“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo.” — Uma análise do álbum “As Quatro Estações”, Legião Urbana 

 

Make Fabico Weird Again #1

por Julia Hoppe, Jornalismo UFRGS

Aos nove anos, os graves versos de Renato Russo me soavam lentos, quase deprimentes, mas eu ouvia porque meu pai curtia e eu queria dividir isso com ele. Dez anos depois, apesar de agora apertar o play por gosto, ainda escuto porque meu pai curte e eu quero poder dividir isso com ele. 2.114,7 km separam Porto Alegre de Brasília, cidade onde a Legião Urbana nasceu, em meados de 1982. Meu pai, por coincidência, também mora na capital acinzentada, e essa mesma distância às vezes parece dobrar. Triplicar. Transcender tempo e espaço. 

Para construir esse relato, pedi ajuda a ele, que encaminhou meu pedido para o grupo dos amigos de colégio com quem dividiu adolescência, fitas, discos e escutas. O que os filhos da década de 80 têm a dizer aos pais de 2024? As respostas foram diferentes entre si, mas se entrelaçaram em um mosaico que levava certas palavras em comum: rebeldia, jovem, atemporal, permanente. 

O quarto álbum de estúdio da Legião Urbana, As Quatro Estações, foi lançado em outubro de 1989 e vendeu mais de dois milhões de exemplares. Com a expulsão do baixista Renato Rocha, consolidou-se a formação da banda que perdurou até seu fim, integrando Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Produzida logo após o incidente traumático no Estádio Mané Garrincha que resultou em 70 pessoas detidas e quase 400 feridos, a obra marca uma era mais introspectiva do grupo, que preferiu se resguardar aos estúdios de gravação. Essa foi a última vez que a Legião Urbana se apresentou em sua cidade natal.

No verso do disco, o vocalista adiciona uma curiosa nota de rodapé que conta a história de um livro chamado ‘A Doutrina de Buda’, encontrado por ele em uma gaveta qualquer de um quarto de hotel em São Paulo. No livro está escrito que todas as partes dele podem ser citadas livremente, desde que respeitadas as condições de 1. creditar a fonte e 2. enviar uma cópia da obra que cita o livro para a sede da tal sociedade budista, no Japão. Apesar de não ter feito nenhuma citação literal ao longo do LP, alguns versos do livro serviram de inspiração para sua quarta faixa, Quando o sol bater na janela do teu quarto, o que fez com que Renato seguisse o protocolo, creditando a obra e mandando uma cópia de As Quatro Estações diretamente para o Japão. Até hoje, não se sabe se o disco realmente chegou ao seu destino ou se os budistas gostaram do som, mas o relato diverte os desavisados que passeiam os olhos pela tracklist da contracapa prateada.

 

Vitrola regulável meio enferrujada e disco As Quatro Estações

 Foto: Julia Hoppe, arquivo pessoal

 

Sendo assim, de budismo a Luís de Camões, passando por versos de Cordeiro de Deus, uma emblemática declaração de bissexualidade e uma homenagem aos amigos perdidos em razão do surto de AIDS que se intensificava por volta de 1980, o álbum é uma melancólica viagem para dentro do ser. Escutando nos formatos analógico (disco e vitrola) e digital (via Spotify), é possível perceber diferenças que vão muito além do frio na barriga que o barulho da agulha deslizando pelo vinil arranhado proporciona. O aparelho utilizado por mim para rodar o disco possibilitava regular os graves e agudos do que ele transmitia com o toque de um botão, me permitindo novas interpretações sonoras a cada volta do bolachão. As transições eram mais claras e o fade out do final poderia ter sido mais bem traduzido para a plataforma de streaming, mas a essência é mantida.

 

Neste álbum estão algumas das canções mais lembradas de toda a carreira da banda. Entre eles, logo na segunda faixa, está Pais E Filhos. A escolha perfeita do jovem (não necessariamente atual) semi-alternativo que está no processo de aprender a lidar com o divórcio dos pais. Clássica. O ritmo lento do início que simula uma canção de ninar contrasta perfeitamente com o vocal rasgado e crescente dos últimos refrões. 

