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Um pouco sobre o climatério e sua relação com o trabalho

Por Milton Humberto Schanes dos Santos – Médico clínico e geriatra da DPS

Modificação: perene em nossas vidas. O climatério representa este conceito por ser um período de transição no ciclo vital das mulheres. Envolve a passagem da fase reprodutiva para a não reprodutiva, englobando, portanto, a pré-menopausa, a menopausa e a pós-menopausa, ou seja, dos 40 aos 55 anos de idade, aproximadamente. É um processo natural e heterogêneo da vida relacionado à diminuição dos níveis dos hormônios femininos, o estrogênio e a progesterona (BOTELHO, 2022). Carrega erroneamente o estigma do envelhecimento patológico (senilidade).

Embora contenha um número significativo de anos de vida e possa ser acompanhado de vulnerabilidades e perdas, como a saída dos filhos de casa (síndrome do ninho vazio) ou mesmo de ideais de juventude e beleza “eternas”, cabe destacar que a maioria das ações e pesquisas em saúde, qualidade de vida e bem-estar não focam neste período da vida ou na sua relação com o trabalho, mas sim concentrando-se nas mulheres em fase reprodutiva ou nas idosas (SILVA, 2021). O desconhecimento ou não identificação das alterações fisiológicas, hormonais ou emocionais envolvidas nesse processo pode contribuir para gerar conflitos socioeconômicos e culturais em todos âmbitos da vida, inclusive no trabalho. Sintomas comuns na perimenopausa, como o cansaço, os distúrbios de sono, a falta de concentração e memória e o humor deprimido já tiveram descrição de associação com reuniões formais, trabalho com homens e colegas mais jovens, além de ambientes quentes ou mal ventilados (SILVA, 2021).

Uma das queixas mais comuns de procura de atendimentos de saúde por esta população são os sintomas vasomotores, conhecidos como calorões ou fogachos. Modificações relacionadas ao hipoestrogenismo, como a síndrome metabólica (caracterizada por obesidade, hipertensão arterial sistêmica, hipercolesterolemia e diabetes) e a osteoporose sobrevém, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, como o Acidente vascular cerebral (AVC) e o Infarto agudo do miocárdio (IAM), e de fraturas, respectivamente (BOTELHO, 2022; SILVA, 2021). Lembremos que a doença coronariana, aqui representada pelo IAM, é a principal causa de doença e morte nas mulheres acima dos 50 anos de idade em vários países, inclusive no Brasil (BOTELHO, 2022; SILVA, 2021).

Os fogachos e as repercussões relacionadas ao hipoestrogenismo descritas podem afetar negativamente a funcionalidade global, a produtividade e a assiduidade no trabalho em mulheres climatéricas, acarretando estresse físico e emocional, além de reforço a sentimentos de impotência, inutilidade, solidão e decrepitude. Acolhimento, enfoque na autopercepção de saúde destas mulheres, além de envolvimento de membros da família, especialmente os cônjuges, promovem saúde física e mental, contribuindo para a qualidade de vida e para a adaptação no trabalho nessa transição (SILVA, 2021).

A sexualidade é outro ponto que impacta na qualidade de vida destas mulheres. Muitas sentem-se menos atraentes pelo envelhecimento, ganho de peso ou alterações nas mamas (SILVA, 2021; BOTELHO, 2022). Doenças, síndrome do ninho vazio e incompreensão por parte da parceria impactam na autoestima e na forma como esse período passará para cada uma. Observa-se que mulheres que se sentiam confiantes e seguras com sua aparência, mesmo diante das modificações corporais já citadas, exibiam maior satisfação sexual e melhor qualidade de vida (SILVA, 2021).

O hipoestrogenismo pode causar diminuição da lubrificação vaginal com consequente período de excitação mais demorado e menos intenso causando dor nas relações sexuais, afetando a própria feminilidade. Foi verificada também uma associação significativa entre qualidade do sono e sexualidade nas mulheres climatéricas (SILVA, 2021). Sabe-se também que o tipo de companheiro(a) e a intimidade na relação conjugal com este(a), as relações de poder estabelecidas, a renda, a escolaridade e o papel cultural serão determinantes no modo como as mudanças se processam nesta fase do ciclo vital (SILVA, 2021).

O trabalho tem o papel social de contribuir para a autoestima e participação das mulheres, tornando-as valorizadas. No ambiente laboral, há acesso a diferentes indivíduos e realidades, possibilitando a troca de experiências e servindo como um espaço de escuta, mas, opostamente, também pode haver desigualdade de gênero e discriminação (SILVA, 2021). Estudos apontam que a qualidade de vida daquelas que trabalham fora de casa e/ou vivem em sociedades desenvolvidas é melhor do que as que se dedicam somente ao trabalho doméstico e/ou vivem em sociedades em desenvolvimento. Ter dois ambientes de trabalho, entretanto, mostrou-se prejudicial à produtividade, à saúde e ao bem estar femininos (SILVA, 2021).

O alto nível de estresse no ambiente de trabalho causado por contatos sociais é frequente, destacando a importância de cultivar relações saudáveis entre os colegas, especialmente para as mulheres nesta fase. Elas sentem prejuízo nas relações de confiança e podem apresentar um comportamento incomum, necessitando pequenas pausas para lidar com os sintomas físicos e mentais típicos do período (SILVA, 2021). Trabalho coletivo com a possibilidade de partilhar experiências e diminuir o sentimento frequente de que estão sozinhas, uso de dinâmicas de grupo e espaços para confraternização contribuem para a melhoria das relações entre os colegas, fomentando a confiança feminina e um ambiente laboral mais acolhedor, produtivo e equânime (SILVA, 2021).

Modificação: perene, sim, mas igualmente necessária nas pesquisas, na visão social, na assistência e promoção da saúde, igualdade de gênero, qualidade de vida e nos direitos humanos com relação às mulheres no climatério.

Bibliografia

Mulheres climatéricas no ambiente de trabalho: Revisão integrativa da literatura
Silva, GF; Lima, LT; Carvalho, RD; Santana, PPC; França, LCM
Research, Society and Development, v. 10, n. 8, e47310817514, 2021
DOI: http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v10i8.17514


Saúde da mulher no climatério, aspectos biológicos e psicológicos: uma revisão integrativa
Botelho, TA; Santos, GPO; Santos, TPP; Oliveira, RF; Monteiro, BIAS; Bastos, LP
Revista Eletrônica Acervo Saúde ISSN 2178-2091, v.15, n.4, 2022
DOI: https://doi.org/10.25248/REAS.e10088.2022

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