Tag: Estudos de Gênero

Amandina Lihamba (1944)

Atriz tanzaniana, produtora de cinema e teatro, dramaturga e acadêmica. Nasceu no Distrito de Morogoro, na então colônia britânica de Tanganica. Ela recebeu a educação primária em uma escola católica na Tanzânia e mais tarde obteve o diploma de mestrado em Belas Artes pela Escola de Teatro da Universidade de Yale. Em 1985, defendeu o doutorado na Universidade de Leeds, no Reino Unido, com a tese “A política e o Teatro na Tanzânia depois da Declaração de Arusha, 1967-1987”.

Ela foi admitida no Departamento de Belas Artes e Artes Cênicas da Universidade de Dar es-Salaam, para ensinar práticas de teatro e arte para mobilização social. Foi chefe de departamento, diretora associada, e depois diretora da Faculdade de Artes e Ciências Sociais, membra do conselho universitário e subsequentemente diretora de atuação do serviço público da Universidade Dar es Salaam.

Em sua carreira internacional Amandina lecionou como acadêmica visitante Fulbright-Hays na Universidade da Califórnia em Los Angeles (2001). Atuou como consultora para muitas instituições e organizações, como o Conselho Nacional de Artes da Tanzânia, o Ministério da Educação e Cultura, o Fórum para educadores africanos, o Teatro Popular Alliance, a Comissão tanzaniana para Ciências e Tecnologia, UNICEF, e várias agências internacionais de desenvolvimento.

Além disso, foi pesquisadora chefe para Tanzânia no projeto de “Equidade de Gênero na educação superior da Commonwealth” fundado por Carnegie e o Departamento para Desenvolvimento Internacional do Reino Unido. Fundadora do Projeto de Teatro Infantil e Festival na Tanzânia (1989) bem como do internacionalmente reconhecido programa TUSEME (Let’s Speak Out), que apoia a educação para garotas através do uso de comunicação cultural.

Amandina trabalhou também como intérprete e diretora de palco e tela. Sua atividade no teatro inclui o trabalho feito na África, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Sua filmografia inclui interpretar, dirigir, ou produzir Arusi ya Mariamu (O casamento deMariamu) (1985), Maangamizi (O ancião) (1998), e um dos filmes mais populares do Leste Africano, Uhai Bongo (Vida Bongo), sendo que “Bongo” é como em gíria por vezes é nomeada a cidade de Dar es-Salaam.

Considerada uma das maiores atrizes africanas, na década de 1970 integrou a Companhia Negro Ensemble e excursionou com a produção da Broadway The river Niger. Ela é uma das editoras da The Eastern Region, parte da série Women writing Africa publicado pela Feminist Press na Universidade Municipal de Nova York.  Além de artigos acadêmicos em inglês ela publicou diversas peças teatrais em língua swahili. 

BIBLIOGRAFIA

LIHAMBA, Amandina. Women writing Africa: eastern region. Nova Iorque: The Feminist Press, 2007.

MWANGI, Ewan. Amandina Lihamba’s gendered adaptation of Sembene Ousmane’s The Money order. Research in African literatures, v. 40, n. 3, p. 149-173, 2009.

V.V.A.A.. Outline of Swahili literature: prose fiction and drama. Leiden; Boston: Brill, 2009.

ZUBKOVA, Elena. “Amandina Lihamba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 497-498.

Amina Mama (1958)

Escritora, professora e feminista nigeriana.  Nasceu na cidade de Kaduna, situada na área cultural hauçá, no norte da Nigéria, filha de pai nigeriano e de mãe inglesa. Esta história familiar eclética, segundo ela, teria moldado sua visão de mundo e refletido o alcance de sua atuação posterior na África, Europa e América do Norte.  Em 1992 casou-se com Nuruddin Farah, com quem tem dois filhos.

Ela frequentou a escola primária e secundária em Kaduna, em ambiente muçulmano. A mãe era professora, e vários outros membros de sua família estiveram envolvidos com o sistema local no momento da independência do país. Em 1966 ela deixou sua comunidade devido a distúrbios antimuçulmanos, e se estabeleceu em Londres, onde veio a obter sua formação acadêmica em nível superior. Estudou Psicologia na Universidade de St Andrews, na Escócia (1980), com Mestrado em Psicologia Social e Doutorado em Psicologia Organizacional na Universidade de Londres, onde defendeu a tese:  Race and subjectivity: a study of black women (Raça e subjetividade: um estudo sobre mulheres negras) (1987).

Em seus primeiros estudos, Amina Mama desenvolveu  análises comparativas sobre a situação das mulheres britânicas e nigerianas. Passou pela Holanda, Nigéria, e se estabeleceu na África do Sul, onde passou a lecionar na University of Cape Town (Universidade da Cidade do Cabo), onde passou a dirigir o African Gender Institute (Instituto Africano de Estudos de Gênero). Ela foi uma das criadoras do periódico Feminist Africa (Feminismo Africano), em que permanece como editora. Em 2008, ela foi contratada para lecionar no Mills College, em Oakland, passando depois a lecionar na Universidade da Califórnia – Campus Davis, nos Estados Unidos, como professora de Relações de Gênero, Sexualidade e Estudos sobre as Mulheres.

Em paralelo ao seu trabalho de reflexão teórica, docência e pesquisa, Amina Mama é reconhecida internacionalmente por seu ativismo em defesa dos direitos das mulheres, como destacada feminista. Ela é presidenta do conselho de Administração do Fundo Global para Mulheres e assessora ou consultora de diversas organizações internacionais, além de participar do conselho de administração do Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social. 

Embora declaradamente feminista, ela se coloca como crítica do “feminismo branco”, pelas suas ligações intrínsecas com o colonialismo, o capitalismo e o racismo, argumentos defendidos em sua mais conhecida obra:   Beyond the masks: race, gender and subjetivity (Além das máscaras: raça, gênero e subjetividade) (1995), em que ela, partindo da interpretação racial proposta por Frantz Fanon, e indo além, reinterpreta as condições em que se processa a subjetividade das mulheres negras. Junto com uma equipe de outras teóricas africanas, coordenou junto ao Conseil pour le Development des Sciences Sociales en Afrique – CODESRIA, a obra coletiva intitulada Sexe, genre et societe: engendrer les sciences sociales africaines (Sexo, gênero e sociedade: engendrar as ciências sociais africanas) (1997).

