No Brasil, o uso de leques chamou atenção em maio de 2025, no show da cantora de música pop Lady Gaga, em Copacabana, Rio de Janeiro. O leque, um objeto muitas vezes considerado “ultrapassado” ou “coisa de vó”, de uma hora para outra, começou a ser usado por milhões de jovens país afora. Mas não o uso comum, para se abanar, e sim para bater. O bater do leque, gera um som característico e virou costume não só entre os fãs de Gaga, mas também para toda a comunidade LGBT.
Crédito: Prefeitura Rio de Janeiro
Aí vieram as perguntas: Como surgiu esse fenômeno? Qual a relação do leque com a comunidade LGBT brasileira? De que modos pode um som que não é mais do que um estalo, um elemento predominantemente icônico, adquire capacidade de significação de grande relevância para as multidões queer (PRECIADO, 2011)?
Crédito: G1
Essas foram algumas, dentre outras tantas curiosidades que foram surgindo enquanto rolava a ForYou do Tiktok ou os Reels do Instagram, olhando dezenas de vídeos de pessoas sincronizando a batida do leque com alguma música de diva pop, bem como vídeos de pessoas ensinando a bater o leque, afinal, ninguém nasce sabendo bater leque. Como qualquer outra tecnologia sonora, ele é algo que se aprende.
História do uso do leque
Segundo o livro History of Fan (Rhread, 1910), os egípcios registraram em tumbas desenhos de objetos feitos de grandes folhas de árvores cuja finalidade envolvia esfriar líquidos, abanar o fogo, espantar moscas, prover sombra do sol e se resfriar do calor escaldante do nordeste da África. Nessa época, eram utilizados tanto por mulheres quanto por homens, o que ao longo dos séculos foi se modificando.
Servo masculino usando um leque para resfriar alimentos ou acender uma fogueira. Madeira pintada, Egito, entre 2200 e 1800 a.C. (Crédito: The Trustees of the British Museum)
Na China do Século X, o leque era visto como sagrado e pertencente à alta sociedade. Segundo uma lenda chinesa, a tradição teve origem na Festa das Lanternas, onde, em um dia muito quente, uma bela filha de um mandarim retirou a máscara que ela usava e a agitou, criando uma brisa suave. Os demais foliões da Festa ficaram tão impressionados com a graça do movimento da menina que todos, sem exceção, deixaram cair as máscaras e seguiram o exemplo dela. Já os japoneses, inventaram os leques dobráveis, o que conferiu ao objeto portabilidade e discrição. Também eram chamados de “leques quebrados”, e Akomeōgi (衵扇), em referência aos vestidos usados pelas mulheres da corte japonesa, os Akome.
Leque chinês com folha de papel pintada e medalhão representando “A Visita”; século XVIII. (Crédito: M. Tomkinson.)
Leque de Dama da Corte. “Akome Ogi”. Crédito: Wilson Crewdson.
Jovem com Leque, início da década de 1750, Pietro Antonio Rotari (italiano, 1707–1762)
Foi a partir do século XV, com a Rota da Seda, que os europeus trazem o leque para o ocidente, momento em que se tornou indispensável no vestuário da alta sociedade europeia. Nessa época, ele passou a ser utilizado como instrumento de comunicação, de modo que, durante bailes, mensagens eram enviadas discretamente de acordo com o posicionamento ou movimento do leque em relação ao corpo da mulher. Esse tipo de linguagem secreta era usado principalmente para flertar.
Já no século XX, a dança com leques de plumas ganhou espaço no burlesco, nos Estados Unidos. Esse estilo teve o crédito atribuído à atriz e dançarina burlesca Frances Yvonne Bacon (1910-1956), conhecida como Faith Bacon. A nudez ou danças eróticas eram proibidas, rendendo prisões em massa tanto de espectadores quanto de dançarinas. Por isso, Faith começou a utilizar o leque como um jogo de provocação, movimentando o objeto para esconder e mostrar suas partes íntimas durante a performance.
Crédito: Listal
Não há registros de como o leque passou a ser associado à cultura queer. De acordo com Candida Scott Piel, considerada a mãe do fanning movement, tudo começou quando um grupo de homens gays de São Francisco estavam visitando Nova York nos anos 1970 e viram homens, que na verdade eram do coral masculino da Broadway, dançando com leques. Mais tarde, durante os anos 1980 e 1990, o leque se torna comum dentro da cena ballroom estadunidense. Consequentemente, drag queens começam a utilizar o objeto como instrumento em performances, perpetuando o leque como símbolo da comunidade LGBT.
Ativista americana Marsha P. Johnson (1945–1992; à esquerda, vestindo roupa escura e de cabelos pretos). Durante a Marcha do Orgulho, em Nova York, em 27 de junho de 1982. (Foto de Barbara Alper/Getty Images)
Observando essa longa linha do tempo, é possível perceber como um simples objeto vem se ressignificando ao longo da história da humanidade. Ao entrar em agenciamento (Deleuze; Guattari, 2008) com diferentes sociedades e diferentes camadas dessas sociedades, o leque se transforma, em alguns momentos é um instrumento de flerte, em outros é de provocação, de luta, de orgulho, de pertencimento, e agora, uma tecnologia sonora. Outro ponto importante das capacidades de significação do leque é a questão de representação de grupos minoritários, como mulheres e LGBTs.
O leque como tecnologia sonora
No show ocorrido em maio de 2025, boa parte do público usou leques para produzir um som similar ao estalar de um chicote, que ocorre ao objeto ser aberto e fechado freneticamente. Este som foi produzido coletivamente em diversos momentos, tanto para substituir as palmas ao final das músicas como para se sobrepor ao som da caixa da bateria durante as performances. O fenômeno também aconteceu antes do show e depois, com as multidões invadindo praias e metrôs da cidade do Rio de Janeiro entoando canções de Lady Gaga e batendo os leques. Na ocasião, podiam ser avistados de todos os tamanhos e cores, porém, sem dúvida, o estilo mais popular foi o leque arco-íris, com as cores da bandeira LGBT, mostrando ser uma prática atrelada intimamente a essa comunidade.
Nota-se que o leque, uma tecnologia com origem no Egito Antigo, tem se ressignificado ao longo da história e cooperado com as capacidades expressivas de sexualidade, de gênero e de comunidade. Hoje, o leque se tornou em uma tecnologia política (SANTOS, 2024).
A descrição do som produzido pelo leque muda bastante. Diferentes tipos de leques, produzem diferentes tipos de sons. Alguns dos principais fatores que influenciam nesta sonoridade é o material do objeto e o tamanho dele. Por exemplo, os leques de madeira, produzem um som mais seco e mais grave, comparando com o som produzido pelos leques de plástico, que são os mais comuns em shows, baladas e festas. A maioria dos leques de madeira, são menores que os leques de plástico, o que impacta na intensidade do som produzido, sendo os de madeira mais fracos e os de plástico mais fortes.
Como já descrito, o barulho se assemelha com o de um chicote estalado, pois o movimento também é parecido. O jeito mais fácil de bater um leque é justamente abrir e deixar com que a força do movimento da abertura dele vá de encontro com o seu limite, e então fazer com que ele volte para a posição inicial. Dessa forma, com a ajuda da gravidade ou de outra lei da física que não entendo, não é necessário fazer muita força para abrir e fechar o objeto.
O TRÁ! do leque se mistura com a música, transformando o modo de escutar das pessoas em volta, e do próprio “batedor de leque”. O som surge a partir de uma possibilidade rítmica, de acompanhar o som da caixa de bateria, ou quaisquer som que se repita durante uma performance. Adriana Amaral, Thiago Soares e Beatriz Polivanov, ao falarem sobre a pesquisa da performance no campo da comunicação, explicam que o cerne do debate seria a ideia de incorporação, repetição, reiteração. “Gestos habitam corpos, acionam memórias, colocam em perspectiva experiências. O que o corpo torna visível?” (AMARAL, SOARES, POLIVANOV, 2018). Dessa forma, o que o bater do leque torna visível?
Todas as características citadas sobre este fenômeno podem ser entendidas como um regime de signos que definem ou transformam o TRÁ! do leque em uma tecnologia de produção de multidões queer. Quando se ouve o som do leque, a primeira coisa que vem à cabeça é que esta pessoa que produz o som faz parte ou apoia a comunidade LGBT. O objeto se torna um instrumento sonoro capaz de articular esteticamente sentidos de pertencimento (COSTA, 2016). Especialmente quando ele tem as cores da bandeira gay, bi, trans, etc. Seguindo as ideias de Deleuze e Guattari, podemos articular a repetição dessa prática em diferentes momentos como a construção de um território.
O corpo da multidão queer é uma “desterritorialização” da heterossexualidade. Uma desterritorialização que afeta tanto o espaço urbano (é preciso, então, falar de desterritorialização do espaço majoritário, e não do gueto) quanto o espaço corporal. (PRECIADO, 2011)
Quando o bater do leque é aceito ou não?
Com a popularização da prática de bater leques em shows de música pop, vem crescendo também um movimento contrário aos leques. Ou seja, pessoas que se incomodam com o barulho, a estética, que se assustam com o som, que acham que atrapalha a experiência do show. Muitos desses comentários podem ter um fundo de LGBTfobia. Com isso, o leque como instrumento político acaba se tornando ainda mais potente, ressignificado como instrumento de expressão, de luta e de produção de multidões queer.
A sexopolítica torna-se não somente um lugar de poder, mas, sobretudo, o espaço de uma criação na qual se sucedem e se justapõem os movimentos feministas, homossexuais, transexuais, intersexuais, transgêneros, chicanas, pós-coloniais… As minorias sexuais tornam-se multidões. O monstro sexual que tem por nome multidão torna-se queer. (PRECIADO, 2011)
O TRÁ! do leque, além de explicar sobre quem o produz, também dá significado à essa pessoa, num movimento recíproco. Assim como quando Dias e Farias (2020) explanam sobre as relações de poder aos quais a música está inserida.
“Conforme Werner (2009), é possível “dizer que a organização social das atividades musicais é modelada a partir de padrões sociais mais amplos, e, portanto, os padrões musicais agem em sincronia com o poder e as ordens sociais da sociedade” (WERNER, 2009, p.8) – o que não significa que esses padrões são rígidos ou estanques. Em outras palavras, por estar situada em um sistema de hierarquia cultural, a música não só diz muito sobre o contexto em que está inserida, como também opera na sua construção.” (DIAS, FARIAS, 2020)
Crédito: G1
Referências:
AMARAL, A.; SOARES, T.; POLIVANOV, B.. Disputas sobre performance nos estudos de Comunicação: desafios teóricos, derivas metodológicas. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 41, n. 1, p. 63–79, jan. 2018.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 2008.
DIAS, Morena Melo; FARIAS, Daniel Oliveira. Música constrói gênero? Uma abordagem discursiva e cultural sobre gênero musical e identidade de gênero. In: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 29., 2020, Campo Grande. Anais… Brasília: Compós, 2020
MALCHER, Ana Carolina Castro. Vráá! Um Leque de possibilidades: o uso do leque de plumas no Burlesco. Dissertação (Curso de Teatro) – Udesc, 2021.
PRECIADO, Paul. Multidões queer: notas para uma política dos “anormais”. Estudos Feministas, v. 19, n. 1, p. 11-20, 2011.
RHEAD, G. Woolliscroft. History of the Fan. Londres: KEGAN PAUL, TRENCH, TRÜBNER & CO, 1910.
X Jornada de Semiótica e Culturas da Comunicação vem ai!!!
Colegas, é com alegria que abrimos a chamada de trabalhos para a décima Jornada de Semiótica e Culturas da Comunicação. Desde 2017, nos encontramos anualmente para discutir o andamento das pesquisas vinculadas ao GPESC, com foco nos trabalhos em desenvolvimento de iniciação científica, de mestrado e de doutorado. Também contamos, ao longo dos anos, com palestras, mesas temáticas e assembleias para discutir o futuro do GPESC. O evento tem sido um espaço importante para a formação de tod@s nós.
Para nosso décimo encontro, planejamos a seguinte estrutura:
O Núcleo de Pesquisa Semiótica Crítica (NPESC) irá produzir uma mesa temática de abertura, além de organizar, em conjunto com a Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades (APPH), um evento de celebração do centenário de Gilles Deleuze, que acontecerá junto à Jornada;
Tod@s pesquisador@s de iniciação científica, de mestrado e de doutorado participantes dos núcleos Corporalidades, GPAGI, NPESC e SemSono podem se inscrever e terão reserva de vagas;
Egress@s desses núcleos do GPESC também poderão inscrever trabalhos. Para esta categoria, teremos vagas limitadas.
Cronograma:
20/4 – Prazo limite para envio de resumos
21/4 a 30/4 – Produção dos pareceres
3/5 – Envio dos aceites / pedidos de revisão
10/5 – Limite para receber resumos revisados
15/5 – Divulgação da programação do evento e caderno de resumos
Por Turma do Seminário de Cultura e Comunicação 25/2
Kiki. Parecia quando tu tá boiando no mar, mas parece quando tu tá de ressaca boiando no mar, com água embaixo do ouvido, ouvindo motor do barco, e o barulhinho da areia. Não ia aguentar o tempo inteiro, e fui no banheiro. Dava pra ouvir um sonzinho, uma
melodia. Eu fui na vibe da praia. A primeira palavra foi sereia, depois seguie e parecia que a voz dela fazia o movimento de vem e volta, e o resto parecia areia, com ondinhas de vem e volta. O riff grave da guitarra me lembrou algo feminino e erótico, como algo tendencioso. Parecia sons de sereia, tava ouvindo água, e os sons estridentes era como se fosse piratas fazendo uma incursão no navio, mexendo em corda. Parecia uma preparação bélica. Eu fui pro céu, escrevi burburinho de espíritos -> barulho do vento, fundo de montanha. Fiquei sentindo o grave enquanto essa coisa de baixo, o fundo, e
a voz, soava muito etéreo, quase um burburinho de vozes etéreas. Eu fui por essa linha, imaginei como se fosse um deserto, como se tivesse um cristal no meio do deserto
refletindo as luzes. Eu fui pra floresta, e quando tu falou de onça eu falei “aha, ela também tá lá”, e fiquei viajando com o azul. E teu pé tava pra cima, e já fui anotando um
monte de coisa. Pé de Poesia. Me apeguei muito a parte material e imaterial. Pedra, cartão, caneta, escova, todos esses materiais somem quando fecham os olhos, viram
imaterialidade. Mexendo as orelhas, dependendo do ângulo o som entrava dentro de mim. Cada som tinha uma cor. Parecia que tava caminhando para algo, e quando começou o beat, chegamos em casa, todo mundo no circuluzinho. Eu também senti um ambiente urbano, mas era tudo deserto, tinha só a minha personagem principal. Eu fui pra dentro de mim mesma. e me deparei com meus desconfortos. Acompanhar a mosca com os olhos, tava meio em trase, desfoquei de tudo e fiquei acompanhando ela. Senti estar em outro plano. Escrevi barulho, sóbrio. Senti que tipo no inicio tudo tava do lado
esquerdo, mas arrepiou só o braço direito. Da metade pro fim, veio mais pra cá, até que não sei veio para esse lado. As cores de tudo era verde-limão, mas era laranja, doi o
olho, e perola. Eu quando começou, fechei o olho, parece que tudo fica mais intenso. De alguma forma isso me preenche, transborda, sussurra arranca, zumbido chuva couro, macabro. Depois o beat começou parecendo rap, e escrevi casa. Eu acho que essa questão quando tu fecha os olhos parece que tem uma unidade assim, uma coisa…
Eu adorei que a linda tossiu. Eu não conseguia parar de tossir. Foi muito porque não sabia quando ia acontecer, mas ao mesmo tempo era o único som constante. Atmosférico. E mais pro final quando começaram a testar algumas coisas, escrevi que o som me engole. Coloquei algumas do ambiente, começou aqui no claro, depois fui pro escuro, senti o ar condicionado, escuro, fiquei estranhando a luz fria que é branco, mas ao mesmo que é
calor, senti essas coisas mistas assim. Eu coloquei uma frase, uma hora parecia que eu tava dentro da caixa de som. Senti eu to me sentindo muito mal, eu não consegui
sentir nada, me senti muito mal e desconfortável, fiquei presa na cadeira. Gente eu preciso compartilhar. Zonza, dor e a escova de dente. Eu me prendi a voz pra
conseguir sair desse ciclo. Em várias momentos eu me senti numa trilha sonora de filme de suspense, filme de terror. Em alguns momentos, me senti na natureza, ondas, passáros. Eu tava tentando entender muito o que tava acontecendo, mas quando começou o beat familiar, pareceu chegar em casa, é como se eu tivesse tentando
entender uma língua e agora eu finalmente to fluente. Eu acho que pra mim foi ao contrário, eu foquei mais no abstrato, quando chegou no ttututu, eu fiquei ah..
