tocando música e fazendo arte no meio do rolê

Make Fabico Weird Again #1

por Gabriel Ortega

“Acho que o Bruninho pode ser definido quase como um vereadorzinho. Ele cumprimenta todo mundo e diz o nome da pessoa, pergunta como tá, o que tá fazendo e ainda sobre a família dela. Não sei se eu já conheci outra pessoa assim, tão carismática, sei lá… Teve até uma vez que eu tava malzão voltando da aula, encontrei ele e parecia que meu dia tinha melhorado depois disso (risos) ”

relato de alguém que tava nesse rolê

Sou amigo do Bruno desde os quatorze anos. Não me lembro qual foi o momento em que a nossa amizade se consolidou, mas sempre me pareceu muito forte, mesmo com a distância e o silêncio. Nosso contato é basicamente o Instagram: vemos o que cada um tá fazendo da vida e foi assim que eu descobri que ele tinha feito um curso de DJ de um coletivo, que ele tava trabalhando como DJ em festas de diretórios acadêmicos da UFRGS, em festas grandes de Porto Alegre, como a TTT e a Turmalina, e em rolês na cidade baixa com pessoas conhecendo ele a partir do trabalho dele e de seu vulgo: DJ Bruninho Mec. É sempre muito engraçado se deparar com alguma divulgação de festa e ver ele lá – alguém que eu conheço desde adolescente, que já me deu vários conselhos amorosos.

Pedi pra acompanhar um set dele e fazer uma entrevista. Seria a primeira vez, desde a pandemia, que a gente ia conseguir parar pra conversar, mas seria pra um trabalho da faculdade. Conseguimos marcar pra ser na última festa do ano do coletivo youngnewrichs, a ynr boil.

Eu não conhecia o endereço, mas o post dizia que era na José do Patrocínio, 824.  É quase colado no Opinião, mas é um lugar bem escondido e isolado entre os bares e a casa de show; quase não tem nada que te chama atenção e te convida pra entrar. No “W Haus Pub”, a entrada é toda de madeira, tem um piano vertical do lado de uma mesa de drinks/bar com uma parede de fundo cheia de vodkas e whiskys caros, algumas mesas bem simples e um outro espaço que fica mais perto da rua, com uma janela imensa.

Quando cheguei tava tendo uma celebração de fim de ano de uma empresa e um amigo secreto. Não quero que pareça que eu tô julgando essas pessoas, mas elas não pareciam o tipo de público de uma festa boiler, que ia tocar músicas de rap, funk e drill. Essas festas são em lugares fechados, com um dj no meio e a maior quantidade de gente possível se curtindo e suando. O lugar também não parecia com os outros ambientes de boiler que eu vi na internet, mas não ajudava que as pessoas na festa da firma estavam cantando as mais conhecidas do sertanejo, todo mundo extremamente bem-vestido e com drinks coloridos. 

Meu trabalho de apuração poderia ter sido meio fraco: talvez, aquela confraternização do fim de ano de alguma empresa tinha alguma ligação com a ynr boil. A minha ideia de um público médio desse tipo de festa era de jovens fritos vestindo roupas que misturavam algo dos anos noventa com o conceitos de y2k, mas, talvez, eu só não soubesse que o público do sertanejo também estava engajado com as boiler rooms[1].

 

Eu me senti meio intruso naquela festa de firma. As pessoas estavam num momento muito vulnerável de felicidade, compartilhando as memórias do ano enquanto bebiam e eu tentava achar um lugar para esperar sem chamar atenção. Acabei esperando na sala que tinha a janelona pra José do Patrocínio e agi como uma criança que foi em uma festa dos pais porque eles não conseguiram alguém pra cuidar dela: sentei na poltrona mais afastada e fiquei mexendo no meu celular. 

Começaram a juntar em uma foto em grupo. A sala que eu estava era muito esteticamente agradável e espaçosa. tentei sair de lá pra que o rolê fosse eternizado ali, um lugar mais arrumado que a parte que eles ocupavam, que as mesas com os copos meio vazios de bebidas extremamente doces para mascarar o álcool e as embalagens dos presentes todas amassadas, enrugadas e espalhadas pelo chão, estragando a ambiência do lugar e a foto (sem contar o perigo dos que estavam mais bêbados, que eles poderiam derrubar alguma coisa ao tentar posar pra foto). Eu consegui sair da sala bonita, mas ninguém deu bola. Comprei uma coca-cola no bar e voltei pra lá.

   

Eu já tinha conferido umas mil vezes se eu tava no endereço certo. mesmo que eu soubesse que o post do evento dizia que ia ser na José do Patrocínio, número 824, eu considerei que eu só não sabia que eles tinham mudado de lugar. Já tava quase saindo e mandando mensagem pro Bruno dizendo que eu tive alguma emergência e que não ia colar no rolê.

Felizmente, eu parei na janela e vi um carro prata parado. Dele, tava saindo o Bruno. ele tava bem estiloso, tinha um pente no cabelo, tava usando um jorts preto (uma bermuda mais larga que passa do joelho que voltou a ser moda e eu nunca consegui usar uma sem parecer que não superei a morte do Chorão), uma camisa branca, gravata preta e um casaco meio bege. Não me lembrava de alguma vez que eu me senti tão aliviado de ver ele.

 

Sobre trabalhar, beber e ir na CB

 

Gabriel:  Como tu vê essa função de estar trabalhando no meio de um rolê?

DJ Bruninho Mec: No início, era uma brisa para mim, porque eu me permitia demais, tá ligado? Eu tocava num bar e, na hora do acordo, eu falei que fazia só por umas caipirinhas, mas o dono me falou que tinha que ter um preço. 

Falei meu preço que eu achava que era um valor justo pra quem tava começando, mas eu não tinha noção nenhuma. Pedi trezentos pila pra ele, ele riu e disse “Bah, não! Nem os DJs que já tocam aqui cobram isso”. 

