Por Mariana Valls Atz, psicóloga da DPS
Comumente, relacionamos comportamentos aditivos com o uso de substâncias como álcool ou outras drogas. Contudo, tais comportamentos abrangem muito mais que o uso abusivo de psicoativos, e podem ser definidos como qualquer comportamento compulsivo em relação a um objeto, substância ou atividade que se torna o foco da vida da pessoa, excluindo-a de outras atividades e rotinas, como convívio social, trabalho, família, etc. Frente a essa definição, comportamentos aditivos podem estar relacionados, sim, a álcool e outras drogas, e também a jogos (de azar ou eletrônicos), pornografia, sexo, internet, compras, exercício físico, comida, e inclusive ao trabalho.
Tais comportamentos impactam de forma negativa a vida das pessoas, e, portanto, a sua relação com o trabalho também. Podemos citar algumas consequências para o ambiente laboral, como diminuição da produtividade, ausências frequentes, maior risco de acidentes e incidentes de trabalho, perda de sentido da vida profissional e de engajamento, mau clima de trabalho e conflitos com colegas, licenças de saúde extensas, isolamento social, entre outras (De la Cruz Ayuso, 2020). Ou seja, além de afetar a vida das pessoas, repercute negativamente na saúde da organização como um todo.
Os comportamentos aditivos são problemas complexos e necessitam fundamentalmente de um olhar integral da saúde para sua prevenção e tratamento. Envolvem fatores biológicos, psicológicos e ambientais, e por isso é peremptório que se analise a influência que podem ter as condições de trabalho na saúde do trabalhador. As mudanças no mercado de trabalho, a utilização de novas tecnologias, a precariedade e falta de recursos, as novas formas de organização do trabalho, a intensificação das demandas e rotinas de trabalho são exemplos de riscos à saúde do trabalhador que podem contribuir para comportamentos aditivos (UGT, 2012). Outras condições laborais associadas ao meio ambiente, como exposição a temperaturas extremas, a ruídos, ao trabalho ao ar livre e a substâncias representam riscos, principalmente para o uso de drogas. Atividades isoladas, ambientes de fácil acesso a substâncias (como medicamentos e álcool), jornadas noturnas ou trabalho por turnos e restrição de pausas para descanso também podem levar a comportamentos aditivos.
O espaço laboral pode apresentar riscos psicossociais, biológicos e ambientais, mas também, aspectos protetivos que promovem saúde e previnem tais comportamentos. O desafio está em desenvolver uma cultura organizacional e estratégias que sirvam de prevenção para trabalhadores/as com problemas aditivos, bem como fazer possível um processo de recuperação, reinserção e manutenção dos direitos do trabalhador.
Como prevenção, é necessário estabelecer medidas que estimulem a melhora da qualidade de vida, bem-estar e educação para saúde, bem como o senso de autoeficácia individual e coletivo frente à problemática dos comportamentos aditivos (UGT, 2012). Essas medidas podem ser informativas, sensibilizando para esse tema; formativas, capacitando profissionais de saúde da organização e gestores a lidarem com trabalhadores que apresentem tais comportamentos; ou participativas, fortalecendo as equipes e a construção de políticas de saúde do trabalhador. Promover a desestigmatização, evitando o silenciamento do problema, é essencial.
Referências
De La Cruz Ayuso, D. (2020). Prevención y riesgo de las adicciones en el trabajo: un enfoque desde la responsabilidad de las empresas y la salud del trabajador. Universitat Politècnica de València. http://hdl.handle.net/10251/158878
Confederación Sindical Unión General de Trabajadoras y Trabajadores de España (UGT, 2012). Drogodependencias y adicciones: prevencíon en el ámbito laboral. http://portal.ugt.org/saludlaboral/publicaciones_new/files_drogodependencias_%20adicciones/tc-manual%20drogodependencias%20y%20adicciones%202012.pdf