Uma análise do álbum “Blonde” de Frank Ocean e como a obra se tornou uma referência na música contemporânea

Make Fabico Weird Again #1 

por Gabriel Vieira da Silva

Frank Ocean é um renomado cantor, compositor e produtor norte-americano, que ao longo da década de 2010, se tornou uma das maiores referências quando falamos do gênero R&B e pop alternativo. Através das suas letras extremamente sensíveis e produções para outros grandes magos da indústria musical, Ocean se consolidou como um dos grandes e mais icônicos nomes dessa geração. Antes de se tornar um fenômeno, Ocean apenas compunha para outros gigantes da indústria como Justin Bieber e John Legend. Até que através de Tyler, the Creator, tornou-se membro do Odd Future, que o lançou como artista finalmente. No grupo, ele participou de diversos trabalhos do próprio Tyler, de Jay-Z, Kanye West e Beyoncé, além de lançar sua primeira mixtape, Nostalgia, Ultra. Em seguida, Ocean lança Channel Orange, seu primeiro álbum de estúdio que já obteve um sucesso estrondoso rendendo até mesmo Grammy. Músicas como Lost, Thinking About You e Pyramids já chamavam a atenção para o que trataremos neste trabalho posteriormente: a forma como o artista produz música e expõe seus sentimentos através das suas letras profundas e sensíveis.  Após 4 anos de fãs especulando o que viria a seguir, Ocean lança Blonde em 20 de agosto de 2016, que posteriormente foi elencado na lista de melhores álbuns de todos os tempos pela revista Rolling Stone[1]. Se o seu primeiro álbum de estúdio já foi um grande sucesso, Blonde conseguiu superar esse feito. Entre uma produção fora dos padrões e divergências com a sua gravadora, o álbum apresenta temáticas como amor, sexualidade, racismo, família e espiritualidade.

Foto: Ensaio fotográfico de Blonde, 2016

 

Originalidade e a produção fora do padrão

Blonde apresenta uma produção complexa e repleta de experimentações. O álbum é um trabalho muito mais experimental considerando os seus projetos anteriores, com várias mudanças na estrutura das canções e na composição das letras. A produção do álbum no geral é muito complexa, e por conta disso, conta também com o auxílio de outros gênios da indústria musical como co-compositores e co-produtores. Kendrick Lamar, Beyoncé, Kanye West, Pharrell Williams, Paul McCartney, Andre 3000 e Tyler, The Creator são exemplos. Com essa gama de opiniões e ideias que surgiram com esse conjunto de artistas e de anônimos que compõem a extensa lista de créditos, em Blonde, Ocean consegue construir canções das mais diferentes formas. A voz do cantor é utilizada para além de ser um instrumento, mas também como tradução de sentimentos e sensações. Ela é utilizada nas músicas de uma maneira diferente do que era padrão na indústria musical da época do pop e R&B. Mais do que nunca, Frank Ocean perdeu todos os rótulos que estavam sendo empregados a ele. 

“Às vezes eu sentia que você não estava ouvindo versões suficientes de mim dentro de uma música, porque havia muito pensamento hiperativo. Mesmo que o ritmo do álbum não seja frenético, o ritmo das ideias sendo lançadas é”, disse Ocean ao The New York Times, em 2016.

 

A primeira faixa do álbum, Nikes, foi lançada junto a um videoclipe um dia antes do lançamento oficial do disco. A música que inicia os trabalhos dessa nova era de Ocean já apresenta algumas mudanças na sua produção quando relacionamos com seu trabalho anterior. A mudança na estética musical está representada principalmente na forma como a voz é utilizada. Nos primeiros versos da canção, o cantor utiliza de um pitch mais alto do que o usual. Já na segunda parte da música, ele faz o uso de auto-tune. Nos últimos versos, Ocean declama a letra de uma forma mais falada e menos cantada, se assemelhando com o rap.  Em meios gerais, a faixa resume bem o que a produção musical apresentará nas demais músicas.

Frame do clipe de Nikes – Blonde, 2016

 

A segunda faixa, Ivy, uma das favoritas dos fãs, Ocean traz na sua composição uma história do seu passado e bem pessoal como já era de se esperar. A história de uma relação que falhou, muitos os questionamentos e os arrependimentos foram traduzidos na letra. Na produção, o cantor revelou em entrevista para o The New York Times que subiu um pouco o pitch da voz para aparentar ser mais novo, o que traria toda uma atmosfera junto a letra da canção. No instrumental chama a atenção a presença de riffs de guitarra durante toda a música, o que não é usual na estética do R&B. Na sequência, Pink+White, outra faixa que ganhou o coração dos fãs e com participação de Pharrell Williams na produção, repetindo o sucesso de Sweet Life, do álbum anterior. A canção apresenta uma energia de verão e fim de tarde, o que foi representado na letra e no nome da música. Essa é mais uma letra que trata sobre amor e seus sentimentos. Para encerrar, a faixa tem vocais de Beyoncé fechando o último refrão da faixa [2]. 

“Just the same way you showed me, showed me

You showed me love

Glory from above

Regard, my dear

It’s all downhill from here”

Refrão de Pink+White

 

A seguir, Ocean traz um interlúdio, uma produção que é mais falada, geralmente mais curta e sem foco na questão musical, mas sim na mensagem. Na época era muito raro álbuns de R&B e Rap terem essas pausas para transitar as músicas. O cantor, então, inova ao trazer mais uma novidade à indústria musical. Posteriormente se tornou cada vez mais usual álbuns terem interlúdios em diversos gêneros. Be Yourself é uma chamada telefônica com ensinamentos de uma mãe de um amigo do cantor que dá conselhos a seu filho. Ainda sobre a primeira metade do álbum, Solo trata de solitude e é uma das poucas faixas que tem um ritmo marcado, guitarra e com o cantor se aventurando fazendo rap. Self Control, sendo uma balada de respeito, toca no coração e faz os olhos marejarem, e ainda entrega uma performance vocal impecável de Ocean. 

“Be yourself and know that that’s good enough

Don’t try to be someone else

Don’t try to be like someone else, don’t try to act like someone else

Be yourself, be secure with yourself’

Trecho de Be Yourself 

 

A segunda metade do álbum segue com as mesmas temáticas, porém com uma pegada mais densa, profunda e escura. É possível perceber essa diferenciação graças a produção e a forma como as canções são construídas. Após a parte “escura” de Nights, vem a reprise de Solo, interpretada por Andre 3000 e um cover magnífico de Close To You de Stevie Wonder. A canção tem um auto-tune que multiplica voz em várias notas que formam um acorde e apresenta samples da versão original. Em seguida, o cantor apresenta a sua disposição para explorar os seus impulsos estranhos mais evidentes em Good Guy e Pretty Sweet, trazendo um lado mais experimental na produção. 

E ainda mais canções imersas nas paixões do cantor e no seu passado White Ferrari traz toda uma energia nostálgica. Entretanto, para chegar a esse resultado, foram necessárias 50 versões até que Ocean decretasse qual seria a melhor. Uma das mais longas do disco é Seigfried que fala sobre pensamentos, devaneios, decisões e indecisões. Ao analisarmos a estrutura da canção, ela se assemelha a uma peça teatral, principalmente pela forma que as harmonias são construídas. Ocean se despede com Godspeed e Future Me, canções que apresentam uma sonoridade mais gospel e com as letras sintetizadas em todos os pensamentos que Blonde trouxe. 

“Quando eu estava fazendo o disco, havia 50 versões de “White Ferrari”. Tenho um irmão mais novo de 15 anos, e ele ouviu uma das versões e disse: “Você tem que lançar essa, é essa”. E eu disse: “Não, essa não é a versão”, porque ela ainda não me deu paz”,  disse ao The New York Times. 

 

A produção do álbum ainda entrega a sensação de estar imerso em uma obra de arte por completo. Todas as canções harmonizam muito bem umas com as outras levando em consideração uma coerência geral. Entretanto, todas elas também funcionam muito bem separadamente, a produção de Frank e seus parceiros trouxe muita qualidade à escuta do público.

