IDENTIDADE RITMADA ── ✦ de festa a baile

Make Fabico Weird Again #1 

por Larissa Lima da Silva

Essa entrevista é fruto da interação de um dia acompanhando a rotina de uma DJ em Porto Alegre. A DJ Elle P[1] e eu, Larissa Lima, fotógrafa e estudante da disciplina de Comunicação e Cultura, ministrada por Marcelo Conter — disciplina essa que motivou a ideia deste rico encontro.

foto: dj elle p at festival chisme x @larissalima.ph

Desejo que você leitor seja atravessado por esse diálogo rico de intimidades e vivências compartilhadas entre duas mulheres negras. Característica essa que notei ser exceção no momento em que conduzia nosso diálogo, naquele espaço majoritariamente branco que ocupávamos, com nossos corpos, inteligências e tecnologias por nós dominadas[2] — sejam as pickups por Elle P ou a câmera e o intelecto acadêmico por mim. Além disso, estávamos conscientes de que nossas presenças, por si só, já diziam muito, antes mesmo das palavras a seguir serem pronunciadas.

Conheci a DJ Elle P enquanto curtia um típico sábado com amigas no bar El Aguante[3], meses depois, chamei-a com a proposta: “Me dá a honra de uma entrevista?!”. Foram alguns dias até receber uma mensagem dela me chamando para fotografar um set no Festival Chisme. Foi nesse quase causal duplo “sim” que, entre um set e outro, conversamos, passamos o dia e terminamos a noite. Ao todo, foram 12 horas na companhia uma da outra. Elle, que bom o nosso encontro. Vida longa à nossa conexão!

Essencialmente, desejo que o leitor parta deste ponto crucial: a música, que me apresentou à nossa DJ, esteve presente durante todo o dia, nas 12 horas que passamos juntas, seja como elemento principal ou como trilha sonora ao fundo. Seja pelo festival, rádio de Uber, bar, casa noturna ou o setzão sincero de funk sinistro ritmado pelo DJ Jorginho[4], seguido de um B2B Elle P + Faylon[5] que encerrou nossa noite com muita classe. Faço questão de citá-los, uma vez que sou também apaixonada pelo set desses caras desde que os conheço de outros rolês, e também eram opções consideráveis para este estudo.

Digo isso para que, junto a mim, você perceba que toda experiência de vida se relaciona à música que ouvimos, que preferimos, e que a influência de tantos fatores transversais levam nossa DJ e tantos outros a alcançarem os resultados que alcançam no seu som.

Poeticamente, vejo algo dentro deles que forma sua própria frequência interna. Essa frequência passa de sua alma e atravessa a ponta de seus dedos, por fim eletrocutando todo o ambiente e nos atingindo. É assim que me sinto vendo Elle P, Jorginho e Faylon em todos os seus ângulos — do palco, ao seu lado ou da plateia — mandando suas energias, que encontram aqueles que vibram na mesma frequência.

foto: tocando o terror x @larissalima.ph

O dia foi 30/11/24, e o programado era: às 16h, set no Festival Chisme[6], que aconteceu no Jockey Club (local onde gravamos essa conversa); às 23h, set no Atlanta[7]; e às 2h, set B2B na festa de aniversário de 2 anos do Pito[8], que rolou na quadra da escola de samba Fidalgos e Aristocratas. Alguns trechos dessa conversa/entrevista foram rasurados para manter os limites estabelecidos por mim e em respeito à minha entrevistada e aos estabelecimentos, por acaso, citados.

Por fim, a proposta deste texto também é tornar pública a voz de duas mulheres negras — entrevistadora e entrevistada — com foco na entrevistada, que compartilhou suas vivências com detalhes que emergiram dessa experiência de troca quase que antropológica entre nós. Nesse sentido, reafirmo nossas identidades com a certeza do valor de identificação para outras/es/os como nós. Por fim, encho os rodapés de caminhos para que nossas referências sejam por você também acessadas.

Que a conversa comece.

Elle P: (…) Para mim, era muito distante. Eu morava no morro, não tinha independência financeira e ainda era menor de 18 anos. Hoje tenho 21, mas, na época, eu tinha uns 16 ou 17. Além disso, eles demoraram um pouco para começar o projeto da Natura Musical[9], porque eu precisava ter 18 anos para participar. Eu ia fazer 18 em agosto e o projeto começava em julho, então esperaram um pouco para que eu pudesse participar.  

Larissa: Tá, e aí você entrou na oficina?  

Elle P: Sim, eram workshops. Teve os workshops de discotecagem, e foi lá que comecei a tocar e aprender. Claro, até hoje continuo aprendendo, mas aquele foi meu primeiro contato real com a discotecagem. 

Larissa: E daí eles esperaram para você tocar no Natura?  

Elle P: Não, o projeto Feijoada Turmalina[10] foi financiado pelo Natura Musical. Eles foram selecionados e fizeram o projeto. Era uma oficina de discotecagem, mas também tinha produção musical, marketing, gestão de carreira e várias outras coisas que agora não lembro bem. Foi muito massa na época.  

Larissa: Como você ficou sabendo? Foi pela internet?  

Elle P: Sim, foi pela internet, acho que através deles e pela Suelen. Ela fazia parte desse coletivo e agora está em São Paulo. Você conhece a Suelen Mesmo[11]?  

L: Conheço, não pessoalmente, mas já presenciei um set dela…  

E: Ela é minha maior referência como DJ. Foi um pouco por causa dela que comecei a tocar. Sempre quis, desde pequena, mas achava que isso era coisa só para homens ou para quem já tinha muita estrutura. Quando era pequena, eu dizia que seria ‘o’ DJ Elle P da 23 (risos). Coitada, muita loucura, né? (risos) É engraçado lembrar disso. Depois, um ano depois de começar a tocar, descobri que meu avô também era DJ. Ele faleceu antes de eu nascer. Eu não sabia disso. Só depois descobri que ele também era DJ e tocava em festas. Ele não tinha nome artístico nem nada, mas tocava em festas de Black Music, o que era muito legal. Descobrir isso foi incrível, porque eu nunca soube antes. Não foi algo que pensei, tipo: ‘Vou seguir os passos do meu avô’, porque eu nem sabia disso.  

L: Como tu ficou sabendo? Isso veio à tona depois?  

E: Sim, minha mãe e minha avó começaram a comentar. Minha mãe disse: ‘Ah, teu avô também tocava!’ Foi quando ela começou a perceber que eu estava levando a sério e que estava dando certo. Daí começaram a falar mais sobre isso. Ele tinha muitos discos e também o toca-discos. Volta e meia, minha mãe me vê tocando ou estamos ouvindo música juntas, e ela comenta: ‘Ah, teu avô tocava muito essa música’. Foi assim que descobri. Mas o que realmente me fez começar foi a Suelen e o projeto do Turmalina[12].  

L: E, desde quando você começou até agora, você sente uma presença feminina mais forte nas lines?  

E: Sim, acho que sempre teve. Eu comecei há apenas dois anos, vou fazer três no ano que vem (2025), mas já tinham muitas mulheres na cena há 10, 15 anos ou mais. O problema é que isso não chega muito até nós, porque os DJs mais divulgados são sempre os homens, como o Alok, o Pedro Sampaio, o Dennis DJ… Esses são os nomes do mainstream, mas sempre existiram muitas mulheres incríveis que eu não conhecia. Minha primeira referência foi a Suelen, que, inclusive, é da Restinga, o mesmo bairro onde minha mãe nasceu. Isso me fez ver que era possível. Hoje, ela mora em São Paulo, mas é daqui, cresceu e tocou aqui antes de ir para lá. Agora está trabalhando e morando lá. Enfim, aprendi muito com eles (Turmalina). Depois de um tempo, esse ano, eles me chamaram para fazer parte do coletivo, mas isso levou um tempo. Não era algo planejado ou esperado, porque fazer o workshop com eles não tinha relação direta com fazer parte do coletivo. Mas sempre tivemos muito carinho uns pelos outros, eu já dizia que era meu coletivo. Eles reconhecem o meu trabalho, e eu também admiro muito o deles. Fiquei muito feliz de verdade, foi um presente enorme. Eu sempre quis fazer parte desse coletivo, queria ser como eles desde o começo. É algo muito especial para mim. Claro, não é fácil, porque são muitas pessoas envolvidas, o que às vezes gera desentendimentos, mas faz parte.

L: E além da Suelen, tem mais alguma DJ que você acompanha e que te inspira?  

E: Sim, várias! Tem a DJ Ray[13], que é de São Paulo. Ela toca um funkzão porradão, é incrível, uma pretinha assim e ela é DJ da Júlia Costa[14] também. Eu tenho muita referência no rap, porque eu era rapper[15] antes. Parei de cantar quando comecei a discotecar, porque acabei me dedicando mais a isso. Além disso, eu já estava meio cansada e travada com o rap.  

L: Tu acha que as pessoas próximas a ti são importantes para dar esse ar de que, tipo, é possível? Mais do que ver só gente de fora, de longe?

E: Sim, muito mais do que DJs internacionais. Eu gosto de algumas DJs internacionais, mas não tenho por nenhuma delas tanta admiração, carinho ou inspiração quanto tenho pela Su, pela DJ Ray e por outras DJs daqui, sabe? Então, acho que me inspiro muito mais nas pessoas de perto. É aquela coisa de ver que eu também posso ir longe, tanto quanto elas, ou até mais. Gosto de observar de onde essas pessoas vieram, quem é parecida comigo, porque as vivências de outros países são muito diferentes. Apesar de, às vezes, parecerem semelhantes, a realidade é outra. Não me conecto muito com a cultura dos DJs lá de fora. Acho que eles vivem bebendo das nossas coisas também, sabe? Tocam funk de anos atrás e acham que estão fazendo algo super inovador. 

