Sobre Larissa Lima

Graduanda em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela UFRGS. Funk e Rap são seus gêneros musicais mais ouvidos, é fotógrafa e pesquisa a periferia como produtora de sentidos.

O pop punk e a representação feminina: Hayley Williams entre barreiras e transformações

Make Fabico Weird Again #1 

por Maria Isabelle de Souza Camargo

O pop punk, um subgênero do rock, destaca-se por suas letras emotivas e
introspectivas, frequentemente associadas ao termo “emo”, que deriva de “emocore”
ou “emotional hardcore.” Esse estilo conquistou especialmente o público jovem,
criando um espaço de expressão para sentimentos de vulnerabilidade e rebeldia. No
entanto, a trajetória das mulheres no pop punk tem sido marcada por desafios e
exclusões. Este ensaio busca explorar como as mulheres são representadas no gênero, investigando dinâmicas de gênero e poder em um cenário predominantemente
masculino, com foco na cantora norte-americana Hayley Williams, da banda Paramore,
como estudo de caso.

As origens do pop punk
O pop punk emergiu como subgênero do rock a partir da fusão entre a energia
crua do punk e elementos mais melódicos e acessíveis da música pop. Ainda nos
primeiros anos do punk, já era possível perceber algumas aproximações entre o estilo e as estruturas da música pop, especialmente em bandas como Buzzcocks e, em
momentos pontuais, os Ramones — como no álbum End of the Century (1980), que
marcou uma fase mais pop da banda. No entanto, é importante destacar que o pop
punk, como gênero propriamente dito, só viria a se consolidar décadas depois,
especialmente nos anos 1990 e 2000, com o sucesso comercial de bandas como
Blink-182, Green Day e Sum 41, que dominaram as paradas e solidificaram essa estética emocional. Nesse período, o pop punk tornou-se um espaço “rebelde”, mas,
frequentemente, refém de normas masculinas, dificultando a inclusão de mulheres na
cena. Embora suas letras abordassem emoções pessoais e vulnerabilidades, o pop
punk muitas vezes perpetuou uma visão predominantemente masculina, seja em suas
narrativas ou em suas representações. Os palcos, bastidores e a indústria foram, em
grande parte, dominados por homens, enquanto as mulheres eram frequentemente
vistas como exceções ou relegadas a papéis secundários.

Representatividade feminina no pop punk
Uma das figuras mais influentes e emblemáticas desse cenário é Hayley
Williams, vocalista do Paramore. Desde o lançamento do álbum de estreia All We Know
Is Falling (2005), ela se destacou como uma das principais representantes femininas do gênero. Enquanto bandas masculinas como My Chemical Romance, Fall Out Boy e
Blink-182 lideravam as paradas, Hayley surgiu como uma voz distinta, enfrentando
desafios tanto da indústria musical quanto dos obstáculos impostos por ser mulher em
um ambiente dominado por homens.

A Trajetória de Hayley Williams e o Paramore
Com o crescimento do pop punk e o interesse das grandes gravadoras em
bandas do gênero, Hayley Williams, ainda aos 14 anos, recebeu uma proposta da
Atlantic Records para seguir carreira solo. No entanto, ela recusou, afirmando que
preferia permanecer na sua banda Paramore e não seguir o caminho individual. Essa
decisão foi bastante significativa, especialmente porque, no cenário do rock, o padrão
predominante era o de mulheres que optavam por carreiras solo, como Avril Lavigne.
Hayley desafiou essa lógica, mostrando que o espaço para mulheres em bandas
também era válido e importante, trazendo um contraponto significativo nesse contexto

“Quando Avril estourou, estimulou o apetite da indústria por alternativas punk para Britney Spears e Christina Aguilera. Eu acho que não teria conseguido um contrato com gravadora se Avril não tivesse acontecido antes” disse Hayley (Portal PopLine, 2020).

Foi Robert John Metzger, representante da Atlantic Records, que defendeu a
escolha de Hayley ao presidente da gravadora, explicando que ela não se via como uma futura pop star como Madonna, mas sim como parte de uma banda. A gravadora
aceitou, permitindo que o Paramore seguisse como grupo e consolidando Hayley como
uma figura pioneira no pop punk, desafiando os padrões desde o início.

Foi em 2004 que o Paramore, formado em Franklin, Tennessee (EUA), assinou contrato com a Atlantic Records e sua subsidiaria Fueled by Ramen, apresentando uma proposta musical que misturava pop punk e elementos de rock alternativo. A voz única de Hayley e sua presença de palco rapidamente ganharam destaque na indústria. Contudo, liderar uma banda em um gênero dominado por homens trouxe desafios. Hayley frequentemente relatava, em entrevistas, que era subestimada, muitas vezes reduzida à sua aparência ou tratada como “o rosto feminino” de uma banda composta na época por ela e mais cinco homens. Isso reflete o sexismo que estava presente na cena musical da época, reforçando a ideia de que as mulheres no pop punk estavam ali para representar estereótipos ou como figuras secundárias.

Esse cenário tem conexão com o movimento Riot Grrrl, que surgiu nos anos 1990 e
lutava contra a objetificação das mulheres no punk e na música em geral. Mulheres
como Hayley Williams, que começaram suas carreiras no pop punk e enfrentavam o
machismo da indústria, seguiram os princípios do Riot Grrrl: denunciar o sexismo,
fortalecer a sororidade e reivindicar espaço na música

“Caras que provavelmente eram uns bons dez anos mais velhos do que eu me assediavam. Lembro-me de tocar no North Star Bar [na Filadélfia] e esse homem gritou “tire a camisa!”, provavelmente 10 vezes. Já tinha acontecido algumas vezes, mas esse cara era super agressivo. Na quinta ou sexta vez, eu percebi que eu é que estava com o microfone. Que eu possuía o poder. Que eu não tinha que ficar quieta” (Williams, Hayley. Rolling Stone, 2020).

Um episódio emblemático ocorreu em 2005, durante a turnê do Paramore no festival
Warped Tour, um festival essencialmente composto pelo gênero pop punk. Enquanto
se apresentava no palco, uma camisinha foi jogada em Hayley, que na época tinha
apenas 16 anos. Esse gesto sexista é apenas mais um dos inúmeros que simboliza a
objetificação das mulheres no pop punk e o desrespeito generalizado que muitas
enfrentavam. Hayley, ao se deparar com essa atitude, denunciou publicamente,
questionando a cultura que permitia esse tipo de comportamento.

O segundo álbum da banda, nomeado Riot! (2007) marcou um ponto de virada na
carreira da banda e na trajetória de Hayley. Com músicas como “Misery Business” e
“Crushcrushcrush,” o disco consolidou o Paramore no mainstream e trouxe à tona
questões sobre a representação feminina no gênero. O título Riot! não foi escolhido
por acaso; ele carrega o espírito de resistência e questionamento que o movimento
Riot Grrrl defendia. Apesar do sucesso, “Misery Business” gerou críticas por versos
considerados problemáticos em relação ao gênero. Anos depois, Hayley decidiu retirar
a música do setlist do Paramore, reconhecendo que os tempos mudaram e como ela
mesma evoluiu em sua visão sobre feminismo e representação. Esse movimento de
autocrítica também reflete como o Paramore e Hayley continuaram desafiando
estereótipos de gênero e se posicionando contra o sexismo na música.

O Feminismo de Hayley Williams
Em meu ponto de vista, Hayley Williams se conecta com a quarta onda do
feminismo, que enfatiza a interseccionalidade e o uso das redes sociais como
ferramentas de conscientização e ativismo. Em seus perfis online (https://www.instagram.com/yelyahwilliams/ ) , ela compartilha reflexões sobre saúde
mental, igualdade de gênero e a importância de criar espaços seguros para mulheres
na música. Sua abordagem direta e autêntica ressoou com fãs ao redor do mundo,
tornando-a não apenas uma artista, mas também uma voz influente para questões
sociais. O podcast “Black People Loves Paramore” (https://open.spotify.com/show/0aNC945DJjS2GbgAqRc1v3) representa isso muito
bem, incluindo o prêmio de melhor podcast musical na UK Music Awards, um reconhecimento importante para a defesa da inclusão e representatividade no pop
punk. O programa busca dar voz a artistas negros que se identificam com o universo
Paramore e a experiência de mulheres na música, discutindo temas como racismo,
feminismo e a luta por maior diversidade no cenário musical. Esse espaço promove um
diálogo essencial sobre as barreiras enfrentadas por artistas negros, especialmente no
pop punk, e como Hayley, como líder da banda, desempenha um papel de destaque
em destacar essas questões.

Além disso, Hayley tem usado sua plataforma para falar sobre as dificuldades de ser
uma mulher no pop punk. Em entrevistas, como a concedida à Rolling Stone em 2020,
ela fala abertamente sobre a pressão para se conformar a padrões estabelecidos pela
indústria musical, além das críticas constantes recebidas por ser mulher em um papel
de liderança. Em um gênero frequentemente definido por sua energia masculina e por
letras que podem reforçar estereótipos de gênero, a presença de Hayley é um lembrete
poderoso de que as mulheres não são apenas espectadoras nesse cenário — elas
também são criadoras e agentes de mudança. “Não quero ser vista como apenas a
garota da banda”, já declarou em diversas ocasiões, reafirmando seu papel ativo e
consciente na construção de um espaço mais igualitário.

A artista destacou que quando sua banda estava surgindo, era alvo constante de comentários machistas e críticas sem fundamento. Uma delas veio de um ídolo dela, o Fat Mike, vocalista e baixista do NOFX

“Fat Mike costumava dizer às pessoas que eu praticava anilíngua (ato sexual que consiste em estimular o ânus do parceiro com a língua ou a boca) no palco quando eu tinha 19 anos. Não acho que isso seja algo punk. Não acho que essa seja a essência do punk. Sinto fortemente que sem mulheres jovens, pessoas de outras raças e a comunidade queer, acho que ainda estaríamos onde estávamos antes.”

 

Hayley Williams e a Evolução do Paramore
Ao longo dos anos, a música do Paramore evoluiu significativamente, incorporando elementos de synth-pop, new wave e influências experimentais. Essa transição é um reflexo da jornada pessoal e artística de Hayley. Em After Laughter (2017), por exemplo, a banda explorou temas como ansiedade, depressão e vulnerabilidade de uma forma mais aberta e sincera do que nunca. Para muitas mulheres, essas temáticas representam uma quebra de barreiras, pois contrastam com o ideal de “força” frequentemente associado a lideranças femininas em bandas de rock. Mais recentemente, Hayley lançou projetos solo, como os álbuns Petals for Armor (2020) e Flowers for Vases / Descansos (2021), que aprofundam ainda mais sua exploração de questões pessoais e emocionais. Esses trabalhos mostram uma artista em constante transformação, disposta a desafiar expectativas e a redefinir seu espaço na música.

A Sub-representação Feminina no Pop Punk
Desde o surgimento do gênero pop punk, a estética visual do “emo” sempre foi
algo muito forte, além das sonoridades. Havia, e ao meu ver, ainda persiste, um
preconceito em relação a esse estilo, marcado por piercings, tatuagens, cabelos
coloridos, franjas “lambidas”, calças justas e uma estética amplamente associada à
masculinidade. Além das questões temáticas, a estética do pop punk também reflete
uma dinâmica de gênero. As roupas largas, os tênis e o visual descontraído foram
historicamente vinculados à masculinidade no pop punk, o que dificultava a
apropriação desse estilo pelas mulheres. No entanto, Hayley Williams e outras
mulheres, como Brody Dalle do The Distillers e Brody Armstrong do The Bombpops,
romperam com esses códigos estéticos, criando uma estética mais autêntica e
diversificada que refletia identidades femininas, sem abrir mão da essência do pop
punk

“Às vezes nós damos entrevistas, passamos um tempão falando e pensamos que as perguntas vão se espalhando de forma uniforme, que o material vai se aprofundando… aí depois da edição aparece só uma pergunta sobre o meu cabelo… Esse é o tipo de coisa com a qual ainda me sinto muito desconfortável,” revelou a cantora no podcast Black People Loves Paramore em 2020  (https://open.spotify.com/show/0aNC945DJjS2GbgAqRc1v3#login ).

Apesar dos avanços, a sub-representação feminina no pop punk continua sendo um
problema. Muitas bandas lideradas por mulheres enfrentam dificuldades para serem
levadas a sério e ainda sofrem com a falta de reconhecimento igualitário em relação
aos homens. A experiência de Hayley Williams reflete tanto os desafios quanto as
conquistas de ser mulher em um gênero dominado por estereótipos

“Parte de crescer cercada por tantos homens significou que — certamente nos primeiros tempos do Paramore — eu estava praticamente com medo de ser uma garota. Eu usava as mesmas blusas que os rapazes usavam, ou o mesmo estilo de sapatos… eu estava desconfortável com a noção de poder me sobrepor. Eu sentia como se qualquer tentativa minha de parecer com uma garota iria resultar nas pessoas não me levando a sério, e isso foi uma perspectiva realmente falha e deformada — uma prática muito ruim para uma pessoa jovem”, disse Hayley para a revista Rock Sound, em 2016.

 

A trajetória de Hayley Williams no pop punk revela uma luta constante contra
as normas de gênero e estereótipos que predominam em um cenário musical
tradicionalmente dominado por homens. Desde os primeiros anos do Paramore,
Hayley enfrentou desafios tanto na indústria quanto na cena pop punk, marcada por
questões de sexismo e desvalorização das mulheres. Sua recusa em se conformar aos
papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres no gênero — como a “figura feminina”
ou o estereótipo da pop star — reflete uma tentativa genuína de redefinir o espaço
feminino no pop punk.

Hayley se destacou não apenas como uma cantora, mas como uma liderança que
buscou questionar e desconstruir essas barreiras. Suas experiências com comentários
machistas e atitudes sexistas, como os incidentes em que foi assediada ou reduzida,
são exemplos de como o pop punk historicamente marginalizou as mulheres. Contudo,
sua resposta a esses desafios, com atitudes como o reconhecimento dos problemas e a autocrítica, revela uma postura de resistência e empoderamento.

Ao longo de sua carreira, Hayley foi pioneira ao abordar temas como saúde mental e
vulnerabilidade, desconstruindo o mito de que mulheres no pop punk devem adotar
uma postura de força inabalável. Suas escolhas musicais e de apresentação também
foram importantes para quebrar estigmas relacionados à estética tradicionalmente
associada à masculinidade no gênero. Mulheres como Hayley ajudaram a construir um
espaço mais diversificado, onde a identidade feminina não é apenas aceita, mas celebrada.

Contudo, ainda existem desafios em relação à representatividade feminina no pop
punk. A sub-representação das mulheres continua a ser um problema, com poucas
bandas lideradas por mulheres recebendo o devido reconhecimento. A história de
Hayley serve como um marco para futuras gerações, mostrando que, apesar dos
obstáculos, é possível reivindicar e consolidar espaços para mulheres na música. Sua
luta é um lembrete de que a busca por igualdade no pop punk não terminou, e
continua a ser um campo fértil para transformações sociais e culturais.

Referências:

HOST. Paramore and Pop Punk Reinvented. Em: Sounds Like a Cult. [S.l.]: Spotify, 2024. Podcast . Disponível em: https://open.spotify.com/episode/5uTanlBqdAJphE6JRTkCGV.

PARAMORE BRASIL. Paramore Brasil. Disponível em: https://www.instagram.com/paramorebrasil/?hl=pt-br. Acesso em: 21 dez. 2024.

FERREIRA, Gabrielle Camille; MESSAGI JÚNIOR, Mário. Pop Punk: Quando o punk rock assumiu o mainstream. In: INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares da Comunicação. XVII Congresso de Ciências da Comunicação na
Região Sul – Curitiba, PR, 26 a 28 maio 2016. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, 2016.

YELLOW BRICK. The rise of 2000s pop punk: exploring the genre’s evolution. Disponível em: https://www.yellowbrick.co/blog/music/the-rise-of-2000s-pop-punk-exploring-the-genres-evolution. Acesso em: 21 dez. 2024.

PAULA, Fabiana de. Mulheres no rock: por que ainda somos tão poucas? Novembro de
2015. Trabalho de conclusão de curso (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

HOLMES, Sequoia. Black People Love Paramore Podcast. Disponível em:
https://open.spotify.com/show/0aNC945DJjS2GbgAqRc1v3. Acesso em: 21 dez. 2024.

Rolling Stone. (2020). Hayley Williams reflete sobre o feminismo, o pop punk e os desafios enfrentados como mulher na música.
Disponível em:[https://rollingstone.com.br/musica/o-grande-problema-da-atual-nostalgia-do-pop-punk-segundo-hayley-williams/]

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

IDENTIDADE RITMADA ── ✦ de festa a baile

Make Fabico Weird Again #1 

por Larissa Lima da Silva

Essa entrevista é fruto da interação de um dia acompanhando a rotina de uma DJ em Porto Alegre. A DJ Elle P[1] e eu, Larissa Lima, fotógrafa e estudante da disciplina de Comunicação e Cultura, ministrada por Marcelo Conter — disciplina essa que motivou a ideia deste rico encontro.

foto: dj elle p at festival chisme x @larissalima.ph

Desejo que você leitor seja atravessado por esse diálogo rico de intimidades e vivências compartilhadas entre duas mulheres negras. Característica essa que notei ser exceção no momento em que conduzia nosso diálogo, naquele espaço majoritariamente branco que ocupávamos, com nossos corpos, inteligências e tecnologias por nós dominadas[2] — sejam as pickups por Elle P ou a câmera e o intelecto acadêmico por mim. Além disso, estávamos conscientes de que nossas presenças, por si só, já diziam muito, antes mesmo das palavras a seguir serem pronunciadas.

Conheci a DJ Elle P enquanto curtia um típico sábado com amigas no bar El Aguante[3], meses depois, chamei-a com a proposta: “Me dá a honra de uma entrevista?!”. Foram alguns dias até receber uma mensagem dela me chamando para fotografar um set no Festival Chisme. Foi nesse quase causal duplo “sim” que, entre um set e outro, conversamos, passamos o dia e terminamos a noite. Ao todo, foram 12 horas na companhia uma da outra. Elle, que bom o nosso encontro. Vida longa à nossa conexão!

Essencialmente, desejo que o leitor parta deste ponto crucial: a música, que me apresentou à nossa DJ, esteve presente durante todo o dia, nas 12 horas que passamos juntas, seja como elemento principal ou como trilha sonora ao fundo. Seja pelo festival, rádio de Uber, bar, casa noturna ou o setzão sincero de funk sinistro ritmado pelo DJ Jorginho[4], seguido de um B2B Elle P + Faylon[5] que encerrou nossa noite com muita classe. Faço questão de citá-los, uma vez que sou também apaixonada pelo set desses caras desde que os conheço de outros rolês, e também eram opções consideráveis para este estudo.

Digo isso para que, junto a mim, você perceba que toda experiência de vida se relaciona à música que ouvimos, que preferimos, e que a influência de tantos fatores transversais levam nossa DJ e tantos outros a alcançarem os resultados que alcançam no seu som.

Poeticamente, vejo algo dentro deles que forma sua própria frequência interna. Essa frequência passa de sua alma e atravessa a ponta de seus dedos, por fim eletrocutando todo o ambiente e nos atingindo. É assim que me sinto vendo Elle P, Jorginho e Faylon em todos os seus ângulos — do palco, ao seu lado ou da plateia — mandando suas energias, que encontram aqueles que vibram na mesma frequência.

foto: tocando o terror x @larissalima.ph

O dia foi 30/11/24, e o programado era: às 16h, set no Festival Chisme[6], que aconteceu no Jockey Club (local onde gravamos essa conversa); às 23h, set no Atlanta[7]; e às 2h, set B2B na festa de aniversário de 2 anos do Pito[8], que rolou na quadra da escola de samba Fidalgos e Aristocratas. Alguns trechos dessa conversa/entrevista foram rasurados para manter os limites estabelecidos por mim e em respeito à minha entrevistada e aos estabelecimentos, por acaso, citados.

Por fim, a proposta deste texto também é tornar pública a voz de duas mulheres negras — entrevistadora e entrevistada — com foco na entrevistada, que compartilhou suas vivências com detalhes que emergiram dessa experiência de troca quase que antropológica entre nós. Nesse sentido, reafirmo nossas identidades com a certeza do valor de identificação para outras/es/os como nós. Por fim, encho os rodapés de caminhos para que nossas referências sejam por você também acessadas.

Que a conversa comece.

Elle P: (…) Para mim, era muito distante. Eu morava no morro, não tinha independência financeira e ainda era menor de 18 anos. Hoje tenho 21, mas, na época, eu tinha uns 16 ou 17. Além disso, eles demoraram um pouco para começar o projeto da Natura Musical[9], porque eu precisava ter 18 anos para participar. Eu ia fazer 18 em agosto e o projeto começava em julho, então esperaram um pouco para que eu pudesse participar.  

Larissa: Tá, e aí você entrou na oficina?  

Elle P: Sim, eram workshops. Teve os workshops de discotecagem, e foi lá que comecei a tocar e aprender. Claro, até hoje continuo aprendendo, mas aquele foi meu primeiro contato real com a discotecagem. 

Larissa: E daí eles esperaram para você tocar no Natura?  

Elle P: Não, o projeto Feijoada Turmalina[10] foi financiado pelo Natura Musical. Eles foram selecionados e fizeram o projeto. Era uma oficina de discotecagem, mas também tinha produção musical, marketing, gestão de carreira e várias outras coisas que agora não lembro bem. Foi muito massa na época.  

