Proibida a entrada de homens (só acompanhados de mulheres)

Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas #2

por Amanda Schultz, Cecília Filappi, Giovanna Depentor e Rafaela Bobsin

A festa Vênus é pensada para ser um rolê acolhedor para mulheres LGBTQIAPN+.

– Na minha época o Chuck dava medo. Parabéns! – diz uma desconhecida.

Foi o que nossa amiga fantasiada de Chuck – usando um collant imitando a blusa e a jardineira do personagem, meia calça arrastão e maquiagem de cicatriz no rosto – ouviu poucos minutos após descermos do Uber. A mulher que falou isso seguiu andando pela rua, até uma caminhonete, subiu na caçamba e ficou dançando. Ali percebemos que a noite tinha tudo para ser boa e estava só começando.

Antes disso, na casa de uma de nossas amigas, seis meninas se arrumam para uma festa temática de Halloween. A intenção era sair de casa até às 23h, mas entre uma chuva às 19h, o tempo para arrumação e a janta de tantas pessoas em um lugar não tão grande, a saída atrasa. A mesa da sala fica coberta de maquiagens e espelhos improvisados, no ambiente tocam músicas variadas – predominantemente funk – e a animação já se apresenta nas conversas e risadas. Uma das gurias do grupo prepara um copo de kit (sem moderar na dose de vodka). Para quem não sabe, kit é a mistura de refrigerante ou energético com alguma bebida alcoólica, normalmente vodka. No auge da bagunça, a luz cai por uns minutos, ligamos as lanternas do celular para uma das meninas acabar a maquiagem. Logo a energia volta, e estamos prontas!

Por volta das 23h20, em dois Ubers, partimos em direção à Bash – local de Porto Alegre em que a festa acontece. Ao chegar no lugar, a fila está grande e parece não se mover. Vamos para o fim dela, empolgadas com a criatividade das fantasias, que iam desde personagens como a Coraline até o Pikachu.

Dois caras, claramente alterados e ainda com os copos nas mãos, se aproximam de um grupo de meninas na nossa frente e perguntam qual é a festa, enquanto parecem escanear as pessoas enfileiradas. Após a resposta, fazem um comentário em tom de ironia do tipo “só mulheres?? e não podemos entrar? ah, que pena”. Nesse momento escutamos a resposta, também com deboche, “é só colocar uma peruca então.” E eles seguem andando frustrados, mas ainda de olho nas garotas.

A Vênus é uma festa que acontece sem uma frequência definida e em diferentes cidades, em Porto Alegre ela normalmente ocorre na casa noturna Bash. O evento é organizado pelas influencers gaúchas Bruna Marini e sua namorada, a DJ Isa Terra. No Instagram, as produtoras retratam a festa como um “rolê autoral” feito de mulheres para mulheres. A festa permite a entrada de homens apenas acompanhados de mulheres – por mais que isso seja mal visto por parte de quem frequenta a festa.

De acordo com Mariana Gonçalves, uma das autoras do livro Marginália Metropolitana (2025, p. 41-42), “estar à margem por vezes pode suscitar o desejo de deslocar-se do ponto de invisibilidade corriqueira para corpos marginalizados, trazendo esses corpos para o centro da atenção do cenário criado pelo ecossistema da cultura de um lugar”. Ao trazer mulheres com vivências em comum como ponto focal em um ambiente, um ecossistema é criado. Assim, a festa se coloca como um lugar seguro para amar e formar amizades. É com essa expectativa que escolhemos ir na Vênus: curtir e analisar um lugar que se propõe focar nas mulheres, sem que sejam um chamariz para encher o local de homens.

Nosso grupo era composto por sete pessoas, sendo quatro as autoras desse texto. Entre nós há uma pessoa com uma fantasia de Chuck, outra está de Tiffany, o par romântico do Chuck. Temos ainda uma bruxa, uma vampira, uma na estética melindrosa e uma Catra (da nova versão da série animada She-Ra). Mais tarde chegaria a Jessie do filme Toy Story, para completar nosso grupo. Importante pontuar que a Chuck, a Tiffany e a Jessie são, na verdade, as únicas mulheres héteros do grupo.

Foto mostra três braços com pulseiras rosas onde está escrito "mulher que beija mulher", também tem uma escrita digital indicando que um dos braços pertence a "Tiffany (amiga hetero)".

Pulseiras identificando “mulher que beija mulher” foram distribuidas para todas que entravam na festa

Na entrada da festa, há duas mulheres colocando pulseiras no braço de quem entra. Lembramos de ter visto que elas seriam para indicar mulheres sáficas – nosso grupo se animou com isso. Pelo que havíamos entendido, apenas quem quisesse usaria a pulseira. Porém, ao entrarmos ninguém nos perguntou sobre nossa sexualidade e já começaram a colocar o papel no braço de todas. Tiffany viu o texto “Mulher que beija mulher” impresso e, percebendo do que se tratava, falou: “Mas eu não beijo, moça!”, o restante do grupo que ficou para trás, só escutou essa frase e não entendeu nada — porque ela tava falando isso do nada? A mulher quase deixou com que ela entrasse na festa sem a pulseira, mas viu que todos ao redor estavam usando e disse “acho que não pode entrar sem.” Nossa amiga aceitou e entramos na festa, todas com pulseira no braço.