Para Amina Mama, as ideias universais de sororidade, produzidas pelo feminismo em contexto hegemônico, devem ser colocadas sob suspeita devido aos limites da crítica feminista ao capitalismo. O que a leva, por extensão, a se colocar como crítica aos discursos que pretendem separar as condições de opressão de gênero e raça. Coloca-se também em franca oposição ao tipo de produção que circula nas universidades africanas, perpassadas pelo patriarcalismo, pelo sexismo e por hierarquias institucionais.  

BIBLIOGRAFIA

MAMA, Amina. Challenging subjects:  gender and power in african contexts. African Sociological Review, v. 5, n. 2, p. 63-73, 2001:  https://www.ajol.info/index.php/asr/article/viewFile/23191/19882

MAMA, Amina. Feminism or Femocracy? State Feminism and Democratisation in Nigeria. Africa Development, CODESRIA, v.  20, n. 1, p. 37-58, 1995.

MAMA, Amina (entrevista). Africana: aportaciones para la descolonización del feminismo. Barcelona: Oozebap, 2013:   http://www.feministas.org/IMG/pdf/varias_autoras___africana._aportaciones_para_la_descolonizacion_del_feminismo.pdf

Aminata Diaw Cissé (1959-2017)

Filósofa e professora universitária. Nasceu em  Saint-Louis, Senegal, onde estudou no Licée Amet Fall. Formou-se em  Filosofia na Universidade de Nice (1979, obtendo os títulos de  Mestrado (1981) e Doutorado (1985) na mesma instituição.

Logo depois, foi admitida no Departamento de Filosofia da Universidade Cheikh Anta Diop – UCAD), em Dakar. Lecionou também por cerca de um ano no Instituto Superior de Gestão (ISM), em Dakar. Foi indicada como diretora de Atividades de Informação, Culturais e Esportivas (DIACS) da universidade, uma posição que ela ocupou a partir de 1996.

Influenciada pelo pensamento de Rousseau, debateu temas atuais de seu país, como democracia, cidadania, gênero, identidade, etnicidade, e modernidade entre outros. Apoiadora dos direitos das mulheres africanas, participou de diversas organizações, como o Conselho de Mulheres Senegalesas – COSEF.

Aminata Diaw publicou o livro Women writing Africa, West Africa and Sahel (As mulheres escrevem a África – África ocidental  Sahel) (2005), além de uma série de artigos acadêmicos, principalmente com base no pensamento de rousseauniano. Foi laureada pelo Instituto de Governança Democrática do Conselho para Desenvolvimento de Pesquisa em Ciências Sociais na África (CODESRIA), e tornou-se membro do Comitê Científico desta instituição em 2009, tendo atuado no Programa de Treinamento, Concessão e Divisão de Bolsas.

 Diaw Lecionou no Departamento de Filosofia da Faculdade de Artes e Humanidades da UCAD e dirigiu o Centro de Pesquisa Filosófica e Epistemológica (CEREPHE). Também atuou no Programa de Pós-Graduação em Filosofia e no Programa de Doutorado em Estudos sobre o Homem e Sociedade – ETHOS.

BIBLIOGRAFIA

DIAW, Aminata. Nouveaux contours de l’espace publique em Afrique. Diogène, n. 206, p. 37-46, 2004.

KONATÉ, Dior. “Aminata Diaw”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 195-196.

SOW, Fatou. Tribute a Aminata Diaw Cissé, 2017: http://www.agi.ac.za/sites/default/files/image_tool/images/429/feminist_africa_journals/archive/22/fa22_tribute_3.pdf

SHUTERLAND-Addy, Esi; Diaw, Aminata. Women writing Africa, West Africa and Sahel. Noa Iorque: Feminist Press, 2005.

Chimamanda Adichie (1977)

Escritora criativa nigeriana e ensaísta, com envolvimento e liderança no pensamento feminista. Nasceu em Enugu, de uma família de origem Igbo da cidade de Abba, no Estado de Anambra, mas cresceu em Nsukka. O pai era professor de Estatística na Universidade da Nigéria e mais tarde tornou-se vice-chanceler adjunto da instituição, enquanto a mãe era graduada em Sociologia e tabeliã.

Adichie completou sua formação na Universidade Escola da Nigéria, vencendo diversos prêmios por excelência acadêmica. Ela estudou Farmácia e Medicina na universidade por um ano e meio, mas rapidamente percebeu que não queria seguir esta carreira. Desde a juventude escreveu algumas peças e obras em prosa, sendo influenciada pela escritora inglesa Enid Blynton, mas sobretudo pelos romancistas africanos Chinua Achebe, seu conterrâneo, e Câmara Laye, que oferecera a ela perspectivas de pensar a africanidade. 

Em 1997, publicou uma coleção de poemas intitulada Decisions (Decisões), e deixou a Nigéria para estudar Comunicação na Universidade Drexel, na Filadélfia. Depois de dois anos, pediu transferência para a Universidade Estadual de Eastern Connecticut, onde completou o bacharelado em Comunicação e especialização em Ciência Política (2001).  Foi quando começou a escrever o romance Purple hibiscus (Hibisco Roxo), publicado em 2003, quando passou a ganhar reconhecimento no cenário da literatura internacional.

Em 2004 ela obteve um diploma de Mestrado em Escrita Criativa na Universidade John Hopkins e em 2005-2006 obteve uma bolsa de estudos Hodder da Universidade de Princeton, onde lecionou Introdução à ficção. No outono de 2006, matriculou-se no Programa de Mestrado em História Africana da Universidade de Yale. Paralelamente, ela continuava sua carreira de escritora, publicando numerosas histórias em periódicos internacionais como Granta e o New Yorker e diversos ensaios em jornais de prestígio, incluindo o Guardian e o Washington Post.