Daí eu fiquei todo com medo. “Não, não, não… diz aí o preço de vocês e tals”. Acabou que ficou por 50 pila e bebida liberada, mas eu tava vivendo o sonho. Tava tocando música, fazendo arte e ainda tava num rolê que eu gosto, com pessoas que eu gosto… não tinha como eu não me permitir.

Às vezes, eu tava tocando e me ligava que eu tava muito louco, que tinha que dar uma segurada e beber uma aguinha, um refrizinho… Daí eu comecei a pensar que eu ainda posso curtir o rolê, mas eu tenho que ter responsabilidade porque eu ainda tô trabalhando. Comecei a beber menos. Comecei a chegar menos no brilho, sem ir muito pilhado. 

Eu conseguia chegar sem esse brilho e era tão gostoso quanto, porque daí eu pensava que eu ia fazer a minha mágica lá. Não é como se eu não fizesse assim antes, mas é que atrapalha. Se tu for trabalhar chapado no banco, se tu for dar uma aula bêbado, isso vai te atrapalhar.

DJ Bruninho Mec fazendo seu set no W Haus Pub, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 

Gabriel: Mas tu acaba comparando o que tu faz com esses trabalhos?

DJ Brunin Mec: Não, definitivamente não. Lá no Nando[1] eram seis horas tocando. Acabava que era bem maçante e não era totalmente ruim, eu só precisava ter o controle de saber quando eu podia me permitir. No final, eu não ia mais precisar ficar focando tanto porque, mesmo sendo um trampo num rolê, eu tô criando uma vibe, um clima. Eu tenho um propósito ali. Não tô só colocando músicas. Eu tô fazendo uma construção de uma sonoridade que eu quero que as pessoas ouçam.

Tipo, se eu colocar uma música muito misógina e escrota, algumas pessoas vão ficar desconfortáveis, mas se eu botar alguma coisa que o pessoal gosta de ouvir, vai criar um clima. Quando eu não chego muito pilhado, eu consigo construir isso de uma forma melhor. Consigo pensar além do clima e trabalhar com uma intenção maior com algo que eu quero fazer.

Às vezes, era tudo muito automático, e, quando eu tô mais sóbrio, eu consigo pensar melhor no filtro que eu quero colocar, no loop que eu vou fazer… É muito mais mágico!

Mas, eu também gosto de chegar meio alteradinho. Quando eu vou tocar no meio do rolê, eu gosto de acompanhar o set dos outros, ir lá e tomar uma cevinha, porque isso me faz entrar no clima. Eu tava falando ontem com um DJ, sobre como é foda entrar pra tocar, pegar a essência do último DJ (a vibe que ele tava construindo, o tipo de música), continuar o que ele tava fazendo e puxar pro que eu quero fazer. Quando eu tô curtindo, no rolê, isso fica muito mais fácil porque eu tô ali com a vibe do cara.

Gabriel: Parece que tu tem um “processo analítico” dos outros DJs, de ver o que eles tão cozinhando lá. Mas isso é algo de agora que tu é DJ ou já era algo que tu prestava atenção quando tu só fazia parte do público?

DJ Bruninho Mec: Antes eu tava só no rolê, mas eu acho que eu sempre analisei porque eu sempre gostei de o que é ser DJ. Quando começaram a aparecer DJs com mais personalidades, que faziam coisas mais diferentes, me brilhava muito.

A primeira vez que eu fui num set que mexeu muito comigo foi numa turmalina, na rua. As músicas que eu me identifiquei foi do deekaps, uma dupla de pessoas negras que fazem um som muito foda. Quando eu vi eles, eu entendi que é isso que eu quero ouvir mais, mas nem pensava em fazer ainda. Comecei a ir nos rolês e ver se faziam algo parecido com eles e querendo entender pra onde que o DJ ia me levar, tá ligado?


Pra mim, DJ é isso: é entrar numa conexão com a pista, falar assim “quero que vocês ouçam isso”, ver como eles respondem a isso… Podem ficar mais paradinhos, mas tão gostando? Porque tem as músicas ambientes, pra te fazer dançar…

Gabriel: Como se o set não precisasse estar no alto o tempo todo…

DJ Bruninho Mec: Definitivamente não, mas isso é algo que eu aprendi mais ainda com o mu540, porque, às vezes, ele tá num bom muito alto, com muitos estímulos e, às vezes, ele vai entrando numa vibe mais de boa, só pra mudar a dinâmica. 

Acho que não precisa ter a continuidade de algo lá em cima o tempo todo… às vezes, faz sentido ficar o tempo todo assim, mas não é uma regra.  Tem muito disso em ser DJj: não se apegar a regras. Quando tu faz o teu set bem, é muito mais mágico do que tu ficar pensando se tu tem que começar devagarinho, chegar num ápice. Eu acho muito mais legal tu começar devagarzinho e, do nada, já descaralhar…

Gabriel: Tipo, brincar com uma “estrutura”?

DJ Bruninho Mec: Literal! Brincar com a estrutura. Eu falo pro pessoal ao meu redor que a minha vida é sobre brincar, sobre experimentar com as coisas. Não me prender a certos julgamentos, mas me autocriticando e querendo evoluir, sei lá…

…

O set do Bruninho era o último da noite e ele tinha me avisado que, provavelmente, ia começar perto das duas da manhã e que, mesmo com o set montado, não sabia quanto tempo ia durar, mas que tudo ia acabar perto das quatro. A festa teve alguns problemas de organização, desde DJ cancelando em cima da hora até uma chuva que, de acordo com uma das pessoas que tava organizando o evento, “despilhou a gurizada a vir”.

