Make Fabico Weird Again #1
por Larissa Lima da Silva
Essa entrevista é fruto da interação de um dia acompanhando a rotina de uma DJ em Porto Alegre. A DJ Elle P[1] e eu, Larissa Lima, fotógrafa e estudante da disciplina de Comunicação e Cultura, ministrada por Marcelo Conter — disciplina essa que motivou a ideia deste rico encontro.

foto: dj elle p at festival chisme x @larissalima.ph
Desejo que você leitor seja atravessado por esse diálogo rico de intimidades e vivências compartilhadas entre duas mulheres negras. Característica essa que notei ser exceção no momento em que conduzia nosso diálogo, naquele espaço majoritariamente branco que ocupávamos, com nossos corpos, inteligências e tecnologias por nós dominadas[2] — sejam as pickups por Elle P ou a câmera e o intelecto acadêmico por mim. Além disso, estávamos conscientes de que nossas presenças, por si só, já diziam muito, antes mesmo das palavras a seguir serem pronunciadas.
Conheci a DJ Elle P enquanto curtia um típico sábado com amigas no bar El Aguante[3], meses depois, chamei-a com a proposta: “Me dá a honra de uma entrevista?!”. Foram alguns dias até receber uma mensagem dela me chamando para fotografar um set no Festival Chisme. Foi nesse quase causal duplo “sim” que, entre um set e outro, conversamos, passamos o dia e terminamos a noite. Ao todo, foram 12 horas na companhia uma da outra. Elle, que bom o nosso encontro. Vida longa à nossa conexão!
Essencialmente, desejo que o leitor parta deste ponto crucial: a música, que me apresentou à nossa DJ, esteve presente durante todo o dia, nas 12 horas que passamos juntas, seja como elemento principal ou como trilha sonora ao fundo. Seja pelo festival, rádio de Uber, bar, casa noturna ou o setzão sincero de funk sinistro ritmado pelo DJ Jorginho[4], seguido de um B2B Elle P + Faylon[5] que encerrou nossa noite com muita classe. Faço questão de citá-los, uma vez que sou também apaixonada pelo set desses caras desde que os conheço de outros rolês, e também eram opções consideráveis para este estudo.
Digo isso para que, junto a mim, você perceba que toda experiência de vida se relaciona à música que ouvimos, que preferimos, e que a influência de tantos fatores transversais levam nossa DJ e tantos outros a alcançarem os resultados que alcançam no seu som.
Poeticamente, vejo algo dentro deles que forma sua própria frequência interna. Essa frequência passa de sua alma e atravessa a ponta de seus dedos, por fim eletrocutando todo o ambiente e nos atingindo. É assim que me sinto vendo Elle P, Jorginho e Faylon em todos os seus ângulos — do palco, ao seu lado ou da plateia — mandando suas energias, que encontram aqueles que vibram na mesma frequência.

foto: tocando o terror x @larissalima.ph
O dia foi 30/11/24, e o programado era: às 16h, set no Festival Chisme[6], que aconteceu no Jockey Club (local onde gravamos essa conversa); às 23h, set no Atlanta[7]; e às 2h, set B2B na festa de aniversário de 2 anos do Pito[8], que rolou na quadra da escola de samba Fidalgos e Aristocratas. Alguns trechos dessa conversa/entrevista foram rasurados para manter os limites estabelecidos por mim e em respeito à minha entrevistada e aos estabelecimentos, por acaso, citados.
Por fim, a proposta deste texto também é tornar pública a voz de duas mulheres negras — entrevistadora e entrevistada — com foco na entrevistada, que compartilhou suas vivências com detalhes que emergiram dessa experiência de troca quase que antropológica entre nós. Nesse sentido, reafirmo nossas identidades com a certeza do valor de identificação para outras/es/os como nós. Por fim, encho os rodapés de caminhos para que nossas referências sejam por você também acessadas.
Que a conversa comece.
Elle P: (…) Para mim, era muito distante. Eu morava no morro, não tinha independência financeira e ainda era menor de 18 anos. Hoje tenho 21, mas, na época, eu tinha uns 16 ou 17. Além disso, eles demoraram um pouco para começar o projeto da Natura Musical[9], porque eu precisava ter 18 anos para participar. Eu ia fazer 18 em agosto e o projeto começava em julho, então esperaram um pouco para que eu pudesse participar.
Larissa: Tá, e aí você entrou na oficina?
Elle P: Sim, eram workshops. Teve os workshops de discotecagem, e foi lá que comecei a tocar e aprender. Claro, até hoje continuo aprendendo, mas aquele foi meu primeiro contato real com a discotecagem.
Larissa: E daí eles esperaram para você tocar no Natura?
