Make Fabico Weird Again #1
por Lucas Rafael Morel Bordignon
Este texto aborda a cultura ballroom com foco no papel do chanter nas balls. A partir de uma entrevista com Jean Carlo, um chanter, será possível compreender a importância dessa figura na criação da energia e dinâmica das balls. Além disso, o estudo inclui uma análise da última ball do ano, a Jingle Ball, com temática natalina, proporcionando uma visão prática e detalhada do evento e da atuação do chanter no contexto local de Porto Alegre.
A Categoria é: Ballroom!
O presente trabalho não se propõe a fazer uma revisão histórica do que é a Ballroom, mas sim, discutir questões da cultura ballroom e dos papéis dentro dela. Ainda assim, é preciso compreender o contexto de onde veio a Ball.
Inicialmente, a cena ballroom era uma espécie de paródia do mundo clássico da alta-costura das marcas de moda que promoviam a gentrificação. Era uma cultura underground criada por e para pessoas LGBTQ negras e latinas vivendo em Nova Iorque no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 (a ballroom desde então tornou-se internacional).
Criando um espaço de resistência, pertencimento e expressão artística. Nesses eventos, os participantes competem em categorias como runway – desfile e catwalk – vogue – a dança – e face – que refere-se a exibir um rosto impecável e expressivo, como se fosse um modelo de alta-costura. Cada categoria desafia diferentes formas de expressão corporal, estética e performance, promovendo a criatividade e a autoafirmação. Segundo nosso entrevistado Jean Carlo, quando a Ballroom chega no Brasil, é quando começa a existir novas categorias além das tradicionais, como “Passinho” e “Samba no pé”.
No Brasil, essa cultura tem ganhado espaço em diversas cidades, incluindo Porto Alegre, onde casas de ballroom como Leopardos, Harpia e Atrevida promovem balls que celebram a diversidade e a criatividade de suas comunidades.
“O conceito de House (casa, em português) dentro da ballroom significa um sistema espelhado no parentesco, estruturas de família que ressignificam o cenário familiar biológico, formando relações entre sujeitos com objetivo de unificá-los, ou seja, quando um participante ballroom adentra em uma House, ele compete em nome daquela rede específica unificada de família. Essas Houses seguem uma funcionalidade com uma mentora/mentor (estes servindo como representação de Mãe/Pai) e seus demais participantes.[1]” (ESTEVAM, ET AL, pg. 5)
As lendas e ícones (um título atribuído ao nome de um indivíduo para mostrar anos de trabalho árduo, impacto e troféus conquistados na ballroom) são concedidos a tal prestígio porque dedicaram anos lutando e resistindo contra um sistema heteronormativo, para que eles e outros como eles pudessem viver livremente como seus verdadeiros eus. Além disso, a ballroom é um espaço político, onde questões relacionadas a gênero, sexualidade e racialidade são ressignificadas. “O Ballroom é um ato político, que projeta uma realidade onde grupos que não têm acesso a determinados espaços e profissões possam mostrar sua capacidade e habilidade de viver todas as experiências que a cidade lhes nega” (Correia, 2022, p. 03).
A Ballroom, mais do que uma prática estética, é uma prática subversiva e emancipatória. Ao desafiar os estereótipos tradicionais de beleza e identidade, ela oferece uma plataforma para indivíduos que são marginalizados e excluídos por suas identidades de gênero e orientação sexual, permitindo que expressem sua autenticidade de forma criativa e poderosa.
Chanting
Na Ball, há três figuras que fazem uso do microfone: o Mestre de Cerimônias, o Chanter e o Commentator. O “MC” é aquele que faz os avisos, que apresenta a cultura para quem não conhece, que faz as introduções. O Chanter é pura musicalidade, que faz o “canto” para os performers. Já o Commentator é como um narrador para as categorias de “face” ou “best dressed”, onde o performer não precisa dançar, mas sim, servir algo. Idealmente, estes três deveriam ser pessoas diferentes, mas, Jean comentou que isso nem sempre é verdade, diversas vezes ele tem que fazer os três papéis.
Jean Carlo, estudante de Jornalismo – fabicano – e Prince da Casa dos Leopardos, tem 24 anos e está inserido na cena de ballroom de Porto Alegre há 2 anos. Como Chanter, ele se tornou uma das principais fontes desse trabalho para entender essa figura tão essencial na cultura da ballroom, especialmente considerando a falta de estudos acadêmicos que abordem sua função. Sua experiência de vivência e sua perspectiva pessoal têm sido fundamentais para preencher essa lacuna, oferecendo um olhar mais profundo sobre o papel do Chanter da cena local.