Em 2006 foi publicado o seu segundo romance, Half of a yellow sun (Meio sol amarelo), que venceu o Prêmio Internacional de Conto David T. Wong, o Orange Broadband Prize de Ficção em 2007 e foi pré-selecionado para o Commonwealth Writers’ Prize de Melhor Livro (Região Africana) no mesmo ano. A obra teve também grande êxito comercial, especialmente no Reino Unido, e selou o status da escritora como um dos principais nomes da literatura africana no início do século XXI.  

Chimamanda regularmente retorna à Nigéria, apoiando ativamente talentos literários locais emergentes através da organização de workshops para aspirantes a escritores em Lagos. Em maio de 2008 ela se completou os estudos em Yale e se mudou para Columbia, Maryland. Em setembro do mesmo ano recebeu uma bolsa de estudos da Fundação MacArthur, um prêmio de 500.000 dólares. A primeira coleção de contos de Adichie, The thing around your neck (No seu pescoço), foi publicada em abril de 2009.

Como escritora de ficção, suas obras tratam de dramas sociais nigerianos, mas também das situações dos imigrantes nos Estados Unidos, tema abordado em sua conhecida conferência no TED, intitulada “Os perigos de uma história única” (2009). Sua atuação e denúncia das desigualdades de gênero levou a que proferisse a conferência We shoud all be feminists (Sejamos todos feministas) (2012), em que compartilha sua experiência como mulher africana feminista, e sua visão sobre a construção de relações de gênero e sexualidade, que logo foi transformada em livro de grande impacto editorial em 2014.

BIBLIOGRAFIA

COOPER, Brenda. New generation of African writers: migration, material culture and language. Oxford: James Currey, 2008.

HEWETT, Heather. Coming of age: Chimamanda Ngozi Adichie and the voice of the third generation. English in Africa, Centurion (África do Sul), v. 32, n. 1, p. 73-97, 2005.

OGWUDE, Sophie. History and ideology in Chimamanda Adichie’s fiction. Tydskrift vir Letterkunde, v. 48, n.1, 2011:   https://www.ajol.info/index.php/tvl/article/view/63824

TUNCA, Daria. “Chimamanda Ngozi Adichie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 94-95.

Christine Obbo (1947)

Veterana antropóloga ugandense, com contribuição teórica importante para o desenvolvimento das Ciências Sociais na África oriental. Deu início ao ensino superior na Universiy of Makerere, completando os estudos na University of Wisconsin, com passagem por outros estabelecimentos universitários norte-amerianos com bolsa da Fundação Rockefeller, completando os estudos pós-graduados em 1977. Como professora, lecionou no Wheaton College e na Wayne State Univesity.

Como pesquisadora, dedicou atenção especial a etnografia de Uganda, com estudos sobre as comunidades aldeãs de Buganda e ao estudo da condição das mulheres ugandenses migrantes para centros urbanos. Mais recentemente tem estudado de modo aprofundado aspectos sociais e culturais vinculados à disseminação da epidemia de HIV/AIDS e as políticas públicas concernentes.

Como eixo estruturante de pesquisa, Christine Obbo estudou as estruturas patriarcais que condicionam  posição subalterna da mulher na sociedade, bem como alternativas de inserção social sobretudo em relação às mulheres viúvas. Em 1980, escreveu o livro African woman; their struggle for economic independence (A mulher africana: sua luta pela independência econômica), em que fornece um amplo quadro analítico das aspirações e problemas das mulheres, em particular das migrantes. A partir de 1998 integrou a equipe internacional do Council for the Development of Social Science Research in Africa – CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento das Ciências Sociais na África), com participação em projetos internacionais de pesquisa, colóquios e seminários internacionais voltados para o debate sobre a criação de redes intelectuais e estrutura médica em interface com as agências internacionais que se dedicam ao problema da disseminação da epidemia do HIV/AIDS no continente.

BIBLIOGRAFIA

OBBO, Christine. AIDS in Africa: three scenarios to 2025. Genebra: UNAID Secretariat, 2005.

OBBO, Christine. Village trangers in Buganda society. In: SCHACK, William; SKINNER, Elliot (Eds). Strangers in Africa societies. Berkeley: University of California Press, 1979.  

OBBO, Christine. Dominant male ideology and female options: three East african case studies. Africa: Journal of the International  African Institute, v. 46, n. 4, p. 371-389, 1976.

SEGAL, Edwin. “Christine Obbo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 533-534.

Fatima Mernissi (1940-2015)

Socióloga e ativista em favor dos direitos das mulheres muçulmanas, marroquina, nascida em Fez. Graduada na Universidade Mohammed V, em Rabat, e Doutora em sociologia na Universidade de Brandeis, Massachusetts.

Foi uma das primeiras representantes da segunda onda do feminismo islâmico. Escreve em francês, árabe e inglês, e seus livros foram traduzidos em mais de vinte idiomas. Seus trabalhos reinterpretam o passado sob um prisma da justiça de gênero, propondo reformas religiosas. Em conhecidos livros, como Beyond the veil: male-female dynamics in modern muslim society  (Além do véu: dinâmicas homem-mulher na Sociedade muçulmana moderna) (1975) e La femme dans l’insconscient musulman (A Mulher no inconsciente Muçulmano) (1982), publicado sob o pseudônimo deFatna Ait Sabbaha,  ela explora em profundidade as consequências da justaposição de princípios religiosos e populares a respeito da sexualidade feminina.

Além abordar textos religiosos, ela também escreve sobre as condições sociais da mulher marroquina tanto do campo quanto da cidade. Promoveu o letramento de mulheres marroquinas e tunisianas visando possibilitar o registro e, consequentemente, a preservação e a disseminação de suas experiências, tema desenvolvido no livro Le Maroc reconté par ses femmes (O Marrocos ncontado por suas mulheres). Em Forgotten queens of islam (“Rainhas esquecidas do Islã”) ela contesta a tradição que nega às mulheres a habilidade de liderança política, listando mulheres que governaram comunidades muçulmanas ao longo da história, mais uma vez desafiando uma máxima religiosa a partir da evidência histórica.