Elle P: Não, o projeto Feijoada Turmalina[10] foi financiado pelo Natura Musical. Eles foram selecionados e fizeram o projeto. Era uma oficina de discotecagem, mas também tinha produção musical, marketing, gestão de carreira e várias outras coisas que agora não lembro bem. Foi muito massa na época.
Larissa: Como você ficou sabendo? Foi pela internet?
Elle P: Sim, foi pela internet, acho que através deles e pela Suelen. Ela fazia parte desse coletivo e agora está em São Paulo. Você conhece a Suelen Mesmo[11]?
L: Conheço, não pessoalmente, mas já presenciei um set dela…
E: Ela é minha maior referência como DJ. Foi um pouco por causa dela que comecei a tocar. Sempre quis, desde pequena, mas achava que isso era coisa só para homens ou para quem já tinha muita estrutura. Quando era pequena, eu dizia que seria ‘o’ DJ Elle P da 23 (risos). Coitada, muita loucura, né? (risos) É engraçado lembrar disso. Depois, um ano depois de começar a tocar, descobri que meu avô também era DJ. Ele faleceu antes de eu nascer. Eu não sabia disso. Só depois descobri que ele também era DJ e tocava em festas. Ele não tinha nome artístico nem nada, mas tocava em festas de Black Music, o que era muito legal. Descobrir isso foi incrível, porque eu nunca soube antes. Não foi algo que pensei, tipo: ‘Vou seguir os passos do meu avô’, porque eu nem sabia disso.
L: Como tu ficou sabendo? Isso veio à tona depois?
E: Sim, minha mãe e minha avó começaram a comentar. Minha mãe disse: ‘Ah, teu avô também tocava!’ Foi quando ela começou a perceber que eu estava levando a sério e que estava dando certo. Daí começaram a falar mais sobre isso. Ele tinha muitos discos e também o toca-discos. Volta e meia, minha mãe me vê tocando ou estamos ouvindo música juntas, e ela comenta: ‘Ah, teu avô tocava muito essa música’. Foi assim que descobri. Mas o que realmente me fez começar foi a Suelen e o projeto do Turmalina[12].
L: E, desde quando você começou até agora, você sente uma presença feminina mais forte nas lines?
E: Sim, acho que sempre teve. Eu comecei há apenas dois anos, vou fazer três no ano que vem (2025), mas já tinham muitas mulheres na cena há 10, 15 anos ou mais. O problema é que isso não chega muito até nós, porque os DJs mais divulgados são sempre os homens, como o Alok, o Pedro Sampaio, o Dennis DJ… Esses são os nomes do mainstream, mas sempre existiram muitas mulheres incríveis que eu não conhecia. Minha primeira referência foi a Suelen, que, inclusive, é da Restinga, o mesmo bairro onde minha mãe nasceu. Isso me fez ver que era possível. Hoje, ela mora em São Paulo, mas é daqui, cresceu e tocou aqui antes de ir para lá. Agora está trabalhando e morando lá. Enfim, aprendi muito com eles (Turmalina). Depois de um tempo, esse ano, eles me chamaram para fazer parte do coletivo, mas isso levou um tempo. Não era algo planejado ou esperado, porque fazer o workshop com eles não tinha relação direta com fazer parte do coletivo. Mas sempre tivemos muito carinho uns pelos outros, eu já dizia que era meu coletivo. Eles reconhecem o meu trabalho, e eu também admiro muito o deles. Fiquei muito feliz de verdade, foi um presente enorme. Eu sempre quis fazer parte desse coletivo, queria ser como eles desde o começo. É algo muito especial para mim. Claro, não é fácil, porque são muitas pessoas envolvidas, o que às vezes gera desentendimentos, mas faz parte.
L: E além da Suelen, tem mais alguma DJ que você acompanha e que te inspira?
E: Sim, várias! Tem a DJ Ray[13], que é de São Paulo. Ela toca um funkzão porradão, é incrível, uma pretinha assim e ela é DJ da Júlia Costa[14] também. Eu tenho muita referência no rap, porque eu era rapper[15] antes. Parei de cantar quando comecei a discotecar, porque acabei me dedicando mais a isso. Além disso, eu já estava meio cansada e travada com o rap.
L: Tu acha que as pessoas próximas a ti são importantes para dar esse ar de que, tipo, é possível? Mais do que ver só gente de fora, de longe?