Eu tenho muita referência no funk de São Paulo, desde pequena. Mas, no geral, minhas maiores referências musicais são o samba, o rap e o funk. Cresci ouvindo esses três estilos. O rap veio mais por mim mesma, durante a adolescência e através dos meus amigos. Já o samba e o funk vieram da minha família, principalmente das minhas primas. Tem muitos funks que eu amo. Toco Mc Beyoncé, a Ludmilla, que eu amo demais. São músicas que eu ouvia desde pequena, sabe? Muitas coisas que marcaram minha infância, até aquelas que eu não podia ouvir, que ouvia escondida da minha mãe. Agora eu toco esses funks nos meus sets. 

Sabe que tinha uma rádio aqui perto, a Eldorado? Tinha o Bonde da Eldorado, e eu ficava ouvindo funk na minha caixinha que minha bisavó me deu. Tem várias histórias assim, sabe? E isso tudo reflete no meu set. Não importa o gênero: se for reggaeton, house, qualquer coisa, sempre vai ter um vocal de funk, um vocal de rap. Não porque eu me obrigo, mas porque as minhas pesquisas e os sons que consumo naturalmente acabam sendo assim. Ontem mesmo fui no Expofavela, e a Negra Li[16] estava lá. Ela não cantou, fez uma palestra, mas fiquei muito emocionada. Meus olhos ficavam lacrimejando o tempo todo, sabe? Foi incrível. A Negra Li sempre foi uma referência pra mim. Eu não cantava antes, mas lembro que meu pai me chamava de “minha Negra Li”. Acho que, pra ele, ela era a referência que ele tinha de uma mulher negra forte. Ele queria que eu me inspirasse. Minha mãe sempre me apoiou, dizia que eu era bonita, mas meu pai trazia essas referências de um jeito diferente, sabe? Como a Negra Li.

L: E a Negra Li é tão importante quanto, sei lá… o Mano Brown[17]. Eles eram da mesma galera, cresceram juntos, né…  

E: Sim, total. Eles furaram muitas bolhas. Eu gosto muito de Antônia[18]. Eu era pequena quando o filme saiu, mas assisti depois e vi também a série toda. Inclusive, tem uma parte de uma música minha, acho que é Jordan[19], onde menciono Antônia. Me inspirei muito e me vi ali. 

L: E quando você vai escolher as músicas para tocar, o público influencia nas escolhas? Como é o processo? Tipo, hoje você tem três sets diferentes. O público dos dois últimos talvez sejam mais parecidos, mas o primeiro talvez não fosse…  

E: Sim, bastante. O público influencia muito na escolha das músicas. Por exemplo, no Rap in Cena, no primeiro set, eu preparei as músicas em casa, porque não tinha como organizar lá. Gostei muito, mas o segundo set foi muito mais improvisado e por isso mais certeiro, porque já estava no festival, observando a vibe de quem estava lá. Quando uso o computador, tenho mais liberdade para improvisar e testar músicas na hora conforme olho o público e percebo como eles estão. Já em eventos que uso o CTJ, onde preciso entregar a playlist antes, isso é mais limitado. Mesmo assim, improviso na ordem e escolho as músicas que fazem mais sentido no momento.  

foto: talento e beleza x @larissalima.ph

L: Tu curte mais um freestyle ou quando já está com o set passadinho na cabeça?  

E: Gosto mais do freestyle. Raramente consigo seguir um set planejado. Já tentei fazer algo na ordem pré- montada, mas percebi que não funcionava bem no momento, porque tinha pensado em uma coisa que era subindo, acelerando e eu ainda estava no começo. Prefiro ajustar na hora, de acordo com a energia do público e o clima do evento. Mesmo para festival grande porque tu nunca sabe o que vai acontecer, então eu vou pensando muito na vibe que quero criar, no horário do dia, e observo o público. Ao mesmo tempo que o DJ observa a vibe, ele também é um gestor de vibe, né? Dá pra ti mudar a vibe do negócio, se eu botar uma música muito ruim do nada vou baixar a vibe, mas se botar uma música boa, um funkzão, daí depende…  

L: Então, quando um DJ coloca uma música meio “que música é essa, p0##4?!” é proposital para dar uma baixada na galera?  

E: Às vezes, sim, às vezes, não. Tem músicas que eu achava que iam bater muito bem, mas dependendo do lugar ou do equipamento, elas não bateram como deveriam. Já aconteceu de parecer que a música estava baixa ou ruim, mas era por causa do equipamento. Isso pode prejudicar o set, parece que o DJ está com as músicas ruins, mas não é. Mas depende. Depende muito do lugar, do dia e também da cabeça da pessoa. Às vezes, tu tá mais de boa, vai tocar e arrasa. Mas tem dia que tu não tá muito bem e fica tipo: ‘Pelo amor de Deus, tá dando tudo errado!’ No começo, eu era muito assim. Por exemplo, hoje eu estava animada para tocar, mas foi difícil no início porque estava muito quente, eu não conseguia enxergar direito, e meu cabelo caía no rosto o tempo todo. São coisas imprevisíveis, sabe? Tu vai lidando, mas é difícil. Dá pra planejar antes, mas tem rolês que são mais espontâneos. Quando vou tocar em bar, por exemplo, é bem mais tranquilo. Eu penso no que quero tocar, mas é muito mais de boa, porque o bar é super espontâneo. Eu posso misturar um milhão de coisas. Não que nos outros eventos eu não possa misturar, mas no bar eu faço isso de forma mais livre. Às vezes começo com um afrobeat, um rap ou um R&B e termino no funkzão. Fico mais dentro disso, sabe? Não é tão diferente, mas vou passando por reggaeton, reggae e um monte de coisas. É bem mais solto, bem mais livre, principalmente em eventos abertos, comparado com festas fechadas.

L: O primeiro set que vi teu foi no El Aguante, e foi bem assim, freestyle.  

E: Sério? El Aguante era meu bar preferido para tocar. É uma pena que não podemos mais tocar lá.  

L: É complicado com essas leis, né?  

E: Sim, tem muita burocracia que atrapalha. No El Aguante, eu amava tocar, não só pelo público, mas também pela equipe. Sempre foi um lugar muito especial para mim. Uma vez, fui lá depois que pararam de ter eventos e me peguei olhando para o cantinho onde eu tocava. Chorei, porque era muito massa. A vibe era única. O público dali, tipo era muito massa… não só o público né, a equipe deles também, porque também tem isso, de tu chegar nos lugares e tu não ter uma pessoa do lado para resolver algo, se precisar.

L: Essa burocracia com as leis e o governo meio que empacando, impacta o trabalho de vocês, né? Seja o teu ou o do bar, porque querendo ou não ia um público bom pela música. Eu conheci o Fayllon assim também… em Porto vou muito pelo DJ e caso eu esteja em um rolê que curti o som, começo a acompanhar a agenda de quem tocou.

E: Sim, chama mais público. Eu também sou assim de ir pelo DJ, tenho pavor de quem vai no rolê sem saber nada do que vai tocar e ainda pede música que não faz sentido. É bom ir também sem saber, mas tipo, pedir pop em uma festa de rap? Como assim?! Tu acha mesmo que eu vou tocar ‘xxxx’? Fi, eu não tenho isso, não toco. 

E sim, impacta muito! E também tem os lugares com problemas de estrutura. Já toquei em lugares onde as tomadas eram precárias, fios desencapados… Alguns lugares até tem grana mas os donos acabam enrolando e precarizando as coisas, dá medo de acontecer algo sério. Uma vez, na xxxx na CB, quando fechou, fechou comigo, eu que tava tocando quando fechou por causa desses negócios de leis. Eu estava tocando acho que uma meia hora, o policial chegou, botou a mão na minha mesa e falou ‘Pode parar de tocar, guarda tuas coisas que não vai mais ter som’, algo assim. Foi muito tenso, uma experiência muito violenta pra mim, emocionalmente falando. Depois disso, fiquei muito alerta em relação à polícia nos eventos. Sempre ficava de olho para ver se eles estavam chegando. Isso melhorou um pouco agora, mas ainda acontece. Ali no El Aguante mesmo começou a terminar mais cedo, ou eles pediam para abaixar o som também… agora no Apezito que tem o pagode na CB a prefeitura anda incomodando… É muito frustrante quando estamos em um evento, tudo indo bem, e tem que acabar ou abaixar os som por causa da prefeitura, sabe?! Isso desanima o público e os artistas. Já vi isso acontecer em vários rolês por causa da prefeitura. Eles incomodam os eventos culturais, mas depois querem usar jingles de carnaval e samba para se promover. É hipocrisia.

L: Nossa e tava enchendo lá… isso meio que mata a noite da cidade e o que era para ser um rolezão da galera, acaba indo para lugares fechados que tem ingresso para entrar e tal…  

E: Exatamente. Esses espaços são históricos, fazem parte da identidade cultural da cidade. Quando as pessoas se mudam para uma área boêmia, elas sabem disso. Outro dia estava conversando sobre isso com minha mãe, ela tem 47 (anos) e disse que quando era criança a CB já era uma zona boêmia, então é triste ver a noite da cidade morrer por causa dessas restrições.