Avançamos um pouco para dentro do espaço, paramos e debatemos entre nós essa questão, todas estavam rindo. Sem conseguirmos entender se foi algum erro de comunicação entre a organização e quem estava recepcionando ou se as pulseiras serviam como ingresso, entramos definitivamente no local.

A Bash é um espaço grande, com dois andares ligados por meio de uma escada, não vimos nenhum meio de acessibilidade. O primeiro está quase vazio, há uma chapelaria e dois banheiros, o feminino e o masculino, mas como não haviam muitos homens, o masculino funciona como unissex. Observamos o espaço, as interações das pessoas e em seguida vamos ao banheiro. Uma das regras principais dos rolês femininos: identificar o banheiro e esvaziar a bexiga antes de qualquer coisa.

– Tô sentindo o espírito LGBT no meu corpo. – Gritou uma menina dentro do banheiro.

Foto das portas dos banheiros femininos e masculinos. É possível ver que no banheiro masculino há diversas mulheres.

Banheiro “masculino” era utilizado como unissex na festa

O que se observa nesses primeiros espaços é como grupos chegam prontos ou começam a se formar. Algumas pessoas entram juntas e se mantêm assim passando entre os espaços, enquanto outros parecem se encontrar lá dentro, se cumprimentam e trocam abraços. Há quem aparenta estar muito feliz com a possibilidade de tirar foto com as organizadoras da festa, que são receptivas e demonstram empolgação com todos – elas já haviam demonstrado isso momentos antes, quando apareceram na fila para elogiar as fantasias e gravar alguns conteúdos.

Seguimos para o segundo andar. Na entrada encontramos um paredão com o “cupido das deusas”. Esta foi mais uma das propostas, uma espécie de “tinder” no local – mas que consistia apenas na foto e número delas para quem quisesse tentar um match. Além disso, havia um espaço de flash tatoos, ainda vazio.

Depois desta “antessala” chegamos, de fato, ao espaço em que a festa estava acontecendo. A DJ Beti, primeira entre três que tocaram na noite, já havia começado seu set.

Segue uma tentativa de desenho exemplificando a distribuição do lugar:

Exemplificação do espaço onde a festa aconteceu

A disputa por um espaço

Ao entrarmos avaliamos o espaço: a pista já quase cheia – por mais que tivéssemos chegado num horário razoável, definitivamente mais pessoas chegariam –, o bar mais vazio. Começamos a tentar nos posicionar. Os locais mais próximos da DJ estão todos ocupados, os camarotes nas laterais – um degrau mais alto que o restante da pista e os únicos lugares para sentar – também estão cheios.

Como não queremos perder tempo, vamos dar uma olhada no que tem no bar. Todas as atendentes e bartenders são mulheres. Nessa mesma semana haviam sido divulgados os primeiros casos de intoxicação por metanol, então estávamos bem atentas e com certo receio de beber qualquer coisa, queríamos enlatados. Uma lata de Skol Beats estava R$27,00. Quem precisa de bebidas quando está entre amigas, não é? Então seguimos.

Paramos primeiro no lado esquerdo da pista. Ouvimos um pouco das músicas. A princípio, o que percebemos é que a primeira DJ parece tocar, majoritariamente, músicas de rap remixadas – e todas pareciam meio iguais. Fazemos uma pequena roda entre nós e começamos a dançar. Nesse momento, com dificuldade de chegar onde estamos, a última integrante do nosso grupo aparece, a Jessie.

– Que sensação boa, não tem ninguém encarando. – Diz uma das gurias do grupo.

Mais tarde, quando entrevistamos algumas pessoas presentes na festa, elas dizem coisas parecidas. Uma das grandes questões da Vênus é essa: em um lugar em que a maioria dos frequentadores são mulheres, quase todas se sentem mais à vontade para vestirem o que quiserem. No nosso próprio grupo isso aconteceu. A sensação era unânime: um ambiente leve, sem julgamentos.

– Mesmo estando namorando eu me senti muito segura de vir com uma saia minúscula, porque ela só é de mulheres – Comentou Eduarda, uma das pessoas que conversamos.

Apesar disso, os espaços físicos que podem ser ocupados estão em constante disputa. Não conseguimos avançar muito para dentro da pista de dança – cada grupo está muito fiel a seu espaço –, então contornamos pelo bar para o lado direito. Abrindo espaço pela multidão, chegamos quase na “quina” direita do camarote das organizadoras.

Ali vemos mais nitidamente que algumas pessoas estão coladas próximas de onde a DJ toca e aparentam não estar dispostas a sair dali. Apesar de acharmos um espaço, somos constantemente empurradas por quem vai de um lugar para outro. A sororidade feminina parece acabar quando um grupo reivindica um lugar para si – fantasias com lantejoulas chegam a machucar quem está rebolando ativamente.

Apesar disso, não há nenhum desconforto com caras tentando ficar com alguém ou passar a mão. Quando uma garota tenta chegar em alguém do nosso grupo, é assim: “Amiga, tá solteira?”.

O tempo passa e, para nós, as músicas não melhoram. Apesar disso, tentamos aproveitar e fingir que estava um máximo.

– Eu to gostando mas achei que ia ter mais funk e acho que tá, tipo, colocando um pouquinho demais de eletrônica no meio, não precisava tanto. – Comentou Stephanie, uma das meninas que estava na festa.