Larissa: Como você ficou sabendo? Foi pela internet?  

Elle P: Sim, foi pela internet, acho que através deles e pela Suelen. Ela fazia parte desse coletivo e agora está em São Paulo. Você conhece a Suelen Mesmo[11]?  

L: Conheço, não pessoalmente, mas já presenciei um set dela…  

E: Ela é minha maior referência como DJ. Foi um pouco por causa dela que comecei a tocar. Sempre quis, desde pequena, mas achava que isso era coisa só para homens ou para quem já tinha muita estrutura. Quando era pequena, eu dizia que seria ‘o’ DJ Elle P da 23 (risos). Coitada, muita loucura, né? (risos) É engraçado lembrar disso. Depois, um ano depois de começar a tocar, descobri que meu avô também era DJ. Ele faleceu antes de eu nascer. Eu não sabia disso. Só depois descobri que ele também era DJ e tocava em festas. Ele não tinha nome artístico nem nada, mas tocava em festas de Black Music, o que era muito legal. Descobrir isso foi incrível, porque eu nunca soube antes. Não foi algo que pensei, tipo: ‘Vou seguir os passos do meu avô’, porque eu nem sabia disso.  

L: Como tu ficou sabendo? Isso veio à tona depois?  

E: Sim, minha mãe e minha avó começaram a comentar. Minha mãe disse: ‘Ah, teu avô também tocava!’ Foi quando ela começou a perceber que eu estava levando a sério e que estava dando certo. Daí começaram a falar mais sobre isso. Ele tinha muitos discos e também o toca-discos. Volta e meia, minha mãe me vê tocando ou estamos ouvindo música juntas, e ela comenta: ‘Ah, teu avô tocava muito essa música’. Foi assim que descobri. Mas o que realmente me fez começar foi a Suelen e o projeto do Turmalina[12].  

L: E, desde quando você começou até agora, você sente uma presença feminina mais forte nas lines?  

E: Sim, acho que sempre teve. Eu comecei há apenas dois anos, vou fazer três no ano que vem (2025), mas já tinham muitas mulheres na cena há 10, 15 anos ou mais. O problema é que isso não chega muito até nós, porque os DJs mais divulgados são sempre os homens, como o Alok, o Pedro Sampaio, o Dennis DJ… Esses são os nomes do mainstream, mas sempre existiram muitas mulheres incríveis que eu não conhecia. Minha primeira referência foi a Suelen, que, inclusive, é da Restinga, o mesmo bairro onde minha mãe nasceu. Isso me fez ver que era possível. Hoje, ela mora em São Paulo, mas é daqui, cresceu e tocou aqui antes de ir para lá. Agora está trabalhando e morando lá. Enfim, aprendi muito com eles (Turmalina). Depois de um tempo, esse ano, eles me chamaram para fazer parte do coletivo, mas isso levou um tempo. Não era algo planejado ou esperado, porque fazer o workshop com eles não tinha relação direta com fazer parte do coletivo. Mas sempre tivemos muito carinho uns pelos outros, eu já dizia que era meu coletivo. Eles reconhecem o meu trabalho, e eu também admiro muito o deles. Fiquei muito feliz de verdade, foi um presente enorme. Eu sempre quis fazer parte desse coletivo, queria ser como eles desde o começo. É algo muito especial para mim. Claro, não é fácil, porque são muitas pessoas envolvidas, o que às vezes gera desentendimentos, mas faz parte.

L: E além da Suelen, tem mais alguma DJ que você acompanha e que te inspira?  

E: Sim, várias! Tem a DJ Ray[13], que é de São Paulo. Ela toca um funkzão porradão, é incrível, uma pretinha assim e ela é DJ da Júlia Costa[14] também. Eu tenho muita referência no rap, porque eu era rapper[15] antes. Parei de cantar quando comecei a discotecar, porque acabei me dedicando mais a isso. Além disso, eu já estava meio cansada e travada com o rap.  

L: Tu acha que as pessoas próximas a ti são importantes para dar esse ar de que, tipo, é possível? Mais do que ver só gente de fora, de longe?

E: Sim, muito mais do que DJs internacionais. Eu gosto de algumas DJs internacionais, mas não tenho por nenhuma delas tanta admiração, carinho ou inspiração quanto tenho pela Su, pela DJ Ray e por outras DJs daqui, sabe? Então, acho que me inspiro muito mais nas pessoas de perto. É aquela coisa de ver que eu também posso ir longe, tanto quanto elas, ou até mais. Gosto de observar de onde essas pessoas vieram, quem é parecida comigo, porque as vivências de outros países são muito diferentes. Apesar de, às vezes, parecerem semelhantes, a realidade é outra. Não me conecto muito com a cultura dos DJs lá de fora. Acho que eles vivem bebendo das nossas coisas também, sabe? Tocam funk de anos atrás e acham que estão fazendo algo super inovador. 

Eu tenho muita referência no funk de São Paulo, desde pequena. Mas, no geral, minhas maiores referências musicais são o samba, o rap e o funk. Cresci ouvindo esses três estilos. O rap veio mais por mim mesma, durante a adolescência e através dos meus amigos. Já o samba e o funk vieram da minha família, principalmente das minhas primas. Tem muitos funks que eu amo. Toco Mc Beyoncé, a Ludmilla, que eu amo demais. São músicas que eu ouvia desde pequena, sabe? Muitas coisas que marcaram minha infância, até aquelas que eu não podia ouvir, que ouvia escondida da minha mãe. Agora eu toco esses funks nos meus sets. 

Sabe que tinha uma rádio aqui perto, a Eldorado? Tinha o Bonde da Eldorado, e eu ficava ouvindo funk na minha caixinha que minha bisavó me deu. Tem várias histórias assim, sabe? E isso tudo reflete no meu set. Não importa o gênero: se for reggaeton, house, qualquer coisa, sempre vai ter um vocal de funk, um vocal de rap. Não porque eu me obrigo, mas porque as minhas pesquisas e os sons que consumo naturalmente acabam sendo assim. Ontem mesmo fui no Expofavela, e a Negra Li[16] estava lá. Ela não cantou, fez uma palestra, mas fiquei muito emocionada. Meus olhos ficavam lacrimejando o tempo todo, sabe? Foi incrível. A Negra Li sempre foi uma referência pra mim. Eu não cantava antes, mas lembro que meu pai me chamava de “minha Negra Li”. Acho que, pra ele, ela era a referência que ele tinha de uma mulher negra forte. Ele queria que eu me inspirasse. Minha mãe sempre me apoiou, dizia que eu era bonita, mas meu pai trazia essas referências de um jeito diferente, sabe? Como a Negra Li.

L: E a Negra Li é tão importante quanto, sei lá… o Mano Brown[17]. Eles eram da mesma galera, cresceram juntos, né…  

E: Sim, total. Eles furaram muitas bolhas. Eu gosto muito de Antônia[18]. Eu era pequena quando o filme saiu, mas assisti depois e vi também a série toda. Inclusive, tem uma parte de uma música minha, acho que é Jordan[19], onde menciono Antônia. Me inspirei muito e me vi ali. 

L: E quando você vai escolher as músicas para tocar, o público influencia nas escolhas? Como é o processo? Tipo, hoje você tem três sets diferentes. O público dos dois últimos talvez sejam mais parecidos, mas o primeiro talvez não fosse…  

E: Sim, bastante. O público influencia muito na escolha das músicas. Por exemplo, no Rap in Cena, no primeiro set, eu preparei as músicas em casa, porque não tinha como organizar lá. Gostei muito, mas o segundo set foi muito mais improvisado e por isso mais certeiro, porque já estava no festival, observando a vibe de quem estava lá. Quando uso o computador, tenho mais liberdade para improvisar e testar músicas na hora conforme olho o público e percebo como eles estão. Já em eventos que uso o CTJ, onde preciso entregar a playlist antes, isso é mais limitado. Mesmo assim, improviso na ordem e escolho as músicas que fazem mais sentido no momento.  

foto: talento e beleza x @larissalima.ph

L: Tu curte mais um freestyle ou quando já está com o set passadinho na cabeça?  

E: Gosto mais do freestyle. Raramente consigo seguir um set planejado. Já tentei fazer algo na ordem pré- montada, mas percebi que não funcionava bem no momento, porque tinha pensado em uma coisa que era subindo, acelerando e eu ainda estava no começo. Prefiro ajustar na hora, de acordo com a energia do público e o clima do evento. Mesmo para festival grande porque tu nunca sabe o que vai acontecer, então eu vou pensando muito na vibe que quero criar, no horário do dia, e observo o público. Ao mesmo tempo que o DJ observa a vibe, ele também é um gestor de vibe, né? Dá pra ti mudar a vibe do negócio, se eu botar uma música muito ruim do nada vou baixar a vibe, mas se botar uma música boa, um funkzão, daí depende…  

L: Então, quando um DJ coloca uma música meio “que música é essa, p0##4?!” é proposital para dar uma baixada na galera?  

E: Às vezes, sim, às vezes, não. Tem músicas que eu achava que iam bater muito bem, mas dependendo do lugar ou do equipamento, elas não bateram como deveriam. Já aconteceu de parecer que a música estava baixa ou ruim, mas era por causa do equipamento. Isso pode prejudicar o set, parece que o DJ está com as músicas ruins, mas não é. Mas depende. Depende muito do lugar, do dia e também da cabeça da pessoa. Às vezes, tu tá mais de boa, vai tocar e arrasa. Mas tem dia que tu não tá muito bem e fica tipo: ‘Pelo amor de Deus, tá dando tudo errado!’ No começo, eu era muito assim. Por exemplo, hoje eu estava animada para tocar, mas foi difícil no início porque estava muito quente, eu não conseguia enxergar direito, e meu cabelo caía no rosto o tempo todo. São coisas imprevisíveis, sabe? Tu vai lidando, mas é difícil. Dá pra planejar antes, mas tem rolês que são mais espontâneos. Quando vou tocar em bar, por exemplo, é bem mais tranquilo. Eu penso no que quero tocar, mas é muito mais de boa, porque o bar é super espontâneo. Eu posso misturar um milhão de coisas. Não que nos outros eventos eu não possa misturar, mas no bar eu faço isso de forma mais livre. Às vezes começo com um afrobeat, um rap ou um R&B e termino no funkzão. Fico mais dentro disso, sabe? Não é tão diferente, mas vou passando por reggaeton, reggae e um monte de coisas. É bem mais solto, bem mais livre, principalmente em eventos abertos, comparado com festas fechadas.

L: O primeiro set que vi teu foi no El Aguante, e foi bem assim, freestyle.  

E: Sério? El Aguante era meu bar preferido para tocar. É uma pena que não podemos mais tocar lá.  

L: É complicado com essas leis, né?  

E: Sim, tem muita burocracia que atrapalha. No El Aguante, eu amava tocar, não só pelo público, mas também pela equipe. Sempre foi um lugar muito especial para mim. Uma vez, fui lá depois que pararam de ter eventos e me peguei olhando para o cantinho onde eu tocava. Chorei, porque era muito massa. A vibe era única. O público dali, tipo era muito massa… não só o público né, a equipe deles também, porque também tem isso, de tu chegar nos lugares e tu não ter uma pessoa do lado para resolver algo, se precisar.

L: Essa burocracia com as leis e o governo meio que empacando, impacta o trabalho de vocês, né? Seja o teu ou o do bar, porque querendo ou não ia um público bom pela música. Eu conheci o Fayllon assim também… em Porto vou muito pelo DJ e caso eu esteja em um rolê que curti o som, começo a acompanhar a agenda de quem tocou.

E: Sim, chama mais público. Eu também sou assim de ir pelo DJ, tenho pavor de quem vai no rolê sem saber nada do que vai tocar e ainda pede música que não faz sentido. É bom ir também sem saber, mas tipo, pedir pop em uma festa de rap? Como assim?! Tu acha mesmo que eu vou tocar ‘xxxx’? Fi, eu não tenho isso, não toco. 

E sim, impacta muito! E também tem os lugares com problemas de estrutura. Já toquei em lugares onde as tomadas eram precárias, fios desencapados… Alguns lugares até tem grana mas os donos acabam enrolando e precarizando as coisas, dá medo de acontecer algo sério. Uma vez, na xxxx na CB, quando fechou, fechou comigo, eu que tava tocando quando fechou por causa desses negócios de leis. Eu estava tocando acho que uma meia hora, o policial chegou, botou a mão na minha mesa e falou ‘Pode parar de tocar, guarda tuas coisas que não vai mais ter som’, algo assim. Foi muito tenso, uma experiência muito violenta pra mim, emocionalmente falando. Depois disso, fiquei muito alerta em relação à polícia nos eventos. Sempre ficava de olho para ver se eles estavam chegando. Isso melhorou um pouco agora, mas ainda acontece. Ali no El Aguante mesmo começou a terminar mais cedo, ou eles pediam para abaixar o som também… agora no Apezito que tem o pagode na CB a prefeitura anda incomodando… É muito frustrante quando estamos em um evento, tudo indo bem, e tem que acabar ou abaixar os som por causa da prefeitura, sabe?! Isso desanima o público e os artistas. Já vi isso acontecer em vários rolês por causa da prefeitura. Eles incomodam os eventos culturais, mas depois querem usar jingles de carnaval e samba para se promover. É hipocrisia.

L: Nossa e tava enchendo lá… isso meio que mata a noite da cidade e o que era para ser um rolezão da galera, acaba indo para lugares fechados que tem ingresso para entrar e tal…  

E: Exatamente. Esses espaços são históricos, fazem parte da identidade cultural da cidade. Quando as pessoas se mudam para uma área boêmia, elas sabem disso. Outro dia estava conversando sobre isso com minha mãe, ela tem 47 (anos) e disse que quando era criança a CB já era uma zona boêmia, então é triste ver a noite da cidade morrer por causa dessas restrições.

L: E tu toca mais em lugares que são fechados ou já tocou alguma vez em festas abertas, tipo baile, alguma coisa assim, como o Arruaça[20] ou o Baile da Tuka[21]? Pegou alguma fase dessas?  

E: Acho que tocar na rua, em festas assim, é uma experiência incrível. Já toquei, no after da Plano. Em umas feirinhas, mas ainda não fiz uma festona de rua. Isso é algo que quero muito, porque combina muito comigo. Até tem uma música minha, “Progresso, Paz e Baile”[22], que a capa[23] é eu dançando na rua, no Arruaça! Naquela época, eu estava começando como DJ e achei que fazia todo sentido com a vibe da música. O Arruaça é, pra mim, a festa de rua mais f*da que a gente tem. É a que mais enche, mais atrai gente.. É um lugar onde quero muito tocar. A experiência de tocar na rua é algo que eu valorizo muito. Também já toquei numa festa de rua do Turmalina, no Sarandi, logo após as enchentes. Foi um dos bairros mais afetados. Foi uma festa pequena, porque é um lugar descentralizado e o pessoal daqui não gosta de ir a eventos fora do Centro ou da Cidade Baixa. Se não for na área deles, eles não vão. A gente que mora longe, vai, mas eles não.  Não tinha muita gente, mas foi muito especial. Quando é um evento aberto ou algo de graça, como quando toquei na rua no Gasômetro, é outra vibe. Teve uma vez que toquei na Savannah[24], lá na Usina do Gasômetro, bem no meio da rua. Foi um rolê muito massa, diferente, sabe? É outra energia. Eu sinto uma conexão muito mais verdadeira, porque as pessoas vão chegando e começam a dançar.  

L: Eu ia te perguntar isso. Você sente diferença entre festas na rua e festas privadas, em lugares fechados?  

E: Eu sinto, com certeza. Sei lá… Nas festas fechadas, as pessoas pagam para estar ali, mas ficam mais se segurando para dançar. Ou até dançam, mas, dependendo da vibe, só com as músicas mais conhecidas. Não sei, é diferente.  

L: Quando é na rua, a galera se solta mais?

E: Sim, com certeza. Mesmo quando não é música que eles conhecem, sabe? Eu fiquei muito feliz de tocar ali (no palco do Festival Chisme), porque é mais aberto. Foi parecido com o que rolou no Rap In Cena. No palco da Bronx, por exemplo, que era maiorzinho, a vibe foi muito boa. E foi na parte de fora também. No ano passado, o evento foi em um espaço fechado, e a energia foi bem diferente, mais introspectiva.

Já na rua, a vibe é bem mais leve, sabe? As pessoas vão passando, param para olhar, entram no clima, ou já estão ali e aproveitam. Tem muita diferença. Eu gosto de tocar em festas na rua. Dá para respirar melhor, não é aquele ambiente todo fechado. Não sei explicar direito… É outra energia, sabe? Eu amo muito, muito mesmo.

(…)

___

Durante a conversa, acabamos desviando um pouco do tema central quando falei sobre meu trabalho como fotógrafa. Comentei como gosto de capturar a essência das pessoas de forma espontânea, especialmente em fotos documentais, sem poses forçadas. A DJ comentou sobre como se via de forma negativa, até perceber que o problema muitas vezes não era ela, mas a forma como era fotografada.

Isso nos levou a falar sobre como a fotografia tem uma história racista. Ela mencionou os filtros usados antigamente, que embranqueciam a pele das pessoas negras, distorciam sua imagem e contribuíam para a falta de representatividade. Disse que, hoje, ainda percebe essas questões em equipamentos e edições, mas que é importante encontrar profissionais que valorizem as pessoas como elas são. Eu compartilhei como, na minha fotografia, eu entendo que será retratada a forma como enxergo a pessoa, por isso valorizo a co-criação, especialmente com artistas que admiro e que me inspiram. Essa troca faz o resultado ser autêntico e verdadeiro, refletindo minha visão fotográfica.

A conversa naturalmente voltou à pauta central quando falamos sobre como a fotografia, assim como a música, reflete questões de raça, classe e gênero. Comentei que a fotografia ainda é muito elitizada, dominada por homens brancos com acesso a equipamentos caros, o que reforça desigualdades e estereótipos. Disse como estar presente no ambiente que estávamos, nesse contexto, era algo político para mim e para ela, porque ocupar esses espaços importa.

Ela concordou, conectando isso às lines de DJs. Comentou que, mesmo em uma line latina como a do evento em que estávamos, ainda deveria haver muito mais presença de pessoas negras. Esse paralelo entre fotografia e música destacou como a luta por representatividade e espaços é transversal influindo por diferentes áreas culturais em suas formas de criar e vivenciar a leitura do mundo.

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L: (…) Enfim… são lugares que, querendo ou não, a gente ainda está lutando para conseguir espaço e ocupar, e isso influencia muito em como somos recebidos nesses lugares.

E: Sim, várias vezes chego e as pessoas não estão nem aí para me ajudar a montar os equipamentos ou fazer as coisas. Mas agora tenho pegado uns bons. Tem uma galera que pede música, mas pede de forma mal-educada. Teve um set semana passada, ou retrasada, que fui tocar, eu estava animada, porque sabia que ia ser funk, e funk é tranquilo. Mas eles queriam só funk de 2017, tudo preso no tempo. Eu gosto bastante também e o pessoal adora tocar nas festas, mas o tempo todo isso? Ou só as músicas do momento. Daí tem umas coisas que são legais, mas outras são bem chatas. E ainda pediram Taylor Swift, com uns pedidos malucos assim, na hora. Tipo, ouve em casa, sei lá… Aquelas músicas antigas dela, quando furava a bolha, são legais, mas agora, mesmo que eu gostasse, não combina com a vibe que estou tocando. Eu não toco só artistas negros também, toco de tudo, geralmente artistas periféricos.

L: Tu faz esse recorte quando tá escolhendo quem vai tocar? Tem um filtro assim, tipo: “Vou tocar só artistas tal”?

E: Sim, mas também não excluo ninguém. Se eu gostar da música e ela for boa, eu toco, independente de quem seja o artista. Mas isso não foi sempre assim. Quando eu era adolescente, eu escutava muito Camila Cabello, ela era minha cantora favorita na época. Eu ouvia muito pop, e não tenho problema nenhum com isso, mas não consumia tanto música brasileira, principalmente rap, ou qualquer coisa daqui. Isso foi um problema que depois eu comecei a perceber. Eu tinha o cabelo crespo quando era pequena, mas depois comecei a alisar. E tudo isso entra na questão do cabelo. Eu sofria muito bullying na escola por causa disso. Eu fazia trança, mas chegou um momento que não dava mais, então comecei a relaxar o cabelo para ele ficar mais baixinho. Quando meus pais não tinham mais dinheiro para ir ao salão, eu comecei a alisar. Meu cabelo quebrou, ficou mais curto, mas ainda assim continuei sofrendo bullying. Aquela coisa toda de “a mais feia da sala”.

Lembro de uma vez com um colega e uma amiga minha, que era loira. Ele falou: “A xxx a gente trata assim”, e fez carinho na cabeça dela. Depois ele falou: “E com a Luiza a gente faz assim” (Luiza é o nome de batismo da DJ Elle P), e bagunçou meu cabelo de uma forma bem violenta. Aquilo foi uma marca, e não é algo que eu levo como verdade, mas é algo que eu nunca vou esquecer. É como muitas pessoas brancas agem. Depois disso, comecei a voltar a cuidar do meu cabelo crespo. Isso aconteceu meio que sem querer, porque meu secador estragou e, no dia de ir para a escola, eu não podia alisar. Então fui com o cabelo crespo de qualquer jeito e gostei. A partir daí, comecei a pesquisar sobre cuidados com cabelo crespo, e foi naquela época que rolou o boom dos cachos, com muitos produtos e tal. Antes, os produtos eram caros e não tinha tanta variedade, mas depois ficou mais acessível.