L: E tu toca mais em lugares que são fechados ou já tocou alguma vez em festas abertas, tipo baile, alguma coisa assim, como o Arruaça[20] ou o Baile da Tuka[21]? Pegou alguma fase dessas?  

E: Acho que tocar na rua, em festas assim, é uma experiência incrível. Já toquei, no after da Plano. Em umas feirinhas, mas ainda não fiz uma festona de rua. Isso é algo que quero muito, porque combina muito comigo. Até tem uma música minha, “Progresso, Paz e Baile”[22], que a capa[23] é eu dançando na rua, no Arruaça! Naquela época, eu estava começando como DJ e achei que fazia todo sentido com a vibe da música. O Arruaça é, pra mim, a festa de rua mais f*da que a gente tem. É a que mais enche, mais atrai gente.. É um lugar onde quero muito tocar. A experiência de tocar na rua é algo que eu valorizo muito. Também já toquei numa festa de rua do Turmalina, no Sarandi, logo após as enchentes. Foi um dos bairros mais afetados. Foi uma festa pequena, porque é um lugar descentralizado e o pessoal daqui não gosta de ir a eventos fora do Centro ou da Cidade Baixa. Se não for na área deles, eles não vão. A gente que mora longe, vai, mas eles não.  Não tinha muita gente, mas foi muito especial. Quando é um evento aberto ou algo de graça, como quando toquei na rua no Gasômetro, é outra vibe. Teve uma vez que toquei na Savannah[24], lá na Usina do Gasômetro, bem no meio da rua. Foi um rolê muito massa, diferente, sabe? É outra energia. Eu sinto uma conexão muito mais verdadeira, porque as pessoas vão chegando e começam a dançar.  

L: Eu ia te perguntar isso. Você sente diferença entre festas na rua e festas privadas, em lugares fechados?  

E: Eu sinto, com certeza. Sei lá… Nas festas fechadas, as pessoas pagam para estar ali, mas ficam mais se segurando para dançar. Ou até dançam, mas, dependendo da vibe, só com as músicas mais conhecidas. Não sei, é diferente.  

L: Quando é na rua, a galera se solta mais?

E: Sim, com certeza. Mesmo quando não é música que eles conhecem, sabe? Eu fiquei muito feliz de tocar ali (no palco do Festival Chisme), porque é mais aberto. Foi parecido com o que rolou no Rap In Cena. No palco da Bronx, por exemplo, que era maiorzinho, a vibe foi muito boa. E foi na parte de fora também. No ano passado, o evento foi em um espaço fechado, e a energia foi bem diferente, mais introspectiva.

Já na rua, a vibe é bem mais leve, sabe? As pessoas vão passando, param para olhar, entram no clima, ou já estão ali e aproveitam. Tem muita diferença. Eu gosto de tocar em festas na rua. Dá para respirar melhor, não é aquele ambiente todo fechado. Não sei explicar direito… É outra energia, sabe? Eu amo muito, muito mesmo.

(…)

___

Durante a conversa, acabamos desviando um pouco do tema central quando falei sobre meu trabalho como fotógrafa. Comentei como gosto de capturar a essência das pessoas de forma espontânea, especialmente em fotos documentais, sem poses forçadas. A DJ comentou sobre como se via de forma negativa, até perceber que o problema muitas vezes não era ela, mas a forma como era fotografada.

Isso nos levou a falar sobre como a fotografia tem uma história racista. Ela mencionou os filtros usados antigamente, que embranqueciam a pele das pessoas negras, distorciam sua imagem e contribuíam para a falta de representatividade. Disse que, hoje, ainda percebe essas questões em equipamentos e edições, mas que é importante encontrar profissionais que valorizem as pessoas como elas são. Eu compartilhei como, na minha fotografia, eu entendo que será retratada a forma como enxergo a pessoa, por isso valorizo a co-criação, especialmente com artistas que admiro e que me inspiram. Essa troca faz o resultado ser autêntico e verdadeiro, refletindo minha visão fotográfica.

A conversa naturalmente voltou à pauta central quando falamos sobre como a fotografia, assim como a música, reflete questões de raça, classe e gênero. Comentei que a fotografia ainda é muito elitizada, dominada por homens brancos com acesso a equipamentos caros, o que reforça desigualdades e estereótipos. Disse como estar presente no ambiente que estávamos, nesse contexto, era algo político para mim e para ela, porque ocupar esses espaços importa.

Ela concordou, conectando isso às lines de DJs. Comentou que, mesmo em uma line latina como a do evento em que estávamos, ainda deveria haver muito mais presença de pessoas negras. Esse paralelo entre fotografia e música destacou como a luta por representatividade e espaços é transversal influindo por diferentes áreas culturais em suas formas de criar e vivenciar a leitura do mundo.

___

L: (…) Enfim… são lugares que, querendo ou não, a gente ainda está lutando para conseguir espaço e ocupar, e isso influencia muito em como somos recebidos nesses lugares.

E: Sim, várias vezes chego e as pessoas não estão nem aí para me ajudar a montar os equipamentos ou fazer as coisas. Mas agora tenho pegado uns bons. Tem uma galera que pede música, mas pede de forma mal-educada. Teve um set semana passada, ou retrasada, que fui tocar, eu estava animada, porque sabia que ia ser funk, e funk é tranquilo. Mas eles queriam só funk de 2017, tudo preso no tempo. Eu gosto bastante também e o pessoal adora tocar nas festas, mas o tempo todo isso? Ou só as músicas do momento. Daí tem umas coisas que são legais, mas outras são bem chatas. E ainda pediram Taylor Swift, com uns pedidos malucos assim, na hora. Tipo, ouve em casa, sei lá… Aquelas músicas antigas dela, quando furava a bolha, são legais, mas agora, mesmo que eu gostasse, não combina com a vibe que estou tocando. Eu não toco só artistas negros também, toco de tudo, geralmente artistas periféricos.

L: Tu faz esse recorte quando tá escolhendo quem vai tocar? Tem um filtro assim, tipo: “Vou tocar só artistas tal”?

E: Sim, mas também não excluo ninguém. Se eu gostar da música e ela for boa, eu toco, independente de quem seja o artista. Mas isso não foi sempre assim. Quando eu era adolescente, eu escutava muito Camila Cabello, ela era minha cantora favorita na época. Eu ouvia muito pop, e não tenho problema nenhum com isso, mas não consumia tanto música brasileira, principalmente rap, ou qualquer coisa daqui. Isso foi um problema que depois eu comecei a perceber. Eu tinha o cabelo crespo quando era pequena, mas depois comecei a alisar. E tudo isso entra na questão do cabelo. Eu sofria muito bullying na escola por causa disso. Eu fazia trança, mas chegou um momento que não dava mais, então comecei a relaxar o cabelo para ele ficar mais baixinho. Quando meus pais não tinham mais dinheiro para ir ao salão, eu comecei a alisar. Meu cabelo quebrou, ficou mais curto, mas ainda assim continuei sofrendo bullying. Aquela coisa toda de “a mais feia da sala”.

Lembro de uma vez com um colega e uma amiga minha, que era loira. Ele falou: “A xxx a gente trata assim”, e fez carinho na cabeça dela. Depois ele falou: “E com a Luiza a gente faz assim” (Luiza é o nome de batismo da DJ Elle P), e bagunçou meu cabelo de uma forma bem violenta. Aquilo foi uma marca, e não é algo que eu levo como verdade, mas é algo que eu nunca vou esquecer. É como muitas pessoas brancas agem. Depois disso, comecei a voltar a cuidar do meu cabelo crespo. Isso aconteceu meio que sem querer, porque meu secador estragou e, no dia de ir para a escola, eu não podia alisar. Então fui com o cabelo crespo de qualquer jeito e gostei. A partir daí, comecei a pesquisar sobre cuidados com cabelo crespo, e foi naquela época que rolou o boom dos cachos, com muitos produtos e tal. Antes, os produtos eram caros e não tinha tanta variedade, mas depois ficou mais acessível.

Eu comecei a me entender melhor. Nas pesquisas, comecei a ver os vídeos da Nátaly Neri[25], e conhecendo outras meninas f*das. Comecei a entender sobre pele, cor, e até a escrever mais. Sempre escrevi desde pequena, fazia textinhos para a família, coisas mais amorosas, ou até coisas políticas no colégio. Depois, comecei a escrever minhas próprias letras de músicas. Tudo isso teve a ver com o cabelo, foi um processo de autodescoberta.

foto: frestas sonoras x @larissalima.ph

Comecei a ouvir Racionais… minha mãe não era muito do rap. Ela gostava mais de samba, pagode, pop e R&B, e eu ouvia muito isso com ela, além de MPB. Meu pai também gostava mais de samba, então o rap foi algo que eu fui descobrindo por conta própria, com os amigos, nos rolês. Foi assim que comecei a me educar e buscar minhas referências pretas. No começo, o que eu ouvia no Spotify era muita música de artistas brancos, e eu ainda gosto de muitas dessas pessoas, mas hoje é automático. Não fico pensando “Ah, vou escutar só isso aqui, escutar essa pessoa porque ela é preta.” Não, mas a maioria das músicas que escuto têm a ver comigo, e sim, tem artistas brancos também, mas a grande maioria é de artistas que tem a ver comigo.

L: Esses artistas vieram muito pela identificação também, né?

E: Sim, pela identificação. Que nem minha irmã, ela tem 14 anos agora. Antes, ela só ficava ouvindo K-pop. Tipo, é de boa, é outra cultura que eu não sou tão fã, mas tem várias coisas que ela me apresentou e que eu gostei. Mas eu também falava para ela: “Ah, tu tem que ter mais referência brasileira”. Não gosto dessa coisa que os adolescentes têm de “Ai, eu não gosto de música brasileira”. Não, eu sempre gostei de exaltar a música brasileira, sim.