Quando a segunda DJ começa, o público parece se animar. Por ser uma das organizadoras da festa, Isa Terra era uma das “atrações principais” e esperada por várias pessoas, além das danças da influencer Bruna Marini – que nos fez sentir mais com vergonha alheia.

Ela toca diversas músicas de funk com mixagens próprias. O que surpreende é que, apesar de ser uma festa para mulheres, as músicas são, no geral, cantadas por homens. Ela mexe tanto nos sons que em vários momentos demoramos para entender que música é, mesmo nossa amiga – a mesma que tentou entrar sem a pulseira – que conhece mais músicas de funk aparenta ter essa dificuldade. A festa tem uma música oficial desenvolvida pela DJ, mas nem isso parece animar as pessoas.

Por volta das três e meia da manhã a última subiu ao palco, DJ Luizza. Já estamos exaustas. Os sons começam a variar um pouco mais entre pop e funk. Nesse momento já havíamos nos despedido de duas integrantes do nosso grupo e começamos a nos olhar com uma cara de cansaço, como quem pensa “vamos pra casa?”. Andamos mais para as laterais da pista em busca de algum lugar para nos escorarmos e descansarmos as pernas. Encontramos uma espécie de caixa grande em um canto e começamos um revezamento. As músicas já não nos animam muito, por mais que começassem a ser mais conhecidas.

A proposta da festa era que tocasse funk e músicas pop remixadas para funk. A maioria das integrantes do nosso grupo gosta, justamente, de música pop – tendo cantoras como Lady Gaga e Sabrina Carpenter entre as favoritas. Trotta (2023, p. 41) chama a atenção para a questão do preconceito envolvendo o funk: “apesar de ser reconhecido como música criativa e dançante pelos frequentadores dos bailes, o funk vem enfrentando um forte preconceito, emaranhado com ideias sobre pobreza, negritude, violência e sexualidade explícita”, alguns entrevistados pelo autor apontam a questão da sexualidade e sensualidade como um problema na música pop, sendo esse um ponto em comum entre os dois gêneros que esperávamos ouvir ao longo da noite. Não vemos essas questões como algo negativo e vamos para a Vênus com a expectativa de ouvir justamente o tipo de música descrita, esperando a possibilidade de dançar livremente em um espaço em que estaríamos à vontade.

“Definir uma experiência musical como incômoda é o movimento final de uma atividade corporal e intelectual de interpretação de ideias sobre a música ouvida, que é, por sua vez, socializada em performances de gosto que se estabelecem para expressar e elaborar essas interpretações. […] essa interpretação não é apenas estética ou socialmente construída, mas é emoldurada por crenças morais e éticas e, consequentemente, é fortemente afetada por elas. O reino da moral é o reino das regras e convenções sociais, um conjunto de pensamentos sobre o qual nossa vida diária é vivenciada.” (Trotta, 2023, p. 28-29)

Entender as letras e quais eram as músicas tocando, para nós, fazia parte das regras da noite. Entretanto, a mixagem feita aproximou elas mais do eletrônico, estilo que não faz parte do gosto pessoal de nenhuma de nós. Além disso, o fim de uma música se misturando com o começo da próxima e tudo virando uma coisa só, afetou ainda mais a nossa experiência. Por mais que tentássemos dançar e aproveitar, o fato de nossas expectativas e gostos pessoais não serem correspondidos causou uma não-identificação, resultando em um incômodo.

Um dos poucos momentos em que as pessoas da festa se animaram – e nós nos empolgamos junto – foi quando tocou “Chupa Xoxota”. Para Trotta (2023, p. 31) “a música é um artefato acionado por grupos sociais e indivíduos para atuar, pensar e elaborar ideias, incluindo ideias sobre sexo e amor. Ideias sobre o que é certo e errado relacionado ao sexo e ao amor”, por isso, achamos que faz sentido que em uma festa com o público principal sendo mulheres sáficas, ocorra uma animação quando a música representa, em alguma medida, a comunidade – apesar de obviamente “ser mulher” não estar atrelado apenas à genitália. Ocorre, inclusive, uma espécie de “subversão” da música, já que originalmente ela é cantada por um homem e, na festa, passa a ser algo mixado e cantado “em coro” por mulheres (e para mulheres).

Apesar desse momento, no fim da noite na Vênus estamos meio frustradas, ainda tentamos nos convencer de ficar mais um pouco, porque está começando a melhorar, mas às 4h20min descemos para o primeiro andar e nos preparamos para ir. No térreo encontramos várias pessoas sentadas no chão, também esperando seus transportes, outras conversam e tomam água. Na saída aquelas que tem cartão de consumo ganham uma garrafa de água – o momento mais feliz da noite para algumas de nós.

Duas vão embora em um carro e outras três, que dormiriam na mesma casa, em outro. De volta no mesmo apartamento do começo da noite, conversamos entre as três que ainda estão juntas sobre o que achamos da festa, reclamando o máximo possível – reclamações que, depois, seriam compartilhadas entre todas.

Muito além de uma noite de festa

O primeiro lote de ingressos da Vênus esgotou em cerca de dois minutos. Ele foi liberado no grupo de WhatsApp da festa horas antes do “lançamento oficial” nas redes sociais. Um dos pontos que torna a Vênus uma festa diferente de outras tradicionais é a criação de uma comunidade em volta dela.