Por mais de quarenta anos escrevendo sobre gênero e política no mundo árabe, Mernissi  foi uma das principais representantes intelectuais na luta pelos direitos das mulheres no Islã.

BIBLIOGRAFIA

BELHACHMI, Zakia. Al-Sadawi’s and Mernissi’s Feminist Knowledge with/in the History. Education and Science of the Arab-Islamic Culture. Montreal: Université de Montréal, 1999.

COOKE, Miriam. “Fatima Mernissi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 204-205.

RHOUNI, Raja. Secular and islamic feminist critiques in the work of Fatima Mernissi. Leiden: E. J. Brill, 2010.

MERNISSE, Fatima. Sonhos de transgressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MERNISSE, Fatima. Nasci num harém: as mil noites de Xerazade. Alfragide: Edições Asa, 1994.

Fatou Sow (1950)

Feminista e professora de sociologia de grande renome, tanto em seu país natal, o Senegal, quanto ao redor do mundo. Ela frequentou a escola primária e secundária em Dakar, no Liceu Van Vollenhoven, e mais tarde estudou na Universidade de Dakar, onde se formou em filosofia e sociologia. Foi uma das primeiras mulheres a receber uma formação universitária na África, e a experiência de ser uma das poucas mulheres em uma sala de aula repleta de homens (duas mulheres entre 300 homens) foi fundamental na sua escolha por uma carreira na sociologia, em particular no estudo das relações de gênero.

Fatou Sow é especialista em relações de gênero, tendo abordado assuntos relativos à participação e representação política feminina, além de questões pertinentes à saúde, e o estabelecimento de uma rede de relações entre as mulheres senegalesas e as feministas em outros países fora da África. Crítica e ativa no que tange as atitudes e tradições senegalesas com respeito à mulher, em 2000, ela lançou o projeto chamado The teaching, reseaqrch and documentation of woman’s studies  and the analyses of gender relations in the social sciences in Africa (O Ensino, a Pesquisa e a Documentação dos Estudos sobre a Mulher e a Análise das Relações de Gênero nas Ciências Sociais na África), na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, onde ela é catedrática de sociologia. Este projeto causou controvérsia entre seus pares na UCAD, mas não restringiu a professora e pesquisadora, que expandiu ainda sua análise para o mundo feminino islâmico.

Ela advoga a causa de que uma releitura do Alcorão é necessária, o que é vital para uma apreciação correta da contribuição da mulher e do seu papel no Islã. Ela encoraja as mulheres muçulmanas a empregarem seus conhecimentos linguísticos e teológicos como uma forma de desafio à interpretação patriarcal dos ensinamentos corânicos, pois ela crê que essa interpretação misógina e errônea do texto sagrado se cristalizou ao longo dos séculos.

Estas idéias são desenvolvidas a fundo na obra Woman and islam in Africa in the XXI century: an african feminist perspective (As Mulheres e o islã na África do século XXI: uma perspectiva feminista africana) (2004). A professora é também autora de outras obras de grande importância para os estudos feministas, incluindo Notre corps, notre santé: la santé et la sexualite des femmes en Afrique Subsaharienne (Nosso Corpo, nossa Saúde: a saúde e a sexualidade das mulheres na África Subsaariana) (2004), e La recherche feministre francophone: langues, identités et enjeux (A pesquisa feminista francófona: línguas, identidades e desafios) (2009).

Acadêmica e pesquisadora de grande capacidade intelectual e enorme engajamento nas causas humanistas e dos direitos das mulheres africanas, Sow recebeu diversos prêmios e honrarias acadêmicas, tais como a bolsa Fulbright (Universidade de Maryland em 1980 e UCLA em 1984), além dos doutorados honoris causa nas Universidades de Toronto (1992) e Ottawa (2002). Sow também atua como consultora para inúmeras organizações humanitárias, tais como a UNESCO, UNDP e USAID.

BIBLIOGRAFIA

KONATE, Dior. “Fatou Sow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 447-448.

LACOH, Thérèse; PUEH, Isabelle. Fatou Sow, les défis d’une féministe en Afrique. 2008.

SOW, Fatou. Dépendence et développment: le statut de la femme en Afrique moderne. Notes Africaines, Dakar, 1973.

SOW, Fatou. As mutilações genitais femininas: estado atual na África. Revista Eletrônica Labrys: Estudos Feministas, 2004:   http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys5/textoscondensados/sowbr.htm

Grace D’Almeida Adamon (1951-2005)

Advogada, jurista e ativista de direitos humanos.  Nasceu em  em Dakar, no Senegal, como Grace Antonia Almeida Benoite Adamon. Frequentou a escola primária e mudou-se com a família para o então país do  Daomé, onde completou o secundário na cidade de Cotonou, no  Colégio de Nossa Senhora dos Apóstolos. Depois realizou curso superior de Direito na França, sendo diplomada em graduação e pós-graduação pela Universidade de Paris (1977).

Ao retornar ao país, agora chamado República do Benin, lecionou  na Universidade Nacional do Benin,  em Abomey Calavi, onde ganhou notoriedade por sua defesa dos direitos das mulheres. Em 1990 criou a Associação de Juristas do Benin – AIJB, e passou a atuar em diversos comitês  internacionais de diretos humanos e em várias Organizações Não Governamentais  e programas da ONU.

Participou ativamente da Conferência Nacional  para estabelecer uma nova constituição democrática para o Benin (1990)  e assumiu uma cadeira no  Conselho Superior da República como presidenta da Comissão de Direito, Direitos da Terra, Promoção dos Direitos Humanos e como supervisora das eleições. Juntamente com outras figuras importantes da Conferência Nacional, foi uma das fundadoras do Instituto Africano dos Direitos Humanos e da Promoção da Democracia, e fez campanha pela causa tanto local como globalmente.

