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Luto no contexto da pandemia

margarida branca molhada em fundo preto

Por Willian Mella Girotto, psicólogo da DPS

Com o início da pandemia da COVID-19, houve um processo de adaptação a um novo modo de viver, de trabalhar e de socializar. Ao mesmo tempo em que a vida não parou, algumas perdas marcaram essa pandemia. Para além da perda de contato físico próximo através das medidas de isolamento social, vivenciamos a perda de pessoas, de rotinas, de encontros, seja em função da COVID-19 ou por outros motivos. As restrições impostas no início e em momentos de pico da pandemia podem ter dificultado ou impedido rituais de despedida da forma habitual, bem como estar próximo à rede de apoio nesse momento tão difícil.

Nos ritos fúnebres, a tristeza é só uma das convidadas. A solidariedade, os laços afetivos, e a gratidão pelas memórias também estão presentes. Nesses rituais, nunca se está sozinho frente à perda de alguém, seja a família mais próxima, sejam outras pessoas da rede socioafetiva. Às vezes, a presença e o abraço conseguem expressar mais que as palavras. Nesse sentido, os rituais auxiliam o psiquismo a simbolizarem, elaborando os pensamentos e emoções suscitadas pela perda, inclusive os sentimentos negativos. Com as restrições impostas pelo distanciamento social, despedir-se de forma inadequada pode dificultar o processamento da situação, fazendo com que o luto ocorra de forma mais intensa e duradoura que o esperado. Ligações telefônicas, videochamadas e as redes sociais podem não substituir as formas habituais de elaborar o luto, mas puderam auxiliar no momento de distanciamento social.

Com o avanço da vacinação e a retomada de planos de vida com hábitos que evitam a propagação da contaminação pela COVID-19, alguns encontros, reuniões e celebrações foram possíveis, assim como o retorno para o trabalho presencial. Esses momentos podem despertar lembranças e sentimentos ocasionados pelas perdas, fazendo com que haja um novo momento de elaboração do luto em que há uma ressignificação do papel que a pessoa representava para nós, bem como o lugar que tínhamos para ela em nossa vida. As chefias não devem ignorar as perdas a fim de não alimentar sentimentos de desvalorização. Elas devem atentar também para a reorganização de papeis que são mobilizados seja com a perda de algum membro da equipe, seja de um membro da equipe que está passando por um processo de elaboração do luto. Nessa direção, é importante respeitar a singularidade de cada pessoa, tendo em vista que o luto nem sempre é um processo linear. Por ser um trabalho de elaboração psíquica, é preciso respeitar o momento da pessoa enlutada, inclusive se ela não quiser falar sobre a perda. Estar disponível para a expressão dos sentimentos da pessoa, acolhendo-a sem julgamentos com empatia e compreensão, são fundamentais e mantem os vínculos fortalecidos. Em um contexto de negacionismo, reconhecer a perda e os efeitos decorrentes disso é necessário para seguir apostando em projetos de vida posteriormente. Lembramos que se a dificuldade em lidar com o processo de luto persistir, o auxílio de profissionais de saúde mental é necessário.

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