Educar para o amor
arte como espaço de múltiplas existências
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Os percursos temáticos em torno das publicações do site são um convite voltado para a formação de professores e professoras que atuam no contexto da educação básica, ensino superior e em outros contextos educativos a partir de perspectivas distintas de práticas artísticas contemporâneas e da forma como elas podem reverberar nos cotidianos, nas relações com os outros e consigo mesmo. Para saber mais sobre essa proposta, acesse aqui.
“De que forma podemos pensar a escola como um espaço para múltiplas possibilidades de ser e estar no mundo?”
Quando assumimos o compromisso com a educação, devemos considerar um compromisso ativo e crítico com as questões sociais como gênero, sexualidade, raça e classe, que historicamente estruturaram desigualdades, exclusões e silenciamentos. Reconhecer a diversidade como um valor pedagógico, propõe que a escola deixe de ser um espaço de padronização e passe a ser um ambiente onde diferentes formas de existência, expressão e vivência são valorizadas.
Se realmente queremos criar uma atmosfera cultural em que os preconceitos possam ser questionados e modificados, todos os atos de cruzar fronteiras devem ser vistos como válidos e legítimos. (bell hooks 2024, 165)
Este percurso nos convida a olhar para a escola não apenas como lugar de transmissão de conteúdos, mas como espaço de encontro, escuta e transformação. Através da arte e das vozes ampliadas de corpos dissidentes, de experiências invisibilizadas, de histórias apagadas, somos levados a repensar o próprio papel da educação: não como norma, mas como abertura; não como controle, mas como acolhimento, como um ato para cruzar as fronteiras.
O coletivo feminista Guerrilla Girls denuncia o sexismo e o racismo nas instituições artísticas, especialmente museus e galerias. Suas ações são provocativas e usam o humor para expor dados e contradições do sistema da arte. Introduzindo o debate sobre representatividade, poder institucional, gênero e raça, abrindo espaço para pensar exclusões estruturais mostrando como a exclusão não é neutra, mas sistemática.
A artista Beth Moyses trabalha com símbolos associados ao universo feminino para denunciar a violência doméstica, o machismo e a naturalização da violência de gênero, evidenciando a urgência e necessidade de igualdade, o respeito e escuta das vivências femininas. Em 2024, no estado do Rio Grande do Sul, foram registradas 1,2 vítimas por cada 100 mil mulheres (estudos da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão) e no Brasil quatro mulheres são assassinadas por dia, de acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025.
Através da arte pode-se afetar a estrutura que autoriza a violência contra as mulheres? De que maneira a arte pode potencializar a voz de quem é silenciado?
A artista Regina Parra propõe discussões sobre como o corpo feminino é controlado, julgado e silenciado. A educação, através da voz e do diálogo pode contribuir para romper esses padrões desde cedo para confrontar o pensamento sexista e propor a justiça de gênero.
A prática do diálogo é um dos meios mais simples com que nós, como professores, acadêmicos e pensadores críticos, podemos começar a cruzar as fronteiras, as barreiras que podem ou não ser erguidas pela raça, pelo gênero, pela classe social, pela reputação profissional e por um sem-número de outras diferenças. (bell hooks 2024, 164)
Fotógrafa e artista americana, Carrie Mae Weems, questiona os estereótipos sobre a população negra nos EUA. Weems oferece uma perspectiva poderosa para pensar raça, história e representatividade de forma sensível e política. Sua arte amplia o diálogo sobre a experiência negra e feminina.
“… Eu realmente estava pensando muito sobre o que significava desenvolver sua própria voz”. disse Weems.
O coletivo performático Yeguas del apocalipsis formado por Pedro Lemebel e Francisco Casas nos anos 1980 usou a arte como denúncia da ditadura chilena e das violências sofridas por pessoas LGBTQIA+. Suas ações performáticas desafiaram normas de gênero e sexualidade, criando um espaço de visibilidade dissidente e política. As discussões sobre gênero e sexualidade são embates políticos que fazem parte da escola. Nesse sentido, de que forma a escola pode acolher corpos e múltiplas existências fora da norma socialmente imposta? Como instigar uma ética de escuta e respeito no ambiente escolar?
Graziela Kunsch propõe a maternidade como experiência coletiva e política, questionando a exclusão de mães e bebês dos espaços públicos, inclusive do campo artístico. Sua prática é relacional, muitas vezes envolvendo o cuidado como ação estética. A artista levanta reflexões sobre quem pode ocupar os espaços públicos, mostrando que nestes, nem sempre as múltiplas existências são bem-vindas. A maternidade e o cuidado, são mais um exemplo de existências invisibilizadas que evidenciam a urgência de repensar o acolhimento de todas as experiências humanas.
Quais embates políticos emergem da escola quando esse espaço é partilhado por corpos que desafiam o padrão vigente? Que existências desacomodam imposições da classe dominante?
“Despertar para o amor só pode acontecer se nos desapegarmos da obsessão pelo poder e pela dominação” (bell hooks, 2021, p. 123)
Como nos lembra bell hooks precisamos refletir sobre as estruturas autoritárias, excludentes e opressoras (como patriarcado e as imposições de raça, gênero e sexualidade) que ainda persistem na escola e na sociedade. Ao reconhecer a diversidade como valor pedagógico, afirmamos que cada sujeito tem o direito de ser e existir plenamente, sem medo, silenciamento ou exclusão. Para isso, é necessário praticar uma nova ética: “uma ética amorosa pressupõe que todos têm direito de ser livres, de viver bem e plenamente”. E, como diz bell hooks, abraçar essa ética exige mudança, mudança nos currículos, nas relações, nas práticas e nas políticas escolares. Este percurso não propõe respostas prontas, mas abre espaços de escuta, imaginação e ação. Que a escola possa se tornar, cada vez mais, um lugar onde se aprende com o outro, onde a diversidade é horizonte, e o amor, prática cotidiana de liberdade.
Quais existências ainda são silenciadas e invisibilizadas na escola?
Como criar espaços escolares seguros para as múltiplas existências?
É possível pensar uma ética amorosa na escola, contemplando as múltiplas existências?
Texto e pesquisa: Clarissa Nunes, Lobna Essabaa e Luciana Loponte.
Revisão e edição: Clarissa Nunes, Lobna Essabaa e Luciana Loponte.
Ilustração: Clarissa Nunes.
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Notas de fim
¹ Para mais informações sobre a obra acesse: https://lifeandthyme.com/food/fried-chicken-isnt-a-punchline-its-part-of-the-black-american-story/
Referências:
hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Editora Elefante. 2021.
hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora Martins Fontes. 2017.
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