 

Dualidade e a semiótica por trás de Blonde

Dois aspectos que Frank Ocean trás em seu álbum são a dualidade das coisas e a forma como as informações são apresentadas de uma maneira indireta e por outros meios. A dualidade fica escancarada em Nights, a nona faixa do álbum e que Ocean utiliza para marcar o ponto de virada do trabalho. O tempo de duração do disco é de exatamente 1 hora, e bem no minuto 30, há um ponto de virada extraordinário [3], lembrando até da sua prima do disco anterior Pyramides. A partir dessa transição, o álbum que vinha trazendo temáticas mais românticas e um aspecto mais solar e diurno, começa a apresentar sua face mais noturna, escura e densa. A produção fica mais lenta e com batidas mais fortes, o rap fica mais presente e as músicas mais faladas. 

 

Foto: Capa de Blonde, 2016

 

Blonde, ou “Blond” , como também pode ser chamado, apresenta várias formas de dualidade do próprio artista. Sua bissexualidade, o dia e a noite, o feliz e o triste. Além disso, a semiótica apresentada na capa do álbum retrata extrema vulnerabilidade, portanto a imagem dele chorando ou não é outra representação dessa dualidade. O cenário que remete a um banheiro pode ser considerado intencional por retratar um momento de vulnerabilidade e intimidade, conectando com a mão ao rosto e a carga sentimental que as letras do disco carrega, pode-se compreender que as lágrimas que estariam caindo, se confundem com as gotas de água do chuveiro.

A análise semiótica de Blonde envolve a interpretação de diversos significados, símbolos e signos presentes não só na estética visual do álbum como também nas músicas. A capa pode representar o público e o privado, podendo ainda refletir a complexidade da jornada emocional de Ocean. A Partir da virada de Nights, por exemplo, é possível relacionarmos com uma transição do presente para o passado, sugerindo que experiências anteriores moldam a identidade de um artista. Em Self Control, podemos fazer uma reflexão sobre o tempo, que não podemos controlá-lo, mas que Ocean tenta capturá-lo em momento de introspecção. A semiótica do disco revela um trabalho profundo e introspectivo, além de multifacetado, em que o artista utiliza tanto o som quanto a imagem para explorar questões complexas de identidade, do amor e do tempo. As escolhas estéticas, as letras e a produção sonora estão imersas em uma rede de significados que questionam o papel da música e da arte na construção do eu e na compreensão das experiências humanas.

Liberdade criativa X Gravadoras 

Uma questão que permeia diversos artistas contemporâneos é a sua liberdade para criar sua música e a relação que estes têm com suas gravadoras. Tendo em vista que as grandes gravadoras visam estritamente o lucro, muitas músicas produzidas que saem do padrão comercial, são cortadas pela alta cúpula das empresas. Nesse sentido, uma massa de cantores acaba se tornando reféns e não produzindo o que quer de fato. Na maioria dos casos, os artistas entram nas gravadoras jovens e sem entendimento de contratos e por conta disso, acabam sendo prejudicados no futuro. Em alguns casos pode ocorrer o risco de até perder o direito de uso das suas próprias canções. Citando como exemplo, a cantora Taylor Swift perdeu o direito de utilizar suas músicas mais antigas [4], pois seu antigo escritório vendeu os direitos de suas produções contra a vontade da cantora e sem a possibilidade de compra da mesma. Por conta disso, a artista norte-americana começou a regravar seus álbuns antigos [5] com pequenas alterações, os “Taylor’s Version”, como uma forma de impedir a venda desses produtos e focar nas produções novas.

Além de Taylor, outros artistas como Kanye West, Rihanna e The Beatles passaram por situações semelhantes. No Brasil, Anitta também enfrentou dificuldades relacionadas ao controle de sua carreira com sua antiga gravadora, a Warner Music. Recentemente, ela conseguiu romper o contrato após uma longa negociação pública, alegando falta de liberdade criativa. Esses casos destacam a importância de contratos justos e da posse dos direitos autorais, incentivando artistas a se informarem melhor sobre as implicações de suas decisões no início de suas carreiras.

Nesse sentido, Frank Ocean passou por uma situação parecida com sua antiga gravadora. Seu contrato com a Def Jam previa o lançamento de dois álbuns de estúdio do cantor. Entretanto, mesmo após Channel Orange ser um sucesso, sua gravadora ainda assim mantia uma pressão sobre o que Ocean deveria produzir em seu próximo trabalho e os direitos dele. O cantor então, elaborou uma estratégia ousada e visionária para driblar as imposições contratuais e reconquistar sua autonomia. Ocean cumpriu seu contrato com a gravadora ao lançar o álbum visual Endless, disponível apenas na plataforma Apple Music, e no dia seguinte, lançou Blonde de forma independente, mantendo controle total sobre os direitos e a criação do segundo álbum. Essa manobra não apenas libertou Frank Ocean das limitações impostas por sua antiga gravadora, mas também se tornou um marco na indústria musical. Sua decisão atraiu outros artistas para reconsiderar suas relações com gravadoras tradicionais e buscar modelos de trabalho que priorizem sua autonomia criativa e financeira.

“Você sabe, o sucesso tem que ser como Frank Ocean. Agora, obviamente, você sabe, ele é super popular, mas eu não diria que ele está jogando conforme as regras da indústria. Ele está tocando de acordo com suas próprias regras — ele está fazendo a música que quer, e não se encaixa em um formato. […] Ele não tem músicas que se encaixem nas rádios pop ou que cheguem a um bilhão de streams”, argumentou Jay-Z à Rolling Stone em 2021 [6].

 

Blonde como referência a outros artistas

Como já citado anteriormente, Blonde é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos segundo a Revista Rolling Stone [7]. Isso só se deu graças a qualidade do trabalho de Ocean e o apelo que a obra recebeu do público e da crítica. Tendo em vista disso, o trabalho do artista se tornou referência a quem produz música em diferentes aspectos. 

Através do seu lirismo pessoal, da narrativa íntima e a forma como Ocean se despe sobre as letras que, cantadas ou faladas, podem traduzir sentimentos que não são individuais, o cantor mostra que é possível se apresentar dessa forma. A vulnerabilidade presente do disco promove uma série de identificações entre o público, o que para outros artistas como Lil Nas X pôde influenciar no processo de produção e composição de suas próprias músicas. O cantor já relatou que Ocean influenciou diretamente sobre as questões envolvendo sua sexualidade e a comunidade LGBTQIAPN+. 

“Acho que artistas como Frank em geral e, como Tyler e outros, eles tornaram mais fácil para mim estar onde estou, confortavelmente”, disse Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe em 2020 [8]. 

 

Através da sua autonomia criativa, Frank Ocean influenciou outros vários artistas a repensarem seus contratos e acordos relacionados aos direitos das suas produções. A liberdade criativa é um dos pontos primordiais para que a arte seja mais autêntica, e para além disso, é possível obter sucesso comercial e criativo sem ter um vínculo com grandes empresas por trás. Tornar-se um artista independente é um desafio enorme, mesmo assim, Ocean influenciou outros colegas da indústria musical como Tyler, The Creator. 

“[…] É minha coisa favorita dele. É estranho porque eu sou amigo dele e esse álbum me fez um fã muito, muito, muito fã”, Tyler The Creator, sobre Blonde a Revistas QG em 2016 [9].

 

Pela visão da produção do disco, é possível compreender que a mistura de diversos elementos do R&B, soul, indie e pop proporcionou novas percepções a uma nova geração de músicos que viria a seguir. Isso demonstra a forma como em Blonde os instrumentos e as camadas de voz empregados tiveram influência em álbuns lançados anos depois. Essa estética teve uma influência notável em álbuns como Melodrama de Lorde, onde a narrativa emocional e a produção orquestral se unem de maneira íntima, e When We All Fall Asleep, Where Do We Go? de Billie Eilish, que explora o minimalismo e o uso criativo de camadas vocais para criar um ambiente sonoro único. Ambos os artistas foram impactados pela capacidade de Blonde de combinar introspecção com inovação sonora, reinventando a maneira de abordar gêneros e emoções na música pop contemporânea.

