Sextante

Entre as memórias, lembrar pelos sentidos

Sem a visão, experiências sensoriais pela audição, olfato, paladar e tato marcam as memórias das pessoas cegas

REPORTAGEM
Joyce Rocha
joycercch@gmail.com

Arte: Jessica Endres Gaspar

A capacidade de armazenar e resgatar informações é a definição da memória humana. Guardadas em diferentes áreas do cérebro, as experiências contam com os cinco sentidos para serem lembradas: visão, audição, tato, olfato e paladar. Na ausência dos recursos visuais, as memórias das pessoas cegas são marcadas pelos sons, texturas, cheiros e gostos.

Da mesma forma que os diferentes tipos de memórias, como as de curto e longo prazo, existem classificações distintas para a perda da visão. Pessoas que não enxergam desde o nascimento têm a cegueira congênita, como a jornalista e produtora de rádio Camila Nunes, de 40 anos. “Minha cegueira é congênita, então eu não tive experiências de imagens. Cheguei a usar óculos por pouco tempo quando era bebê, mas não foi suficiente para armazenar memória visual. Então, as minhas lembranças são muito baseadas em áudio, cheiros, e minha orientação espacial é muito pela audição.”

Camila diz que treina sua memória constantemente: no trabalho, por exemplo, ela memoriza a disposição dos móveis do local. Pela ausência da imagem, a jornalista confirma que os outros sentidos são muito acionados em suas lembranças, principalmente o olfato e a audição. “Naturalmente, a gente exercita mais os outros sentidos. No caso da pessoa que não enxerga, ela não tem o recurso visual, por isso nossa memória é tão importante. Para mim, é muito importante as coisas estarem no mesmo lugar, dentro de casa, no ambiente de trabalho, e, quando tem um excesso de ruído no local, atrapalha a localização espacial”, explica. Na maioria das vezes, ao entrar ao vivo na rádio, ela também lembra o texto sem ter que recorrer à leitura.

Uma das lembranças afetivas mais marcantes para Camila ocorreu durante um aniversário. Aos sete anos, teve uma festa temática do programa da Xuxa, personagem da qual era muito fã na época. Ela lembra que usou uma roupa parecida com a da apresentadora e arrumou o cabelo da mesma forma. Apesar de nunca ter visto como a cantora se vestia, sua mãe sempre descrevia as diferentes combinações a cada programa. 

Descrição da arte produzida com base na memória de Camila Nunes, pela ilustradora Clara Heineck Santi

O estudante de direito e paratleta de judô João Victor da Silva, de 19 anos, também resgata suas memórias por sentidos diferentes da visão. Para ele, lembrar da prática do esporte e dos treinamentos significa recordar um conjunto de elementos, como os barulhos do estádio e o toque dos corpos. “Eu lembro de quem estava lá pelas vozes. Como o judô é um esporte de curto alcance, através do tato e do contato, eu lembro da forma do corpo. Além disso, do tipo de quimono que a pessoa está usando, do clima e do aroma do local”, conta. Desde que começou a praticar judô, há quatro anos, ele participou de vários campeonatos nacionais e Paralimpíadas. 

Além das experiências que guarda na memória sobre as competições de judô, João Victor lembra com carinho de um presente que ganhou da sua mãe quando tinha 14 anos. A lembrança ficou gravada pelo fato de que no dia do seu aniversário ele se sentiu febril, após voltar de uma praça com os amigos. Apesar da sensação de cansaço, ao chegar em casa, encontrou uma pilha de presentes. Entre eles, estava um relógio que carrega até hoje.

Descrição da arte produzida com base na memória de João Victor, pela ilustradora Sôf Vargas

Cegueira congênita e memória de trabalho

Alguns estudos recentes indicam que pessoas com deficiência visual, especialmente com cegueira congênita, como João Victor e Camila, têm certas memórias mais desenvolvidas do que pessoas que enxergam.  É o que afirma o neurologista Raphael Machado Castilhos, do Serviço de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Um experimento que comprova o fato foi publicado na Frontiers in Psychology, revista acadêmica suíça de psicologia, e apontou melhor desempenho quanto à denominada memória de trabalho. Conforme a pesquisa, pessoas cegas desde cedo conseguem gravar e repetir uma maior sequência de letras e números. “A memória de trabalho é quando você guarda uma pequena informação por um curto período de tempo e depois esquece. Por exemplo, quando eu guardo um número de telefone celular que tenho que digitar agora”, explica Raphael.

