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Mais do mesmo: narguilé, a nova onda (ou fumaça?) do tabagismo

Milton Humberto Schanes dos Santos – médico clínico da DPS

A política pública brasileira de controle do tabagismo é reconhecida mundialmente como um modelo. A  legislação da proibição de fumar em recintos coletivos, controle de preços e aumento dos impostos dos produtos derivados de tabaco, além do fortalecimento do Programa Saúde na Escola (PSE), são exemplos de suas ações. Sendo assim, novos produtos para consumo do tabaco ganharam popularidade no Brasil: os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), também conhecidos como cigarros eletrônicos, e o narguilé.

Neste texto, focaremos no narguilé, uma vez que os cigarros eletrônicos já foram abordados em artigo do Jornal da Universidade UFRGS de 25 de agosto de 2022 por Ross e Knorst (edição 115).

Também conhecido como arghile, sisha, hookah, waterpipe, cachimbo d’água ou gouza, o narguilé existe há mais de 5 séculos e foi criado mesmo antes do surgimento e expansão do uso do tabaco no século XVII. Era usado para fumar flores, frutas, café, marijuana e haxixe. Se difundiu no mundo e no Brasil, especialmente entre os adolescentes e adultos jovens até 29 anos de idade, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013 e a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PENSE) de 2015 (INCA, 2019).

O hábito de fumar tabaco com o narguilé é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde um problema de saúde pública grave, uma vez que o filtro de água usado no aparelho sugere aos usuários que a fumaça gerada e inalada seja menos prejudicial que a do cigarro tradicional: uma ideia totalmente equivocada (INCA, 2019). A água tem a função de arrefecer e resfriar a fumaça, facilitando a inalação. Dessa forma, o vapor penetra mais facilmente nos pulmões, carregando não só altos níveis de nicotina, mas também outros componentes tóxicos, como metais pesados e substâncias cancerígenas provenientes do carvão usado na queima do tabaco.

Outro risco relacionado com este hábito, e por vezes negligenciado, é a predisposição a contrair doenças infectocontagiosas, como tuberculose, hepatites virais e infecções por herpes, visto que há o compartilhamento do mesmo aparelho e, portanto, do mesmo bocal em uma sessão que pode durar de 25 a 80 minutos, em média, 45. Essa aparentemente inofensiva sessão equivale a fumar 100 cigarros tradicionais (INCA, 2019).

A experiência sensorial proporcionada com diferentes aromas, gostos, cores, visão da fumaça e o ouvir da água borbulhando convidam ao uso, parecem inócuas e também trazem a sensação de relaxamento, pertencimento e aumento da sociabilidade, algo bastante desejável entre os adolescentes e adultos jovens (INCA, 2019).

Reformular estratégias de educação em saúde direcionada ao público jovem, enfatizar esta temática em Escolas e Universidade, rever a legislação relativa ao narguilé, às instruções de consumo e às “vantagens” difundidas na internet, realçar ações fiscalizatórias da comercialização deste aparelho são úteis na proteção à saúde desta nova onda, a qual representa muito mais do mesmo. Lobo em pele de cordeiro, como o dito popular.

Fonte: Ministério da Saúde – Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), 2019 Narguilé: o que sabemos? Rio de Janeiro, INCA: 2019. 100 p. https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/narguile-o-que-sabemos.pdf

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