As pessoas foram chegando pro rolê e eu conhecia algumas. Uma, em específico, parecia que tinha visto um fantasma, quando me viu. Me perguntou o que eu tava fazendo lá e, quando eu respondi que tava entrevistando o Bruninho pra um trabalho da faculdade, foi engraçado que a resposta imediata foi um “faz sentido…”, como se não fosse natural que o motivo de eu estar numa boiler fosse pra fazer algo relacionado a faculdade. “Mas que bom te ver aqui! Não sabia que tu conhecia o Bruninho”.

O plano era o seguinte: entrevistar o Bruno e acompanhar um set dele. Eu tava preparado pra que a conversa não fosse muito organizada, que tivesse interrupções de amigues dele, que o barulho poderia atrapalhar alguma coisa, mas que, por conta dessas intervenções, eu teria algum tipo de informação a mais. Eu sei que o Bruno é muito querido e que teríamos que parar pra ele falar com o pessoal que tava chegando, também.

Acabou que sentamos nós dois e outros dois DJs que tavam lá.

Sobre o set, mesa controladora e material digital

Gabriel: Como tu se relaciona com os teus materiais físicos e digitais na hora de tocar? Tu vê eles como um instrumento? Como uma extensão de ti, sei lá se isso faz sentido…

DJ Bruninho Mec: Quando eu falei sobre brincar com as estruturas, é exatamente isso: olhar pra minha controladora e… é tipo desenhar, quando tu olha pra uma folha em branco e pensa nas inúmeras possibilidades que pode botar ali. 

Quando eu olho pra mesa, é tipo isso. Eu vejo a música rodando e penso o que eu posso fazer. A minha (mesa controladora) é mesmo um brinquedo comparado com outras muito maiores, que tem muito mais coisas que pode fazer. 


Daí eu vejo e tento pensar no que eu, com a minha vivência, com a forma que eu gosto de tocar – porque todo DJ vai usar ele de formas diferentes -, com tudo que eu acho que seria daora de botar lá, de efeitos e tals… O que que eu posso fazer com tudo isso, tá ligado? Isso tudo vendo a folha em branco, ainda. Acho que é assim que eu vejo a minha mesa.

Gabriel: Antes da gente conversar, eu vi que tu tava falando com alguém sobre a forma que tu guarda as músicas e que tinha algum problema com a tua forma… Qual que é esse teto?

DJ Bruninho Mec: Isso tá sendo um problema agora porque eu me liguei que eu tenho muitas pastas…

Martins[3]: E tu não organiza aquela porra! Posso falar na entrevista, né? Ele não organiza as músicas dele. É um caos. As pastas dele não fazem sentido.

DJ Bruninho Mec: Pô, elas fazem sentido pra mim…

Lara[4]: Vou fazer um contraponto! Acho que, às vezes, se tu tenta entrar na mente do Bruninho Mec, tu não entende porque ele divide as pastas daquele jeito. Se tu tocar com o pendrive dele, tu tem que fazer um esforço.

Gabriel: Tá, então existe o teu pendrive?

DJ Bruninho Mec: Não, mas eu tenho um HD externo… Mas eu vou comprar um pendrive daqui a pouco.

Martins: Tem que comprar o pendrive, viado, mó barato o negócio.

DJ Bruninho Mec: Sim, eu tenho que comprar o negócio urgentemente. O cara tem que lembrar que ele tem que investir nele, tá ligado?

Gabriel: Como funciona esse aprimoramento pra um DJ?

DJ Bruninho Mec: Comprar um fone, um Pendrive, uma controladora… Acho que uma coisa que um DJ sempre almeja é evoluir o seu equipamento. O fone com a melhor acústica, a controladora mais foda e que faça mais sentido pra ele. 

Tem umas mesas que são umas máquinas, tá ligado? Que tu pode levar só elas e o Pendrive. Elas são mega gigantes e tem um computadorzinho dentro… 

Ahhhh agora sim chegou a gurizada boa…

(além do pessoal que tava sentado com a gente numa área aberta que servia como fumódromo, as pessoas iam direto pra lá pra encontrar o Bruninho Mec)

Gabriel: Como que funciona o teu relacionamento com as músicas que tu vai colocar, que tu queria colocar, mas acha que não funciona,…

DJ Bruninho Mec: Acho que é algo que tá junto com aquela pergunta se eu comecei a analisar os DJs desde cedo. Quando eu tava no rolê e comecei a entender o que eu gostaria que o DJ me entregasse com essa experiência, eu também comecei a pensar no público e ver a reação das pessoas, porque eu também era público.

Pra mim, seleção de música, baixar, pesquisar e tals é sempre em volta de se eu gosto dela, se as pessoas também gostam ou se é só eu mesmo. Tem muita música que eu baixo porque eu sei que, em algum momento, eu vou me sentir confortável em colocar, mas tem muitas outras que eu baixo pensando que vai criar um troço gostoso pra quem ouvir.

Gabriel: Tu sabe quanto tu tem no teu HD?

DJ Bruninho Mec: Ba, viado, nem sei… Eu tirei as músicas do meu PC e ele tem 100 GB. Depois que eu tirei, ele ficou com uns 46 GB… Acho que uns 30 GB de música… Ba, não sei na real, acho que é 30 mesmo. Não sei se fez sentido essa matemática. 

Tem muita coisa repetida e é por isso que eu tenho preguiça de arrumar elas. Mas voltando pra falar delas em si, depende muito tanto do meu gosto quanto do público. Eu sou uma pessoa que me adapto muito a essa relação, também.

Gabriel: Mas tu vê o que o pessoal curte fora do rolê?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de ver música que as pessoas colocam nos stories, tá ligado? Eu salvo muito elas, porque eu penso que, se essa pessoa que curte esse tipo de rolê tá escutando isso, outras pessoas também devem.

Eu pego a música dos stories, vejo ela no Spotify, coloco a rádio dela e daí eu vou pegando músicas relacionadas. Eu gosto que as pessoas ouçam o que elas gostam de ouvir normalmente.