O chanter precisa ter senso rítmico apurado e uma compreensão das dinâmicas de cada categoria para criar versos que dialoguem com a performance. Além disso, o chant frequentemente incorpora elementos da linguagem vernacular da comunidade, como gírias e expressões culturais. “Tem que ter muita musicalidade pra ser chanter”, diz Carlo.
De Rihanna à Raça Negra
Quando perguntado sobre o uso do inglês nos chants, Jean Carlo comentou sobre a sua rotina de estudar os áudios das balls no SoundCloud, uma plataforma que oferece gravações de categorias inteiras de ballrooms. Para Jean, essa prática não é apenas uma forma de aprendizado, mas uma maneira de absorver as nuances da linguagem própria da cena. A imersão no idioma é essencial para entender o vocabulário único da ballroom, que é transmitido principalmente em inglês, mas que vai além da mera tradução, conectando os participantes através de um código comum.
JEAN: Eu ouço muito, é algo que estudo bastante. Eu uso o SoundCloud para isso, porque eles colocam muitos áudios de ball. Assim, consigo ouvir categorias inteiras lá. E o mais interessante é que, ao ouvir esses áudios nos meus fones, consigo visualizar o que está acontecendo. Isso é muito ‘babado’, porque a ballroom tem um linguajar muito próprio. Às vezes, quando tem pessoas novas na ball, eu falo: ‘The next category is… femme queen performance! When the beat starts, you start, let’s go!’ E aí começo: ‘femme queen performance, tens, tens across the board! Anybody else? Anybody else?’ Essas pessoas não vão entender o que estou falando, mas para mim isso é muito nítido. Eu falei a próxima categoria, é ‘femme queen performance’, eu sei o que significa. ‘Ten across the board’, ‘sim’ da mesa toda. ‘Serve your cunt, serve your pussy’, ‘feminine-a cunt’. Esses linguajares são naturalizados para a gente, que entende. Então consigo visualizar, apenas ouvindo o áudio de uma categoria. E todos os áudios são em inglês, então a gente acaba pegando essas expressões. Eu gosto muito de trazer diferenciais para as balls. Quando trago referências musicais, a galera vem junto, e isso eleva o clima da ballroom.
Esse processo de internalização dos termos, como “ten across the board” ou “serve your pussy”, faz com que ele tenha um domínio completo do vocabulário, que, embora seja em inglês, é apropriado dentro da cultura ballroom. Quem não entende agora, vai passar a entender com o tempo, à medida que participar de mais balls e se familiarizar com o linguajar e as práticas que o cercam. Assim, a linguagem se torna uma parte essencial da vivência e do aprendizado dentro desse universo, criando uma sensação de pertencimento e compreensão para os envolvidos na cena. E destacou a importância de trazer o jeitinho brasileiro e referências brasileiras para os chants.
JEAN: Tipo, eu falei: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental, Kiara, você é sensacional.’ A referência disso é a música ‘Raça Negra’: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental… […] Eu acho que é uma forma da gente abrasileirar, também.
Por fim, ele destacou como a ballroom, embora internacional, não deixa de se conectar com outras expressões culturais dissidentes do Brasil.
JEAN: A Ballrom é aquela coisa de roda, todo mundo dançando, cantando, energia e celebração. E isso não foge muito de uma roda de capoeira, por exemplo. Não foge muito de um samba, de um baile funk. […] Então quando ela chega aqui, ela se mescla com todas as coisas que a gente tem aqui. Então eu acho que é fundamental a gente também abrasileirar e dar a nossa identidade.
JEAN: Eu quase sempre faço chants em português, ultimamente eu tenho colocado umas refs mais em inglês, como tipo Rihanna, pegar umas músicas tipo Bitch Better Have My Money. Então fazer chants com essas mais populares, sabe?
O que torna a ballroom única, no contexto brasileiro, é sua capacidade de se integrar com outras formas de expressão cultural, criando uma versão abrasileirada dessa prática, que respeita as raízes locais ao mesmo tempo em que abraça a globalização da cena.
A Arte de Servir
O “serving” na ballroom é o ato de entregar algo com total autenticidade e confiança, seja através da dança, do vestuário ou do comportamento. Esse conceito é central na cena ballroom, pois não se trata apenas de exibir uma performance, mas de apresentar um “eu” genuíno e empoderado, algo que é profundamente valorizado dentro desse espaço. Para muitos participantes, especialmente aqueles que fora da ballroom estão marginalizados ou invisibilizados, o “serving” é uma forma de reivindicar sua presença e afirmar sua identidade de maneira plena.