O grupo de WhatsApp tem cerca de 700 pessoas. Entramos nele poucos dias depois que a data e o tema do evento foram anunciados. As mensagens eram constantes, mal conseguimos acompanhar. Nele, há pessoas que foram em várias edições do evento, quem está planejando ir na próxima e quem só se mantém porque fez amizades.

Nos dias entre o anúncio do evento e a festa as conversas variaram muito. Enquetes eram feitas de tempos em tempos, para saber questões como idade, se estavam namorando e qual o signo das pessoas. As meninas se tratavam como se fossem amigas próximas a anos, discutiam suas fantasias e partilhavam fofocas do dia a dia. As organizadoras da festa não participavam muito.

Prints das enquetes e regras do grupo no WhatsApp da festa Vênus

Uma das principais movimentadoras do grupo se chama Catarina. Antes da festa ela sempre puxava conversas, interagia com todo mundo – coisas que continua fazendo. Ela já esteve em mais de uma edição do evento e, recentemente, se tornou a administradora dele, convite que veio da própria Bruna Marini. Agora é ela quem aceita que as pessoas entrem no grupo e, sempre que uma nova leva entra, ela relembra as regras da comunidade.

– Conversar é muito legal, eu gosto de trocar ideia e conhecer novas pessoas, acho que isso é uma característica minha independente do grupo de whatsapp, mas por ser o da vênus eu me sinto sempre muito confortável sempre foi muito legal, então acabou que eu virei uma vereadora dentro do grupo, foi bem divertido. – Catarina, atual administradora do grupo de WhatsApp da Vênus.

Além do grupo, atrações como o “Cupido das Deusas” – o tinder na parede – e o concurso de fantasias que ocorreu durante a festa fortalecem essa construção de comunidade em torno da festa. Isso porque são divulgadas com antecedência nas redes sociais e precisam de inscrição prévia. Algumas das meninas na parede do cupido também eram as mesmas que interagiam com frequência no grupo.

Vale ressaltar que o nome da festa é “Vênus: Baile das Deusas”, por isso, as organizadoras costumam se referir às frequentadoras da festa como “Deusas”. O grupo do WhatsApp, por exemplo, é o “Grupo das Deusas” e as próprias garotas às vezes usam esse termo para se referirem às integrantes do grupo. Ou seja, mulheres que fazem parte da comunidade ou vão à Vênus são chamadas de “Deusas”.

Toda essa construção antes da festa gera uma expectativa. O evento se torna o ponto de encontro entre pessoas que, até então, só conversavam virtualmente. A Vênus cria um espaço de acolhimento e pertencimento, que passa a sensação de ambiente seguro para mulheres.

Desencantamentos na Vênus

A festa de fato é feita por mulheres, e o público é, na maioria, feminino. Mas algo se perdeu entre as promessas e o que realmente aconteceu, e a sensação que ficou foi de decepção. Criamos expectativas muito altas em cima do que estava sendo divulgado – bem que dizem que não se deve criar expectativas. Uma noite cheia de potencial acabou sendo só uma festa para preencher o Instagram.

Era esperado que o evento fosse bastante midiatizado, já que as organizadoras são influencers. Mas chamou nossa atenção como a Bruna Marini e a DJ Isa Terra estavam sempre acompanhadas de uma enorme luz de led e câmeras para registrar todos os seus passos. Por mais que fossem simpáticas e gentis com as frequentadoras da festa, diversos momentos pareciam ensaiados e pensados para que gerassem conteúdos.

Em um desses momentos as influencers pediram para todos ligarem as lanternas do celular e balançar conforme a música. Nós já estávamos em um canto, com dor nos pés e pensando em ir embora. Assistimos o que estava acontecendo e comentamos entre a gente que o pessoal parecia desanimado, principalmente quem estava mais longe do espaço em frente à DJ. Depois da festa, esse e outros vídeos foram publicados, com o foco quase sempre nas influencers. Na publicação no Instagram esse vídeo dos celulares dava a impressão de que as pessoas estavam animadas, o que não era a nossa percepção.

A sensação que fica é que a festa tinha mais momentos e propostas para sair bem nas mídias do que para vivenciar e aproveitar de fato. E isso não só para as influencers, já que teve muito conteúdo produzido por quem estava na festa para seus perfis pessoais. Tudo isso reforça a construção da comunidade: mostrar as interações das influencers com quem estava na festa, incentivar e republicar os conteúdos que as pessoas fazem, dando sempre uma sensação de que a festa e quem está nela é muito “acessível”.

O problema é que algo se perdeu nesse processo. As músicas não eram contagiantes, as bebidas absurdamente caras e as pulseiras foram mal administradas. A Vênus age como um território para mulheres, especialmente as LGBTQIAPN+, ficarem à vontade. Um espaço de protagonismo e liberdade para quem, muitas vezes, precisa lidar com construções sociais que constrangem e forçam com que andemos vestidas e comportadas de determinada forma.

Quando pensamos, por exemplo, na ideia de Eduarda Fernandes de “contágio”, percebemos que há um contágio antes da festa. Um contágio de expectativa através das diversas interações. Porém, na festa, o contágio não foi para dançarmos, mas sim de desanimação.