E: Sim, muito mais do que DJs internacionais. Eu gosto de algumas DJs internacionais, mas não tenho por nenhuma delas tanta admiração, carinho ou inspiração quanto tenho pela Su, pela DJ Ray e por outras DJs daqui, sabe? Então, acho que me inspiro muito mais nas pessoas de perto. É aquela coisa de ver que eu também posso ir longe, tanto quanto elas, ou até mais. Gosto de observar de onde essas pessoas vieram, quem é parecida comigo, porque as vivências de outros países são muito diferentes. Apesar de, às vezes, parecerem semelhantes, a realidade é outra. Não me conecto muito com a cultura dos DJs lá de fora. Acho que eles vivem bebendo das nossas coisas também, sabe? Tocam funk de anos atrás e acham que estão fazendo algo super inovador.
Eu tenho muita referência no funk de São Paulo, desde pequena. Mas, no geral, minhas maiores referências musicais são o samba, o rap e o funk. Cresci ouvindo esses três estilos. O rap veio mais por mim mesma, durante a adolescência e através dos meus amigos. Já o samba e o funk vieram da minha família, principalmente das minhas primas. Tem muitos funks que eu amo. Toco Mc Beyoncé, a Ludmilla, que eu amo demais. São músicas que eu ouvia desde pequena, sabe? Muitas coisas que marcaram minha infância, até aquelas que eu não podia ouvir, que ouvia escondida da minha mãe. Agora eu toco esses funks nos meus sets.
Sabe que tinha uma rádio aqui perto, a Eldorado? Tinha o Bonde da Eldorado, e eu ficava ouvindo funk na minha caixinha que minha bisavó me deu. Tem várias histórias assim, sabe? E isso tudo reflete no meu set. Não importa o gênero: se for reggaeton, house, qualquer coisa, sempre vai ter um vocal de funk, um vocal de rap. Não porque eu me obrigo, mas porque as minhas pesquisas e os sons que consumo naturalmente acabam sendo assim. Ontem mesmo fui no Expofavela, e a Negra Li[16] estava lá. Ela não cantou, fez uma palestra, mas fiquei muito emocionada. Meus olhos ficavam lacrimejando o tempo todo, sabe? Foi incrível. A Negra Li sempre foi uma referência pra mim. Eu não cantava antes, mas lembro que meu pai me chamava de “minha Negra Li”. Acho que, pra ele, ela era a referência que ele tinha de uma mulher negra forte. Ele queria que eu me inspirasse. Minha mãe sempre me apoiou, dizia que eu era bonita, mas meu pai trazia essas referências de um jeito diferente, sabe? Como a Negra Li.
L: E a Negra Li é tão importante quanto, sei lá… o Mano Brown[17]. Eles eram da mesma galera, cresceram juntos, né…
E: Sim, total. Eles furaram muitas bolhas. Eu gosto muito de Antônia[18]. Eu era pequena quando o filme saiu, mas assisti depois e vi também a série toda. Inclusive, tem uma parte de uma música minha, acho que é Jordan[19], onde menciono Antônia. Me inspirei muito e me vi ali.
L: E quando você vai escolher as músicas para tocar, o público influencia nas escolhas? Como é o processo? Tipo, hoje você tem três sets diferentes. O público dos dois últimos talvez sejam mais parecidos, mas o primeiro talvez não fosse…
E: Sim, bastante. O público influencia muito na escolha das músicas. Por exemplo, no Rap in Cena, no primeiro set, eu preparei as músicas em casa, porque não tinha como organizar lá. Gostei muito, mas o segundo set foi muito mais improvisado e por isso mais certeiro, porque já estava no festival, observando a vibe de quem estava lá. Quando uso o computador, tenho mais liberdade para improvisar e testar músicas na hora conforme olho o público e percebo como eles estão. Já em eventos que uso o CTJ, onde preciso entregar a playlist antes, isso é mais limitado. Mesmo assim, improviso na ordem e escolho as músicas que fazem mais sentido no momento.

foto: talento e beleza x @larissalima.ph
L: Tu curte mais um freestyle ou quando já está com o set passadinho na cabeça?
E: Gosto mais do freestyle. Raramente consigo seguir um set planejado. Já tentei fazer algo na ordem pré- montada, mas percebi que não funcionava bem no momento, porque tinha pensado em uma coisa que era subindo, acelerando e eu ainda estava no começo. Prefiro ajustar na hora, de acordo com a energia do público e o clima do evento. Mesmo para festival grande porque tu nunca sabe o que vai acontecer, então eu vou pensando muito na vibe que quero criar, no horário do dia, e observo o público. Ao mesmo tempo que o DJ observa a vibe, ele também é um gestor de vibe, né? Dá pra ti mudar a vibe do negócio, se eu botar uma música muito ruim do nada vou baixar a vibe, mas se botar uma música boa, um funkzão, daí depende…
L: Então, quando um DJ coloca uma música meio “que música é essa, p0##4?!” é proposital para dar uma baixada na galera?