Quando eu grudei o ouvido na mesa foi algo diferente. Dá uma vontade absurda de perceber todas as coisas e tem que escolher sempre, ou dá pra perceber de olhos
abertos, fechados, desfocado, focado, sentindo numa superfície, é meio chato ter que escolher. A coisa dos olhos fechados eu senti mais, eu queria só escutar, e daí
virava de costas. Eu queria que tivesse tudo escuro, queria dançar um pouco.
O texto acima é uma produção coletiva da turma do Seminário de Cultura e Comunicação 2025/2. No dia 19/11, fizemos, em parceria com Isabel Nogueira (@belmedula), professora do curso de Música Popular da UFRGS, a oficina “Cartografando pela Escuta”. A proposta era que os alunos escutassem uma jam session que misturava uma bateria eletrônica, uma Loop Station (máquina que produz loops de áudio) e uma guitarra sendo distorcida através de pedais, e assim produzissem uma cartografia da sua escuta. Das sensações e relatos individuais, retiramos trechos e compomos uma trama coletiva de traduções de escuta.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Revista digital. Atividade para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Capa por Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes
Mais uma vez, a disciplina eletiva Seminário de Cultura e Comunicação, oferecida no âmbito da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, foi ocupada por uma Zona Autônoma Temporária (cf. Hakim Bey) em que os alunos foram provocados a produzir textos muito pouco formais sobre experiências musicais e sonoras que ocorrem na urbe metropolitana. A discussão sobre a ocupação do espaço público, do viver e ser feliz no meio dos prédios, das caçambas de lixo, de caminhar por onde deveriam passar os carros, de beber à noite pelas calçadas onde, de dia, passaram trabalhadores de cabeça baixa, foi uma das tônicas dos nossos encontros, que ocorriam nas noites de quarta-feira.
Provocar os alunos a viver uma experiência concreta, ao invés de produzir materiais para as redes socais foi um imperativo que insistimos, pois cada vez mais a experiência da web tem se tornado “bege”, um espaço para se sentir apático, o lugar por excelência da “enshitificação” provocado por algoritmos e LLMs que oferecem nada mais do que slop.
Enquanto as imperfeições da produção eletrônica humana são varridas para fora da web pelas supostas inteligências artificiais, propomos voltar-mo-nos às experiências mundanas, a enfrentar a frustração, o desapontamento, mas também a euforia e a alegria de celebrar coletivamente.
Nem sempre a festa que a gente vai é um rolê bacana. Quase sempre pegar um trem é uma experiência cansativa. Mas ser capaz de falar sobre estas experiências de forma afetiva, sensível, poética até, devolve a potência política da experiência coletiva. Algo muito necessário no mundo em que vivemos, ou deixamos de viver.
Nesta edição, temos sete textos, todos redigidos por grupos de alunos. Organizamos como se fosse uma longa jornada estendida: Começamos com Andar na linha, de Arthur Mezzacasa, Augusto Schu e Manu Couto, que nos oferecem um relato sobre a experiência sonora de viajar em trem metropolitano. Seguimos com Beira-Rio Eu Sou, E o Som Também, que ausculta as atividades sônicas da torcida do Sport Club Internacional de Porto Alegre nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino 2025, escrito por Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper. Anoitece e é hora de partir paraEncontros e Desencontros de Bar em Bar, texto de Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes: o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS leva milhares de estudantes às ruas de Porto Alegre para perambular pela região boêmia da cidade, após ter sido proibido de realizar o evento há pouco tempo.
Já na noite, é hora de ir para a festa, ou melhor, para seis festas diferentes. Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes nos contam Como não ficar até o final de uma BatukBaile, ficando quase até o fim da festa e lidando com as decepções da fotógrafa oficial não tirar fotos suas, mas também atentando sobre a importância de espaços afirmativos para pessoas pretas dentro do rol de festa dedicada à música afro; Amanda Schultz, Cecília Filappi, Giovanna Depentor e Rafaela Bobsin nos levam a uma festa onde é Proibida a entrada de homens (só acompanhados de mulheres), e nos mostram como é significativo que ainda há a necessidade de espaços seguros para que mulheres consigam curtir as festas em paz; Guilherme Vivan, Linda Schwarz, Luiza Weiler, Nicoly Ramão e Raquel Bruhn, interessados em pensar como músicas e ritmos estrangeiros são consumidos no Brasil, comparam uma festa de latinidades com outra de K-Pop no texto Entre o rebolado e a coreografia; e Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes dão o famoso virote, saindo de uma festa noturna de música eletrônica noturna para iniciar a manhã do dia seguinte em uma cafeteria que toma música eletrônica, experiência descrita emClubbing Sessions: Do acid techno ao iced coffee.
De forma geral, quisemos fornecer aos alunos um ambiente onde a principal discussão fosse em torno das sonoridades. Os textos que trabalhamos ao longo da cadeira abordavam a forma como cultura, música e som se imbricam produzindo territórios políticos e de significação. Tentando produzir uma escuta diferente nos estudos em comunicação, usualmente dominados pelo ocularcentrismo, nesse semestre procuramos apresentar para a turma perspectivas alternativas de investigação dos fenômenos, principalmente aquelas que dão conta do som e da música como agenciadores de comunicação, destoando dos estudos usuais pautados pela investigação da imagem como principal fenômeno de análise.
Agradecemos em especial à Profª Drª Isabel Nogueira (@belmedula) pela sua parceria na Oficina de Cartografias da Escuta que oferecemos no dia 19/11, e que gerou diversas reverberações não só entre os alunos, como entre nós também! Muito obrigado Bel!
Também agradecemos aos estudantes Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes por terem realizado a capa desta edição.
Boa leitura!
Texto publicado na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Por Bruna Bösing Minho, Ignácio Cordeiro, João Vítor Debiasi e Mariana Reyes
O nosso relato será organizado por cores, para que o leitor identifique facilmente quem está falando. As experiências da Bruna aparecerão em rosa, as do Ignácio em verde, as do João Vítor em azul e as da Mariana em bordô. Optamos por essa paleta por preservar a legibilidade e, ao mesmo tempo, evidenciar quando nossos relatos se encontram, se afastam ou até mesmo se contradizem.
O Bar em Bar é aquele tipo de evento que, mesmo quando não é bom, continua sendo bom pela simbologia. Em um primeiro momento, o que chamou atenção foi a empolgação coletiva que se formou quando o retorno de um dos rolês mais adorados pelos universitários de Porto Alegre foi anunciado. Um porto-alegrense pode até torcer o nariz para o Bar em Bar, mas vai defender sua existência como quem defende um patrimônio emocional. Parte dessa excitação veio do hiato imposto pela prefeitura, uma prefeitura, digamos, nada simpática para qualquer pessoa munida de bom senso.
Eu, no entanto, não estava tão animada para comparecer, mas esse era especial: marcava não somente o renascimento da festa como também a vitória dos alunos em exercer o seu direito de ocupar a cidade. A empolgação inicial começou a evaporar conforme o evento se aproximava. E isso parecia geral. Todo mundo com quem eu falava ao longo da semana dizia que iria, mas sempre num tom desanimado, quase protocolar.
Essa vibe de “vou porque tem que ir” me chamou atenção. A semi-resposta que consegui elaborar é que essa sensação nasceu do próprio contexto e das mudanças impostas para que o evento acontecesse.
Os boatos anunciavam um percurso controlado, delimitado pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Esse suposto controle chegou a despertar um sentimento de que o propósito de invasão e ocupação da rua seria invalidado. Como propõe Camila Proto (2019, P.109), em seu ensaio Territórios resistentes: Arte, som e sociedade – “Na pós-modernidade, o espaço, que antes era delimitado por sua função, tornou-se lugar múltiplo, que independe de qualquer finalidade ou codificação social prévia. É dizer, também, que em um mundo globalizado e pós-industrial, todos os lugares públicos acabaram, consequentemente, tornando-se lugares de consumo e, logo, lugares privados”. Isso explica alguns movimentos censuradores da vida boêmia na cidade, e consequentemente, desperta a vontade dos jovens de apoiar esse movimento de contracultura que o Bar Em Bar representa nesta edição. E foi assim que, às vésperas do rolê, o anúncio de que a Praça da Matriz estaria fora do percurso contribuiu para o receio sentido por amigos próximos. Foi dito, em uma publicação no Instagram, no perfil do evento, que estava proibida a aglomeração de pessoas na região e foi destacado o alerta de que não seria permitido escalar o monumento central da Praça. No post em questão, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) explica que incluir o espaço na rota reforçava ideias que não condizem com a ocupação e ressignificação da cidade e de seus espaços de forma “saudável e responsável”.
A retirada da parada na Praça da Matriz foi uma reclamação unânime. A Matriz sempre foi o ponto alto, a imagem mais representativa, a coroação do caos bonito que o evento traz. Ela nunca foi ponto final oficial, mas era tão querida que muitos participantes simplesmente abandonavam o estandarte e encerravam por lá.
O Bar em Bar estava virando um evento “liberado” pela prefeitura. Parecia que aquilo que antes era puro fluxo — um rizoma se espalhando pela cidade — estava virando uma rota institucionalizada. Um território capturado. A cidade, que deveria ser vivida como devir e não como mapa pronto, estava tentando organizar o imprevisível. E, no semestre, discutimos o quanto esse evento é profundamente político. Ocupar as ruas do Centro Histórico com milhares de jovens é um ato político em si, mesmo que a pessoa não vá com essa intenção. A ocupação acontece porque vivemos numa cidade que nos tira das ruas — seja pela insegurança, seja pela gentrificação. Um Bar em Bar liberado pela prefeitura deixa de ser ocupação. E isso parece ter afetado até quem nunca pensou politicamente sobre ele.
O caráter itinerante do evento, movendo uma grande massa de pessoas que procuram habitar a cidade, é uma manifestação exemplar daquilo que apontam os autores de Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife, no que diz respeito ao ambiente comunicacional, à corporeidade, às ruas e aos entraves. O artigo trabalha os conceitos de cidades musicais: a articulação entre música e cidade, materializada em percursos, pressupõe corporeidades que surgem dos acoplamentos entre corpos humanos e não humanos, trânsitos, lugares, dispositivos técnicos e possibilidades que vivências musicais associadas ao imaginário de cidade possibilitam para os corpos que habitam o universo dos trajetos das cidades ditas musicais. Como bem sabemos, há todo um imaginário audiovisual ligado a corpos e ambientações que tocam, dançam e encenam diferentes categorizações, gêneros musicais e as cidades dentro da cidade.
Eu nunca tinha ido. Quer dizer, fui uma única vez, no ponto final do trajeto, na Praça da Matriz. Desta vez, porém, comecei do início. Cheguei por volta das 19h30 em frente à Faculdade de Arquitetura, no Campus da UFRGS. A cena já era de movimento. Grupos se formando, conversas cruzadas, latas abrindo, aquela energia de começo de noite. Encontrei a minha amiga, Gabriela, e ficamos bebendo e colocando a vida em dia. Só meia hora depois lembrei de ativar minha localização no Strava, gesto que já denunciava o desejo do nosso grupo de registrar aquela experiência de viver a cidade a pé, no fluxo.
A Gab contou que já tinha ido a três edições, embora sem muito entusiasmo pelas experiências anteriores. Eu, estreante, ouvia tudo com curiosidade. Logo ela reencontrou alguns amigos, e nos juntamos a eles. Foi ali que percebi algo que marcaria minha noite: naquele evento, especificamente, as pessoas parecem energeticamente dispostas a furar suas bolhas. Há uma abertura quase imediata para conversar, rir, seguir junto, como se, por algumas horas, a sociabilidade urbana ganhasse outra lógica.
A noite começou com Jazz no espaço onde trabalho. A saxofonista alemã Nicole Johänntgen tocou um jazz contemporâneo misturado com afrobeat, música latina e afro-cubana em um show complexo e coeso ao mesmo tempo, sons muito diferentes daquilo que eu ouviria mais tarde naquela noite. Foi por causa desta atividade que tive que trabalhar até as 20h30, o que atrasou a minha chegada ao Bar em Bar. Quinta-feira é um desafio para quem trabalha. Só chega no horário quem vai direto do serviço.
Eu, como sempre, cheguei atrasado. Saí de casa às 20h20. Fui a pé, como costumo fazer, seguindo a Protásio e a Osvaldo. Dessa vez não estava sozinho. Meu grande amigo Rodrigo, que recentemente se mudou para minha rua e virou praticamente vizinho, foi junto. Caminhamos tomando uma ceva e batendo papo. A avenida estava meio vazia e tudo ressoava — os carros, os ônibus, até os passos. A academia do lado de casa exibia sua população de infelizes, foi o que pensei na hora.
Quanto mais nos aproximávamos do Campus do Centro da UFRGS, mais gente aparecia. Quem estivesse na rua naquele horário provavelmente tinha o mesmo destino. Com o passo apertado alcançamos um grupo de amigos que encontramos por acaso. Antes mesmo de chegar no evento já tínhamos nosso primeiro encontro da noite. Quando finalmente chegamos, quase 21h, descobrimos que o estandarte ainda mal tinha saído, mesmo com a previsão das 20h. Tinha gente saindo de bueiro. Caixas de som por todos os lados, ambulantes, churrasquinho, motoristas buzinando estressados, uma onda de conversas que se misturava e virava apenas barulho. Parecia que tudo fazia parte de um mesmo som gigante. A largada finalmente foi dada. Saímos do prédio da faculdade de Arquitetura da UFRGS e o Bar em Bar oficialmente estava de volta.
Por volta das 20h30 começamos a caminhada até o segundo ponto, no Boulevard da Duque. Pelo caminho, cruzamos ainda mais conhecidos, e acabamos consolidando um grupinho. A verdade é que partimos aceitando um risco, se terminássemos a noite sem ninguém se perder, seria pura sorte.
No trajeto, uma cena se repetia e me chamou atenção. As pessoas se cumprimentavam, desejavam “bom rolê” e sempre finalizavam com um “a gente se encontra durante a noite”. Era um pacto tácito. Uma confiança no acaso.
Quando nos aproximamos da Faculdade de Direito da UFRGS, o “modo sobrevivência” foi acionado. Era gente demais e a cada passo parecia mais difícil manter o grupo unido.O início sempre é um aperto. Todo mundo caminhando como um amontoado de pinguins tentando descobrir onde dá para passar. Em certo momento, olhei para trás e não reconheci mais ninguém. Senti a ansiedade subir, aquela sensação breve e aguda de estar perdida no meio de uma multidão. E agora? Por sorte, cerca de dez minutos depois, eles me encontraram. Ser alta, nessas horas, vira ponto de referência involuntário.
Os encontros começam cedo, mas são tantos que se dissolvem rápido. Os desencontros também chegam cedo. No meio do caminho, encontrei minha melhor amiga da faculdade, a Giovana. Nós havíamos combinado de chegar juntas ao início do trajeto, mas no momento combinado ela me respondeu que estava lavando o box e ainda ia tomar banho. Aquilo me fez pensar no pré-rolê da vida adulta. Moramos sozinhas, temos outras rotinas, outros tempos. Não somos mais tão jovens.
Subimos a Duque e ali as coisas engrenam de verdade. O caos reinava, mas de um jeito curioso. Um caos que não incomodava tanto. Carros presos, motoristas perdidos, e frequentadores tentando, com boa vontade, indicar algum caminho possível. Na calçada, uma fileira de patinetes. Um deles jogado no chão, obrigando as pessoas a pular por cima. Era visível a irritação, tropeços e quase quedas. Até que uma “boa alma” interrompeu o fluxo para recolocá-lo no lugar. Esse gesto simples me fez pensar no quanto esses patinetes, símbolo de mobilidade urbana “futurista” do governo Melo, seguem representando riscos e atritos, especialmente quando somos pedestres em massa.
Outro aspecto que me surpreendeu foi a relação dos moradores com o evento. Os curiosos aparecem nas sacadas, observando a multidão como papas abençoando fiéis.Os cachorros ficam hipnotizados nas janelas, e já que não adianta reclamar do barulho, parece que resolvem aproveitar o espetáculo. Lembro de um cachorro imóvel na janela, acompanhando a multidão como quem assiste a um desfile. Em outra sacada, um casal de idosos, sorridente, virou atração quando a multidão começou a gritar “beija, beija”. Eles se beijaram e a rua inteira comemorou. Por alguns instantes, parecia réveillon, uma celebração coletiva, espontânea, de estar vivo e partilhar a cidade.