Os versos finais sussurrados vêm como um soco despreparado na boca do estômago. Como pode uma estrofe, 35 anos depois de lançada, continuar assombrando a insônia de tantos filhos do Brasil? Renato Russo também foi pai, de um filho que nasceu cerca de seis meses antes desse álbum. À parte das polêmicas, biológico ou não, alguém que compõe:

“Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser quando você crescer?” 

Não está imune de experienciar a paternidade como um acontecimento que transforma e transcende. 

Em Feedback Song For A Dying Friend, uma carta de amor ao fotógrafo americano Robert Mapplethorpe se torna uma ode a tantas histórias, incluindo a do próprio Renato, mastigadas pela epidemia do vírus HIV. A peculiar mistura do rock puro e gritado com o instrumental de inspirações árabes distrai da angústia lírica de um intérprete que abre o coração para cantar sangrando. Ainda, a canção abre com um solo de guitarra colocado para tocar ao contrário, a la disco da Xuxa, que deixa tudo propositalmente mais cru e desconfortável. 

Apesar das linhas conformadas escolhidas para intitular este ensaio, a quarta faixa, Quando O Sol Bater Na Janela Do Seu Quarto, é realmente um respiro budista de positividade. Sempre tive o pensamento de que, se pudéssemos organizar as músicas em caixinhas, essa estaria na mesma prateleira de Here comes the sun, dos Beatles. Já a sua vizinha, Eu Era Um Lobisomem Juvenil, não me causava pensamento algum. Ela seria aquela caixa de papelão que a gente esquece lá no alto do armário e reencontra dez anos mais tarde em uma terça-feira aleatória só para descobrir que dentro estava justamente aquele vestido que estava procurando com tanta vontade. Revisitar esse álbum me deu de presente uma nova-velha música preferida.

“Não falo como você fala, mas vejo bem o que você me diz / Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo / Prefiro acreditar no mundo do meu jeito.” 

Mais sucinto e intimista, quase como uma conversa (ou talvez uma sessão de terapia), As Quatro Estações tem seu momento de gritaria rebelde e revolucionária tão característica da banda com 1965 (Duas Tribos). Ironizando o período da ditadura militar desde o título, a música referencia produtos infantis americanizados como Hanna-Barbera (estúdio americano de desenhos animados) e modelos Revell (réplicas em miniatura colecionáveis de veículos militares) como metáforas capitalistas, seguidas pela antagônica frase “O Brasil é o país do futuro”.  Para os fãs de Índios e Geração Coca-Cola, a acidez punk da faixa é bem mais familiar.

Muitas coisas mudam de significado com o tempo. Expressões, músicas, siglas, pessoas. Confesso que os versos emprestados e melosos de Camões nunca me convenceram, mas com o vozeirão a plenos pulmões de Renato Russo em Monte Castelo no volume máximo do fone de ouvido mais barato, é impossível não se arrepiar. O mesmo vale para Meninos E Meninas, uma desafiadora, orgulhosa e pessoal declaração pública do vocalista de uma das maiores bandas brasileiras da história. Interpretada como um hino plural e muitas vezes platônico, a música, anos depois dos primeiros contatos, mudou de significado para mim e serviu como trilha sonora da descoberta da minha própria bissexualidade, da minha própria identidade.

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre / Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente”

Para o meu pai, escutar essas canções, compartilhar essa juventude com os amigos e então o que sobrou dela comigo era o jeito de sentir que estava preservando a memória de um passado. Em uma realidade tão efêmera, comunicar e construir laços baseados em situações de nostalgia que não podem ser replicadas é natural do ser social. É assim que criamos e mantemos redes de identificação que, quando agrupadas, formam culturas. 

Rebeldia, jovem, atemporal, permanente. São as palavras que meu pai e sua legião urbana de amigos utilizaram para descrever a sensação de escutar as músicas na época de seus lançamentos. Identidade, pertencimento, permanência, saudade. São as palavras que eu, Julia, encontro para descrever a sensação de fazer parte disso no presente.