E: Às vezes, sim, às vezes, não. Tem músicas que eu achava que iam bater muito bem, mas dependendo do lugar ou do equipamento, elas não bateram como deveriam. Já aconteceu de parecer que a música estava baixa ou ruim, mas era por causa do equipamento. Isso pode prejudicar o set, parece que o DJ está com as músicas ruins, mas não é. Mas depende. Depende muito do lugar, do dia e também da cabeça da pessoa. Às vezes, tu tá mais de boa, vai tocar e arrasa. Mas tem dia que tu não tá muito bem e fica tipo: ‘Pelo amor de Deus, tá dando tudo errado!’ No começo, eu era muito assim. Por exemplo, hoje eu estava animada para tocar, mas foi difícil no início porque estava muito quente, eu não conseguia enxergar direito, e meu cabelo caía no rosto o tempo todo. São coisas imprevisíveis, sabe? Tu vai lidando, mas é difícil. Dá pra planejar antes, mas tem rolês que são mais espontâneos. Quando vou tocar em bar, por exemplo, é bem mais tranquilo. Eu penso no que quero tocar, mas é muito mais de boa, porque o bar é super espontâneo. Eu posso misturar um milhão de coisas. Não que nos outros eventos eu não possa misturar, mas no bar eu faço isso de forma mais livre. Às vezes começo com um afrobeat, um rap ou um R&B e termino no funkzão. Fico mais dentro disso, sabe? Não é tão diferente, mas vou passando por reggaeton, reggae e um monte de coisas. É bem mais solto, bem mais livre, principalmente em eventos abertos, comparado com festas fechadas.
L: O primeiro set que vi teu foi no El Aguante, e foi bem assim, freestyle.
E: Sério? El Aguante era meu bar preferido para tocar. É uma pena que não podemos mais tocar lá.
L: É complicado com essas leis, né?
E: Sim, tem muita burocracia que atrapalha. No El Aguante, eu amava tocar, não só pelo público, mas também pela equipe. Sempre foi um lugar muito especial para mim. Uma vez, fui lá depois que pararam de ter eventos e me peguei olhando para o cantinho onde eu tocava. Chorei, porque era muito massa. A vibe era única. O público dali, tipo era muito massa… não só o público né, a equipe deles também, porque também tem isso, de tu chegar nos lugares e tu não ter uma pessoa do lado para resolver algo, se precisar.
L: Essa burocracia com as leis e o governo meio que empacando, impacta o trabalho de vocês, né? Seja o teu ou o do bar, porque querendo ou não ia um público bom pela música. Eu conheci o Fayllon assim também… em Porto vou muito pelo DJ e caso eu esteja em um rolê que curti o som, começo a acompanhar a agenda de quem tocou.
E: Sim, chama mais público. Eu também sou assim de ir pelo DJ, tenho pavor de quem vai no rolê sem saber nada do que vai tocar e ainda pede música que não faz sentido. É bom ir também sem saber, mas tipo, pedir pop em uma festa de rap? Como assim?! Tu acha mesmo que eu vou tocar ‘xxxx’? Fi, eu não tenho isso, não toco.
E sim, impacta muito! E também tem os lugares com problemas de estrutura. Já toquei em lugares onde as tomadas eram precárias, fios desencapados… Alguns lugares até tem grana mas os donos acabam enrolando e precarizando as coisas, dá medo de acontecer algo sério. Uma vez, na xxxx na CB, quando fechou, fechou comigo, eu que tava tocando quando fechou por causa desses negócios de leis. Eu estava tocando acho que uma meia hora, o policial chegou, botou a mão na minha mesa e falou ‘Pode parar de tocar, guarda tuas coisas que não vai mais ter som’, algo assim. Foi muito tenso, uma experiência muito violenta pra mim, emocionalmente falando. Depois disso, fiquei muito alerta em relação à polícia nos eventos. Sempre ficava de olho para ver se eles estavam chegando. Isso melhorou um pouco agora, mas ainda acontece. Ali no El Aguante mesmo começou a terminar mais cedo, ou eles pediam para abaixar o som também… agora no Apezito que tem o pagode na CB a prefeitura anda incomodando… É muito frustrante quando estamos em um evento, tudo indo bem, e tem que acabar ou abaixar os som por causa da prefeitura, sabe?! Isso desanima o público e os artistas. Já vi isso acontecer em vários rolês por causa da prefeitura. Eles incomodam os eventos culturais, mas depois querem usar jingles de carnaval e samba para se promover. É hipocrisia.
L: Nossa e tava enchendo lá… isso meio que mata a noite da cidade e o que era para ser um rolezão da galera, acaba indo para lugares fechados que tem ingresso para entrar e tal…
E: Exatamente. Esses espaços são históricos, fazem parte da identidade cultural da cidade. Quando as pessoas se mudam para uma área boêmia, elas sabem disso. Outro dia estava conversando sobre isso com minha mãe, ela tem 47 (anos) e disse que quando era criança a CB já era uma zona boêmia, então é triste ver a noite da cidade morrer por causa dessas restrições.
