Château

3 fachada

DADOS GERAIS

Denominação: Château

Endereço: Praça Argentina s/n – Campus Centro – 1º Quarteirão

Município: Porto Alegre

Autor do Projeto: Eng. Manoel Barbosa Assumpção Itaqui

Data do projeto: 1906

Execução: Francisco Andrighetto e Paolo Paganni

Período de Execução: 1906/1908

Área Construída: 797 m2

Código do prédio: 11102

Reinauguração após o processo de restauração: 23/08/2004

SITUAÇÃO E AMBIÊNCIA

O prédio do Château localiza-se no denominado Quarteirão 1 do Campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na região central da cidade de Porto Alegre. O quarteirão, delimitado pelas avenidas João Pessoa e Osvaldo Aranha, Rua Sarmento Leite e Praça Argentina, insere-se em uma região conhecida, no século XIX, como Várzea do Portão.

Entre 1835 e 1845, em função do conflito armado no Rio Grande do Sul, intitulado Revolução Farroupilha, o núcleo urbano de Porto Alegre encontrava-se protegido por fortificações. A Várzea configurava-se como uma grande área vazia que se estendia desde o portão de entrada da cidade – a noroeste, no local da (atual) Praça Argentina – até o alinhamento da avenida Venâncio Aires, a leste, incluindo toda a extensão do (atual) Parque Farroupilha.

A região se mantinha desocupada em função de uma ressalva estabelecida no momento em que esta foi doada ao governo do estado, no início do século XIX, de que fosse mantida como uma área pública para uso da população. Além disso, o local era alagadiço e plano, desse modo o utilizavam para conservar o gado destinado ao comércio, em função de sua localização facilitada junto ao portão de acesso à cidade.

A partir do término do conflito, em 1845, e, consequentemente, da retirada das trincheiras, a cidade pôde se expandir e a região da Várzea passou por um processo gradual de urbanização, que iniciou pela parcela noroeste – junto ao antigo portão – com a criação da Praça da Independência (atual Praça Argentina). Em seguida, foram sendo ocupados os terrenos adjacentes à praça, os quais correspondem ao atual Quarteirão 1 do Campus Centro da UFRGS. Estes foram cedidos pelo intendente da cidade, José Montaury de Aguiar Leitão, para eventos e para a construção de edifícios de diversas unidades educacionais, na época geridas por particulares[1].

O primeiro prédio, a sede da Escola de Engenharia de Porto Alegre (EEPA), ocupou o terreno em frente à praça, na esquina na Avenida João Pessoa. Após, os terrenos contíguos foram sendo utilizados pela mesma escola para implantar diversas outras edificações voltadas ao ensino, entre elas o prédio do Château. Por fim, a Faculdade Livre de Direito completou a ocupação do quarteirão com a construção de sua sede na Avenida João Pessoa.

[1] FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 2ª ed. Porto Alegre: UFRGS, 1992. p. 163-167. José Montaury foi intendente de Porto Alegre entre 1897-1924 e esse cargo referia-se à chefia do Poder Executivo local, hoje representado pelos Prefeitos Municipais.

 

HISTÓRICO

 

No início do século XX, em todo o Brasil houve um forte movimento visando à especialização do trabalhador, com o intuito de capacitá-lo para impulsionar o desenvolvimento do país. O ensino técnico-profissional, por conseguinte, passou a ser foco das políticas governamentais, acarretando o surgimento de diversas escolas e institutos ligados a essa área. Especificamente sobre o tema, no discurso de posse, em 1906, do presidente Afonso Pena, apontou-se que a criação dessas entidades “muito podem contribuir também para o progresso das indústrias, proporcionando-lhes mestres e operários instruídos e hábeis”[1].

Como exemplo dessas ações, em 1909, durante a presidência de Nilo Peçanha, dezenove Escolas de Aprendizes Artífices, destinadas ao ensino primário e profissional, foram criadas nas unidades da federação. Era prática usual na época ofertar gratuitamente estes cursos e destiná-los, conforme consta no decreto de criação dessas instituições, aos “filhos desfavorecidos das classes proletárias”. Ou seja, os jovens pertencentes a famílias de trabalhadores do ramo industrial, grupos que “deveriam ter meios para vencer as dificuldades sempre crescentes na luta pela existência”[2]. Cabe ressaltar que o projeto não contemplou o Rio Grande do Sul, possivelmente porque o estado já possuía uma escola técnica, fundada três anos antes.