Foi nesse clima que me senti, pela primeira vez, verdadeiramente pertencente. Brinquei até que, finalmente, me senti porto-alegrense, justo eu, que sou de Uruguaiana, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Algo na mistura entre o caos, o encontro e a cidade em festa me deu essa sensação de que, naquela noite, eu habitava Porto Alegre de um jeito novo. E Porto Alegre, de algum modo, também me habitava.
Naquela noite, também tinha um recital de orquestra para comparecer com minhas amigas, o qual tínhamos comprado ingressos fazia algum tempo, muito antes do anúncio da data do Bar Em Bar, e por isso não podia desmarcar. Passado estas divergências de horário e compromissos, finalmente chamo meu Uber para o rolê.
Primeiro passo: entrar no Instagram do DAFA para localizar o ponto da rota que estaria a multidão. Localizamos eles na rua Duque de Caxias, por volta das 22h, e o endereço referência colocado no aplicativo foi o colégio Bom Jesus Sevigne. O caminho até lá foi tranquilo, mas não esperávamos ter que descer 2 quadras antes do destino. As ruas estavam lotadas de jovens e carro nenhum estava conseguindo passar com facilidade ou agilidade, por isso a solução foi caminhar até a Duque. Durante a caminhada, já conseguimos notar os rastros deixados por uma festa característica de rua: algumas garrafas quebradas, pessoas indo comprar bebidas em mercados próximos, gritos de gente tentando se comunicar com seus amigos no meio da multidão, coisas normais de todos os Bar Em Bar que já presenciei. Quando finalmente chegamos onde estão a maioria das pessoas, noto que existe um membro dos organizadores do rolê com um megafone nas mãos, pedindo para as pessoas abrirem espaço nas ruas para que os carros pudessem passar. Penso na hora que esta é uma estratégia de organização que não era praticada nas edições anteriores, e algo que facilitou a mobilidade urbana naquela noite de festa.
É nessa parte que as ruas paralelas se transformam em mictórios. Não há container, canteiro ou fachada que escape do “pipi amigo”, como minha mãe dizia quando eu era criança. E é sempre uma experiência curiosamente comunitária, sem julgamentos. A gente se ajuda, indica bons lugares, faz rodinha pras gurias terem seu alívio com um mínimo de dignidade improvisada.
Por algum motivo, esse trecho da Duque parece ser o grande vórtice de encontros e desencontros. Todo tipo de conhecido aparece. Ex-colegas de colégio, gente da faculdade, ex e futuras namoradas. O Bar em Bar tem essa energia de abraços e sorrisos espontâneos acompanhados de um “quanto tempo”. É bonito. Nessas pequenas cenas dá pra sentir como o evento proporciona essas microafetividades espalhadas pelo caminho. Como se, por algumas horas, surgisse outra cidade por cima da Porto Alegre de sempre. Uma cidade que só existe nessa noite.
Mais uns passos a frente, paramos para comprar bebida com um vendedor ambulante, e é nessa hora que um coro altíssimo de pessoas cantando “Vamos Para Gaiola”, do funkeiro Kevin O Chris, começa a repercutir pela rua inteira. Paro para ouvir, e a sensação é energizante, sinto a frequência em que todas aquelas pessoas estão vibrando, e é pela música que se conectam. O público parece ser bem maior em número desta vez, o que aumenta o tremor dos cantos e dos gritos de festejo durante a caminhada. Não demora muito para encontrarmos as primeiras pessoas conhecidas. Um grupo de meninas da faculdade de psicologia da UFCSPA, amigas de amigas. Logo mais adiante, vejo alguns colegas de curso, outro grupo de amigos, além de pessoas que não gostaria de ter esbarrado.
O trajeto oficial seguia direto para a Praça dos Açorianos. Quase ninguém acreditava que as pessoas realmente abririam mão de ir à Praça da Matriz. O fluxo até a praça é natural, pois o corpo dos frequentadores assíduos do Bar Em Bar já caminha sozinho pela rota dos bares, e a parada no monumento da Matriz era obrigatória, mas esse ano foi diferente. A curiosidade nos fez ir até lá, eu, Rodrigo e nossa amiga Carolina. Para nossa surpresa, a praça estava praticamente vazia. Meia dúzia de gatos pingados e policiamento. Uma visão estranha para um lugar que sempre foi pulsante no evento. Ali fui percebendo que o método cartográfico é isso mesmo: seguir pistas, mesmo quando elas não dão em nada. Ou melhor, dão em algo, nesse caso uma sensação de ausência. A Matriz vazia também era um dado. Um silêncio no meio do barulho todo.
A cartografia implica que o pesquisador adote uma postura de explorador, de descobridor, observando os caminhos desordenados dos processos e mantendo uma atenção sensível para a detecção de signos e forças circulantes. A pista metodológica é um guia no percurso da pesquisa, permitindo que o pesquisador cultive a atenção concentrada e aberta à experiência de problematização. Como apontado pela pesquisadora Nísia Martins do Rosário, a cartografia lida com a multiplicidade, transversalidade, processo e rizoma e não se opera sobre modelos prévios.
Diante da situação, resolvemos apenas regar as plantas e voltar para a rota. Quando chegamos próximo à Igreja, demos de cara com a Guarda Municipal, e pegamos uma rua alternativa para voltar a rota estabelecida pelo DAFA. Nesse caminho, vejo um grupo de meninas que encontram outra menina conhecida, “lembram de mim?” uma delas pergunta, e cenas como essas se repetem ao longo da noite. Os encontros, reencontros e desencontros são a marca registrada dessa reunião de universitários, que se aglomeram no centro da cidade para beber, se divertir e tomar posse das ruas por algumas horas.
No fim, o “grupão” em que estávamos acabou naturalmente se reduzindo a um trio: eu, a Gab e a Gi. Seguimos juntas até o final. Depois da segunda parada, rompemos com o roteiro oficial, nos desprendemos do restante da galera e fomos parar no Brechó do Futebol. Eu e a Gi somos amigas dos atendentes, então aproveitamos para colocar o papo em dia e, claro, usar o banheiro, um privilégio raríssimo em noites assim.
Na sequência, retomamos a caminhada e cruzamos com um casal vendendo Melz, o famoso mel com cachaça. A Gab me perguntou se eu já tinha provado; respondi que não. Ela fez questão absoluta de comprar um para mim, e eu adorei. Mais uma primeira vez registrada naquela noite cheia de estreias. Seguimos nós três pelas ruas, conversando sobre tudo: ficantes e ex-ficantes, dilemas familiares, histórias de vida. Era como se o Bar em Bar nos oferecesse não apenas deslocamentos, mas uma espécie de suspensão do cotidiano, um espaço para que certas conversas acontecessem.
Em meio ao trajeto, encontramos um dos organizadores, megafone em mãos, orientando a multidão a seguir para o último ponto, a Ponte de Pedra.
A caminho da ponte, a Gab resolveu comprar uma ceva em um bar que nem fazia parte da rota oficial. Ficou um bom tempo conversando com o atendente, como se aquele encontro improvisado fosse parte da própria noite. Ali me dei conta de que o Bar em Bar não se limita à linha que liga um ponto ao outro. Ele vaza, transborda. O evento ativa a cidade inteira, seus bares, suas esquinas, seus trabalhadores e, de algum modo, faz com que tudo isso passe a compor a experiência. A rota é só um pretexto, o essencial acontece no meio.
Deleuze e Guattari (1995, Vol. 1) afirmam que o rizoma “não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo”. O rizoma é composto por linhas de segmentaridade, estratos e territorialidades, mas também por linhas de fuga e movimentos de desterritorialização, fazendo dele um mapa móvel que se constitui em suas múltiplas conexões. O evento, ao vazar e transbordar, exemplifica perfeitamente essa dinâmica do rizoma.
Chegamos na Praça dos Açorianos perto da meia-noite. O lugar histórico e lindíssimo, estava tomado de gente em cima e ao redor da ponte de pedra. Música para todos os lados, uma multidão vibrante. Penso quanto esse lugar é mal aproveitado.
A noite foi marcada por vários públicos diferentes, com caixas de som tocando de funk à Chali XCX. O que chamou a atenção nesta edição foi a presença de um DJ com uma CDJ e caixas grandes de som esperando a multidão chegar na ponte de pedra. E todos chegaram, curtiram a música, dançaram. Quando a rota finalmente teve seu destino alcançado, olhei em volta e vi pessoas em cima das paradas de ônibus, ocupando.
O som se impunha o tempo inteiro. Vinha das conversas entrelaçadas, das risadas, das JBLs disputando espaço com as vozes, dos ambulantes anunciando seus produtos, da multidão que aplaudia, cantava, vibrava. E também das buzinas dos carros, presos no trânsito humano que tomava as ruas. O cheiro, igualmente presente, compunha sua própria camada, com churrasquinho, cachorro-quente, cerveja derramada, perfumes dos mais variados tipos das mais variadas pessoas, lixo acumulado, xixi nos cantos. Caminhar por Porto Alegre naquela noite era atravessar uma explosão sensorial.
O áudio a seguir reúne trechos que sintetizam a vivência do grupo no Bar em Bar, evidenciando as diferentes experiências sonoras sobre o percurso. Dê o play!
Esses estímulos agradáveis e incômodos moldam nossas trajetórias diárias. Da casa à faculdade, da faculdade ao trabalho, do trabalho ao retorno para casa, ou, naquela noite, da Arquitetura até a Ponte de Pedra. No fundo, estamos sempre expostos a tudo. Aos sons, aos cheiros, aos espaços e às pessoas que compõem essa cidade que transborda para muito além do que conseguimos processar. Mas ali, no Bar em Bar, essa exposição deixava de ser apenas pano de fundo e se tornava parte essencial da experiência de ocupar a rua.
Algumas cervejas e muita caminhada depois, era hora de ir ao banheiro, algo que, para mulheres, significa ficar horas em uma fila. Fomos em dupla e deixamos o resto do grupo curtindo a música na praça, e 30 minutos depois nos reencontramos para ir embora, pois a noite já tinha sido cansativa e a ida ao banheiro sempre é desestimulante. Fomos embora por volta das 1h30, e fui refletindo na volta sobre o que tinha experienciado. No fim, os encontros e desencontros são algo não só vividos no Bar Em Bar , mas ao longo de toda vida acadêmica. Não esbarrei em tantos amigos como nas edições anteriores, pois hoje alguns estão no mestrado, outros foram estudar fora, outros mudaram de curso e a comunicação ficou falha. Isso evidencia o fim da trilha da graduação, que termina com um indivíduo modificado pelo espaço da cidade e por seus processos. Como contemplaria Foucault (2009, p.414),“Dito de outra forma, não vivemos em uma espécie de vazio, no interior do qual se poderiam situar os indivíduos e as coisas. Não vivemos no interior de um vazio que se encheria de cores com diferentes reflexos, vivemos no interior de um conjunto de relações que de nem posicionamentos irredutíveis uns aos outros e absolutamente impossíveis de ser sobrepostos”.
Na Açorianos encontrei uma gurizada, inclusive minha ex que não era exatamente ex e agora virou ex de fato. Com ela e vários amigos segui a noite até às duas da manhã. Já não conseguimos seguir até depois das 4h como antigamente.
Utilizamos o Strava para demarcar os passos e o trajeto de cada um do grupo. Ao final do rolê, o meu marcou 21,25 km percorridos em 3h57min, o da Mari 11,66 km em 2h17min e o do Ignácio 22,98 km em 2h25min . O aplicativo não se deu bem com a Bruna e o trajeto dela se perdeu, faz parte do processo. O registro, no fim, virou uma espécie de representação gráfica rizomática — aquela maluquice de linhas cruzando por todos os lados, sem hierarquia, sem centro, só um emaranhado que fazia sentido porque era exatamente assim que a noite tinha sido vivida. Como se o mapa tivesse ficado bêbado também.
Uma verdadeira cartografia de encontros e desencontros, de seguir a rota e de se permitir dispersar, de sons sobrepostos em camadas, porque silêncio, de fato, não houve. Nem mesmo na volta para casa. No Uber, o motorista perguntou o que estava acontecendo na cidade, e acabamos conversando sobre o evento e sobre a energia que se espalhava pelas ruas.
O Bar em Bar, naquela noite, ultrapassou a simples lógica do deslocamento. Foi como se acordasse Porto Alegre, devolvendo-lhe um ritmo que há tempos parecia suspenso. A cidade pulsava e nós pulsávamos com ela. Essa pulsação e o ritmo são elementos que, segundo Deleuze e Guattari, são essenciais na constituição de um território existencial. A cartografia, ao buscar a identificação das linhas de fuga, acompanha os fluxos e movimentos de desterritorialização que definem esses mapas moventes.
Confesso que não senti o impacto de alguma restrição imposta pela EPTC, nem percebi se houve uma intervenção de fato. Ainda assim, a ronda de viaturas da Brigada Militar foi expressiva, mas isso é costume por aqui, principalmente em momentos festivos de grande fluxo de pessoas pelas ruas.
O rolê, no fim das contas, foi muito afudê, mesmo com todas as mudanças. E foi interessante vivenciar tudo com os olhos e ouvidos mais atentos, como quem oficialmente está estudando a própria cidade enquanto bebe e abraça conhecidos.
Faz algum tempo que a juventude da capital busca ambientes para viver sua própria cultura e habitar a cidade com liberdade e segurança. Em um contexto de cerceamento e proibições, o corpo procura por espaços de lazer onde a aglomeração conduzida pela música seja permitida, para que seja possível o movimento dançante que tire dos músculos o cansaço da rotina, dando espaço a outro cansaço, um que deixa saudade e a gente procura de novo pelos bares, shows, feiras ou mesmo ao redor de uma caixa de som pirata por alguma esquina em mais um after.
Referências:
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.
FOUCAULT, M. Outros espaços. In: MOTTA, M. B. (Org.) Estética: literatura e pintura, música e cinema/Michel Foucault. Rio de Janeiro: Forense, 2009.
MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
por Clarissa Chaves, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes
Por volta de setembro ou outubro deste ano, enquanto scrollava a aba de Reels do Instagram, me deparei com um vídeo que me apresentou algo que ainda não conhecia: o soft clubbing. Eugene Healy, mestre em Comunicação e criador de conteúdo, descasca a prática de maneira sagaz, amparado por autores como Mark Fisher, e já na sua fala de abertura, ele descreve o soft clubbing como mais um produto de controle da psique no capitalismo tardio. Sem que pulemos precipitadamente para às conclusões e deixando o aparato acadêmico em segundo plano por um momento, o soft clubbing foi uma descoberta que instigou a curiosidade, porque seu próprio conceito era para mim inexistente antes do momento em que vi aquele vídeo. O que será que toca em uma festa assim? As pessoas bebem? As pessoas dançam como em uma pista de dança mais usual? Que tipo de pessoa que vai ouvir um set de DJ pela manhã?
Já sabia que existiam pessoas que não gostam muito de sair e preferem ficar em casa assistindo a uma série em algum streaming, em vez de dividir o ambiente com centenas de pessoas entorpecidas ouvindo música. Porém, propostas como o soft clubbing nos levaram a pensar qual seria o motivo pelo qual este movimento existe. Pois, se existe o soft, fica subentendido que também existe o hard. Se o soft é ouvir house em um café, o hard é ouvir um acid em um galpão abandonado.
O soft clubbing se propõe como uma balada diurna; consiste em festas acompanhadas de DJ sets que ocorrem majoritariamente em cafeterias durante o final da manhã e início da tarde. A bebida alcoólica, o combustível mais comum e mais fortemente consumido na vida noturna, pode estar presente ou não, à depender da demanda. A partir dos dados de pesquisa de comportamento da geração Z consultados pela Eventbrite — que corresponde, creio eu, sobre os hábitos do norte global, não é especificado —, site estadunidense de marketplace de eventos, a VICE bate o martelo sobre soft clubbing: é literalmente a nova rave. Seu caráter de novidade mostrou que o cenário porto alegrense ainda não dispõe de uma grande variedade de eventos soft, mas a demanda é preenchida principalmente pelo projeto Torra Sessions, promovido pela empresa de comunicação FeedMe, além de ter se tornado uma estratégia ligada à identidade de marca dos estabelecimentos, como no caso da XOX Coffeeclub, cafeteria localizada no bairro Floresta.