Daí assim como fui me educando, tento trazer isso para ela também, de ouvir mais rap. Daí, do nada, ela começou a ouvir o Veigh, que eu amo, e foi ouvindo os rappers homens também. Quando eu comecei a escutar rap, só escutava os homens também.

Agora, já não está mais na época da Karol Conká…

L: Agora é mais Júlia Costa, Tasha e Tracie, Duquesa, MC Luanna…

E: Exato! Eu falei para ela: “Tu tem que conhecer Duquesa, Tasha e Tracie”. Aí, ela apareceu cantando “Desce Licor”. Eu também boto alto em casa para ela ouvir, porque agora tô mais de boa. Ela continua ouvindo muito K-pop, mas também consome bastante rap daqui. Ainda acho que ela escuta muito os rappers homens, mas é um processo, né?

L: Na comunicação a gente estuda como o algoritmo também condiciona o que está em alta na internet, sempre é mais branco, externo, masculino… daí você vai pesquisando, chegando no masculino daqui… E para chegar até o “ouro”, vamos dizer assim, você tem que cavar muito. Eu também comecei assim, quando era mais nova. Ouvi muita coisa estrangeira, tentei entrar na vibe do rock, que era o que estava em alta na época. Minha irmã mais velha começou a me apresentar MPB, tipo: “Ah, ouve Djavan, ouve tal e tal”. Aí, fui me interessando, mas para desenvolver minha própria identidade foi uma caminhada, passei pela situação de ouvir funk “escondido” também…

 

(Conversa interrompida por interferência externa)

 

“Obrigada por me ouvirem, e agora a velha Sojourner[26] não tem mais nada a dizer.”

 

Referências bibliográficas:

CASANOVA, Janaína Oldani. Eu tava lá: experiências estético-políticas a partir da performance de mulheres no rap de Salvador.

CONTER, Marcelo B. et al. Band in a Girl: devir-mulher nas timbragens do rock independente brasileiro.

MAZER, Dulce; GELAIN, Gabriela; GUERRA, Paula. Eu sou MC: participação coletiva e plural de mulheres em cenas musicais RAP.

PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade.

SILVEIRA, Fabrício. Rupturas instáveis: entrar e sair da música pop.

Participação feminina ainda é desigual no mercado musical. Disponível em: link.

“Mulheres na música”: Ecad lança novo relatório sobre participação feminina na indústria musical. Disponível em: link.

A desigualdade de gênero no setor audiovisual do Brasil. Disponível em: link.

Ancine diz que nenhuma mulher negra produziu ou dirigiu filmes nacionais em 2016. Disponível em: link.

Políticas para diversidade de raça e gênero no cinema brasileiro. Disponível em: link.

Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual. Disponível em: link.

DJs brasileiras e suas histórias: a busca pelo respeito, igualdade e valorização. Disponível em: link.

Notas:

[1] Apresentação de Elle P em post no instagram: “Com uma forte presença na cena artística local desde 2020, e pouco mais de um ano na discotecagem, a artista vem se destacando com suas apresentações que exaltam a cultura negra, brasileira e LGBTQIAPN+. Trazendo o futuro, a ancestralidade e o pertencimento para o território de pista; com foco em vozes femininas e periféricas. Fazendo jus ao alter ego de Miss Versátil, em seus sets mistura sonoridades afrodiaspóricas/ urbanas/ eletrônicas. Como: Amapiano, Afrobeats, Afro House, Chill Baile, Dnb, Garage, House, Pagode, Pagodão Baiano, Funk e Rap.’ Conheça a DJ Elle P aqui.

[2] Fruto das estruturas sociais baseadas na misoginia, as mulheres que operam máquinas ainda são minoria na indústria fonográfica e audiovisual brasileira. Saiba mais em: Participação feminina ainda é desigual no mercado musical, relatório “O que o Brasil Ouve – Edição Mulheres na Música”, divulgado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad); Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual, publicado pela ANCINE e disponível no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA.

[3] El Aguante bar “Popular e democrático. É assim que o empreendedor Roberto Schroeder define o El Aguante, espaço que abriu com sua companheira, Mariana Vasconcelos, no bairro Rio Branco, inspirado em espaços tradicionais brasileiros, uruguaios e argentinos.” Matéria completa no link.

[4] DJ Jorginho residente do baile da Tuka, milita pela causa do funk há pelo menos 10 anos. Conheça- o pelo link.

[5] Faylon, é DJ e importante residente no Coletivo Turmalina.

[6] “Chisme busca reimaginar a figura do gaúcho, trazendo o olhar para sua presença na história do Sul da América, que é tão significativa para a identificação do que é ser gaudério. Somos a celebração do gaúcho moderno, conectados entre passado, presente e futuro.” Info retirada do site do Festival.

[7] Atlanta é uma casa noturna/bar em Porto Alegre que se inspira no Hip Hop e na essência da cidade de Atlanta/EUA, conhecida por sua ligação com movimentos culturais e anti racistas.

[8] “O Pito é um bar que luta pelo direito ao lazer e à cultura de todas, todes e todos.” Frase retirada de um post no instagram do bar.

[9] Natura Musical é a plataforma cultural da marca Natura, que há 19 anos valoriza a música como um veículo de bem estar e conexão, ao fomentar trabalhos de grandes nomes da música brasileira, novos artistas e festivais independentes. Info retirada do site da marca.

[10] Feijoada Turmalina foi um período de imersão criativa com os integrantes do coletivo Turmalina que compartilharam seus conhecimentos de produção multimídia, mixagem DJ e estratégias de comunicação para artistas da periferia de Porto Alegre e região metropolitana. Acesse o post. 

[11] Suelen Mesmo é DJ e co- fundadora do Coletivo Turmalina natural de Porto Alegre. Conheça a DJ aqui.

[12] O Coletivo Turmalina busca transformar o cenário local, aumentando a visibilidade e busca dar visibilidade para os talentos de artistas pretas/es/os, dissidentes e periféricos. Através da pesquisa e produção de música, mantém o questionamento da presença e a importância das corporeidades no cenário de festas e coletivos de Porto Alegre. 

[13] Conheça a DJ Ray aqui.

[14] “Compositora e rapper Júlia Costa, nascida em Mogi das Cruzes- SP ,deixa como marca em sua música a autenticidade e força da mulher brasileira negra.” Descrição do seu perfil no Spotify. Conheça AJuliaCosta aqui.

[15] Acesse o perfil de Elle P no Spotify aqui.

[16] Negra Li, é uma cantora, rapper, compositora e atriz brasileira. Formada em música pelo coral da Universidade de São Paulo, é considerada o principal nome feminino do rap nacional. Conheça- a  aqui.

[17] Mano Brown, é um rapper, compositor, empresário e apresentador brasileiro. Ele é um dos integrantes dos Racionais MC’s, grupo de rap formado na capital paulista em 1988 e integrado por Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. Conheça- o aqui.

[18] Antônia é um filme brasileiro de 2006 dirigido por Tata Amaral, e estrelado por Negra Li, Leilah Moreno, Quelynah e Cindy Mendes. Filmado em São Paulo de 22 de fevereiro a 4 de abril de 2005, entrou em cartaz em 9 de fevereiro de 2007 e narra a história de quatro amigas que enfrentam um cotidiano de violência, pobreza e machismo para realizar o sonho de viver do rap.

 [19] ELLE P – Jordan Yuz 23 

[20] Coletivo Arruaça: festa de rua eletrônica. Popular e consolidada para quem curte o gênero. Conheça- os no link.

[21] Baile da Tuka: Baile funk mais popular da cidade. Atualmente, sem previsão de atividade. Veja como era no link.

[22] Ouça “Progresso, Paz e Baile” de Elle P no link.

[23] Confira a capa de “Progresso, Paz e Baile” no link.

[24] A Savannah nasceu da necessidade de criar um espaço para os africanos que vieram ao Brasil para estudar, trabalhar ou buscar novas oportunidades. Durante suas jornadas por aqui, eles sentiam falta de um lugar onde pudessem vivenciar e celebrar a musicalidade, a cultura e a energia vibrante de seus países de origem. Acesse o link para conhecer.

[25] Nátaly Neri é cientista social e reconhecida criadora digital, por sua abordagem inovadora ao discutir a beleza além da visão estética dominante. Conheça- a aqui

[26] O discurso “E Não Sou Eu Uma Mulher?” foi proferido por Sojourner Truth, uma ativista abolicionista e feminista, em 1851, durante a Convenção dos Direitos das Mulheres, em Akron, Ohio. Ele é um marco na luta pelos direitos das mulheres, especialmente das mulheres negras. 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

tocando música e fazendo arte no meio do rolê

Make Fabico Weird Again #1

por Gabriel Ortega

“Acho que o Bruninho pode ser definido quase como um vereadorzinho. Ele cumprimenta todo mundo e diz o nome da pessoa, pergunta como tá, o que tá fazendo e ainda sobre a família dela. Não sei se eu já conheci outra pessoa assim, tão carismática, sei lá… Teve até uma vez que eu tava malzão voltando da aula, encontrei ele e parecia que meu dia tinha melhorado depois disso (risos) ”

relato de alguém que tava nesse rolê

Sou amigo do Bruno desde os quatorze anos. Não me lembro qual foi o momento em que a nossa amizade se consolidou, mas sempre me pareceu muito forte, mesmo com a distância e o silêncio. Nosso contato é basicamente o Instagram: vemos o que cada um tá fazendo da vida e foi assim que eu descobri que ele tinha feito um curso de DJ de um coletivo, que ele tava trabalhando como DJ em festas de diretórios acadêmicos da UFRGS, em festas grandes de Porto Alegre, como a TTT e a Turmalina, e em rolês na cidade baixa com pessoas conhecendo ele a partir do trabalho dele e de seu vulgo: DJ Bruninho Mec. É sempre muito engraçado se deparar com alguma divulgação de festa e ver ele lá – alguém que eu conheço desde adolescente, que já me deu vários conselhos amorosos.