L: E tu toca mais em lugares que são fechados ou já tocou alguma vez em festas abertas, tipo baile, alguma coisa assim, como o Arruaça[20] ou o Baile da Tuka[21]? Pegou alguma fase dessas?
E: Acho que tocar na rua, em festas assim, é uma experiência incrível. Já toquei, no after da Plano. Em umas feirinhas, mas ainda não fiz uma festona de rua. Isso é algo que quero muito, porque combina muito comigo. Até tem uma música minha, “Progresso, Paz e Baile”[22], que a capa[23] é eu dançando na rua, no Arruaça! Naquela época, eu estava começando como DJ e achei que fazia todo sentido com a vibe da música. O Arruaça é, pra mim, a festa de rua mais f*da que a gente tem. É a que mais enche, mais atrai gente.. É um lugar onde quero muito tocar. A experiência de tocar na rua é algo que eu valorizo muito. Também já toquei numa festa de rua do Turmalina, no Sarandi, logo após as enchentes. Foi um dos bairros mais afetados. Foi uma festa pequena, porque é um lugar descentralizado e o pessoal daqui não gosta de ir a eventos fora do Centro ou da Cidade Baixa. Se não for na área deles, eles não vão. A gente que mora longe, vai, mas eles não. Não tinha muita gente, mas foi muito especial. Quando é um evento aberto ou algo de graça, como quando toquei na rua no Gasômetro, é outra vibe. Teve uma vez que toquei na Savannah[24], lá na Usina do Gasômetro, bem no meio da rua. Foi um rolê muito massa, diferente, sabe? É outra energia. Eu sinto uma conexão muito mais verdadeira, porque as pessoas vão chegando e começam a dançar.
L: Eu ia te perguntar isso. Você sente diferença entre festas na rua e festas privadas, em lugares fechados?
E: Eu sinto, com certeza. Sei lá… Nas festas fechadas, as pessoas pagam para estar ali, mas ficam mais se segurando para dançar. Ou até dançam, mas, dependendo da vibe, só com as músicas mais conhecidas. Não sei, é diferente.
L: Quando é na rua, a galera se solta mais?
E: Sim, com certeza. Mesmo quando não é música que eles conhecem, sabe? Eu fiquei muito feliz de tocar ali (no palco do Festival Chisme), porque é mais aberto. Foi parecido com o que rolou no Rap In Cena. No palco da Bronx, por exemplo, que era maiorzinho, a vibe foi muito boa. E foi na parte de fora também. No ano passado, o evento foi em um espaço fechado, e a energia foi bem diferente, mais introspectiva.
Já na rua, a vibe é bem mais leve, sabe? As pessoas vão passando, param para olhar, entram no clima, ou já estão ali e aproveitam. Tem muita diferença. Eu gosto de tocar em festas na rua. Dá para respirar melhor, não é aquele ambiente todo fechado. Não sei explicar direito… É outra energia, sabe? Eu amo muito, muito mesmo.
(…)
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Durante a conversa, acabamos desviando um pouco do tema central quando falei sobre meu trabalho como fotógrafa. Comentei como gosto de capturar a essência das pessoas de forma espontânea, especialmente em fotos documentais, sem poses forçadas. A DJ comentou sobre como se via de forma negativa, até perceber que o problema muitas vezes não era ela, mas a forma como era fotografada.
Isso nos levou a falar sobre como a fotografia tem uma história racista. Ela mencionou os filtros usados antigamente, que embranqueciam a pele das pessoas negras, distorciam sua imagem e contribuíam para a falta de representatividade. Disse que, hoje, ainda percebe essas questões em equipamentos e edições, mas que é importante encontrar profissionais que valorizem as pessoas como elas são. Eu compartilhei como, na minha fotografia, eu entendo que será retratada a forma como enxergo a pessoa, por isso valorizo a co-criação, especialmente com artistas que admiro e que me inspiram. Essa troca faz o resultado ser autêntico e verdadeiro, refletindo minha visão fotográfica.
A conversa naturalmente voltou à pauta central quando falamos sobre como a fotografia, assim como a música, reflete questões de raça, classe e gênero. Comentei que a fotografia ainda é muito elitizada, dominada por homens brancos com acesso a equipamentos caros, o que reforça desigualdades e estereótipos. Disse como estar presente no ambiente que estávamos, nesse contexto, era algo político para mim e para ela, porque ocupar esses espaços importa.