Gabriel: Quando tu tá escutando uma música, tu já pensa em como tu vai trabalhar com ela/nela?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de tocar a “Machuquei, Machuquei a Xt da Paty” e eu penso assim, tá: eu quero botar essa música em cima de outra ou eu quero que ela comece só ela, tá ligado? 

Se eu quero que comece só ela, eu penso se eu quero brincar com uns efeitos nela ou eu quero brincar com uma batida, com uma voz nela. O que eu quero trazer pra ela, nesse momento? O que vai ser mais daora nesse rolê?


Porque pode ser uma batidinha mais lenta pra encaixar com o clima do rolê, ou algo mais rápido, ou pode ser uma voz pra daí já ir pra outra música… Vai muito do que eu tô sentindo pra esse momento, tá ligado?

Gabriel: Eu piro muito nas transições entre as músicas. Tu vê algo de especial nelas?

DJ Bruninho Mec: Pra caralho! É arte. É um dos ambientes mais criativos e, é graças a exercer essa função de DJ, que eu consegui entender que eu posso ser mais livre nas outras coisas que eu faço. Na dança, eu tinha muitas amarras, e depois que eu comecei a tocar e ver que eu consigo trabalhar de diversas formas com arte, eu entendi as várias possibilidades que eu podia fazer em outras áreas. 

Acabei me sentindo muito mais livre dançando, desenhando, ensinando, pintando, fazendo arte. No quesito DJ, a minha criatividade vai conforme as minhas músicas. Eu tenho tantas músicas guardadas acho que pra ficar pensando nas possibilidades que eu posso fazer.

Gabriel: Tem alguma combinação mais estranha que tu fez?

DJ Bruninho Mec: Eu sou o cara das combinações estranhas, tá ligado? Hoje eu fiz uma de “Picada Fatal” com “Pyramids”, do Frank Ocean… E ficou horrível. Eu fiz isso muito na várzea, só tava pensando o que ia acontecer se eu colocasse aquilo ali.
“Pyramids” é em 108 bpm e a outra era 130. Daí eu tive que abaixar muito da do Livinho e a voz dele ficou tri estranha e arrastada.

Gabriel: Mas tu tentou aumentar o bpm de “Pyramids”?

DJ Bruninho Mec: Ba! Não fiz…. Sim, podia funcionar afu com a batidinha do funk… Tu vai remixar umas músicas pra mim, tá?

Gabriel: Me chama que eu aceito, hein…

…

O DJ Martins começou a tocar era meia noite. Eu tava conversando com o bruninho ainda, mas ele convidou pra ver o set e foi chamando o resto do pessoal que tava no fumódromo pra ir pra pista.

Eu cheguei numa hora que tava tocando “o fortuna” de Carl Orff. isso me pegou muito de surpresa. eu tinha falado com o bruninho de junções estranhas, mas não achava que os sets funcionam juntando desde música clássica até drill. Fiquei mais afastado do pessoal que estava no meio do salão e tentei prestar atenção mais no trabalho do DJ.

Tem memes que zoam as caretas que os DJs fazem quando eles tão remixando na hora e é sempre algo que parece só uma caricatura mesmo, mas parecia muito que ele tava extremamente focado na controladora como um cirurgião que presta atenção ao cortar algum tecido do paciente. Nessa hora, a pista tinha muitas pessoas, mas nenhuma estava dançando. Todos conversando entre si, usando o celular, tirando fotos. Até que uma batida de boom bap surge na música tomando todo o volume e ficando cada vez mais distorcida e rápida, se transformando no ritmo de um funk e a letra iniciando mais baixo. As pessoas começam a dançar na batida e cantar a música enquanto o DJ olhava pro ao redor buscando aprovação e se sentindo tão aliviado como nunca.

Eu, infelizmente, não me lembro qual era. Eu não me lembro de quase nada que tocou, mas não no sentido de não ter sido marcante, mas porque eu só não sou familiar a elas mesmo. Não acho que é meu lugar de validar o set do cara ou não, mas eu não me lembrava a última vez que eu tinha visto tantas pessoas num espaço tão pequeno sintonizados e em transe com a música.

Eu gosto muito de Talking Heads e eu admiro muito o vocalista da banda, o David Byrne. As primeiras coisas que eu vi dele foram com ele mais velho e já grisalho, quando ele estava falando sobre a sua performance no palco e citou o fato que é autista e que tinha recebido o diagnóstico recentemente. Ele falava que suas danças mais “truncadas”, repetitivas e robóticas são a forma que ele tem de se comunicar com o mundo e que ele não tem vergonha delas.

Eu sinto a mesma coisa. Também sou neurodivergente, nunca consegui dançar muito e vi nas suas performances alguém se expressando de uma forma muito sincera. Desde então, as poucas vezes que eu me permiti dançar (ou até só me movendo mesmo), eu notei um pouco de uma beleza.

Nessa festa, eu via as pessoas se movimentando e dançando com uma naturalidade e vontade de vida que me lembraram muito esse momento que eu me deparei com as danças do Byrne. Eu não me senti a vontade de dançar lá, mas noto como o trabalho do performer (no caso, o DJ) influencia os movimentos do público, também, quando ele seleciona e trabalha em cima de músicas que são significativas pras pessoas que estão lá. Mesmo que eu quisesse prestar mais atenção no trabalho do DJ, as pessoas dançando e se curtindo chamava muita mais atenção e talvez pudesse ser considerada como um “produto” do trabalho dele.

Sobre a cena e a comunidade

Gabriel: Eu não sou muito ligado no “mundo” DJ. Queria fazer perguntas que dessem conta do que seria essa “comunidade” de pessoas que tocam em Porto Alegre. Mas acho que a pergunta mais tosca e geral pode funcionar: existe e como é a cena de DJ’s?