Pedi pra acompanhar um set dele e fazer uma entrevista. Seria a primeira vez, desde a pandemia, que a gente ia conseguir parar pra conversar, mas seria pra um trabalho da faculdade. Conseguimos marcar pra ser na última festa do ano do coletivo youngnewrichs, a ynr boil.

Eu não conhecia o endereço, mas o post dizia que era na José do Patrocínio, 824.  É quase colado no Opinião, mas é um lugar bem escondido e isolado entre os bares e a casa de show; quase não tem nada que te chama atenção e te convida pra entrar. No “W Haus Pub”, a entrada é toda de madeira, tem um piano vertical do lado de uma mesa de drinks/bar com uma parede de fundo cheia de vodkas e whiskys caros, algumas mesas bem simples e um outro espaço que fica mais perto da rua, com uma janela imensa.

Quando cheguei tava tendo uma celebração de fim de ano de uma empresa e um amigo secreto. Não quero que pareça que eu tô julgando essas pessoas, mas elas não pareciam o tipo de público de uma festa boiler, que ia tocar músicas de rap, funk e drill. Essas festas são em lugares fechados, com um dj no meio e a maior quantidade de gente possível se curtindo e suando. O lugar também não parecia com os outros ambientes de boiler que eu vi na internet, mas não ajudava que as pessoas na festa da firma estavam cantando as mais conhecidas do sertanejo, todo mundo extremamente bem-vestido e com drinks coloridos. 

Meu trabalho de apuração poderia ter sido meio fraco: talvez, aquela confraternização do fim de ano de alguma empresa tinha alguma ligação com a ynr boil. A minha ideia de um público médio desse tipo de festa era de jovens fritos vestindo roupas que misturavam algo dos anos noventa com o conceitos de y2k, mas, talvez, eu só não soubesse que o público do sertanejo também estava engajado com as boiler rooms[1].

 

Eu me senti meio intruso naquela festa de firma. As pessoas estavam num momento muito vulnerável de felicidade, compartilhando as memórias do ano enquanto bebiam e eu tentava achar um lugar para esperar sem chamar atenção. Acabei esperando na sala que tinha a janelona pra José do Patrocínio e agi como uma criança que foi em uma festa dos pais porque eles não conseguiram alguém pra cuidar dela: sentei na poltrona mais afastada e fiquei mexendo no meu celular. 

Começaram a juntar em uma foto em grupo. A sala que eu estava era muito esteticamente agradável e espaçosa. tentei sair de lá pra que o rolê fosse eternizado ali, um lugar mais arrumado que a parte que eles ocupavam, que as mesas com os copos meio vazios de bebidas extremamente doces para mascarar o álcool e as embalagens dos presentes todas amassadas, enrugadas e espalhadas pelo chão, estragando a ambiência do lugar e a foto (sem contar o perigo dos que estavam mais bêbados, que eles poderiam derrubar alguma coisa ao tentar posar pra foto). Eu consegui sair da sala bonita, mas ninguém deu bola. Comprei uma coca-cola no bar e voltei pra lá.

   

Eu já tinha conferido umas mil vezes se eu tava no endereço certo. mesmo que eu soubesse que o post do evento dizia que ia ser na José do Patrocínio, número 824, eu considerei que eu só não sabia que eles tinham mudado de lugar. Já tava quase saindo e mandando mensagem pro Bruno dizendo que eu tive alguma emergência e que não ia colar no rolê.

Felizmente, eu parei na janela e vi um carro prata parado. Dele, tava saindo o Bruno. ele tava bem estiloso, tinha um pente no cabelo, tava usando um jorts preto (uma bermuda mais larga que passa do joelho que voltou a ser moda e eu nunca consegui usar uma sem parecer que não superei a morte do Chorão), uma camisa branca, gravata preta e um casaco meio bege. Não me lembrava de alguma vez que eu me senti tão aliviado de ver ele.

 

Sobre trabalhar, beber e ir na CB

 

Gabriel:  Como tu vê essa função de estar trabalhando no meio de um rolê?

DJ Bruninho Mec: No início, era uma brisa para mim, porque eu me permitia demais, tá ligado? Eu tocava num bar e, na hora do acordo, eu falei que fazia só por umas caipirinhas, mas o dono me falou que tinha que ter um preço. 

Falei meu preço que eu achava que era um valor justo pra quem tava começando, mas eu não tinha noção nenhuma. Pedi trezentos pila pra ele, ele riu e disse “Bah, não! Nem os DJs que já tocam aqui cobram isso”. 

Daí eu fiquei todo com medo. “Não, não, não… diz aí o preço de vocês e tals”. Acabou que ficou por 50 pila e bebida liberada, mas eu tava vivendo o sonho. Tava tocando música, fazendo arte e ainda tava num rolê que eu gosto, com pessoas que eu gosto… não tinha como eu não me permitir.

Às vezes, eu tava tocando e me ligava que eu tava muito louco, que tinha que dar uma segurada e beber uma aguinha, um refrizinho… Daí eu comecei a pensar que eu ainda posso curtir o rolê, mas eu tenho que ter responsabilidade porque eu ainda tô trabalhando. Comecei a beber menos. Comecei a chegar menos no brilho, sem ir muito pilhado. 

Eu conseguia chegar sem esse brilho e era tão gostoso quanto, porque daí eu pensava que eu ia fazer a minha mágica lá. Não é como se eu não fizesse assim antes, mas é que atrapalha. Se tu for trabalhar chapado no banco, se tu for dar uma aula bêbado, isso vai te atrapalhar.

DJ Bruninho Mec fazendo seu set no W Haus Pub, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 

Gabriel: Mas tu acaba comparando o que tu faz com esses trabalhos?

DJ Brunin Mec: Não, definitivamente não. Lá no Nando[1] eram seis horas tocando. Acabava que era bem maçante e não era totalmente ruim, eu só precisava ter o controle de saber quando eu podia me permitir. No final, eu não ia mais precisar ficar focando tanto porque, mesmo sendo um trampo num rolê, eu tô criando uma vibe, um clima. Eu tenho um propósito ali. Não tô só colocando músicas. Eu tô fazendo uma construção de uma sonoridade que eu quero que as pessoas ouçam.

Tipo, se eu colocar uma música muito misógina e escrota, algumas pessoas vão ficar desconfortáveis, mas se eu botar alguma coisa que o pessoal gosta de ouvir, vai criar um clima. Quando eu não chego muito pilhado, eu consigo construir isso de uma forma melhor. Consigo pensar além do clima e trabalhar com uma intenção maior com algo que eu quero fazer.

Às vezes, era tudo muito automático, e, quando eu tô mais sóbrio, eu consigo pensar melhor no filtro que eu quero colocar, no loop que eu vou fazer… É muito mais mágico!

Mas, eu também gosto de chegar meio alteradinho. Quando eu vou tocar no meio do rolê, eu gosto de acompanhar o set dos outros, ir lá e tomar uma cevinha, porque isso me faz entrar no clima. Eu tava falando ontem com um DJ, sobre como é foda entrar pra tocar, pegar a essência do último DJ (a vibe que ele tava construindo, o tipo de música), continuar o que ele tava fazendo e puxar pro que eu quero fazer. Quando eu tô curtindo, no rolê, isso fica muito mais fácil porque eu tô ali com a vibe do cara.

Gabriel: Parece que tu tem um “processo analítico” dos outros DJs, de ver o que eles tão cozinhando lá. Mas isso é algo de agora que tu é DJ ou já era algo que tu prestava atenção quando tu só fazia parte do público?

DJ Bruninho Mec: Antes eu tava só no rolê, mas eu acho que eu sempre analisei porque eu sempre gostei de o que é ser DJ. Quando começaram a aparecer DJs com mais personalidades, que faziam coisas mais diferentes, me brilhava muito.

A primeira vez que eu fui num set que mexeu muito comigo foi numa turmalina, na rua. As músicas que eu me identifiquei foi do deekaps, uma dupla de pessoas negras que fazem um som muito foda. Quando eu vi eles, eu entendi que é isso que eu quero ouvir mais, mas nem pensava em fazer ainda. Comecei a ir nos rolês e ver se faziam algo parecido com eles e querendo entender pra onde que o DJ ia me levar, tá ligado?


Pra mim, DJ é isso: é entrar numa conexão com a pista, falar assim “quero que vocês ouçam isso”, ver como eles respondem a isso… Podem ficar mais paradinhos, mas tão gostando? Porque tem as músicas ambientes, pra te fazer dançar…

Gabriel: Como se o set não precisasse estar no alto o tempo todo…

DJ Bruninho Mec: Definitivamente não, mas isso é algo que eu aprendi mais ainda com o mu540, porque, às vezes, ele tá num bom muito alto, com muitos estímulos e, às vezes, ele vai entrando numa vibe mais de boa, só pra mudar a dinâmica. 

