O conceito de valor e imagem do dinheiro desmaterializado

Texto produzido para a disciplina Estudos Críticos da Comunicação – Turma B, 2025/1
FABICO/UFRGS
Prof. Marcelo Bergamin Conter

Por
Rodrigo Borkert

O dinheiro, ao longo da história, nunca foi estático. Foi pedra, sal, metal, papel, e agora se transforma em código. O Bitcoin, nesse contexto, representa o ápice da desmaterialização do valor: uma moeda que existe apenas como registro matemático em redes descentralizadas.

Este trabalho busca analisar:

  • Como a imagem e as representações do Bitcoin no senso comum comunicam (ou distorcem) a ideia de desmaterialização do dinheiro.
  • Quais paralelos podem ser traçados entre o surgimento do Bitcoin e as formas históricas de moeda – do sal às rodas de pedra dos iapeenses, do ouro ao dinheiro fiduciário, até chegar ao “dinheiro vapor”.
  • Explorar as transformações nas mediações tecnológicas do valor e as consequências disso para a percepção pública, confiança social e identidade econômica.

1 – Porque vemos valor no que usamos como dinheiro?

A história do dinheiro revela um contínuo processo de abstração do valor. Cada forma monetária carrega, além da função econômica, sentidos sociais, políticos e simbólicos profundamente enraizados em seu contexto histórico. Da materialidade absoluta — o peso do metal, o brilho da pedra, o toque do sal — à pura abstração digital do Bitcoin, o dinheiro sempre foi, antes de tudo, uma tecnologia de confiança.

O sal foi usado como moeda e símbolo de riqueza em várias civilizações antigas, especialmente em Roma. Seu valor estava na utilidade vital e na dificuldade de obtenção, sempre ligado ao seu caráter físico.

Conchas, especialmente búzios, serviram como dinheiro em África, Ásia e Oceania devido à raridade, facilidade de transporte e forte apelo simbólico. O valor era coletivo e dependia do consenso social, antecipando a lógica das moedas simbólicas.

Ouro, prata e cobre inauguraram as moedas cunhadas, trazendo valor intrínseco e autoridade estatal, consolidaram o dinheiro metálico como instrumento de poder e controle.

O papel-moeda, surgido na China, acelerou a desmaterialização do dinheiro. Inicialmente atrelado a reservas metálicas, depois sustentado apenas pela confiança coletiva, tornou-se símbolo máximo do valor consensual e fiduciário.

As pedras Rai funcionam como moeda simbólica em Yap: enormes discos de pedra cujo valor depende do reconhecimento público de propriedade, não de uso físico. Antecipam o conceito de valor descentralizado e abstrato das moedas digitais.

2 – Desmaterialização do dinheiro e o surgimento do Bitcoin

A desmaterialização do dinheiro, intensificada com o surgimento do Bitcoin e das moedas digitais, se conecta ao hibridismo corpo-tecnologia de Canevacci (2009): tecnologia dissolve fronteiras, tornando nossos corpos extensões de mídias e interfaces. Isso se reflete no modo como lidamos com o dinheiro — antes carregado como objeto físico, hoje como informação criptografada em telas, protegida por biometria e senhas. Vivemos uma condição ciborgue na experiência financeira: valor simbólico que migra do material ao digital, acompanhando nossa transformação em sujeitos tecnossociais.

Conforme Conter (2017), a música tornou-se “vapor”, ubiquidade e fluxo. O dinheiro segue o mesmo caminho: a trajetória histórica aponta para a prevalência do simbólico, do consenso social, e do puro dado matemático. O Bitcoin representa o ápice desse processo — não é tangível, não tem respaldo em metais ou estados, existe como código em registros públicos distribuídos (blockchain), garantido por criptografia e consenso descentralizado.

No senso comum, porém, a imagem do Bitcoin muitas vezes comunica ou distorce a ideia de desmaterialização: para alguns, simboliza autonomia e inovação; para outros, é associado à instabilidade, risco ou até fraude, dificultando a aceitação do dinheiro puramente digital. Assim, o Bitcoin condensa e potencializa a “vaporização do valor” — puro símbolo, puro código, puro consenso — e revela tanto as promessas quanto as contradições desse novo cenário.