DJ Bruninho Mec: Eu acho que a cena de DJs existe sim, definitivamente. Como qualquer outra cena, né? A partir do momento que várias pessoas exercem a mesma função e fomentando uma cultura, de maneiras diferentes, mas do mesmo lugar, acho que existe uma cena. Definitivamente existe uma cena de DJs por conta disso.

Não sei muito dizer como ela é. Acho que ela tem as suas panelinhas, pré-definições pra estar dentro, pra subir… Mas, ao mesmo tempo, eu vejo que ela não é tão presa assim, pelo menos, aqui no Sul, a essas coisas.


Acho que ainda dá muito pra crescer, fazer os seus rolês e tocar nos lugares sem se envolver com panelinhas. Tem muitas pessoas diferentes na cena de DJs e, aqui no Sul, existem muitas pessoas que vão te acolher – eu tô falando da minha experiência, não sei pro resto direito. 


Muitas pessoas me acolheram, queriam ouvir o que eu tinha pra mostrar e trocaram comigo. Acho isso muito importante pra qualquer pessoa que seja nova e pras pessoas que são mais velhas se sentirem confortáveis nessa comunidade, nesse trabalho e nessa arte. Acaba que fomentar isso da melhor maneira é o mais importante pra mim.

Gabriel: Como seria?

DJ Bruninho Mec: Colando nos rolês que tu consegue ir, falando o que tu acha dos sets, elogiando e trocando. Acho que os melhores momentos que eu tive nessa comunidade foram os momentos que eu pude sentar com outros DJs e conversar sobre o que é ser DJ. Não só no sentido de trabalho, mas de expressão, pesquisa, formas de tocar… tudo que permeia o ser DJ.

…

Todo mundo tava cansado e parecia que poderiam dormir a qualquer momento. Eu também tava, mas ainda queria ver qual era a mágica do Bruninho. As conversas entre as entrevistas já não estavam fluindo muito e mais pessoas iam embora de lá.
Quando ele foi chamado pra tocar, já tinha passado das duas horas. Eu tinha encontrado um grupo de pessoas e todos fomos ver ele montar a mesa e esperar o set dele. Ele conectou os cabos, pediu pra um funcionário um kit e deu play na primeira música.

Pensava em como ele ia brincar com o público e, dessa vez, foi de uma forma bem mais formal, sem muitas quebras de expectativa. Enquanto ele tocava, o DJ que arrumava suas coisas tentava guardar seu notebook, mas não conseguia se ajustar com o público dançando e indo pra perto do Bruninho.

Público no set do Bruninho, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 Algo que me chamou muita atenção foi quantos dos seus amigos que tinham participado (in)voluntariamente da entrevista não estavam só na pista, mas estavam perto do Bruninho dançando com ele, como se ele não fosse o DJ, mas só alguém que tava curtindo.

A cada transição de música, o Bruninho dava umas risadas e ficava prestando atenção nas pessoas. No meio do set, ele esbarrou em alguma coisa e acabou aumentando o grave da caixa de som. Foram tentar ajudar e ele falou “deixa assim, arruma daqui a pouco”. O “problema” técnico acabou sendo envolvido pelo Bruninho que aumentou ainda mais os seus graves enquanto o pessoal dançava.

Com o fim da música, ele finalmente arrumou o problema e seguiu como se não tivesse o “abalado”. Mais pessoas iam saindo e algumas voltavam pra sala pra dar tchau pro Bruninho e ele pedia pra responderem ele no Instagram.

Em um certo momento, o Bruninho colocou a música “TV Off”, do álbum mais novo do Kendrick Lamar. Não fazia duas semanas do lançamento do disco e essa música, em específico, tinha virado um hit com uma brincadeira do Kendrick que ele grita prolongadamente o nome do produtor dela: MUSTAAAAAAAAAAAARD.

No primeiro segundo dessa música, alguém grita “eu te amo Bruninho”. Mais pessoas se juntavam em volta dele e, quando o momento da brincadeira chegou, todos gritaram junto da música enquanto o Bruninho já criava a transição pra próxima música.

Toda essa curtição já tava era muito maior que qualquer uma que eu tinha visto lá. Eu não conseguia não estar envolvido com todo mundo dançando e curtindo a mágica do Bruninho. Mesmo que o set estivesse acabando, todo mundo que tava lá ainda estava muito animado, como se não fossem as mesmas pessoas que estavam quase dormindo poucos minutos antes. A energia não diminuiu e o fim do set foi coroado por salva de palmas pro coletivo que organizou a festa, pros DJs e pros trabalhadores do local. Um amigo do Bruninho cumprimentava os funcionários e, no fim, gritou “PELO FIM DA ESCALA 6X1”.

Porto Alegre não tem mais tanta relevância nacional pra chamar atenção pra uma comunidade de rock e gêneros adjacentes, mas acredito que toda essa comunidade de DJs e de música eletrônica como um todo tem todo o potencial pra remontar aqui um novo polo cultural. Eu dei tchau pro Bruninho e pensava nessas questões que eu não consegui perguntar, sobre o que ele espera do futuro pra ele e pra cena. Acabei não perguntando nada sobre os locais que DJs tocam e só falei de quão aleatório aquele lugar era pra uma boiler room. “É, mas acho que deu. Pelo menos, o kit era bom”.

notas:

[1] Ninguém lá sabia que ia ter uma festa boiler logo depois que eles saíssem. Eu demorei pra entender que aquele lugar funciona com aluguel pra eventos. O pessoal do sertanejo ainda não descobriu as boiler rooms, mas aguardo esse dia chegar.

[2] Bar que ele começou tocando.

[3] DJ e amigo do Bruninho que tocou antes dele na festa.