Clique aqui para acessar o álbum As Quatro Estações na íntegra no Spotify

REFERÊNCIAS:

(DISCLAIMER: As referências foram utilizadas como fonte de consulta dos fatos citados, o texto é de autoria total de Julia Lima Hoppe)

ALMEIDA, Marcello – “Parece cocaína, mas é só tristeza” em: https://www.teoriacultural.com.br/post/especial-legi%C3%A3o-urbana-as-quatro-esta%C3%A7%C3%B5es-1989-parece-coca%C3%ADna-mas-%C3%A9-s%C3%B3-tristeza – Acesso em 20 de dezembro

LIMA, Irlam – “Há 30 anos, fãs da Legião Urbana provocaram um badernaço no Mané Garrincha” em:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/06/17/interna_diversao_arte,689065/ha-30-anos-fas-da-legiao-urbana-provocaram-um-badernaco-no-mane-garri.shtml – acesso em 20 de dezembro

MAIATO, Gustavo – “O clássico da Legião Urbana que precisou de autorização de budistas no Japão para sair” em: https://whiplash.net/materias/news_720/340982-legiaourbana.html – acesso em 20 de dezembro

FUSCALDO, Chris (2016). Discobiografia Legionária.

Com o uso autorizado dos relatos pessoais de Rodrigo Hoppe, Tiago Godoy da Rosa e Dartagnan Faller

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Retromania e o fim das vanguardas: comentário do mediador

Fui entrevistado há duas semanas para o caderno Mais Preza, do Correio do Povo. Queriam que eu dissesse como eu achava que seria (ou como está sendo) a música de 2012. Segue, abaixo, todas as minhas considerações que não foram publicadas no jornal, e que penso que conectam com o tema abordado pelo Clube do Pop na Semana Acadêmica da Comunicação da UFRGS.

Tem um livro do Simon Reynolds, que é um crítico muito famoso de música popular, recém lançado e intitulado Retromania, no qual ele defende que a música da nossa época está viciada em olhar para o próprio passado. Entre vários exemplos, ele cita a Adele como um revival de várias outras divas do R&B do passado. Então ele diz ainda que a última década (2001-2010) não emplacou um estilo musical que a marcasse, como o grunge e o eurodance na década de noventa. Eu acho válido e importante entender esse momento que estamos vivendo, e que não podemos negar que o que parece envelhecido tem valor de mercado.

O Vaccines, por exemplo, que é uma banda nova, fazendo um clipe com fotos tiradas pelos fãs e publicadas no instagram; ou a carreira solo do Jack White, que segue aquele clima punk caipira do White Stripes, sem contar que ele está apadrinhando “crias bastardas” como a Black Belles. Temos exemplos também de 2011, mas que vão refletir muito o que deve se estabelecer para 2012: os discos de Noel Gallagher e do Beady Eye, tem respectivamente, o melhor do Noel e o melhor do Liam do Oasis em cada um. Ambos optaram por um caminho mais tranquilo, sem romper com o contrato que eles estabeleceram com seus respectivos fãs (bem o contrário do que o Radiohead fez no Kid A ou o Los Hermanos no Bloco do Eu Sozinho). 2011 e 2012 estão se marcando pela volta de grandes nomes: aqui em Porto Alegre, a Graforréia Xilarmônica recém lançou dois singles. E a volta deles é tal qual a de Beavis & Butt-head na MTV: extremamente conservadora em termos estéticos. Isso não quer dizer que é uma “saída fácil”. Fazer música nova mantendo muitos padrões estéticos e o interesse dos fãs é igualmente difícil a produzir um Kid A. O Foo Fighters também voltou dessa maneira, tentando soar como se estivessem em 1991. E conseguiram vários Grammys.

Voltando pro Simon Reynolds, teve mais uma coisa que ele disse: que talvez o gênero que melhor se consolidou como “da década de 2000” teria sido o indie rock, mas que ele não consideraria porque não atingiu o mainstream da mesma forma que o grunge conseguiu em 1990. Mas, será que não foi esse o grande mérito do indie rock dos 2000? Com o advento do MP3, dos tocadores portáteis digitais e toda a parafernália que nos permite levar no bolso mais de 1.500 discos, não teria ficado mais difícil chegar no topo das paradas? E o público não teria se segmentado, criando culturas de fãs as mais variadas?

Acho que não dá pra pensar “sucesso” hoje como se pensava há vinte anos. Como resposta a isso, eu cito o trabalho novo de Thurston Moore, do Sonic Youth, que após terminar com Kim Gordon (e consequentemente acabando com o Sonic Youth), encostou sua guitarra (e desta vez não em um amplificador) e gravou um disco com violões e violinos, e reinventou o pós-rock. Acho que é o mesmo caminho da PJ Harvey no seu disco Let England Shake, mais introspectivo. Parece que, para eles, depois de vinte a trinta anos de carreia, eles já estabeleceram todo um universo underground, que se opôs ao que estava como estabelecido, e agora esse underground também já se estabeleceu!

