A produção musical nos canais do YouTube (4/5)

Tanto Abby Simmons como Pomplamoose registram seus vídeos em casa, na sala, na cozinha, no quarto, mostrando, após as canções, o “backstage” de seus vídeos: a vida cotidiana, o que dá uma característica intimista, um efeito reality show. Em paralelo, a ideia de que blogs são como diários íntimos é muito forte. Mesmo hoje, após o crescimento exponencial dos blogs jornalísticos, literários e outros, é comum a exposição íntima por muitos usuários. E nos vídeo blogs musicais não é diferente, como podemos ver. Mesmo os músicos que estariam preocupados mais em divulgar seu trabalho sucumbem à tentação de exibir um pouco de sua “vida real”.

Essa atitude de não sair do quarto faz lembrar Kilpp (2006, p. 10) quando fala da televisão. Para a autora, na maior parte do tempo, ao invés de a TV espelhar a sociedade, ela tem um espelho voltado para si, como acontece em programas como Video Show, TV Fama, Studio Pampa e Big Brother Brasil. A TV imagina a TV. É o que acontece também com os vídeo blogs e seus produtores: estão todos criando um universo à parte do mundo dito “real”, “offline”, como num sonho adolescente, fabricado por adultos que não querem envelhecer: “meu quarto, minhas regras”. Fugindo um pouco da música, não dá pra não mencionar os vloggers brasileiros de sucesso, como Ronald Rios e P. C. Siqueira: ambos num primeiro momento parecem falar com o internauta, mas ao ultrapassarmos a opacidade do teor conteudístico3, vemos que não passa de uma construção de imaginários. “É isso que, com a TV, estamos a perceber: que a nossa é uma época de espelhos virados” (KILPP, 2006, p. 10). Adicionemos aí os vídeo blogs.

Quando Julia Nunes (outro exemplo de sucesso, que faz seus vídeos usando o mínimo de software e apenas sua voz, um ukulele e alguns truques de montagem) faz vozes de fundo ao gravar uma versão de God Only Knows dos Beach Boys4, é interessante notar que na maior parte do tempo ela olha para a webcam (abaixo, à esquerda), mas às vezes desvia rapidamente o olhar para baixo (à direita).

 


 

Ela está olhando a sua própria imagem capturada, que aparece espelhada no monitor de seu notebook durante a gravação, cacoete que se repete durante a performance de muitos outros vloggers. Eis os espelhos virados da TV aparecendo em um novo formato. Se em reality shows como o Big Brother, em que as câmeras ficam escondidas por detrás de espelhos vazados, como os de inquérito policial, nos vídeo blogs eles são espelhos digitais, que permitem que o autor do vídeo seja diretor de si mesmo. Ele pode fazer tudo sozinho.

Isso exerce uma influência enorme nos modos de produção dos músicos. Repare que tanto Lasse Gjersten em Amateur, quanto nos VideoSongs da Pomplamoose, e nos vídeos de Julia Nunes, Tay Zonday e Abby Simmons, não estamos mais tratando de videoclipes no sentido tradicional do termo, porque as imagens que nos são mostradas foram tomadas exatamente no momento em que foram gravados os áudios. Não há playback. É um híbrido, uma performance “gravada ao vivo”. Todos eles não estão apenas se preocupando com a afinação, mas com o enquadramento também (o que deixa o vídeo ainda mais intimista).

Entendendo que os vloggers colocam “um espelho voltado para si diante da lente da câmera”, não é de se estranhar que, mesmo com todo o sucesso que os músicos de vídeo blogs conseguem, acabam estabelecendo parcerias justamente com outros vloggers, como se esse espelho fechasse as janelas para “o mundo lá fora”. A Pomplamoose praticamente atravessou os Estados Unidos de carro para encontrar Julia Nunes para gravarem canções juntos. É como aquela máxima “blogueiro cita blogueiro” (MALINI, 2008): eles não precisam da indústria fonográfica nem de outras mídias para se divulgar. Basta um linkar o outro. Isso demonstra a força do YouTube como rede social: pessoas com ideais comuns acabam se aproximando e se conhecendo, estabelecendo parcerias criativas.

Referências Bibliográficas

KILPP, Suzana. Panoramas especulares. In: UNIrevista, São Leopoldo, Vol. 1, n° 3, julho 2006.

MALINI, Fábio. Por uma Genealogia da Blogosfera: considerações históricas (1997 a 2001). In: XIII CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUDESTE, 2008, São Paulo, Anais, 2008, São Paulo: 2008.