[4] DJ e amiga do  Bruninho.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Introdução (Make Fabico Weird Again #1)

Por Larissa Lima

A edição #1 da Make Fabico Weird Again nasce de um experimento coletivo dentro da eletiva Seminário de Cultura e Comunicação. As cadeiras em círculo já diziam muito. Ninguém se escondia no fundo, ninguém passava batido. Um formato incomum para a maioria das matérias, onde a conversa fluía de um jeito diferente. Era impossível ficar só ouvindo – a aula dependia de nós, das nossas vozes, dos nossos olhares, das nossas provocações.

Nosso professor, Marcelo Bergamin Conter, trouxe leituras que nos fizeram mergulhar na música de um jeito que a gente nem imaginava. Discutimos tudo: produção, consumo, técnica, análise de álbuns, cenas musicais, cultura, gênero… Por mais que tivesse um texto específico, a aula-conversa sempre nos surpreendia.

O fio que costurou tudo foi a música. Mas não só como som – como cultura, como expressão, como cena, como disputa. Do estúdio pra rua, do pop ao rap, da técnica ao grito de torcida. E nada disso se separa. Tudo se conecta de alguma forma. Falamos sobre a cena musical em espaços públicos, sobre como Porto Alegre tem sido silenciada por políticas que enfraquecem a cultura de rua pela atual gestão M3lo. Foi um semestre para perceber a música como reflexo social, mas também como possibilidade de construção.

Enquanto uns foram pra rua sentir o pulso da cidade, outros mergulharam em pesquisas. DJs, produtores, MCs, fãs. Todo mundo ali na aula ou aqui na #MFWA fala de música porque sente a música. A cada aula, a cada debate, ficava claro que isso aqui não podia acabar na última página daquele semestre. E é assim que nasce a Make Fabico Weird Again.

Essa fanzine é um culto à música, um registro do semestre 2024/2, indiretamente agindo como um mobilizador cultural pós enchente, mas também um movimento. Porque a música não existe sem encontro, sem troca, sem som. A #MFWA é um espaço físico e digital para reunir, compartilhar, ampliar. Porque música é isso. E porque o silenciamento, por mais que se tente, nunca é capaz de abafar a potência sônica das linhas de fuga.

Mas às vezes, ele impõe seu desconforto. O silêncio que Dimas deixou não se mede. O pulsar da sua presença também não. Essa primeira edição é nossa, mas também é dele. Que siga ecoando.

Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

As ruas são do povo: vida noturna e resistências pelas ruas de Porto Alegre

00Make Fabico Weird Again #1

por Ana Luiza Barbosa

Era uma hora da manhã de uma madrugada de domingo e eu e duas amigas estávamos em um dos muitos bares de esquina que tomam conta das ruas da Cidade Baixa, o bairro “boêmio” de Porto Alegre. Um DJ vestido de Papai Noel transformava a atmosfera do que poderia ser apenas mais um estabelecimento em uma aglomeração que extravasava os limites da calçada e adentrava as Ruas Lopo Gonçalves e José do Patrocínio. Entre a boa música e a cerveja gelada, estabelecia-se o começo de um dos muitos caminhos a serem traçados em um fim de semana quente de dezembro.

Já de pijama, eu assistia a uma comédia romântica sentada no sofá no momento em que recebi a notificação mais esperada quando se está sozinha em casa em um sábado à noite: “Vamos fazer algo?!”. Uma hora e algumas pesquisas depois, o Uber nos levava ao apÊzito Bar, que costumava ficar na Lima e Silva, recomendação de alguém em um vídeo do TikTok. Ao chegar lá, deparamo-nos com portas fechadas e poucas pessoas nos arredores. A solução mais óbvia era caminhar até encontrar o movimento.

Durante a noite e para três imigrantes do interior, as ruas da Cidade Baixa parecem se reconfigurar a cada passo, como se estivéssemos em um labirinto sem saída, que não leva a lugar nenhum, mas também leva a todo lugar. Passamos por um, dois, três bares. Nenhum deles era o que procurávamos. Quando não era o público, era o preço, a música, o ambiente. Algo estava errado. Até que uma esquina e um bar desconhecidos se destacaram em meio a tantos outros. O agrupamento de pessoas animadas e o bom som que se propagava no Street da CB se sobressaiu.

Ao nos aproximarmos, foi possível analisar melhor o que acontecia lá. Um bar com a parte interna pequena e algumas mesas na calçada chamava a atenção pelo seu DJ um tanto quanto incomum. No interior do Street, o Papai Noel comandava a controladora e estava prestes a fazer um dos melhores sets que já ouvimos, ganhando facilmente de inúmeras das baladas que cobram entrada para tocar uma conjuntura de músicas que mais parece uma playlist pronta do Spotify.

Em pouco tempo, já estávamos sentadas em cadeiras verdes de plástico e, mesmo sem mesa graças à superlotação do pequeno trecho do passeio disponível, ali ficamos. A primeira cerveja foi mais um dos fatores que confirmou a presença e permanência daquela quantidade de pessoas. Cada gole da Brahma gelada, acompanhado pelo som do funk que contagiava, justificavam aquele ambiente tão característico dos rolês de rua. Ao nosso redor, o que tomava conta era a fumaça de cigarro, as rodas de jovens em torno de uma vodka barata, energético e gelo e o clima de fim de ano – ou, talvez, de apenas mais um dia bem aproveitado.

Os detalhes sobre aquele espaço diziam muito sobre quem o frequenta e por quê. Boa música, bebida acessível, localização central e funcionamento até mais tarde são alguns dos fatores que tornam um movimento de rua bem-sucedido, ou melhor, que levam ao seu surgimento. A aglomeração em torno do Street é uma das inúmeras que se formam na CB e em toda a Porto Alegre. Por cerca de uma e meia da madrugada, decidimos migrar para outra delas.