Eu comecei a me entender melhor. Nas pesquisas, comecei a ver os vídeos da Nátaly Neri[25], e conhecendo outras meninas f*das. Comecei a entender sobre pele, cor, e até a escrever mais. Sempre escrevi desde pequena, fazia textinhos para a família, coisas mais amorosas, ou até coisas políticas no colégio. Depois, comecei a escrever minhas próprias letras de músicas. Tudo isso teve a ver com o cabelo, foi um processo de autodescoberta.

foto: frestas sonoras x @larissalima.ph

Comecei a ouvir Racionais… minha mãe não era muito do rap. Ela gostava mais de samba, pagode, pop e R&B, e eu ouvia muito isso com ela, além de MPB. Meu pai também gostava mais de samba, então o rap foi algo que eu fui descobrindo por conta própria, com os amigos, nos rolês. Foi assim que comecei a me educar e buscar minhas referências pretas. No começo, o que eu ouvia no Spotify era muita música de artistas brancos, e eu ainda gosto de muitas dessas pessoas, mas hoje é automático. Não fico pensando “Ah, vou escutar só isso aqui, escutar essa pessoa porque ela é preta.” Não, mas a maioria das músicas que escuto têm a ver comigo, e sim, tem artistas brancos também, mas a grande maioria é de artistas que tem a ver comigo.

L: Esses artistas vieram muito pela identificação também, né?

E: Sim, pela identificação. Que nem minha irmã, ela tem 14 anos agora. Antes, ela só ficava ouvindo K-pop. Tipo, é de boa, é outra cultura que eu não sou tão fã, mas tem várias coisas que ela me apresentou e que eu gostei. Mas eu também falava para ela: “Ah, tu tem que ter mais referência brasileira”. Não gosto dessa coisa que os adolescentes têm de “Ai, eu não gosto de música brasileira”. Não, eu sempre gostei de exaltar a música brasileira, sim.

Daí assim como fui me educando, tento trazer isso para ela também, de ouvir mais rap. Daí, do nada, ela começou a ouvir o Veigh, que eu amo, e foi ouvindo os rappers homens também. Quando eu comecei a escutar rap, só escutava os homens também.

Agora, já não está mais na época da Karol Conká…

L: Agora é mais Júlia Costa, Tasha e Tracie, Duquesa, MC Luanna…

E: Exato! Eu falei para ela: “Tu tem que conhecer Duquesa, Tasha e Tracie”. Aí, ela apareceu cantando “Desce Licor”. Eu também boto alto em casa para ela ouvir, porque agora tô mais de boa. Ela continua ouvindo muito K-pop, mas também consome bastante rap daqui. Ainda acho que ela escuta muito os rappers homens, mas é um processo, né?

L: Na comunicação a gente estuda como o algoritmo também condiciona o que está em alta na internet, sempre é mais branco, externo, masculino… daí você vai pesquisando, chegando no masculino daqui… E para chegar até o “ouro”, vamos dizer assim, você tem que cavar muito. Eu também comecei assim, quando era mais nova. Ouvi muita coisa estrangeira, tentei entrar na vibe do rock, que era o que estava em alta na época. Minha irmã mais velha começou a me apresentar MPB, tipo: “Ah, ouve Djavan, ouve tal e tal”. Aí, fui me interessando, mas para desenvolver minha própria identidade foi uma caminhada, passei pela situação de ouvir funk “escondido” também…

 

(Conversa interrompida por interferência externa)

 

“Obrigada por me ouvirem, e agora a velha Sojourner[26] não tem mais nada a dizer.”

 

Referências bibliográficas:

CASANOVA, Janaína Oldani. Eu tava lá: experiências estético-políticas a partir da performance de mulheres no rap de Salvador.

CONTER, Marcelo B. et al. Band in a Girl: devir-mulher nas timbragens do rock independente brasileiro.

MAZER, Dulce; GELAIN, Gabriela; GUERRA, Paula. Eu sou MC: participação coletiva e plural de mulheres em cenas musicais RAP.

PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade.

SILVEIRA, Fabrício. Rupturas instáveis: entrar e sair da música pop.

Participação feminina ainda é desigual no mercado musical. Disponível em: link.

“Mulheres na música”: Ecad lança novo relatório sobre participação feminina na indústria musical. Disponível em: link.

A desigualdade de gênero no setor audiovisual do Brasil. Disponível em: link.

Ancine diz que nenhuma mulher negra produziu ou dirigiu filmes nacionais em 2016. Disponível em: link.

Políticas para diversidade de raça e gênero no cinema brasileiro. Disponível em: link.

Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual. Disponível em: link.

DJs brasileiras e suas histórias: a busca pelo respeito, igualdade e valorização. Disponível em: link.

Notas:

[1] Apresentação de Elle P em post no instagram: “Com uma forte presença na cena artística local desde 2020, e pouco mais de um ano na discotecagem, a artista vem se destacando com suas apresentações que exaltam a cultura negra, brasileira e LGBTQIAPN+. Trazendo o futuro, a ancestralidade e o pertencimento para o território de pista; com foco em vozes femininas e periféricas. Fazendo jus ao alter ego de Miss Versátil, em seus sets mistura sonoridades afrodiaspóricas/ urbanas/ eletrônicas. Como: Amapiano, Afrobeats, Afro House, Chill Baile, Dnb, Garage, House, Pagode, Pagodão Baiano, Funk e Rap.’ Conheça a DJ Elle P aqui.

[2] Fruto das estruturas sociais baseadas na misoginia, as mulheres que operam máquinas ainda são minoria na indústria fonográfica e audiovisual brasileira. Saiba mais em: Participação feminina ainda é desigual no mercado musical, relatório “O que o Brasil Ouve – Edição Mulheres na Música”, divulgado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad); Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual, publicado pela ANCINE e disponível no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA.

[3] El Aguante bar “Popular e democrático. É assim que o empreendedor Roberto Schroeder define o El Aguante, espaço que abriu com sua companheira, Mariana Vasconcelos, no bairro Rio Branco, inspirado em espaços tradicionais brasileiros, uruguaios e argentinos.” Matéria completa no link.

[4] DJ Jorginho residente do baile da Tuka, milita pela causa do funk há pelo menos 10 anos. Conheça- o pelo link.

[5] Faylon, é DJ e importante residente no Coletivo Turmalina.

[6] “Chisme busca reimaginar a figura do gaúcho, trazendo o olhar para sua presença na história do Sul da América, que é tão significativa para a identificação do que é ser gaudério. Somos a celebração do gaúcho moderno, conectados entre passado, presente e futuro.” Info retirada do site do Festival.

[7] Atlanta é uma casa noturna/bar em Porto Alegre que se inspira no Hip Hop e na essência da cidade de Atlanta/EUA, conhecida por sua ligação com movimentos culturais e anti racistas.

[8] “O Pito é um bar que luta pelo direito ao lazer e à cultura de todas, todes e todos.” Frase retirada de um post no instagram do bar.

[9] Natura Musical é a plataforma cultural da marca Natura, que há 19 anos valoriza a música como um veículo de bem estar e conexão, ao fomentar trabalhos de grandes nomes da música brasileira, novos artistas e festivais independentes. Info retirada do site da marca.

[10] Feijoada Turmalina foi um período de imersão criativa com os integrantes do coletivo Turmalina que compartilharam seus conhecimentos de produção multimídia, mixagem DJ e estratégias de comunicação para artistas da periferia de Porto Alegre e região metropolitana. Acesse o post. 

[11] Suelen Mesmo é DJ e co- fundadora do Coletivo Turmalina natural de Porto Alegre. Conheça a DJ aqui.

[12] O Coletivo Turmalina busca transformar o cenário local, aumentando a visibilidade e busca dar visibilidade para os talentos de artistas pretas/es/os, dissidentes e periféricos. Através da pesquisa e produção de música, mantém o questionamento da presença e a importância das corporeidades no cenário de festas e coletivos de Porto Alegre. 

[13] Conheça a DJ Ray aqui.

[14] “Compositora e rapper Júlia Costa, nascida em Mogi das Cruzes- SP ,deixa como marca em sua música a autenticidade e força da mulher brasileira negra.” Descrição do seu perfil no Spotify. Conheça AJuliaCosta aqui.

[15] Acesse o perfil de Elle P no Spotify aqui.

[16] Negra Li, é uma cantora, rapper, compositora e atriz brasileira. Formada em música pelo coral da Universidade de São Paulo, é considerada o principal nome feminino do rap nacional. Conheça- a  aqui.

[17] Mano Brown, é um rapper, compositor, empresário e apresentador brasileiro. Ele é um dos integrantes dos Racionais MC’s, grupo de rap formado na capital paulista em 1988 e integrado por Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. Conheça- o aqui.

[18] Antônia é um filme brasileiro de 2006 dirigido por Tata Amaral, e estrelado por Negra Li, Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Filmado em São Paulo de 22 de fevereiro a 4 de abril de 2005, entrou em cartaz em 9 de fevereiro de 2007 e narra a história de quatro amigas que enfrentam um cotidiano de violência, pobreza e machismo para realizar o sonho de viver do rap.

 [19] ELLE P – Jordan Yuz 23 

[20] Coletivo Arruaça: festa de rua eletrônica. Popular e consolidada para quem curte o gênero. Conheça- os no link.

[21] Baile da Tuka: Baile funk mais popular da cidade. Atualmente, sem previsão de atividade. Veja como era no link.

[22] Ouça “Progresso, Paz e Baile” de Elle P no link.

[23] Confira a capa de “Progresso, Paz e Baile” no link.

[24] A Savannah nasceu da necessidade de criar um espaço para os africanos que vieram ao Brasil para estudar, trabalhar ou buscar novas oportunidades. Durante suas jornadas por aqui, eles sentiam falta de um lugar onde pudessem vivenciar e celebrar a musicalidade, a cultura e a energia vibrante de seus países de origem. Acesse o link para conhecer.

[25] Nátaly Neri é cientista social e reconhecida criadora digital, por sua abordagem inovadora ao discutir a beleza além da visão estética dominante. Conheça- a aqui

[26] O discurso “E Não Sou Eu Uma Mulher?” foi proferido por Sojourner Truth, uma ativista abolicionista e feminista, em 1851, durante a Convenção dos Direitos das Mulheres, em Akron, Ohio. Ele é um marco na luta pelos direitos das mulheres, especialmente das mulheres negras. 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Uma análise do álbum “Blonde” de Frank Ocean e como a obra se tornou uma referência na música contemporânea

Make Fabico Weird Again #1 

por Gabriel Vieira da Silva

Frank Ocean é um renomado cantor, compositor e produtor norte-americano, que ao longo da década de 2010, se tornou uma das maiores referências quando falamos do gênero R&B e pop alternativo. Através das suas letras extremamente sensíveis e produções para outros grandes magos da indústria musical, Ocean se consolidou como um dos grandes e mais icônicos nomes dessa geração. Antes de se tornar um fenômeno, Ocean apenas compunha para outros gigantes da indústria como Justin Bieber e John Legend. Até que através de Tyler, the Creator, tornou-se membro do Odd Future, que o lançou como artista finalmente. No grupo, ele participou de diversos trabalhos do próprio Tyler, de Jay-Z, Kanye West e Beyoncé, além de lançar sua primeira mixtape, Nostalgia, Ultra. Em seguida, Ocean lança Channel Orange, seu primeiro álbum de estúdio que já obteve um sucesso estrondoso rendendo até mesmo Grammy. Músicas como Lost, Thinking About You e Pyramids já chamavam a atenção para o que trataremos neste trabalho posteriormente: a forma como o artista produz música e expõe seus sentimentos através das suas letras profundas e sensíveis.  Após 4 anos de fãs especulando o que viria a seguir, Ocean lança Blonde em 20 de agosto de 2016, que posteriormente foi elencado na lista de melhores álbuns de todos os tempos pela revista Rolling Stone[1]. Se o seu primeiro álbum de estúdio já foi um grande sucesso, Blonde conseguiu superar esse feito. Entre uma produção fora dos padrões e divergências com a sua gravadora, o álbum apresenta temáticas como amor, sexualidade, racismo, família e espiritualidade.

Foto: Ensaio fotográfico de Blonde, 2016

 

Originalidade e a produção fora do padrão

Blonde apresenta uma produção complexa e repleta de experimentações. O álbum é um trabalho muito mais experimental considerando os seus projetos anteriores, com várias mudanças na estrutura das canções e na composição das letras. A produção do álbum no geral é muito complexa, e por conta disso, conta também com o auxílio de outros gênios da indústria musical como co-compositores e co-produtores. Kendrick Lamar, Beyoncé, Kanye West, Pharrell Williams, Paul McCartney, Andre 3000 e Tyler, The Creator são exemplos. Com essa gama de opiniões e ideias que surgiram com esse conjunto de artistas e de anônimos que compõem a extensa lista de créditos, em Blonde, Ocean consegue construir canções das mais diferentes formas. A voz do cantor é utilizada para além de ser um instrumento, mas também como tradução de sentimentos e sensações. Ela é utilizada nas músicas de uma maneira diferente do que era padrão na indústria musical da época do pop e R&B. Mais do que nunca, Frank Ocean perdeu todos os rótulos que estavam sendo empregados a ele. 

“Às vezes eu sentia que você não estava ouvindo versões suficientes de mim dentro de uma música, porque havia muito pensamento hiperativo. Mesmo que o ritmo do álbum não seja frenético, o ritmo das ideias sendo lançadas é”, disse Ocean ao The New York Times, em 2016.

 

A primeira faixa do álbum, Nikes, foi lançada junto a um videoclipe um dia antes do lançamento oficial do disco. A música que inicia os trabalhos dessa nova era de Ocean já apresenta algumas mudanças na sua produção quando relacionamos com seu trabalho anterior. A mudança na estética musical está representada principalmente na forma como a voz é utilizada. Nos primeiros versos da canção, o cantor utiliza de um pitch mais alto do que o usual. Já na segunda parte da música, ele faz o uso de auto-tune. Nos últimos versos, Ocean declama a letra de uma forma mais falada e menos cantada, se assemelhando com o rap.  Em meios gerais, a faixa resume bem o que a produção musical apresentará nas demais músicas.

Frame do clipe de Nikes – Blonde, 2016

 

A segunda faixa, Ivy, uma das favoritas dos fãs, Ocean traz na sua composição uma história do seu passado e bem pessoal como já era de se esperar. A história de uma relação que falhou, muitos os questionamentos e os arrependimentos foram traduzidos na letra. Na produção, o cantor revelou em entrevista para o The New York Times que subiu um pouco o pitch da voz para aparentar ser mais novo, o que traria toda uma atmosfera junto a letra da canção. No instrumental chama a atenção a presença de riffs de guitarra durante toda a música, o que não é usual na estética do R&B. Na sequência, Pink+White, outra faixa que ganhou o coração dos fãs e com participação de Pharrell Williams na produção, repetindo o sucesso de Sweet Life, do álbum anterior. A canção apresenta uma energia de verão e fim de tarde, o que foi representado na letra e no nome da música. Essa é mais uma letra que trata sobre amor e seus sentimentos. Para encerrar, a faixa tem vocais de Beyoncé fechando o último refrão da faixa [2]. 

“Just the same way you showed me, showed me

You showed me love

Glory from above

Regard, my dear

It’s all downhill from here”

Refrão de Pink+White

 

A seguir, Ocean traz um interlúdio, uma produção que é mais falada, geralmente mais curta e sem foco na questão musical, mas sim na mensagem. Na época era muito raro álbuns de R&B e Rap terem essas pausas para transitar as músicas. O cantor, então, inova ao trazer mais uma novidade à indústria musical. Posteriormente se tornou cada vez mais usual álbuns terem interlúdios em diversos gêneros. Be Yourself é uma chamada telefônica com ensinamentos de uma mãe de um amigo do cantor que dá conselhos a seu filho. Ainda sobre a primeira metade do álbum, Solo trata de solitude e é uma das poucas faixas que tem um ritmo marcado, guitarra e com o cantor se aventurando fazendo rap. Self Control, sendo uma balada de respeito, toca no coração e faz os olhos marejarem, e ainda entrega uma performance vocal impecável de Ocean. 

“Be yourself and know that that’s good enough

Don’t try to be someone else

Don’t try to be like someone else, don’t try to act like someone else

Be yourself, be secure with yourself’

Trecho de Be Yourself 

 

A segunda metade do álbum segue com as mesmas temáticas, porém com uma pegada mais densa, profunda e escura. É possível perceber essa diferenciação graças a produção e a forma como as canções são construídas. Após a parte “escura” de Nights, vem a reprise de Solo, interpretada por Andre 3000 e um cover magnífico de Close To You de Stevie Wonder. A canção tem um auto-tune que multiplica voz em várias notas que formam um acorde e apresenta samples da versão original. Em seguida, o cantor apresenta a sua disposição para explorar os seus impulsos estranhos mais evidentes em Good Guy e Pretty Sweet, trazendo um lado mais experimental na produção. 

E ainda mais canções imersas nas paixões do cantor e no seu passado White Ferrari traz toda uma energia nostálgica. Entretanto, para chegar a esse resultado, foram necessárias 50 versões até que Ocean decretasse qual seria a melhor. Uma das mais longas do disco é Seigfried que fala sobre pensamentos, devaneios, decisões e indecisões. Ao analisarmos a estrutura da canção, ela se assemelha a uma peça teatral, principalmente pela forma que as harmonias são construídas. Ocean se despede com Godspeed e Future Me, canções que apresentam uma sonoridade mais gospel e com as letras sintetizadas em todos os pensamentos que Blonde trouxe. 

“Quando eu estava fazendo o disco, havia 50 versões de “White Ferrari”. Tenho um irmão mais novo de 15 anos, e ele ouviu uma das versões e disse: “Você tem que lançar essa, é essa”. E eu disse: “Não, essa não é a versão”, porque ela ainda não me deu paz”,  disse ao The New York Times. 

 

A produção do álbum ainda entrega a sensação de estar imerso em uma obra de arte por completo. Todas as canções harmonizam muito bem umas com as outras levando em consideração uma coerência geral. Entretanto, todas elas também funcionam muito bem separadamente, a produção de Frank e seus parceiros trouxe muita qualidade à escuta do público.

 

Dualidade e a semiótica por trás de Blonde

Dois aspectos que Frank Ocean trás em seu álbum são a dualidade das coisas e a forma como as informações são apresentadas de uma maneira indireta e por outros meios. A dualidade fica escancarada em Nights, a nona faixa do álbum e que Ocean utiliza para marcar o ponto de virada do trabalho. O tempo de duração do disco é de exatamente 1 hora, e bem no minuto 30, há um ponto de virada extraordinário [3], lembrando até da sua prima do disco anterior Pyramides. A partir dessa transição, o álbum que vinha trazendo temáticas mais românticas e um aspecto mais solar e diurno, começa a apresentar sua face mais noturna, escura e densa. A produção fica mais lenta e com batidas mais fortes, o rap fica mais presente e as músicas mais faladas. 

 

Foto: Capa de Blonde, 2016

 

Blonde, ou “Blond” , como também pode ser chamado, apresenta várias formas de dualidade do próprio artista. Sua bissexualidade, o dia e a noite, o feliz e o triste. Além disso, a semiótica apresentada na capa do álbum retrata extrema vulnerabilidade, portanto a imagem dele chorando ou não é outra representação dessa dualidade. O cenário que remete a um banheiro pode ser considerado intencional por retratar um momento de vulnerabilidade e intimidade, conectando com a mão ao rosto e a carga sentimental que as letras do disco carrega, pode-se compreender que as lágrimas que estariam caindo, se confundem com as gotas de água do chuveiro.

A análise semiótica de Blonde envolve a interpretação de diversos significados, símbolos e signos presentes não só na estética visual do álbum como também nas músicas. A capa pode representar o público e o privado, podendo ainda refletir a complexidade da jornada emocional de Ocean. A Partir da virada de Nights, por exemplo, é possível relacionarmos com uma transição do presente para o passado, sugerindo que experiências anteriores moldam a identidade de um artista. Em Self Control, podemos fazer uma reflexão sobre o tempo, que não podemos controlá-lo, mas que Ocean tenta capturá-lo em momento de introspecção. A semiótica do disco revela um trabalho profundo e introspectivo, além de multifacetado, em que o artista utiliza tanto o som quanto a imagem para explorar questões complexas de identidade, do amor e do tempo. As escolhas estéticas, as letras e a produção sonora estão imersas em uma rede de significados que questionam o papel da música e da arte na construção do eu e na compreensão das experiências humanas.

Liberdade criativa X Gravadoras 

Uma questão que permeia diversos artistas contemporâneos é a sua liberdade para criar sua música e a relação que estes têm com suas gravadoras. Tendo em vista que as grandes gravadoras visam estritamente o lucro, muitas músicas produzidas que saem do padrão comercial, são cortadas pela alta cúpula das empresas. Nesse sentido, uma massa de cantores acaba se tornando reféns e não produzindo o que quer de fato. Na maioria dos casos, os artistas entram nas gravadoras jovens e sem entendimento de contratos e por conta disso, acabam sendo prejudicados no futuro. Em alguns casos pode ocorrer o risco de até perder o direito de uso das suas próprias canções. Citando como exemplo, a cantora Taylor Swift perdeu o direito de utilizar suas músicas mais antigas [4], pois seu antigo escritório vendeu os direitos de suas produções contra a vontade da cantora e sem a possibilidade de compra da mesma. Por conta disso, a artista norte-americana começou a regravar seus álbuns antigos [5] com pequenas alterações, os “Taylor’s Version”, como uma forma de impedir a venda desses produtos e focar nas produções novas.