“É sobre essa grande estúpida felicidade e é intenso – eu sinto como se o instrumental nesta canção meio que ajudou a chegar lá […] Neste tipo de paisagem pós-‘Blonde’, nós meio que podemos fazer o que quisermos em termos de instrumental. É animador. Eu posso usar guitarras e ter uma batida deformada de Flume e jogar isso debaixo d’água”, Lorde disse à NME em 2017 [10].

 

Para finalizar, é possível notar o quão importante Blonde foi e continua sendo para a indústria musical contemporânea. O disco atravessa a ideia de ser apenas uma coletânea de músicas e se apresenta como um manifesto profundo e autêntico, além de independente e experimental pela visão do artista. Frank Ocean não apenas rompeu barreiras estilísticas, mas também redefiniu a maneira como os artistas podem expressar sua vulnerabilidade e explorar temas pessoais em suas produções. 

A produção de Blonde influenciou a criação de novos sons, e ainda, inspirou novos artistas a abordarem suas próprias narrativas. Ocean mostra que a música pode ser extremamente íntima, explorando nuances das emoções e dilemas existenciais, sem perder sua capacidade de agradar o grande público que consome música. Além de impactar a sonoridade da indústria musical, o álbum também influencia na liberdade criativa de uma geração inteira de músicos que o encontraram como inspiração para romper paradigmas e mergulhar na sua singularidade.  

Tudo isso demonstra que a música, quando produzida com dedicação e autenticidade, sem se preocupar com métricas e opiniões, pode ultrapassar diversas barreiras, tocando corações e mexendo com a vida de milhões de pessoas por todo o mundo. Blonde é um ótimo exemplo de como a arte e a emoção podem caminhar juntas e criar algo atemporal e universal, reafirmando o papel transformador que a música pode desempenhar em nossa sociedade.

 

Notas:

[1] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79

[2] Beyoncé em Pink+White: https://www.tiktok.com/@onelastlyric/video/7288436470476541189 

[3] Nights, no minuto 3:30. 

[4] Rolling Stone: Taylor Swift perde os direitos de suas músicas: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-esta-enfurecida-com-venda-da-suas-gravacoes-o-pior-cenario-possivel/

[5] Rolling Stone: Taylor Swift regrava seus discos antigos: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-vai-regravar-os-6-primeiros-discos-depois-de-perder-os-direitos-autorais/#google_vignette

[6] Jay-Z em entrevista à Rolling Stone: https://rollingstone.com.br/musica/jay-z-elogia-frank-ocean-tem-algumas-das-melhores-musicas/#google_vignette

[7] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79 

[8] Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe: https://youtu.be/EVYGTPg5BMY?si=NMXXTBU5uCotl7V0 

[9] Tyler, The Creator em entrevista a Revista QG: https://www.gq.com/story/tyler-the-creator-frank-ocean-interview 

[10] Lorde em entrevista à NME: https://www.nme.com/news/music/lorde-frank-ocean-influence-melodrama-2090372

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A celebração dos Jogos Pan-Americanos de Surdos 2024: vivendo a cena musical da festa LiVibe, em Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Ellen Caroline de Lima

 

Es asombroso ver y sentir primera vez eso musico con sordo. 

Posso tirar uma foto disso para inserir no meu texto?, perguntei, após perceber que a síntese do que significava essa noite para ele era, também, minha percepção sobre a festa. 

Claro, respondeu balançando positivamente a cabeça, virando o celular para que eu o fotografasse.

Quando cheguei na esquina do local onde acontecia a festa LiVibe, na sede da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul (SSRS) [1], já era possível ouvir a música que vinha de dentro do ambiente. Parece óbvio dizer, mas o volume era alto, muito alto — a ponto de parecer que eu estava na festa antes mesmo de estar nela. A batida era o que se sobressaía: tum tum tum tum. O volume alto foi ressaltado no momento que desci do Uber, pois o som da música fazia meu coração vibrar.

Eram 22h50. A festa havia começado às 22h do dia 15 de novembro, feriado. Como fora divulgado anteriormente, a festa LiVibe tinha o propósito de celebrar o encerramento dos 6º Jogos Pan-americanos de Surdos, sediado em Canoas entre 10 e 17 de novembro. Embora o evento tivesse os surdos como público-alvo, a participação de ouvintes também era permitida — e incentivada, no caso de ouvintes fluentes em Libras, como era o caso de parte dos voluntários dos Jogos.

Faltando dez minutos para às 23h, havia uma fila do lado de fora, esperando sua vez de entrar. Eram cerca de dez ou quinze pessoas, com perfis consideravelmente distintos entre si: jovens, pessoas de meia idade, mulheres, homens. O que os unia não era a surdez, como depois entendi, mas a comunicação nas línguas de sinais, e a experiência de celebrarem o encerramento dos Jogos Pan-americanos de Surdos a partir da música.

Ainda na fila, a maioria das pessoas conversava entre si, sinalizando. Um homem gentilmente tocou em meu ombro, chamando minha atenção para um carro que estava vindo em nossa direção, saindo do estacionamento para retornar à rua. Ali, imaginei que observar o que estava ao meu redor seria, provavelmente, o único recurso que eu teria à minha disposição para investigar a cena, já que meu conhecimento de libras era limitado e insuficiente para conversar com os participantes da festa.

Após o término da primeira música, marcada por batidas compassadas, outra tomou o lugar. Flowers, da Miley Cyrus, era reproduzida em uma versão remixada. 

O DJ tocar uma música com letra foi uma surpresa para mim. Das muitas suposições que tinha antes de chegar na festa LiVibe, ouvir somente músicas sem letra era uma delas, afinal, não fazia sentido que os surdos cantassem. Quando um homem da fila fez o sinal de “batida do coração” [2] para se referir à sensação decorrente das músicas, pensei que meu raciocínio não fazia sentido, pois, um contato prévio com a letra, além da percepção do ritmo, seria suficiente para um surdo reconhecer que a totalidade de Flowers é composta de letra e ritmo. 

Depois de Flowers, ouvi, ainda no lado externo da SSRS, Unholy, do Sam Smith, e VERMELHO, da Gloria Groove. Aparentemente, o DJ que tocava gostava de pop, com um repertório que mesclava músicas nacionais e internacionais. Estava curiosa para ver como essas músicas eram recebidas no espaço interno da festa.

Conforme minha vez de entrar se aproximava, vi que os seguranças eram ouvintes, pois falavam e gesticulavam para que os participantes aguardassem a autorização para ingressar no local. Esperei e, ao passar pelo portão, fui encaminhada para a bilheteria do lado direito, que dispunha de duas atendentes. 

Tendo comprado o ingresso previamente, apresentei-o em meu celular, com um documento de identificação — seguindo o exemplo dos que estavam na minha frente. A atendente soletrou, em libras, meu nome, e eu confirmei. Então, colocou uma pulseira no meu pulso e perguntou se eu bebia. Afirmei com a cabeça, e ela me entregou um “vale chope”. Por fim, me desejou uma boa festa.

Do lado oposto à bilheteria, estava a entrada propriamente dita da festa. Nesta altura, parece redundante dizer que a música soava alta, mas dizê-lo reforça a novidade de percepção que eu tinha a cada aproximação do local exato de onde a música saía. 

Entrei às 23h07, logo depois que um novo DJ começou a tocar. Todas as batidas vibravam no meu coração. 

O espaço onde a festa acontecia era bem amplo. Era um salão. À esquerda, com luzes brancas, estava o local de retirada de bebidas, com um banheiro em cada lado, e a cozinha aos fundos; à direita, do outro lado do salão e com luzes coloridas, encontrava-se o palco dos DJs, com um telão atrás que transmitia vídeos de quem estava tocando ou imagens relacionadas ao universo musical. Ao centro, uma das portas do salão conduzia para um espaço aberto, ao ar livre, com mesas e cadeiras espalhadas pelo gramado. À direita dessa porta, encontrava-se o caixa exclusivo para a compra e a retirada de chopes.

DJ Hugo tocando na festa LiVibe, com telão reproduzindo um menino de fones

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Me dirigi ao caixa do chope, e descobri que poderia escolher entre pilsen e IPA. Consegui sinalizar o tipo que queria, e entender quando uma das atendentes perguntou se eu tinha certeza da escolha, uma vez que IPA é forte. Assegurei que sim e, em seguida, me sentei com o copo num sofá à esquerda desse caixa. 

