conteúdo pensando nesse público.

DIMAS: Você acha que se não tivesse a Geral, o Grêmio teria o apoio que tem hoje?

JEFERSON: Acho que não. A Geral é o coração do Grêmio, reergueu o clube em 2005 numa época complicada. Todos os jogos fora de casa, a caravana leva faixa, instrumento. Se o Grêmio tem a Arena forte é muito por causa disso. Nosso lema é muito diferente, apoiar o clube a todo custo. Motivar o clube, motivar os jogadores.

Concluindo

Para nós, a experiência de estar na Geral do Grêmio transcende o ato de torcer; é um fenômeno cultural que mescla paixão, música, união e identidade. A conexão entre a torcida e o clube é visceral, construída por meio de cânticos, rituais e uma atmosfera que não apenas embala os jogos, mas também molda a vivência de cada torcedor.

Ao analisar a Geral sob diferentes perspectivas, percebe-se a força coletiva que mantém viva essa cena única. A Geral do Grêmio vai além do futebol: cria laços, desperta emoções e reforça valores de comunidade. A Geral não é apenas uma simples banda. É o coração pulsante que simboliza a alma do Grêmio e de seus torcedores.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Samba às Avessas: Até quem não gosta vai se embalar

Make Fabico Weird Again #1

por Izadora Hypólito Alves

Disco: Samba às Avessas
Compositora: Pâmela Amaro, 2022
Gênero: Samba

“Samba às Avessas”, lançado em 2022, marca a estreia de Pâmela Amaro como uma das vozes mais potentes e originais do samba contemporâneo. Nascida em Porto Alegre, a artista desafia não apenas os limites geográficos do gênero, frequentemente associado à região Rio-São Paulo, mas também abala estereótipos, apresentando uma obra que pulsa com ancestralidade, resistência e uma forte carga poética.

 Pâmela faz mais do que lançar um álbum: ela ergue uma bandeira. Em cada acorde, em cada linha cantada, há uma declaração de resistência, uma afirmação de identidade e uma celebração do samba como espaço de luta, corpo e memória. Não é apenas um álbum de samba, é um tratado sobre ancestralidade, feminilidade e o que significa existir e resistir dentro de um gênero historicamente moldado por vozes masculinas.

Fonte: https://open.spotify.com/intl-pt/album/4kJsXfphmpU55c3SoylBdI

  1. Pedido a Osun
  2. Colo de Mãe
  3. Negro Amar
  4. Já Ganhou Meu Coração
  5. Saudação a Tupan
  6. Deixa Que Eu Vou Te Contar
  7. Samba às Avessas
  8. Não Posso Chamar de Me Rei
  9. Oferenda/Canoa de Velho/Bença
  10. Vadeia/O Sol Chorou
  11. Antes de Nós
  12. Samba Arte Popular

O título, Samba às Avessas, já sugere um movimento de subversão. O avesso, como conceito, implica em uma revelação — a parte oculta que, quando virada para fora, revela suas costuras, suas falhas e suas histórias. Pâmela Amaro não está interessada em reproduzir fórmulas consagradas, ao contrário, ela desfia cada linha do samba tradicional. Cada faixa é diferente da outra, seja em tom, ritmo ou densidade lírica. Apesar de todas trazerem uma letra que traz força, em alguns momentos pode ser sentido que a única coisa que liga uma música na outra é o gênero do samba.

A Voz que ecoa

Se há algo que realmente se destaca no álbum é a força poética de Pâmela Amaro. Suas letras são profundas, carregadas de simbolismo e têm o poder de provocar reflexões enquanto encantam com a beleza melódica. Faixas como “Samba às Avessas” (que dá título ao álbum) mergulham em questões identitárias, raciais e de gênero, sem perder o lirismo.

Sua voz, por sua vez, é um instrumento por si só. Pâmela canta com firmeza e sensibilidade, alternando entre momentos de doçura e outros de força incontestável. Sua interpretação carrega a urgência das mensagens que deseja transmitir, mas também sabe dar espaço para que os arranjos respirem e os instrumentos brilhem. Até mesmo nos momentos em que ela nem está cantando, ainda soa como melodia.