Em 1997, escreveu o  guia intitulado Ancestral customs and women’s rights in Benin (Costumes Ancestrais e Direitos das Mulheres no Benin), que foi traduzido do francês e inglês para o fon e o batanou, duas línguas locais amplamente faladas pela população que permitiriam acesso à maioria das pessoas que precisavam de assistência legal.

Sua iniciativa foi igualmente determinante para a implementação pelas Nações Unidas   do Centro de Governança Doméstica no Burkina Faso (1990), e alguns anos mais tarde a Women in Law  and Development in Africa – WILDAF (Mulher na Lei e no Desenvolvimento na África) (1999), constituído por uma rede de associações e organizações femininas. Ela também foi assessora técnica da ONU no Haiti, até sua morte prematura, aos cinquenta e quatro anos de idade. 

BIBLIOGRAFIA

DAGBA, Ambroise. Amazones des temps modernes. Amina, v. 325, p. 71, 1997.

D’ALMEIDA, Grace. Ancestral customs and women’s rights in Benin. PNUD – ONU, Report, 1997.

GLEASON, Tiffany. “Grace D’Almeida Adamon”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 160-161.

Ifi Amadiume (1947)

Nascida em Kaduna, na área cultural Igbo, na Nigéria, realizou os estudo primário e secundário em se país antes de se mudar para a Inglaterra em 1971. Estudou na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, onde obteve mestrado (1978) e doutorado (1983) em Antropologia Social. 

Como docente e pesquisadora, atuou durante um ano na Universidade da Nigéria, em Enugu, e depois foi convidada para lecionar na Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e Senegal. Suas pesquisas empíricas inovaram o campo das relações de gênero na África em termos teóricos, a partir dos referenciais da cultura igbo, e resultaram nos livros  African Matriarchal Foundations: the igbo case (Estruturas matriarcais africanas: o caso igbo) (1987) e a premiada Male Daughters, Female Husbands: Gender and Sex in an African Society (Filhas machos, maridos fêmeas: gênero e sexualidade em uma sociedade africana ) (1987), em que antecipou o argumento depois muito difundido de que o gênero resulta de uma construção ocidental, e que a dicotomia de gênero não existia  na África antes do domínio colonial.  Escreveu ainda a coleção de ensaios Re-inventing Africa: Matriarchy, Religion and Culture (Reinventando a África: Matriarcado, Religião e Cultura) (1998).

Ifi Amadiume é também poetisa, e já em 1977 participou do II Festival de Artes e Culturas Negras em Lagos – FESTAC. Uma antologia de sua obra poética encontra-se em Passion Waves (Ondas da paixão) (1985), e em 2006 ela ganhou o Prêmio Flora Nwapa por seu livro Circles of love (Círculos do amor).  

Atualmente, faz parte do conselho consultivo do Center for Democracy and Development (Centro para a Democracia e o Desenvolvimento), uma ONG que visa promover os valores da democracia, paz e direitos humanos na África, particularmente na África Ocidental.

BIBLIOGRAFIA

ADESINA, Jimi. Práticas da Sociologia Africana: Lições de endogeneidade e género na academia. In: SILVA, Tereza Cruz e; COELHO, João Paulo Borges; SOUTO, Amélia Neves de (Orgs.). Como Fazer Ciências Sociais e Humanas em África: questões epistemológicas, metodológicas, teóricas e políticas (Textos do Colóquio em Homenagem a Aquino de Bragança). Dakar: CODESRIA, 2012, p. 195-210.

ADESINA, Jimi. “Re-appropriating Matrifocality: Endogeneity and African Gender Scholarship. African Sociological Review,  v. 14, nm. 1,  2010.

Madina Ly-Tall (1940)

Nascida em Bandiagara, Mali, de uma família influente na área cultural fula, de descendência do líder El-Hadj Omar Tall, o fundador do Império Tuculer no século XIX. Estudou em Koutiala (1947-1952) e no colégio para meninas de Bamako (1956). Realizou a formação universitária na França, na Universidade de Toulouse, e obteve doutorado em História na Universidade de Sorbonne sob orientação de Raymond Mauny (1972).

Na década de 1960 Madina lecionou em diversos colégios em Bamako, e nos anos 1970 participou do comitê internacional da UNESCO para a redação da coleção História Geral da África. Junto ao Institut Fondamental de l’Afrique Noire (Instituto Fundamental da Áfria Negra) (IFAN), publicou Contribution à l’histoire de l’Empire du Mali, XIIe-XVIe siècles: limites, principales provinces, institutions politiques   (Contribuição à História do Império do Mali, séculos XII e XVI: limites, províncias principais, instituições políticas (1977), e Un Islam militant en Afrique de l’Ouest au XIX siecle (Um islã militante na África ocidental do século XIX (1991). Junto com a socióloga Achola Pala, é autora da do livro pioneiro publicado no âmbito de um programa de pesquisa da UNESCO: La femme africaine dans la société precoloniale (A mulher africana na sociedade pré-colonial) (1979). 

Desde 1958 Madina Ly se envolveu na vida política, participando do Partido da Independência Africana e enquanto esteve na França fez parte dos quadros da Federação de Estudantes da África Negra (1965).

No início da década de 1970 ela integrou o movimento de oposição ao regime militar vigente no Mali no governo de Moussa Traoré, motivo pelo qual foi forçada a se exilar no Senegal. Retornou ao país em 1991, quando foi nomeada vice-presidente da Assembléia Nacional para a elaboração de uma constituição democrática. Teve participação ativa na campanha que levou o historiador Alpha Oumar Konaré à presidência em 1992, e atuou como diplomata representando o seu país no exterior.

BIBLIOGRAFIA

KONARÉ, Adama Ba. La recherche en Afrique, le domaine de l’histoire: de la période coloniale française à nos jours, état des lieux dans l ecas du Mali. In: VVAA. Cent ans d’Histoire des Outres mers. Paris: Société Française d’Histoire des Outres Mers, 2013, p. 635-645.