Desse modo, acho que uma possível tendência para a década de 10 que está começando é a seguinte: o indie rock, ou pós-rock, como queira, vai passar de um estado barroco (no sentido de tentar romper com o status quo) para um estado clássico. Eu acho que isso já está acontecendo, tem muita banda tocando nas pistas de dança e nas rádios cuja inspiração são bandas mais obscuras das décadas de 1980 e 1990. Pra mim um dos melhores exemplos é a banda The Joy Formidable, um trio galês que lançou ano passado o The Big Roar, seu primeiro disco, com muita energia e guitarras carregadas de drones (sustentação ou repetição incessante de uma mesma nota ou acorde) e ruídos, mas ao mesmo tempo respeitando o formato canção. Eles pegam o melhor do pós-rock da região deles, que é o cuidado maior com timbres ruidosos de guitarra em detrimento à melodias (característica do shoegaze), mas unem a uma estrutura mais radiofônica.

Me parece que vai ser uma época de muitas guitarras guturais, com muito reverb, ritmo dançante, e aquele efeito de rádio estragado nos vocais, como ocorre nos Strokes e todas as bandas que vieram depois, de The Killers a The Vaccines. O indie vai infectar todos os outros estilos.

Não acho também que não se criam coisas novas no atual período que o Simon Reynolds chama de “era retrô” (o Lev Manovich chama de “era remix”, então quem tem razão?)… Essa questão de o que é “original”, “novo”, “criativo” é super problemático e caro para a filosofia, mas não cabe discutir aqui… Se for pra pensar assim, Black Sabbath não era original, porque misturava blues com obscurantismo e poderíamos pensar assim de tudo o que ocorreu na música. Isso acontece porque a gente reconhece e interpreta uma imagem que vemos no mundo a partir de imagens que temos na memória, então algo “novo” sempre remete a algo “velho”.

Eu penso que as bandas de hoje, de 2012, são tão criativas quanto as anteriores, e acho muito mais difícil fazer rock agora porque temos muito mais imagens na memória do que é rock do que tínhamos em 1969. Se for necessário exemplos, eu ilustraria com Vampire Weekend, de novo com o Thurston Moore e a PJ Harvey, MGMT, Mark Ronson, Gorillaz, LCD Soundsystem e Arcade Fire. Dá pra se reconhecer os intercessores de cada um, mas ao mesmo tempo pode-se reconhecer em cada um desses artistas muitas características novas, digo, mais desprendidos de imagens antigas, e mais do que aparenta.

A música de 2011 e 2012 é muito mais do que Adele e Foo Fighters.Não podemos nos deixar levar só pelo mainstream.

E pra fechar, talvez seja isso que o indie rock dos anos 2000 vai nos mostrar: que o mainstream não comporta mais as vanguardas, como ocorreu com o grunge e o Radiohead. Graças ao acesso facilitado à música atual, os movimentos de revolução da música pop voltarão a ser minoritários.

PodCast: Scum. Agenciamentos midiáticos na conformação do metal extremo

O disco “Scum”, da Napalm Death.

No dia 21 de maio de 2012, Fabrício Silveira, doutor em comunicação e professor da Unisinos, palestrou na Semana Acadêmica da FABICO (UFRGS) sobre a dimensão midiática da experiência sonora do disco Scum, da banda Napalm Death. O Clube do Pop, do qual faço parte, organizou o evento. E gravamos um Pod Cast. Ouça na íntegra, dividido em duas partes, a palestra e as perguntas dirigidas à Fabrício:

PARTE 1:

PARTE 2:

Abaixo, alguns dos vídeos que ele mencionou na palestra:

Napalm Death – You Suffer:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yOB-vE6wqks]

Blast Beats:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Bi25Qy8oRTI]

Entrevista do Sex Pistols para a TV britânica:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wEvGzd8k6WQ]

Kurt Cobain fora da casinha:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Cyc1RJXgbwM]

PodCast: Scum. Agenciamentos midiáticos na conformação do metal extremo

O disco “Scum”, da Napalm Death.