Uma quadra à frente, observava-se mais uma rua lotada. Caminhar pelos dois lados da Joaquim Nabuco era uma tarefa difícil na madrugada daquele domingo em que a aglomeração na rua era maior que nas casas noturnas e nos bares. Sem cadeiras e sem espaço, tomamos lugar em frente ao Bosque que, embora com estrutura semelhante à do bar anterior, deixava a desejar na música – e também na bebida, já que estavam sem cerveja às duas horas da madrugada. No bar ao lado, somente long neck. Em busca de um litrão, atravessamos até o boteco da esquina onde, finalmente, pudemos saciar a sede de uma noite abafada.

Entre um lugar e outro, perambulamos pela movimentação, conversando, bebendo e curtindo a música. Nesse processo, pude perceber as peculiaridades que estão presentes nos rolês de rua e que fazem parte de sua estrutura. Jovens procurando um lugar para curtir a noite sem hora para acabar, livres para levar sua bebida barata, sua caixa de som com música estourando, sua carteira de cigarro, ou seja, lá o que for. Para quem frequenta esse tipo de evento, o mais importante, além da presença de um grande número de pessoas, é se divertir gastando pouco. Uma cidade repleta de universitários com recursos limitados precisa de um escape que não envolva drinks de mais de quarenta reais, ingressos caros e revista na porta. E esse escape acaba por ser a rua.

Confrontando bares e residências ao seu redor com sua presença e seus barulhos, a crescente multidão em frente ao Janela marcava a resistência daqueles que não se rendem às imposições do capitalismo. Entre os tantos bares que fazem da Cidade Baixa ela mesma, muitos cobram entrada e muitos mais tem preços elevados que barram a entrada de grande parcela da população, ainda que de forma velada. Então, resta à classe baixa duas opções: ou aceitar a exclusão e não frequentar esses lugares, permanecendo à margem, ou tomar conta dos espaços que lhes pertencem independentemente do dinheiro que carregam consigo.

Estar na rua, nesse contexto, é ser visto e ser lembrado. Cada movimento que se forma nos ambientes públicos é uma forma de retomada dos direitos renegados aos invisibilizados pelo sistema. É o aviso de que, mesmo que a propriedade privada os impeça de acessar certos lugares, não pode lhes tirar de outros que são de todos. O rolê de rua é uma luta contra as desigualdades e contra o tolhimento do direito ao lazer. Estar nas ruas de Porto Alegre às três da manhã tomando kit de Ninoff é uma forma de resistência.

Por volta das quatro, tomamos rumo ao que seria o fim da noite. Como em todos os bons rolês, o afterenvolveu comida gordurosa e de qualidade questionável. Do Bosque, caminhamos pelas ruas escuras – mas movimentadas – da Cidade Baixa em busca do lanche mais aclamado das madrugadas porto-alegrenses: um xis do Cavanhas. Rememorando os caminhos que a aventura tomou, encerramos a experiência de barriga cheia e com histórias para contar.

Embora concentrados no bairro noturno de Porto Alegre, os rolês de rua se configuram em outros lugares espalhados pela cidade. Entre eles, alguns se destacam pelas semelhanças ou por seus aspectos diferenciados, apesar de se formarem a partir dos mesmos princípios.

Na esquina entre as Ruas Mariante e Liberdade, no bairro Rio Branco, há um movimento que merece uma menção honrosa. Em torno do Pito Bar, centenas de jovens se reúnem em mais uma das possibilidades que a noite porto-alegrense fornece. O Pito na Rua enche os bares, a calçada e a rua em um rolê que não se restringe aos fins de semana. De terça a sábado, o funcionamento do Pito é um atrativo para a reunião de centenas de pessoas naquele trecho, embora o próprio bar não seja o elemento central desse tumulto. Com um horário reduzido, o movimento que circunda o Pito começa quando ele está fechando as portas e se estende até altas horas da madrugada.

Com aglomerações que, inclusive, dificultam a passagem dos carros, os dois lados da Rua Mariante são lotados por jovens todas as semanas por uma conjuntura de fatores. Cercado por botecos e bares com bebidas baratas que funcionam até tarde da noite, quem vai ao Pito tem a certeza de algumas coisas: terá onde comprar álcool, opções de lanche para a larica e uma rua movimentada. Mukifo, Sheik e Xis da Bruxa são alguns dos estabelecimentos que contribuem para a permanência desse rolê e que são muito frequentados nas noites de Pito.

A ocupação dessas ruas por pessoas que trazem consigo seu som também fomenta a cultura, uma vez que os bares nos arredores trazem a música como um diferencial em relação aos demais, contratando DJs e músicos locais. O Pito em si conta com uma programação que traz artistas quase todas as noites, em uma medida eficaz para atrair público ao mesmo tempo em que torna o acesso à música mais democrático.

Mais uma vez, a rua se converte na casa daqueles que buscam se aventurar por Porto Alegre à procura de uma noite agitada.

O Pito é mais um dos tantos locais que reafirmam presenças socialmente apagadas, dando espaço para a visibilidade das comunidades e dos grupos que ali frequentam. Assim, como afirma Camila Proto, “O som e a apropriação apresentam-se, desta forma, como meio e tática para produção de territórios mutáveis e participativos, através da arte e da emergência cultural popular.” (PROTO, 2020). Nesse contexto, os rolês de rua ultrapassam o lazer e o entretenimento e se convertem em um instrumento social para exibir existências e presenças em lugares que são públicos. Através desses movimentos, é possível gerar o pertencimento do povo onde ele deveria pertencer sempre. A apropriação desses locais é sobre resistir e lutar pelos direitos que são de todos – ou deveriam ser. As ruas são do povo e o povo é das ruas, porque nelas constroi seus afetos, sua cultura e suas vivências.