PALA, Achola; LY, Madina. La mujer africana en la sociedad precolonial. Barcelona: Serbal; UNESCO, 1982: https://unesdoc.unesco.org/images/0004/000402/040262sb.pdf

Micere Githae Mugo (1942)

Estudiosa e escritora transnacional e pan-africanista do Quênia, tem interesse de pesquisa em literatura e oratura na África e na Diáspora Africana, com ênfase em poesia, drama e teatro; estudos de mulheres e gênero; estudos culturais e filmográficos; e educação.

Em uma competição da Commonwealth Scholarship Award para alunos de graduação, Mugo recebeu bolsa para seu mestrado em literatura em 1971 e depois realizou o doutorado em literatura na Universidade de New Brunswick, no Canadá.

Micere Githae foi professora associada na Universidade de Nairóbi, a qual ela se juntou em 1973 como palestrante e onde, mais tarde, se tornou a primeira mulher reitora da Faculdade de Artes (1980-82).  Ela e suas filhas mais novas, Mumbi e Njeri, deixaram o Quênia como exiladas políticas durante o regime do presidente Daniel Arap Moi. Passou a viver nos Estados Unidos desde 1991 e é professora de Estudos africanos na Universidade Syracuse, onde ela recebeu o prêmio Meredith por excelência de ensino entre 2004 e 2007.

Destacada ativista na luta contra a mutilação genital feminina, ela é igualmente crítica de feministas ocidentais que ignoram o que feministas não-ocidentais têm a dizer sobre o que consideram equivalente à mutilação feminina no Ocidente, como os implantes mamários, a bulimia nervosa, a anorexia, entre outros.

Dentre muitos trabalhos estão: Muthoni wa Kirima Mau Mau  field marshall: interrogating silencing and, erasure and manipulation off female combatents’ texts (Muthoni wa Kirima marechal de campo Mau Mau: interrogando o silenciamento, apagamento e manipulação dos textos de mulheres combatentes) (2004); Re-envisioning pan-africanism: what is the role of gender, youth and masses? (Repensando o pan-africanismo: qual o papel do gênero, da juventude e das Massas?) (2002).

Os trabalhos de Micere Mugo têm sido incluídos em críticas que envolvem opressão feminina e de gênero, resistência à globalização e às guerras dos Estados Unidos por lucro e dominação, em trabalhos como Feminism and war: confronting U.S. imperialism (Feminismo e guerra: confrontando o imperialismo dos Estados Unidos) (2008).

Paralelamente, coloca-se como teoriza como oratura e tece críticas à literatura oral que reproduz os elementos da dominação masculina, lamentando que muitas escritoras africanas não tenham se dado conta disto. Em seu poema To be feminis tis (Ser feminista é), ela declara guerra a qualquer forma do racismo, sionismo, apartheid, tribalismo, homofobia, classismo.

BIBLIOGRAFIA

AGBETU, Olayemi. Micere Mugo, history, and the quest for justice and human right. In: FALOLA, Toyin Ed.).. The dark webs: perspective on colonialism in Africa.. Durham: Carolina Academic Press, 2005, p. 245-256.

MABURA, Lilly. “Micere Githae Mugo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 295-297.

MUGO, Micere Githae. Elitist anti-circumcision discourse as mutilating and anti-feminist colloquium: riding society,, culture and law : the issue off emale circuncision. Case Western Reserve Law Review , v. 47, n. 2,  p. 461-466, 1997: https://heinonline.org/HOL/Page?handle=hein.journals/cwrlrv47&div=25&collection=journals.

Molara Ogundipe (1940-2019)

Molara Abiodun Ogundipe-Leslie nasceu em Lagos, capital da Nigéria, de uma família de educadores e clérigos, frequentou na infância a Queen’s School, em Ede, e foi a primeira mulher a obter um diploma de inglês no University College Ibadan (Colégio universitário Ibadan), na época vinculado à University of London (Universidade de Londres). A seguir, obteve o título de doutorado na Universidade de Leiden, com a tese intitulada Gender and subjectivity. Readings of “Song of Lawino” (Gênero e subjetividade. Leituras de “Song of Lawino”) (1999).

Abiodun ensinou inglês, redação, literatura comparada e relações de gênero em várias instituições de ensino, em particular na Universidade de Port Harcourt, na Nigéria.

Pioneira dos movimentos feministas na África, foi uma das primeiras a denunciar as estruturas patriarcais vigentes no continente, destacando-se na direção da Foundation for International Education and Monitoring (Fundação Internacional para a Educação e Monitoramento), que se dedica a difundir os fundamentos das teorias feministas e da igualdade de gênero. Participou da coletânea Sisterhood is global: the international women’s movement anthology (A sororidade é global: uma antologia do movimento internacional das mulheres) e tem alguns de seus poemas publicados na antologia Daughters of Africa (Filhas da África) (1992).

Desde o início de sua carreira, ela defendeu a ideia de que o reconhecimento social das mulheres nigerianas era uma chave para melhorar o funcionamento das instituições sociais e políticas. Como autora, expressou a complexidade das diferenças de gênero, em obras como Sew the old days and other poems (Costurar os velhos tempos e outros poemas) (1985), Re-creating ourselves: african women & critical transformations (Recriando a nós mesmas: mulheres africanas e transformações críticas) (1994) e Women as oral artists (Mulheres como artistas orais) (1994).    

BIBLIOGRAFIA

ALLAN, Tuzyline Jita: Re-Creating ourselves: african women and critical transformations by Molara Ogundipe-Leslie. Research in African Literatures, 1995.

OGUNDIPE-LESLIE, Molara. The female writer and her commitment. African Literature Today, v. 15, p. 5-13, 1987.

OGUNDIPE, Molara. Indigenous and contemporary gender: concepts and issues. In: Africa: implications for Nigeria’s development. Lagos: Malthouse Limited P., 2005.

