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Uso do álcool durante a gestação

Por: Francisca Maria de Freitas Marcelino e Ana Paula Dahlke

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado que não há nível seguro para o consumo de álcool em qualquer etapa da vida (WHO, 2018). Em 2024, o Ministério da Saúde, em nota técnica, reforça essa posição e estabelece a dose-padrão de 10 gramas como unidade de medida de álcool puro em uma porção de bebida alcoólica (Nota Técnica Conjunta Nº 263/2024-SVSA/SAPS/SAES/MS).

Em 40 anos, o consumo abusivo de bebida alcoólica pelo público feminino triplicou e praticamente dobrou nas últimas duas décadas, passando de 7,8%, em 2006, para 15,2%, em 2023 (VIGITEL, 2023 – Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, do Ministério da Saúde). Esse crescimento é o resultado de diversos fatores, dentre eles a sobrecarga de trabalho, responsabilidades financeiras, o trabalho doméstico, questões psicológicas, como traumas e abusos, que podem desencadear transtornos mentais.

Assim como para qualquer população, a mulher gestante deve evitar ao máximo o consumo de bebida alcoólica, pois NÃO HÁ QUANTIDADE SEGURA. Qualquer dose pode levar a alterações na saúde da mulher e no desenvolvimento fetal.

O álcool/acetaldeído (composto químico produzido durante a metabolização do álcool no nosso corpo) é absorvido pela mucosa gastrointestinal e respiratória, entrando na corrente sanguínea em 60 minutos e no líquido amniótico em 60 a 90 minutos, atingindo a circulação fetal.

O álcool pode afetar toda gestação e amamentação

Na gestação:

  •  – Maior risco de intercorrências perinatais
  • – Deslocamento de placenta
  • – Sangramentos
  • – Aborto espontâneo
  • – Parto prematuro

No desenvolvimento do feto:

  • O álcool atravessa a placenta e pode interferir no desenvolvimento
  • Pré-implantação (fertilização a 4 semanas): abortamento.
  • Período embrionário (até 8 semanas): alterações estruturais grosseiras.
  • Período fetal (9 a 40 semanas): alterações estruturais no sistema nervoso central, malformações cardíacas e renais e sinais neurocomportamentais.
Não há quantidade, tipo de bebida ou período gestacional seguro para o consumo de bebidas alcoólicas!

Outras complicações:

Desordens do Espectro Alcoólico Fetal – FASD (da sigla em inglês Fetal Alcohol Spectrum Disorder) é o conjunto de transtornos de desenvolvimento do feto devido ao consumo do álcool na gestação. A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) é o mais grave deles.

  1. Síndrome Alcoólica Fetal (SAF): caracteriza-se por anormalidades faciais, deficiências de crescimento (peso abaixo do percentil 10) e alterações do sistema nervoso central e neurodesenvolvimento.
  2. Síndrome Alcoólica Fetal Parcial: inclui algumas características faciais, distúrbios de crescimento e neurodesenvolvimento ou do comportamento cognitivo.
  3. Alterações do Neurodesenvolvimento Relacionadas ao Álcool: requerem exposição pré-natal ao álcool documentada.
  4. Defeitos Congênitos Relacionados ao Álcool: envolvem malformações cardíacas, esqueléticas, renais, oculares e auditivas, como defeitos do septo atrial e ventricular, sinostose radioulnar (uma conexão anormal ou fusão óssea entre o rádio e a ulna, os dois ossos do antebraço), escoliose, rins hipoplásicos, e perda auditiva.

Efeitos do consumo de álcool na amamentação

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que as lactantes não consumam álcool (referência). Isso porque o álcool:

  • Diminui a produção do leite
  • Aparece nos níveis sanguíneos da mãe de 30-60 min após o consumo
  • O cérebro do bebê é extremamente sensível ao álcool, mesmo em baixas quantidades
  • O álcool altera o sabor do leite, pode modificar o ritmo normal de sono do bebê, causando irritabilidade, além de influenciar no desenvolvimento geral e crescimento da criança

Do mesmo modo, a OMS recomenda que o álcool deve ser evitado durante o esse período e orienta que, caso se use, é necessário esperar ao menos 2 horas para voltar a amamentar.

Os períodos de gestação e lactação são momentos muito especiais na vida da mulher. Por isso são fases que requerem muita atenção. 

Cuide da sua saúde e da saúde do seu bebê!

Referências

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS DO BRASIL. Para o recém-chegado. [S. l.]: Alcoólicos Anônimos do Brasil, [s. d.]. Disponível em: https://www.aa.org.br/para-o-recem-chegado/. Acesso em: 16 jul. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/desmad/raps/caps. Acesso em: 16 jul. 2026.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. About alcohol use during pregnancy. Atlanta: CDC, 2 abr. 2026. Disponível em: https://www.cdc.gov/alcohol-pregnancy/about/index.html. Acesso em: 16 jul. 2026.

CISA – Centro de Informações sobre a Saúde. Os perigos do consumo de álcool na gravidez. Disponível em https://site.cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/435-os-perigos-do-consumo-de-alcool-na-gravidez. Acesso em 13 de julho de 2026.

CISA – Centro de Informações sobre a Saúde. Definição de dose padrão.

Disponível em: https://site.cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/48-definicao-de-dose-padrao. Acesso em 13 de julho de 2026.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Postagens: Principais Questões sobre Efeitos do Álcool na Gestante, Feto, Recém-nascido e Criança. Rio de Janeiro, 9 jan. 2025. Disponível em: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-recem-nascido/principais-questoes-sobre-efeitos-do-alcool-na-gestante-feto-recem-nascido-e-crianca/. Acesso em 13 de julho de 2026.

Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023 – Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigitel/vigitel-brasil-2023-vigilancia-de-fatores-de-risco-e-protecao-para-doencas-cronicas-por-inquerito-telefonico/view. Acesso em 14 de julho de 2026.

Senado Federal. Mulheres e álcool: aumento do consumo acende alerta no Brasil. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2025/10/mulheres-e-alcool-aumento-do-consumo-acende-alerta-no-brasil. Acesso em 13 de julho de 2026.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Efeitos do álcool na gestante, no feto e no recém-nascido. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/EFEITOS_DO_ALCOOL_NA_GESTANTE_NO_FETO_E_NO_RECEM-NASCIDO__Conceicao_Segre_-convertido.pdf. Acesso em 14 de julho de 2026. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on alcohol and health 2018. Geneva: WHO, 2018. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/274603. Aces

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