Em contrapartida, a cena musical de Porto Alegre, em especial a cena de música eletrônica tem buscado conectar o público com as experiências sonoras que atravessam a cidade de forma cada vez mais frequente. Considerando como a pandemia de coronavírus afetou diretamente as práticas e eventos que aconteciam antes de 2020, o ano de 2025 prova que o fazer coletivo da cultura pôde se reestruturar com o decorrer do tempo e agora expande, com novos coletivos artísticos conquistando seu espaço e diversificando ainda mais as sonoridades das pistas. Por exemplo, Batukbaile e Afrojams, estabelecidos respectivamente em 2024 e 2025, são coletivos que vão colocar diversos ritmos negros no centro do seu som; Boiler Baile, de 2023, vai borrar ainda mais a barreira imaginária entre a eletrônica e o funk. Já Sensi, de 2025, nos convida a explorar as pontes entre o Brasil e a Jamaica através do ragga. É claro, estamos falando de um nicho específico dentro da música local e que apesar da sensação de uma virada cultural protagonizada pelas CDJs e DDJs, seus sons plurais e muitas vezes ruidosos, Gabriel Bernardo (Marginália Metropolitana, 2025) não é tão otimista quando aponta que a relevância desta cena apesar de indiscutível pelo viés da cultura, ainda não atingiu o rompimento da barreira do mainstream que permitiria um alcance em escalas maiores do que a regional e maior retorno financeiro por parte dos artistas, que até o momento, não é expressivo. Na plataforma Substack, o ensaio de título infame everyone wants to be a DJ, no one wants to dance ganhou grande repercussão nas esferas musicais ao tratar sobre o aumento da cena não somente como um fortalecimento da expressão artística difuso como no conceito de contágio que Eduarda Fernandes trabalha no seu capítulo na Marginália Metropolitana, mas como este processo de expansão também acontece em razão da necessidade de comodificação da própria produção artística. Se vivemos em um momento da hipervalorização da produtividade, da otimização do tempo, da busca por capitalização do lazer, o criador (neste caso, o DJ) é um empreendedor e ocupa uma posição hierárquica maior do que o contemplador (a pista), porque dentro desta lógica neoliberal, sua habilidade se converte em produto com valor social e financeiro agregado, enquanto o ato participativo de estar em contato com a música como atividade de lazer, por sua vez, torna-se um ato de consumo. E adivinha? Isso por si só não é produtivo, a não ser que se converta em em um novo produto (como conteúdo para redes sociais). A autora Dani Offline coloca, “As creation gets conflated with entrepreneurship, making art becomes an experience, a lifestyle, to be bought and sold.” De modo geral, a classe artística — que vale ressaltar, é historicamente e sistematicamente desvalorizada — estar em uma efervescente proliferação não é apontada por ela como um problema, mas como uma consequência do modelo econômico.
Coletivos de arte e música fazem parte de uma economia participativa e que, ao analisarmos os exemplos citados anteriormente, são compostos por corpos plurais que realizam o trabalho de potencialização e protagonismo de vozes advindas de grupos sociais marginalizados através das atividades por eles propostas. Um dos diferenciais de eventos promovidos por coletivos é a lista afirmativa que funciona de maneira a facilitar a participação de pessoas sistematicamente oprimidas, como pessoas trans e dissidentes de gênero e pessoas pretas e pardas, iniciativa que se mantém incomum para casas de festas mais tradicionais e populares. Outro diferencial é a ocupação de espaços não convencionais, como praças e prédios históricos negligenciados pelo órgão público. Através da música, da pista, da dança, esses espaços são ressignificados e adquirem novos propósitos antes sequer considerados. Festas em espaços públicos propõem uma inclusão ainda mais abrangente de pessoas com maiores dificuldades de exercer o seu direito ao lazer, como pessoas em situação de rua, por exemplo. Essas estratégias de democratização cumprem o papel de dissolução da hierarquia DJ e pista promovida pelos ideais neoliberais e de hierarquias sociais; a pista não é uma simples consumidora com poder aquisitivo para o acesso àquele espaço, sua identidade é valorizada e assim torna-se participante ativa das experiências sônicas em conjunto com quem está do outro lado da controladora. Em uma passagem do livro, Fernandes explica: “Para além de uma mera “importação” das referências globais, a música eletrônica — ou melhor, as festas de música eletrônica — também podem ser pensadas como transgressoras de muitas dinâmicas e hierarquias. Não é que não existam sacralizações ou diferenciações; mas, nesses momentos específicos de comunhão de pista, as fronteiras ficam nebulosas, e as práticas que são convencionalmente estigmatizadas e impuras ganham um quê subversivo.”
Assim, este ensaio busca compreender onde estas duas maneiras de experienciar a música num ambiente social convergem e divergem uma da outra, em outras palavras, o que faz o soft ser soft e o hard ser hard. Tomando como inspiração a trajetória metodológica que os pesquisadores por trás do artigo acadêmico Inimigos do fim: apontamento sobre o circuito de “afters” no Recife (MONTEIRO, Gabriel et al. Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de “afters” no
Recife. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. UFF. Niterói – RJ. 23 a 26 de julho de 2024) nossa proposta seria que essas experiências fossem o mais contínuas possível, considerando o bem provável desgaste físico como parte da experiência empírica. Para arquitetar nosso roteiro, foi realizado um mapeamento de eventos de hard e soft clubbing que houvessem datas compatíveis com os membros do grupo, se possível com a proposta de continuidade, e sobretudo, que o valor dos ingressos dos eventos coubessem em nossos bolsos. Tendo em mente o último critério, o primeiro evento soft a ser considerado foi rapidamente descartado de forma cômica, devido ao valor de R$350,00 por ingresso. Um cálculo de porcentagem simples evidencia que esse preço corresponde à 23% do salário mínimo atual. No mais, a estratégia de comunicação da produção do evento não foi transparente — o post no Instagram informava que o evento era aberto ao público e referenciava um link de compra na bio que não encontramos lá. Somente um dia antes do evento, através de um conteúdo de influenciador publicado como stories, conseguimos nos informar onde esses ingressos estavam sendo vendidos e qual era o valor. De forma alguma esse acontecimento foi considerado um obstáculo para nossa exploração, na verdade, tornou-se um próprio objeto sujeito à observação: um delimitador de público bem estabelecido e difícil de ignorar. Por fim, a proposta se concretizou na festa do “Na boca do sol” do Coletivo Plano e na coffee party da XOX Coffeeclub nos dias 15 (sábado) e 16 (domingo) de novembro, o que totalizou em por volta de 12 horas de pista. Dois autores do presente texto estavam presentes na etapa de rua da festa durante o período da tarde, seguindo para o grupo completo navegando a etapa de after e soft clubbing nas horas subsequentes.
Na boca do sol, literalmente
Coletanêa de momentos da Plano de rua.
Vídeo por Clarissa Chaves.
Clarissa – relato da Plano de rua
A ansiedade para conhecer o Coletivo Plano já começou na semana que antecedeu o evento. Como a minha única experiência com festas eletrônicas não tinha sido das melhores, e esse seria o primeiro contato com um lugar novo, estava pensando em tudo: o que vou vestir? Que bolsa eu levo? Será que eu vou beber? E se me der mal-estar? Mas então nós chegamos à nossa primeira parada: Plano de Rua. Ela aconteceu no meio do Parque Marinha, o que me chocou. Sabia que seria ao ar livre, não que seria ao lado de uma pracinha com crianças brincando. Logo de cara vi a mesa dos dj’s, o telão com imagens passando, as luzes coloridas se espalhando com o gelo seco. As pessoas, cada uma no seu mundo, curtindo como bem entendiam. Acho que o que mais me encantou foram as diversas particularidades presentes em um só espaço. Tinham famílias, grupos de amigos que estavam aproveitando o dia na volta e, ao ouvir o som, resolveram se aproximar, além, claro, das pessoas que se organizaram para atender o evento.
Logo de cara avisei o João Guilherme, meu amigo, também autor desse texto, que sou uma pessoa que ama observar o ambiente, gosto de ficar “viajando”, o que se provou ao longo da noite quando nos desencontrávamos no espaço porque eu havia parado para tirar alguma foto, ou o abandonado para fazer carinho em uma cachorra, chamada KUSH ( KUSH é um subtipo da Cannabis), que, segundo o dono, foi levada para ser ponto de reabastecimento de serotonina, algo que eu posso confirmar a eficácia.
Eu, Clarissa, e minha mais nova amiga, Kush
Vídeo por: João Guilherme Gomes.
Eu queria me sentir livre para aproveitar do meu jeito, mas como uma fiel overthinker fiquei pensando sem parar “será que é óbvio que é a minha primeira festa assim? Como que dança? Acho que eu estou meio esquisita dançando assim”. Entretanto, quando o álcool entrou no meu corpo, tudo isso sumiu da minha cabeça, e eu percebi que ninguém estaria prestando atenção em mim, porque cada um está aproveitando o próprio rolê, assim como eu. Eu estava em um lugar com uma música incrível, luzes lindas, pessoas tão unicamente peculiares, me preocupando com o que os outros vão pensar de mim? Acho que não!
Acredito que, se a Plano de Rua acontecesse pelo resto da noite, eu gostaria de ficar noite adentro. Como chegamos às 18h, e a festa — teoricamente — acabava às 22h, me arrependi de não ter ido antes, assistir o pôr do sol e aproveitar mais aquele ambiente. Mesmo assim, consegui curtir bastante cada segundo. Acho que a música “libertou” a minha inner clubber.
Em certo momento fomos ao Front, grudados ao DJ, sentindo a música até a última célula do corpo, parecia que tudo ficava mais leve, o que é um tanto contraditório, visto que a música é mais “pesada”, por assim dizer. É um conjunto de barulhos que separados são caóticos e até “bagunçados”, mas juntos formam algo harmônico e energizante, como se fosse uma tela de arte abstrata. Durante a troca de artista, houve uma curta fala, na qual ele disse “Isso é de nós para nós”, o que ficou na minha cabeça a noite toda, porque isso é Coletivo, coletivo de pessoas, sons, vidas.
João Guilherme – relato da Plano de rua
A expectativa já se instalou no sábado de manhã, logo ao acordar. A empolgação em levar uma pessoa nova para conhecer algo que eu admiro, e depois ela poder me devolver a mesma experiência, parecia ser algo incrível. Parecia que estávamos montando um briefing, pois a Clarissa tinha muitas perguntas a fazer e eu, como amigo e guia particular dela nessa missão, respondia a tudo com muita empolgação.
É normal que haja uma curiosidade ao estar prestes a conhecer algo inédito. Eu não poderia ficar mais feliz pelo fato da Clarissa ter tantas dúvidas, afinal isso mostra que ela estava interessada em realmente viver a nova experiência.
Assim com ela eu também tinha as minhas dúvidas, e elas eram muitas como: “Será que ela vai gostar?”, “Será que ela vai aguentar até o final?”, “Será que ela vai gostar das pessoas que vão estar lá?”. Só que, diferentemente das dúvidas dela, eu não tinha ninguém para me respondê-las de prontidão; o que eu podia fazer era apenas esperar.
Depois de tudo estar devidamente alinhado, partimos então para o local onde tudo aconteceria. Quando chegamos ao local, já era por volta das 19h, então já havia bastante gente, tendo em vista que o evento começava às 16h. Nossa primeira preocupação ao chegar foi procurar algo para beber, pois é humanamente impossível ir a uma festa que toque só música eletrônica e não estar ao menos um pouco bêbado.
Com isso resolvido, eu quis levar a Clarissa para o front, logo de cara, para ela ver de perto como a qualidade do som era boa — e eu nem digo do gênero, mas sim das caixas mesmo. Queria que ela visse o pessoal tocando e a performance que estava tendo também. Quanto mais detalhes eu conseguisse mostrar para ela, melhor.
After
Globo em formato de Mickey acima da mesa do DJ no after da Plano
Foto: Clarissa Chaves.
Clarissa – relato do after da Plano
Após um primeiro contato incrível com a Plano de Rua, estava com as expectativas lá no alto – algo que eu não costumo fazer para evitar decepções. O álcool já havia evaporado do corpo no intervalo de quase duas horas que se deu entre a parte inicial da noite e o After, o que eu considero o principal culpado pela percepção que tive do evento. Chegamos lá e ficamos um tempo no fumódromo, iluminado com luzes verdes e decorado com bancos, cadeiras e plantas. Podíamos escutar a música, o tuts tuts vindo do lado de dentro, misturado com o burburinho das diversas vozes do lado aberto. O ar estava quente, abafado, meio pesado, mas, do lado de dentro, a energia era um tanto diferente, mesmo que não muito. As luzes coloridas refletindo em um globo de espelhos acima do dj era o charme, mudando de acordo com a música – que, por sinal, estava meio morta ao meu ver. O público também era completamente diferente: não tinham famílias ou pessoas que estavam passando e se interessaram pela cena, mas haviam jovens elétricos, que planejaram a ida à festa, que se programaram. O máximo que se via eram pessoas que, após a Plano de Rua, resolveram atender o after, mas seguiam o certo padrão do pessoal.
Acredito que em lugares cuja cena é conhecida por ser mais alternativa, espera-se que as pessoas sejam muito diferentes entre si, mas eu não percebi tanta diferença assim. Obviamente, não existe um padrão imediatamente identificável, mas, ao prestar atenção de verdade, todos – ou quase todos – têm várias características em comum: o jeito de dançar e balançar a cabeça, o óculos escuro, os olhos fechados que passam a impressão de que o indivíduo estava prestes a atingir o seu buddha.
Observar essas novas perspectivas foi interessante, e, mesmo querendo ficar mais tempo, não consegui. Não sei dizer se o problema era eu, mas realmente não me senti confortável naquele lugar. A energia estava pesada, o cheiro, inexplicavelmente, era esquisito, vazio. Tinham várias pessoas, mas, ao mesmo tempo, parecia não ter ninguém.
Com certeza daria uma segunda chance, mas, como primeira impressão, não foi a melhor.
João Guilherme – relato do after da Plano
Chegamos ao after relativamente cedo, por volta das 23h, depois que a etapa da rua havia se encerrado. Dirigimo-nos a um lugar para comer, a fim de nos preparar para o que estava por vir. Ao chegarmos, repliquei o mesmo esquema com a Clarissa: mostrei-lhe todo o ambiente, falei sobre os DJs e apresentei-a a pessoas que conheço e são assíduas na cena.
Por conta de o ambiente ser fechado e as chances de desencontro serem menores, fiquei mais tranquilo em não estar a todo momento ao lado dela, afinal Gezebel também estava lá, junto a pessoas que são da FABICO. Contudo, diferentemente da rua, o after estava estranho; não era a mesma energia do pessoal que estava antes. Eu já havia alertado Clarissa para prestar atenção na diferença entre o público da rua e o do after, pois ela é notável. O pessoal que frequenta a rua nem sempre vai ao after, pelo simples fato de o evento ser gratuito, o que atrai muita gente que deseja apenas ouvir um som legal em um lugar público.
Já o público do after tinha uma energia mais forte, mais presente, como é de se esperar de um ambiente que toca hard e acid techno a noite toda. Algo que considerei uma atitude legal por parte do coletivo: na semana do evento, eles enviaram mensagens na comunidade do Instagram chamando a galera para ir, mesmo quem não estava com dinheiro para o after (provavelmente oferecendo ingressos cortesia), para que pudessem curtir o evento com eles, pois faziam questão de que todos pudessem fazer parte desse coletivo.
Mesmo já conhecendo o evento, os DJs, o espaço e as pessoas, fazia um certo tempo que eu não frequentava; então, desta vez, eu também estava ali com uma sensação de primeira vez, ainda que momentânea. O espaço, de fato, estava com uma disposição diferente, e as pessoas também eram outras. Creio que a Plano vem se popularizando tanto que está atingindo novos públicos; era notável que era a primeira vez de muita gente ali. Isso é bom, pois Porto Alegre quase nunca apresenta algo novo e, quando apresenta, muitas vezes dura pouco tempo, já que não existe demanda suficiente para manter aquilo vivo.
Foi bom poder levar meus amigos para conhecer algo novo dentro de uma cidade tão limitada, onde tudo é o mais do mesmo e nada mais proporciona aquele frio na barriga de antecipação e ansiedade pelo que pode acontecer.
Gezebel – relato do after da Plano
Ir para festas de eletrônica é uma prática de encontrar conhecidos. Seja na entrada, na pista ou no fumódromo — mas especialmente no fumódromo — encontros e desencontros são mais recorrentes do que parecem. A primeira pessoa que vi ao chegar lá foi um familiar meu que trabalha com segurança de eventos, quase sempre presente nos fritos da cidade. Quando encontro outras pessoas conhecidas nestes espaços, compreendo que o motivo de nós estarmos ali é, sobretudo, a música. Mas por encontrá-lo com mais frequência em casarões aleatórios do que em festas de família, me pergunto se a música eletrônica é um fator diferencial ou não, se é do agrado dele e se, talvez se não estivesse à trabalho, fosse estar na pista dançando com todo mundo. Será que existe um appeal?