Inicialmente, me propus a observar a festa por aproximadamente uma hora, a fim de ter material suficiente para descrever e analisar a cena. As pessoas foram chegando gradativamente, até que, no momento que contei, tinham em torno de cinquenta. Eram, em geral, pessoas mais velhas que eu, que aparentavam ter entre 30 e 60 anos.

As luzes eram similares às de outras festas de casas noturnas, mas o ambiente não era tão escuro. Isso poderia ser justificado pelo fato de a comunidade surda precisar enxergar seu interlocutor numa interação face a face, ou pelo próprio objetivo da festa, de integrar a comunidade participante dos Jogos Pan-americanos, que se encerraria em dois dias. Consequentemente, poucos dançavam, e a maioria dialogava uns com os outros.

Algumas pessoas que passavam por mim me cumprimentavam e, aproximadamente meia hora depois que cheguei, um homem, aparentando ser mais novo que eu, se aproximou para conversar comigo. Sinalizei que era ouvinte e ele, parecendo surpreso, repetiu o sinal, para que eu confirmasse. Vi que ele se afastou, se reuniu com outras pessoas e, em seguida, retornou com um celular.

A aba do Google Tradutor estava aberta, e a ferramenta mostrava as línguas Espanhol-Português. Nos apresentamos e começamos a conversar usando o tradutor de seu celular como base. Algumas expressões e palavras em espanhol eu conhecia, o que agilizava a comunicação, mas, de qualquer forma, digitar desacelerava o ritmo que a música eletrônica tocada pregava. 

Álvaro [3] perguntou se eu tinha ido à festa acompanhada, e expliquei-lhe o que estava fazendo lá. Soube que ele era um dos atletas de futebol da Seleção Mexicana de surdos, e que tinha ido à festa com seus amigos, também atletas do time. Durante a conversa, Álvaro me contou sobre sua vida no México, sua vinda ao Brasil, e as semelhanças e diferenças culturais que notava entre os dois lugares. Também me falou sobre sua surdez, que foi gradativa, e não de nascença — metade de sua família é surda, e a outra metade, ouvinte.

Em especial, Álvaro me disse que era a primeira vez que ia numa festa de surdos em que as músicas tocadas eram diferentes; segundo ele, sempre se reproduzia uma mesma música nas festas de surdos mexicanas. Ele parecia estar muito empolgado com o ambiente, pois olhava para todos os lados e sorria com o que via. Num determinado momento, declarou: Es asombroso ver y sentir primera vez eso musico con sordo.

Fala de Álvaro sobre a festa LiVibe

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Ali, ele se referia à diversidade das músicas e, principalmente, aos DJs surdos que tocavam no evento. Dos quatro integrantes da lineup, três eram surdos: DJ Lenny (@lennyvibe), DJ Phill (@djphill10) e DJ Kuli (@musicbykuli); os dois primeiros, brasileiros e gaúchos; o último, holandês. 

Um tempo depois, em meio a outros goles de chope, fomos para a área externa, onde a música, embora mais baixa, ainda era ouvida por mim. Álvaro me questionou sobre as músicas que gostava de ouvir. Mostrei-lhe a aba de curtidas da minha playlist do Spotify. Sem pensar, devolvi a pergunta. Ele me contou que antigamente gostava de ouvir rap — e citou artistas como 2Pac e Eminem. No meio disso, me contou um pouco sobre as guerras de narcotráfico ocorridas em regiões próximas onde ele mora, e sobre ter perdido amigos para esse cenário.

Conversamos sobre outros assuntos e aprendi alguns sinais da língua mexicana de sinais (LSM). Fui batizada com o sinal para meu nome, depois de ter tido que não tinha um. Percebi, às 2h55 que já tinha tocado Anitta, Onda Onda e Toma Toma Vapo Vapo. Perto desse horário, nos separamos para ir ao banheiro, e, quando retornei, não vi Álvaro.

Me direcionei para o sofá no qual estava antes e, em alguns minutos, Álvaro apareceu dizendo que foi verificar como os amigos estavam — pois um deles estava bebendo demais. Então, me chamou para a pista, a fim de que pudesse aproveitar a música enquanto dançava.

Inicialmente, fiquei um tanto quanto resistente, pois embora já estivesse alcoolizada, não estava preparada para dançar. Contudo, Álvaro me conduziu até a pista, e logo me convenci de que poderia ficar lá por um tempo. Obviamente, esse era o momento da minha vida em que eu tinha ouvido uma música no maior volume possível. Era quase como se meus ouvidos estivessem colados em uma caixa de som. Ali, não era somente mais o coração que ressoava com as batidas da música, mas meus ouvidos: parecia que tinham cordas vibrando no meu ouvindo junto das batidas da música.

Estar na pista de dança me deu outra perspectiva da festa. Antes, o que eu percebia eram pessoas conversando; agora, no meio da “bagunça”, via aqueles que dançavam dando tudo de si. Uma mulher, em frente ao palco, fazia quadradinho durante uma música eletrônica; outra, jogava o cabelo para os lados, ao estilo Joelma; Álvaro pegava em minhas mãos e se movimentava em círculo, como se estivéssemos dançando uma cantiga infantil. Outros, que não dançavam e nem conversavam, estavam na parte central do salão, jogando beer pong.

Consegui conversar com os amigos de Álvaro, que também eram pacientes para procurar entender o que eu queria dizer — e para esperar que eu compreendesse o que eles sinalizavam. Outras pessoas se juntaram a nós e, ao sinalizarem para mim, disse que era ouvinte. Um homem me perguntou de qual cidade era, pois não me conhecia — já que a comunidade surda tem laços sólidos —, e afirmei ser de Porto Alegre. Junto a isso, encontrei outros dois homens:  Simon, que era ouvinte, também de Porto Alegre, e Nino, que era surdo oralizado de São Paulo. 

Após saber que eu era ouvinte, Nino me falou em português que foi para Porto Alegre porque era um dos organizadores da festa, e me contou sobre as festas de surdos que são realizadas pela Deaf Feel. Até então, imaginava que eram eventos isolados, mas descobri que existe uma organização específica para realizar as festas.

Também na pista, prestei mais atenção nas músicas. Apesar de anterior ter notado as que tinham letra, a maior parte das músicas tocadas na festa, pelos quatro DJs, eram instrumentais, eletrônicas e, portanto, muito marcadas pelo compasso, como se nota em um vídeo gravado[4].

Nesse vídeo, para além da música, é possível notar a performance de alguns participantes, que subiram no palco para dançar. 

Quanto aos DJs, há um fato que chamou a atenção: ao contrário dos outros DJs, que mantinham os headphones no ouvido ou apoiados no pescoço, Lenny colocava com uma das mãos seus headphones no peito, balançando freneticamente a cabeça e movendo-se de um lado para outro. Isso me fez pensar novamente na forma como a música é percebida pelos surdos.

Por volta das 4h30, disse para Álvaro que iria descansar um pouco, e ele se ofereceu para ir comigo. Comentei que não precisava, afinal, ele deveria aproveitar ao máximo a festa. Contudo, ele disse que conversar também era uma maneira de fazer isso, e fomos para a área externa.

Conversamos um pouco e…

Às 4h50, fomos interrompidos por um dos seguranças, que apareceu na porta comunicando que a festa tinha acabado. Havia amanhecido. Todas as pessoas que ainda estavam lá saíram da SSRS e, por volta das 5h, não restava mais ninguém dentro do local. Em frente à SSRS, pessoas conversavam; outras se despediam.

Fim da festa LiVibe, com os participantes do lado externo da SSRS

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Álvaro pediu que eu fosse embora antes, pois era mulher e seria mais seguro se me visse entrando no Uber. Me despedi dele e de seus amigos, e fui embora.

Antes que a música tomasse forma, observar uma festa de surdos era uma oportunidade de investigar como se dava a interação dos participantes com os sons, e como isso seria percebido por mim, uma ouvinte. Contudo, os sessenta minutos previstos para a observação tornaram-se quase quatrocentos de conversas, descobertas, álcool e música. Com observação, claro. Às vezes. 