“O que quero dizer é que é difícil não se contagiar ao participar de uma pista de dança. Um contágio dos corpos, das músicas, das prescrições, e todo aparato sócio-técnico. Contágio que buga as fronteiras entre sagrado e profano.” (Fernandes, 2025, p. 58)

Nós tentamos ser contagiadas pelo ritmo com toda a disposição que tínhamos, mas a mediação entre DJ e pista foi mal feita, era como se as DJs não percebessem que a maior parte da pista não estava curtindo tanto. As músicas poderiam ter se adequado melhor ao público, quem não gostaria de ouvir uma Lady Gaga ou qualquer música completa ao invés de vários remix que dificultam saber o que está tocando? Quem não gostaria de poder sentir a música e dançar à noite com suas amigas ao invés de ficar parada analisando: que música é essa?

Todas essas opiniões foram nossas, mas mais do que isso, foram de parte das deusas da festa. No dia seguinte, as mensagens no grupo de WhatsApp eram todas parecidas, a maioria das pessoas reclamavam da festa: a música não estava tão boa, o lugar era apertado – mesmo que as produtoras tenham prometido que o cálculo de número de ingressos era para não lotar – e a bebida cara. Algumas garotas – normalmente as mais engajadas no grupo – defendiam que tinham achado boa:

Conversas e reclamações após a festa no grupo de WhatsApp da Vênus

Na festa, conforme a noite passava e a pista esvaziava, a presença masculina ficou mais nítida. No geral, havia alguns homens parados – quase como guarda costas – próximos das namoradas que ainda dançavam animadas. Para algumas de nós, isso gera um leve desconforto, e nos faz lembrar que não deveria ser necessário a existência de uma festa sem homens para que a gente se sinta à vontade no lugar. Nos questionamos se outras festas são “uma ameaça” tão grande ao ponto de essas mulheres que namoram com homens se sentirem mais à vontade em um espaço frequentado majoritariamente por mulheres. A realidade é que não somos respeitadas em muitos espaços de festas e um rolê como a Vênus representa uma grande expectativa de vivenciar experiências de forma mais leve – o que ocorre em alguma medida.

A conclusão é que, no fim, algumas mulheres beijam mulheres e mesmo num role ruim todas têm muitas histórias para contar.

Referências

BERNARDO, Gabriel (org.). Marginália Metropolitana. Porto Alegre: Marginália Metropolitana, 2025. Disponível em: https://marginaliametropolitana.com.br/wp-content/uploads/2025/04/marginalia_pdf_19abr.pdf. Acesso em: 07 dez. 2025.

TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48. Disponível em: https://revistas.usp.br/matrizes/article/view/206082. Acesso em: 10 dez. 2025.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.

Retromania e o fim das vanguardas: comentário do mediador

Fui entrevistado há duas semanas para o caderno Mais Preza, do Correio do Povo. Queriam que eu dissesse como eu achava que seria (ou como está sendo) a música de 2012. Segue, abaixo, todas as minhas considerações que não foram publicadas no jornal, e que penso que conectam com o tema abordado pelo Clube do Pop na Semana Acadêmica da Comunicação da UFRGS.

Tem um livro do Simon Reynolds, que é um crítico muito famoso de música popular, recém lançado e intitulado Retromania, no qual ele defende que a música da nossa época está viciada em olhar para o próprio passado. Entre vários exemplos, ele cita a Adele como um revival de várias outras divas do R&B do passado. Então ele diz ainda que a última década (2001-2010) não emplacou um estilo musical que a marcasse, como o grunge e o eurodance na década de noventa. Eu acho válido e importante entender esse momento que estamos vivendo, e que não podemos negar que o que parece envelhecido tem valor de mercado.

O Vaccines, por exemplo, que é uma banda nova, fazendo um clipe com fotos tiradas pelos fãs e publicadas no instagram; ou a carreira solo do Jack White, que segue aquele clima punk caipira do White Stripes, sem contar que ele está apadrinhando “crias bastardas” como a Black Belles. Temos exemplos também de 2011, mas que vão refletir muito o que deve se estabelecer para 2012: os discos de Noel Gallagher e do Beady Eye, tem respectivamente, o melhor do Noel e o melhor do Liam do Oasis em cada um. Ambos optaram por um caminho mais tranquilo, sem romper com o contrato que eles estabeleceram com seus respectivos fãs (bem o contrário do que o Radiohead fez no Kid A ou o Los Hermanos no Bloco do Eu Sozinho). 2011 e 2012 estão se marcando pela volta de grandes nomes: aqui em Porto Alegre, a Graforréia Xilarmônica recém lançou dois singles. E a volta deles é tal qual a de Beavis & Butt-head na MTV: extremamente conservadora em termos estéticos. Isso não quer dizer que é uma “saída fácil”. Fazer música nova mantendo muitos padrões estéticos e o interesse dos fãs é igualmente difícil a produzir um Kid A. O Foo Fighters também voltou dessa maneira, tentando soar como se estivessem em 1991. E conseguiram vários Grammys.