Nesse sentido, é importante perceber que, no panorama apresentado, as instituições educacionais fundadas por particulares também tiveram um papel fundamental. Desse modo, de forma pioneira em relação a várias regiões brasileiras, a Escola de Engenharia de Porto Alegre criou, em 1º de julho de 1906, o Instituto Técnico-Profissional (ITP), que passou a atender “15 meninos pobres e filhos de operários”. O ITP foi inaugurado com a presença de José Montaury, Intendente da cidade, e do Presidente do estado do Rio Grande do Sul na época, Antônio Augusto Borges de Medeiros[3].

Nos primeiros anos de funcionamento da instituição, seu programa de ensino foi discutido e formulado, chegando-se à seguinte configuração: no Curso Elementar, o objetivo principal era desenvolver os primeiros estudos das disciplinas do currículo escolar primário (como língua portuguesa, matemática, história, geografia, desenho), além de noções básicas do trabalho técnico, a partir da utilização de ferramentas e da confecção de objetos domésticos simples. Já no Curso Profissional (ou Curso Técnico) a meta era conjugar um ensino teórico com um preparo técnico cada vez mais apurado: unir a sala de aula com os trabalhos de laboratórios e oficinas, para o desenvolvimento de atividades especializadas (em especial aquelas do grupo industrial), além de elementos básicos de comércio e produção

As atividades do instituto desenvolveram-se, inicialmente, em porões do prédio-sede da Escola de Engenharia e em pavilhões esparsos no entorno dela. Para a instalação adequada das oficinas (ou seções) do ITP, iniciou-se, ainda em 1906, a construção de dois prédios, conhecidos atualmente como Château e Castelinho[4].

Para a estruturação dessas edificações, seus idealizadores contaram com o apoio do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), que governou o Rio Grande do Sul por praticamente toda a Primeira República. Por conta disso, o estado concedeu as áreas para as construções, além de ter fornecido auxílios financeiros. Estas práticas se repetiram em outros projetos da escola.

O projeto do Château, igualmente o do Castelinho, foi elaborado por Manoel Barbosa de Assumpção Itaqui, engenheiro, arquiteto, construtor e professor da Escola de Engenharia, instituição na qual também havia se diplomado anteriormente, em 1900[5]. A execução da obra coube ao escritório de Francesco Andrighetto e Paolo Paganini, italianos radicados em Porto Alegre e responsáveis pela construção de diversos edifícios voltados ao ensino na capital rio-grandense nas três primeiras décadas do século XX[6].

A inauguração (ou reinauguração) solene do ITP ocorreu em 24 de janeiro de 1908 e foi marcada por grandes festejos. Contou com a congregação da escola e, novamente, com a presença de autoridades políticas, sinalizando a boa relação entre os engenheiros e demais professores dessa instituição com os membros dos poderes governamentais. Na cerimônia, ocorrida à noite, houve discursos de membros do corpo docente da Escola de Engenharia e das personalidades presentes que receberam medalhas na ocasião; bem como uma iluminação especial projetada sobre as edificações; apresentação de bandas e de orquestras; um banquete; visita às dependências dos prédios inaugurados e baile em um dos salões da EEPA[7].

Outro elemento importante que demonstra a estreita relação entre o Poder Público, a Escola de Engenharia e os seus institutos foi a Lei nº 72, de 28 de novembro de 1908, votada pela Assembleia dos Representantes do estado do Rio Grande do Sul. Por meio desse dispositivo, foi concedido um auxílio financeiro anual ao ITP, iniciado em 1º de janeiro de 1911, com o equivalente a 2% do total da arrecadação feita pelo estado, sob a rubrica de taxa profissional. Conforme estabelecido, esse montante seria aplicado para o prosseguimento de construções e melhoramentos de instalações das oficinas do instituto, além da contratação de mestres especialistas, incluindo estrangeiros, em diversos ofícios. No ano seguinte, a Assembleia elevou essa taxa a 4%, garantindo novos recursos para a escola. Designaram os 2% adicionais para a implementação do ensino agronômico e veterinário.

No Château foram instaladas, inicialmente, a Oficina de Serralheria e a Oficina de Máquinas para Trabalhos em Madeira. O local recebeu também o Almoxarifado, no andar térreo, e o Posto Médico, no primeiro andar[8]. Entre as principais atividades de Oficina de Serralheria, o aluno aprendia sobre os minérios mais empregados na indústria, em especial o ferro, bem como prepará-los para o trabalho fabril; o manejo das ferramentas, como a lima, a talhadeira, os tornos e o forno; a confecção de portões, gradis, consolos e alpendres projetados nas aulas de desenho industrial; o atendimento a trabalhos comerciais diversos (como objetos decorativos e móveis), mediante orçamento feito pelos próprios estudantes[9]. Vale ressaltar que a Oficina de Serralheria acabou sendo agrupada na chamada Seção de Metais, em conjunto compreendido pelas oficinas de forja, de fundição e de mecânica que surgiram ao longo da década de 1910. Esses espaços estavam ligados devido às suas atividades comuns com materiais metálicos[10].