Ela concordou, conectando isso às lines de DJs. Comentou que, mesmo em uma line latina como a do evento em que estávamos, ainda deveria haver muito mais presença de pessoas negras. Esse paralelo entre fotografia e música destacou como a luta por representatividade e espaços é transversal influindo por diferentes áreas culturais em suas formas de criar e vivenciar a leitura do mundo.
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L: (…) Enfim… são lugares que, querendo ou não, a gente ainda está lutando para conseguir espaço e ocupar, e isso influencia muito em como somos recebidos nesses lugares.
E: Sim, várias vezes chego e as pessoas não estão nem aí para me ajudar a montar os equipamentos ou fazer as coisas. Mas agora tenho pegado uns bons. Tem uma galera que pede música, mas pede de forma mal-educada. Teve um set semana passada, ou retrasada, que fui tocar, eu estava animada, porque sabia que ia ser funk, e funk é tranquilo. Mas eles queriam só funk de 2017, tudo preso no tempo. Eu gosto bastante também e o pessoal adora tocar nas festas, mas o tempo todo isso? Ou só as músicas do momento. Daí tem umas coisas que são legais, mas outras são bem chatas. E ainda pediram Taylor Swift, com uns pedidos malucos assim, na hora. Tipo, ouve em casa, sei lá… Aquelas músicas antigas dela, quando furava a bolha, são legais, mas agora, mesmo que eu gostasse, não combina com a vibe que estou tocando. Eu não toco só artistas negros também, toco de tudo, geralmente artistas periféricos.
L: Tu faz esse recorte quando tá escolhendo quem vai tocar? Tem um filtro assim, tipo: “Vou tocar só artistas tal”?
E: Sim, mas também não excluo ninguém. Se eu gostar da música e ela for boa, eu toco, independente de quem seja o artista. Mas isso não foi sempre assim. Quando eu era adolescente, eu escutava muito Camila Cabello, ela era minha cantora favorita na época. Eu ouvia muito pop, e não tenho problema nenhum com isso, mas não consumia tanto música brasileira, principalmente rap, ou qualquer coisa daqui. Isso foi um problema que depois eu comecei a perceber. Eu tinha o cabelo crespo quando era pequena, mas depois comecei a alisar. E tudo isso entra na questão do cabelo. Eu sofria muito bullying na escola por causa disso. Eu fazia trança, mas chegou um momento que não dava mais, então comecei a relaxar o cabelo para ele ficar mais baixinho. Quando meus pais não tinham mais dinheiro para ir ao salão, eu comecei a alisar. Meu cabelo quebrou, ficou mais curto, mas ainda assim continuei sofrendo bullying. Aquela coisa toda de “a mais feia da sala”.
Lembro de uma vez com um colega e uma amiga minha, que era loira. Ele falou: “A xxx a gente trata assim”, e fez carinho na cabeça dela. Depois ele falou: “E com a Luiza a gente faz assim” (Luiza é o nome de batismo da DJ Elle P), e bagunçou meu cabelo de uma forma bem violenta. Aquilo foi uma marca, e não é algo que eu levo como verdade, mas é algo que eu nunca vou esquecer. É como muitas pessoas brancas agem. Depois disso, comecei a voltar a cuidar do meu cabelo crespo. Isso aconteceu meio que sem querer, porque meu secador estragou e, no dia de ir para a escola, eu não podia alisar. Então fui com o cabelo crespo de qualquer jeito e gostei. A partir daí, comecei a pesquisar sobre cuidados com cabelo crespo, e foi naquela época que rolou o boom dos cachos, com muitos produtos e tal. Antes, os produtos eram caros e não tinha tanta variedade, mas depois ficou mais acessível.
Eu comecei a me entender melhor. Nas pesquisas, comecei a ver os vídeos da Nátaly Neri[25], e conhecendo outras meninas f*das. Comecei a entender sobre pele, cor, e até a escrever mais. Sempre escrevi desde pequena, fazia textinhos para a família, coisas mais amorosas, ou até coisas políticas no colégio. Depois, comecei a escrever minhas próprias letras de músicas. Tudo isso teve a ver com o cabelo, foi um processo de autodescoberta.

foto: frestas sonoras x @larissalima.ph
Comecei a ouvir Racionais… minha mãe não era muito do rap. Ela gostava mais de samba, pagode, pop e R&B, e eu ouvia muito isso com ela, além de MPB. Meu pai também gostava mais de samba, então o rap foi algo que eu fui descobrindo por conta própria, com os amigos, nos rolês. Foi assim que comecei a me educar e buscar minhas referências pretas. No começo, o que eu ouvia no Spotify era muita música de artistas brancos, e eu ainda gosto de muitas dessas pessoas, mas hoje é automático. Não fico pensando “Ah, vou escutar só isso aqui, escutar essa pessoa porque ela é preta.” Não, mas a maioria das músicas que escuto têm a ver comigo, e sim, tem artistas brancos também, mas a grande maioria é de artistas que tem a ver comigo.