Voltando pro Simon Reynolds, teve mais uma coisa que ele disse: que talvez o gênero que melhor se consolidou como “da década de 2000” teria sido o indie rock, mas que ele não consideraria porque não atingiu o mainstream da mesma forma que o grunge conseguiu em 1990. Mas, será que não foi esse o grande mérito do indie rock dos 2000? Com o advento do MP3, dos tocadores portáteis digitais e toda a parafernália que nos permite levar no bolso mais de 1.500 discos, não teria ficado mais difícil chegar no topo das paradas? E o público não teria se segmentado, criando culturas de fãs as mais variadas?

Acho que não dá pra pensar “sucesso” hoje como se pensava há vinte anos. Como resposta a isso, eu cito o trabalho novo de Thurston Moore, do Sonic Youth, que após terminar com Kim Gordon (e consequentemente acabando com o Sonic Youth), encostou sua guitarra (e desta vez não em um amplificador) e gravou um disco com violões e violinos, e reinventou o pós-rock. Acho que é o mesmo caminho da PJ Harvey no seu disco Let England Shake, mais introspectivo. Parece que, para eles, depois de vinte a trinta anos de carreia, eles já estabeleceram todo um universo underground, que se opôs ao que estava como estabelecido, e agora esse underground também já se estabeleceu!

Desse modo, acho que uma possível tendência para a década de 10 que está começando é a seguinte: o indie rock, ou pós-rock, como queira, vai passar de um estado barroco (no sentido de tentar romper com o status quo) para um estado clássico. Eu acho que isso já está acontecendo, tem muita banda tocando nas pistas de dança e nas rádios cuja inspiração são bandas mais obscuras das décadas de 1980 e 1990. Pra mim um dos melhores exemplos é a banda The Joy Formidable, um trio galês que lançou ano passado o The Big Roar, seu primeiro disco, com muita energia e guitarras carregadas de drones (sustentação ou repetição incessante de uma mesma nota ou acorde) e ruídos, mas ao mesmo tempo respeitando o formato canção. Eles pegam o melhor do pós-rock da região deles, que é o cuidado maior com timbres ruidosos de guitarra em detrimento à melodias (característica do shoegaze), mas unem a uma estrutura mais radiofônica.

Me parece que vai ser uma época de muitas guitarras guturais, com muito reverb, ritmo dançante, e aquele efeito de rádio estragado nos vocais, como ocorre nos Strokes e todas as bandas que vieram depois, de The Killers a The Vaccines. O indie vai infectar todos os outros estilos.

Não acho também que não se criam coisas novas no atual período que o Simon Reynolds chama de “era retrô” (o Lev Manovich chama de “era remix”, então quem tem razão?)… Essa questão de o que é “original”, “novo”, “criativo” é super problemático e caro para a filosofia, mas não cabe discutir aqui… Se for pra pensar assim, Black Sabbath não era original, porque misturava blues com obscurantismo e poderíamos pensar assim de tudo o que ocorreu na música. Isso acontece porque a gente reconhece e interpreta uma imagem que vemos no mundo a partir de imagens que temos na memória, então algo “novo” sempre remete a algo “velho”.

Eu penso que as bandas de hoje, de 2012, são tão criativas quanto as anteriores, e acho muito mais difícil fazer rock agora porque temos muito mais imagens na memória do que é rock do que tínhamos em 1969. Se for necessário exemplos, eu ilustraria com Vampire Weekend, de novo com o Thurston Moore e a PJ Harvey, MGMT, Mark Ronson, Gorillaz, LCD Soundsystem e Arcade Fire. Dá pra se reconhecer os intercessores de cada um, mas ao mesmo tempo pode-se reconhecer em cada um desses artistas muitas características novas, digo, mais desprendidos de imagens antigas, e mais do que aparenta.

A música de 2011 e 2012 é muito mais do que Adele e Foo Fighters.Não podemos nos deixar levar só pelo mainstream.

E pra fechar, talvez seja isso que o indie rock dos anos 2000 vai nos mostrar: que o mainstream não comporta mais as vanguardas, como ocorreu com o grunge e o Radiohead. Graças ao acesso facilitado à música atual, os movimentos de revolução da música pop voltarão a ser minoritários.

PodCast: Scum. Agenciamentos midiáticos na conformação do metal extremo

O disco “Scum”, da Napalm Death.

No dia 21 de maio de 2012, Fabrício Silveira, doutor em comunicação e professor da Unisinos, palestrou na Semana Acadêmica da FABICO (UFRGS) sobre a dimensão midiática da experiência sonora do disco Scum, da banda Napalm Death. O Clube do Pop, do qual faço parte, organizou o evento. E gravamos um Pod Cast. Ouça na íntegra, dividido em duas partes, a palestra e as perguntas dirigidas à Fabrício:

PARTE 1:

PARTE 2:

Abaixo, alguns dos vídeos que ele mencionou na palestra:

Napalm Death – You Suffer:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yOB-vE6wqks]

Blast Beats:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Bi25Qy8oRTI]

Entrevista do Sex Pistols para a TV britânica:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wEvGzd8k6WQ]

Kurt Cobain fora da casinha:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Cyc1RJXgbwM]

PodCast: Scum. Agenciamentos midiáticos na conformação do metal extremo

O disco “Scum”, da Napalm Death.

