Por Carolina Meira Moser, médica psiquiatra da DPS
Os Transtornos Alimentares (TAs) são distúrbios do comportamento alimentar que impactam a saúde física e mental, bem como a funcionalidade da pessoa acometida. No entanto, o estigma em torno desses quadros dificultou os esforços para o avanço do conhecimento científico do campo por décadas, perpetuando equívocos sobre suas causas, reforçando mitos e, sobretudo, representando um importante obstáculo à busca por ajuda.
Diante desse contexto, a Academy for Eating Disorders (AED), com apoio de várias organizações internacionais, emitiram um documento intitulado “Nove verdades sobre transtornos alimentares”1,2 em maio de 2015, tendo como objetivo principal promover uma compreensão mais precisa do estado atual do conhecimento científico sobre os TAs para pacientes, familiares, profissionais de saúde e público geral. Entre as verdades apontadas, o documento esclarece que os TAs podem atingir pessoas de todos os gêneros, etnias e classes sociais, e com as mais diversas formas, pesos e tamanhos corporais. De fato, os TAs não afetam apenas meninas com baixo peso. Pessoas cujo peso é classificado como normal também podem ter um TA. Nesse sentido, cabe destacar que muitos indivíduos com TA podem parecer saudáveis, embora estejam extremamente doentes.
De acordo com a 5a edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais e Comportamentais (DSM-V), as principais categorias diagnósticas são a Anorexia Nervosa (AN), a Bulimia Nervosa (BN) e o Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA). No cerne da psicopatologia desses quadros estão dificuldades na relação com comida, alimentação e imagem corporal, que existem em graus variados nos diferentes diagnósticos. Uma questão relevante do ponto de vista clínico é que os sintomas nucleares (p.ex., supervalorização da forma e/ou peso corporal na autoavaliação, prática de dietas restritivas, compulsões alimentares e comportamentos compensatórios inadequados para o controle de peso) são comuns aos principais transtornos e podem oscilar ao longo do tempo. De um modo geral, os TAs são doenças com elevada morbimortalidade, alta suicidalidade e riscos de complicações clínicas graves (cardiovasculares, gastrointestinais, neurológicas, entre outras) que podem não ser reconhecidas, até mesmo por médicos experientes. Além disso, as comorbidades psiquiátricas são extremamente comuns, com destaque para os transtornos de humor, transtornos de ansiedade e transtornos por uso de substâncias. Diante do exposto, e tendo em vista o fato de que apenas uma minoria de indivíduos com TA recebe tratamento3, medidas como a divulgação do documento produzido pela AED2 (já traduzido em diversos idiomas) precisam ser adotadas no sentido de disseminar a compreensão mais ampla desses transtornos e aumentar a capacidade de detecção de quadros suspeitos.
Referências
- Schaumberg K, Welch E, Breithaupt L, et al. The Science Behind the Academy for Eating Disorders’ Nine Truths About Eating Disorders. Eur Eat Disord Rev. 2017;25(6):432-450.
- Disponível em: http://www.aedweb.org/index.php/25-press-releases/163-press-release-aed-releases-nine-truths-about-eating-disorders?quot
- Twomey CD, Baldwin DS, Hopfe M, Cieza A. A systematic review of the predictors of health service utilisation by adults with mental disorders in the UK. BMJ Open. 2015;5(7):e007575.