Religião e Ancestralidade

No álbum “Samba às Avessas”, Pâmela Amaro apresenta uma obra profundamente pessoal, que desafia expectativas comuns para um disco de estreia. Em vez de optar por um projeto mais genérico ou comercial, a artista gaúcha entrega um trabalho que exige ser apreciado em seus próprios termos, revelando suas raízes, crenças e identidade com firmeza e transparência.

 Uma das marcas mais evidentes do álbum é a forte presença da espiritualidade afro-brasileira, que se manifesta tanto nas letras quanto nos arranjos musicais. Em “Pedido a Osun”, por exemplo, Pâmela entoa versos carregados de reverência à divindade: “Yeye, graciosa mãe / Pandá Guerreira / Venha em minha defesa / Yalodê, dona da beleza”. Esses versos revelam não apenas a relação íntima da artista com sua fé, mas também sua habilidade em transformar espiritualidade em poesia. Mesmo em músicas onde a espiritualidade não é o tema central, como em “Negro Amar”, as referências à ancestralidade negra se fazem presentes: “O destino jogou capoeira / Deu rasteira no meu penar”. A imagem da capoeira, tão ligada à resistência negra, é usada aqui como uma metáfora poderosa, mostrando como Pâmela entrelaça suas origens culturais em suas narrativas musicais.

Essa abordagem não se limita às palavras, mas se estende à própria construção sonora do álbum. O uso de instrumentos como o sopapo — tambor de grandes dimensões, de origem africana, que é um dos principais representantes da cultura afro diaspórica do Rio Grande do Sul. — e ritmos como o batuque e o maçambique não são meros adornos musicais, mas vozes ancestrais que ecoam através de cada faixa. Em “Vadeia / O Sol Chorou”, essa conexão entre música, espiritualidade e identidade cultural fica ainda mais evidente, mostrando como o samba pode ser, simultaneamente, celebração, cura e resistência.

Na faixa “Saudação a Tupan”, Pâmela Amaro amplia o diálogo de Samba às Avessas ao incluir uma homenagem explícita aos povos originários, evidenciando a conexão entre a luta negra e indígena no Brasil. Essa canção transcende os limites do samba como gênero musical e se torna um espaço de respeito, reverência e reconhecimento das raízes culturais que sustentam a identidade brasileira.

O título da faixa faz referência direta a Tupan, uma entidade sagrada para várias culturas indígenas brasileiras, frequentemente associada ao trovão e à força divina da natureza. Ao trazer essa figura para o centro da música, Pâmela não apenas homenageia a espiritualidade indígena, mas também ressalta a importância do diálogo entre diferentes matrizes culturais que formam a identidade do país.

A presença indígena na obra de Pâmela não é meramente simbólica; é um ato político. Em um país onde os povos originários ainda enfrentam apagamento histórico e violência sistemática, dedicar uma faixa inteira a essa saudação é um gesto de resistência. A música cria uma ponte entre a espiritualidade afro-brasileira, tão presente em outras faixas do álbum, e a espiritualidade indígena, mostrando que ambas compartilham raízes de conexão.

Além da letra, os arranjos de “Saudação a Tupan” refletem essa reverência. A percussão tem um tom ritualístico, quase xamânico, criando uma atmosfera quase que sagrada. Pâmela constrói um espaço sonoro onde vozes, tambores e silêncio se entrelaçam para dar vida a uma prece musical.

Dessa forma, Pâmela Amaro não apenas canta sobre ancestralidade negra, mas também se solidariza com a causa indígena, reconhecendo que ambas as lutas estão entrelaçadas.

Entre tradição e inovação

Logo ao apertar o play, percebe-se que Pâmela Amaro não está aqui para apenas seguir fórmulas pré-estabelecidas do samba. Ela se apropria da tradição com respeito e reverência, mas não teme experimentar, expandir e desafiar o formato clássico. O álbum, composto por 12 faixas, revela um equilíbrio entre o velho e o novo, em algumas faixas como “Samba às Avessas” com Nilze Carvalho, podemos arriscar em dizer que foram utilizados elementos percussivos tradicionais como o sopapo e ritmos como o batuque e o moçambique, que dialogam perfeitamente com letras contemporâneas e interpretações vibrantes.

 Faixas como “Deixa que Eu Vou Te Contar”, que conta com as participações de Maíra Freitas e Yzalú, são exemplares desse espírito. A música é uma ode à mulher negra multifacetada, que se recusa a ser aprisionada em estereótipos sociais. Aqui, samba e rap se entrelaçam sem perder a fluidez, criando um diálogo potente entre gerações e estilos.