O after da festa Plano aconteceu no Garden, casa noturna no bairro Navegantes. Dada a distância de 9km entre os locais que aconteceram as duas etapas da festa, o próprio coletivo apresentou uma solução para os clubbers diurnos, oferecendo três viagens gratuitas em uma van fretada para facilitar o deslocamento.
A pista estava cheia e se manteve cheia até o momento que parti. Os corpos lá presente se moviam e dançavam com a batida do som alto, cada um da sua forma, e quando me permiti apenas sentir essas vibrações, fui engolida pela batida. Por um momento, meu corpo também fez parte daqueles tantos outros, e a pista deixou de ser uma aglomeração de pessoas para se tornar um único corpo vivo, conduzido pelo DJ e em sintonia com o ritmo. O calor escaldante é comum em espaços de pista, já que corpos grudados e suados estão em movimento; quando ocupo o front, o ar pesado dificulta minha respiração, mas vejo isso como uma das consequências desse espaço de disputa. Diferente de outras experiências prévias de pista, o ar condicionado gelado que refrescava o espaço garantiu um conforto maior para a atividade de dança. Naquela noite, com o volume de pessoas que preenchiam a pista, não investiguei o front, assim, não posso concluir se a experiência agradável de quem estava mais ao fundo era a mesma de quem estava coladinho no DJ.
Por fim, percebi que apesar do trabalho visual lindo para compor o espaço — um “globo” espelhado no formato da cabeça do Mickey Mouse refletia a luz dos fortes e coloridos holofotes — as pessoas à minha volta não estavam tirando fotos. Me senti até um pouco constrangido com essa observação, agora ciente de que era o único ali com uma câmera erguida enquanto todo mundo dançava. Esse reality check me pôs no lugar e me disse: vai curtir à noite.
Do acid ao açúcar, XOX Coffeeclub
Fotos do ambiente interno da coffe club
Fotos: Clarissa Chaves
Gezebel – relato do XOX Coffeeclub
Saída diretamente do Pinterest, a cafeteria XOX Coffeeclub nos recebeu com um ambiente aconchegante e pronto para ser fotografado. Jogo de luzes interessante e coloridas, as paredes azuis, letreiros legais. O espaço era preenchido por um DJ set leve de ambient house enlaçado à músicas pop, muitos decibéis mais baixo do que na noite anterior; com cadeiras, mesas e sofás à disposição e um cardápio repleto de opções de cafés, bebidas alcoólicas e comidas. Aquela manhã em específico não contava com um público total maior do que 20 pessoas. Com o movimento reduzido, as mesas que ficam em frente a pista não foram retiradas como em outras vezes em que houveram coffee parties, visto em registros presentes no Instagram da cafeteria. Dentre o público, a observação curiosa foi de que o espaço não era muito diversificado. Por exceção de um, todos os clientes eram pessoas brancas. A relação das pessoas com o espaço e com a música também aconteceu de um modo diferente — captações de vídeos e fotos através dos smartphones eram mais frequentes e usuais. Fosse um curto story do set, fosse uma selfie no belíssimo espelho do banheiro, fosse um click da comida disposta de uma maneira harmônica pro dump, estar neste espaço ia além da experiência material e sensorial, ela clamava por registros que pudessem a confirmar. E eu também não agi diferente; captei imagens para compor este ensaio como também postei algo quando adentrei no espaço. Me parece sua funcionalidade primária.
Eu não concordo com a frase “Come for the coffee, stay for the vibe” presente em um dos letreiros, mas ela possui, sim, um fundo de verdade. Por um lado, visitar a XOX foi revigorante. O café que pedi estava uma delícia, a música era ok, com algumas decisões do DJ sendo melhores do que outras, no geral, uma atividade tranquila e agradável para começar o dia de domingo tentando se livrar da ressaca. Por outro lado, um dos maiores pontos negativos da cafeteria é a sua localização, que fica há 10km de distância de mim, somado ao difícil acesso via transporte público. Mas talvez isso não seja um dos pontos considerados por empreendedores que abrem novos comércios na região do 4º Distrito. No entanto, as ruas compridas e vazias repletas de galpões fechados, terrenos à venda e, vez que outra, um outro comércio são o oposto de um ambiente convidativo. Cafés, restaurantes e minimercados são estabelecimentos que desempenham funções pra além do consumo, funcionando como uma expressão da comunidade do bairro e como ela socializa. Se eu pudesse cruzar com a XOX Coffeeclub no meu caminho, com certeza ela desempenharia o trabalho de me cativar à adentrar o seu espaço para consumir, mas ela acaba sendo um pontinho azul no mapa, o perfil que eu vejo no meu Instagram e o “Local de destino” do meu Uber.
Acredito que soft e hard clubbing são experiências sonoras consideravelmente diferentes, em suas propostas, seus aspectos de execução, nos gêneros musicais que abrangem e seus públicos-alvo. De tudo, posso dizer que a VICE me fez superestimar o que tal tipo de evento poderia ser — se o público frequentador de festas de eletrônica já existe dentro de um nicho que não corresponde necessariamente com a totalidade de pessoas que saem de casa buscando o lazer em ouvir música, o soft clubbing propõe não uma segmentação financeira pra este nicho, mas um novo nicho completamente novo, produzido por e para um público de maior poder aquisitivo, e assim, higieniza a potencialidade subversiva, ruidosa e suja do clubbing.
Clarissa – relato do XOX Coffeeclub
Logo de cara o XOX Coffee Club dá um sentimento de “uou”. É um ambiente meio futurista, com uma proposta contrária aos lugares que visitamos na noite anterior. Como cafeteria, é um espaço incrível, bonito, superinteressante. Agora no quesito coffee party deixou a desejar. Eu já fui em outras coffee parties, então imaginava que seria minimamente parecido, mas não.
O único fator em comum à experiência que já tive era a música, fora isso, nada. O Torra Sessions apresenta a proposta de um ambiente para networking entre criativos, um lugar com comidas, música, café e criatividade. Enquanto isso, o XOX tem uma proposta mais simples: aproveitar um café com amigos escutando um house. Acredito eu que, por ser mais novo e menos consolidado, a coffee party que atendemos não tinha muitas pessoas, era meio morta, meio sem energia. Parecia que as pessoas iam lá apenas para fazer a mídia do instagram e pronto. Ninguém conversava com outras mesas (outra coisa que difere do Torra, no qual todos ficam em pé, rodando e conversando), apenas permanecia na própria bolha.
Inclusive, que bolha! Enquanto a Plano apresentava uma diversidade enorme entre os indivíduos, a XOX não tinha nenhuma. Ninguém parecia estar lá para compartilhar experiências e ver pessoas diferentes.
Acredito que a intenção faça toda a diferença nessa experiência. Ao visitar um café cuja proposta é “come for the coffee, stay for the vibe”, eu espero que a tal vibe seja inexplicável, que tenham várias pessoas e seja um evento! Provavelmente foi inesperado estar com um público tão pequeno nesta edição, visto que em registros de outras vezes havia mais audiência, por isso estranhei tanto esse quesito.
Com certeza frequentaria novamente o café, com um grupo maior, de repente, com uma intenção diferente. Inclusive, já vi no instagram que haverá uma outra coffee party com uma doceria que amo, então estou pensando em ir.
João Guilherme – relato do XOX Coffeeclub
Diferente das minhas duas colegas, que foram para casa e descansaram pós-Plano, eu fui para a casa de outras amigas e fiquei o resto da noite/manhã lá. Ou seja, fui virado para o café. Realmente, fui o inimigo do fim. Quando cheguei no XOX, a música estava alta. Logo ao lado da porta, havia uma mesa com quatro pessoas, e elas estavam bem animadas. De começo, prestei atenção na música: eram remixes house de músicas pop. Lembro que todas as pessoas que estavam lá estavam em grupos de, no mínimo, três. Todos estavam muito animados. Mesmo com a música alta, ainda era possível ouvir as vozes das pessoas, que precisavam falar mais alto do que o som presente no ambiente.
Fiquei com uma sensação de vergonha, pois eu estava com cara de quem ainda não tinha dormido e, por conta disso, fui obrigado a usar óculos em um ambiente fechado, onde as pessoas vão para tomar café. Mas percebi que ali havia outras pessoas usando óculos também, então logo desapeguei da vergonha. O espaço era muito bonito; seguia uma estética cool, com várias placas iluminadas com frases que, com certeza, alguém iria fotografar para postar nos stories. Dentro das cabines dos banheiros, era tudo vermelho — desde o vaso até os azulejos da parede. O corredor tinha espelhos que iam do chão até o teto. O ambiente parecia todo planejado com um objetivo: entre aqui, faça sua foto e nos marque no Instagram.
O instagramável se estendia às comidas e aos cafés também; todos tinham apresentações muito bonitas. Ao contrário do que pensei, não havia ninguém na “pista de dança”. Mesmo o ambiente contendo cadeiras, ainda havia um espaço grande para que as pessoas pudessem ficar em pé e dançar, caso quisessem, o que me fez pensar por qual motivo as pessoas iriam a um lugar onde toca música se estavam apenas sentadas, bebendo e comendo. Ainda assim, gostei de ir lá, mas acho que não seja o tipo de ambiente em que as pessoas vão para dançar e conversar, pois elas estão em suas “bolhas coletivas”, e, mesmo em um espaço social, preferem se manter dentro do próprio mundo.
Em contraste com a Plano, onde todo mundo performa intensidade e suor, o XOX parece funcionar como o avesso dessa experiência: um lugar pensado milimetricamente para ser visto, mas não necessariamente vivido. No fim, a diferença mais gritante entre os dois espaços não é a música nem o cansaço; é a maneira como cada ambiente revela como a gente consome o social hoje. Na Plano, a gente vive o momento; no XOX, a gente fabrica o momento para postar depois.
E talvez a verdadeira reflexão esteja aí: no fato de que estamos cada vez mais cercados de gente, mas nem sempre de presença.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e Estagiário docente Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas, zumbidos e um zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
por Amanda Schultz, Cecília Filappi, Giovanna Depentor e Rafaela Bobsin
A festa Vênus é pensada para ser um rolê acolhedor para mulheres LGBTQIAPN+.
– Na minha época o Chuck dava medo. Parabéns! – diz uma desconhecida.
Foi o que nossa amiga fantasiada de Chuck – usando um collant imitando a blusa e a jardineira do personagem, meia calça arrastão e maquiagem de cicatriz no rosto – ouviu poucos minutos após descermos do Uber. A mulher que falou isso seguiu andando pela rua, até uma caminhonete, subiu na caçamba e ficou dançando. Ali percebemos que a noite tinha tudo para ser boa e estava só começando.
Antes disso, na casa de uma de nossas amigas, seis meninas se arrumam para uma festa temática de Halloween. A intenção era sair de casa até às 23h, mas entre uma chuva às 19h, o tempo para arrumação e a janta de tantas pessoas em um lugar não tão grande, a saída atrasa. A mesa da sala fica coberta de maquiagens e espelhos improvisados, no ambiente tocam músicas variadas – predominantemente funk – e a animação já se apresenta nas conversas e risadas. Uma das gurias do grupo prepara um copo de kit (sem moderar na dose de vodka). Para quem não sabe, kit é a mistura de refrigerante ou energético com alguma bebida alcoólica, normalmente vodka. No auge da bagunça, a luz cai por uns minutos, ligamos as lanternas do celular para uma das meninas acabar a maquiagem. Logo a energia volta, e estamos prontas!
Por volta das 23h20, em dois Ubers, partimos em direção à Bash – local de Porto Alegre em que a festa acontece. Ao chegar no lugar, a fila está grande e parece não se mover. Vamos para o fim dela, empolgadas com a criatividade das fantasias, que iam desde personagens como a Coraline até o Pikachu.
Dois caras, claramente alterados e ainda com os copos nas mãos, se aproximam de um grupo de meninas na nossa frente e perguntam qual é a festa, enquanto parecem escanear as pessoas enfileiradas. Após a resposta, fazem um comentário em tom de ironia do tipo “só mulheres?? e não podemos entrar? ah, que pena”. Nesse momento escutamos a resposta, também com deboche, “é só colocar uma peruca então.” E eles seguem andando frustrados, mas ainda de olho nas garotas.
A Vênus é uma festa que acontece sem uma frequência definida e em diferentes cidades, em Porto Alegre ela normalmente ocorre na casa noturna Bash. O evento é organizado pelas influencers gaúchas Bruna Marini e sua namorada, a DJ Isa Terra. No Instagram, as produtoras retratam a festa como um “rolê autoral” feito de mulheres para mulheres. A festa permite a entrada de homens apenas acompanhados de mulheres – por mais que isso seja mal visto por parte de quem frequenta a festa.
De acordo com Mariana Gonçalves, uma das autoras do livro Marginália Metropolitana (2025, p. 41-42), “estar à margem por vezes pode suscitar o desejo de deslocar-se do ponto de invisibilidade corriqueira para corpos marginalizados, trazendo esses corpos para o centro da atenção do cenário criado pelo ecossistema da cultura de um lugar”. Ao trazer mulheres com vivências em comum como ponto focal em um ambiente, um ecossistema é criado. Assim, a festa se coloca como um lugar seguro para amar e formar amizades. É com essa expectativa que escolhemos ir na Vênus: curtir e analisar um lugar que se propõe focar nas mulheres, sem que sejam um chamariz para encher o local de homens.
Nosso grupo era composto por sete pessoas, sendo quatro as autoras desse texto. Entre nós há uma pessoa com uma fantasia de Chuck, outra está de Tiffany, o par romântico do Chuck. Temos ainda uma bruxa, uma vampira, uma na estética melindrosa e uma Catra (da nova versão da série animada She-Ra). Mais tarde chegaria a Jessie do filme Toy Story, para completar nosso grupo. Importante pontuar que a Chuck, a Tiffany e a Jessie são, na verdade, as únicas mulheres héteros do grupo.
Pulseiras identificando “mulher que beija mulher” foram distribuidas para todas que entravam na festa
Na entrada da festa, há duas mulheres colocando pulseiras no braço de quem entra. Lembramos de ter visto que elas seriam para indicar mulheres sáficas – nosso grupo se animou com isso. Pelo que havíamos entendido, apenas quem quisesse usaria a pulseira. Porém, ao entrarmos ninguém nos perguntou sobre nossa sexualidade e já começaram a colocar o papel no braço de todas. Tiffany viu o texto “Mulher que beija mulher” impresso e, percebendo do que se tratava, falou: “Mas eu não beijo, moça!”, o restante do grupo que ficou para trás, só escutou essa frase e não entendeu nada — porque ela tava falando isso do nada? A mulher quase deixou com que ela entrasse na festa sem a pulseira, mas viu que todos ao redor estavam usando e disse “acho que não pode entrar sem.” Nossa amiga aceitou e entramos na festa, todas com pulseira no braço.
Avançamos um pouco para dentro do espaço, paramos e debatemos entre nós essa questão, todas estavam rindo. Sem conseguirmos entender se foi algum erro de comunicação entre a organização e quem estava recepcionando ou se as pulseiras serviam como ingresso, entramos definitivamente no local.
A Bash é um espaço grande, com dois andares ligados por meio de uma escada, não vimos nenhum meio de acessibilidade. O primeiro está quase vazio, há uma chapelaria e dois banheiros, o feminino e o masculino, mas como não haviam muitos homens, o masculino funciona como unissex. Observamos o espaço, as interações das pessoas e em seguida vamos ao banheiro. Uma das regras principais dos rolês femininos: identificar o banheiro e esvaziar a bexiga antes de qualquer coisa.
– Tô sentindo o espírito LGBT no meu corpo. – Gritou uma menina dentro do banheiro.
Banheiro “masculino” era utilizado como unissex na festa
O que se observa nesses primeiros espaços é como grupos chegam prontos ou começam a se formar. Algumas pessoas entram juntas e se mantêm assim passando entre os espaços, enquanto outros parecem se encontrar lá dentro, se cumprimentam e trocam abraços. Há quem aparenta estar muito feliz com a possibilidade de tirar foto com as organizadoras da festa, que são receptivas e demonstram empolgação com todos – elas já haviam demonstrado isso momentos antes, quando apareceram na fila para elogiar as fantasias e gravar alguns conteúdos.
Seguimos para o segundo andar. Na entrada encontramos um paredão com o “cupido das deusas”. Esta foi mais uma das propostas, uma espécie de “tinder” no local – mas que consistia apenas na foto e número delas para quem quisesse tentar um match. Além disso, havia um espaço de flash tatoos, ainda vazio.