Oyèrónkẹ́ Oyèwùmí (1957)

Cientista social, teórica e feminista nigeriana.  Nasceu em Ògbọ́mọ̀sọ́, cidade situada no atual Estado de Oyó, na República da Nigéria. Pertence a uma importante linhagem yoruba,Seu pai foi elevado em 1973 à condição de sòún (monarca) de sua cidade natal, o que fez com que ela tivesse desde a juventude grande familiaridade com a vida no ààfin sọ̀ún (palácio), e continuada participação nos rituais, festas e costumes tradicionais de matriz yoruba-oyó.

 Oyèronké completou o estudo primário e secundário em Ògbọ́mọ̀só, realizou o curso superior de Sociologia na Universidade de Ibadan e obteve o Doutorado em Sociologia na Universidade da California, onde defendeu a tese Mothers not women: making an african sense of western gender discourses  (Mães e não mulheres: criando um sentido africano para os discursos de gênero ocidentais) (1993). Este trabalhou veio depois a ser publicado com o título The invention of women; making an african sense of western gender discourses (A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero) (1997), livro que lhe rendeu o prêmio da American Sociological Association (Associação Americana de Sociologia) e se distinguiu como finalista ao Prêmio Herskovitts da African Studies Association (Associação dos Estudos Africanos). 

A obra de Oyèronké Oyèwúmi propõe uma crítica pós-colonial e feminista do predomínio ocidental nos Estudos Africanos, a partir de uma argumentação de cunho epistemológico. Com base em trabalho interdisciplinar, ela argumenta, com base em evidências linguísticas e  etnográficas que antes da colonização britânica,  a sociedade yoruba-oyó do sudoeste da Nigéria não organizava os papeis sociais a partir de hierarquias sexuais, corporais e de gênero, e sim pela senioridade. Ela sustenta que a tradução dos termos obìnrin e ọkùnrin, correspondem, respectivamente, a mulher/fêmea e homem/macho, já carrega em si mesmas a divisão ocidental da percepção dos modos de organização social baseada no gênero; o mesmo acontecendo com a tradução de aya e ọkọ para “esposa” e “marido”, que também supõem tal distinção. No contexto yoruba, seria a idade cronológica relativa, e não o tipo sexuado de corpo, a responsável pela distribuição dos lugares de prestígio na sociedade.

Na construção de seu argumento, nota que a percepção ocidental, introduzida durante o período colonial, organiza a lógica cultural em torno do sentido da visão, que identifica pelo olhar lugares sociais destinados a determinados tipos de corpos, o que não aconteceria nas sociedades yorubas, onde maior importância tende a ser dada ao sentido da audição. Tal centralidade conferida ao corpo na perspectiva ocidental acaba por ser projetada nas formas de organização social, naturalizando em termos de uma bio-lógica os discursos sociais e produzindo paradigmas etnocentrados segundo critérios de hierarquia e subordinação. Nas cosmologias e instituições africanas, haveria distinção anatômica dos corpos sem diferença social. Esta seria conferida pela estrutura da linhagem familiar, tanto pela posição etária quanto pela origem social.

Beneficiada com diversas bolsas de pesquisa pela Fundação Rockfeller, Ford Fondation e pelo Conselho Nacional de Pesquisa Sobre Mulheres – NCRW, dos Estados Unidos, Oyèronké leciona Sociologia na Universidade de Stony Brook, no Estado de Nova Iorque.  Entre outras obras, publicou African Women and Feminism: Reflecting on the Politics of Sisterhood (Mulheres africanas e feminismo: refletindo sobre políticas de sororidade) (2003);  African Gender Studies: A Reader  (Estudos africanos de gênero: uma leitura) (2005) e Gender epistemologies in Africa: gendering traditions, spaces, social institutions and identities  (Epistemologias de gênero na África: tradições, espaços, instituições e identidades de gênero) (2011).

BIBLIOGRAFIA

ADESINA, Jimi. Práticas da Sociologia Africana: Lições de endogeneidade e género na academia. In: SILVA, Tereza Cruz e; COELHO, João Paulo Borges; SOUTO, Amélia Neves de (Orgs.). Como Fazer Ciências Sociais e Humanas em África: questões epistemológicas, metodológicas, teóricas e políticas (Textos do Colóquio em Homenagem a Aquino de Bragança). Dakar: CODESRIA, 2012, p. 195-210.

OYEWÙMÍ, Oyèwùmi.  La invención de las mujeres: una perspectiva africana sobre los discursos occidentales del género. Bogota: En la Frontera, 2016:  https://ayalaboratorio.files.wordpress.com/2019/06/a-invencao-das-mulheres-oyc3a8ronke-oyewumi.pdf

ROCHA, Aline Matos da. A corporal(idade) discursiva à sombra da hierarquia e do poder: uma relação entre Oyewúmí e Foulcault. Dissertação de Mestrado (Filosofia), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2018: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tede/8955/5/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Aline%20Matos%20da%20Rocha%20-%202018.pdf

Ruth Meena (1946)

Ativista feminista e educadora, nasceu em Moshi, na Tanzânia. Foi uma das primeiras mulheres escolhidas a ingressar na Universidade-Colégio da África Oriental em 1968 – que se tornou depois a Universidade de Dar es-Salaam. Também foi a primeira a obter um doutorado e se tornar professora no campo da ciência política.

Como um dos pré-requisitos para ingressar na universidade na época, ela participou do treinamento de dois anos em serviço nacional, que incluía serviços de construção e treinamento militar. Seus desafios bem-sucedidos em relação ao assédio sexual durante esse período fortaleceram seu interesse e confiança para lutar contra discriminação de gênero nos anos seguintes. Suas maiores influências foram o presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, com sua ética igualitária, e o pesquisador brasileiro Paulo Freire, pioneiro de uma filosofia de educação voltada aos pobres. Foi aluna de Walter Rodney, com quem entrou em contato com literatura sobre o imperialismo e a teoria da dependência.

Casou-se no primeiro ano da faculdade e teve quatro filhos. Apesar dos desafios de estudar e cuidar de uma família, foi premiada por ser uma aluna de destaque em ciência política.