Além de Taylor, outros artistas como Kanye West, Rihanna e The Beatles passaram por situações semelhantes. No Brasil, Anitta também enfrentou dificuldades relacionadas ao controle de sua carreira com sua antiga gravadora, a Warner Music. Recentemente, ela conseguiu romper o contrato após uma longa negociação pública, alegando falta de liberdade criativa. Esses casos destacam a importância de contratos justos e da posse dos direitos autorais, incentivando artistas a se informarem melhor sobre as implicações de suas decisões no início de suas carreiras.

Nesse sentido, Frank Ocean passou por uma situação parecida com sua antiga gravadora. Seu contrato com a Def Jam previa o lançamento de dois álbuns de estúdio do cantor. Entretanto, mesmo após Channel Orange ser um sucesso, sua gravadora ainda assim mantia uma pressão sobre o que Ocean deveria produzir em seu próximo trabalho e os direitos dele. O cantor então, elaborou uma estratégia ousada e visionária para driblar as imposições contratuais e reconquistar sua autonomia. Ocean cumpriu seu contrato com a gravadora ao lançar o álbum visual Endless, disponível apenas na plataforma Apple Music, e no dia seguinte, lançou Blonde de forma independente, mantendo controle total sobre os direitos e a criação do segundo álbum. Essa manobra não apenas libertou Frank Ocean das limitações impostas por sua antiga gravadora, mas também se tornou um marco na indústria musical. Sua decisão atraiu outros artistas para reconsiderar suas relações com gravadoras tradicionais e buscar modelos de trabalho que priorizem sua autonomia criativa e financeira.

“Você sabe, o sucesso tem que ser como Frank Ocean. Agora, obviamente, você sabe, ele é super popular, mas eu não diria que ele está jogando conforme as regras da indústria. Ele está tocando de acordo com suas próprias regras — ele está fazendo a música que quer, e não se encaixa em um formato. […] Ele não tem músicas que se encaixem nas rádios pop ou que cheguem a um bilhão de streams”, argumentou Jay-Z à Rolling Stone em 2021 [6].

 

Blonde como referência a outros artistas

Como já citado anteriormente, Blonde é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos segundo a Revista Rolling Stone [7]. Isso só se deu graças a qualidade do trabalho de Ocean e o apelo que a obra recebeu do público e da crítica. Tendo em vista disso, o trabalho do artista se tornou referência a quem produz música em diferentes aspectos. 

Através do seu lirismo pessoal, da narrativa íntima e a forma como Ocean se despe sobre as letras que, cantadas ou faladas, podem traduzir sentimentos que não são individuais, o cantor mostra que é possível se apresentar dessa forma. A vulnerabilidade presente do disco promove uma série de identificações entre o público, o que para outros artistas como Lil Nas X pôde influenciar no processo de produção e composição de suas próprias músicas. O cantor já relatou que Ocean influenciou diretamente sobre as questões envolvendo sua sexualidade e a comunidade LGBTQIAPN+. 

“Acho que artistas como Frank em geral e, como Tyler e outros, eles tornaram mais fácil para mim estar onde estou, confortavelmente”, disse Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe em 2020 [8]. 

 

Através da sua autonomia criativa, Frank Ocean influenciou outros vários artistas a repensarem seus contratos e acordos relacionados aos direitos das suas produções. A liberdade criativa é um dos pontos primordiais para que a arte seja mais autêntica, e para além disso, é possível obter sucesso comercial e criativo sem ter um vínculo com grandes empresas por trás. Tornar-se um artista independente é um desafio enorme, mesmo assim, Ocean influenciou outros colegas da indústria musical como Tyler, The Creator. 

“[…] É minha coisa favorita dele. É estranho porque eu sou amigo dele e esse álbum me fez um fã muito, muito, muito fã”, Tyler The Creator, sobre Blonde a Revistas QG em 2016 [9].

 

Pela visão da produção do disco, é possível compreender que a mistura de diversos elementos do R&B, soul, indie e pop proporcionou novas percepções a uma nova geração de músicos que viria a seguir. Isso demonstra a forma como em Blonde os instrumentos e as camadas de voz empregados tiveram influência em álbuns lançados anos depois. Essa estética teve uma influência notável em álbuns como Melodrama de Lorde, onde a narrativa emocional e a produção orquestral se unem de maneira íntima, e When We All Fall Asleep, Where Do We Go? de Billie Eilish, que explora o minimalismo e o uso criativo de camadas vocais para criar um ambiente sonoro único. Ambos os artistas foram impactados pela capacidade de Blonde de combinar introspecção com inovação sonora, reinventando a maneira de abordar gêneros e emoções na música pop contemporânea.

“É sobre essa grande estúpida felicidade e é intenso – eu sinto como se o instrumental nesta canção meio que ajudou a chegar lá […] Neste tipo de paisagem pós-‘Blonde’, nós meio que podemos fazer o que quisermos em termos de instrumental. É animador. Eu posso usar guitarras e ter uma batida deformada de Flume e jogar isso debaixo d’água”, Lorde disse à NME em 2017 [10].

 

Para finalizar, é possível notar o quão importante Blonde foi e continua sendo para a indústria musical contemporânea. O disco atravessa a ideia de ser apenas uma coletânea de músicas e se apresenta como um manifesto profundo e autêntico, além de independente e experimental pela visão do artista. Frank Ocean não apenas rompeu barreiras estilísticas, mas também redefiniu a maneira como os artistas podem expressar sua vulnerabilidade e explorar temas pessoais em suas produções. 

A produção de Blonde influenciou a criação de novos sons, e ainda, inspirou novos artistas a abordarem suas próprias narrativas. Ocean mostra que a música pode ser extremamente íntima, explorando nuances das emoções e dilemas existenciais, sem perder sua capacidade de agradar o grande público que consome música. Além de impactar a sonoridade da indústria musical, o álbum também influencia na liberdade criativa de uma geração inteira de músicos que o encontraram como inspiração para romper paradigmas e mergulhar na sua singularidade.  

Tudo isso demonstra que a música, quando produzida com dedicação e autenticidade, sem se preocupar com métricas e opiniões, pode ultrapassar diversas barreiras, tocando corações e mexendo com a vida de milhões de pessoas por todo o mundo. Blonde é um ótimo exemplo de como a arte e a emoção podem caminhar juntas e criar algo atemporal e universal, reafirmando o papel transformador que a música pode desempenhar em nossa sociedade.

 

Notas:

[1] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79

[2] Beyoncé em Pink+White: https://www.tiktok.com/@onelastlyric/video/7288436470476541189 

[3] Nights, no minuto 3:30. 

[4] Rolling Stone: Taylor Swift perde os direitos de suas músicas: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-esta-enfurecida-com-venda-da-suas-gravacoes-o-pior-cenario-possivel/

[5] Rolling Stone: Taylor Swift regrava seus discos antigos: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-vai-regravar-os-6-primeiros-discos-depois-de-perder-os-direitos-autorais/#google_vignette

[6] Jay-Z em entrevista à Rolling Stone: https://rollingstone.com.br/musica/jay-z-elogia-frank-ocean-tem-algumas-das-melhores-musicas/#google_vignette

[7] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79 

[8] Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe: https://youtu.be/EVYGTPg5BMY?si=NMXXTBU5uCotl7V0 

[9] Tyler, The Creator em entrevista a Revista QG: https://www.gq.com/story/tyler-the-creator-frank-ocean-interview 

[10] Lorde em entrevista à NME: https://www.nme.com/news/music/lorde-frank-ocean-influence-melodrama-2090372

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo.” — Uma análise do álbum “As Quatro Estações”, Legião Urbana 

 

Make Fabico Weird Again #1

por Julia Hoppe, Jornalismo UFRGS

Aos nove anos, os graves versos de Renato Russo me soavam lentos, quase deprimentes, mas eu ouvia porque meu pai curtia e eu queria dividir isso com ele. Dez anos depois, apesar de agora apertar o play por gosto, ainda escuto porque meu pai curte e eu quero poder dividir isso com ele. 2.114,7 km separam Porto Alegre de Brasília, cidade onde a Legião Urbana nasceu, em meados de 1982. Meu pai, por coincidência, também mora na capital acinzentada, e essa mesma distância às vezes parece dobrar. Triplicar. Transcender tempo e espaço. 

Para construir esse relato, pedi ajuda a ele, que encaminhou meu pedido para o grupo dos amigos de colégio com quem dividiu adolescência, fitas, discos e escutas. O que os filhos da década de 80 têm a dizer aos pais de 2024? As respostas foram diferentes entre si, mas se entrelaçaram em um mosaico que levava certas palavras em comum: rebeldia, jovem, atemporal, permanente. 

O quarto álbum de estúdio da Legião Urbana, As Quatro Estações, foi lançado em outubro de 1989 e vendeu mais de dois milhões de exemplares. Com a expulsão do baixista Renato Rocha, consolidou-se a formação da banda que perdurou até seu fim, integrando Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Produzida logo após o incidente traumático no Estádio Mané Garrincha que resultou em 70 pessoas detidas e quase 400 feridos, a obra marca uma era mais introspectiva do grupo, que preferiu se resguardar aos estúdios de gravação. Essa foi a última vez que a Legião Urbana se apresentou em sua cidade natal.

No verso do disco, o vocalista adiciona uma curiosa nota de rodapé que conta a história de um livro chamado ‘A Doutrina de Buda’, encontrado por ele em uma gaveta qualquer de um quarto de hotel em São Paulo. No livro está escrito que todas as partes dele podem ser citadas livremente, desde que respeitadas as condições de 1. creditar a fonte e 2. enviar uma cópia da obra que cita o livro para a sede da tal sociedade budista, no Japão. Apesar de não ter feito nenhuma citação literal ao longo do LP, alguns versos do livro serviram de inspiração para sua quarta faixa, Quando o sol bater na janela do teu quarto, o que fez com que Renato seguisse o protocolo, creditando a obra e mandando uma cópia de As Quatro Estações diretamente para o Japão. Até hoje, não se sabe se o disco realmente chegou ao seu destino ou se os budistas gostaram do som, mas o relato diverte os desavisados que passeiam os olhos pela tracklist da contracapa prateada.

 

Vitrola regulável meio enferrujada e disco As Quatro Estações

 Foto: Julia Hoppe, arquivo pessoal

 

Sendo assim, de budismo a Luís de Camões, passando por versos de Cordeiro de Deus, uma emblemática declaração de bissexualidade e uma homenagem aos amigos perdidos em razão do surto de AIDS que se intensificava por volta de 1980, o álbum é uma melancólica viagem para dentro do ser. Escutando nos formatos analógico (disco e vitrola) e digital (via Spotify), é possível perceber diferenças que vão muito além do frio na barriga que o barulho da agulha deslizando pelo vinil arranhado proporciona. O aparelho utilizado por mim para rodar o disco possibilitava regular os graves e agudos do que ele transmitia com o toque de um botão, me permitindo novas interpretações sonoras a cada volta do bolachão. As transições eram mais claras e o fade out do final poderia ter sido mais bem traduzido para a plataforma de streaming, mas a essência é mantida.

 

Neste álbum estão algumas das canções mais lembradas de toda a carreira da banda. Entre eles, logo na segunda faixa, está Pais E Filhos. A escolha perfeita do jovem (não necessariamente atual) semi-alternativo que está no processo de aprender a lidar com o divórcio dos pais. Clássica. O ritmo lento do início que simula uma canção de ninar contrasta perfeitamente com o vocal rasgado e crescente dos últimos refrões. 

Os versos finais sussurrados vêm como um soco despreparado na boca do estômago. Como pode uma estrofe, 35 anos depois de lançada, continuar assombrando a insônia de tantos filhos do Brasil? Renato Russo também foi pai, de um filho que nasceu cerca de seis meses antes desse álbum. À parte das polêmicas, biológico ou não, alguém que compõe:

“Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser quando você crescer?” 

Não está imune de experienciar a paternidade como um acontecimento que transforma e transcende. 

Em Feedback Song For A Dying Friend, uma carta de amor ao fotógrafo americano Robert Mapplethorpe se torna uma ode a tantas histórias, incluindo a do próprio Renato, mastigadas pela epidemia do vírus HIV. A peculiar mistura do rock puro e gritado com o instrumental de inspirações árabes distrai da angústia lírica de um intérprete que abre o coração para cantar sangrando. Ainda, a canção abre com um solo de guitarra colocado para tocar ao contrário, a la disco da Xuxa, que deixa tudo propositalmente mais cru e desconfortável. 

Apesar das linhas conformadas escolhidas para intitular este ensaio, a quarta faixa, Quando O Sol Bater Na Janela Do Seu Quarto, é realmente um respiro budista de positividade. Sempre tive o pensamento de que, se pudéssemos organizar as músicas em caixinhas, essa estaria na mesma prateleira de Here comes the sun, dos Beatles. Já a sua vizinha, Eu Era Um Lobisomem Juvenil, não me causava pensamento algum. Ela seria aquela caixa de papelão que a gente esquece lá no alto do armário e reencontra dez anos mais tarde em uma terça-feira aleatória só para descobrir que dentro estava justamente aquele vestido que estava procurando com tanta vontade. Revisitar esse álbum me deu de presente uma nova-velha música preferida.

“Não falo como você fala, mas vejo bem o que você me diz / Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo / Prefiro acreditar no mundo do meu jeito.” 

Mais sucinto e intimista, quase como uma conversa (ou talvez uma sessão de terapia), As Quatro Estações tem seu momento de gritaria rebelde e revolucionária tão característica da banda com 1965 (Duas Tribos). Ironizando o período da ditadura militar desde o título, a música referencia produtos infantis americanizados como Hanna-Barbera (estúdio americano de desenhos animados) e modelos Revell (réplicas em miniatura colecionáveis de veículos militares) como metáforas capitalistas, seguidas pela antagônica frase “O Brasil é o país do futuro”.  Para os fãs de Índios e Geração Coca-Cola, a acidez punk da faixa é bem mais familiar.

Muitas coisas mudam de significado com o tempo. Expressões, músicas, siglas, pessoas. Confesso que os versos emprestados e melosos de Camões nunca me convenceram, mas com o vozeirão a plenos pulmões de Renato Russo em Monte Castelo no volume máximo do fone de ouvido mais barato, é impossível não se arrepiar. O mesmo vale para Meninos E Meninas, uma desafiadora, orgulhosa e pessoal declaração pública do vocalista de uma das maiores bandas brasileiras da história. Interpretada como um hino plural e muitas vezes platônico, a música, anos depois dos primeiros contatos, mudou de significado para mim e serviu como trilha sonora da descoberta da minha própria bissexualidade, da minha própria identidade.

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre / Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente”

Para o meu pai, escutar essas canções, compartilhar essa juventude com os amigos e então o que sobrou dela comigo era o jeito de sentir que estava preservando a memória de um passado. Em uma realidade tão efêmera, comunicar e construir laços baseados em situações de nostalgia que não podem ser replicadas é natural do ser social. É assim que criamos e mantemos redes de identificação que, quando agrupadas, formam culturas. 

Rebeldia, jovem, atemporal, permanente. São as palavras que meu pai e sua legião urbana de amigos utilizaram para descrever a sensação de escutar as músicas na época de seus lançamentos. Identidade, pertencimento, permanência, saudade. São as palavras que eu, Julia, encontro para descrever a sensação de fazer parte disso no presente.

Clique aqui para acessar o álbum As Quatro Estações na íntegra no Spotify

REFERÊNCIAS:

(DISCLAIMER: As referências foram utilizadas como fonte de consulta dos fatos citados, o texto é de autoria total de Julia Lima Hoppe)

ALMEIDA, Marcello – “Parece cocaína, mas é só tristeza” em: https://www.teoriacultural.com.br/post/especial-legi%C3%A3o-urbana-as-quatro-esta%C3%A7%C3%B5es-1989-parece-coca%C3%ADna-mas-%C3%A9-s%C3%B3-tristeza – Acesso em 20 de dezembro

LIMA, Irlam – “Há 30 anos, fãs da Legião Urbana provocaram um badernaço no Mané Garrincha” em:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/06/17/interna_diversao_arte,689065/ha-30-anos-fas-da-legiao-urbana-provocaram-um-badernaco-no-mane-garri.shtml – acesso em 20 de dezembro

MAIATO, Gustavo – “O clássico da Legião Urbana que precisou de autorização de budistas no Japão para sair” em: https://whiplash.net/materias/news_720/340982-legiaourbana.html – acesso em 20 de dezembro

FUSCALDO, Chris (2016). Discobiografia Legionária.

Com o uso autorizado dos relatos pessoais de Rodrigo Hoppe, Tiago Godoy da Rosa e Dartagnan Faller

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

tocando música e fazendo arte no meio do rolê

Make Fabico Weird Again #1

por Gabriel Ortega

“Acho que o Bruninho pode ser definido quase como um vereadorzinho. Ele cumprimenta todo mundo e diz o nome da pessoa, pergunta como tá, o que tá fazendo e ainda sobre a família dela. Não sei se eu já conheci outra pessoa assim, tão carismática, sei lá… Teve até uma vez que eu tava malzão voltando da aula, encontrei ele e parecia que meu dia tinha melhorado depois disso (risos) ”

relato de alguém que tava nesse rolê

Sou amigo do Bruno desde os quatorze anos. Não me lembro qual foi o momento em que a nossa amizade se consolidou, mas sempre me pareceu muito forte, mesmo com a distância e o silêncio. Nosso contato é basicamente o Instagram: vemos o que cada um tá fazendo da vida e foi assim que eu descobri que ele tinha feito um curso de DJ de um coletivo, que ele tava trabalhando como DJ em festas de diretórios acadêmicos da UFRGS, em festas grandes de Porto Alegre, como a TTT e a Turmalina, e em rolês na cidade baixa com pessoas conhecendo ele a partir do trabalho dele e de seu vulgo: DJ Bruninho Mec. É sempre muito engraçado se deparar com alguma divulgação de festa e ver ele lá – alguém que eu conheço desde adolescente, que já me deu vários conselhos amorosos.

Pedi pra acompanhar um set dele e fazer uma entrevista. Seria a primeira vez, desde a pandemia, que a gente ia conseguir parar pra conversar, mas seria pra um trabalho da faculdade. Conseguimos marcar pra ser na última festa do ano do coletivo youngnewrichs, a ynr boil.

Eu não conhecia o endereço, mas o post dizia que era na José do Patrocínio, 824.  É quase colado no Opinião, mas é um lugar bem escondido e isolado entre os bares e a casa de show; quase não tem nada que te chama atenção e te convida pra entrar. No “W Haus Pub”, a entrada é toda de madeira, tem um piano vertical do lado de uma mesa de drinks/bar com uma parede de fundo cheia de vodkas e whiskys caros, algumas mesas bem simples e um outro espaço que fica mais perto da rua, com uma janela imensa.

Quando cheguei tava tendo uma celebração de fim de ano de uma empresa e um amigo secreto. Não quero que pareça que eu tô julgando essas pessoas, mas elas não pareciam o tipo de público de uma festa boiler, que ia tocar músicas de rap, funk e drill. Essas festas são em lugares fechados, com um dj no meio e a maior quantidade de gente possível se curtindo e suando. O lugar também não parecia com os outros ambientes de boiler que eu vi na internet, mas não ajudava que as pessoas na festa da firma estavam cantando as mais conhecidas do sertanejo, todo mundo extremamente bem-vestido e com drinks coloridos. 

Meu trabalho de apuração poderia ter sido meio fraco: talvez, aquela confraternização do fim de ano de alguma empresa tinha alguma ligação com a ynr boil. A minha ideia de um público médio desse tipo de festa era de jovens fritos vestindo roupas que misturavam algo dos anos noventa com o conceitos de y2k, mas, talvez, eu só não soubesse que o público do sertanejo também estava engajado com as boiler rooms[1].

 

Eu me senti meio intruso naquela festa de firma. As pessoas estavam num momento muito vulnerável de felicidade, compartilhando as memórias do ano enquanto bebiam e eu tentava achar um lugar para esperar sem chamar atenção. Acabei esperando na sala que tinha a janelona pra José do Patrocínio e agi como uma criança que foi em uma festa dos pais porque eles não conseguiram alguém pra cuidar dela: sentei na poltrona mais afastada e fiquei mexendo no meu celular. 

Começaram a juntar em uma foto em grupo. A sala que eu estava era muito esteticamente agradável e espaçosa. tentei sair de lá pra que o rolê fosse eternizado ali, um lugar mais arrumado que a parte que eles ocupavam, que as mesas com os copos meio vazios de bebidas extremamente doces para mascarar o álcool e as embalagens dos presentes todas amassadas, enrugadas e espalhadas pelo chão, estragando a ambiência do lugar e a foto (sem contar o perigo dos que estavam mais bêbados, que eles poderiam derrubar alguma coisa ao tentar posar pra foto). Eu consegui sair da sala bonita, mas ninguém deu bola. Comprei uma coca-cola no bar e voltei pra lá.

   

Eu já tinha conferido umas mil vezes se eu tava no endereço certo. mesmo que eu soubesse que o post do evento dizia que ia ser na José do Patrocínio, número 824, eu considerei que eu só não sabia que eles tinham mudado de lugar. Já tava quase saindo e mandando mensagem pro Bruno dizendo que eu tive alguma emergência e que não ia colar no rolê.