Referência

PROTO, C. . Territórios Resistentes: arte, som e sociedade. In: José Cláudio S. Castanheira; Dulce Mazer; Pedro Silva Marra; Marcelo Bergamin Conter; Cássio de Borba Lucas; Mario Arruda. (Org.). Poderes do Som: Políticas, escutas e identidades. 1ed.Florianópolis: Insular Livros, 2020, v. 1, p. 121.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Aulas Abertas do Núcleo de Pesquisa Semiótica e Sonoridades – 2025/1

O Núcleo de Pesquisa Semiótica e Sonoridades, vinculado à UFRGS e ao GPESC, convida a comunidade acadêmica da Fabico e demais interessados para dois encontros sobre música eletrônica e comunicação.

O objetivo das aulas abertas é o de prestigiar as pessoas que fazem a cena musical local acontecer, apesar de todas as limitações que são impostas ao underground em um contexto de projetos neoliberais de privatização do espaço público. Também pretende-se discutir o papel dos meios de comunicação alternativos e da crítica musical no desenvolvimento das cenas.

A entrada é franca e ambos os eventos ocorrem durante o horário de aula das turmas de Teorias da Comunicação.

Auditório 1 da Fabico, terça, 15 de abril, 18h30

Lançamento da Marginália Metropolitana, uma coletânea de música eletrônica composta por artistas da Grande Porto Alegre, acompanhada de um livro sobre o mesmo tema.

Lançamento da Zine digital Make Fabico Weird Again, uma coletânea de textos sobre música escrita por alunos da Fabico.

Mediação: Isabelle Camargo

Auditório 1 da Fabico, quarta, 16 de abril, 13h30

Painel com a equipe do Coletivo Plano e dos produtores musicais Luiza Pads e Olímpio Machado.

Lançamento da Zine digital Make Fabico Weird Again, uma coletânea de textos sobre música escrita por alunos da Fabico.

Mediação: Larissa Lima

As aulas abertas são organizadas por:

Marcelo Bergamin Conter
Gezebel Bender
Isabelle Camargo
Larissa Lima
Pietro Scopel

Mais sobre os projetos e produtores:

Marginália Metropolitana  Marginália é um projeto grande: uma coletânea, um livro e uma festa de rua. No livro, temos seis textos, de diferentes escritoras e escritores, que se deixaram afetar pela escuta do álbum e produziram artigos, ensaios e devaneios sobre o cenário da música eletrônica na grande Porto Alegre. Também temos uma entrevista, a história dos produtores e produtoras das faixas que compõem o álbum, e a apresentação do coletivo Plano, que produzirá a festa. Já na coletânea, temos sete artistas musicais, com vivências e experiências oriundas da região metropolitana de Porto Alegre, cada um colaborando com duas faixas. Mas, além disso, de maneira transversal, este projeto é uma tentativa de evidenciar e registrar um momento dessa história viva, que está sendo constantemente escrita, por muitas mãos, pés, cabeças, fígados e corações, apesar das limitações materiais e das realidades das nossas cidades. Não se trata, de maneira alguma, de qualquer verdade sobre a cena: como qualquer cena, trata-se de uma ficção. Nossa ficção.

Coletivo Plano
Fundado em 2017 por DJs, produtores(as) e artistas de Porto Alegre – RS, surgiu como um movimento dedicado a desenvolver uma plataforma de expressão e questionar as estruturas socioculturais urbanas através de festas de música eletrônica alternativa, oficinas e rodas de conversa realizadas em espaços públicos e privados. O coletivo aborda temas como preservação, diversidade e segurança. Composto atualmente por Fernanda Rizzo, Fernando Ribeiro, Sérgio Barsotti e Gabriel Scorza, tendo como residentes o fotógrafo Lau Baldo e as performers Laputaines e Fayola Ferreira.

Luiza Pads
Produtora multimídia, designer e DJ da cidade de Porto Alegre. É a idealizadora e produtora da Alfinete, festa itinerante que costura diferentes gêneros, vertentes e conceitos, que recentemente completou um ano de existência circulando por diferentes casas noturnas de Porto Alegre e recebendo diferentes nomes da cena para compor o lineup ao longo das edições. Como DJ, já se apresentou em festas e festivais como o Festival Kino Beat, Plano de Rua, Arruaça, Fita Dupla (da qual era coprodutora), BREU e casas da cidade que são conhecidas por abrirem as portas para a cena. É produtora da banda de pós-punk portoalegrense The Completers, desempenhando também a função de booker. No último ano, também estabeleceu uma parceria de booking e produção com o trio instrumental Pata de Elefante. Como designer, ama criar cartazes de festas e shows, já trabalhando com bandas como Crumb, terraplana, Maurício Pereira, Viridiana, Pedro Cassel, Nina Nicolaiewsky e outros.

Olímpio Machado
Produtor e engenheiro de som com 10 anos de experiência no mercado de áudio, nos últimos 6 anos entrando no circuito nacional de operação de shows, tendo trabalhado em festival como: Lollapalloza (2019 e 2025) Rock In Rio (2023) entre outros. Hoje é operador de PA das bandas: Jovem Dionísio (indicada ao Grammy Latino 2024) e Syon Trio. Atuando também como produtor técnico de vários festivais locais como: Avante (2023) Unimúsica (2022-2025) Porto Verão Alegre (2023-2024) Farol Live (2023-2025). Tendo operado shows para: Tom Zé, Jards Macalé, Rodrigo Amarante, Terno Rei. E atua como baixista da banda Supervão.

Make Fabico Weird Again
Coletânea de textos escritos no âmbito da disciplina de Seminário de Cultura e Comunicação (2024/2) dos cursos de Comunicação da Fabico/UFRGS, o zine digital apresenta entrevistas, críticas, ensaios e análises sobre música, passando por gêneros diversos como funk, rock, eletrônica, samba e punk. Versa também sobre as disputas de espaço e gentrificação urbana pela ótica de estudos de comunicação.