Gaúcha do Samba

A obra não apenas homenageia o samba, mas também o reconfigura, trazendo uma perspectiva afro-gaúcha raramente ouvida no cenário nacional.  O uso do sopapo, já mencionado no texto, não é apenas uma escolha estética, mas uma afirmação identitária. Ele ressoa como um símbolo ancestral, ecoando memórias das comunidades negras do sul do Brasil. Esse diálogo entre a sonoridade afro-gaúcha e o samba carioca é habilmente costurado ao longo das faixas, trazendo frescor ao gênero sem perder a tradição.

O verso “Esse é o samba de roda do Pampa”, presente na faixa-título, encapsula a essência do álbum: uma exposição de que o samba gaúcho não é periférico, mas parte vital da narrativa do gênero no Brasil. O mais comum ao pensar no termo “gaúcho” é pensar no extremo oposto do samba. É pensar em CTG, meninas com vestidos longos de prendas e penteados altos e meninos com sua tradicional pilcha sapateando, afinal, o Rio Grande do Sul é muito marcado por cultivar suas raízes tradicionalistas. Pâmela consegue nos lembrar que o Sul do país tem mais história além disso, assim como, nos lembra que quem está cantando não é uma carioca ou paulista, é uma mulher gaúcha.

Arranjos que contam histórias

A produção musical de “Samba às Avessas” também merece destaque. Cada faixa é cuidadosamente arranjada para valorizar não apenas a voz de Pâmela, mas também os instrumentos que carregam a identidade cultural afro-gaúcha.  Há também um cuidado em como os diferentes elementos sonoros dialogam entre si: cavaquinho, violão, percussão e vozes de apoio se unem de maneira harmônica, criando texturas que enriquecem as canções.

O curta-metragem: a extensão visual do álbum

Como se a experiência sonora não fosse suficiente, Pâmela Amaro lançou também um curta-metragem homônimo, que expande o universo narrativo do álbum. No filme, oito das doze canções ganham vida visual, aprofundando ainda mais as mensagens abordadas. Essa iniciativa revela a amplitude do projeto, que não se limita apenas ao formato tradicional de um álbum musical, mas que busca ser uma experiência cultural completa. São mais do que apenas músicas ou apenas um curta-metragem. É uma história, Pâmela Amaro conta histórias. A dela e a de quem veio antes dela.

Durante a inserção da faixa “Antes de nós” no curta-metragem, há exibições de cenas que aparentam ser de uma família reunida em um samba. Há também, na própria música, áudios falados de alguém que se supõe ser a avó de Pâmela. Tudo isso dá uma sensação de familiaridade com as histórias, como se nossos familiares estivessem sendo citados também.

Samba como resistência e afirmação

“Samba às Avessas” não é apenas um álbum de samba – é um manifesto. Não é um disco que pode ser ouvido de forma passiva. Pâmela Amaro reivindica o espaço das mulheres negras no gênero, resgata tradições afro-gaúchas muitas vezes marginalizadas e sem muito protagonismo e apresenta sua arte como ferramenta de resistência. O título do álbum não é por acaso: é um samba que desafia expectativas, que caminha por vias menos óbvias, mas que, ainda assim, honra profundamente suas raízes. Ele exige atenção, exige escuta. Não há faixas descartáveis, não há momentos de preenchimento. Cada verso parece ter sido lapidado com cuidado, cada escolha instrumental carrega significado.

Pâmela Amaro entrega um trabalho que contribui para um movimento maior de resgate e valorização do samba como ferramenta de expressão cultural e política. Pâmela Amaro utiliza o samba para resgatar e preservar memórias coletivas, tradições e espiritualidades marginalizadas. Suas letras e melodias revelam que sua música não é apenas entretenimento; é um espaço sagrado, um lugar de fala e de cura.

“Samba às Avessas” não é apenas um álbum de estreia — é um manifesto artístico, cultural e espiritual, que reafirma o poder do samba como uma expressão autêntica de fé, identidade e pertencimento. Este álbum é para ser ouvido com atenção, refletido com o coração aberto e celebrado como uma contribuição essencial para a música brasileira contemporânea. 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.