Segundo o neurologista, os motivos ainda não estão bem definidos, mas já existem algumas hipóteses. Uma delas é que a memória pode ser mais treinada nesses casos. “Quem não tem o estímulo visual, usa mais a questão de gravar informações. O mundo das pessoas cegas é uma sequência de eventos. Se a gente pensa quanto à locomoção, as pessoas com visão simplesmente caminham sem prestar muita atenção no que está acontecendo. Já os cegos têm que saber se tem uma cadeira, uma porta, eles vão memorizar os passos constantemente. Então, há a possibilidade de que os cegos treinam mais a memória do que as pessoas que enxergam.”

Outra possibilidade leva em conta a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de se adaptar nos anos iniciais. Sem o estímulo visual, a área responsável pela visão, localizada no lóbulo occipital, não recebe informação e pode assumir uma outra função. Um papel possível seria o de memorizar. 


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A fotografia de João Maia

Transformar sons em imagens é como João Maia define seu trabalho com a fotografia. O piauiense começou a fotografar na década de 1990, na cidade de Bom Jesus, aos 14 anos. Em 2016, foi o primeiro fotógrafo cego a cobrir as Olimpíadas.

“Fotografar sem a visão é isso: explorar, experimentar os sentidos, que todo mundo tem, mas muitas pessoas não usam porque colocam em evidência só a visão” 

JOÃO MAIA, fotógrafo

Sem contar com o visual, João utiliza principalmente os sons para guiar os registros que faz com a câmera. “Fotografar sem a visão é isso: explorar, experimentar os sentidos, que todo mundo tem, mas muitas pessoas não usam porque colocam em evidência só a visão”, afirma. 

Diferente dos casos congênitos, o fotógrafo ficou cego aos 28 anos por conta de uma inflamação ocular. Ele ainda guarda lembranças fotográficas de muitos momentos, como as da casa de sua avó no Piauí. “Era uma casa muito simples, feita de tijolos de barro e uma cozinha com fogão a lenha. Na casa, não tinha piso, era de terra batida. O telhado era feito de telhas artesanais, rústicas, e a madeira era redonda. Não tinha muitos móveis na casa dela. Tinha um lugar onde ela colocava os potes de água e os canecos de alumínio. Eu lembro que eram muito bem ariados, e a água, geladinha. Quando eu ia dormir na casa dela e estava fazendo muito frio, ela já tinha acendido o fogão a lenha e eu ficava em cima do fogão, sentindo o calor”, conta. 

Após a perda dos estímulos visuais, os outros sentidos tomaram protagonismo nas suas memórias. “Eu já tive a visão, então hoje qualquer palavra que você me fale eu vou saber, porque eu tenho a memória fotográfica. Já as coisas que eu não conheço, vou começar a tocar e a sentir, para saber como é”, explica João. Agora, para registrar alguns cenários, ele conta com um assistente que descreve os ambientes. “Conhecer o que você está fotografando é muito importante. Eu me posiciono e vou me guiando pelo som do guizo da bola, consigo ouvir quando essa bola é arremessada, também consigo ouvir a comunicação.” 

Uma das lembranças que o fotógrafo guarda com carinho ocorreu nas Paralimpíadas de 2020, em Tóquio, quando ele conheceu e registrou Roberto Sasaki, paratleta brasileiro radicado no Japão, que joga pela seleção japonesa. “Eu estava muito ansioso para saber qual era o número da camiseta do Sakaki e suas características físicas. O meu assistente descreveu que ele estava com tal número, que o uniforme do Japão era todo branco e que ele tinha um cabelo grisalho. Eu seguia, além do som do guizo da bola e da comunicação dos jogadores, o fato de que ele, diferente dos jogadores do Japão, de vez em quando falava português”, lembra.

Descrição da arte produzida com base na memória de João Maia, pela ilustradora Carolina Esteves Vieira

Para João Maia, a fotografia mantém suas lembranças vivas, e ele registra na memória os aplausos, a vibração e a energia daquele momento. “A fotografia é esse conjunto de memórias afetivas, de sensações, de algo bom para rever e lembrar.”

Assim como no trabalho de João, que combina os diferentes sentidos, as lembranças passam pelos sons, cheiros, toques, gostos e cenas visuais. Muitas vezes, as experiências se misturam. Quando a imagem é ausente, os outros elementos ajudam a construir a memória, uma das funções mais complexas do organismo.


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Um comentário em “Entre as memórias, lembrar pelos sentidos”

  1. Importante estes relatos. Como conheço João Maia amigo e fotógrafo cego, admiro a capacidade de retenção de memória deles.
    Parabéns a tds. Deus existe srmpre

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