Malditos hipsters ruralistas: a microfonação em "Oração".

Mal faz uma semana da publicação do vídeo Oração d’A Banda Mais Bonita Da Cidade e lá se vão duas milhões de exibições.

Mas Oração, a canção, pouco ou nada tem de chocante ou de inovador a ponto de mobilizar tantas exibições. A diferença estaria, portanto, no que foi feito no vídeo. E é preciso ressaltar que com vídeo falo do visual e do sonoro.

Oração, o vídeo, representa a canção com uma execução ao vivo. É um misto de gravação, porque pode ser que eles tenham errado várias vezes até obter uma tomada boa, e de ao vivo, porque ao contrário do estúdio em que cada músico grava seu instrumento em momentos diferentes e em separado, aqui todo mundo gravou o seu ao mesmo tempo. Um cantor, que é o personagem principal, com um microfone omnidirecional (que capta em 360º) portátil na mão, carrega-o e canta diante dele enquanto circula por uma casa. Em cada quarto que passa, outros músicos vão sendo exibidos, e a maioria conta com um microfone diante de si. Os microfones são dos mais variados tipos: tem daqueles compridos e finos para captar os timbres mais agudos no ambiente (1:43), tem montados especificamente para gravar voz de perto (2:10), com tela para abafar os “p” (e cuspes, porque não?), microfones direcionais para captar uma bateria (3:02) e adiante.

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Cada microfone está conectado com um disco rígido, cartão de memória ou notebook. Depois de capturarem todos os áudios (durante a gravação do vídeo), o produtor de som sincronizou todas elas em um software de edição de áudio e interferiu nas trilhas.

Entre 3:23 e 3:32, podemos notar que o personagem principal canta diante de um desses microfones. Durante um giro da câmera, ouvimos sua voz repentinamente aumentar de volume, como se a câmera estivesse a capturando. No entanto, o microfone que está diante dele manteve o volume estável. É muito provável que na mesa de edição aumentaram propositadamente sua voz para “parecer mais natural”.

Em vários momentos temos processos dessa ordem. Se no momento da captura todos os microfones estavam abertos, a mixagem tratou de cortar ou diminuir o volume daqueles que não estavam aparecendo em cena. Portanto, o produtor de áudio respeitou a movimentação e o emolduramento da câmera.

Num videoclipe tradicional, os sons provém de estúdios, enquanto que o personagem se dubla. O que está na trilha sonora seria, materialmente falando, a mesma coisa que tem no CD que a indústria fonográfica está vendendo. Nesses, os microfones aparecem inultilmente, apenas como objeto de cena (já que o áudio foi registrado antes). Por isso Oração se mostra bem inovador nos usos dos microfones. Eles saem do estúdios e vão parar na mise em scène, não só como objetos mas como sujeitos, como protagonistas. Eles são os nossos ouvidos no clipe, e se o assistirmos com headfones ou boas caixas de som, poderemos ouvir melhor os sons ficando mais perto ou mais distantes de nós na mesma medida que os músicos se aproximam ou distanciam deles.

Creio que assim fica claro que esse vídeo rompe com algumas lógicas habituais da indústria fonográfica, porque ela não divulga uma música preconcebida e que consta em um CD à venda. Pelo menos, não a mesma música.

Além do mais, a inserção dos microfones em cena traz a ideia de making of, de reality show porque os equipamentos de captura, que por décadas o cinema sempre tentou esconder para deixar a cena realista, hoje tendem a aparecer justamente para dar a mesma sensação procurada nos anos dourados: realismo. No entanto, nos deixam cada vez mais distantes do real, porque fica cada vez mais complicado explicar os modos como essas imagens e sons foram compostos.

É por isso que esse vídeo deveria chamar atenção, mas infelizmente o que atrai os críticos é a repetição incessante do verso, que também faz as vezes de refrão. Mas é muito fácil falar que repete só porque é sempre a mesma melodia e letra. No entanto, a música vai diferindo de si o tempo todo harmonicamente e com diferentes camadas instrumentais, o que só potencializa a repetição daqueles dois elementos. Além disso, a câmera meio que mostra cada verso (ou refrão?) em cada cômodo da casa, contando com instrumentos diferentes. Ou seja: o diretor Vinícius Nisi respeitou visualmente a estrutura sonora de Oração.

Infelizmente também a postura pseudo hipster ruralista malabar indie demodê da banda também acaba obscurecendo tantos procedimentos técnicos interessantes, mas dessa vez não tenho argumentos para contrariar os críticos.