Felizmente, eu parei na janela e vi um carro prata parado. Dele, tava saindo o Bruno. ele tava bem estiloso, tinha um pente no cabelo, tava usando um jorts preto (uma bermuda mais larga que passa do joelho que voltou a ser moda e eu nunca consegui usar uma sem parecer que não superei a morte do Chorão), uma camisa branca, gravata preta e um casaco meio bege. Não me lembrava de alguma vez que eu me senti tão aliviado de ver ele.

 

Sobre trabalhar, beber e ir na CB

 

Gabriel:  Como tu vê essa função de estar trabalhando no meio de um rolê?

DJ Bruninho Mec: No início, era uma brisa para mim, porque eu me permitia demais, tá ligado? Eu tocava num bar e, na hora do acordo, eu falei que fazia só por umas caipirinhas, mas o dono me falou que tinha que ter um preço. 

Falei meu preço que eu achava que era um valor justo pra quem tava começando, mas eu não tinha noção nenhuma. Pedi trezentos pila pra ele, ele riu e disse “Bah, não! Nem os DJs que já tocam aqui cobram isso”. 

Daí eu fiquei todo com medo. “Não, não, não… diz aí o preço de vocês e tals”. Acabou que ficou por 50 pila e bebida liberada, mas eu tava vivendo o sonho. Tava tocando música, fazendo arte e ainda tava num rolê que eu gosto, com pessoas que eu gosto… não tinha como eu não me permitir.

Às vezes, eu tava tocando e me ligava que eu tava muito louco, que tinha que dar uma segurada e beber uma aguinha, um refrizinho… Daí eu comecei a pensar que eu ainda posso curtir o rolê, mas eu tenho que ter responsabilidade porque eu ainda tô trabalhando. Comecei a beber menos. Comecei a chegar menos no brilho, sem ir muito pilhado. 

Eu conseguia chegar sem esse brilho e era tão gostoso quanto, porque daí eu pensava que eu ia fazer a minha mágica lá. Não é como se eu não fizesse assim antes, mas é que atrapalha. Se tu for trabalhar chapado no banco, se tu for dar uma aula bêbado, isso vai te atrapalhar.

DJ Bruninho Mec fazendo seu set no W Haus Pub, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 

Gabriel: Mas tu acaba comparando o que tu faz com esses trabalhos?

DJ Brunin Mec: Não, definitivamente não. Lá no Nando[1] eram seis horas tocando. Acabava que era bem maçante e não era totalmente ruim, eu só precisava ter o controle de saber quando eu podia me permitir. No final, eu não ia mais precisar ficar focando tanto porque, mesmo sendo um trampo num rolê, eu tô criando uma vibe, um clima. Eu tenho um propósito ali. Não tô só colocando músicas. Eu tô fazendo uma construção de uma sonoridade que eu quero que as pessoas ouçam.

Tipo, se eu colocar uma música muito misógina e escrota, algumas pessoas vão ficar desconfortáveis, mas se eu botar alguma coisa que o pessoal gosta de ouvir, vai criar um clima. Quando eu não chego muito pilhado, eu consigo construir isso de uma forma melhor. Consigo pensar além do clima e trabalhar com uma intenção maior com algo que eu quero fazer.

Às vezes, era tudo muito automático, e, quando eu tô mais sóbrio, eu consigo pensar melhor no filtro que eu quero colocar, no loop que eu vou fazer… É muito mais mágico!

Mas, eu também gosto de chegar meio alteradinho. Quando eu vou tocar no meio do rolê, eu gosto de acompanhar o set dos outros, ir lá e tomar uma cevinha, porque isso me faz entrar no clima. Eu tava falando ontem com um DJ, sobre como é foda entrar pra tocar, pegar a essência do último DJ (a vibe que ele tava construindo, o tipo de música), continuar o que ele tava fazendo e puxar pro que eu quero fazer. Quando eu tô curtindo, no rolê, isso fica muito mais fácil porque eu tô ali com a vibe do cara.

Gabriel: Parece que tu tem um “processo analítico” dos outros DJs, de ver o que eles tão cozinhando lá. Mas isso é algo de agora que tu é DJ ou já era algo que tu prestava atenção quando tu só fazia parte do público?

DJ Bruninho Mec: Antes eu tava só no rolê, mas eu acho que eu sempre analisei porque eu sempre gostei de o que é ser DJ. Quando começaram a aparecer DJs com mais personalidades, que faziam coisas mais diferentes, me brilhava muito.

A primeira vez que eu fui num set que mexeu muito comigo foi numa turmalina, na rua. As músicas que eu me identifiquei foi do deekaps, uma dupla de pessoas negras que fazem um som muito foda. Quando eu vi eles, eu entendi que é isso que eu quero ouvir mais, mas nem pensava em fazer ainda. Comecei a ir nos rolês e ver se faziam algo parecido com eles e querendo entender pra onde que o DJ ia me levar, tá ligado?


Pra mim, DJ é isso: é entrar numa conexão com a pista, falar assim “quero que vocês ouçam isso”, ver como eles respondem a isso… Podem ficar mais paradinhos, mas tão gostando? Porque tem as músicas ambientes, pra te fazer dançar…

Gabriel: Como se o set não precisasse estar no alto o tempo todo…

DJ Bruninho Mec: Definitivamente não, mas isso é algo que eu aprendi mais ainda com o mu540, porque, às vezes, ele tá num bom muito alto, com muitos estímulos e, às vezes, ele vai entrando numa vibe mais de boa, só pra mudar a dinâmica. 

Acho que não precisa ter a continuidade de algo lá em cima o tempo todo… às vezes, faz sentido ficar o tempo todo assim, mas não é uma regra.  Tem muito disso em ser DJj: não se apegar a regras. Quando tu faz o teu set bem, é muito mais mágico do que tu ficar pensando se tu tem que começar devagarinho, chegar num ápice. Eu acho muito mais legal tu começar devagarzinho e, do nada, já descaralhar…

Gabriel: Tipo, brincar com uma “estrutura”?

DJ Bruninho Mec: Literal! Brincar com a estrutura. Eu falo pro pessoal ao meu redor que a minha vida é sobre brincar, sobre experimentar com as coisas. Não me prender a certos julgamentos, mas me autocriticando e querendo evoluir, sei lá…

…

O set do Bruninho era o último da noite e ele tinha me avisado que, provavelmente, ia começar perto das duas da manhã e que, mesmo com o set montado, não sabia quanto tempo ia durar, mas que tudo ia acabar perto das quatro. A festa teve alguns problemas de organização, desde DJ cancelando em cima da hora até uma chuva que, de acordo com uma das pessoas que tava organizando o evento, “despilhou a gurizada a vir”.

As pessoas foram chegando pro rolê e eu conhecia algumas. Uma, em específico, parecia que tinha visto um fantasma, quando me viu. Me perguntou o que eu tava fazendo lá e, quando eu respondi que tava entrevistando o Bruninho pra um trabalho da faculdade, foi engraçado que a resposta imediata foi um “faz sentido…”, como se não fosse natural que o motivo de eu estar numa boiler fosse pra fazer algo relacionado a faculdade. “Mas que bom te ver aqui! Não sabia que tu conhecia o Bruninho”.

O plano era o seguinte: entrevistar o Bruno e acompanhar um set dele. Eu tava preparado pra que a conversa não fosse muito organizada, que tivesse interrupções de amigues dele, que o barulho poderia atrapalhar alguma coisa, mas que, por conta dessas intervenções, eu teria algum tipo de informação a mais. Eu sei que o Bruno é muito querido e que teríamos que parar pra ele falar com o pessoal que tava chegando, também.

Acabou que sentamos nós dois e outros dois DJs que tavam lá.

Sobre o set, mesa controladora e material digital

Gabriel: Como tu se relaciona com os teus materiais físicos e digitais na hora de tocar? Tu vê eles como um instrumento? Como uma extensão de ti, sei lá se isso faz sentido…

DJ Bruninho Mec: Quando eu falei sobre brincar com as estruturas, é exatamente isso: olhar pra minha controladora e… é tipo desenhar, quando tu olha pra uma folha em branco e pensa nas inúmeras possibilidades que pode botar ali. 

Quando eu olho pra mesa, é tipo isso. Eu vejo a música rodando e penso o que eu posso fazer. A minha (mesa controladora) é mesmo um brinquedo comparado com outras muito maiores, que tem muito mais coisas que pode fazer. 


Daí eu vejo e tento pensar no que eu, com a minha vivência, com a forma que eu gosto de tocar – porque todo DJ vai usar ele de formas diferentes -, com tudo que eu acho que seria daora de botar lá, de efeitos e tals… O que que eu posso fazer com tudo isso, tá ligado? Isso tudo vendo a folha em branco, ainda. Acho que é assim que eu vejo a minha mesa.

Gabriel: Antes da gente conversar, eu vi que tu tava falando com alguém sobre a forma que tu guarda as músicas e que tinha algum problema com a tua forma… Qual que é esse teto?

DJ Bruninho Mec: Isso tá sendo um problema agora porque eu me liguei que eu tenho muitas pastas…

Martins[3]: E tu não organiza aquela porra! Posso falar na entrevista, né? Ele não organiza as músicas dele. É um caos. As pastas dele não fazem sentido.

DJ Bruninho Mec: Pô, elas fazem sentido pra mim…

Lara[4]: Vou fazer um contraponto! Acho que, às vezes, se tu tenta entrar na mente do Bruninho Mec, tu não entende porque ele divide as pastas daquele jeito. Se tu tocar com o pendrive dele, tu tem que fazer um esforço.

Gabriel: Tá, então existe o teu pendrive?

DJ Bruninho Mec: Não, mas eu tenho um HD externo… Mas eu vou comprar um pendrive daqui a pouco.

Martins: Tem que comprar o pendrive, viado, mó barato o negócio.

DJ Bruninho Mec: Sim, eu tenho que comprar o negócio urgentemente. O cara tem que lembrar que ele tem que investir nele, tá ligado?

Gabriel: Como funciona esse aprimoramento pra um DJ?

DJ Bruninho Mec: Comprar um fone, um Pendrive, uma controladora… Acho que uma coisa que um DJ sempre almeja é evoluir o seu equipamento. O fone com a melhor acústica, a controladora mais foda e que faça mais sentido pra ele. 

Tem umas mesas que são umas máquinas, tá ligado? Que tu pode levar só elas e o Pendrive. Elas são mega gigantes e tem um computadorzinho dentro… 

Ahhhh agora sim chegou a gurizada boa…

(além do pessoal que tava sentado com a gente numa área aberta que servia como fumódromo, as pessoas iam direto pra lá pra encontrar o Bruninho Mec)

Gabriel: Como que funciona o teu relacionamento com as músicas que tu vai colocar, que tu queria colocar, mas acha que não funciona,…

DJ Bruninho Mec: Acho que é algo que tá junto com aquela pergunta se eu comecei a analisar os DJs desde cedo. Quando eu tava no rolê e comecei a entender o que eu gostaria que o DJ me entregasse com essa experiência, eu também comecei a pensar no público e ver a reação das pessoas, porque eu também era público.

Pra mim, seleção de música, baixar, pesquisar e tals é sempre em volta de se eu gosto dela, se as pessoas também gostam ou se é só eu mesmo. Tem muita música que eu baixo porque eu sei que, em algum momento, eu vou me sentir confortável em colocar, mas tem muitas outras que eu baixo pensando que vai criar um troço gostoso pra quem ouvir.

Gabriel: Tu sabe quanto tu tem no teu HD?

DJ Bruninho Mec: Ba, viado, nem sei… Eu tirei as músicas do meu PC e ele tem 100 GB. Depois que eu tirei, ele ficou com uns 46 GB… Acho que uns 30 GB de música… Ba, não sei na real, acho que é 30 mesmo. Não sei se fez sentido essa matemática. 

Tem muita coisa repetida e é por isso que eu tenho preguiça de arrumar elas. Mas voltando pra falar delas em si, depende muito tanto do meu gosto quanto do público. Eu sou uma pessoa que me adapto muito a essa relação, também.

Gabriel: Mas tu vê o que o pessoal curte fora do rolê?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de ver música que as pessoas colocam nos stories, tá ligado? Eu salvo muito elas, porque eu penso que, se essa pessoa que curte esse tipo de rolê tá escutando isso, outras pessoas também devem.

Eu pego a música dos stories, vejo ela no Spotify, coloco a rádio dela e daí eu vou pegando músicas relacionadas. Eu gosto que as pessoas ouçam o que elas gostam de ouvir normalmente.

Gabriel: Quando tu tá escutando uma música, tu já pensa em como tu vai trabalhar com ela/nela?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de tocar a “Machuquei, Machuquei a Xt da Paty” e eu penso assim, tá: eu quero botar essa música em cima de outra ou eu quero que ela comece só ela, tá ligado? 

Se eu quero que comece só ela, eu penso se eu quero brincar com uns efeitos nela ou eu quero brincar com uma batida, com uma voz nela. O que eu quero trazer pra ela, nesse momento? O que vai ser mais daora nesse rolê?


Porque pode ser uma batidinha mais lenta pra encaixar com o clima do rolê, ou algo mais rápido, ou pode ser uma voz pra daí já ir pra outra música… Vai muito do que eu tô sentindo pra esse momento, tá ligado?

Gabriel: Eu piro muito nas transições entre as músicas. Tu vê algo de especial nelas?

DJ Bruninho Mec: Pra caralho! É arte. É um dos ambientes mais criativos e, é graças a exercer essa função de DJ, que eu consegui entender que eu posso ser mais livre nas outras coisas que eu faço. Na dança, eu tinha muitas amarras, e depois que eu comecei a tocar e ver que eu consigo trabalhar de diversas formas com arte, eu entendi as várias possibilidades que eu podia fazer em outras áreas. 

Acabei me sentindo muito mais livre dançando, desenhando, ensinando, pintando, fazendo arte. No quesito DJ, a minha criatividade vai conforme as minhas músicas. Eu tenho tantas músicas guardadas acho que pra ficar pensando nas possibilidades que eu posso fazer.

Gabriel: Tem alguma combinação mais estranha que tu fez?

DJ Bruninho Mec: Eu sou o cara das combinações estranhas, tá ligado? Hoje eu fiz uma de “Picada Fatal” com “Pyramids”, do Frank Ocean… E ficou horrível. Eu fiz isso muito na várzea, só tava pensando o que ia acontecer se eu colocasse aquilo ali.
“Pyramids” é em 108 bpm e a outra era 130. Daí eu tive que abaixar muito da do Livinho e a voz dele ficou tri estranha e arrastada.

Gabriel: Mas tu tentou aumentar o bpm de “Pyramids”?

DJ Bruninho Mec: Ba! Não fiz…. Sim, podia funcionar afu com a batidinha do funk… Tu vai remixar umas músicas pra mim, tá?

Gabriel: Me chama que eu aceito, hein…

…

O DJ Martins começou a tocar era meia noite. Eu tava conversando com o bruninho ainda, mas ele convidou pra ver o set e foi chamando o resto do pessoal que tava no fumódromo pra ir pra pista.

Eu cheguei numa hora que tava tocando “o fortuna” de Carl Orff. isso me pegou muito de surpresa. eu tinha falado com o bruninho de junções estranhas, mas não achava que os sets funcionam juntando desde música clássica até drill. Fiquei mais afastado do pessoal que estava no meio do salão e tentei prestar atenção mais no trabalho do DJ.

Tem memes que zoam as caretas que os DJs fazem quando eles tão remixando na hora e é sempre algo que parece só uma caricatura mesmo, mas parecia muito que ele tava extremamente focado na controladora como um cirurgião que presta atenção ao cortar algum tecido do paciente. Nessa hora, a pista tinha muitas pessoas, mas nenhuma estava dançando. Todos conversando entre si, usando o celular, tirando fotos. Até que uma batida de boom bap surge na música tomando todo o volume e ficando cada vez mais distorcida e rápida, se transformando no ritmo de um funk e a letra iniciando mais baixo. As pessoas começam a dançar na batida e cantar a música enquanto o DJ olhava pro ao redor buscando aprovação e se sentindo tão aliviado como nunca.

Eu, infelizmente, não me lembro qual era. Eu não me lembro de quase nada que tocou, mas não no sentido de não ter sido marcante, mas porque eu só não sou familiar a elas mesmo. Não acho que é meu lugar de validar o set do cara ou não, mas eu não me lembrava a última vez que eu tinha visto tantas pessoas num espaço tão pequeno sintonizados e em transe com a música.

Eu gosto muito de Talking Heads e eu admiro muito o vocalista da banda, o David Byrne. As primeiras coisas que eu vi dele foram com ele mais velho e já grisalho, quando ele estava falando sobre a sua performance no palco e citou o fato que é autista e que tinha recebido o diagnóstico recentemente. Ele falava que suas danças mais “truncadas”, repetitivas e robóticas são a forma que ele tem de se comunicar com o mundo e que ele não tem vergonha delas.

Eu sinto a mesma coisa. Também sou neurodivergente, nunca consegui dançar muito e vi nas suas performances alguém se expressando de uma forma muito sincera. Desde então, as poucas vezes que eu me permiti dançar (ou até só me movendo mesmo), eu notei um pouco de uma beleza.

Nessa festa, eu via as pessoas se movimentando e dançando com uma naturalidade e vontade de vida que me lembraram muito esse momento que eu me deparei com as danças do Byrne. Eu não me senti a vontade de dançar lá, mas noto como o trabalho do performer (no caso, o DJ) influencia os movimentos do público, também, quando ele seleciona e trabalha em cima de músicas que são significativas pras pessoas que estão lá. Mesmo que eu quisesse prestar mais atenção no trabalho do DJ, as pessoas dançando e se curtindo chamava muita mais atenção e talvez pudesse ser considerada como um “produto” do trabalho dele.

Sobre a cena e a comunidade

Gabriel: Eu não sou muito ligado no “mundo” DJ. Queria fazer perguntas que dessem conta do que seria essa “comunidade” de pessoas que tocam em Porto Alegre. Mas acho que a pergunta mais tosca e geral pode funcionar: existe e como é a cena de DJ’s?

DJ Bruninho Mec: Eu acho que a cena de DJs existe sim, definitivamente. Como qualquer outra cena, né? A partir do momento que várias pessoas exercem a mesma função e fomentando uma cultura, de maneiras diferentes, mas do mesmo lugar, acho que existe uma cena. Definitivamente existe uma cena de DJs por conta disso.

Não sei muito dizer como ela é. Acho que ela tem as suas panelinhas, pré-definições pra estar dentro, pra subir… Mas, ao mesmo tempo, eu vejo que ela não é tão presa assim, pelo menos, aqui no Sul, a essas coisas.


Acho que ainda dá muito pra crescer, fazer os seus rolês e tocar nos lugares sem se envolver com panelinhas. Tem muitas pessoas diferentes na cena de DJs e, aqui no Sul, existem muitas pessoas que vão te acolher – eu tô falando da minha experiência, não sei pro resto direito. 


Muitas pessoas me acolheram, queriam ouvir o que eu tinha pra mostrar e trocaram comigo. Acho isso muito importante pra qualquer pessoa que seja nova e pras pessoas que são mais velhas se sentirem confortáveis nessa comunidade, nesse trabalho e nessa arte. Acaba que fomentar isso da melhor maneira é o mais importante pra mim.

Gabriel: Como seria?

DJ Bruninho Mec: Colando nos rolês que tu consegue ir, falando o que tu acha dos sets, elogiando e trocando. Acho que os melhores momentos que eu tive nessa comunidade foram os momentos que eu pude sentar com outros DJs e conversar sobre o que é ser DJ. Não só no sentido de trabalho, mas de expressão, pesquisa, formas de tocar… tudo que permeia o ser DJ.

…

Todo mundo tava cansado e parecia que poderiam dormir a qualquer momento. Eu também tava, mas ainda queria ver qual era a mágica do Bruninho. As conversas entre as entrevistas já não estavam fluindo muito e mais pessoas iam embora de lá.
Quando ele foi chamado pra tocar, já tinha passado das duas horas. Eu tinha encontrado um grupo de pessoas e todos fomos ver ele montar a mesa e esperar o set dele. Ele conectou os cabos, pediu pra um funcionário um kit e deu play na primeira música.

Pensava em como ele ia brincar com o público e, dessa vez, foi de uma forma bem mais formal, sem muitas quebras de expectativa. Enquanto ele tocava, o DJ que arrumava suas coisas tentava guardar seu notebook, mas não conseguia se ajustar com o público dançando e indo pra perto do Bruninho.

Público no set do Bruninho, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 Algo que me chamou muita atenção foi quantos dos seus amigos que tinham participado (in)voluntariamente da entrevista não estavam só na pista, mas estavam perto do Bruninho dançando com ele, como se ele não fosse o DJ, mas só alguém que tava curtindo.

A cada transição de música, o Bruninho dava umas risadas e ficava prestando atenção nas pessoas. No meio do set, ele esbarrou em alguma coisa e acabou aumentando o grave da caixa de som. Foram tentar ajudar e ele falou “deixa assim, arruma daqui a pouco”. O “problema” técnico acabou sendo envolvido pelo Bruninho que aumentou ainda mais os seus graves enquanto o pessoal dançava.

Com o fim da música, ele finalmente arrumou o problema e seguiu como se não tivesse o “abalado”. Mais pessoas iam saindo e algumas voltavam pra sala pra dar tchau pro Bruninho e ele pedia pra responderem ele no Instagram.

Em um certo momento, o Bruninho colocou a música “TV Off”, do álbum mais novo do Kendrick Lamar. Não fazia duas semanas do lançamento do disco e essa música, em específico, tinha virado um hit com uma brincadeira do Kendrick que ele grita prolongadamente o nome do produtor dela: MUSTAAAAAAAAAAAARD.