A Oficina de Máquinas para Trabalhos em Madeira tinha como objetivo principal a preparação da madeira para trabalhos posteriores. Suas atribuições eram a seleção do material, seu corte em bitolas adequadas e seu aplainamento. Entre os equipamentos principais estavam máquinas para entalhar, plainas e serras, funcionando, em grande medida, por meio de motores elétricos[11]. Esse ambiente estava inserido na chamada Seção de Trabalhos com Madeira, que, durante trajetória do ITP, acabou englobando as oficinas de Marcenaria, Carpintaria e Carpintaria Especializada na Fabricação de Esquadrias, estas eram destinadas ao trabalho com madeira. Lá ocorria desde a preparação dessa matéria-prima em máquinas até sua modelagem final em produtos, como mobiliários[12].

No Almoxarifado reuniam-se ferramentas para o serviço manual e das máquinas, além de diferentes matérias-primas, como madeira, ferro e aço. Havia cerca de 11 mil itens armazenados[13].

Em relação ao Posto Médico – o qual contava com medicamentos, aparelhos para cirurgia e de diagnósticos (raio-x) – eram atendidos tanto os empregados, quanto os alunos do instituto, incluindo assistência domiciliar em determinados casos. Um médico era o responsável pelo local, estando à disposição para consultas diárias[14].

É importante ressaltar que o ITP era composto por outras edificações afora o Château e o Castelinho, em especial estruturas de madeira ou de alvenaria, que acomodavam a grande variedade de atividades ali realizadas. Desse modo, havia prédios para as aulas teóricas, para a zeladoria e para as oficinas, as quais foram surgindo progressivamente, como as de Modelagem, de Mecânica, de Encadernação e de Fototécnica.

[1] FERREIRA, Almiro de Sá. Profissionalização dos excluídos: a Escola de Aprendizes Artífices da Paraíba (1910-1940). Paraíba: [s.n.], 2002. p. 36.

[2] CUNHA, Luiz Antônio. O ensino de ofícios nos primórdios da industrialização. São Paulo: UNESP, 2000. p. 18.

[3] Ver: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1907. Porto Alegre: Tipografia da Livraria do Globo, 1908. p. 4; 98. A grafia das fontes, como consta em Instituto Técnico-Profissional, foi atualizada para facilitar a leitura. Quanto ao cargo de presidente do estado, referia-se à chefia do poder executivo estadual no Rio Grande do Sul, durante a Primeira República, hoje representada pelos governadores. Borges de Medeiros ocupou esse posto entre 1898-1908 e 1913-1928. Sobre os relatórios, trata-se da principal documentação administrativa da EEPA, em que constam informações detalhadas sobre sua organização, incluindo aquelas relacionadas a seus institutos.

[4] A construção dos espaços iniciou em 1º de junho de 1906 e a pedra fundamental das edificações (não é possível entender se a fonte refere-se ao Château, ao Castelinho ou a ambas) foi colocada em 12 de outubro do mesmo ano por Borges de Medeiros. Ele utilizou uma “colher de prata” oferecida pela Escola de Engenharia para concluir o ato oficial. Ver: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1907. Ibid., p. 105.

[5] Itaqui recebeu o grau de engenheiro civil na Escola de Engenharia de Porto Alegre, que era conferido após o aluno concluir os seguintes cursos: Estradas, Hidráulica e Arquitetura. Portanto, não parece equivocado também denominá-lo como arquiteto, pois ele finalizou seus estudos voltados para esse ramo. Ver: Relatório do Instituto de Engenharia. In: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1908. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1909. p. 135. Assim, não raro, os engenheiros-civis participavam ativamente não apenas da execução de obras, mas igualmente da confecção de projetos arquitetônicos.

[6] Dois anos após ter concluído a construção do prédio da Escola de Engenharia, ocorrido em 1900, Andrighetto teria iniciado sua sociedade com Paganini. O escritório também esteve à frente da construção do prédio do Instituto Eletrotécnico, concluído em 1910. Após a morte de Paganini, em 1921, Andrighetto, atuando isoladamente, teria sido o responsável pela edificação do Instituto de Química Industrial (1926) e do Instituto Parobé (1928). Todos esses locais eram vinculados à EEPA. Ver: WEIMER, Gunter. Arquitetos e Construtores no Rio Grande do Sul, 1892-1945. Santa Maria: UFSM, 2004. p. 22-33.