No dia 21 de maio de 2012, Fabrício Silveira, doutor em comunicação e professor da Unisinos, palestrou na Semana Acadêmica da FABICO (UFRGS) sobre a dimensão midiática da experiência sonora do disco Scum, da banda Napalm Death. O Clube do Pop, do qual faço parte, organizou o evento. E gravamos um Pod Cast. Ouça na íntegra, dividido em duas partes, a palestra e as perguntas dirigidas à Fabrício:

PARTE 1:

PARTE 2:

Abaixo, alguns dos vídeos que ele mencionou na palestra:

Napalm Death – You Suffer:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yOB-vE6wqks]

Blast Beats:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Bi25Qy8oRTI]

Entrevista do Sex Pistols para a TV britânica:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wEvGzd8k6WQ]

Kurt Cobain fora da casinha:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Cyc1RJXgbwM]

Do rei Pelé ao Messi Playstation: o futebol também é pop

Segue abaixo o áudio das apresentações da primeira mesa do Clube do Pop na Semana Acadêmica de Comunicação 2011, que ocorreu na Fabico, em 4/10.

Anderson David dos Santos

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Ana Acker

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Apresentação Seminário Clube do Pop.

Márcio Telles

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Acesse sua apresentação com links para vídeos mencionados (Prezi).

Perguntas

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Do rei Pelé ao Messi Playstation: o futebol também é pop

Segue abaixo o áudio das apresentações da primeira mesa do Clube do Pop na Semana Acadêmica de Comunicação 2011, que ocorreu na Fabico, em 4/10.

Anderson David dos Santos

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Ana Acker

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Márcio Telles

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What is the brother? Celebrificação na web

No dia 6 de outubro de 2011, o Clube do Pop fez sua terceira mesa na Semana Acadêmica da Comunicação, intitulado What is the brother? Celebrificação na web. Quem não assistiu pode, por aqui, ouvir em podcasts a apresentação de cada palestrante, além de suas apresentações:

Do ponto de vista dos palestrantes, o computador registrando o podcast e os espectadores.

Marcelo Bergamin Conter
Lo-fi: o fascínio pelas imagens de baixa definição 

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Susan Liesenberg
Celebridades da internet e Stefhany do Cross Fox, a princesa do povo

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Camila Cornutti
Celebridades: as apropriações e as remediações nos blogs Cleycianne, Katylene e Te Dou Um Dado

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Pedro Veloso
Celebrificação no blog Emily Diz Olá

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Blog Emily Diz Olá.

Perguntas parte 1

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Perguntas parte 2

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Ed Wood: o primeiro diretor moderno?

Fiz algumas considerações para o debate do filme Glen or Glenda, exibido no Auditório 2 da Fabico (UFRGS), às 11h, hoje, pelo Clube do Pop.

Ed Wood em "Glen or Glenda"

Wood nunca teve dinheiro, nem bons patrocinadores, mas tinha muita força de vontade, inspiração em Orson Welles, e técnicas e estratégias para produzir seus filmes de um jeito ou de outro. Para produzir Glen or Glenda (1953), fez tudo o que podia ser feito para reduzir custos: atuou como o crossdresser suicida, pôs a namorada para atuar, pôs diversas pessoas que nunca haviam atuado para encenar seus desejos em forma de cinema. Só nesse aspecto, Wood teria antecipado o neo-realismo italiano de Pasolini, que utilizou pessoas comuns para refazer a história de Jesus. Mas só porque é trash, ingênuo e não tem uma crítica por detrás dessa opção, Wood, que teve essa ideia onze anos antes, não é reconhecido.

Ele conhecia algumas pessoas do baixo escalão de Hollywood, como um velhinho que trabalhava nos arquivos de um estúdio. Neste arquivo, o material catalogado eram os stock footages, que abrigavam películas inutilizadas. Encenações de guerras, bombas explodindo, autoestradas, planos gerais de cidades, planos detalhes de máquinas industriais, aviões decolando e muitas imagens que não mostravam rostos eram ali arquivados. Embora o velhinho achasse tudo aquilo lixo (“trash!”), Wood apanhava alguns, na crença de que conseguiria compor um filme. De novo, 52 anos antes do YouTube aparecer e as práticas de recortar, copiar, editar e remixar se tornassem tão simples e tão empregada. Reconhecimento? Zero.

Assustador.

Um terceiro aspecto muito relevante de sua obra: em vários momentos, por restrições orçamentárias ou outros inúmeros problemas que sua equipe passava, Wood era obrigado a fazer troca de planos que quebravam o eixo ou que suprimiam um tempo de uma cena, ao contrário do que o cinema clássico normatizava. No filme Plano 9 do espaço sideral (1959), Wood alterna planos que ora são dia, ora são noite em uma mesma cena num cemitério, porque não tinha mais dias para alugar a câmera e achava que as cenas de dia ficaram tão boas quanto as noturnas. Cinco anos depois, um francês muito estudado optou por cortar partes do meio de um plano para reduzir o tempo do filme (de novo por questões orçamentárias), e, mesmo sem crítica por detrás disso (apenas “uma opção estética”), Godard hoje é reconhecido como o homem do jump cut. Ora, pois!