No primeiro segundo dessa música, alguém grita “eu te amo Bruninho”. Mais pessoas se juntavam em volta dele e, quando o momento da brincadeira chegou, todos gritaram junto da música enquanto o Bruninho já criava a transição pra próxima música.

Toda essa curtição já tava era muito maior que qualquer uma que eu tinha visto lá. Eu não conseguia não estar envolvido com todo mundo dançando e curtindo a mágica do Bruninho. Mesmo que o set estivesse acabando, todo mundo que tava lá ainda estava muito animado, como se não fossem as mesmas pessoas que estavam quase dormindo poucos minutos antes. A energia não diminuiu e o fim do set foi coroado por salva de palmas pro coletivo que organizou a festa, pros DJs e pros trabalhadores do local. Um amigo do Bruninho cumprimentava os funcionários e, no fim, gritou “PELO FIM DA ESCALA 6X1”.

Porto Alegre não tem mais tanta relevância nacional pra chamar atenção pra uma comunidade de rock e gêneros adjacentes, mas acredito que toda essa comunidade de DJs e de música eletrônica como um todo tem todo o potencial pra remontar aqui um novo polo cultural. Eu dei tchau pro Bruninho e pensava nessas questões que eu não consegui perguntar, sobre o que ele espera do futuro pra ele e pra cena. Acabei não perguntando nada sobre os locais que DJs tocam e só falei de quão aleatório aquele lugar era pra uma boiler room. “É, mas acho que deu. Pelo menos, o kit era bom”.

notas:

[1] Ninguém lá sabia que ia ter uma festa boiler logo depois que eles saíssem. Eu demorei pra entender que aquele lugar funciona com aluguel pra eventos. O pessoal do sertanejo ainda não descobriu as boiler rooms, mas aguardo esse dia chegar.

[2] Bar que ele começou tocando.

[3] DJ e amigo do Bruninho que tocou antes dele na festa.

[4] DJ e amiga do  Bruninho.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Baile da Syon: Uma experiência musical e audiovisual em Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Brenda Trindade e Julia Caye

 

Syon Trio toca em espaço Multiverso Cais Embarcadero, em Porto Alegre.
Fonte: Post on Instagram

Eram seis horas da tarde de um sábado comum em Porto Alegre, e nós entrávamos no Multiverso Cais Embarcadero, localizado perto da Orla do Guaíba, um local conhecido por suas festas diurnas, chamadas de “sunset”, que buscam proporcionar como maior atração o pôr do sol. A atmosfera era única, muito diferente do que era costume ser presenciado naquele local, parecia um planetário ou algo do tipo. Era uma esfera escura, em que a única iluminação saía do chão, e havia projeções por todas as paredes, com bolas de discoteca e dizeres como “Baile da Syon”, “Syon”, entre outros. Definitivamente não pareciam ser apenas seis horas da tarde. Muito pelo contrário, parecia que estávamos em uma balada normal, e já era de madrugada – exclusivamente por causa da atmosfera.

Segundo a produção do trio, a proposta da festa era de nos proporcionar uma experiência audiovisual, missão cumprida logo que adentramos ao espaço. Junto com os dizeres projetados nas paredes, as luzes alternavam entre amarelo, vermelho, verde e azul, quase como em uma dança seguindo o ritmo da música. A música, atração principal da festa, foi iniciada com os DJ’s Léo Bueno e Zé, que misturaram remixes da própria Syon Trio, como uma espécie de preparação para o show a seguir, e grandes hits do funk e trap nacional.

O público no local era composto majoritariamente por estudantes universitários, entre 19 e 25 anos, de classe média alta. Lá eles formavam uma grande cena, entre pessoas que se juntam frequentemente, mas que naquela tarde estavam unidos para viver uma experiência visual diferente de outras festas em Porto Alegre, em conjunto com músicas que faziam já parte do seu cotidiano: músicas eletrônicas. Apesar de ser uma espécie de inauguração do local, era perceptível que os donos do empreendimento do Embarcadero estavam tentando tornar o espaço uma verdadeira cena, ou melhor, buscando atingir “aquele momento especial quando um florescimento criativo parece formar todo um novo centro social” (Byrne, 2012). No entanto, nos pareceu que os criadores do evento buscaram implementar esse momento forçadamente, para a camada elitizada da população, o que não acreditamos que vá funcionar, pois, comparado com o movimento acompanhado por Byrne, que se tornou seu foco de estudo, que acontecia de forma natural, e por isso se propagava, já que unia o público a artistas ainda pouco conhecidos, o Baile da Syon nos pareceu como uma “jogada de marketing”, forçando um pouco o movimento.

De qualquer forma, apesar de acreditarmos que o espaço não vá se tornar uma cena por não seguir as regras descritas por David Byrne, o evento foi muito bem aproveitado por todos os presentes com quem conversamos. Isadora Schramm, estudante de publicidade da UFRGS, contou que nunca tinha ido a um show de eletrônica, apenas conhecia o Syon Trio por suas músicas mais populares, que começaram a viralizar nas redes sociais em 2022, mas que estava no show exclusivamente para vê-los:

“Eu nunca gostei muito de música eletrônica, mas minhas amigas me chamaram para vir então pensei ‘por quê não né?’. Eu imaginei que seria completamente diferente, e que iria me sentir de fora. Mas, pra minha surpresa, a maioria das músicas que eles tocaram eu conhecia, e o pessoal agitou muito também. Eu sabia mais ou menos quem eles [Syon Trio] eram, mas assistir eles tocando ao vivo foi uma experiência completamente diferente. A energia do público e a performance deles me surpreenderam muito. Com certeza fiquei com vontade de ver eles de novo.”

Já a Camille Fossati, estudante de biomedicina da UFCSPA, nos contou que já estava acostumada a rolês com atrações do gênero eletrônica e que o “Baile da Syon” revolucionou esse tipo de festa:

“Quando vamos nessas festas, somos acostumadas com ambientes normais, de festas mesmo, com luzes e tudo mais. Vamos nessas festas só por causa das atrações, mas a Syon nos chamou atenção pela proposta completa, um lugar legal com música boa.”

 

Syon Trio é composta por três gaúchos.
Fonte: Post on Instagram

QUEM É SYON TRIO

A maioria dos jovens do Rio Grande do Sul já ouviram falar da Syon Trio. Naturais de Pelotas, cidade há 260 quilômetros de Porto Alegre, Henrique Moré, Gabriel Castilhos e Liruan Corteletti são três DJs que buscam unir a música eletrônica com os ritmos mais populares do Brasil – o funk e o trap.

A primeira vez que nós – duas estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no início dos nossos 20 anos – ouvimos falar sobre eles foi no primeiro semestre da universidade, quando começamos a frequentar a vida noturna da cidade e, consequentemente, a cena musical que a acompanha.

Entretanto, a Syon Trio é um pequeno mistério que buscamos desvendar – e esclarecer – ao longo deste texto. Primeiramente, apesar de ser composto por três pessoas, eles fazem parte de algo que atua quase como uma instituição, e que pode ser definido como uma espécie de banda, ou a figura de apenas um artista. Isso porque, apesar de colecionarem quase trinta mil seguidores no Instagram como um conjunto, individualmente apenas um deles utiliza a rede social, e mesmo assim não se expõe muito. Além disso, os três se apresentam para o público sempre como um trio, seja nos shows ou em entrevistas. Também é incrivelmente difícil de encontrar qualquer informação pessoal de qualquer um deles, ou de descobrir como era a vida deles antes de se tornarem “A Syon Trio”.

Ou seja, por mais que seja um dos grupos musicais em maior ascensão entre a camada jovem da população brasileira, eles se mantêm a uma certa distância do público. É como se, ao entrarem na persona da Syon Trio, eles deixassem de ser Henrique, Gabriel e Liruan, e se tornassem um só. Isso pode parecer um pouco óbvio, ou normal, mas vai totalmente contra o movimento que se desencadeou depois que a 30PRAUM, um dos maiores grupos de trap do Brasil atualmente, foi criado. Esse conjunto é formado por Matuê, Wiu e Teto, três jovens de Fortaleza que atuam de forma independente, mas que constantemente se unem para compor músicas juntos, darem entrevistas e participarem dos shows uns dos outros. Ou seja, apesar de também participarem de um trio, eles são independentes entre si, criando as suas próprias carreiras musicais sem depender dos outros.

Na contemporaneidade, especialmente em termos de grupos brasileiros e de estilos musicais populares, como o trap e o funk, isso é o que há de mais comum: artistas que, apesar de performar e criar diversas músicas juntos, possuem suas próprias identidades e histórias. Ao analisarmos a Syon Trio, percebemos que eles não vão de encontro com isso. Muito pelo contrário, parece que suas identidades se perdem ao incorporarem o grupo. Isso pode ser por muitos motivos, mas acreditamos que os principais sejam que eles não atraem o público em cima de suas imagens pessoais – no sentido de que se víssemos um deles na rua não saberíamos exatamente quem é – e que eles buscam atuar como uma espécie moderna de banda, trazendo um novo significado para esse conceito na cena musical moderna.

 

O SHOW DA SYON

O show da Syon Trio, o momento mais esperado da noite por nós e um pouco mais de 400 pessoas presentes na festa, foi um verdadeiro espetáculo audiovisual. O trio caprichou na entrada, com um grande jogo de luzes e efeitos especiais. Os gaúchos adentraram a festa enchendo o ambiente com som e alegria. O público a nossa volta vibrava, ansiosos para o show a seguir.

Com grandes hits, como “Gimme Gimme / Baile do Cinga” do próprio trio, o lugar foi invadido por uma euforia contagiante. Desde Justin Bieber até Bonde do Tigrão, os dj’s conseguiram montar sets que traziam um misto de nostalgia e felicidade no público, dupla essencial para uma boa festa. As viradas, de um som para o outro, eram feitas com perfeição, quase não deixando a plateia descansar entre uma música e outra.
Nos arriscamos a dizer que foi um dos melhores shows de eletrônica que já comparecemos. Diferente de grandes sucessos do gênero, como Alok e Vintage Culture, a Syon Trio traz consigo um ar jovial, uma semelhança tão grande com o público que cria uma conexão pouco vista nesse tipo de show.
Outra coisa que nos chamou atenção, e não menos importante, foi o compromisso do trio em resgatar a cultura brasileira, característica às vezes um pouco esquecida entre DJ’s do gênero, que tentam ao máximo se aproximarem da forma de tocar dos norte-americanos. A Syon Trio traz para as suas músicas o estilo do jovem brasileiro da última década, aposta em estilos familiares aos festeiros da região sul e sudeste do país, os tornando requisitados nas casas de festas dessas duas regiões brasileiras.
Mas é claro, a performance do trio não fica pra trás dos grandes DJ’s da música eletrônica mundial. Nomes como Martin Garrix e David Guetta, conhecidos por seus shows ao vivo cativantes, que agitam multidões pelo mundo, são referência quando falamos desse tipo de assunto. A Syon, ainda iniciante e com infinitamente menos recursos que esses artistas, tem potencial em expandir seu público e até mesmo revolucionar o cenário brasileiro com a experiência completa que o trio proporciona aos seus fãs.

 

A PERFORMANCE

A performance sempre foi muito associada a shows de música pop, e os artistas da geração Z – especialmente as mulheres – estão reforçando e até elevando o patamar. Nomes como Chappell Roan, Sabrina Carpenter e Charli XCX estão entre os mais pesquisados do Twitter e do Tiktok especialmente por performances feitas em suas turnês. Thiago Soares (2015, p. 22) defende que a relação entre a mídia ultrapassa a simples interpretação e envolve aspectos de percepção e sensibilidade, nos levando a uma nova era, que experimenta não apenas nos sons, mas também nos aspectos visuais (como coreografias, elementos do palco, vídeos que passam nos telões, uso de luzes) e na experiência inteira de presenciar o artista.

Apesar de essa cultura ser comum e até estar se popularizando ainda mais na esfera da música pop, o evento da Syon Trio mostrou como outros gêneros estão adotando essa estratégia de tornar o show uma “experiência” para o espectador, e remover a tênue linha entre música e entretenimento. O Baile da Syon, com o uso de luzes, distribuição de brindes (copos e óculos coloridos) e imagens projetadas fez uso do audiovisual para capturar ouvintes novos e convidar as pessoas a ir em seus próximos shows – o que já podemos adiantar que funcionou.

Claro que, apesar de a Syon Trio ter inovado em Porto Alegre com a sua performance, o Alok foi o primeiro artista a tornar esse elemento o principal dos seus shows no Brasil. O artista, autor dos hits “Hear Me Now” e “Never Let Me Go”, ficou conhecido em 2020 pelo uso de luzes fortes e dinâmicas em seus shows. Há quatro anos, ele usava apenas luzes que se alongavam até quase o final da platéia que piscavam e se mexiam, mas ele vem inovando cada vez mais com esse elemento visual, que se tornou quase uma marca registrada. Em seu show no Planeta Atlântida, em 2024, sua equipe usou drones iluminados, de forma com que pareciam apenas pontos de luz, para fazer formas, como corações e estrelas, escrever “Bah! Tchê!”, entre outros.

Sabemos que o Alok é um artista nacional com anos de carreira, e já passamos a esperar inovações em suas performances. Entretanto, participar de um evento como o Baile da Syon, em que os dj’s, natos de Pelotas, com poucos anos de carreira, também fizeram um uso incrível de elementos audiovisuais para cativar o público foi transformador para nós. É interessante também ver como os ritmos e características de gêneros estão se mesclando na modernidade. Soares descreveu há quase dez anos elementos usados quase que exclusivamente para o pop, e que hoje estão presentes não apenas na performance de artistas de eletrônica nacionais, mas também de rap e trap. Além dessas características, é comum um artista tocar mais de um gênero em seu show. Como descrevemos anteriormente, a Syon Trio misturou perfeitamente músicas da eletrônica (com batidas constantes e nenhuma parte cantada), hits pop dos anos 2000 e melodias nacionais, especialmente em torno do rap, trap e funk.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A celebração dos Jogos Pan-Americanos de Surdos 2024: vivendo a cena musical da festa LiVibe, em Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Ellen Caroline de Lima

 

Es asombroso ver y sentir primera vez eso musico con sordo. 

Posso tirar uma foto disso para inserir no meu texto?, perguntei, após perceber que a síntese do que significava essa noite para ele era, também, minha percepção sobre a festa. 

Claro, respondeu balançando positivamente a cabeça, virando o celular para que eu o fotografasse.

Quando cheguei na esquina do local onde acontecia a festa LiVibe, na sede da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul (SSRS) [1], já era possível ouvir a música que vinha de dentro do ambiente. Parece óbvio dizer, mas o volume era alto, muito alto — a ponto de parecer que eu estava na festa antes mesmo de estar nela. A batida era o que se sobressaía: tum tum tum tum. O volume alto foi ressaltado no momento que desci do Uber, pois o som da música fazia meu coração vibrar.

Eram 22h50. A festa havia começado às 22h do dia 15 de novembro, feriado. Como fora divulgado anteriormente, a festa LiVibe tinha o propósito de celebrar o encerramento dos 6º Jogos Pan-americanos de Surdos, sediado em Canoas entre 10 e 17 de novembro. Embora o evento tivesse os surdos como público-alvo, a participação de ouvintes também era permitida — e incentivada, no caso de ouvintes fluentes em Libras, como era o caso de parte dos voluntários dos Jogos.

Faltando dez minutos para às 23h, havia uma fila do lado de fora, esperando sua vez de entrar. Eram cerca de dez ou quinze pessoas, com perfis consideravelmente distintos entre si: jovens, pessoas de meia idade, mulheres, homens. O que os unia não era a surdez, como depois entendi, mas a comunicação nas línguas de sinais, e a experiência de celebrarem o encerramento dos Jogos Pan-americanos de Surdos a partir da música.

Ainda na fila, a maioria das pessoas conversava entre si, sinalizando. Um homem gentilmente tocou em meu ombro, chamando minha atenção para um carro que estava vindo em nossa direção, saindo do estacionamento para retornar à rua. Ali, imaginei que observar o que estava ao meu redor seria, provavelmente, o único recurso que eu teria à minha disposição para investigar a cena, já que meu conhecimento de libras era limitado e insuficiente para conversar com os participantes da festa.

Após o término da primeira música, marcada por batidas compassadas, outra tomou o lugar. Flowers, da Miley Cyrus, era reproduzida em uma versão remixada. 

O DJ tocar uma música com letra foi uma surpresa para mim. Das muitas suposições que tinha antes de chegar na festa LiVibe, ouvir somente músicas sem letra era uma delas, afinal, não fazia sentido que os surdos cantassem. Quando um homem da fila fez o sinal de “batida do coração” [2] para se referir à sensação decorrente das músicas, pensei que meu raciocínio não fazia sentido, pois, um contato prévio com a letra, além da percepção do ritmo, seria suficiente para um surdo reconhecer que a totalidade de Flowers é composta de letra e ritmo. 

Depois de Flowers, ouvi, ainda no lado externo da SSRS, Unholy, do Sam Smith, e VERMELHO, da Gloria Groove. Aparentemente, o DJ que tocava gostava de pop, com um repertório que mesclava músicas nacionais e internacionais. Estava curiosa para ver como essas músicas eram recebidas no espaço interno da festa.

Conforme minha vez de entrar se aproximava, vi que os seguranças eram ouvintes, pois falavam e gesticulavam para que os participantes aguardassem a autorização para ingressar no local. Esperei e, ao passar pelo portão, fui encaminhada para a bilheteria do lado direito, que dispunha de duas atendentes. 

Tendo comprado o ingresso previamente, apresentei-o em meu celular, com um documento de identificação — seguindo o exemplo dos que estavam na minha frente. A atendente soletrou, em libras, meu nome, e eu confirmei. Então, colocou uma pulseira no meu pulso e perguntou se eu bebia. Afirmei com a cabeça, e ela me entregou um “vale chope”. Por fim, me desejou uma boa festa.

Do lado oposto à bilheteria, estava a entrada propriamente dita da festa. Nesta altura, parece redundante dizer que a música soava alta, mas dizê-lo reforça a novidade de percepção que eu tinha a cada aproximação do local exato de onde a música saía. 

Entrei às 23h07, logo depois que um novo DJ começou a tocar. Todas as batidas vibravam no meu coração. 

O espaço onde a festa acontecia era bem amplo. Era um salão. À esquerda, com luzes brancas, estava o local de retirada de bebidas, com um banheiro em cada lado, e a cozinha aos fundos; à direita, do outro lado do salão e com luzes coloridas, encontrava-se o palco dos DJs, com um telão atrás que transmitia vídeos de quem estava tocando ou imagens relacionadas ao universo musical. Ao centro, uma das portas do salão conduzia para um espaço aberto, ao ar livre, com mesas e cadeiras espalhadas pelo gramado. À direita dessa porta, encontrava-se o caixa exclusivo para a compra e a retirada de chopes.

DJ Hugo tocando na festa LiVibe, com telão reproduzindo um menino de fones

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Me dirigi ao caixa do chope, e descobri que poderia escolher entre pilsen e IPA. Consegui sinalizar o tipo que queria, e entender quando uma das atendentes perguntou se eu tinha certeza da escolha, uma vez que IPA é forte. Assegurei que sim e, em seguida, me sentei com o copo num sofá à esquerda desse caixa. 

Inicialmente, me propus a observar a festa por aproximadamente uma hora, a fim de ter material suficiente para descrever e analisar a cena. As pessoas foram chegando gradativamente, até que, no momento que contei, tinham em torno de cinquenta. Eram, em geral, pessoas mais velhas que eu, que aparentavam ter entre 30 e 60 anos.

As luzes eram similares às de outras festas de casas noturnas, mas o ambiente não era tão escuro. Isso poderia ser justificado pelo fato de a comunidade surda precisar enxergar seu interlocutor numa interação face a face, ou pelo próprio objetivo da festa, de integrar a comunidade participante dos Jogos Pan-americanos, que se encerraria em dois dias. Consequentemente, poucos dançavam, e a maioria dialogava uns com os outros.

Algumas pessoas que passavam por mim me cumprimentavam e, aproximadamente meia hora depois que cheguei, um homem, aparentando ser mais novo que eu, se aproximou para conversar comigo. Sinalizei que era ouvinte e ele, parecendo surpreso, repetiu o sinal, para que eu confirmasse. Vi que ele se afastou, se reuniu com outras pessoas e, em seguida, retornou com um celular.

A aba do Google Tradutor estava aberta, e a ferramenta mostrava as línguas Espanhol-Português. Nos apresentamos e começamos a conversar usando o tradutor de seu celular como base. Algumas expressões e palavras em espanhol eu conhecia, o que agilizava a comunicação, mas, de qualquer forma, digitar desacelerava o ritmo que a música eletrônica tocada pregava. 

Álvaro [3] perguntou se eu tinha ido à festa acompanhada, e expliquei-lhe o que estava fazendo lá. Soube que ele era um dos atletas de futebol da Seleção Mexicana de surdos, e que tinha ido à festa com seus amigos, também atletas do time. Durante a conversa, Álvaro me contou sobre sua vida no México, sua vinda ao Brasil, e as semelhanças e diferenças culturais que notava entre os dois lugares. Também me falou sobre sua surdez, que foi gradativa, e não de nascença — metade de sua família é surda, e a outra metade, ouvinte.