L: Esses artistas vieram muito pela identificação também, né?
E: Sim, pela identificação. Que nem minha irmã, ela tem 14 anos agora. Antes, ela só ficava ouvindo K-pop. Tipo, é de boa, é outra cultura que eu não sou tão fã, mas tem várias coisas que ela me apresentou e que eu gostei. Mas eu também falava para ela: “Ah, tu tem que ter mais referência brasileira”. Não gosto dessa coisa que os adolescentes têm de “Ai, eu não gosto de música brasileira”. Não, eu sempre gostei de exaltar a música brasileira, sim.
Daí assim como fui me educando, tento trazer isso para ela também, de ouvir mais rap. Daí, do nada, ela começou a ouvir o Veigh, que eu amo, e foi ouvindo os rappers homens também. Quando eu comecei a escutar rap, só escutava os homens também.
Agora, já não está mais na época da Karol Conká…
L: Agora é mais Júlia Costa, Tasha e Tracie, Duquesa, MC Luanna…
E: Exato! Eu falei para ela: “Tu tem que conhecer Duquesa, Tasha e Tracie”. Aí, ela apareceu cantando “Desce Licor”. Eu também boto alto em casa para ela ouvir, porque agora tô mais de boa. Ela continua ouvindo muito K-pop, mas também consome bastante rap daqui. Ainda acho que ela escuta muito os rappers homens, mas é um processo, né?
L: Na comunicação a gente estuda como o algoritmo também condiciona o que está em alta na internet, sempre é mais branco, externo, masculino… daí você vai pesquisando, chegando no masculino daqui… E para chegar até o “ouro”, vamos dizer assim, você tem que cavar muito. Eu também comecei assim, quando era mais nova. Ouvi muita coisa estrangeira, tentei entrar na vibe do rock, que era o que estava em alta na época. Minha irmã mais velha começou a me apresentar MPB, tipo: “Ah, ouve Djavan, ouve tal e tal”. Aí, fui me interessando, mas para desenvolver minha própria identidade foi uma caminhada, passei pela situação de ouvir funk “escondido” também…
(Conversa interrompida por interferência externa)
“Obrigada por me ouvirem, e agora a velha Sojourner[26] não tem mais nada a dizer.”
Referências bibliográficas:
CASANOVA, Janaína Oldani. Eu tava lá: experiências estético-políticas a partir da performance de mulheres no rap de Salvador.
CONTER, Marcelo B. et al. Band in a Girl: devir-mulher nas timbragens do rock independente brasileiro.
MAZER, Dulce; GELAIN, Gabriela; GUERRA, Paula. Eu sou MC: participação coletiva e plural de mulheres em cenas musicais RAP.
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade.
SILVEIRA, Fabrício. Rupturas instáveis: entrar e sair da música pop.
Participação feminina ainda é desigual no mercado musical. Disponível em: link.
“Mulheres na música”: Ecad lança novo relatório sobre participação feminina na indústria musical. Disponível em: link.
A desigualdade de gênero no setor audiovisual do Brasil. Disponível em: link.
Ancine diz que nenhuma mulher negra produziu ou dirigiu filmes nacionais em 2016. Disponível em: link.
Políticas para diversidade de raça e gênero no cinema brasileiro. Disponível em: link.
Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual. Disponível em: link.
DJs brasileiras e suas histórias: a busca pelo respeito, igualdade e valorização. Disponível em: link.
Notas:
[1] Apresentação de Elle P em post no instagram: “Com uma forte presença na cena artística local desde 2020, e pouco mais de um ano na discotecagem, a artista vem se destacando com suas apresentações que exaltam a cultura negra, brasileira e LGBTQIAPN+. Trazendo o futuro, a ancestralidade e o pertencimento para o território de pista; com foco em vozes femininas e periféricas. Fazendo jus ao alter ego de Miss Versátil, em seus sets mistura sonoridades afrodiaspóricas/ urbanas/ eletrônicas. Como: Amapiano, Afrobeats, Afro House, Chill Baile, Dnb, Garage, House, Pagode, Pagodão Baiano, Funk e Rap.’ Conheça a DJ Elle P aqui.
[2] Fruto das estruturas sociais baseadas na misoginia, as mulheres que operam máquinas ainda são minoria na indústria fonográfica e audiovisual brasileira. Saiba mais em: Participação feminina ainda é desigual no mercado musical, relatório “O que o Brasil Ouve – Edição Mulheres na Música”, divulgado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad); Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual, publicado pela ANCINE e disponível no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA.