Depois desta “antessala” chegamos, de fato, ao espaço em que a festa estava acontecendo. A DJ Beti, primeira entre três que tocaram na noite, já havia começado seu set.
Segue uma tentativa de desenho exemplificando a distribuição do lugar:
Exemplificação do espaço onde a festa aconteceu
A disputa por um espaço
Ao entrarmos avaliamos o espaço: a pista já quase cheia – por mais que tivéssemos chegado num horário razoável, definitivamente mais pessoas chegariam –, o bar mais vazio. Começamos a tentar nos posicionar. Os locais mais próximos da DJ estão todos ocupados, os camarotes nas laterais – um degrau mais alto que o restante da pista e os únicos lugares para sentar – também estão cheios.
Como não queremos perder tempo, vamos dar uma olhada no que tem no bar. Todas as atendentes e bartenders são mulheres. Nessa mesma semana haviam sido divulgados os primeiros casos de intoxicação por metanol, então estávamos bem atentas e com certo receio de beber qualquer coisa, queríamos enlatados. Uma lata de Skol Beats estava R$27,00. Quem precisa de bebidas quando está entre amigas, não é? Então seguimos.
Paramos primeiro no lado esquerdo da pista. Ouvimos um pouco das músicas. A princípio, o que percebemos é que a primeira DJ parece tocar, majoritariamente, músicas de rap remixadas – e todas pareciam meio iguais. Fazemos uma pequena roda entre nós e começamos a dançar. Nesse momento, com dificuldade de chegar onde estamos, a última integrante do nosso grupo aparece, a Jessie.
– Que sensação boa, não tem ninguém encarando. – Diz uma das gurias do grupo.
Mais tarde, quando entrevistamos algumas pessoas presentes na festa, elas dizem coisas parecidas. Uma das grandes questões da Vênus é essa: em um lugar em que a maioria dos frequentadores são mulheres, quase todas se sentem mais à vontade para vestirem o que quiserem. No nosso próprio grupo isso aconteceu. A sensação era unânime: um ambiente leve, sem julgamentos.
– Mesmo estando namorando eu me senti muito segura de vir com uma saia minúscula, porque ela só é de mulheres – Comentou Eduarda, uma das pessoas que conversamos.
Apesar disso, os espaços físicos que podem ser ocupados estão em constante disputa. Não conseguimos avançar muito para dentro da pista de dança – cada grupo está muito fiel a seu espaço –, então contornamos pelo bar para o lado direito. Abrindo espaço pela multidão, chegamos quase na “quina” direita do camarote das organizadoras.
Ali vemos mais nitidamente que algumas pessoas estão coladas próximas de onde a DJ toca e aparentam não estar dispostas a sair dali. Apesar de acharmos um espaço, somos constantemente empurradas por quem vai de um lugar para outro. A sororidade feminina parece acabar quando um grupo reivindica um lugar para si – fantasias com lantejoulas chegam a machucar quem está rebolando ativamente.
Apesar disso, não há nenhum desconforto com caras tentando ficar com alguém ou passar a mão. Quando uma garota tenta chegar em alguém do nosso grupo, é assim: “Amiga, tá solteira?”.
O tempo passa e, para nós, as músicas não melhoram. Apesar disso, tentamos aproveitar e fingir que estava um máximo.
– Eu to gostando mas achei que ia ter mais funk e acho que tá, tipo, colocando um pouquinho demais de eletrônica no meio, não precisava tanto. – Comentou Stephanie, uma das meninas que estava na festa.
Quando a segunda DJ começa, o público parece se animar. Por ser uma das organizadoras da festa, Isa Terra era uma das “atrações principais” e esperada por várias pessoas, além das danças da influencer Bruna Marini – que nos fez sentir mais com vergonha alheia.
Ela toca diversas músicas de funk com mixagens próprias. O que surpreende é que, apesar de ser uma festa para mulheres, as músicas são, no geral, cantadas por homens. Ela mexe tanto nos sons que em vários momentos demoramos para entender que música é, mesmo nossa amiga – a mesma que tentou entrar sem a pulseira – que conhece mais músicas de funk aparenta ter essa dificuldade. A festa tem uma música oficial desenvolvida pela DJ, mas nem isso parece animar as pessoas.
Por volta das três e meia da manhã a última subiu ao palco, DJ Luizza. Já estamos exaustas. Os sons começam a variar um pouco mais entre pop e funk. Nesse momento já havíamos nos despedido de duas integrantes do nosso grupo e começamos a nos olhar com uma cara de cansaço, como quem pensa “vamos pra casa?”. Andamos mais para as laterais da pista em busca de algum lugar para nos escorarmos e descansarmos as pernas. Encontramos uma espécie de caixa grande em um canto e começamos um revezamento. As músicas já não nos animam muito, por mais que começassem a ser mais conhecidas.
A proposta da festa era que tocasse funk e músicas pop remixadas para funk. A maioria das integrantes do nosso grupo gosta, justamente, de música pop – tendo cantoras como Lady Gaga e Sabrina Carpenter entre as favoritas. Trotta (2023, p. 41) chama a atenção para a questão do preconceito envolvendo o funk: “apesar de ser reconhecido como música criativa e dançante pelos frequentadores dos bailes, o funk vem enfrentando um forte preconceito, emaranhado com ideias sobre pobreza, negritude, violência e sexualidade explícita”, alguns entrevistados pelo autor apontam a questão da sexualidade e sensualidade como um problema na música pop, sendo esse um ponto em comum entre os dois gêneros que esperávamos ouvir ao longo da noite. Não vemos essas questões como algo negativo e vamos para a Vênus com a expectativa de ouvir justamente o tipo de música descrita, esperando a possibilidade de dançar livremente em um espaço em que estaríamos à vontade.
“Definir uma experiência musical como incômoda é o movimento final de uma atividade corporal e intelectual de interpretação de ideias sobre a música ouvida, que é, por sua vez, socializada em performances de gosto que se estabelecem para expressar e elaborar essas interpretações. […] essa interpretação não é apenas estética ou socialmente construída, mas é emoldurada por crenças morais e éticas e, consequentemente, é fortemente afetada por elas. O reino da moral é o reino das regras e convenções sociais, um conjunto de pensamentos sobre o qual nossa vida diária é vivenciada.” (Trotta, 2023, p. 28-29)
Entender as letras e quais eram as músicas tocando, para nós, fazia parte das regras da noite. Entretanto, a mixagem feita aproximou elas mais do eletrônico, estilo que não faz parte do gosto pessoal de nenhuma de nós. Além disso, o fim de uma música se misturando com o começo da próxima e tudo virando uma coisa só, afetou ainda mais a nossa experiência. Por mais que tentássemos dançar e aproveitar, o fato de nossas expectativas e gostos pessoais não serem correspondidos causou uma não-identificação, resultando em um incômodo.
Um dos poucos momentos em que as pessoas da festa se animaram – e nós nos empolgamos junto – foi quando tocou “Chupa Xoxota”. Para Trotta (2023, p. 31) “a música é um artefato acionado por grupos sociais e indivíduos para atuar, pensar e elaborar ideias, incluindo ideias sobre sexo e amor. Ideias sobre o que é certo e errado relacionado ao sexo e ao amor”, por isso, achamos que faz sentido que em uma festa com o público principal sendo mulheres sáficas, ocorra uma animação quando a música representa, em alguma medida, a comunidade – apesar de obviamente “ser mulher” não estar atrelado apenas à genitália. Ocorre, inclusive, uma espécie de “subversão” da música, já que originalmente ela é cantada por um homem e, na festa, passa a ser algo mixado e cantado “em coro” por mulheres (e para mulheres).
Apesar desse momento, no fim da noite na Vênus estamos meio frustradas, ainda tentamos nos convencer de ficar mais um pouco, porque está começando a melhorar, mas às 4h20min descemos para o primeiro andar e nos preparamos para ir. No térreo encontramos várias pessoas sentadas no chão, também esperando seus transportes, outras conversam e tomam água. Na saída aquelas que tem cartão de consumo ganham uma garrafa de água – o momento mais feliz da noite para algumas de nós.
Duas vão embora em um carro e outras três, que dormiriam na mesma casa, em outro. De volta no mesmo apartamento do começo da noite, conversamos entre as três que ainda estão juntas sobre o que achamos da festa, reclamando o máximo possível – reclamações que, depois, seriam compartilhadas entre todas.
Muito além de uma noite de festa
O primeiro lote de ingressos da Vênus esgotou em cerca de dois minutos. Ele foi liberado no grupo de WhatsApp da festa horas antes do “lançamento oficial” nas redes sociais. Um dos pontos que torna a Vênus uma festa diferente de outras tradicionais é a criação de uma comunidade em volta dela.
O grupo de WhatsApp tem cerca de 700 pessoas. Entramos nele poucos dias depois que a data e o tema do evento foram anunciados. As mensagens eram constantes, mal conseguimos acompanhar. Nele, há pessoas que foram em várias edições do evento, quem está planejando ir na próxima e quem só se mantém porque fez amizades.
Nos dias entre o anúncio do evento e a festa as conversas variaram muito. Enquetes eram feitas de tempos em tempos, para saber questões como idade, se estavam namorando e qual o signo das pessoas. As meninas se tratavam como se fossem amigas próximas a anos, discutiam suas fantasias e partilhavam fofocas do dia a dia. As organizadoras da festa não participavam muito.
Prints das enquetes e regras do grupo no WhatsApp da festa Vênus
Uma das principais movimentadoras do grupo se chama Catarina. Antes da festa ela sempre puxava conversas, interagia com todo mundo – coisas que continua fazendo. Ela já esteve em mais de uma edição do evento e, recentemente, se tornou a administradora dele, convite que veio da própria Bruna Marini. Agora é ela quem aceita que as pessoas entrem no grupo e, sempre que uma nova leva entra, ela relembra as regras da comunidade.
– Conversar é muito legal, eu gosto de trocar ideia e conhecer novas pessoas, acho que isso é uma característica minha independente do grupo de whatsapp, mas por ser o da vênus eu me sinto sempre muito confortável sempre foi muito legal, então acabou que eu virei uma vereadora dentro do grupo, foi bem divertido. – Catarina, atual administradora do grupo de WhatsApp da Vênus.
Além do grupo, atrações como o “Cupido das Deusas” – o tinder na parede – e o concurso de fantasias que ocorreu durante a festa fortalecem essa construção de comunidade em torno da festa. Isso porque são divulgadas com antecedência nas redes sociais e precisam de inscrição prévia. Algumas das meninas na parede do cupido também eram as mesmas que interagiam com frequência no grupo.
Vale ressaltar que o nome da festa é “Vênus: Baile das Deusas”, por isso, as organizadoras costumam se referir às frequentadoras da festa como “Deusas”. O grupo do WhatsApp, por exemplo, é o “Grupo das Deusas” e as próprias garotas às vezes usam esse termo para se referirem às integrantes do grupo. Ou seja, mulheres que fazem parte da comunidade ou vão à Vênus são chamadas de “Deusas”.
Toda essa construção antes da festa gera uma expectativa. O evento se torna o ponto de encontro entre pessoas que, até então, só conversavam virtualmente. A Vênus cria um espaço de acolhimento e pertencimento, que passa a sensação de ambiente seguro para mulheres.
DJ Beti no início da festa, decorações como as teias fazem parte da ambientação de Halloween
DJ Luizza, última DJ da noite, tocando seu set
Vista da lateral do camarote vipe, onde ficavam as produtoras da festa
Bruna Marini e DJ Isa Terra em momento de interação entre elas e com o público
Bar da festa, onde apenas mulheres trabalhavam
Escada ligando o primeiro e o segundo andar da Bash
Desencantamentos na Vênus
A festa de fato é feita por mulheres, e o público é, na maioria, feminino. Mas algo se perdeu entre as promessas e o que realmente aconteceu, e a sensação que ficou foi de decepção. Criamos expectativas muito altas em cima do que estava sendo divulgado – bem que dizem que não se deve criar expectativas. Uma noite cheia de potencial acabou sendo só uma festa para preencher o Instagram.
Era esperado que o evento fosse bastante midiatizado, já que as organizadoras são influencers. Mas chamou nossa atenção como a Bruna Marini e a DJ Isa Terra estavam sempre acompanhadas de uma enorme luz de led e câmeras para registrar todos os seus passos. Por mais que fossem simpáticas e gentis com as frequentadoras da festa, diversos momentos pareciam ensaiados e pensados para que gerassem conteúdos.
Em um desses momentos as influencers pediram para todos ligarem as lanternas do celular e balançar conforme a música. Nós já estávamos em um canto, com dor nos pés e pensando em ir embora. Assistimos o que estava acontecendo e comentamos entre a gente que o pessoal parecia desanimado, principalmente quem estava mais longe do espaço em frente à DJ. Depois da festa, esse e outros vídeos foram publicados, com o foco quase sempre nas influencers. Na publicação no Instagram esse vídeo dos celulares dava a impressão de que as pessoas estavam animadas, o que não era a nossa percepção.
A sensação que fica é que a festa tinha mais momentos e propostas para sair bem nas mídias do que para vivenciar e aproveitar de fato. E isso não só para as influencers, já que teve muito conteúdo produzido por quem estava na festa para seus perfis pessoais. Tudo isso reforça a construção da comunidade: mostrar as interações das influencers com quem estava na festa, incentivar e republicar os conteúdos que as pessoas fazem, dando sempre uma sensação de que a festa e quem está nela é muito “acessível”.
O problema é que algo se perdeu nesse processo. As músicas não eram contagiantes, as bebidas absurdamente caras e as pulseiras foram mal administradas. A Vênus age como um território para mulheres, especialmente as LGBTQIAPN+, ficarem à vontade. Um espaço de protagonismo e liberdade para quem, muitas vezes, precisa lidar com construções sociais que constrangem e forçam com que andemos vestidas e comportadas de determinada forma.
Quando pensamos, por exemplo, na ideia de Eduarda Fernandes de “contágio”, percebemos que há um contágio antes da festa. Um contágio de expectativa através das diversas interações. Porém, na festa, o contágio não foi para dançarmos, mas sim de desanimação.
“O que quero dizer é que é difícil não se contagiar ao participar de uma pista de dança. Um contágio dos corpos, das músicas, das prescrições, e todo aparato sócio-técnico. Contágio que buga as fronteiras entre sagrado e profano.” (Fernandes, 2025, p. 58)
Nós tentamos ser contagiadas pelo ritmo com toda a disposição que tínhamos, mas a mediação entre DJ e pista foi mal feita, era como se as DJs não percebessem que a maior parte da pista não estava curtindo tanto. As músicas poderiam ter se adequado melhor ao público, quem não gostaria de ouvir uma Lady Gaga ou qualquer música completa ao invés de vários remix que dificultam saber o que está tocando? Quem não gostaria de poder sentir a música e dançar à noite com suas amigas ao invés de ficar parada analisando: que música é essa?
Todas essas opiniões foram nossas, mas mais do que isso, foram de parte das deusas da festa. No dia seguinte, as mensagens no grupo de WhatsApp eram todas parecidas, a maioria das pessoas reclamavam da festa: a música não estava tão boa, o lugar era apertado – mesmo que as produtoras tenham prometido que o cálculo de número de ingressos era para não lotar – e a bebida cara. Algumas garotas – normalmente as mais engajadas no grupo – defendiam que tinham achado boa:
Conversas e reclamações após a festa no grupo de WhatsApp da Vênus
Na festa, conforme a noite passava e a pista esvaziava, a presença masculina ficou mais nítida. No geral, havia alguns homens parados – quase como guarda costas – próximos das namoradas que ainda dançavam animadas. Para algumas de nós, isso gera um leve desconforto, e nos faz lembrar que não deveria ser necessário a existência de uma festa sem homens para que a gente se sinta à vontade no lugar. Nos questionamos se outras festas são “uma ameaça” tão grande ao ponto de essas mulheres que namoram com homens se sentirem mais à vontade em um espaço frequentado majoritariamente por mulheres. A realidade é que não somos respeitadas em muitos espaços de festas e um rolê como a Vênus representa uma grande expectativa de vivenciar experiências de forma mais leve – o que ocorre em alguma medida.
A conclusão é que, no fim, algumas mulheres beijam mulheres e mesmo num role ruim todas têm muitas histórias para contar.