Em especial, Álvaro me disse que era a primeira vez que ia numa festa de surdos em que as músicas tocadas eram diferentes; segundo ele, sempre se reproduzia uma mesma música nas festas de surdos mexicanas. Ele parecia estar muito empolgado com o ambiente, pois olhava para todos os lados e sorria com o que via. Num determinado momento, declarou: Es asombroso ver y sentir primera vez eso musico con sordo.

Fala de Álvaro sobre a festa LiVibe

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Ali, ele se referia à diversidade das músicas e, principalmente, aos DJs surdos que tocavam no evento. Dos quatro integrantes da lineup, três eram surdos: DJ Lenny (@lennyvibe), DJ Phill (@djphill10) e DJ Kuli (@musicbykuli); os dois primeiros, brasileiros e gaúchos; o último, holandês. 

Um tempo depois, em meio a outros goles de chope, fomos para a área externa, onde a música, embora mais baixa, ainda era ouvida por mim. Álvaro me questionou sobre as músicas que gostava de ouvir. Mostrei-lhe a aba de curtidas da minha playlist do Spotify. Sem pensar, devolvi a pergunta. Ele me contou que antigamente gostava de ouvir rap — e citou artistas como 2Pac e Eminem. No meio disso, me contou um pouco sobre as guerras de narcotráfico ocorridas em regiões próximas onde ele mora, e sobre ter perdido amigos para esse cenário.

Conversamos sobre outros assuntos e aprendi alguns sinais da língua mexicana de sinais (LSM). Fui batizada com o sinal para meu nome, depois de ter tido que não tinha um. Percebi, às 2h55 que já tinha tocado Anitta, Onda Onda e Toma Toma Vapo Vapo. Perto desse horário, nos separamos para ir ao banheiro, e, quando retornei, não vi Álvaro.

Me direcionei para o sofá no qual estava antes e, em alguns minutos, Álvaro apareceu dizendo que foi verificar como os amigos estavam — pois um deles estava bebendo demais. Então, me chamou para a pista, a fim de que pudesse aproveitar a música enquanto dançava.

Inicialmente, fiquei um tanto quanto resistente, pois embora já estivesse alcoolizada, não estava preparada para dançar. Contudo, Álvaro me conduziu até a pista, e logo me convenci de que poderia ficar lá por um tempo. Obviamente, esse era o momento da minha vida em que eu tinha ouvido uma música no maior volume possível. Era quase como se meus ouvidos estivessem colados em uma caixa de som. Ali, não era somente mais o coração que ressoava com as batidas da música, mas meus ouvidos: parecia que tinham cordas vibrando no meu ouvindo junto das batidas da música.

Estar na pista de dança me deu outra perspectiva da festa. Antes, o que eu percebia eram pessoas conversando; agora, no meio da “bagunça”, via aqueles que dançavam dando tudo de si. Uma mulher, em frente ao palco, fazia quadradinho durante uma música eletrônica; outra, jogava o cabelo para os lados, ao estilo Joelma; Álvaro pegava em minhas mãos e se movimentava em círculo, como se estivéssemos dançando uma cantiga infantil. Outros, que não dançavam e nem conversavam, estavam na parte central do salão, jogando beer pong.

Consegui conversar com os amigos de Álvaro, que também eram pacientes para procurar entender o que eu queria dizer — e para esperar que eu compreendesse o que eles sinalizavam. Outras pessoas se juntaram a nós e, ao sinalizarem para mim, disse que era ouvinte. Um homem me perguntou de qual cidade era, pois não me conhecia — já que a comunidade surda tem laços sólidos —, e afirmei ser de Porto Alegre. Junto a isso, encontrei outros dois homens:  Simon, que era ouvinte, também de Porto Alegre, e Nino, que era surdo oralizado de São Paulo. 

Após saber que eu era ouvinte, Nino me falou em português que foi para Porto Alegre porque era um dos organizadores da festa, e me contou sobre as festas de surdos que são realizadas pela Deaf Feel. Até então, imaginava que eram eventos isolados, mas descobri que existe uma organização específica para realizar as festas.

Também na pista, prestei mais atenção nas músicas. Apesar de anterior ter notado as que tinham letra, a maior parte das músicas tocadas na festa, pelos quatro DJs, eram instrumentais, eletrônicas e, portanto, muito marcadas pelo compasso, como se nota em um vídeo gravado[4].

Nesse vídeo, para além da música, é possível notar a performance de alguns participantes, que subiram no palco para dançar. 

Quanto aos DJs, há um fato que chamou a atenção: ao contrário dos outros DJs, que mantinham os headphones no ouvido ou apoiados no pescoço, Lenny colocava com uma das mãos seus headphones no peito, balançando freneticamente a cabeça e movendo-se de um lado para outro. Isso me fez pensar novamente na forma como a música é percebida pelos surdos.

Por volta das 4h30, disse para Álvaro que iria descansar um pouco, e ele se ofereceu para ir comigo. Comentei que não precisava, afinal, ele deveria aproveitar ao máximo a festa. Contudo, ele disse que conversar também era uma maneira de fazer isso, e fomos para a área externa.

Conversamos um pouco e…

Às 4h50, fomos interrompidos por um dos seguranças, que apareceu na porta comunicando que a festa tinha acabado. Havia amanhecido. Todas as pessoas que ainda estavam lá saíram da SSRS e, por volta das 5h, não restava mais ninguém dentro do local. Em frente à SSRS, pessoas conversavam; outras se despediam.

Fim da festa LiVibe, com os participantes do lado externo da SSRS

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Álvaro pediu que eu fosse embora antes, pois era mulher e seria mais seguro se me visse entrando no Uber. Me despedi dele e de seus amigos, e fui embora.

Antes que a música tomasse forma, observar uma festa de surdos era uma oportunidade de investigar como se dava a interação dos participantes com os sons, e como isso seria percebido por mim, uma ouvinte. Contudo, os sessenta minutos previstos para a observação tornaram-se quase quatrocentos de conversas, descobertas, álcool e música. Com observação, claro. Às vezes. 

Ouvir, embora importante, já não era o sentido mais usado. Eu podia entender a música pela visão e, mais ainda, pelo tato. Sentir as vibrações no coração e nos ouvidos, depois se espalhando pelo corpo, mostrou que a música pode ser, simultaneamente, uma experiência coletiva e individual.

notas:

[1] A SSRS está localizada na Avenida Dr. Salvador França, 1800, no bairro Jardim Botânico em Porto Alegre – RS.

[2] Cf. https://www.facebook.com/Daniel.aprender/videos/596269562172914/?mibextid=rS40aB7S9Ucbxw6v. Acesso em 21/12/2024.

[3] Com o intuito de manter preservada a identidade das pessoas com as quais conversei, todos os nomes deste texto, com exceção dos DJs, são fictícios.

[4] Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1tNaQ5S-gDczyn_fEf9PeRl15K7MWiItt/view?usp=sharing. Autora: Ellen Caroline de Lima.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Category Is… Voz e Ritmo: o chanter na cena ballroom de Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Lucas Rafael Morel Bordignon

Este texto aborda a cultura ballroom com foco no papel do chanter nas balls. A partir de uma entrevista com Jean Carlo, um chanter, será possível compreender a importância dessa figura na criação da energia e dinâmica das balls. Além disso, o estudo inclui uma análise da última ball do ano, a Jingle Ball, com temática natalina, proporcionando uma visão prática e detalhada do evento e da atuação do chanter no contexto local de Porto Alegre.

 

A Categoria é: Ballroom!

O presente trabalho não se propõe a fazer uma revisão histórica do que é a Ballroom, mas sim, discutir questões da cultura ballroom e dos papéis dentro dela. Ainda assim, é preciso compreender o contexto de onde veio a Ball.

Inicialmente, a cena ballroom era uma espécie de paródia do mundo clássico da alta-costura das marcas de moda que promoviam a gentrificação. Era uma cultura underground criada por e para pessoas LGBTQ negras e latinas vivendo em Nova Iorque no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 (a ballroom desde então tornou-se internacional).

Criando um espaço de resistência, pertencimento e expressão artística. Nesses eventos, os participantes competem em categorias como runway – desfile e catwalk – vogue – a dança – e face – que refere-se a exibir um rosto impecável e expressivo, como se fosse um modelo de alta-costura. Cada categoria desafia diferentes formas de expressão corporal, estética e performance, promovendo a criatividade e a autoafirmação. Segundo nosso entrevistado Jean Carlo, quando a Ballroom chega no Brasil, é quando começa a existir novas categorias além das tradicionais, como “Passinho” e “Samba no pé”. 

 No Brasil, essa cultura tem ganhado espaço em diversas cidades, incluindo Porto Alegre, onde casas de ballroom como Leopardos, Harpia e Atrevida promovem balls que celebram a diversidade e a criatividade de suas comunidades. 

“O conceito de House (casa, em  português) dentro da ballroom significa  um   sistema   espelhado   no   parentesco,   estruturas   de   família   que ressignificam  o  cenário  familiar  biológico,  formando  relações  entre  sujeitos  com objetivo de  unificá-los,  ou  seja,  quando  um  participante ballroom adentra  em  uma House,  ele compete  em  nome  daquela  rede  específica  unificada  de  família. Essas Houses seguem    uma    funcionalidade    com    uma mentora/mentor   (estes   servindo   como representação de   Mãe/Pai)   e   seus   demais participantes.[1]” (ESTEVAM, ET AL, pg. 5)

 

As lendas e ícones (um título atribuído ao nome de um indivíduo para mostrar anos de trabalho árduo, impacto e troféus conquistados na ballroom) são concedidos a tal prestígio porque dedicaram anos lutando e resistindo contra um sistema heteronormativo, para que eles e outros como eles pudessem viver livremente como seus verdadeiros eus. Além disso, a ballroom é um espaço político, onde questões relacionadas a gênero, sexualidade e racialidade são ressignificadas. “O Ballroom é um ato político, que projeta uma realidade onde grupos que não têm acesso a determinados espaços e profissões possam mostrar sua capacidade e habilidade de viver todas as experiências que a cidade lhes nega” (Correia, 2022, p. 03).

A Ballroom, mais do que uma prática estética, é uma prática subversiva e emancipatória. Ao desafiar os estereótipos tradicionais de beleza e identidade, ela oferece uma plataforma para indivíduos que são marginalizados e excluídos por suas identidades de gênero e orientação sexual, permitindo que expressem sua autenticidade de forma criativa e poderosa.

 

Chanting

Na Ball, há três figuras que fazem uso do microfone: o Mestre de Cerimônias, o Chanter e o Commentator. O “MC” é aquele que faz os avisos, que apresenta a cultura para quem não conhece, que faz as introduções. O Chanter é pura musicalidade, que faz o “canto” para os performers. Já o Commentator é como um narrador para as categorias de “face” ou “best dressed”, onde o performer não precisa dançar, mas sim, servir algo. Idealmente, estes três deveriam ser pessoas diferentes, mas, Jean comentou que isso nem sempre é verdade, diversas vezes ele tem que fazer os três papéis. 

Jean Carlo, estudante de Jornalismo – fabicano – e Prince da Casa dos Leopardos, tem 24 anos e está inserido na cena de ballroom de Porto Alegre há 2 anos. Como Chanter, ele se tornou uma das principais fontes desse trabalho para entender essa figura tão essencial na cultura da ballroom, especialmente considerando a falta de estudos acadêmicos que abordem sua função. Sua experiência de vivência e sua perspectiva pessoal têm sido fundamentais para preencher essa lacuna, oferecendo um olhar mais profundo sobre o papel do Chanter da cena local.

O chanter precisa ter senso rítmico apurado e uma compreensão das dinâmicas de cada categoria para criar versos que dialoguem com a performance. Além disso, o chant frequentemente incorpora elementos da linguagem vernacular da comunidade, como gírias e expressões culturais. “Tem que ter muita musicalidade pra ser chanter”, diz Carlo. 

 

De Rihanna à Raça Negra

Quando perguntado sobre o uso do inglês nos chants, Jean Carlo comentou sobre a sua rotina de estudar os áudios das balls no SoundCloud, uma plataforma que oferece gravações de categorias inteiras de ballrooms. Para Jean, essa prática não é apenas uma forma de aprendizado, mas uma maneira de absorver as nuances da linguagem própria da cena. A imersão no idioma é essencial para entender o vocabulário único da ballroom, que é transmitido principalmente em inglês, mas que vai além da mera tradução, conectando os participantes através de um código comum.

JEAN: Eu ouço muito, é algo que estudo bastante. Eu uso o SoundCloud para isso, porque eles colocam muitos áudios de ball. Assim, consigo ouvir categorias inteiras lá. E o mais interessante é que, ao ouvir esses áudios nos meus fones, consigo visualizar o que está acontecendo. Isso é muito ‘babado’, porque a ballroom tem um linguajar muito próprio. Às vezes, quando tem pessoas novas na ball, eu falo: ‘The next category is… femme queen performance! When the beat starts, you start, let’s go!’ E aí começo: ‘femme queen performance, tens, tens across the board! Anybody else? Anybody else?’ Essas pessoas não vão entender o que estou falando, mas para mim isso é muito nítido. Eu falei a próxima categoria, é ‘femme queen performance’, eu sei o que significa. ‘Ten across the board’, ‘sim’ da mesa toda. ‘Serve your cunt, serve your pussy’, ‘feminine-a cunt’. Esses linguajares são naturalizados para a gente, que entende. Então consigo visualizar, apenas ouvindo o áudio de uma categoria. E todos os áudios são em inglês, então a gente acaba pegando essas expressões. Eu gosto muito de trazer diferenciais para as balls. Quando trago referências musicais, a galera vem junto, e isso eleva o clima da ballroom.

Esse processo de internalização dos termos, como “ten across the board” ou “serve your pussy”, faz com que ele tenha um domínio completo do vocabulário, que, embora seja em inglês, é apropriado dentro da cultura ballroom. Quem não entende agora, vai passar a entender com o tempo, à medida que participar de mais balls e se familiarizar com o linguajar e as práticas que o cercam. Assim, a linguagem se torna uma parte essencial da vivência e do aprendizado dentro desse universo, criando uma sensação de pertencimento e compreensão para os envolvidos na cena. E destacou a importância de trazer o jeitinho brasileiro e referências brasileiras para os chants. 

JEAN: Tipo, eu falei: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental, Kiara, você é sensacional.’ A referência disso é a música ‘Raça Negra’: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental… […] Eu acho que é uma forma da gente abrasileirar, também.

Por fim, ele destacou como a ballroom, embora internacional, não deixa de se conectar com outras expressões culturais dissidentes do Brasil. 

JEAN: A Ballrom é aquela coisa de roda, todo mundo dançando, cantando, energia e celebração. E isso não foge muito de uma roda de capoeira, por exemplo. Não foge muito de um samba, de um baile funk. […] Então quando ela chega aqui, ela se mescla com todas as coisas que a gente tem aqui. Então eu acho que é fundamental a gente também abrasileirar e dar a nossa identidade.

JEAN: Eu quase sempre faço chants em português, ultimamente eu tenho colocado umas refs mais em inglês, como tipo Rihanna, pegar umas músicas tipo Bitch Better Have My Money. Então fazer chants com essas mais populares, sabe?

O que torna a ballroom única, no contexto brasileiro, é sua capacidade de se integrar com outras formas de expressão cultural, criando uma versão abrasileirada dessa prática, que respeita as raízes locais ao mesmo tempo em que abraça a globalização da cena.

A Arte de Servir

O “serving” na ballroom é o ato de entregar algo com total autenticidade e confiança, seja através da dança, do vestuário ou do comportamento. Esse conceito é central na cena ballroom, pois não se trata apenas de exibir uma performance, mas de apresentar um “eu” genuíno e empoderado, algo que é profundamente valorizado dentro desse espaço. Para muitos participantes, especialmente aqueles que fora da ballroom estão marginalizados ou invisibilizados, o “serving” é uma forma de reivindicar sua presença e afirmar sua identidade de maneira plena. 

Na ballroom, o “serving” se torna um meio de resistência e autossuficiência, pois permite que o performer, ao demonstrar sua verdade, desafie as normas de gênero e beleza que a sociedade impõe. Assim, esse ato de “servir” vai além da performance, funcionando como uma poderosa afirmação de ser e de existir de forma autêntica, independente das limitações impostas pelo mundo exterior. 

In Butch Queens Up in Pumps, Marlon Bailey descreve a ballroom como um espaço social criado pelos seus membros. Este espaço, que engloba uma ampla gama de indivíduos diversos em gênero e sexualidade, proporciona um senso de validação e segurança. Os únicos aspectos definidos da ballroom são as categorias, que permitem uma ampla inclusão. Estas variam em temas como Realness, Face e as conhecidas categorias de dança como old way, new way e vogue femme.

O vogue femme é uma dança que mistura exagero e graça, influenciada por estilos como ballet, jazz, dança moderna e, especialmente, pela corporalidade das travestis. O chant de Jean no Jingle Balls, com as frases “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” e “serve pussy to me”, se conecta diretamente com o conceito de vogue femme, uma das formas mais fluidas e poderosas de expressão dentro da ballroom. 

O vogue femme é, por si só, uma manifestação da fluidez de gênero, onde o performer traz a “essência feminina” para sua dança, independentemente de sua identidade de gênero. A expressão “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” é uma afirmação de que a feminilidade é uma performance, algo que pode ser vivido e expresso por qualquer corpo, sem a necessidade de se conformar aos padrões biológicos ou sociais de gênero. Essa frase também faz um comentário sobre como a ballroom, e o vogue femme em particular, desconstrói as normas sobre o que significa ser mulher ou mulherizada, permitindo que qualquer pessoa, independentemente de sua identidade de gênero, possa acessar e expressar essa feminilidade de forma autêntica.

Já a expressão “serve pussy to me” dentro desse contexto funciona como uma afirmação de poder e domínio, uma espécie de desafio e interação com os competidores. Em muitos contextos de vogue femme, termos como “pussy” e outros relacionados à sexualidade são usados para enfatizar a performance, a confiança e a presença no palco, estabelecendo uma troca simbólica de energia entre o dançarino e o público. A frase tem o efeito de intensificar o momento de performance, quase como um comando ou afirmação de que o performer está oferecendo sua “essência feminina” de forma plena e sem restrições.

 

Jingle Ball’s rock! 

Este não foi meu primeiro ball, mas definitivamente foi um dos mais divertidos, principalmente pela temática envolvida. A energia do evento foi contagiante, e o clima fez toda a diferença na experiência. O ball mais impactante que já fui, sem dúvida, foi o da visibilidade trans que aconteceu no começo deste ano, em janeiro. Aquele foi realmente especial. A emoção de estar ali, vendo tantas pessoas trans se sentindo vistas e celebradas, foi algo que ficará comigo para sempre. Por outro lado, também já fui em uma ball que foi uma decepção. Apesar de ter conseguido um ótimo lugar para enxergar as apresentações, o espaço era totalmente inadequado – sujo, e muito desconfortável. A energia do evento ficou comprometida pela falta de cuidado com o ambiente, e acabei saindo mais cedo porque não consegui suportar a situação por mais tempo. Essas experiências me mostraram como o ambiente, a organização e a energia do lugar podem transformar a vivência de uma ball.

A Jingle Ball, organizada pela Casa Atrevida, foi o último evento de 2024, realizado no Workroom Bar em Porto Alegre. O Workroom Bar tem ótima estrutura, então a ball ocorreu de forma quase impecável. Com temática natalina, a ball começou por volta das 17h30 e terminou às 21h30. O ingresso custou 36 Reais  meu maior gasto nessa noite. As cadeiras em um ball são distribuídas de forma que criam uma estrutura semelhante a uma passarela, centralizando as performances. No meio, fica uma área livre, onde os participantes desfilam ou dançam, como em um desfile de moda de alta-costura. À esquerda e à direita dessa passarela, estão as fileiras de cadeiras, que acomodam o público. Os jurados ficam em uma posição privilegiada, observando de perto as apresentações. A disposição das cadeiras ao redor da pista é pensada para garantir que todos possam ver as performances de maneira clara, ao mesmo tempo em que o espaço central, livre, destaca a principal atração: as competições, que imitam a grandiosidade dos desfiles de moda, com foco nas expressões corporais, visuais e de estilo.

A equipe foi divulgada no Instagram, são escolhidos para ser jurados pessoas que tem bastante tempo na cena ou são reconhecidas pelos seus trabalhos e reconhecimentos. O mais interessante é ver que, além de julgar, os jurados dão dicas, principalmente para os iniciantes. Os jurados da Jingle Ball foram Luís Enrique, Prince Fênix Negra, a Manuela Mulan da House of Hua Mulan (Chapter Brazil[2]), e a Mother Ally de Atrevida. A Manuela Mulan teve uma fala sobre o femme vogue, lembrando os participantes de quais eram os cinco elementos antes que eles fossem competir, para dar uma chance de melhoria nas performances. Tiveram dois MC’s da casa de Atrevida: Luna de Atrevida e Haute de Atrevida. E o Prince Jean Carlo Leopardo como chanter, e o DJ Prince Tsunmi Cabal. 

Primeiramente momento foi o rollcall, onde as casas presentes são chamadas para performar, destacando os membros que compõem a cena. É uma forma de celebrar os participantes. Nessa hora muitas vezes o público grita chants “da casa”. Por exemplo, o chant da casa Leopardo: “Ih, ala, Leopardo vai te pegar”.