[7] Além de Borges de Medeiros e Montaury, estava presente o senador José Gomes Pinheiro Machado, um dos líderes do PRR e figura-chave da futura presidência da República de Hermes Rodrigues da Fonseca (ocorrida entre 1910 e 1914). Na ocasião, além do ITP, foi inaugurado o prédio do Instituto Astronômico e Meteorológico (também vinculado à EEPA). Ver: A Federação, 25 jan. 1908, p. 2.

[8] LEITE, Fernando Ávila de Carvalho. Projeto de Restauração: Observatório Meteorológico, Engenharia Nuclear e Château. (Relatório Técnico). Porto Alegre: [Mimeo], 1986. p. 53-54. As denominações dos espaços do Château sofreram mudanças de nomenclatura ao longo do tempo, embora muitas vezes permanecessem com a mesma função. O Posto Médico, por exemplo, aparece em documentos denominado como “Ambulatório”. Para facilitar a compreensão do leitor, optou-se por utilizar as primeiras referências encontradas nas fontes, em um processo que iniciou com aquelas que constam em: Relatório da Escola de Engenharia referente ao ano de 1908. Op. cit.

[9] Ibid., p. 213. Relatório do Instituto Técnico-Profissional. In: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1912. Porto Alegre: [s.n.], 1913. p. 27-29.

[10] A respeito dessas divisões das seções, ver, por exemplo, entre outros relatórios: Relatório do Instituto Técnico-Profissional. In: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1911. Porto Alegre: [s.n.], 1912. p. 10-18.

[11] Relatório do Instituto Técnico-Profissional. In: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1908. Op. Cit., p. 237.

[12] A Oficina de Máquinas para Trabalhos em Madeira passou a ser mencionada nas fontes como Depósito de Madeiras e Sala de Máquinas, mas é provável que suas atribuições tenham sido mantidas. Sobre essas questões que envolvem a Seção de Madeiras, ver: LIMA, Raquel Rodrigues. Os Liceus de Artes e Ofícios do Rio Grande do Sul (1900-1930). Dissertação (Mestrado em Arquitetura). PROPAR, UFRGS. Porto Alegre, 1996. p. 133-136.

[13] Sobre o funcionamento do Almoxarifado, ver, por exemplo: Relatório do Instituto Técnico-Profissional. In: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1915. Porto Alegre: [s.n.], 1916. p. 9.

[14] Sobre o funcionamento do Posto Médico, ver, por exemplo: Relatório do Instituto Técnico-Profissional. In: Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre referente ao ano de 1913. Porto Alegre: [s.n.], 1914. p. 19.

 

O PRÉDIO

O projeto dos três prédios Château, Castelinho e Observatório Astronômico resultou em um singular e harmonioso conjunto arquitetônico.

Os dois prédios (Château e Castelinho) construídos para serem basicamente oficinas para o Instituto Técnico Profissional têm linguagem historicista com introdução de elementos art nouveau. Ambos apresentam as mesmas características formais e de acabamento.

O prédio, hoje designado Château, foi definido por um elemento articulador central (torreão) de forma hexagonal, em dois pavimentos, e por duas alas térreas que se distribuem, a partir dele, com implantação em ângulo e amplos pés-direito.

As fachadas marcadas por círculos e rasgos retangulares, têm riqueza ornamental com predominância de elementos florais, executados em cimento fundido. Destacam-se o trabalho em ferro da sacada existente no 2° pavimento do torreão, assim como as ânforas na platibanda superior.

Com ritmo bem marcado, os vãos das janelas apresentavam como fechamento, tijolos de vidro, tipo pavê, nas cores verde claro e verde musgo. Em algumas aberturas, mais tarde, os tijolos de vidros foram substituídos por janelas basculantes.

A cobertura do telhado do torreão é arrematada por um lanternim prismático, também vedado com tijolos de vidro e finalizado pela escultura de um condor.

Dos três acessos da fachada frontal o principal localiza-se no torreão e é bem marcado pela sacada que se sobressai e protege a porta.

Reformas introduziram severas alterações no projeto original.              O amplo pé-direito das alas térreas foi subdividido, criando-se dois pavimentos. Em razão disso, a estrutura da cobertura foi levantada e ampliada a altura das platibandas, com eliminação de parte dos elementos de decoração.