Ouvir, embora importante, já não era o sentido mais usado. Eu podia entender a música pela visão e, mais ainda, pelo tato. Sentir as vibrações no coração e nos ouvidos, depois se espalhando pelo corpo, mostrou que a música pode ser, simultaneamente, uma experiência coletiva e individual.

notas:

[1] A SSRS está localizada na Avenida Dr. Salvador França, 1800, no bairro Jardim Botânico em Porto Alegre – RS.

[2] Cf. https://www.facebook.com/Daniel.aprender/videos/596269562172914/?mibextid=rS40aB7S9Ucbxw6v. Acesso em 21/12/2024.

[3] Com o intuito de manter preservada a identidade das pessoas com as quais conversei, todos os nomes deste texto, com exceção dos DJs, são fictícios.

[4] Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1tNaQ5S-gDczyn_fEf9PeRl15K7MWiItt/view?usp=sharing. Autora: Ellen Caroline de Lima.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Category Is… Voz e Ritmo: o chanter na cena ballroom de Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Lucas Rafael Morel Bordignon

Este texto aborda a cultura ballroom com foco no papel do chanter nas balls. A partir de uma entrevista com Jean Carlo, um chanter, será possível compreender a importância dessa figura na criação da energia e dinâmica das balls. Além disso, o estudo inclui uma análise da última ball do ano, a Jingle Ball, com temática natalina, proporcionando uma visão prática e detalhada do evento e da atuação do chanter no contexto local de Porto Alegre.

 

A Categoria é: Ballroom!

O presente trabalho não se propõe a fazer uma revisão histórica do que é a Ballroom, mas sim, discutir questões da cultura ballroom e dos papéis dentro dela. Ainda assim, é preciso compreender o contexto de onde veio a Ball.

Inicialmente, a cena ballroom era uma espécie de paródia do mundo clássico da alta-costura das marcas de moda que promoviam a gentrificação. Era uma cultura underground criada por e para pessoas LGBTQ negras e latinas vivendo em Nova Iorque no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 (a ballroom desde então tornou-se internacional).

Criando um espaço de resistência, pertencimento e expressão artística. Nesses eventos, os participantes competem em categorias como runway – desfile e catwalk – vogue – a dança – e face – que refere-se a exibir um rosto impecável e expressivo, como se fosse um modelo de alta-costura. Cada categoria desafia diferentes formas de expressão corporal, estética e performance, promovendo a criatividade e a autoafirmação. Segundo nosso entrevistado Jean Carlo, quando a Ballroom chega no Brasil, é quando começa a existir novas categorias além das tradicionais, como “Passinho” e “Samba no pé”. 

 No Brasil, essa cultura tem ganhado espaço em diversas cidades, incluindo Porto Alegre, onde casas de ballroom como Leopardos, Harpia e Atrevida promovem balls que celebram a diversidade e a criatividade de suas comunidades. 

“O conceito de House (casa, em  português) dentro da ballroom significa  um   sistema   espelhado   no   parentesco,   estruturas   de   família   que ressignificam  o  cenário  familiar  biológico,  formando  relações  entre  sujeitos  com objetivo de  unificá-los,  ou  seja,  quando  um  participante ballroom adentra  em  uma House,  ele compete  em  nome  daquela  rede  específica  unificada  de  família. Essas Houses seguem    uma    funcionalidade    com    uma mentora/mentor   (estes   servindo   como representação de   Mãe/Pai)   e   seus   demais participantes.[1]” (ESTEVAM, ET AL, pg. 5)

 

As lendas e ícones (um título atribuído ao nome de um indivíduo para mostrar anos de trabalho árduo, impacto e troféus conquistados na ballroom) são concedidos a tal prestígio porque dedicaram anos lutando e resistindo contra um sistema heteronormativo, para que eles e outros como eles pudessem viver livremente como seus verdadeiros eus. Além disso, a ballroom é um espaço político, onde questões relacionadas a gênero, sexualidade e racialidade são ressignificadas. “O Ballroom é um ato político, que projeta uma realidade onde grupos que não têm acesso a determinados espaços e profissões possam mostrar sua capacidade e habilidade de viver todas as experiências que a cidade lhes nega” (Correia, 2022, p. 03).

A Ballroom, mais do que uma prática estética, é uma prática subversiva e emancipatória. Ao desafiar os estereótipos tradicionais de beleza e identidade, ela oferece uma plataforma para indivíduos que são marginalizados e excluídos por suas identidades de gênero e orientação sexual, permitindo que expressem sua autenticidade de forma criativa e poderosa.

 

Chanting

Na Ball, há três figuras que fazem uso do microfone: o Mestre de Cerimônias, o Chanter e o Commentator. O “MC” é aquele que faz os avisos, que apresenta a cultura para quem não conhece, que faz as introduções. O Chanter é pura musicalidade, que faz o “canto” para os performers. Já o Commentator é como um narrador para as categorias de “face” ou “best dressed”, onde o performer não precisa dançar, mas sim, servir algo. Idealmente, estes três deveriam ser pessoas diferentes, mas, Jean comentou que isso nem sempre é verdade, diversas vezes ele tem que fazer os três papéis. 

Jean Carlo, estudante de Jornalismo – fabicano – e Prince da Casa dos Leopardos, tem 24 anos e está inserido na cena de ballroom de Porto Alegre há 2 anos. Como Chanter, ele se tornou uma das principais fontes desse trabalho para entender essa figura tão essencial na cultura da ballroom, especialmente considerando a falta de estudos acadêmicos que abordem sua função. Sua experiência de vivência e sua perspectiva pessoal têm sido fundamentais para preencher essa lacuna, oferecendo um olhar mais profundo sobre o papel do Chanter da cena local.

O chanter precisa ter senso rítmico apurado e uma compreensão das dinâmicas de cada categoria para criar versos que dialoguem com a performance. Além disso, o chant frequentemente incorpora elementos da linguagem vernacular da comunidade, como gírias e expressões culturais. “Tem que ter muita musicalidade pra ser chanter”, diz Carlo. 

 

De Rihanna à Raça Negra

Quando perguntado sobre o uso do inglês nos chants, Jean Carlo comentou sobre a sua rotina de estudar os áudios das balls no SoundCloud, uma plataforma que oferece gravações de categorias inteiras de ballrooms. Para Jean, essa prática não é apenas uma forma de aprendizado, mas uma maneira de absorver as nuances da linguagem própria da cena. A imersão no idioma é essencial para entender o vocabulário único da ballroom, que é transmitido principalmente em inglês, mas que vai além da mera tradução, conectando os participantes através de um código comum.

JEAN: Eu ouço muito, é algo que estudo bastante. Eu uso o SoundCloud para isso, porque eles colocam muitos áudios de ball. Assim, consigo ouvir categorias inteiras lá. E o mais interessante é que, ao ouvir esses áudios nos meus fones, consigo visualizar o que está acontecendo. Isso é muito ‘babado’, porque a ballroom tem um linguajar muito próprio. Às vezes, quando tem pessoas novas na ball, eu falo: ‘The next category is… femme queen performance! When the beat starts, you start, let’s go!’ E aí começo: ‘femme queen performance, tens, tens across the board! Anybody else? Anybody else?’ Essas pessoas não vão entender o que estou falando, mas para mim isso é muito nítido. Eu falei a próxima categoria, é ‘femme queen performance’, eu sei o que significa. ‘Ten across the board’, ‘sim’ da mesa toda. ‘Serve your cunt, serve your pussy’, ‘feminine-a cunt’. Esses linguajares são naturalizados para a gente, que entende. Então consigo visualizar, apenas ouvindo o áudio de uma categoria. E todos os áudios são em inglês, então a gente acaba pegando essas expressões. Eu gosto muito de trazer diferenciais para as balls. Quando trago referências musicais, a galera vem junto, e isso eleva o clima da ballroom.

Esse processo de internalização dos termos, como “ten across the board” ou “serve your pussy”, faz com que ele tenha um domínio completo do vocabulário, que, embora seja em inglês, é apropriado dentro da cultura ballroom. Quem não entende agora, vai passar a entender com o tempo, à medida que participar de mais balls e se familiarizar com o linguajar e as práticas que o cercam. Assim, a linguagem se torna uma parte essencial da vivência e do aprendizado dentro desse universo, criando uma sensação de pertencimento e compreensão para os envolvidos na cena. E destacou a importância de trazer o jeitinho brasileiro e referências brasileiras para os chants. 