Nesse ball, as categorias incluíram Face, Posing, Baby Runway, Baby Vogue, Lip Sync, Beginners Performance, Runway, Best Dressed, Vogue Performance e Mother vs. Mother. Na Mother vs Mother, as “figuras maternas” das casas podiam competir com as outras, o equivalente a um duelo de titãs para os nerds – e a vencedora dessa categoria foi a Ávine, da casa Leopardos. 

A melhor de todas, na minha opinião, foi o Lipsync. É uma das categorias mais conhecidas e adoradas, e com esse tema natalino, com músicas de Natal, só melhorou. Teve lipsync de “Então é Natal” da cantora Simone, e uma batalha com “All I want for Christmas is You”, da Mariah Carey. Os jurados ficaram indecisos então a batalha se repetiu com “Santa Tell Me”, da Ariana Grande. 

Um momento marcante foi o confronto interno da Casa Atrevida, onde membros competiram entre si nas categorias Runway e Vogue Performance. Isso acontece poucas vezes, pois quando dois membros da mesma casa sobram – no contexto de competição e mata-mata –  a casa leva o prêmio, então, foi definitivamente um momento a lembrar: pessoas que se vêem como família em uma pequena competição saudável.

Pela energia e entrega, esse ball merece 10 de todos os jurados (ten across the board).

 

TEN ACROSS THE BOARD

Competir na ballroom é sobre a capacidade e determinação de um indivíduo em ser irrestritamente ele mesmo, usando moda, movimento corporal e performance. O ball tem uma energia única que é realmente contagiante. Desde o momento em que você entra, é como se a atmosfera pulsasse com a vibração de cada movimento, cada passo e cada expressão. A intensidade dos participantes, a paixão nas performances e a interação entre o público e os competidores criam uma dinâmica que te envolve completamente. Sempre que saio de um ball, me sinto inspirado e com uma vontade imensa de ser parte daquilo de maneira mais ativa. A dança, especialmente o voguing, me fascina de uma forma que me faz querer aprender cada vez mais, não apenas pela técnica, mas pela forma autêntica com que os dançarinos se expressam. É impossível não sentir o desejo de melhorar, de entrar mais profundamente nesse universo e aprender a dançar como eles, de forma cheia de emoção e fluidez.

Cada detalhe, desde a escolha das roupas até os movimentos mais sutis, é uma declaração de identidade, e isso é o que torna o ambiente tão envolvente. Não é só sobre a competição em si, mas sobre a experiência compartilhada, onde cada participante e espectador se sente parte de algo maior. A energia é tão forte que, mesmo para quem está apenas assistindo, é quase impossível não ser contagiado. A forma como as pessoas dançam e se movem no espaço, sem medo de mostrar quem realmente são, faz você querer entrar na pista e deixar sua própria marca. O vogue, com sua fluidez e exagero, é especialmente encantador, pois vai além da técnica – é uma linguagem corporal que comunica poder, liberdade e autenticidade. Esse desejo de aprender e de se conectar ainda mais com esse universo sempre cresce a cada ball que participo, como se cada evento fosse uma oportunidade de me aprofundar mais e de vivenciar a ballroom de maneira mais intensa.

Pela energia contagiante, esse mero espectador dá ten across the board!

Notas:

[1] Filhas, Filhes, Filhos, além de Imperatriz, Imperador, Princesa e Príncipe.

[2] Chapter: refere-se a uma subdivisão de uma casa específica dentro da cena. Cada capítulo tem sua própria identidade, membros e uma maneira única de se expressar. Os capítulos podem ser de outros estados ou outros países.

REFERÊNCIAS:

  ESTEVAM, A. L. G.; GERALDES, E. Vogue, logo, existo: A comunicação política-corporificada da Ballroom. Anagrama, v. 15, n. 1, p. 1–13, 28 jun. 2021.

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Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Resenha do álbum Human After All

Make Fabico Weird Again #1

por Ernesto Miguel L. de Souza

Decidi fazer uma análise do álbum Human After All, terceiro álbum de estúdio do Daft Punk, lançado em 2005. Escolhi analisá-lo devido à sua recepção por parte da crítica na época de lançamento, que não deu opiniões muito positivas (na visão deles) pro álbum, com algumas críticas do tipo “é muito robótico”, algo que ganha contornos de ironia pelo fato dos compositores da obra sempre terem se apresentado em público com capacetes de robôs. 

O álbum na época foi considerado o “diferentão” dentro da discografia do Daft Punk, o que até aquele momento fazia até que um pouco de sentido, já que o álbum de fato tem uma sonoridade “menos complexa” que os anteriores, com samples mais simples, embora isso não necessariamente se aplique aos arranjos, porém em 2013 eles lançaram o álbum Random Access Memories (ou simplesmente RAM), que foi um sucesso não se de vendas como de crítica, que curiosamente não reproduziu o mesmo tipo de opinião negativa que foram emitidas com o Human After All, sendo que, na opinião desse que vos escreve, o RAM é que o álbum mais destoante da discografia da banda, que trás uma sonoridade mais acústica, não sendo tão baseado em samples como eram os álbuns anteriores, sendo mais um motivo do porque o decidi investigar mais o Human After All. 

Assim, farei uma análise musical do álbum (ou pelo menos tentarei, já que não tenho nenhuma experiência como crítico), tentando decifrar seus principais elementos de composição, compará-los com outros álbuns do Daft Punk e tentar de alguma forma ponderar se as críticas que eram feitas ao álbum tem sentido ou não.

 

Análise do álbum

Numa análise superficial, logo de cara o que se percebe é que as músicas são em sua maioria formadas por samples, isto é; trechos, acordes e sons de outras músicas, que são mesclados para formar composições diferentes das originais, algo que já é de se esperar do Daft Punk (pra quem conhece os álbuns anteriores), bem como de qualquer banda de house music em geral. 

O que faz com que esse álbum se difira um pouco em relação aos outros é que, como já dito na introdução acima, o Daft Punk optou por fazer composições mais simplificadas em termos da quantidade de samples utilizados, trazendo uma sonoridade mais “industrial” para as faixas, e assim trazendo um tom um pouco mais repetitivo para o álbum, mas não é como se as músicas da banda já não fossem repetitivas antes, principalmente quando revisitamos primeiro álbum deles, Homework, de 1997, que teve sua sonoridade muito pensada como “música de balada”, e isso tampouco impediu que ele tivesse sucesso na época de seu lançamento; faixas como Around the World, que é basicamente a frase título sendo repetida a música inteira com uma batida de fundo, mas é justamente na parte da batida em que vão sendo adicionados elementos novos conforme a música avança, que engajam o ouvinte, e nas músicas do Human After All o Daft Punk continua fazendo isso muito bem, principalmente em faixas como Robot Rock e Technologic.

Mas apesar das músicas serem simples em termos instrumentais e terem uma estrutura repetitiva, isso não impede que haja variedade entre as faixas do álbum, pois aqui temos desde músicas calmas, como a Make Love e Emotion, passando por faixas enérgicas e viciantes como as duas citadas acima, até algumas que beiram a cacofonia como a The Brainwasher (pelo menos para alguns), que ironicamente vem logo depois da calmaria da Make Love.

E uma coisa curiosa são as faixas On – Off e Television Rules The Nation, que eram pra ser uma música só, já que uma é quase que uma intro para a outra, tanto que muita gente comenta que nem percebeu que são duas músicas diferentes quando escutaram o álbum inteiro uma primeira vez, a banda revelou que as músicas só foram separadas porque a Gravadora que eles tinham na época queria que os álbuns tivessem pelo menos 10 músicas, mas esse deles só teria 9 sem esse corte que foi feito, inclusive vale notar que esse álbum é o mais curto do Daft Punk (pelo menos entre os álbuns de estúdio).

 

Análise das críticas ao álbum e comparações

Como dito na introdução, o que me motivou a escrever essa análise foi a descoberta que o álbum não foi bem recebido pela crítica especializada na época de seu lançamento, e eu que tenho esse álbum como o meu preferido do Daft Punk decidi fazer um contraponto, mas antes irei mostrar o que foram essas críticas que foram feitas na época, para que vocês possam ter a noção do tom que elas tinham:

A Pitchfork deu uma nota 4,9 para o álbum, e logo de cara já declara no subtítulo:

“Infelizmente fazendo jus ao título do álbum, o Daft Punk segue o requintado e alegre Discovery com um disco no qual eles parecem estar cumprindo a tarefa e, pela primeira vez na carreira, soando como cínicos.”

Link: https://pitchfork.com/reviews/albums/2137-human-after-all/

Com o resto da review basicamente falando o quanto as músicas dele são uma “versão de pobre” das músicas do Discovery, que é o álbum antecessor deste, e lamentando o fato de que o álbum foi produzido em poucas semanas e por isso não tem a mesma qualidade. 

Já a Rolling Stone, em uma review que até nem está mais disponível no site deles, mas (in)felizmente arquivada, deu duas estrelas e meia de cinco para o álbum, em uma análise que de início parece que será positiva, com o autor falando sobre como o objetivo da banda com esse álbum ser sobre “como a tecnologia transforma nós em robôs”, porém a após isso ele passa apenas a dizer que o álbum sacrificou a musicalidade e que as músicas “não elaboram”, terminando com a frase “(O) Daft Punk pode ter se tornado vítima de sua própria sátira animatrônica.”, fazendo uma clara provocação ao clipe de Technologic, que usava um animatrônico para “cantar” a música). 

Link da review: https://web.archive.org/web/20080316123813/http://www.rollingstone.com/reviews/album/7072263/human_after_all

Pelo The Guardian tivemos uma nota ainda menor, de só duas estrelas de cinco, onde o autor da review relembra o fato de que algumas músicas do álbum vazaram antes do lançamento na época e que os fãs tinham odiado, como se não fosse algo produzido pelo Daft Punk, e assim como outros, a review destaca o baixo tempo de produção da álbum como justificativa de sua suposta qualidade inferior, terminando com o “lacre”: “Se o Daft Punk tocasse isso na sua casa, você os expulsaria.”

Link da review: https://www.theguardian.com/music/2005/mar/11/popandrock.shopping3 

…

Enfim, já está claro que os pontos mais criticados pelos “profissionais” na época foram a repetitividade, simplicidade, “ser muito diferente” e “roboticidade” do álbum. 

Sobre a repetitividade, aqui eu sou obrigado a repetir o que eu escrevi na análise do álbum: o Daft Punk SEMPRE fez isso, o que não seria um problema você achar ruim, só que aí isso significa que você seria avesso à essa banda, o que não é o caso dos reviewers mencionados, que exaltam os álbuns anteriores do Daft Punk, que novamente, também tem sua dose de repetição.

Sobre o argumento da simplicidade, isso me parece muito o argumento do pessoal que acha que o Funk Brasileiro é ruim por “ser simples e não ter nada a agregar”, ou pra fazer uma analogia com outro ramo do entretenimento, de gamer que acha que gráfico de jogo é sinônimo de qualidade, desprezando jogos com gráficos “ultrapassados” ou direção artística mais minimalista que normalmente são feitos por estúdios independentes, e normalmente caindo num elitismo junto com isso, por causa do fato de que jogos graficamente realistas exigem alto poder de hardware, o que não é barato, e é claro que esse tipo de pessoa faz questão de esfregar na cara dos outros o quão melhor ele é só por ter um computador ou console superior, e o mesmo se aplica aqui com a crítica ao fato do álbum ter sido composto em pouco tempo, o que faz eu me perguntar se quem falou isso, ou qualquer outro músico, conseguiria fazer algo melhor no mesmo espaço de tempo…

Outra crítica foi o fato do álbum “ser diferente demais” dos outros do Daft Punk, o que de novo eu repito que não é tanto assim, AINDA MAIS se botarmos em perspectiva que esses mesmos sites deram excelentes notas e recomendações pro álbum de estúdio seguinte do Daft Punk: o Random Access Memories, que adivinha; É MAIS DIFERENTE AINDA, pois ele traz composições muito mais acústicas que as dos outros álbuns, até com músicas que não trazem vocais sintetizados como a Get Lucky. Fica a impressão de que essas pessoas sequer conhecem a discografia da dupla francesa.

E quanto à crítica do álbum ser “robótico demais”, po**a, pelo amor de deus cara, é uma banda onde literalmente os caras sempre se vestem de robôs em público, VOCÊ ESPERAVA O QUÊ?

Enfim, esse texto já está longo e provavelmente vai ficar confuso se eu continuar, porque não foi fácil ler algumas dessas críticas, deixo aqui meu agradecimento por ter chegado até aqui.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A unidade musical de Esteban Tavares

Make Fabico Weird Again #1

por Diego Zapata de Oliveira

 

O álbum “Saca la Muerte de Tu Vida”, composto por Esteban Tavares, funciona quase como um autorretrato da alma do autor em forma de som e poesia. Por meio de composições que expressam seus sentimentos mais íntimos e que são compostas por instrumentos, ritmos e ideias que fazem parte da música de diferentes culturas que influenciaram a vida do músico, ele consegue nos fazer emergir tanto poeticamente quanto sensorialmente nas complexidades do seu ser. Dessa forma, Tavares amarra todas os elementos expressivos de suas músicas em uma unidade, que é esse álbum, e que representa seu ser. Uma constante declaração de um homem que tenta comunicar seu interior de uma maneira que palavras sozinhas não conseguem.

Por mais íntimo que seja a obra de Esteban, o conteúdo que essa traz à tona não cai muito distante de várias lamentações até que comuns no MPB, se pensarmos como exemplo Legião Urbana. A temática do “homem contemporâneo deprimido” que sofre pelo sistema capitalista que o oprime e enquadrada suas relações de amor nessa vida já não é algo tão novo. A reivindicação ao sistema não é completamente explícita em todo o álbum, mas isso claramente está presente e aparece em alguns momentos com mais força, como na faixa  Carta aos desinteressados e outros mais sutis (Janeiro). 

Ainda assim, o principal norte do compositor é a desilusão amorosa. Todas as músicas são praticamente uma lamentação diferente de um amor que já se partiu. É quase como se toda a obra fosse uma constante tentativa do próprio Esteban de implorar para que as coisas se consertem, uma aclamação de alguém que não consegue aceitar que algo acabou e não segue em frente, mas parece tentar. Em alguns momentos o eu lírico parece mais confiante da possibilidade do conserto de tudo, e em outros parece completamente desolado.  

Há algumas exceções que trabalham outros sentimentos e emoções, como Me sinto humano, que fala de instintos mais intensos e, mesmo assim, ainda se encaixa nessa unidade estilística que reflete o âmago do ser de Esteban. A faixa Se não contém nenhuma letra e, talvez não coincidentemente, consegue ser uma das músicas mais alegres do álbum inteiro, perdendo talvez somente para Cigarros e Capitais. 

Combinando essas duas ideias, além de outras que giram em torno desse espectro, a obra propõe reflexões a respeito de problemas da vida contemporânea, como a efemeridade do amor, a opressão para se encaixar dentro de um sistema, solidão, e falta de propósito. É como se o eu-lírico de Esteban quisesse se livrar de todas as amarras invisíveis que predem o seu ser por conta de uma dor decorrida da desilusão amorosa. Uma alma em rebelião por conta, segundo o próprio autor, da tragédia anunciada que é o amor. 

Junto da prosa de suas músicas, a composição se amarra de forma muito natural, forte e ressignificativa. As melodias contêm influências da música gaúcha, argentina, uruguaia e do rock estadunidense. O primeiro elemento de expressão que merece destaque é a gaita de Tavares, instrumento extremamente intrínseco na música gaúcha e países vizinhos. Para quem conhece o instrumento mais familiarmente por essa convenção, ao escutar Saca la Muerte de Tu Vida, a impressão que fica é que sua função expressiva ganha um significado totalmente novo. Quem apresentou a gaita para Esteban foi a cultura gaúcha, mas a gaita que vemos não é a que foi apresentada para ele, mas sim aquela que foi criada dentro dele. Ela é quem rege o tom predominantemente melancólico que arrasta praticamente todo o álbum, como se fosse o violino do Titanic particular do autor. Isso quando também não funciona como uma mensageira do caos, um elemento que anuncia uma tragédia já reconhecida (Chacarera da saudade). Sem sobra de dúvidas é um dos instrumentos mais criativamente bem usados. 

Ao lado de sua gaita, as influências do rock estadunidense transformam as angustias de Esteban em uma declaração emocional potente. Quase todo o álbum é elevado a uma intensidade que funciona na medida certa, sempre dialogando com os outros elementos sonoros expressivos que o autor traz. Certas faixas vão a um tom similar ao rock em termos de composição (Me sinto humano) e outras buscam essa referência mais na maneira forte e alta que certas frases são expressadas. No geral, é essa inspiração que traz uma força necessária em meio a desolação para sentirmos o grito e a necessidade de que as coisas mudem, ou, pelo menos, se concertem. 

Olhando para suas inspirações na música uruguaia e argentina, Chacarera da saudade, Chacarera 2, Tango novo (Nada impede a onda de passar) e Martes são com certeza as faixas mais carregadas com essas duas culturas. Martes é simplesmente uma música com a letra toda em espanhol, um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Chacacera da saudade e Chacacera 2 são músicas bem parecidas com letras quase idênticas, é como se fossem uma a releitura da outra. A palavra “chacacera” é o nome de uma dança popular originária do noroeste da Argentina desde o século XIX.  Ambas são melancólicas, mas Chacacera da saudade se assume com um tom completamente melancólico e desolado no seu som, enquanto Chacacera 2 também preserva um pouco disso, mas se identifica muito mais com um tom latino que lembra mais as características da chacacera. Dessa forma, a segunda versão traz até um ar mais romântico ao invés de uma desolação.

Aproveitando a deixa da pequena análise das músicas com influencia latina, venho apontar as músicas que para mim mais se destacam, começando com Janeiro.

Janeiro 

A faixa começa calma e cresce em dois momentos que o eu-lírico se refere para, provavelmente, algum amante, pedindo que ajude ele a sair de suas angustias. Esses saltos na intensidade, que procedem a uma construção calma de lamentações, se tornam um grande e romântico pedido de ajuda. Melodias que, talvez em um cenário em que considerássemos essas falas como não musicais e ditas na vida real e por alguém real, seriam substituías por sons de choro bem menos belos e poéticos.

Martes

Única música em língua espanhola e provavelmente a mais otimista em termos de relacionamentos amorosos, pois, como já foi dito antes, é um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Por mais que todas as músicas saibam juntar organicamente essa simbiose musical de culturas que Esteban propõe, Martes é a faixa em que todos esses aspectos conseguem ter seu espaço e se expressarem ao extremo. O principal aspecto disso é o cover de guitarra ao final, após o termino da letra. 

 

Carta aos desinteressados 

Sendo essa a música inspiradora para todo esse texto surgir, sem dúvidas é a música mais interessante e reivindicadora do álbum. Aqui, Esteban abre mão de sua temática mais voltada para o amor e encara a sociedade, pedindo que essa o liberte. 

Mais uma vez, Tavares cria uma grande unidade com todos os elementos anteriormente citados e cria uma atmosfera de um mundo distópico, que se torna o maior trunfo da faixa. Ao escuta-la, sensação que é criada é como se ainda vivêssemos em um governo autoritário e essa música é um ato de resistência. Foi a música que mais se beneficiou de toda a ideia que compõe a unidade expressiva do álbum.

 

Chacacera da saudade e Chacacera 2 

Duas versões muito parecidas de uma letra, mas com uma diferença muito crucial: A postura do cantor perante a poesia. Enquanto que Chacacera da saudade, terceira na ordem das faixas do álbum, propõe um tom extremamente desolador e melancólico, estando mais em sintonia com todo o álbum, Chacacera 2, faixa que encerra o álbum, por mais que esse tom ainda existe na melodia, ele é ressignificado pelo canto imponente de Esteban. Agora, a música deixa aflorar suas composições mais latinas, fazendo até nuances de som mais abruptas e seduzentes, abraçando uma pitada do romantismo quente sul-americano. 

 

Saca la muerte de tu vida

Por fim, Esteban Tavares nos oferece um ingresso para uma viagem sensorial e emocional para dentro de ser para presencia-lo tentar achar a saída para tanta lamentação e melancolia. O próprio nome Saca la muerte de tu vida representa essa ideia de superar os problemas do passado e seguir em frente. Na sua ultima música dessa jornada, Chacacera 2, diferentemente da primeira versão Chacacera da saudade, ambas recém comentadas, Esteban apresenta uma postura mais determinado, mais confiante e disposto a enfrentar os demônios de sua alma. Entretanto, Tavares parece que conformar que nunca conseguirá se livrar deles e aceita isso de bom grado. Não é à toa que as palavras de encerramento do álbum são:

“eu não sei ficar só e não quero aprender”.

Referências

NASCIMENTO , Anderson . Resenha do Cd Saca La Muerte De Tu Vida. Galeria Musical, 2015. Disponível em: https://www.galeriamusical.com.br/resenhas.php?url=1019-esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida. Acesso em: 07 dez. 2024. ‌

 

ALOI, André . Saca la Muerte de Tu Vida. Rolling Stone Brasil, 2015. Disponível em: https://rollingstone.com.br/guia-cd/saca-la-muerte-de-tu-vida/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DALCIN, Jurandir . Intenso, “Saca La Muerte de Tu Vida” é o melhor álbum de Esteban Tavares. Portal Comenta, 2024. Disponível em: https://www.portalcomenta.com.br/2024/09/intenso-saca-la-muerte-de-tu-vida-e-o.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DE OLIVEIRA, Dinho. Ex-baixista da Fresno atinge o ápice de sua carreira com novo trabalho. Previamente, 2015. Disponível em: https://previamente.com/2015/06/15/esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida-critica/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024. 

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.