Técnica, senso crítico e sensibilidade

Coluna #OmbudsmanHumanista é dedicada a análise das primeiras produções originais da redação do Humanista no segundo semestre letivo.

*Carla Dutra

Coube a mim fazer a análise da primeira leva de conteúdo produzida pela nova redação do Humanista após o recesso de inverno. Em primeiro lugar, quero dar às boas-vindas aos estudantes que participam do projeto a partir de agora. Com base nesses meses em que venho acompanhando o portal mais de perto e com olhar mais analítico, posso garantir a essa turma que eles estão em um excelente laboratório de comunicação, em que técnica, senso crítico, sensibilidade e contato com diferentes formas de chegar ao público compõem um ambiente de ensino de alta qualidade. Dito isso, vamos ao que chamou minha atenção no material recentemente publicado.

A reportagem “Resiliência, coragem e esperança: o percurso do grito que supera o silêncio após a denúncia” está muito bem apurada e muito bem escrita por Laura Berrutti. Mas ela me toca, principalmente, porque faz algo que eu acredito ser uma das missões do jornalismo: voltar às histórias, não esquecê-las e não deixar que sejam esquecidas. “Algumas das mulheres que chegaram à Delegacia da Mulher ao longo do dia em que a reportagem acompanhou as denúncias foram contempladas com a medida. Mas e depois? É o que o Humanista foi tentar descobrir no Fórum Regional de Porto Alegre”, explica trecho do texto de Laura. Infelizmente, os dados trazidos pela repórter mostram que temos muito a evoluir. Os números de violência contra a mulher crescem, a Justiça é lenta e nem sempre justa, ao menos na visão de quem sofre calada anos de agressões ou torturas psicológicas.

Do texto, para a imagem. Provavelmente todos saibam alguma variação da frase “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Mas será que ela serve para qualquer circunstância? Muito tocante o #EnsaioHumanista com moradores da Lomba do Pinheiro. E, sim, eu sei, ao se falar em ensaio se pressupõe estar falando de fotos. Mas, confesso, neste ensaio especificamente restou um gostinho de quero mais. Quem são essas pessoas? O que elas fazem? O que sonham? Talvez um material um pouco mais interativo, sem deixar de valorizar as imagens, pudesse ter sido uma boa alternativa. Ao clicar naqueles rostos, poderíamos saber um pouco mais de suas histórias e, assim, descobrir o que está por trás do sorriso da Tatiana Rosa, da simpatia da Matilde Cruz e do olhar penetrante do Seu Telmo, entre todos os outros. As fotos de Émerson Santos nos levam a querer saber mais.

Da sensibilidade das fotos, para a necessidade de explicar o que deveria estar claro:  “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. Está lá, na Constituição, como precisou lembrar Gabriela Plentz em seu #ExplicaçãoHumanista, publicado em 13 de setembro. A seção trata da censura a uma exposição de cartuns na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e da tentativa do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB) de recolher livros que ele considerou ter material impróprio. Esse assunto, creio, ainda pode render novos debates. Afinal, se a própria Constituição veda a censura, como podem pessoas eleitas democraticamente para cumprir nossa Carta Magna ignorá-la e desrespeitá-la tão escancaradamente? Não à toa, Justiça e sociedade reagiram fortemente a ambos os casos.

E para não deixar passar em branco o encerramento do #NarrativaHumanista, avalio como de muita criatividade essa forma encontrada pelo portal para a entrega de conteúdo. Não é um formato que se costuma ver em veículos da mídia tradicional e não se deve deixá-lo morrer. Leva informação, de um jeito divertido e totalmente interativo. Um caminho interessante a ser explorado (aliás, podemos dizer o mesmo de É Fake ou é News?)

 


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*Carla Dutra é jornalista formada pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e tem mais de 15 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como jornal A Razão, Jornal NH e Zero Hora; experiência também em assessoria de imprensa. Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: carladutrasilveira@gmail.com.

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