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48. Disponível em: https://revistas.usp.br/matrizes/article/view/206082. Acesso em: 10 dez. 2025.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Por Ana Paula Mendonça, Laura Copelli, Lívia Dinnebier e Martina Kipper
45′ antes
Sábado à tarde, sol entre entre nuvens, enquanto vozes, passos e o barulho do trânsito ecoam no ar e nos guiam pela orla morna do Guaíba até um dos cartões-postais da capital gaúcha, o Beira-Rio. Ao se locomover na sua direção, os pontos vermelhos que vão se acumulando como um rastro de formigas retornando ao ninho não escondem que hoje é dia de jogo do Inter.
A tarde começa serena. O trajeto, seja ele de carro, ônibus ou a pé, até o ponto de encontro que são os lugares já tradicionais para os colorados, como a Padre Cacique e o Parque Marinha, vai ganhando vida aos poucos. A partida, pela 33ª rodada do Brasileirão, entre o Inter e o Bahia é vista como uma corda bamba para os colorados, que estão em risco de rebaixamento para série B, enquanto o Bahia vive um momento mais estável, mas ainda busca melhores resultados fora de casa. Nos bares em frente ao estádio grupos de amigos que se reencontram e conversas se misturam ao burburinho. Nesse som todo, percebem-se as especulações ansiosas, a tensão, a esperança por uma vitória e até o pragmático “se a gente empatar, já tá bom”, que circula entre os torcedores.
À medida que nos aproximamos, as vozes se unem em um chamado, um clamor que vibra no ar, criando a sensação de que estamos prestes a entrar em um show que já iniciou. Não deixa de ser um show, mas é na verdade o aquecimento da “Guarda Popular”, uma das torcidas organizadas do Sport Club Internacional, que se reúne para ir ao encontro do ônibus do Internacional chegando para a partida. Os integrantes tocam os instrumentos de percussão como se acendessem o coração da torcida, cada acorde tocado cria um som pulsante e junto com os clamores, entoam o canto que demonstra amor ao clube. A música cantada durante o percurso afirma que a derrota não é uma opção, além referenciar e homenagear Fernandão, ídolo do time campeão da Libertadores e do Mundial em 2006, que faleceu em 2014.
“Colorado, hoje eu vim te ver
Ponha raça, não podemos perder
Te levamos dentro do coração
Essa barra que honra o Fernandão.”
Em meio à vibração das canções tem-se a sensação de que o jogo já começou antes do apito inicial. As músicas ocupam o espaço público, neste caso o estádio, e transformam em um território afetivo, onde diferentes torcidas organizadas, cada uma com suas próprias sonoridades, se unem em uma harmonia sonora.
Além disso, há uma convergência de estilos musicais em cada área das proximidades do Beira-Rio, cada grupo com seus próprios gostos musicais, mas com um único propósito de estar ali em um sábado de sol. A disputa do espaço público e suas diferentes sonoridades, ali, enfrentam poucos desafios. Além da simpatia dos torcedores entre si pelo amor em comum pelo time, o Beira-Rio possui arredores amplos e organizados, possibilitando que cada um dos grupos aproveite o momento com suas próprias expressões sonoras. A entrada e os arredores do estádio são de uma serenidade imensa, talvez o último suspiro dos torcedores frustrados com a situação atual de seu clube.
10′ antes
Ao entrar no estádio pelo Portão 9, que leva à cadeira superior ao lado da torcida adversária, aquela alegria elétrica transcorre no corpo. O gramado surge como um enorme tapete verde, e a expectativa pelo que está prestes a começar se intensifica. Dali, observamos as diferentes torcidas quase como espectadores de um teatro: estamos acima da organizada do Inter, a Camisa 12, e no lado oposto da Popular. Nessa seção do estádio, o ambiente é mais calmo. Na sua maioria, são famílias e torcedores mais velhos, que acompanham o jogo de forma mais contida, sentados, em contraste com a energia mais vibrante das arquibancadas do outro lado.
Pelas caixas de som, toca o hino do Internacional, anunciando que a partida se aproxima, enquanto o público vai ocupando seus lugares. Quando começa o anúncio da escalação, o estádio se transforma em um espaço onde a opinião coletiva se manifesta. Cada nome provoca uma resposta: vaias secas para alguns, aplausos calorosos para outros, criando um mosaico sonoro que revela o humor da torcida antes mesmo da bola rolar. Com o início do Hino Nacional, alguns se levantam, poucos cantam, e logo em seguida o foco se torna definitivamente coletivo, fixando-se nos jogadores que entram em campo.
(Áudio com a apresentação dos jogadores do Internacional no início da partida)
Quando a bola começa a rolar a sensação no Portão 9 é que estamos em um jogo de tênis, visto que os sons que mais ressoam no setor são as palmas quando um jogador realiza uma jogada boa ou o goleiro defende os chutes a gol do Bahia. Mesmo estando próximo da Camisa 12 não é possível reconhecer as músicas cantadas pelo grupo, uma vez que o som se dispersa e as canções da Guarda Popular ressoam mais alto.
A entrada pelo portão 7 é menos amigável, torcedores com pressa buscam passar rápido pelas catracas e se integrarem a torcida no setor mais democrático do estádio. Sem assentos, apenas amparado pelas barras clássicas de um estádio de futebol, é ali que a banda da Popular se estabelece. Entre faixas, bandeirões e bateria, a sensação é de euforia. Neste jogo em específico, grandes hastes com a bandeiras nas cores do Rio Grande do Sul estão espalhadas pelo setor.
Torcida colorada leva bandeiras do RS para estádio
0′ – 25′
Antes mesmo de o apito soar, a banda da Guarda Popular já inicia a torcida. O som do tambor reverbera pelo estádio e é o coração, não apenas daquele setor, mas de todo o Beira-Rio. O canto da torcida demora a esquentar e a tensão presente no ar é palpável na falta de disposição dos torcedores de se envolver com o alento. Até o primeiro gol, o canto e as reações tem gosto de uma expectativa frustrada que o torcedor não deseja experimentar de novo em uma nova partida.
É gol de Carbonero, e a torcida vibra: será que hoje sai os três pontos? O alívio foi passageiro, o VAR anulou o gol. Aqui, a torcida fica – se é que era possível – ainda mais tensa. Aquele gostinho de esperança frustra um torcedor já exausto e isso reflete nas reclamações e gritos da torcida.
25′ – 52′
Logo, essa linha tênue, tensionada ao máximo que é a insatisfação da torcida, relaxa quando Inter garante um gol ainda no primeiro tempo. O torcedor se permite comemorar, mas com cautela, e os cantos vibram ainda mais através do Beira-Rio.
Ao se aproximar da área superior próxima à Popular, instantes antes do gol marcado pelo Vitinho, parece que entramos em outro estádio. Agora não mais de uma partida de tênis e sim do verdadeiro futebol. Uma vez que as sonoridades emitidas pelos torcedores tornam-se mais nítidas, pois os colorados deste setor entram em um ritmo, aumentam o volume do canto e deixam que as mãos subam e desçam ou batam as palmas, criando uma coreografia coletiva. Gritos de “vaiii” “vamo inter” “chuta” “uuuuuh” se misturam aos cantos e tambores. E cada gesto e som parece incentivar o time a buscar mais gols ao mesmo tempo em que transforma o ambiente em uma atmosfera vibrante e descontraída.
Felipe Trotta afirma que “as músicas têm um papel importante de compartilhar pensamentos morais e desafiá-los” (Trotta, 2023, p. 29) e entendemos que seus significados são resultados de avaliação e expectativas morais do ouvinte e a forma que ele interpreta as mensagens presentes. No contexto das torcidas do Internacional, os cantos vão além dos ritmos, eles reforçam identidades coletivas e compartilham crenças.
(Áudio com os cantos da torcida)
E falando em cantos de torcida, não tem como ir a um jogo do Inter e não se deparar com as provocações dirigidas ao rival (mesmo quando ele não está presente). Um dos cantos mais icônicos da torcida se espalha atrás do gol, com um ritmo pulsante, carregado com um sorriso debochado de quem o canta. Ouvimos:
“Sempre louco atrás do gol Acendendo um do bom Eu voou Matar um puto tricolor
E depois de me chapar A cerveja acabar Eu voou Matar um puto tricolor
Vaamo Inter Hoje temos que vencer Vaamo Inter Hoje temos que vencer
Dale dale dale ôôô”
Essa relação simbiótica entre os times chama a atenção, e chega a ser engraçada. Afinal, muitos podem admitir que a graça de ser do Inter está em zoar o Grêmio, e que ser do Grêmio só faz sentido porque existe o Inter para provocar. A rivalidade é, assim, parte essencial da identidade gaúcha e do espetáculo do futebol local.
Intervalo
Com o primeiro gol garantido, o clima melhorou entre os colorados. Após o apito e o início do intervalo, é possível escutar uma coisa quando a banda da Popular para por um instante: tem mais bandas no estádio. Isso adiciona mais uma perspectiva a análise dessa tal linha tensionada que relaxa e estressa conforme o torcedor reage ao jogo, em momentos de insatisfação ou vibração coletiva e momentos de canto motivados pela banda da Popular.
Acionando os conceitos do artigo de Marra e do Vale (2020), uníssono refere-se aos momentos em que uma coletividade se expressa como uma só voz, uma sonoridade homogênea, sincronizada, que simboliza coesão e alinhamento entre os participantes. Já balbúrdia diz respeito ao oposto: à multiplicidade sonora, à desordem produtiva formada por diferentes vozes, ritmos e intenções que coexistem no mesmo espaço, gerando um ambiente complexo, heterogêneo e nem sempre harmônico.
Idealmente, os momentos de uníssono em um estádio seriam aqueles em que toda a torcida se reúne a cantar em uma só voz uma música durante o jogo, mostrando sua força em volume sonoro. Entre os colorados, no entanto e inclusive neste dia, existe mais de uma torcida organizada, e portanto mais de uma música sendo cantada e mais de uma banda tocando durante o jogo. Os momentos de união nos cantos costuma acontecer em grandes partidas, decisivas ou finais, o que não vemos neste dia.
A reflexão que cabe ser feita é que talvez os verdadeiros momentos de uníssono, frente a esse cenário, foram aqueles em que a torcida reagiu como uma só durante o jogo, vibrando com o gol ou xingando e resmungando durante a análise do VAR. Esses foram os momentos que verdadeiramente a torcida mostrou sua força como uma só. Existe uma inversão, então, do que a balbúrdia representa nesse caso. Aqui, a balbúrdia existe nas manifestações múltiplas das torcidas, que geram menos impacto como um todo comparado com os momentos de comemoração e reclamação.
(Áudio com um dos famosos cânticos da torcida do Internacional)
52′ – 60’
O segundo tempo iniciou com a dominância do colorado e um gol aos 49’, e é possível ouvir um suspiro de alívio ecoar pelo estádio. O nó que estava bloqueando o fôlego do colorado ao cantar as músicas é retirado. Nesse momento, a banda toca as músicas mais conhecidas pelo público e a manifestação sonora fica ainda mais forte. O time brilha com a vibração do público e também parece espelhar o ânimo das arquibancadas. Parece que é a pressão do canto vibrando e impactando os corpos, que por vezes submete os jogadores do time adversário a falha em frente a goleira. Com o canto ecoando e a sensação de ter todos os olhos em seus movimentos, o Bahia perdeu inúmeras oportunidades de gol neste meio tempo.
60’ – 106′
O futebol como qualquer outro esporte é uma caixa de surpresa e a qualquer momento pode ter uma reviravolta.
No portão 7, ao lado da Popular, o clima é tenso, diferente de outras partidas, não há crianças correndo pelos níveis da arquibancada ou sobre as barras para balançar as faixas no ritmo do canto. O momento de revolta com o desempenho do time dispersa os presentes e diminui a presença de muitos frequentadores ao estádio. Com a baixa densidade, o clima é tenso e o odor de cigarro toma conta do espaço, o tempo chuvoso colabora com pingos eventuais sobre nossas cabeças, que estão descobertas por conta do setor escolhido.
É neste clima, com o sabor da vitória na boca da torcida colorada que, nos seis minutos de acréscimos finais do jogo, aos 94’ o Bahia conquista a bola e faz o gol final da partida, transformando o sabor alegre em tristeza e nervosismo pela fase do time que piora a cada derrota e empate no campeonato.
Com o placar 2 x 2 o Internacional e os colorados que pensavam que os 3 pontos na tabela do Campeonato Brasileiro estavam garantidos. O que, minutos antes era festa, se transforma e se apaga como uma vela, as palmas param e o coro se transforma em gritos de revolta. O que demonstra a capacidade de reconfigurar coletivamente os discursos musicais conforme o decorrer da partida, reafirmando expectativas e julgamentos sobre o time e o desempenho em campo.
Apito final
O som do apito final explode em todos os cantos do estádio quebrando a expectativa de mais um gol dos colorados. Aos poucos, em meio ao silêncio e passos lentos surgem murmurinhos que expressam descontentamento com o desempenho do time. Sair de um jogo em que a vitória parecia tão perto e empatar tão próximo do fim deixa um gosto amargo difícil de engolir. Deixar o estádio vira quase uma caminhada da vergonha, como pegar o trem de manhã, ainda com roupa de festa, enquanto todo mundo ao redor está a caminho do trabalho.
Para a despedida do time, não ouvimos aplausos ou felicitações. Na verdade, é entoado o hino “Vergonha, vergonha; Time sem vergonha”, um dos cantos de protesto mais genéricos do país, visto que é usado por todos os torcedores insatisfeitos.
No setor 7 o clima de insatisfação esvazia a arquibancada em minutos, as faixas são retiradas com rapidez e os corredores internos são reflexo do resultado insatisfatório. Ao passarmos pela parte externa do estádio, onde dirigentes estão presentes, parte da torcida protesta contra a administração do clube, com palavras de ódio e xingamentos, e o presidente, Alexandre Barcellos, é cobrado pelo desempenho e baixa nas vitórias do time, que começou a temporada de 2025 como nunca antes. Assim como afirma Marra e Do Vale (2020, p. 320)
” A rua emerge como o espaço no qual agentes vivenciam, enfrentam e questionam os fluxos de informação, imagens, sons e slogans políticos que circulam nas mídias tradicionais e novas, bem como onde aparecem e disputam a visibilidade pública que dissemina suas pautas e garante a legitimidade de suas reivindicações.”
(Áudio com protesto dos torcedores contra os dirigentes do Sport Club Internacional)
Nos arredores, nada convida para que a festa continue. As ruas esvaziam rápido e os sons da torcida viraram lembrança, os bares não enchem e o torcedor quer ir para casa. Tal qual a noite termina silenciosa nos arredores do Beira-Rio, assim como começou, também se recolhem os sons que, por algumas horas, deram forma a um território vivo. Ao longo do jogo, a torcida desenhou no espaço aquilo que podemos associar com o texto de Proto (2019), que apresenta o conceito de um território resistente: um lugar criado e sustentado pelo som, onde corpos, vozes e relações humanas constroem uma comunidade em movimento, “O som parece existir, desta forma, como vetor político, agenciador abstrato de uma micropolítica da escuta e da fala, produtor de lugares-a-ser.” (Proto, 2019, p. 112). No estádio, essa paisagem sonora é a expressão da identidade de quem é colorado, da mística de um dia de jogo, formada desde os clássicos cantos, os gritos, risadas, e brigas, do batuque que marca o passo da massa, até do silêncio atento que antecede um gol.
Entendemos assim, que os sons que atravessam o Beira-Rio não são apenas ruídos do futebol: são símbolos culturais. A camisa vermelha, o copo na mão, o ódio ritualizado ao rival e o próprio Gigante que hospeda a festa se tornam parte de um mesmo repertório sonoro-afetivo. É uma cartografia sonora que desenha o que significa ser colorado.
De tal forma, essas sonoridades se traduzem como gostos, origens, histórias, valores e incômodos. Se condensam em corpos e vozes que afirmam pertencimento, mas também marcam fronteiras: quem canta, de onde canta e para quem canta. E quando o estádio se esvazia e o barulho se desfaz no ar, o território permanece na identidade coletiva. A paixão colorada tem como parte de si o som como forma de existência compartilhada, como gesto de resistência e celebração, como uma festa que o Gigante abriga e que renasce, inteira, a cada novo jogo.
REFERÊNCIAS
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48.
MARRA, P. S.; DO VALE, A. B. M. Uníssono e Balbúrdia: Sonoridades de protestos e manifestações políticas de rua no Brasil. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, p. 317–339, 2020. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/27445. Acesso em: 26 nov. 2025.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Foto 1: Janela do Trensurb. No fundo, uma rua em movimento.
(Áudio criado a partir de viagens dos integrantes no Trensurb entre 25 de outubro e 09 de novembro de 2025. Recomendamos que escutem o áudio enquanto leem o texto, utilizando de fones de ouvido para melhor experiência com os efeitos que buscamos criar na equalização do som.)
