Mal se passou oito dias e ninguém mais aguenta essa maldição d’A Banda Mais Bonita da Cidade. Há muitas eras atrás (ontem) eu escrevi um post focando especialmente questões técnicas de microfonação deste clipe, provavelmente a parte mais inovadora, já que criticam por aí que são, todos da banda, um bando de bunda moles neo-hippies, além de fazerem a canção mais chata e repetitiva do período 17-25 de maio de 2011.
Ainda assim, o Daniel de Bem, a quem eu agradeço as considerações, me alertou que já fizeram clipes com essa estética, e para a web!
Vamos ouvi-lo:
O Vincent Moon é um cara que faz uns vídeos iguais ao da banda mais bonita da cidade, inclusive ele já esteve em POA para uma mostra comentada de seus vídeos. Mais especificamente, este é o perfil do La Blogotheque, o projeto que criou (ou fez famoso) esse lance de filmar a banda ao vivo (maioria das vezes em planos sequência) em locais inusitados, bem longe da ideia de apresentação musical.
Tem vídeo com o Beirut, que ele filmou várias músicas. Inclusive o video mais famoso que ele fez do Beirut foi da música Nantes, que alguns acusam de que o video d’A Banda Mais Bonita da Cidade não passe de um plágio com trechos desse e de outros vídeos.
Mas chamei a tua atenção pois todos os pontos que tu levantou dos porquês do video ser um bom video, já estão presentes nos vídeos do Vincent Moon. E é por isso que na descrição do video d’A Banda Mais Bonita da Cidade diz “sim, nós adoramos Beirut”. Os caras mandaram bem e o video deles é do caralho. só acho que deveria haver um “inspirado nos vídeos de Vincent Moon”.
Vejam o Nantes:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=jc3ZAs17uAg]
OK, mas eu discordo, porque neste clipe só tem o microfone da câmera e uma lapela no vocalista, enquanto que no d’A Banda Mais Bonita da Cidade são vários os microfones, e tem todo aquele lance do produtor de áudio mixar os sons de acordo com o enquadramento visual. Pode ser inspirado, com certeza, mas no final os sentidos agenciados são bem diferentes. Pra mim, Oração (o video) é um elogio aos hardwares e softwares de captura e edição de áudio portáteis (inspiro-me em Flusser aqui). Esse clipe seria impossível de ser produzido em 1960, por exemplo, porque os microfones tinham que ser conectados a mesas de som que não saíam do lugar!
Também é diferente do clipe do Beirut porque enquanto este também é uma performance ao vivo, na rua e para um grande público, em Oração é uma performance cinematográfica, pois eles atuam para as câmeras. Aí entram outros valores em jogo, como a potencialidade de um close, por exemplo, que os músicos sabem que pode acontecer, então eles contém as caretas e expressam mais essa cara de maconheiro feliz.
Quero lembrar dois casos contemporâneos de microfonação in loco, mais para salientar as diferenças técnicas entre esses e o Nantes e Oração. Reparem como são quatro métodos bem diferentes:
Primeiro, o clipe Drunk Girls, da LCD Soundsystem. Reparem abaixo que, aos 18 segundos do vídeo, um dos caras vestido de branco, ao colocar um microfone diante do músico, testa ele, e ouvimos esse som. Aí já há uma mudança dos clipes tradicionais: foi preciso provar ao espectador que este não é um microfone cênico. Em seguida, o músico canta, e sua voz vaza por cima da música original, como se fosse um karaokê (exceto por que a sua voz permanece na gravação original também).
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=aY7-0W0celo]
Aos 36 segundos, uma garota da banda canta diante de outro microfone. Mas no áudio original ela não faz isso, o que fica bem estranho para nosso olhar acostumado com videoclipes dublados. Aos 1:18, um dos caras de branco toca o alarme de um megafone diante de um microfone, tão alto que a música quase não se ouve. Como vocês podem ver no clipe, o fator bagunça é o fundamental, e para ser mais impactante do que o clipe de Smells Like Teen Spirit, a zona ocorre na trilha sonora também.
Um segundo caso é o clipe Make you feel my love, da cantora Adele, dirigido por Mat Kirkby. O clipe começa com ruídos urbanos e um piano. Abaixo, aos 31 segundos, Adele pega um celular de uma mesinha e ouvimos o ruído dessa ação. Novamente, algo que não é típico de videoclipes. Em seguida ela começa a cantar, e pela acústica da sala e imperfeições, conseguimos reparar que o som da voz dela foi capturado ali mesmo. O piano é uma gravação, que talvez tenham reproduzido para ela no fora-de-quadro, enquanto um microfone, dessa vez também fora-de-quadro, captura sua voz. Se não for isso, pelo menos é assim que soa, mesmo em caixas de som boas e em alto e bom som.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=0put0_a–Ng]
É de se estudar todos estes casos. Por que será que, do nada, os diretores de videoclipes decidiram tirar a mordaça dos microfones? Por que criaram essa diluição das diferenças entre o gravado e o ao vivo?