Na ballroom, o “serving” se torna um meio de resistência e autossuficiência, pois permite que o performer, ao demonstrar sua verdade, desafie as normas de gênero e beleza que a sociedade impõe. Assim, esse ato de “servir” vai além da performance, funcionando como uma poderosa afirmação de ser e de existir de forma autêntica, independente das limitações impostas pelo mundo exterior.
In Butch Queens Up in Pumps, Marlon Bailey descreve a ballroom como um espaço social criado pelos seus membros. Este espaço, que engloba uma ampla gama de indivíduos diversos em gênero e sexualidade, proporciona um senso de validação e segurança. Os únicos aspectos definidos da ballroom são as categorias, que permitem uma ampla inclusão. Estas variam em temas como Realness, Face e as conhecidas categorias de dança como old way, new way e vogue femme.
O vogue femme é uma dança que mistura exagero e graça, influenciada por estilos como ballet, jazz, dança moderna e, especialmente, pela corporalidade das travestis. O chant de Jean no Jingle Balls, com as frases “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” e “serve pussy to me”, se conecta diretamente com o conceito de vogue femme, uma das formas mais fluidas e poderosas de expressão dentro da ballroom.
O vogue femme é, por si só, uma manifestação da fluidez de gênero, onde o performer traz a “essência feminina” para sua dança, independentemente de sua identidade de gênero. A expressão “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” é uma afirmação de que a feminilidade é uma performance, algo que pode ser vivido e expresso por qualquer corpo, sem a necessidade de se conformar aos padrões biológicos ou sociais de gênero. Essa frase também faz um comentário sobre como a ballroom, e o vogue femme em particular, desconstrói as normas sobre o que significa ser mulher ou mulherizada, permitindo que qualquer pessoa, independentemente de sua identidade de gênero, possa acessar e expressar essa feminilidade de forma autêntica.
Já a expressão “serve pussy to me” dentro desse contexto funciona como uma afirmação de poder e domínio, uma espécie de desafio e interação com os competidores. Em muitos contextos de vogue femme, termos como “pussy” e outros relacionados à sexualidade são usados para enfatizar a performance, a confiança e a presença no palco, estabelecendo uma troca simbólica de energia entre o dançarino e o público. A frase tem o efeito de intensificar o momento de performance, quase como um comando ou afirmação de que o performer está oferecendo sua “essência feminina” de forma plena e sem restrições.
Jingle Ball’s rock!
Este não foi meu primeiro ball, mas definitivamente foi um dos mais divertidos, principalmente pela temática envolvida. A energia do evento foi contagiante, e o clima fez toda a diferença na experiência. O ball mais impactante que já fui, sem dúvida, foi o da visibilidade trans que aconteceu no começo deste ano, em janeiro. Aquele foi realmente especial. A emoção de estar ali, vendo tantas pessoas trans se sentindo vistas e celebradas, foi algo que ficará comigo para sempre. Por outro lado, também já fui em uma ball que foi uma decepção. Apesar de ter conseguido um ótimo lugar para enxergar as apresentações, o espaço era totalmente inadequado – sujo, e muito desconfortável. A energia do evento ficou comprometida pela falta de cuidado com o ambiente, e acabei saindo mais cedo porque não consegui suportar a situação por mais tempo. Essas experiências me mostraram como o ambiente, a organização e a energia do lugar podem transformar a vivência de uma ball.
A Jingle Ball, organizada pela Casa Atrevida, foi o último evento de 2024, realizado no Workroom Bar em Porto Alegre. O Workroom Bar tem ótima estrutura, então a ball ocorreu de forma quase impecável. Com temática natalina, a ball começou por volta das 17h30 e terminou às 21h30. O ingresso custou 36 Reais meu maior gasto nessa noite. As cadeiras em um ball são distribuídas de forma que criam uma estrutura semelhante a uma passarela, centralizando as performances. No meio, fica uma área livre, onde os participantes desfilam ou dançam, como em um desfile de moda de alta-costura. À esquerda e à direita dessa passarela, estão as fileiras de cadeiras, que acomodam o público. Os jurados ficam em uma posição privilegiada, observando de perto as apresentações. A disposição das cadeiras ao redor da pista é pensada para garantir que todos possam ver as performances de maneira clara, ao mesmo tempo em que o espaço central, livre, destaca a principal atração: as competições, que imitam a grandiosidade dos desfiles de moda, com foco nas expressões corporais, visuais e de estilo.