JEAN: Tipo, eu falei: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental, Kiara, você é sensacional.’ A referência disso é a música ‘Raça Negra’: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental… […] Eu acho que é uma forma da gente abrasileirar, também.

Por fim, ele destacou como a ballroom, embora internacional, não deixa de se conectar com outras expressões culturais dissidentes do Brasil. 

JEAN: A Ballrom é aquela coisa de roda, todo mundo dançando, cantando, energia e celebração. E isso não foge muito de uma roda de capoeira, por exemplo. Não foge muito de um samba, de um baile funk. […] Então quando ela chega aqui, ela se mescla com todas as coisas que a gente tem aqui. Então eu acho que é fundamental a gente também abrasileirar e dar a nossa identidade.

JEAN: Eu quase sempre faço chants em português, ultimamente eu tenho colocado umas refs mais em inglês, como tipo Rihanna, pegar umas músicas tipo Bitch Better Have My Money. Então fazer chants com essas mais populares, sabe?

O que torna a ballroom única, no contexto brasileiro, é sua capacidade de se integrar com outras formas de expressão cultural, criando uma versão abrasileirada dessa prática, que respeita as raízes locais ao mesmo tempo em que abraça a globalização da cena.

A Arte de Servir

O “serving” na ballroom é o ato de entregar algo com total autenticidade e confiança, seja através da dança, do vestuário ou do comportamento. Esse conceito é central na cena ballroom, pois não se trata apenas de exibir uma performance, mas de apresentar um “eu” genuíno e empoderado, algo que é profundamente valorizado dentro desse espaço. Para muitos participantes, especialmente aqueles que fora da ballroom estão marginalizados ou invisibilizados, o “serving” é uma forma de reivindicar sua presença e afirmar sua identidade de maneira plena. 

Na ballroom, o “serving” se torna um meio de resistência e autossuficiência, pois permite que o performer, ao demonstrar sua verdade, desafie as normas de gênero e beleza que a sociedade impõe. Assim, esse ato de “servir” vai além da performance, funcionando como uma poderosa afirmação de ser e de existir de forma autêntica, independente das limitações impostas pelo mundo exterior. 

In Butch Queens Up in Pumps, Marlon Bailey descreve a ballroom como um espaço social criado pelos seus membros. Este espaço, que engloba uma ampla gama de indivíduos diversos em gênero e sexualidade, proporciona um senso de validação e segurança. Os únicos aspectos definidos da ballroom são as categorias, que permitem uma ampla inclusão. Estas variam em temas como Realness, Face e as conhecidas categorias de dança como old way, new way e vogue femme.

O vogue femme é uma dança que mistura exagero e graça, influenciada por estilos como ballet, jazz, dança moderna e, especialmente, pela corporalidade das travestis. O chant de Jean no Jingle Balls, com as frases “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” e “serve pussy to me”, se conecta diretamente com o conceito de vogue femme, uma das formas mais fluidas e poderosas de expressão dentro da ballroom. 

O vogue femme é, por si só, uma manifestação da fluidez de gênero, onde o performer traz a “essência feminina” para sua dança, independentemente de sua identidade de gênero. A expressão “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” é uma afirmação de que a feminilidade é uma performance, algo que pode ser vivido e expresso por qualquer corpo, sem a necessidade de se conformar aos padrões biológicos ou sociais de gênero. Essa frase também faz um comentário sobre como a ballroom, e o vogue femme em particular, desconstrói as normas sobre o que significa ser mulher ou mulherizada, permitindo que qualquer pessoa, independentemente de sua identidade de gênero, possa acessar e expressar essa feminilidade de forma autêntica.

Já a expressão “serve pussy to me” dentro desse contexto funciona como uma afirmação de poder e domínio, uma espécie de desafio e interação com os competidores. Em muitos contextos de vogue femme, termos como “pussy” e outros relacionados à sexualidade são usados para enfatizar a performance, a confiança e a presença no palco, estabelecendo uma troca simbólica de energia entre o dançarino e o público. A frase tem o efeito de intensificar o momento de performance, quase como um comando ou afirmação de que o performer está oferecendo sua “essência feminina” de forma plena e sem restrições.

 

Jingle Ball’s rock! 

Este não foi meu primeiro ball, mas definitivamente foi um dos mais divertidos, principalmente pela temática envolvida. A energia do evento foi contagiante, e o clima fez toda a diferença na experiência. O ball mais impactante que já fui, sem dúvida, foi o da visibilidade trans que aconteceu no começo deste ano, em janeiro. Aquele foi realmente especial. A emoção de estar ali, vendo tantas pessoas trans se sentindo vistas e celebradas, foi algo que ficará comigo para sempre. Por outro lado, também já fui em uma ball que foi uma decepção. Apesar de ter conseguido um ótimo lugar para enxergar as apresentações, o espaço era totalmente inadequado – sujo, e muito desconfortável. A energia do evento ficou comprometida pela falta de cuidado com o ambiente, e acabei saindo mais cedo porque não consegui suportar a situação por mais tempo. Essas experiências me mostraram como o ambiente, a organização e a energia do lugar podem transformar a vivência de uma ball.

A Jingle Ball, organizada pela Casa Atrevida, foi o último evento de 2024, realizado no Workroom Bar em Porto Alegre. O Workroom Bar tem ótima estrutura, então a ball ocorreu de forma quase impecável. Com temática natalina, a ball começou por volta das 17h30 e terminou às 21h30. O ingresso custou 36 Reais  meu maior gasto nessa noite. As cadeiras em um ball são distribuídas de forma que criam uma estrutura semelhante a uma passarela, centralizando as performances. No meio, fica uma área livre, onde os participantes desfilam ou dançam, como em um desfile de moda de alta-costura. À esquerda e à direita dessa passarela, estão as fileiras de cadeiras, que acomodam o público. Os jurados ficam em uma posição privilegiada, observando de perto as apresentações. A disposição das cadeiras ao redor da pista é pensada para garantir que todos possam ver as performances de maneira clara, ao mesmo tempo em que o espaço central, livre, destaca a principal atração: as competições, que imitam a grandiosidade dos desfiles de moda, com foco nas expressões corporais, visuais e de estilo.

A equipe foi divulgada no Instagram, são escolhidos para ser jurados pessoas que tem bastante tempo na cena ou são reconhecidas pelos seus trabalhos e reconhecimentos. O mais interessante é ver que, além de julgar, os jurados dão dicas, principalmente para os iniciantes. Os jurados da Jingle Ball foram Luís Enrique, Prince Fênix Negra, a Manuela Mulan da House of Hua Mulan (Chapter Brazil[2]), e a Mother Ally de Atrevida. A Manuela Mulan teve uma fala sobre o femme vogue, lembrando os participantes de quais eram os cinco elementos antes que eles fossem competir, para dar uma chance de melhoria nas performances. Tiveram dois MC’s da casa de Atrevida: Luna de Atrevida e Haute de Atrevida. E o Prince Jean Carlo Leopardo como chanter, e o DJ Prince Tsunmi Cabal. 

Primeiramente momento foi o rollcall, onde as casas presentes são chamadas para performar, destacando os membros que compõem a cena. É uma forma de celebrar os participantes. Nessa hora muitas vezes o público grita chants “da casa”. Por exemplo, o chant da casa Leopardo: “Ih, ala, Leopardo vai te pegar”.

Nesse ball, as categorias incluíram Face, Posing, Baby Runway, Baby Vogue, Lip Sync, Beginners Performance, Runway, Best Dressed, Vogue Performance e Mother vs. Mother. Na Mother vs Mother, as “figuras maternas” das casas podiam competir com as outras, o equivalente a um duelo de titãs para os nerds – e a vencedora dessa categoria foi a Ávine, da casa Leopardos. 

A melhor de todas, na minha opinião, foi o Lipsync. É uma das categorias mais conhecidas e adoradas, e com esse tema natalino, com músicas de Natal, só melhorou. Teve lipsync de “Então é Natal” da cantora Simone, e uma batalha com “All I want for Christmas is You”, da Mariah Carey. Os jurados ficaram indecisos então a batalha se repetiu com “Santa Tell Me”, da Ariana Grande. 