Acho que não precisa ter a continuidade de algo lá em cima o tempo todo… às vezes, faz sentido ficar o tempo todo assim, mas não é uma regra.  Tem muito disso em ser DJj: não se apegar a regras. Quando tu faz o teu set bem, é muito mais mágico do que tu ficar pensando se tu tem que começar devagarinho, chegar num ápice. Eu acho muito mais legal tu começar devagarzinho e, do nada, já descaralhar…

Gabriel: Tipo, brincar com uma “estrutura”?

DJ Bruninho Mec: Literal! Brincar com a estrutura. Eu falo pro pessoal ao meu redor que a minha vida é sobre brincar, sobre experimentar com as coisas. Não me prender a certos julgamentos, mas me autocriticando e querendo evoluir, sei lá…

…

O set do Bruninho era o último da noite e ele tinha me avisado que, provavelmente, ia começar perto das duas da manhã e que, mesmo com o set montado, não sabia quanto tempo ia durar, mas que tudo ia acabar perto das quatro. A festa teve alguns problemas de organização, desde DJ cancelando em cima da hora até uma chuva que, de acordo com uma das pessoas que tava organizando o evento, “despilhou a gurizada a vir”.

As pessoas foram chegando pro rolê e eu conhecia algumas. Uma, em específico, parecia que tinha visto um fantasma, quando me viu. Me perguntou o que eu tava fazendo lá e, quando eu respondi que tava entrevistando o Bruninho pra um trabalho da faculdade, foi engraçado que a resposta imediata foi um “faz sentido…”, como se não fosse natural que o motivo de eu estar numa boiler fosse pra fazer algo relacionado a faculdade. “Mas que bom te ver aqui! Não sabia que tu conhecia o Bruninho”.

O plano era o seguinte: entrevistar o Bruno e acompanhar um set dele. Eu tava preparado pra que a conversa não fosse muito organizada, que tivesse interrupções de amigues dele, que o barulho poderia atrapalhar alguma coisa, mas que, por conta dessas intervenções, eu teria algum tipo de informação a mais. Eu sei que o Bruno é muito querido e que teríamos que parar pra ele falar com o pessoal que tava chegando, também.

Acabou que sentamos nós dois e outros dois DJs que tavam lá.

Sobre o set, mesa controladora e material digital

Gabriel: Como tu se relaciona com os teus materiais físicos e digitais na hora de tocar? Tu vê eles como um instrumento? Como uma extensão de ti, sei lá se isso faz sentido…

DJ Bruninho Mec: Quando eu falei sobre brincar com as estruturas, é exatamente isso: olhar pra minha controladora e… é tipo desenhar, quando tu olha pra uma folha em branco e pensa nas inúmeras possibilidades que pode botar ali. 

Quando eu olho pra mesa, é tipo isso. Eu vejo a música rodando e penso o que eu posso fazer. A minha (mesa controladora) é mesmo um brinquedo comparado com outras muito maiores, que tem muito mais coisas que pode fazer. 


Daí eu vejo e tento pensar no que eu, com a minha vivência, com a forma que eu gosto de tocar – porque todo DJ vai usar ele de formas diferentes -, com tudo que eu acho que seria daora de botar lá, de efeitos e tals… O que que eu posso fazer com tudo isso, tá ligado? Isso tudo vendo a folha em branco, ainda. Acho que é assim que eu vejo a minha mesa.

Gabriel: Antes da gente conversar, eu vi que tu tava falando com alguém sobre a forma que tu guarda as músicas e que tinha algum problema com a tua forma… Qual que é esse teto?

DJ Bruninho Mec: Isso tá sendo um problema agora porque eu me liguei que eu tenho muitas pastas…

Martins[3]: E tu não organiza aquela porra! Posso falar na entrevista, né? Ele não organiza as músicas dele. É um caos. As pastas dele não fazem sentido.

DJ Bruninho Mec: Pô, elas fazem sentido pra mim…

Lara[4]: Vou fazer um contraponto! Acho que, às vezes, se tu tenta entrar na mente do Bruninho Mec, tu não entende porque ele divide as pastas daquele jeito. Se tu tocar com o pendrive dele, tu tem que fazer um esforço.

Gabriel: Tá, então existe o teu pendrive?

DJ Bruninho Mec: Não, mas eu tenho um HD externo… Mas eu vou comprar um pendrive daqui a pouco.

Martins: Tem que comprar o pendrive, viado, mó barato o negócio.

DJ Bruninho Mec: Sim, eu tenho que comprar o negócio urgentemente. O cara tem que lembrar que ele tem que investir nele, tá ligado?

Gabriel: Como funciona esse aprimoramento pra um DJ?

DJ Bruninho Mec: Comprar um fone, um Pendrive, uma controladora… Acho que uma coisa que um DJ sempre almeja é evoluir o seu equipamento. O fone com a melhor acústica, a controladora mais foda e que faça mais sentido pra ele. 

Tem umas mesas que são umas máquinas, tá ligado? Que tu pode levar só elas e o Pendrive. Elas são mega gigantes e tem um computadorzinho dentro… 

Ahhhh agora sim chegou a gurizada boa…

(além do pessoal que tava sentado com a gente numa área aberta que servia como fumódromo, as pessoas iam direto pra lá pra encontrar o Bruninho Mec)

Gabriel: Como que funciona o teu relacionamento com as músicas que tu vai colocar, que tu queria colocar, mas acha que não funciona,…

DJ Bruninho Mec: Acho que é algo que tá junto com aquela pergunta se eu comecei a analisar os DJs desde cedo. Quando eu tava no rolê e comecei a entender o que eu gostaria que o DJ me entregasse com essa experiência, eu também comecei a pensar no público e ver a reação das pessoas, porque eu também era público.

Pra mim, seleção de música, baixar, pesquisar e tals é sempre em volta de se eu gosto dela, se as pessoas também gostam ou se é só eu mesmo. Tem muita música que eu baixo porque eu sei que, em algum momento, eu vou me sentir confortável em colocar, mas tem muitas outras que eu baixo pensando que vai criar um troço gostoso pra quem ouvir.

Gabriel: Tu sabe quanto tu tem no teu HD?

DJ Bruninho Mec: Ba, viado, nem sei… Eu tirei as músicas do meu PC e ele tem 100 GB. Depois que eu tirei, ele ficou com uns 46 GB… Acho que uns 30 GB de música… Ba, não sei na real, acho que é 30 mesmo. Não sei se fez sentido essa matemática. 

Tem muita coisa repetida e é por isso que eu tenho preguiça de arrumar elas. Mas voltando pra falar delas em si, depende muito tanto do meu gosto quanto do público. Eu sou uma pessoa que me adapto muito a essa relação, também.

Gabriel: Mas tu vê o que o pessoal curte fora do rolê?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de ver música que as pessoas colocam nos stories, tá ligado? Eu salvo muito elas, porque eu penso que, se essa pessoa que curte esse tipo de rolê tá escutando isso, outras pessoas também devem.

Eu pego a música dos stories, vejo ela no Spotify, coloco a rádio dela e daí eu vou pegando músicas relacionadas. Eu gosto que as pessoas ouçam o que elas gostam de ouvir normalmente.

Gabriel: Quando tu tá escutando uma música, tu já pensa em como tu vai trabalhar com ela/nela?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de tocar a “Machuquei, Machuquei a Xt da Paty” e eu penso assim, tá: eu quero botar essa música em cima de outra ou eu quero que ela comece só ela, tá ligado? 

Se eu quero que comece só ela, eu penso se eu quero brincar com uns efeitos nela ou eu quero brincar com uma batida, com uma voz nela. O que eu quero trazer pra ela, nesse momento? O que vai ser mais daora nesse rolê?


Porque pode ser uma batidinha mais lenta pra encaixar com o clima do rolê, ou algo mais rápido, ou pode ser uma voz pra daí já ir pra outra música… Vai muito do que eu tô sentindo pra esse momento, tá ligado?

Gabriel: Eu piro muito nas transições entre as músicas. Tu vê algo de especial nelas?

DJ Bruninho Mec: Pra caralho! É arte. É um dos ambientes mais criativos e, é graças a exercer essa função de DJ, que eu consegui entender que eu posso ser mais livre nas outras coisas que eu faço. Na dança, eu tinha muitas amarras, e depois que eu comecei a tocar e ver que eu consigo trabalhar de diversas formas com arte, eu entendi as várias possibilidades que eu podia fazer em outras áreas. 

Acabei me sentindo muito mais livre dançando, desenhando, ensinando, pintando, fazendo arte. No quesito DJ, a minha criatividade vai conforme as minhas músicas. Eu tenho tantas músicas guardadas acho que pra ficar pensando nas possibilidades que eu posso fazer.

Gabriel: Tem alguma combinação mais estranha que tu fez?

DJ Bruninho Mec: Eu sou o cara das combinações estranhas, tá ligado? Hoje eu fiz uma de “Picada Fatal” com “Pyramids”, do Frank Ocean… E ficou horrível. Eu fiz isso muito na várzea, só tava pensando o que ia acontecer se eu colocasse aquilo ali.
“Pyramids” é em 108 bpm e a outra era 130. Daí eu tive que abaixar muito da do Livinho e a voz dele ficou tri estranha e arrastada.

Gabriel: Mas tu tentou aumentar o bpm de “Pyramids”?

DJ Bruninho Mec: Ba! Não fiz…. Sim, podia funcionar afu com a batidinha do funk… Tu vai remixar umas músicas pra mim, tá?