No dia 21 de maio de 2012, Fabrício Silveira, doutor em comunicação e professor da Unisinos, palestrou na Semana Acadêmica da FABICO (UFRGS) sobre a dimensão midiática da experiência sonora do disco Scum, da banda Napalm Death. O Clube do Pop, do qual faço parte, organizou o evento. E gravamos um Pod Cast. Ouça na íntegra, dividido em duas partes, a palestra e as perguntas dirigidas à Fabrício:

PARTE 1:

PARTE 2:

Abaixo, alguns dos vídeos que ele mencionou na palestra:

Napalm Death – You Suffer:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yOB-vE6wqks]

Blast Beats:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Bi25Qy8oRTI]

Entrevista do Sex Pistols para a TV britânica:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wEvGzd8k6WQ]

Kurt Cobain fora da casinha:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Cyc1RJXgbwM]

O conceito do Rock morreu.

Quando algo ganha um dia para ser lembrado, é porque está sendo esquecido. Será que isso está acontecendo com o Rock? Nem fodendo! O problema é que quem faz rock hoje é um bando de cagão, gente que assume fazer Happy Rock. O rock é um estilo musical feliz por natureza, mas feliz num Iggy Pop Style, não vestido feito um Ursinho Carinhoso. A impressão que eu tenho é que para ser rock, basta usar um Boss DS-1.

Se algo morreu, é a postura do rock. Não temos mais travestis machões como Bowie, e sim homenzinhos afeminados como Restart (leia-se Hey, Start, como os próprios membros da banda pronunciam). Sumiram representantes do que Carlo Pianta chama de rock burro, bandas papo reto como Kiss, Black Sabbath.

O rock cometeu sua maior falha: entrou na onda do política e ecologicamente correto. Os roqueiros de hoje não querem dirigir nem Hummers nem Harleys; querem andar de Smart. A fumaça vem da chaleira, para preparar um chazinho verde. O óculos escuro não é por que faltou colírio. A máscara da falta de afinação, se uma vez era o grito, hoje é o auto-tune (Ouvir Cine e o Uo-ô, Ô-O deles).

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Rock sempre foi muito mais postura e choque do que falar de amor (nesse sentido, a carreira solo de Paul McCartney é bem pouco roqueira). Como Walter Benjamin fala de Chaplin, o Rock também foi muito mais eficiente que o Dadaísmo na hora de produzir choque, e que é de ordem tátil.

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Até quando o rock queria passar uma mensagem ele mantinha uma postura de produzir choque. Ele muitas vezes foi capaz de produzir choque para si. Lembram do Radiohead em Kid A, ensinando que dá pra fazer rock sem guitarra? Ou do Los Hermanos, que provaram que bunda moles também podem tocar rock; e os Ramones, provando que gente feia também pode ser estrela; dos Mutantes, mostrando que uma música pode ser feita com cacos de outras músicas; Do White Stripes, sem baixista; da Musical Amizade, sem baterista.

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Pra mim o rock começou a morrer com o nu-metal. Quem precisava de um novo metal? Aliás, que metaleiro aceitaria o uso de scratch num metal? O metal é o subgênero mais conservador do rock, e ao mesmo tempo o menos erudito. O Gabriel Saikoski bem dizia: os caras aprenderam a ser virtuoses da guitarra executando fugas do Bach só para masturbar as suas guitarras.

Termino esse papo de boteco falando de videoclipe, que é minha praia: se o rock começa a morrer com o nu-metal, começa a definhar com o YouTube. O rock foi o gênero que mais contribuiu para a criatividade em video clipes. Falo de Strawberry Fields Forever, Heart-Shaped Box, Fell In Love With a Girl, Let Forever Be, Sabotage, Bohemian Rapsody, Beat It. Mas com o YouTube o que aconteceu? O mercado passou a pensar que ninguém mais queria ver videoclipe na TV. Aí passaram a fazer clipe só do que dava muito dinheiro: Beyoncè, 50 Cent e Lady Gaga. Como essa galera não é nem um pouco dadaísta, se foi o choque, se foi a postura rock no mainstream. O rock, ao menos conceitualmente, pra mim, está morto. Olhem só quem faz rock na MTV hoje:

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