Esse fenômeno é visível em países como a China, onde o uso de cédulas se tornou exceção e as transações digitais já dominam a economia cotidiana, impulsionadas por aplicativos e pela adoção do yuan digital. O Brasil segue tendência semelhante ao implementar o PIX e desenvolver o DREX, sua própria moeda digital, buscando acelerar a desmaterialização do dinheiro e ampliar a digitalização financeira.

No entanto, essas moedas digitais estatais levantam questões de vigilância, controle e centralização, problemas que criptomoedas descentralizadas como o Bitcoin foram criadas justamente para evitar.

3 – O senso comum sobre o Bitcoin

A percepção pública do Bitcoin é resultado direto das transformações nas mediações tecnológicas do valor e de como esses processos são comunicados e ressignificados no cotidiano. A circulação de sentidos sobre o Bitcoin não ocorre apenas nos grandes veículos de mídia, mas se expande em memes, discussões em redes sociais, aplicativos financeiros e experiências pessoais de usuários. Martín-Barbero (2006) ressalta que as mediações tecnológicas não apenas conectam, mas também reconfiguram práticas sociais, afetando profundamente a confiança coletiva e as formas de pertencimento econômico.

No senso comum, o Bitcoin aparece simultaneamente como promessa e ameaça. Para alguns, representa inovação, autonomia e possibilidade de ascensão financeira fora dos limites do sistema bancário tradicional. Para outros, ainda é visto com desconfiança, associado à instabilidade, risco, bolhas especulativas e ao uso em atividades ilícitas. Essa polarização é amplificada pelas próprias mediações tecnológicas: notícias, aplicativos e plataformas digitais permitem tanto a disseminação rápida de informação qualificada quanto a propagação de mitos, fake news e pânicos morais.

O efeito dessas novas mediações sobre a confiança social e a identidade econômica é ambíguo. Por um lado, a digitalização e a descentralização prometem empoderamento individual e transparência nas transações; por outro, podem intensificar o sentimento de incerteza e de desproteção diante do desconhecido tecnológico. 

4 – O dinheiro etéreo e os outros dinheiros

A trajetória do dinheiro revela um processo contínuo de abstração e desmaterialização do valor, desde suas formas mais concretas até o chamado “dinheiro etéreo”. O Bitcoin, frequentemente compreendido como o ápice dessa transformação, reativa lógicas antigas sob novas tecnologias.

O sal, uma das moedas mais antigas, tinha valor intrínseco por sua utilidade vital, mas já dependia de consenso social sobre seu papel em trocas. As conchas (cowries) circularam por milênios em diversos continentes, com seu valor baseado na raridade e aceitação coletiva, antecipando o princípio do valor simbólico. Os metais preciosos, como ouro e prata, somaram à aceitação comunitária a chancela estatal, tornando-se instrumentos de poder e controle. O papel-moeda radicalizou a abstração ao romper o vínculo direto com metais e depender unicamente da confiança no emissor.

Meu caso preferido, as pedras Rai, na ilha de Yap, ilustra de modo emblemático a lógica do valor simbólico e descentralizado: gigantes discos de pedra dificilmente movidos, cujo valor é definido pela história compartilhada e pelo reconhecimento público do proprietário, e não pela posse física, pode ser visto como um dos mais primitivos, porém, o Bitcoin se insere nessa mesma lógica de existência – não é algo que pode ser facilmente falseável.

Ele percorre o percurso como o primeiro dinheiro global completamente digital, sem existência material, sustentado apenas por registros distribuídos e regras matemáticas. Assim como cada forma histórica de moeda exigiu novos acordos de confiança, o dinheiro etéreo das criptomoedas convida a sociedade a reimaginar o que significa valor, propriedade e segurança. Em última instância, o “dinheiro vapor” é menos uma ruptura e mais a expressão máxima de lógicas ancestrais que confiamos há muito tempo: o valor, ontem e hoje, sempre dependeu do consenso, da mediação e da confiança coletiva.

5 – Referências

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