Um momento marcante foi o confronto interno da Casa Atrevida, onde membros competiram entre si nas categorias Runway e Vogue Performance. Isso acontece poucas vezes, pois quando dois membros da mesma casa sobram – no contexto de competição e mata-mata –  a casa leva o prêmio, então, foi definitivamente um momento a lembrar: pessoas que se vêem como família em uma pequena competição saudável.

Pela energia e entrega, esse ball merece 10 de todos os jurados (ten across the board).

 

TEN ACROSS THE BOARD

Competir na ballroom é sobre a capacidade e determinação de um indivíduo em ser irrestritamente ele mesmo, usando moda, movimento corporal e performance. O ball tem uma energia única que é realmente contagiante. Desde o momento em que você entra, é como se a atmosfera pulsasse com a vibração de cada movimento, cada passo e cada expressão. A intensidade dos participantes, a paixão nas performances e a interação entre o público e os competidores criam uma dinâmica que te envolve completamente. Sempre que saio de um ball, me sinto inspirado e com uma vontade imensa de ser parte daquilo de maneira mais ativa. A dança, especialmente o voguing, me fascina de uma forma que me faz querer aprender cada vez mais, não apenas pela técnica, mas pela forma autêntica com que os dançarinos se expressam. É impossível não sentir o desejo de melhorar, de entrar mais profundamente nesse universo e aprender a dançar como eles, de forma cheia de emoção e fluidez.

Cada detalhe, desde a escolha das roupas até os movimentos mais sutis, é uma declaração de identidade, e isso é o que torna o ambiente tão envolvente. Não é só sobre a competição em si, mas sobre a experiência compartilhada, onde cada participante e espectador se sente parte de algo maior. A energia é tão forte que, mesmo para quem está apenas assistindo, é quase impossível não ser contagiado. A forma como as pessoas dançam e se movem no espaço, sem medo de mostrar quem realmente são, faz você querer entrar na pista e deixar sua própria marca. O vogue, com sua fluidez e exagero, é especialmente encantador, pois vai além da técnica – é uma linguagem corporal que comunica poder, liberdade e autenticidade. Esse desejo de aprender e de se conectar ainda mais com esse universo sempre cresce a cada ball que participo, como se cada evento fosse uma oportunidade de me aprofundar mais e de vivenciar a ballroom de maneira mais intensa.

Pela energia contagiante, esse mero espectador dá ten across the board!

Notas:

[1] Filhas, Filhes, Filhos, além de Imperatriz, Imperador, Princesa e Príncipe.

[2] Chapter: refere-se a uma subdivisão de uma casa específica dentro da cena. Cada capítulo tem sua própria identidade, membros e uma maneira única de se expressar. Os capítulos podem ser de outros estados ou outros países.

REFERÊNCIAS:

  ESTEVAM, A. L. G.; GERALDES, E. Vogue, logo, existo: A comunicação política-corporificada da Ballroom. Anagrama, v. 15, n. 1, p. 1–13, 28 jun. 2021.

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Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A unidade musical de Esteban Tavares

Make Fabico Weird Again #1

por Diego Zapata de Oliveira

 

O álbum “Saca la Muerte de Tu Vida”, composto por Esteban Tavares, funciona quase como um autorretrato da alma do autor em forma de som e poesia. Por meio de composições que expressam seus sentimentos mais íntimos e que são compostas por instrumentos, ritmos e ideias que fazem parte da música de diferentes culturas que influenciaram a vida do músico, ele consegue nos fazer emergir tanto poeticamente quanto sensorialmente nas complexidades do seu ser. Dessa forma, Tavares amarra todas os elementos expressivos de suas músicas em uma unidade, que é esse álbum, e que representa seu ser. Uma constante declaração de um homem que tenta comunicar seu interior de uma maneira que palavras sozinhas não conseguem.

Por mais íntimo que seja a obra de Esteban, o conteúdo que essa traz à tona não cai muito distante de várias lamentações até que comuns no MPB, se pensarmos como exemplo Legião Urbana. A temática do “homem contemporâneo deprimido” que sofre pelo sistema capitalista que o oprime e enquadrada suas relações de amor nessa vida já não é algo tão novo. A reivindicação ao sistema não é completamente explícita em todo o álbum, mas isso claramente está presente e aparece em alguns momentos com mais força, como na faixa  Carta aos desinteressados e outros mais sutis (Janeiro). 

Ainda assim, o principal norte do compositor é a desilusão amorosa. Todas as músicas são praticamente uma lamentação diferente de um amor que já se partiu. É quase como se toda a obra fosse uma constante tentativa do próprio Esteban de implorar para que as coisas se consertem, uma aclamação de alguém que não consegue aceitar que algo acabou e não segue em frente, mas parece tentar. Em alguns momentos o eu lírico parece mais confiante da possibilidade do conserto de tudo, e em outros parece completamente desolado.  

Há algumas exceções que trabalham outros sentimentos e emoções, como Me sinto humano, que fala de instintos mais intensos e, mesmo assim, ainda se encaixa nessa unidade estilística que reflete o âmago do ser de Esteban. A faixa Se não contém nenhuma letra e, talvez não coincidentemente, consegue ser uma das músicas mais alegres do álbum inteiro, perdendo talvez somente para Cigarros e Capitais. 

Combinando essas duas ideias, além de outras que giram em torno desse espectro, a obra propõe reflexões a respeito de problemas da vida contemporânea, como a efemeridade do amor, a opressão para se encaixar dentro de um sistema, solidão, e falta de propósito. É como se o eu-lírico de Esteban quisesse se livrar de todas as amarras invisíveis que predem o seu ser por conta de uma dor decorrida da desilusão amorosa. Uma alma em rebelião por conta, segundo o próprio autor, da tragédia anunciada que é o amor. 

Junto da prosa de suas músicas, a composição se amarra de forma muito natural, forte e ressignificativa. As melodias contêm influências da música gaúcha, argentina, uruguaia e do rock estadunidense. O primeiro elemento de expressão que merece destaque é a gaita de Tavares, instrumento extremamente intrínseco na música gaúcha e países vizinhos. Para quem conhece o instrumento mais familiarmente por essa convenção, ao escutar Saca la Muerte de Tu Vida, a impressão que fica é que sua função expressiva ganha um significado totalmente novo. Quem apresentou a gaita para Esteban foi a cultura gaúcha, mas a gaita que vemos não é a que foi apresentada para ele, mas sim aquela que foi criada dentro dele. Ela é quem rege o tom predominantemente melancólico que arrasta praticamente todo o álbum, como se fosse o violino do Titanic particular do autor. Isso quando também não funciona como uma mensageira do caos, um elemento que anuncia uma tragédia já reconhecida (Chacarera da saudade). Sem sobra de dúvidas é um dos instrumentos mais criativamente bem usados. 

Ao lado de sua gaita, as influências do rock estadunidense transformam as angustias de Esteban em uma declaração emocional potente. Quase todo o álbum é elevado a uma intensidade que funciona na medida certa, sempre dialogando com os outros elementos sonoros expressivos que o autor traz. Certas faixas vão a um tom similar ao rock em termos de composição (Me sinto humano) e outras buscam essa referência mais na maneira forte e alta que certas frases são expressadas. No geral, é essa inspiração que traz uma força necessária em meio a desolação para sentirmos o grito e a necessidade de que as coisas mudem, ou, pelo menos, se concertem. 

Olhando para suas inspirações na música uruguaia e argentina, Chacarera da saudade, Chacarera 2, Tango novo (Nada impede a onda de passar) e Martes são com certeza as faixas mais carregadas com essas duas culturas. Martes é simplesmente uma música com a letra toda em espanhol, um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Chacacera da saudade e Chacacera 2 são músicas bem parecidas com letras quase idênticas, é como se fossem uma a releitura da outra. A palavra “chacacera” é o nome de uma dança popular originária do noroeste da Argentina desde o século XIX.  Ambas são melancólicas, mas Chacacera da saudade se assume com um tom completamente melancólico e desolado no seu som, enquanto Chacacera 2 também preserva um pouco disso, mas se identifica muito mais com um tom latino que lembra mais as características da chacacera. Dessa forma, a segunda versão traz até um ar mais romântico ao invés de uma desolação.