[3] El Aguante bar “Popular e democrático. É assim que o empreendedor Roberto Schroeder define o El Aguante, espaço que abriu com sua companheira, Mariana Vasconcelos, no bairro Rio Branco, inspirado em espaços tradicionais brasileiros, uruguaios e argentinos.” Matéria completa no link.
[4] DJ Jorginho residente do baile da Tuka, milita pela causa do funk há pelo menos 10 anos. Conheça- o pelo link.
[5] Faylon, é DJ e importante residente no Coletivo Turmalina.
[6] “Chisme busca reimaginar a figura do gaúcho, trazendo o olhar para sua presença na história do Sul da América, que é tão significativa para a identificação do que é ser gaudério. Somos a celebração do gaúcho moderno, conectados entre passado, presente e futuro.” Info retirada do site do Festival.
[7] Atlanta é uma casa noturna/bar em Porto Alegre que se inspira no Hip Hop e na essência da cidade de Atlanta/EUA, conhecida por sua ligação com movimentos culturais e anti racistas.
[8] “O Pito é um bar que luta pelo direito ao lazer e à cultura de todas, todes e todos.” Frase retirada de um post no instagram do bar.
[9] Natura Musical é a plataforma cultural da marca Natura, que há 19 anos valoriza a música como um veículo de bem estar e conexão, ao fomentar trabalhos de grandes nomes da música brasileira, novos artistas e festivais independentes. Info retirada do site da marca.
[10] Feijoada Turmalina foi um período de imersão criativa com os integrantes do coletivo Turmalina que compartilharam seus conhecimentos de produção multimídia, mixagem DJ e estratégias de comunicação para artistas da periferia de Porto Alegre e região metropolitana. Acesse o post.
[11] Suelen Mesmo é DJ e co- fundadora do Coletivo Turmalina natural de Porto Alegre. Conheça a DJ aqui.
[12] O Coletivo Turmalina busca transformar o cenário local, aumentando a visibilidade e busca dar visibilidade para os talentos de artistas pretas/es/os, dissidentes e periféricos. Através da pesquisa e produção de música, mantém o questionamento da presença e a importância das corporeidades no cenário de festas e coletivos de Porto Alegre.
[13] Conheça a DJ Ray aqui.
[14] “Compositora e rapper Júlia Costa, nascida em Mogi das Cruzes- SP ,deixa como marca em sua música a autenticidade e força da mulher brasileira negra.” Descrição do seu perfil no Spotify. Conheça AJuliaCosta aqui.
[15] Acesse o perfil de Elle P no Spotify aqui.
[16] Negra Li, é uma cantora, rapper, compositora e atriz brasileira. Formada em música pelo coral da Universidade de São Paulo, é considerada o principal nome feminino do rap nacional. Conheça- a aqui.
[17] Mano Brown, é um rapper, compositor, empresário e apresentador brasileiro. Ele é um dos integrantes dos Racionais MC’s, grupo de rap formado na capital paulista em 1988 e integrado por Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. Conheça- o aqui.
[18] Antônia é um filme brasileiro de 2006 dirigido por Tata Amaral, e estrelado por Negra Li, Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Filmado em São Paulo de 22 de fevereiro a 4 de abril de 2005, entrou em cartaz em 9 de fevereiro de 2007 e narra a história de quatro amigas que enfrentam um cotidiano de violência, pobreza e machismo para realizar o sonho de viver do rap.
[20] Coletivo Arruaça: festa de rua eletrônica. Popular e consolidada para quem curte o gênero. Conheça- os no link.
[21] Baile da Tuka: Baile funk mais popular da cidade. Atualmente, sem previsão de atividade. Veja como era no link.
[22] Ouça “Progresso, Paz e Baile” de Elle P no link.
[23] Confira a capa de “Progresso, Paz e Baile” no link.
[24] A Savannah nasceu da necessidade de criar um espaço para os africanos que vieram ao Brasil para estudar, trabalhar ou buscar novas oportunidades. Durante suas jornadas por aqui, eles sentiam falta de um lugar onde pudessem vivenciar e celebrar a musicalidade, a cultura e a energia vibrante de seus países de origem. Acesse o link para conhecer.
[25] Nátaly Neri é cientista social e reconhecida criadora digital, por sua abordagem inovadora ao discutir a beleza além da visão estética dominante. Conheça- a aqui
[26] O discurso “E Não Sou Eu Uma Mulher?” foi proferido por Sojourner Truth, uma ativista abolicionista e feminista, em 1851, durante a Convenção dos Direitos das Mulheres, em Akron, Ohio. Ele é um marco na luta pelos direitos das mulheres, especialmente das mulheres negras.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.



Syon Trio é composta por três gaúchos.