Existe uma convenção de regras em torno do Trensurb, um ethos. Boa parte delas é aprendida por osmose. Perguntar “o que fazer” é uma quebra dessa estrutura, um conjunto de normas não-ditas que criam um curioso uníssono. O ethos é um conjunto de crenças e princípios que guiam as ações de alguém ou um grupo. Não se fala sobre como agir no trem, é como se você tivesse que nascer sabendo. Talvez por isso seja tão potente. É um cenário onde todas as relações estão tão bem estabelecidas que o verbo não é mais necessário.
Nenhum de nós frequenta o Trensurb. Pode ser essa justamente a razão pela qual a viagem possa ser vista como um passeio, com um certo deslumbramento pelo o que se passa dentro dos vagões. Para quem mora na região metropolitana, o Trensurb pode ser, além de cotidiano, um fardo – assim como o ônibus que pegamos todo dia pra ir e voltar do centro, que também demora uma hora até chegar em casa. Então, para quem não tem costume de frequentar as estações ou trafegar pela linha, a presença pedagógica de outras pessoas acaba sendo um salvamento.
Foto 02: Foto tirada logo após passageiros saírem do trem na Estação Canoas durante horário de pico.
Em nossa viagem, nos apoiamos no conhecimento fragmentado de cada um sobre o que é o ethos Trensurb. Afinal, não queríamos parecer estrangeiros – por mais que fossemos – para poder circular de forma não disruptiva, sem dar a pinta de peixe fora d’água. Chegamos no trem com um objetivo principal: entreouvir conversas de passageiros, para enfim criar uma colagem cacofônica que não separa indivíduo do coletivo. Parecia uma boa ideia, até nos depararmos com a realidade. Não era possível escutar ninguém, não havia como deixar de ouvir as máquinas falarem. Passamos o tempo nessa espécie de vale da estranheza sônico, em que a imposição sonora do trem exercia um domínio em nossos corpos, a voz dos outros roubada por essa entidade maquínica.
Curioso que até em alguns momentos conversar parecia já ser uma quebra do uníssono, mesmo que o silêncio de vozes não configurasse silêncio algum. A máquina, mais uma vez com seu caráter impositivo, submetia a nós todos ao seu som estridente e ao seu “plec-plec” de aço. O fascínio pelo o que se passa dentro dos vagões não foi suficiente para evitar a dor de cabeça que o barulho constante do trem causava.
Sons como esse, mesmo que não decodificáveis por nós, geram uma paisagem sonora uníssona dos trens. A sonoridade aponta para o som como elemento fundamental – e não só como veículo – para o funcionamento de sistemas culturais e sociais ao ligar práticas de escuta e de soar (Marra, Vale, 2020). Ou seja, as sonoridades compõem parte da atmosfera que a modernidade busca construir.
TRILHAR CAMINHOS PELO TRENSURB
Foto 03: Foto tirada durante a chegada do trem na Estação Canoas.
O Trensurb é elemento da paisagem física e sonora da Região Metropolitana de Porto Alegre desde 1985. Foi criado para conectar alguns dos municípios mais populosos do Rio Grande do Sul de forma eficiente e desafogar o trânsito de veículos rodoviários, que já naquele tempo configurava um problema para as grandes cidades do Brasil. Em 2025, o sistema conta com 43 quilômetros de extensão e 22 estações em linha única, ligando cinco cidades: Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Esteio, Canoas e Porto Alegre.
Existem dois tipos de trem que viajam pelos trilhos do Trensurb: o trem velho, fabricado no Japão em 1984, com 25 veículos em ativa, e o trem novo, fabricado no Brasil em 2014, com 15 veículos em ativa. Saber em qual você vai entrar é uma roleta russa. Como é de se esperar, as sonoridades presentes em cada modelo são radicalmente diferentes.
É até mesmo engraçado ir no trem velho – é como entrar em uma máquina do tempo, onde nem tudo tinha uma cor branca chapada e a arquitetura dos lugares ainda podia sonhar em se diferenciar uma das outras. Existe também um quê de falha mecânica iminente. A cada curva, nossos ouvidos são agraciados com um som agudo estridente, que toda vez causa o susto de imaginar que o trem vai se desintegrar. O vento que entra pelas pequenas frestas das janelas, os carros que correm nas avenidas ou rodovias adjacentes, acompanhados do som metálico dos trilhos e das articulações entre os vagões, formam a experiência do Trensurb.
No trem antigo, a parada às vezes é anunciada pelo microfone do motorista. Já em outras, é uma gravação. As duas são, contudo, sempre inaudíveis. No trem novo, no entanto, não existe contato algum com o motorista, sendo uma voz feminina, dessa vez límpida e robótica, que informa a chegada nas estações. Também se produz um outro som, dessa vez grave, que acompanha todo o trajeto, como um companheiro de viagem. De certa forma, essa imagem consegue acalmar o coração de uma primeira vez no Trensurb, como foi o caso da maioria do grupo.
Talvez esses sons nem apareçam mais para quem já está acostumado. É aí que entra a peculiaridade desta movimentação. Entrar no Trensurb enquanto estranho, aquele que não se encontra dentro da mecânica cotidiana do fluxo de transporte das pessoas que tem sua vida atravessada pela capital gaúcha e sua região metropolitana, provoca também uma outra relação com esse espaço urbano, transformando-o em uma paisagem sem limites.
Foto 04: Foto tirada no interior da Estação Novo Hamburgo.
Nos inserimos como andarilhos de Michel de Certeau, “interagindo na proximidade, buscando fazer emergir certas singularidades, para dar à cidade e ao Trensurb uma visão a partir do chão. Emprestamos nosso anonimato, nosso lado transitório, ou seja, trabalhamos no nível de mobilidade que somos proporcionados” (Fraser, 2010, p. 229). Nos apropriamos do dia-a-dia comum de alguém, tornando esse deslocamento, para nós, uma coisa vivida.
DESLOCAR PARA OUTRO LUGAR
Certeau, assim como os desdobramentos de seu trabalho por Marc Augé, partem da geografia humanista e da antropologia para definir o que é lugar. Esse espaço vivido, do cotidiano, e que carrega consigo a afetividade e a memória, quando mesclado com o conceito de espaço antropológico, gera fortes vínculos sociais e culturais, de profunda relação do indivíduo com o mundo que o cerca; apresentando características identitárias, relacionais e históricas. O espaço também supõe por si mesmo um lugar animado por um deslocamento (Fraser, 2010, p. 229), um lugar praticado. Sem essa mobilidade nos restariam apenas lugares fixos e imutáveis. O andarilho transforma a rua, lugar para o urbanismo, em espaço.
Foto 05: Foto tirada na estação Canoas. Um muro vazado na frente e uma parada grande de ônibus com pessoas atrás.
Para Augé, porém, esse mesmo tensionamento trazido pela mobilidade transforma lugares em não-lugares, paradigma da supermodernidade, caracterizado pela superabundância factual, espacial e individualização das referências. Não-lugares são construídos com determinadas finalidades objetivas (como o comércio, transporte ou lazer); transitórios, supérfluos; criados e esvaziados do princípio de sentido para aqueles que o ocupam ou habitam. Quando assimilados pela sociedade moderna, não promovem relações sociais autênticas e genuínas, homogeneizando as experiências sociais e fazendo com que as forças e a significância própria dos lugares sejam desconsideradas. As sonoridades que temos contato diário expressam enquanto opressão e coerção também. As pessoas lidam de maneiras diferentes com essa agressividade sonora do dia-a-dia na cidade grande – as ilhas de sanidade (sônica) e, ao mesmo, no mar de violência corpórea, sônica e simbólica. Como Felipe Trotta traz no artigo Gosto musical, moral e incômodos:
Os deslocamentos populacionais nas cidades são marcados por sentimentos de solidão, tédio, irritação e desalento, ao mesmo tempo em que são atravessados por pequenos conflitos latentes, provocados pelo cansaço de corpos e mentes, pelo ritmo intenso do ir e vir do trabalho, pelas agressividades do trânsito e dos veículos e pelos tempos mortos da espera por ônibus, vans e trens (Trotta, 2023, p. 03)
Um sistema com estas características acaba se tornando um pequeno recorte dos tensionamentos e fenômenos políticos e sociais de nosso tempo. Henri Lefebvre, em O Direito à Cidade, categorizava o urbano como um “um horizonte de possibilidades, um objetivo do ser humano, que é, por sua vez, freado ou delimitado pelo urbanismo, entendido aqui como uma série de representações institucionais e ideológicas que norteiam as ações em direção ao urbano” (Lefebvre, 1968). O Trensurb, portanto, configura um ambiente que ao mesmo tempo possibilita a pluralidade, mas também a cerceia.
Nos espaços do Trensurb, o próprio ato de circular é posto em tensionamento. O movimento dos passageiros é delimitado por catracas, portas, linhas, muros, cercas, configurando um espaço de controle que é povoado pela superposição de discursos dominantes e subversivos.
Pedro Marra e Ana Beatriz Moreto do Vale discorrem sobre unidade sonora, um espaço de uníssono e balbúrdia – um uníssono que é substituído pela balbúrdia nos poucos segundos que o trem fica parado na estação, e vice-versa quando o trem começa a andar. Uma massa de pessoas num entra-sai, novos passageiros, vendedores, pedintes:
A balbúrdia é uma técnica sônica de transição entre uníssonos e por isso apresenta-se de forma muito instável e, por vezes, efêmera. Ela se caracteriza por um alto grau de abertura à disputa, e, se por um lado não apaga hierarquias entre agentes que a compõem, por outro abre brechas para que agentes menores e com menos poder sonoro – seja porque em menor número, seja pela menor capacidade de produzir grandes intensidades sonoras – se imponham e façam alastrar, entre um grande número de pessoas, suas próprias sonoridades. (Marra, Vale, Op. cit, p. 335)
A balbúrdia é produção de diferença. O jogo de som unificado ou cacofônico no Trensurb não pode ser reduzido a dois polos completamente dominantes e que monopolizam a experiência. Existe um revezamento, quase uma dança, onde ora a máquina se impõe, ora o som é orgânico. Ora é monótono, ora é pontual.
EMBARCAR NOS GESTOS POLÍTICOS
Foto 06: Trem chegando em uma das estações.
O nosso percurso iniciou-se em uma Estação Mercado movimentada. Algumas das entradas para a parte subterrânea, onde ficam os guichês de passagens e o acesso às plataformas, estão fechadas – cicatrizes da enchente de maio de 2024, que paralisou o sistema completamente por várias semanas. Assim que pusemos os pés na plataforma, logo chegou o trem.
A pressa era o espírito geral da massa de pessoas. Mesmo no subterrâneo, é possível ouvir o pesado veículo se aproximando da área de embarque. A vibração faz pressão sobre o concreto do túnel de acesso às plataformas e este ruído, por sua vez, pressiona os passageiros, como se dissesse “venha, estou te esperando”. Já neste início de viagem era possível presenciar alguns tensionamentos.
Onde nos sentávamos? Dentro dos vagões do trem mais novo, assentos com cor azul são preferenciais – para idosos, gestantes, PCD’s – estando os demais, em cor laranja, livres para todos. As placas avisam: na ausência de pessoas com preferência, está liberado o uso para todos. Claro, a ideia da regra é criar um espaço de convivência pacífico e permitir o quanto seja possível uma experiência isonômica de viagem a todos os passageiros. Entramos e sentamos ocupando um dos assentos regulares e dois preferenciais.
O desconforto com o policiamento constante da placa foi sentido. Mas não percebemos outros usuários com preferência para que precisássemos ceder lugar. Além disso, o conforto vinha em perceber que outros assentos preferenciais, em outros pontos do vagão, também estavam ocupados por pessoas aparentemente tão regulares quanto nós três.
No acesso às plataformas, mais um desses pequenos incômodos. Precisávamos deixar um dos lados da escada-rolante livre para aqueles que desejarem percorrê-la caminhando? Apesar do horário movimentado, a densidade de pessoas não era o suficiente para ocupar totalmente os degraus móveis. Permanecemos parados no meio do equipamento, subindo conforme seu movimento. Ali não havia placas para indicar o “correto”. Que nem o som, esse parece ser também o modus operandi do Trensurb. As regras são feitas através do que não é dito.
Foto 07: Parte da estação Canoas. Na frente, temos uma placa de sinalização com a escrita “Nunca ultrapassar. Área Restrita”. No fundo, temos um espelho, um semáforo e outra placa, com o aviso de “Homens Trabalhando”. Um muro vazado de concreto e a paisagem da cidade com árvores e prédios ao fundo.
O trem se impõe sobre os passageiros. O veículo, as estações, os pantógrafos que distribuem a eletricidade que faz o comboio andar, se unem para formar uma entidade que nos domina enquanto passageiros. É um sistema tecnocrático que delimita as nossas possibilidades. Se, para Lefebvre, “o urbanismo transforma nosso espaço de vida em um habitat, uma máquina de viver” (LEFEBVRE, 1999 apud ABREU, 2018), o Trensurb transforma as cidades por ele ligadas em uma linha. O seu percurso é um grande traçado que vai se dobrando por entre bairros, vias, corpos d’água… O seu som é monótono e remete ao tinnitus, o zumbido chato e incessante no ouvido.
Ainda assim, é possível perceber essas pequenas “quebras” nos tratos não codificados. Nos trechos de trens lotados, passageiros se escoram nas portas, uma prática desencorajada oficialmente pela operadora do sistema em cartazes e adesivos, mas que, de forma geral, não apresenta maiores riscos ou disrupções na experiência daqueles à sua volta. A maior parte das estações tem desembarque por um mesmo lado do veículo, ajudando na disseminação da prática.
Nesses pequenos gestos, que não influenciam fortemente o fluxo unidirecional e impositivo das regras e infraestruturas estabelecidas, os passageiros configuram aquilo que Certeau chama de lendas (legendas). São as oportunidades de criar a própria narrativa numa realidade que as suprime. O autor indica que “pela possibilidade que oferecem de esconder ricos silêncios e desafiar histórias sem palavras (…) as legendas locais permitem saídas, meios de sair e de entrar e, portanto, espaços de habitabilidade”, e posteriormente que “a viagem substitui as legendas que abriam o espaço para o outro”. Mesmo no Trensurb, é possível ignorar o barulho. Seja por ouvir uma música, assistir a vídeos curtos de rede social ou televisão em streaming, a subjetividade individual do som se configura como resistência a obstinação tecnocrática do ruído e das regras.
Foto 08: Estação Novo Hamburgo, final da linha do Trensurb, durante a noite.
É bom admitir que um dos colegas, ao final da viagem de volta, recusou-se a continuar o trabalho e colocou seus fones de ouvido, a fim de distrair-se da dor de cabeça que começava a incomodar. Do mesmo modo que Marra e Vale (2020) apontam, a balbúrdia “é uma transição entre uníssonos” e que ela “abre brechas para que agentes menores se imponham”, fazendo com que esses pequenos gestos sejam tentativas dos passageiros de fazerem valer a sua vontade sobre o barulho dos trilhos.
Não estamos falando de ações politizadas por si só, mas sim do espaço politizante que é o Trensurb, suas estações e consequentes mobilidades. Assim como Certeau declara, podemos fazer essas práticas microbianas. Ações singulares, plurais, ilegíveis, impossíveis de serem controladas. Lutar contra essa racionalidade imposta pela modernidade, seja pela transgressão ou driblando e reinventando o cotidiano.
Quem sabe seja essa a potência de escrever sobre um espaço do qual não sabemos muito sobre, no qual a rotina é coisa nova. Perceber a agitação da estação como fenômeno, deixar-se seduzir pelo mar de pessoas, pelas cacofonia de barulhos que se mesclam, espantar-se com a velocidade do trem. Entramos no Trensurb com o intuito de ocupar esse cotidiano, que costumamos frequentar de maneira passiva, e o deslocar para uma vivência atenta, atraída pelo charme do banal.
Vídeo 01: Pequeno trecho de nossa viagem no Trensurb.
Aparece uma parte da janela do trem, e o vídeo treme
conforme o vagão passa pelos trilhos. Ao fundo, uma
paisagem de cidade.
Referências Bibliográficas:
ABREU, Miriam Santini. Crítica da cobertura jornalística sobre a luta por moradia na perspectiva do urbanismo. Joinville, SC: Intercom 2018. Disponível em: https://www.portalintercom.org.br/anais/nacional2018/indiceautor.htm#M. Acesso em 15 nov. 2025.
AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v17i2p25-48.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e mestrando Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de Coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.