A produção musical nos canais do YouTube (2/5)

Seguimos a empreitada para compreender os canais do YouTube como redes sociais que colaboram nas estratégias dos músicos.

Acesse o canal do YouTube da banda Pomplamoose. Repare que ele, como todos os outros, é dividido em duas metades, que mostram as possibilidades de navegação como rede social/blog: na primeira, que mostra o topo do canal, como muitos blogs, possui um cabeçalho com logotipo, seguido do vídeo (post) mais recente, com links ao lado para posts anteriores.

Logo abaixo, vem o perfil do canal, num formato mais similar ao de uma rede social como o MySpace: à esquerda, foto do perfil e as possibilidades de adicionar como amigo, dados e estatísticas e outras informações. À direita, os canais pessoais dos músicos e outros trabalhos paralelos, seguido dos canais que a banda assina, os usuários que assinam o canal, e enfim uma lista de comentários do canal.

Esse misto de blog e rede social começa a gerar perguntas: afinal é um ou outro? Essas definições que tentamos dar acabam diluídas nas práticas. No MySpace, por exemplo, há a opção de inserir um blog em seu perfil, com espaço até para comentários. Em contrapartida, Playlists do MySpace podem ser incorporadas aos blogs, e assim por diante. As redes sociais vêm apresentando funções umas das outras para tentar manter o usuário o maior tempo possível logado nelas. E nessa “diluição das definições”, alguns espaços da web que não eram entendidos nem foram elaborados como redes sociais, acabam sendo

apropriados pelos atores com este fim. É o caso do Fotolog, dos weblogs, do Twitter, etc. São sistemas onde não há espaços específicos para perfil e para a publicização das conexões. Esses perfis são construídos através de espaços pessoais ou perfis pela apropriação dos atores. […] weblogs não são sites de redes sociais, mas podem ser apropriados como espaços de construção e exposição dessas redes. (RECUERO, 2009, p. 103)

No YouTube aconteceu o contrário. Ele possui todos os elementos que uma rede social necessita, mas o uso predominante é como repositório. Se resta alguma dúvida de que o YouTube é uma rede social, basta lembrar a definição de Boyd & Ellison para redes sociais. São “aqueles sistemas que permitem i) a construção de uma persona através de comentários; ii) a interação através de comentários; e iii) a exposição pública da rede social de cada ator” (apud RECUERO, 2009, p. 102). O YouTube permite as três.

Pois bem, se tanto os blogs quanto o YouTube são redes sociais, se cada vídeo recebe registro de data e hora quando é postado, e se há espaço para comentários em cada “post” (URL individual do vídeo), deve haver menos distinção entre um canal do YouTube e um blog específico do que imaginamos. Nos parece que fazer essa comparação, encontrando semelhanças e diferenças entre um e outro, seja um atalho para compreender os canais, dado a raridade de pesquisas científicas tanto sobre estes como qualquer tipo de vídeo blog.

Está bem claro que um canal do YouTube pode ser considerado um vídeo blog, desde que tenha algumas características específicas, que vão variar de acordo com o uso que o músico vai fazer do canal. Nos faz lembrar do texto de Boyd, quando ela mostra que se olharmos para as práticas, os blogs não são somente um gênero, mas uma mídia através da qual a comunicação acontece (2006, p. 19). Então, as práticas e a expressão dos usuários interferem e constituem o que entendemos por blogs (idem, p. 11).

Referências Bibliográficas

BOYD, Danah. A blogger’s blog: exploring the definition of a medium. IN: Reconstruction: studies in contemporary culture, v. 6, n. 4, pp. 1-19, 2006. Disponível em: <http://reconstruction.eserver.org/064/boyd.shtml>. Acesso em 11 abr. 2011.

RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.


A produção musical nos canais do YouTube (1/5)

Quando eu fiz a disciplina “Blogs e Ecadeamento Midiático”, ministrada por Alex Primo no PPGCOM UFRGS em 2010/1, produzi um artigo como trabalho final. O resultado será publicado online, neste blog, partido em cinco posts. Não há relação direta com a minha pesquisa “Imagem-música em vídeos para web”, mas colaborou no esclarecimento de algumas questões que tinha do YouTube.

Resumo: Esta sequência de posts observa canais de músicos amadores do YouTube de modo a compreender como o ambiente do site interfere na produção musical e nas estratégias dos músicos. Entendendo os canais como vídeo blogs, pretende ainda lançar um novo olhar para o YouTube ao encará-lo não só como repositório de audiovisuais, mas também como uma rede social onde amadores, livres da lógica da indústria fonográfica, criam novas práticas e estéticas musicais.

Enquanto assistia aos vídeos da dupla Pomplamoose, resolvi acessar seu canal no YouTube ao invés de pesquisar por busca ou por vídeo relacionado, como normalmente fazemos. Nele, é possível navegar entre suas produções, acessar o iTunes para comprar suas canções, descobrir as relações que estabeleceram com outros usuários do YouTube que também são músicos, ver o desenvolvimento do grupo a cada vídeo postado e entender melhor a proposta dos VideoSongs. Acabei descobrindo diversas coisas que a maior parte dos usuários não acessa.

É estranho notar como não se dá atenção para os canais do YouTube: a somatória de exibições de vídeos postados pelo Pomplamoose passa dos 53 milhões (dados de abril de 2011), enquanto os de visualização de seu canal mal passaram os 6 milhões. Essa relação é similar em outros canais de músicos. Mas são eles que evidenciam boa parte das inovações que a música vem sofrendo pelo portal. Daí a importância de não entendê-lo apenas como um repositório de audiovisuais.

Acontece que canais são ambientes que ficam um pouco escondidos pela navegação. A ação comum do usuário que busca por vídeos, independente de possuir login ou não é navegar pela busca ou por vídeos relacionados, sem acessar canais. E assim, raramente se entra nos canais de usuários. Mas para artistas o canal exerce uma função fundamental, reunindo todos seus trabalhos e criando assim um conceito mais forte para sua obra. Normalmente se ignora a questão de que o autor que publica um vídeo está, automaticamente, compondo seu canal no YouTube, que, por sua vez, independente das intenções desse usuário, acaba agenciando sentidos.

O autor de vídeos musicais é incentivado a produzir e a criar por motivos bem diferentes dos da indústria fonográfica. Ao postar um vídeo, espera-se que seja comentado, seja compartilhado, receba vídeos-resposta, incentive as pessoas a comprarem suas músicas no iTunes. Liberto da lógica da indústria fonográfica, agora, ele produz e pensa sua produção para uma rede social de compartilhamento de vídeos.

Aliás, a produção científica também ignora o fato de que o YouTube é uma rede social. No final do livro de Raquel Recuero (um dos poucos) sobre o assunto (2009), a autora cita algumas das principais redes, como o Orkut e o Twitter, mas não cita o YouTube, que atualmente é o segundo site mais acessado do mundo, só perdendo para o Facebook. É preciso lembrar que para postar um vídeo, para comentar, para receber atualizações por email, é preciso criar um login, que automaticamente cria um canal. E mesmo para o usuário sem login, que só assiste a vídeos, ele está vendo um resultado de artistas que produziram vídeos pensando nas possibilidades de compartilhamento e interação que o YouTube proporciona.

No próximo post, vamos tratar dessa ideia de encarar o YouTube como rede social.

Referências Bibliográficas

RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.