Gabriel: Me chama que eu aceito, hein…

…

O DJ Martins começou a tocar era meia noite. Eu tava conversando com o bruninho ainda, mas ele convidou pra ver o set e foi chamando o resto do pessoal que tava no fumódromo pra ir pra pista.

Eu cheguei numa hora que tava tocando “o fortuna” de Carl Orff. isso me pegou muito de surpresa. eu tinha falado com o bruninho de junções estranhas, mas não achava que os sets funcionam juntando desde música clássica até drill. Fiquei mais afastado do pessoal que estava no meio do salão e tentei prestar atenção mais no trabalho do DJ.

Tem memes que zoam as caretas que os DJs fazem quando eles tão remixando na hora e é sempre algo que parece só uma caricatura mesmo, mas parecia muito que ele tava extremamente focado na controladora como um cirurgião que presta atenção ao cortar algum tecido do paciente. Nessa hora, a pista tinha muitas pessoas, mas nenhuma estava dançando. Todos conversando entre si, usando o celular, tirando fotos. Até que uma batida de boom bap surge na música tomando todo o volume e ficando cada vez mais distorcida e rápida, se transformando no ritmo de um funk e a letra iniciando mais baixo. As pessoas começam a dançar na batida e cantar a música enquanto o DJ olhava pro ao redor buscando aprovação e se sentindo tão aliviado como nunca.

Eu, infelizmente, não me lembro qual era. Eu não me lembro de quase nada que tocou, mas não no sentido de não ter sido marcante, mas porque eu só não sou familiar a elas mesmo. Não acho que é meu lugar de validar o set do cara ou não, mas eu não me lembrava a última vez que eu tinha visto tantas pessoas num espaço tão pequeno sintonizados e em transe com a música.

Eu gosto muito de Talking Heads e eu admiro muito o vocalista da banda, o David Byrne. As primeiras coisas que eu vi dele foram com ele mais velho e já grisalho, quando ele estava falando sobre a sua performance no palco e citou o fato que é autista e que tinha recebido o diagnóstico recentemente. Ele falava que suas danças mais “truncadas”, repetitivas e robóticas são a forma que ele tem de se comunicar com o mundo e que ele não tem vergonha delas.

Eu sinto a mesma coisa. Também sou neurodivergente, nunca consegui dançar muito e vi nas suas performances alguém se expressando de uma forma muito sincera. Desde então, as poucas vezes que eu me permiti dançar (ou até só me movendo mesmo), eu notei um pouco de uma beleza.

Nessa festa, eu via as pessoas se movimentando e dançando com uma naturalidade e vontade de vida que me lembraram muito esse momento que eu me deparei com as danças do Byrne. Eu não me senti a vontade de dançar lá, mas noto como o trabalho do performer (no caso, o DJ) influencia os movimentos do público, também, quando ele seleciona e trabalha em cima de músicas que são significativas pras pessoas que estão lá. Mesmo que eu quisesse prestar mais atenção no trabalho do DJ, as pessoas dançando e se curtindo chamava muita mais atenção e talvez pudesse ser considerada como um “produto” do trabalho dele.

Sobre a cena e a comunidade

Gabriel: Eu não sou muito ligado no “mundo” DJ. Queria fazer perguntas que dessem conta do que seria essa “comunidade” de pessoas que tocam em Porto Alegre. Mas acho que a pergunta mais tosca e geral pode funcionar: existe e como é a cena de DJ’s?

DJ Bruninho Mec: Eu acho que a cena de DJs existe sim, definitivamente. Como qualquer outra cena, né? A partir do momento que várias pessoas exercem a mesma função e fomentando uma cultura, de maneiras diferentes, mas do mesmo lugar, acho que existe uma cena. Definitivamente existe uma cena de DJs por conta disso.

Não sei muito dizer como ela é. Acho que ela tem as suas panelinhas, pré-definições pra estar dentro, pra subir… Mas, ao mesmo tempo, eu vejo que ela não é tão presa assim, pelo menos, aqui no Sul, a essas coisas.


Acho que ainda dá muito pra crescer, fazer os seus rolês e tocar nos lugares sem se envolver com panelinhas. Tem muitas pessoas diferentes na cena de DJs e, aqui no Sul, existem muitas pessoas que vão te acolher – eu tô falando da minha experiência, não sei pro resto direito. 


Muitas pessoas me acolheram, queriam ouvir o que eu tinha pra mostrar e trocaram comigo. Acho isso muito importante pra qualquer pessoa que seja nova e pras pessoas que são mais velhas se sentirem confortáveis nessa comunidade, nesse trabalho e nessa arte. Acaba que fomentar isso da melhor maneira é o mais importante pra mim.

Gabriel: Como seria?

DJ Bruninho Mec: Colando nos rolês que tu consegue ir, falando o que tu acha dos sets, elogiando e trocando. Acho que os melhores momentos que eu tive nessa comunidade foram os momentos que eu pude sentar com outros DJs e conversar sobre o que é ser DJ. Não só no sentido de trabalho, mas de expressão, pesquisa, formas de tocar… tudo que permeia o ser DJ.

…

Todo mundo tava cansado e parecia que poderiam dormir a qualquer momento. Eu também tava, mas ainda queria ver qual era a mágica do Bruninho. As conversas entre as entrevistas já não estavam fluindo muito e mais pessoas iam embora de lá.
Quando ele foi chamado pra tocar, já tinha passado das duas horas. Eu tinha encontrado um grupo de pessoas e todos fomos ver ele montar a mesa e esperar o set dele. Ele conectou os cabos, pediu pra um funcionário um kit e deu play na primeira música.

Pensava em como ele ia brincar com o público e, dessa vez, foi de uma forma bem mais formal, sem muitas quebras de expectativa. Enquanto ele tocava, o DJ que arrumava suas coisas tentava guardar seu notebook, mas não conseguia se ajustar com o público dançando e indo pra perto do Bruninho.

Público no set do Bruninho, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 Algo que me chamou muita atenção foi quantos dos seus amigos que tinham participado (in)voluntariamente da entrevista não estavam só na pista, mas estavam perto do Bruninho dançando com ele, como se ele não fosse o DJ, mas só alguém que tava curtindo.

A cada transição de música, o Bruninho dava umas risadas e ficava prestando atenção nas pessoas. No meio do set, ele esbarrou em alguma coisa e acabou aumentando o grave da caixa de som. Foram tentar ajudar e ele falou “deixa assim, arruma daqui a pouco”. O “problema” técnico acabou sendo envolvido pelo Bruninho que aumentou ainda mais os seus graves enquanto o pessoal dançava.

Com o fim da música, ele finalmente arrumou o problema e seguiu como se não tivesse o “abalado”. Mais pessoas iam saindo e algumas voltavam pra sala pra dar tchau pro Bruninho e ele pedia pra responderem ele no Instagram.

Em um certo momento, o Bruninho colocou a música “TV Off”, do álbum mais novo do Kendrick Lamar. Não fazia duas semanas do lançamento do disco e essa música, em específico, tinha virado um hit com uma brincadeira do Kendrick que ele grita prolongadamente o nome do produtor dela: MUSTAAAAAAAAAAAARD.

No primeiro segundo dessa música, alguém grita “eu te amo Bruninho”. Mais pessoas se juntavam em volta dele e, quando o momento da brincadeira chegou, todos gritaram junto da música enquanto o Bruninho já criava a transição pra próxima música.

Toda essa curtição já tava era muito maior que qualquer uma que eu tinha visto lá. Eu não conseguia não estar envolvido com todo mundo dançando e curtindo a mágica do Bruninho. Mesmo que o set estivesse acabando, todo mundo que tava lá ainda estava muito animado, como se não fossem as mesmas pessoas que estavam quase dormindo poucos minutos antes. A energia não diminuiu e o fim do set foi coroado por salva de palmas pro coletivo que organizou a festa, pros DJs e pros trabalhadores do local. Um amigo do Bruninho cumprimentava os funcionários e, no fim, gritou “PELO FIM DA ESCALA 6X1”.

Porto Alegre não tem mais tanta relevância nacional pra chamar atenção pra uma comunidade de rock e gêneros adjacentes, mas acredito que toda essa comunidade de DJs e de música eletrônica como um todo tem todo o potencial pra remontar aqui um novo polo cultural. Eu dei tchau pro Bruninho e pensava nessas questões que eu não consegui perguntar, sobre o que ele espera do futuro pra ele e pra cena. Acabei não perguntando nada sobre os locais que DJs tocam e só falei de quão aleatório aquele lugar era pra uma boiler room. “É, mas acho que deu. Pelo menos, o kit era bom”.

notas:

[1] Ninguém lá sabia que ia ter uma festa boiler logo depois que eles saíssem. Eu demorei pra entender que aquele lugar funciona com aluguel pra eventos. O pessoal do sertanejo ainda não descobriu as boiler rooms, mas aguardo esse dia chegar.

[2] Bar que ele começou tocando.

[3] DJ e amigo do Bruninho que tocou antes dele na festa.

[4] DJ e amiga do  Bruninho.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Baile da Syon: Uma experiência musical e audiovisual em Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Brenda Trindade e Julia Caye

 

Syon Trio toca em espaço Multiverso Cais Embarcadero, em Porto Alegre.
Fonte: Post on Instagram

Eram seis horas da tarde de um sábado comum em Porto Alegre, e nós entrávamos no Multiverso Cais Embarcadero, localizado perto da Orla do Guaíba, um local conhecido por suas festas diurnas, chamadas de “sunset”, que buscam proporcionar como maior atração o pôr do sol. A atmosfera era única, muito diferente do que era costume ser presenciado naquele local, parecia um planetário ou algo do tipo. Era uma esfera escura, em que a única iluminação saía do chão, e havia projeções por todas as paredes, com bolas de discoteca e dizeres como “Baile da Syon”, “Syon”, entre outros. Definitivamente não pareciam ser apenas seis horas da tarde. Muito pelo contrário, parecia que estávamos em uma balada normal, e já era de madrugada – exclusivamente por causa da atmosfera.

