Inventar novas relações entre arte, educação e docência
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Educar para o amor

arte como espaço de múltiplas existências

Regina Parra, Algumas escaparam, 2019. Letreiro de Neon. Trecho da peça As Bacantes (405 a.C.)

Para saber mais sobre as artistas, clique nas imagens.

Os percursos temáticos em torno das publicações do site são um convite voltado para a formação de professores e professoras que atuam no contexto da educação básica, ensino superior e em outros contextos educativos a partir de perspectivas distintas de práticas artísticas contemporâneas e da forma como elas podem reverberar nos cotidianos, nas relações com os outros e consigo mesmo. Para saber mais sobre essa proposta, acesse aqui.

“De que forma podemos pensar a escola como um espaço para múltiplas possibilidades de ser e estar no mundo?”

Quando assumimos o compromisso com a educação, devemos considerar um compromisso ativo e crítico com as questões sociais como gênero, sexualidade, raça e classe, que historicamente estruturaram desigualdades, exclusões e silenciamentos. Reconhecer a diversidade como um valor pedagógico, propõe que a escola deixe de ser um espaço de padronização e passe a ser um ambiente onde diferentes formas de existência, expressão e vivência são valorizadas.

Se realmente queremos criar uma atmosfera cultural em que os preconceitos possam ser questionados e modificados, todos os atos de cruzar fronteiras devem ser vistos como válidos e legítimos. (bell hooks 2024, 165)

Este percurso nos convida a olhar para a escola não apenas como lugar de transmissão de conteúdos, mas como espaço de encontro, escuta e transformação. Através da arte e das vozes ampliadas de corpos dissidentes, de experiências invisibilizadas, de histórias apagadas, somos levados a repensar o próprio papel da educação: não como norma, mas como abertura; não como controle, mas como acolhimento, como um ato para cruzar as fronteiras.

As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum?, 1989-2017

O coletivo feminista Guerrilla Girls denuncia o sexismo e o racismo nas instituições artísticas, especialmente museus e galerias. Suas ações são provocativas e usam o humor para expor dados e contradições do sistema da arte.  Introduzindo o debate sobre representatividade, poder institucional, gênero e raça, abrindo espaço para pensar exclusões estruturais mostrando como a exclusão não é neutra, mas sistemática.

A artista Beth Moyses trabalha com símbolos associados ao universo feminino para denunciar a violência doméstica, o machismo e a naturalização da violência de gênero, evidenciando a urgência e necessidade de igualdade, o respeito e escuta das vivências femininas.  Em 2024, no estado do Rio Grande do Sul, foram registradas 1,2 vítimas por cada 100 mil mulheres (estudos da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão) e no Brasil quatro mulheres são assassinadas por dia, de acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025.

Beth Moysés, Memória do afeto- Madri, 2002, performance

Através da arte pode-se afetar a estrutura que autoriza a violência contra as mulheres? De que maneira a arte pode potencializar a voz de quem é silenciado?

Regina Parra, Algumas escaparam, 2019. Letreiro de Neon.

A artista Regina Parra propõe discussões sobre como o corpo feminino é controlado, julgado e silenciado. A educação, através da voz e do diálogo pode contribuir para romper esses padrões desde cedo para confrontar o pensamento sexista e propor a justiça de gênero.

A prática do diálogo é um dos meios mais simples com que nós, como professores, acadêmicos e pensadores críticos, podemos começar a cruzar as fronteiras, as barreiras que podem ou não ser erguidas pela raça, pelo gênero, pela classe social, pela reputação profissional e por um sem-número de outras diferenças. (bell hooks 2024, 164)

Mãe trabalhando (da série “Histórias e fotos de família”), 1978–84
Mulher negra com frango¹, 1987

 Fotógrafa e artista americana, Carrie Mae Weems, questiona os estereótipos sobre a população negra nos EUA. Weems oferece uma perspectiva poderosa para pensar raça, história e representatividade de forma sensível e política. Sua arte amplia o diálogo sobre a experiência negra e feminina.

“… Eu realmente estava pensando muito sobre o que significava desenvolver sua própria voz”. disse Weems.

Lo que el Sida se llevó, 1989
Las dos fridas , 1989

O coletivo performático Yeguas del apocalipsis formado por Pedro Lemebel e Francisco Casas nos anos 1980 usou a arte como denúncia da ditadura chilena e das violências sofridas por pessoas LGBTQIA+. Suas ações performáticas desafiaram normas de gênero e sexualidade, criando um espaço de visibilidade dissidente e política.  As discussões sobre gênero e sexualidade são embates políticos que fazem parte da escola. Nesse sentido, de que forma a escola pode acolher corpos e múltiplas existências fora da norma socialmente imposta? Como instigar uma ética de escuta e respeito no ambiente escolar?



Graziela Kunsch propõe a maternidade como experiência coletiva e política, questionando a exclusão de mães e bebês dos espaços públicos, inclusive do campo artístico. Sua prática é relacional, muitas vezes envolvendo o cuidado como ação estética. A artista levanta reflexões sobre quem pode ocupar os espaços públicos, mostrando que nestes, nem sempre as múltiplas existências são bem-vindas. A maternidade e o cuidado, são mais um exemplo de existências invisibilizadas que evidenciam a urgência de repensar o acolhimento de todas as experiências humanas.


“Creche parental pública”, Graziela Kunsch


Quais embates políticos emergem da escola quando esse espaço é partilhado por corpos que desafiam o padrão vigente? Que existências desacomodam imposições da classe dominante?

“Despertar para o amor só pode acontecer se nos desapegarmos da obsessão pelo poder e pela dominação” (bell hooks, 2021, p. 123)

Como nos lembra bell hooks precisamos refletir sobre as estruturas autoritárias, excludentes e opressoras  (como patriarcado e as imposições de raça, gênero e sexualidade) que ainda persistem na escola e na sociedade. Ao reconhecer a diversidade como valor pedagógico, afirmamos que cada sujeito tem o direito de ser e existir plenamente, sem medo, silenciamento ou exclusão. Para isso, é necessário praticar uma nova ética: “uma ética amorosa pressupõe que todos têm direito de ser livres, de viver bem e plenamente”. E, como diz bell hooks, abraçar essa ética exige mudança, mudança nos currículos, nas relações, nas práticas e nas políticas escolares. Este percurso não propõe respostas prontas, mas abre espaços de escuta, imaginação e ação. Que a escola possa se tornar, cada vez mais, um lugar onde se aprende com o outro, onde a diversidade é horizonte, e o amor, prática cotidiana de liberdade.

Quais existências ainda são silenciadas e invisibilizadas na escola?

Como criar espaços escolares seguros para as múltiplas existências?

É possível pensar uma ética amorosa na escola, contemplando as múltiplas existências?

 

Texto e pesquisa:  Clarissa Nunes,  Lobna Essabaa e Luciana Loponte.

Revisão e edição: Clarissa Nunes,  Lobna Essabaa e Luciana Loponte.

Ilustração: Clarissa Nunes.

 

 

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Notas de fim

¹ Para mais informações sobre a obra acesse: https://lifeandthyme.com/food/fried-chicken-isnt-a-punchline-its-part-of-the-black-american-story/

Referências:

hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Editora Elefante. 2021. 

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade.  São Paulo: Editora Martins Fontes. 2017. 

Este percurso está disponível para download em PDF aqui. Na última página deste arquivo você encontrará uma zine para impressão e compartilhamento.

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