Aproveitando a deixa da pequena análise das músicas com influencia latina, venho apontar as músicas que para mim mais se destacam, começando com Janeiro.

Janeiro 

A faixa começa calma e cresce em dois momentos que o eu-lírico se refere para, provavelmente, algum amante, pedindo que ajude ele a sair de suas angustias. Esses saltos na intensidade, que procedem a uma construção calma de lamentações, se tornam um grande e romântico pedido de ajuda. Melodias que, talvez em um cenário em que considerássemos essas falas como não musicais e ditas na vida real e por alguém real, seriam substituías por sons de choro bem menos belos e poéticos.

Martes

Única música em língua espanhola e provavelmente a mais otimista em termos de relacionamentos amorosos, pois, como já foi dito antes, é um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Por mais que todas as músicas saibam juntar organicamente essa simbiose musical de culturas que Esteban propõe, Martes é a faixa em que todos esses aspectos conseguem ter seu espaço e se expressarem ao extremo. O principal aspecto disso é o cover de guitarra ao final, após o termino da letra. 

 

Carta aos desinteressados 

Sendo essa a música inspiradora para todo esse texto surgir, sem dúvidas é a música mais interessante e reivindicadora do álbum. Aqui, Esteban abre mão de sua temática mais voltada para o amor e encara a sociedade, pedindo que essa o liberte. 

Mais uma vez, Tavares cria uma grande unidade com todos os elementos anteriormente citados e cria uma atmosfera de um mundo distópico, que se torna o maior trunfo da faixa. Ao escuta-la, sensação que é criada é como se ainda vivêssemos em um governo autoritário e essa música é um ato de resistência. Foi a música que mais se beneficiou de toda a ideia que compõe a unidade expressiva do álbum.

 

Chacacera da saudade e Chacacera 2 

Duas versões muito parecidas de uma letra, mas com uma diferença muito crucial: A postura do cantor perante a poesia. Enquanto que Chacacera da saudade, terceira na ordem das faixas do álbum, propõe um tom extremamente desolador e melancólico, estando mais em sintonia com todo o álbum, Chacacera 2, faixa que encerra o álbum, por mais que esse tom ainda existe na melodia, ele é ressignificado pelo canto imponente de Esteban. Agora, a música deixa aflorar suas composições mais latinas, fazendo até nuances de som mais abruptas e seduzentes, abraçando uma pitada do romantismo quente sul-americano. 

 

Saca la muerte de tu vida

Por fim, Esteban Tavares nos oferece um ingresso para uma viagem sensorial e emocional para dentro de ser para presencia-lo tentar achar a saída para tanta lamentação e melancolia. O próprio nome Saca la muerte de tu vida representa essa ideia de superar os problemas do passado e seguir em frente. Na sua ultima música dessa jornada, Chacacera 2, diferentemente da primeira versão Chacacera da saudade, ambas recém comentadas, Esteban apresenta uma postura mais determinado, mais confiante e disposto a enfrentar os demônios de sua alma. Entretanto, Tavares parece que conformar que nunca conseguirá se livrar deles e aceita isso de bom grado. Não é à toa que as palavras de encerramento do álbum são:

“eu não sei ficar só e não quero aprender”.

Referências

NASCIMENTO , Anderson . Resenha do Cd Saca La Muerte De Tu Vida. Galeria Musical, 2015. Disponível em: https://www.galeriamusical.com.br/resenhas.php?url=1019-esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida. Acesso em: 07 dez. 2024. ‌

 

ALOI, André . Saca la Muerte de Tu Vida. Rolling Stone Brasil, 2015. Disponível em: https://rollingstone.com.br/guia-cd/saca-la-muerte-de-tu-vida/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DALCIN, Jurandir . Intenso, “Saca La Muerte de Tu Vida” é o melhor álbum de Esteban Tavares. Portal Comenta, 2024. Disponível em: https://www.portalcomenta.com.br/2024/09/intenso-saca-la-muerte-de-tu-vida-e-o.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DE OLIVEIRA, Dinho. Ex-baixista da Fresno atinge o ápice de sua carreira com novo trabalho. Previamente, 2015. Disponível em: https://previamente.com/2015/06/15/esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida-critica/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024. 

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

 

Do rei Pelé ao Messi Playstation: o futebol também é pop

Segue abaixo o áudio das apresentações da primeira mesa do Clube do Pop na Semana Acadêmica de Comunicação 2011, que ocorreu na Fabico, em 4/10.

Anderson David dos Santos

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Ana Acker

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Apresentação Seminário Clube do Pop.

Márcio Telles

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Acesse sua apresentação com links para vídeos mencionados (Prezi).

Perguntas

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Do rei Pelé ao Messi Playstation: o futebol também é pop

Segue abaixo o áudio das apresentações da primeira mesa do Clube do Pop na Semana Acadêmica de Comunicação 2011, que ocorreu na Fabico, em 4/10.

Anderson David dos Santos

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Ana Acker

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Apresentação Seminário Clube do Pop.

Márcio Telles

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Perguntas

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Virose Gaga

Hoje de manhã passou na MTV o clipe Telephone, da Lady Gaga em parceria com Beyoncè. Eu me lembrei que fizeram um estardalhaço com o lançamento desse vídeo. Lembrei também de várias matérias jornalísticas sobre Gaga que eu li, ouvi, e assisti por aí. Pra quem não gosta, é mais difícil driblar Gaga do que novela das oito. Como um vírus, ela infectou a todos nós.

Os adoradores de pop music, em entrevistas na MTV falam que ela era o que faltava para o mundo Pop, que carecia de uma imagem que substituísse o buraco deixado por Madonna. Particularmente, eu não vejo nenhuma diferença entre as duas. Gaga só ocupou um mesmo lugar, aproveitando que o nosso zeitgeist é um retorno aos anos 80: falta de perspectiva a longo prazo, mas muito vigor para se acabar na noite como se não houvesse amanhã. Uma espécie de cultura da cocaína. Dizer que não aconteceu nada entre Madonna e ela também é de uma imbecilidade tamanha.

Alguém falou por aí que Gaga estava reinventando o jeito de fazer vídeo clipe. Eu digo NOT. Coloquem Telephone e Thriller do Michael Jackson lado a lado, e vocês verão duzentos pontos em comum: referências à filmes, pausas na canção para desenvolver uma narrativa, coreografias esquizofrênicas, participações especiais, longa duração e créditos subindo no final. A verdadeira reinvenção do vídeo clipe acontece na web, por artistas amadores, e aparentemente não pode acontecer através de bandas e músicos que ensejam uma gravadora. Eu já venho falando disso em vários posts por aqui. Mas talvez mais pra frente eu explique melhor essa situação.

Lady Gaga é um movimento pela imagem, não pela música. Não há nenhuma revolução do vídeo clipe por ela, quiçá musical! Se não soubesse que Poker Face fosse dela, poderia jurar que Coronna havia voltado.

Querem fazer dela algo maior do que é, e daí dizem “que não tem como explicar o que ela faz conosco”. Mas nossa época não é uma de revoluções mundiais. Ao contrário do que se fazia em 60 com as músicas de protesto, só ouvimos as coisas porque achamos legais. A estabilidade política e emocional de nosso tempo permite curtimos a estética das coisas, sem se preocupar mais com a finalidade delas. Ninguém compra um Porsche para mudar o mundo. Ninguém que ouve Gaga deve querer a mesma coisa. Só se o envolvimento é de entrega, mas quem pensa assim está fora do nosso tempo: não há uma causa a se aderir.

Se quiserem falar coisas bonitas de Gaga, podem dizer que nem um entusiasta abestado de Igor Stravinski: ela causou uma revolução completa na música e no comportamento das pessoas. O entusiasta talvez não tenha se dado conta, mas uma revolução completa são 360 graus, volta exatamente para o mesmo lugar. E o “mesmo lugar” de onde Gaga surge é o da retórica redundante de que precisamos de um ídolo máximo no mundo da música. Podemos só curtir o som numa boa?