Iniciou sua carreira dando aula para o ensino médio e poucos anos depois, em 1979, conseguiu uma posição como conferencista no Departamento de Ciência Política e Administração na Universidade de Dar es-Salaam – UDSM; depois como conferencista sênior e por fim como professora, em 1997. Lá, tornou-se editora-chefe do TAAMULI, um jornal de ciência política, e ensinou uma ampla gama de cursos relacionados aos direitos humanos, política africana, relações internacionais e métodos de pesquisa em ciências sociais.

Na universidade, lutou vigorosamente contra as desigualdades de gênero e as dificuldades que as estudantes sofrem no cotidiano. Fez parte da primeira força-tarefa relacionada a esses assuntos e na introdução de políticas de ações afirmativas e estabelecendo um centro de pesquisas de gênero e acolhimento. Meena ainda criou a Environmental and Human Care Association – ENVIRONCARE (Associação de Ambientação e Relação Humana) e participou da liderança da Associação Africana de Cientistas Políticos. Entre suas obras está o livro Gender in Southern Africa: conceptual and theoretical issues (Gênero no Sul da África: perspectivas conceituais e teóricas) (1992).

 Depois de se aposentar, ela construiu uma escola preparatória de ensino médio em Dar es-Salaam.

BIBLIOGRAFIA

BUSKENS, Ineke; WEBB, Anne (Eds.).. African women and ICTs: investigating technology, gender and empowerment. Londres: Zed Books, 2009.

MEENA, Ruth. Situationa analysis of educations of girls/women in Tanzania. UTAFITI, v. 3, n. 2, p. 39-90, 1996:

http://journals.udsm.ac.tz/index.php/uj/article/download/1233/1133

TRIPP, Aili. “Ruth Meena”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 175-176.

Suzanne Tanella Boni (1954)

Nascida em Abidjan, capital da Costa do Marfim. Frequentou escolas de ensino fundamental e médio no norte do país e seguiu os estudos universitários na França, primeiro na Universidade de Toulouse e depois na Universidade de Paris IV, onde concluiu o Doutorado.

Durante anos lecionou filosofia na Universidade de Cocody, em Abidjan, onde também exerceu outras atividades acadêmicas e administrativas, inclusive como vice-reitora no período de 1993-1997. Neste mesmo período foi presidenta da Associação de Escritores da Costa do Marfim.  Ela participa de diversas comunidades e redes de interlocução intelectual e acadêmica, entre os quais o Instituto Internacional de Filosofia, a Academia de Ciências, Artes e Culturas da África e da Diáspora – ASCAD, e o Grupo de Estudos e Investigações sobre as Mundializações.

Como filósofa e pesquisadora, seus interesses maiores dizem respeito aos direitos humanos; arte, cultura e diversidade cultural; às questões de gênero e da participação feminina na sociedade; as relações entre a ética e a política e o lugar da África no mundo contemporâneo.

É autora de obras de ficção em prosa e em poesia, como o romance Les nègres n’iront jamais au paradis (Os negros jamais irão ao paraíso) (2006). Nas obras de não-ficção, merecem destaque os livros (La diversité du monde: reflexion sur l’écriture et les questions e notre temps (A diversidade do mundo: reflexão sobre a escrita e as questões de nosso tempo) (2010), e o ensaio Que vivent les femmes d’Afrique? (Como vivem as mulheres na África?) (2008), que trata dos lugares sociais das mulheres, do feminismo e das estratégias de resistência em revoltas femininas. Para o público infanto-juvenil, escreveu, entre outros, Myriam Makeba: une voix pour la loberté (Miriam Makeba: uma voz pela liberdade) (2009).

BIBLIOGRAFIA

Tanella Boni. In: Archived: lire les femmes écrivains et les litteratures africaines, 2013: https://aflit.arts.uwa.edu.au/BoniTanella.html

Sylvia Tamale (1962)

Sylvia Rosila Tamale é destacada intelectual, acadêmica, feminista, e ativista dos direitos humanos ugandense, em particular dos direitos das mulheres e das minorias sexuais. Formada em direito pela Universidade de Makerere, obteve mestrado na Harvard Law School e doutorado em Sociologia e Estudos Feministas pela Universidade de Minnesota em 1997. Atuou como professora visitante na Universidade do Cabo, África do Sul, e na Universidade de Wisconsin. Foi a primeira reitora da Faculdade de Direito e Jurisprudência da Universidade de Makerere, de 2004 a 2008.

Em 2003 ela tomou parte de uma Comissão pela Igualdade de Oportunidades, e propôs que gays e lésbicas fossem incluídos(as) na definição de minorias. Por causa disso, foi objeto de uma campanha de difamação durante semanas pelos conservadores, que a elegeram a “Pior mulher do ano”. Em um dos jornais diários de Kampala, a New Vision, ela foi responsabilizada pela “degeneração moral da nação” e até pelo risco de os(as) adolescentes ugandenses irem para o inferno. 

Como membro do grupo de trabalho no Fórum Feminista Africano – AFF, participa da discussão de estratégias, abordagens e desenvolvimento de redes mais fortes para promover os direitos das mulheres na África. Ela é membro do Conselho Consultivo da Open Society Fondations, uma organização ativa em mais de 120 países que fornece subsídios a indivíduos e grupos para a construção de democracias inclusivas e dinâmicas.

Pioneira nos estudos de gênero e sexualidade em seu país, é autora, entre outras, das obras When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda (Quando as galinhas começam a cantar: gênero e política parlamentar em Uganda) (1999) e Homossexuality: perspectives from Uganda (Homossexualidade: perspectivas para Uganda) (2007).

BIBLIOGRAFIA

TAMALE, Sylvia. When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Boulder: Westview Press, 1999.

TAMALE, Sylvia. Homossexuality: perspectives from Uganda. Kampala: Sexual Minorities Uganda, 2007.

TAMALE, Sylvia. Gender trauma in Africa: nehancing women’s links to resources. Journal of African Law, v. 48, n. 1, p. 50-61, 2004.

TRIPP, Aili. “Sylvia Tamale”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 499-501.

Theme: Overlay by Kaira.