Saindo um pouco das questões estéticas, para produzir o filme Plano 9 do espaço sideral, Wood conseguiu fazer uma parceria com uma igreja batista para arrecadar fundos. Para não perder esse investimento, Wood teve que alterar algumas coisas, como o próprio título do filme, antes Grave Robbers from Outer Space, e teve que batizar vários dos atores. Em Glen or Glenda, temendo que sua namorada soubesse que ele era crossdresser, só a inseriu em cenas que ela não pudesse desconfiar. Na première, o namoro terminou. Provas de que Wood era capaz de usar as pessoas envolvidas a seu favor, coisa que reality shows e vários outros programas de TV vem praticando sem dificuldade. De novo, décadas atrás.

Por fim, Wood conseguiu contratar Bela Lugosi (o Drácula original do cinema) para atuar em vários de seus filmes, embora velho, caquético, viciado em drogas e álcool. Lembra um certo Tarantino que agiu da mesma forma quarenta aos depois.

Por isso eu recomendo assistir aos filmes desse grande diretor que é Ed Wood, um dos pioneiros na arte da dissimulação e das restrições orçamentárias. Wood jogou contra a lógica capitalista, e ganhou (em seus termos). Mais do que isso, é um diretor que põe à prova estéticas cinematográficas atribuídas a vários diretores modernos, trazendo à superfície a questão: “se a intenção do artista não importa para a análise, porque as intenções de Wood o invalidam como tal?”

Ed Wood: o primeiro diretor moderno?

Fiz algumas considerações para o debate do filme Glen or Glenda, exibido no Auditório 2 da Fabico (UFRGS), às 11h, hoje, pelo Clube do Pop.

Ed Wood em "Glen or Glenda"

Wood nunca teve dinheiro, nem bons patrocinadores, mas tinha muita força de vontade, inspiração em Orson Welles, e técnicas e estratégias para produzir seus filmes de um jeito ou de outro. Para produzir Glen or Glenda (1953), fez tudo o que podia ser feito para reduzir custos: atuou como o crossdresser suicida, pôs a namorada para atuar, pôs diversas pessoas que nunca haviam atuado para encenar seus desejos em forma de cinema. Só nesse aspecto, Wood teria antecipado o neo-realismo italiano de Pasolini, que utilizou pessoas comuns para refazer a história de Jesus. Mas só porque é trash, ingênuo e não tem uma crítica por detrás dessa opção, Wood, que teve essa ideia onze anos antes, não é reconhecido.

Ele conhecia algumas pessoas do baixo escalão de Hollywood, como um velhinho que trabalhava nos arquivos de um estúdio. Neste arquivo, o material catalogado eram os stock footages, que abrigavam películas inutilizadas. Encenações de guerras, bombas explodindo, autoestradas, planos gerais de cidades, planos detalhes de máquinas industriais, aviões decolando e muitas imagens que não mostravam rostos eram ali arquivados. Embora o velhinho achasse tudo aquilo lixo (“trash!”), Wood apanhava alguns, na crença de que conseguiria compor um filme. De novo, 52 anos antes do YouTube aparecer e as práticas de recortar, copiar, editar e remixar se tornassem tão simples e tão empregada. Reconhecimento? Zero.

Assustador.

Um terceiro aspecto muito relevante de sua obra: em vários momentos, por restrições orçamentárias ou outros inúmeros problemas que sua equipe passava, Wood era obrigado a fazer troca de planos que quebravam o eixo ou que suprimiam um tempo de uma cena, ao contrário do que o cinema clássico normatizava. No filme Plano 9 do espaço sideral (1959), Wood alterna planos que ora são dia, ora são noite em uma mesma cena num cemitério, porque não tinha mais dias para alugar a câmera e achava que as cenas de dia ficaram tão boas quanto as noturnas. Cinco anos depois, um francês muito estudado optou por cortar partes do meio de um plano para reduzir o tempo do filme (de novo por questões orçamentárias), e, mesmo sem crítica por detrás disso (apenas “uma opção estética”), Godard hoje é reconhecido como o homem do jump cut. Ora, pois!

Saindo um pouco das questões estéticas, para produzir o filme Plano 9 do espaço sideral, Wood conseguiu fazer uma parceria com uma igreja batista para arrecadar fundos. Para não perder esse investimento, Wood teve que alterar algumas coisas, como o próprio título do filme, antes Grave Robbers from Outer Space, e teve que batizar vários dos atores. Em Glen or Glenda, temendo que sua namorada soubesse que ele era crossdresser, só a inseriu em cenas que ela não pudesse desconfiar. Na première, o namoro terminou. Provas de que Wood era capaz de usar as pessoas envolvidas a seu favor, coisa que reality shows e vários outros programas de TV vem praticando sem dificuldade. De novo, décadas atrás.

Por fim, Wood conseguiu contratar Bela Lugosi (o Drácula original do cinema) para atuar em vários de seus filmes, embora velho, caquético, viciado em drogas e álcool. Lembra um certo Tarantino que agiu da mesma forma quarenta aos depois.

Por isso eu recomendo assistir aos filmes desse grande diretor que é Ed Wood, um dos pioneiros na arte da dissimulação e das restrições orçamentárias. Wood jogou contra a lógica capitalista, e ganhou (em seus termos). Mais do que isso, é um diretor que põe à prova estéticas cinematográficas atribuídas a vários diretores modernos, trazendo à superfície a questão: “se a intenção do artista não importa para a análise, porque as intenções de Wood o invalidam como tal?”