Por José Menna Oliveira, Médico Psiquiatra da DPS
Estima-se que fatores de risco ligados à alimentação estão associados a pelo menos um décimo dos problemas de saúde em geral (Lim et al., 2012). Quando se observam especificamente transtornos mentais, há evidência de que uma dieta saudável pode reduzir o risco de desenvolvimento de quadros de ansiedade e depressão (Jacka et al., 2017), sendo inclusive um fator de proteção contra quadros depressivos (Lai et al., 2013; O’Neil et al., 2014; Jacka et al., 2012).
Existem várias possíveis explicações para isso: por exemplo, a ingestão adequada de nutrientes, como ácidos graxos ômega-3, vitaminas do complexo B e antioxidantes, desempenha um papel fundamental na regulação dos processos neuroquímicos associados à saúde mental (Firth et al., 2019).
Por outro lado, foi demonstrado que dietas com grandes quantidades de gorduras saturadas, carboidratos refinados, bem como alimentos altamente processados – estão associadas a problemas de saúde mental em crianças e adolescentes (O’Neil et al., 2014).
Embora a conexão entre alimentação e saúde mental seja cada vez mais reconhecida, a implementação de escolhas alimentares saudáveis no ambiente de trabalho pode ser desafiadora devido a uma série de fatores. A disponibilidade limitada de opções saudáveis nos refeitórios, a falta de conscientização sobre os benefícios da nutrição adequada e as pressões de tempo podem dificultar a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis por parte dos trabalhadores (Lowe et al., 2017; Morrison et al., 2021).
Programas de educação nutricional podem desempenhar um papel crucial na conscientização dos funcionários sobre a importância da alimentação equilibrada para a saúde mental. Workshops, palestras e materiais educativos podem fornecer informações sobre os benefícios de nutrientes específicos para o funcionamento cognitivo e emocional, incentivando assim a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis no ambiente de trabalho (Ribeiro et al., 2019).
Por outro lado, além das refeições principais, a promoção de lanches saudáveis pode também ser uma estratégia eficaz para melhorar a alimentação no ambiente laboral. A disponibilidade de frutas frescas, nozes e opções de lanches ricos em fibras pode reduzir a tendência de consumir alimentos processados e açucarados durante os intervalos, contribuindo assim para a saúde mental dos trabalhadores (Strully et al., 2016).
Finalmente, há um ponto que destacamos: interpretações da “Carta a Meneceu Sobre a Felicidade”, do filósofo grego Epicuro (Sousa, 2022), afirmam que o pensador valorizava antes a companhia que um sujeito escolhe para uma refeição, e as condições associadas à refeição – do que a refeição em si. Partindo dessa ideia, sugerimos que uma alimentação em frente às telas, como tão frequentemente se vê em ambientes de trabalho, denuncia uma escolha de companhia especialmente equivocada – quando pensamos em alimentação e saúde no trabalho.
REFERÊNCIAS:
Jacka FN, Mykletun A, Berk M. Moving towards a population health approach to the primary prevention of common mental disorders. BMC Med. 2012, 10:149.
Jacka FN, O’Neil A, Opie R et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the ‘SMILES’ trial). BMC Medicine 2017, 15(1): 23.
Lai JS, Hiles S, Bisquera A, Hure AJ, McEvoy M, Attia J. A systematic review and meta-analysis of dietary patterns and depression in community-dwelling adults. Am J Clin Nutr. 2013, 99(1): 181–97.
Lim SS et al. A comparative risk assessment of burden of disease and injury attributable to 67 risk factors and risk factor clusters in 21 regions, 1990–2010: a systematic analysis for the global burden of disease study 2010. Lancet 2012, 380: 2224-2260.
Lowe R et al. Barriers and facilitators to healthy eating for nurses in the workplace: an integrative review. Journal of Advanced Nursing 2017, 73(5): 1051-1065.
Morrison L et al. Promoting healthy eating in the workplace: A systematic review and meta-analysis of intervention effectiveness. Health Psychology Review 2021, 1-26.
O’Neil A, Quirk SE, Housden S, Brennan SL, Williams LJ, Pasco JA, et al. Relationship between diet and mental health in children and adolescents: a systematic review. Am J Public Health 2014, 104(10): e31–42.
Ribeiro IC et al. Impact of nutrition education on the health habits of administrative employees. Nutrition & Food Science 2019, 49(4): 655-667.
Strully KW et al. Mobile food vendors in urban neighborhoods: implications for diet and diet-related health by weather and season. Health & Place 2016, 40: 141-148. Sousa JB. Carta a Meneceu sobre a felicidade. UFPB/CCHLA: João Pessoa, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/24148/1/TCC_ParaDeposito.pdf