A equipe foi divulgada no Instagram, são escolhidos para ser jurados pessoas que tem bastante tempo na cena ou são reconhecidas pelos seus trabalhos e reconhecimentos. O mais interessante é ver que, além de julgar, os jurados dão dicas, principalmente para os iniciantes. Os jurados da Jingle Ball foram Luís Enrique, Prince Fênix Negra, a Manuela Mulan da House of Hua Mulan (Chapter Brazil[2]), e a Mother Ally de Atrevida. A Manuela Mulan teve uma fala sobre o femme vogue, lembrando os participantes de quais eram os cinco elementos antes que eles fossem competir, para dar uma chance de melhoria nas performances. Tiveram dois MC’s da casa de Atrevida: Luna de Atrevida e Haute de Atrevida. E o Prince Jean Carlo Leopardo como chanter, e o DJ Prince Tsunmi Cabal.
Primeiramente momento foi o rollcall, onde as casas presentes são chamadas para performar, destacando os membros que compõem a cena. É uma forma de celebrar os participantes. Nessa hora muitas vezes o público grita chants “da casa”. Por exemplo, o chant da casa Leopardo: “Ih, ala, Leopardo vai te pegar”.
Nesse ball, as categorias incluíram Face, Posing, Baby Runway, Baby Vogue, Lip Sync, Beginners Performance, Runway, Best Dressed, Vogue Performance e Mother vs. Mother. Na Mother vs Mother, as “figuras maternas” das casas podiam competir com as outras, o equivalente a um duelo de titãs para os nerds – e a vencedora dessa categoria foi a Ávine, da casa Leopardos.
A melhor de todas, na minha opinião, foi o Lipsync. É uma das categorias mais conhecidas e adoradas, e com esse tema natalino, com músicas de Natal, só melhorou. Teve lipsync de “Então é Natal” da cantora Simone, e uma batalha com “All I want for Christmas is You”, da Mariah Carey. Os jurados ficaram indecisos então a batalha se repetiu com “Santa Tell Me”, da Ariana Grande.
Um momento marcante foi o confronto interno da Casa Atrevida, onde membros competiram entre si nas categorias Runway e Vogue Performance. Isso acontece poucas vezes, pois quando dois membros da mesma casa sobram – no contexto de competição e mata-mata – a casa leva o prêmio, então, foi definitivamente um momento a lembrar: pessoas que se vêem como família em uma pequena competição saudável.
Pela energia e entrega, esse ball merece 10 de todos os jurados (ten across the board).
TEN ACROSS THE BOARD
Competir na ballroom é sobre a capacidade e determinação de um indivíduo em ser irrestritamente ele mesmo, usando moda, movimento corporal e performance. O ball tem uma energia única que é realmente contagiante. Desde o momento em que você entra, é como se a atmosfera pulsasse com a vibração de cada movimento, cada passo e cada expressão. A intensidade dos participantes, a paixão nas performances e a interação entre o público e os competidores criam uma dinâmica que te envolve completamente. Sempre que saio de um ball, me sinto inspirado e com uma vontade imensa de ser parte daquilo de maneira mais ativa. A dança, especialmente o voguing, me fascina de uma forma que me faz querer aprender cada vez mais, não apenas pela técnica, mas pela forma autêntica com que os dançarinos se expressam. É impossível não sentir o desejo de melhorar, de entrar mais profundamente nesse universo e aprender a dançar como eles, de forma cheia de emoção e fluidez.
Cada detalhe, desde a escolha das roupas até os movimentos mais sutis, é uma declaração de identidade, e isso é o que torna o ambiente tão envolvente. Não é só sobre a competição em si, mas sobre a experiência compartilhada, onde cada participante e espectador se sente parte de algo maior. A energia é tão forte que, mesmo para quem está apenas assistindo, é quase impossível não ser contagiado. A forma como as pessoas dançam e se movem no espaço, sem medo de mostrar quem realmente são, faz você querer entrar na pista e deixar sua própria marca. O vogue, com sua fluidez e exagero, é especialmente encantador, pois vai além da técnica – é uma linguagem corporal que comunica poder, liberdade e autenticidade. Esse desejo de aprender e de se conectar ainda mais com esse universo sempre cresce a cada ball que participo, como se cada evento fosse uma oportunidade de me aprofundar mais e de vivenciar a ballroom de maneira mais intensa.
Pela energia contagiante, esse mero espectador dá ten across the board!
Notas:
[1] Filhas, Filhes, Filhos, além de Imperatriz, Imperador, Princesa e Príncipe.
[2] Chapter: refere-se a uma subdivisão de uma casa específica dentro da cena. Cada capítulo tem sua própria identidade, membros e uma maneira única de se expressar. Os capítulos podem ser de outros estados ou outros países.
REFERÊNCIAS:
ESTEVAM, A. L. G.; GERALDES, E. Vogue, logo, existo: A comunicação política-corporificada da Ballroom. Anagrama, v. 15, n. 1, p. 1–13, 28 jun. 2021.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.