Segundo a produção do trio, a proposta da festa era de nos proporcionar uma experiência audiovisual, missão cumprida logo que adentramos ao espaço. Junto com os dizeres projetados nas paredes, as luzes alternavam entre amarelo, vermelho, verde e azul, quase como em uma dança seguindo o ritmo da música. A música, atração principal da festa, foi iniciada com os DJ’s Léo Bueno e Zé, que misturaram remixes da própria Syon Trio, como uma espécie de preparação para o show a seguir, e grandes hits do funk e trap nacional.

O público no local era composto majoritariamente por estudantes universitários, entre 19 e 25 anos, de classe média alta. Lá eles formavam uma grande cena, entre pessoas que se juntam frequentemente, mas que naquela tarde estavam unidos para viver uma experiência visual diferente de outras festas em Porto Alegre, em conjunto com músicas que faziam já parte do seu cotidiano: músicas eletrônicas. Apesar de ser uma espécie de inauguração do local, era perceptível que os donos do empreendimento do Embarcadero estavam tentando tornar o espaço uma verdadeira cena, ou melhor, buscando atingir “aquele momento especial quando um florescimento criativo parece formar todo um novo centro social” (Byrne, 2012). No entanto, nos pareceu que os criadores do evento buscaram implementar esse momento forçadamente, para a camada elitizada da população, o que não acreditamos que vá funcionar, pois, comparado com o movimento acompanhado por Byrne, que se tornou seu foco de estudo, que acontecia de forma natural, e por isso se propagava, já que unia o público a artistas ainda pouco conhecidos, o Baile da Syon nos pareceu como uma “jogada de marketing”, forçando um pouco o movimento.

De qualquer forma, apesar de acreditarmos que o espaço não vá se tornar uma cena por não seguir as regras descritas por David Byrne, o evento foi muito bem aproveitado por todos os presentes com quem conversamos. Isadora Schramm, estudante de publicidade da UFRGS, contou que nunca tinha ido a um show de eletrônica, apenas conhecia o Syon Trio por suas músicas mais populares, que começaram a viralizar nas redes sociais em 2022, mas que estava no show exclusivamente para vê-los:

“Eu nunca gostei muito de música eletrônica, mas minhas amigas me chamaram para vir então pensei ‘por quê não né?’. Eu imaginei que seria completamente diferente, e que iria me sentir de fora. Mas, pra minha surpresa, a maioria das músicas que eles tocaram eu conhecia, e o pessoal agitou muito também. Eu sabia mais ou menos quem eles [Syon Trio] eram, mas assistir eles tocando ao vivo foi uma experiência completamente diferente. A energia do público e a performance deles me surpreenderam muito. Com certeza fiquei com vontade de ver eles de novo.”

Já a Camille Fossati, estudante de biomedicina da UFCSPA, nos contou que já estava acostumada a rolês com atrações do gênero eletrônica e que o “Baile da Syon” revolucionou esse tipo de festa:

“Quando vamos nessas festas, somos acostumadas com ambientes normais, de festas mesmo, com luzes e tudo mais. Vamos nessas festas só por causa das atrações, mas a Syon nos chamou atenção pela proposta completa, um lugar legal com música boa.”

 

Syon Trio é composta por três gaúchos.
Fonte: Post on Instagram

QUEM É SYON TRIO

A maioria dos jovens do Rio Grande do Sul já ouviram falar da Syon Trio. Naturais de Pelotas, cidade há 260 quilômetros de Porto Alegre, Henrique Moré, Gabriel Castilhos e Liruan Corteletti são três DJs que buscam unir a música eletrônica com os ritmos mais populares do Brasil – o funk e o trap.

A primeira vez que nós – duas estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no início dos nossos 20 anos – ouvimos falar sobre eles foi no primeiro semestre da universidade, quando começamos a frequentar a vida noturna da cidade e, consequentemente, a cena musical que a acompanha.

Entretanto, a Syon Trio é um pequeno mistério que buscamos desvendar – e esclarecer – ao longo deste texto. Primeiramente, apesar de ser composto por três pessoas, eles fazem parte de algo que atua quase como uma instituição, e que pode ser definido como uma espécie de banda, ou a figura de apenas um artista. Isso porque, apesar de colecionarem quase trinta mil seguidores no Instagram como um conjunto, individualmente apenas um deles utiliza a rede social, e mesmo assim não se expõe muito. Além disso, os três se apresentam para o público sempre como um trio, seja nos shows ou em entrevistas. Também é incrivelmente difícil de encontrar qualquer informação pessoal de qualquer um deles, ou de descobrir como era a vida deles antes de se tornarem “A Syon Trio”.

Ou seja, por mais que seja um dos grupos musicais em maior ascensão entre a camada jovem da população brasileira, eles se mantêm a uma certa distância do público. É como se, ao entrarem na persona da Syon Trio, eles deixassem de ser Henrique, Gabriel e Liruan, e se tornassem um só. Isso pode parecer um pouco óbvio, ou normal, mas vai totalmente contra o movimento que se desencadeou depois que a 30PRAUM, um dos maiores grupos de trap do Brasil atualmente, foi criado. Esse conjunto é formado por Matuê, Wiu e Teto, três jovens de Fortaleza que atuam de forma independente, mas que constantemente se unem para compor músicas juntos, darem entrevistas e participarem dos shows uns dos outros. Ou seja, apesar de também participarem de um trio, eles são independentes entre si, criando as suas próprias carreiras musicais sem depender dos outros.

Na contemporaneidade, especialmente em termos de grupos brasileiros e de estilos musicais populares, como o trap e o funk, isso é o que há de mais comum: artistas que, apesar de performar e criar diversas músicas juntos, possuem suas próprias identidades e histórias. Ao analisarmos a Syon Trio, percebemos que eles não vão de encontro com isso. Muito pelo contrário, parece que suas identidades se perdem ao incorporarem o grupo. Isso pode ser por muitos motivos, mas acreditamos que os principais sejam que eles não atraem o público em cima de suas imagens pessoais – no sentido de que se víssemos um deles na rua não saberíamos exatamente quem é – e que eles buscam atuar como uma espécie moderna de banda, trazendo um novo significado para esse conceito na cena musical moderna.

 

O SHOW DA SYON

O show da Syon Trio, o momento mais esperado da noite por nós e um pouco mais de 400 pessoas presentes na festa, foi um verdadeiro espetáculo audiovisual. O trio caprichou na entrada, com um grande jogo de luzes e efeitos especiais. Os gaúchos adentraram a festa enchendo o ambiente com som e alegria. O público a nossa volta vibrava, ansiosos para o show a seguir.

Com grandes hits, como “Gimme Gimme / Baile do Cinga” do próprio trio, o lugar foi invadido por uma euforia contagiante. Desde Justin Bieber até Bonde do Tigrão, os dj’s conseguiram montar sets que traziam um misto de nostalgia e felicidade no público, dupla essencial para uma boa festa. As viradas, de um som para o outro, eram feitas com perfeição, quase não deixando a plateia descansar entre uma música e outra.
Nos arriscamos a dizer que foi um dos melhores shows de eletrônica que já comparecemos. Diferente de grandes sucessos do gênero, como Alok e Vintage Culture, a Syon Trio traz consigo um ar jovial, uma semelhança tão grande com o público que cria uma conexão pouco vista nesse tipo de show.
Outra coisa que nos chamou atenção, e não menos importante, foi o compromisso do trio em resgatar a cultura brasileira, característica às vezes um pouco esquecida entre DJ’s do gênero, que tentam ao máximo se aproximarem da forma de tocar dos norte-americanos. A Syon Trio traz para as suas músicas o estilo do jovem brasileiro da última década, aposta em estilos familiares aos festeiros da região sul e sudeste do país, os tornando requisitados nas casas de festas dessas duas regiões brasileiras.
Mas é claro, a performance do trio não fica pra trás dos grandes DJ’s da música eletrônica mundial. Nomes como Martin Garrix e David Guetta, conhecidos por seus shows ao vivo cativantes, que agitam multidões pelo mundo, são referência quando falamos desse tipo de assunto. A Syon, ainda iniciante e com infinitamente menos recursos que esses artistas, tem potencial em expandir seu público e até mesmo revolucionar o cenário brasileiro com a experiência completa que o trio proporciona aos seus fãs.

 

A PERFORMANCE

A performance sempre foi muito associada a shows de música pop, e os artistas da geração Z – especialmente as mulheres – estão reforçando e até elevando o patamar. Nomes como Chappell Roan, Sabrina Carpenter e Charli XCX estão entre os mais pesquisados do Twitter e do Tiktok especialmente por performances feitas em suas turnês. Thiago Soares (2015, p. 22) defende que a relação entre a mídia ultrapassa a simples interpretação e envolve aspectos de percepção e sensibilidade, nos levando a uma nova era, que experimenta não apenas nos sons, mas também nos aspectos visuais (como coreografias, elementos do palco, vídeos que passam nos telões, uso de luzes) e na experiência inteira de presenciar o artista.

Apesar de essa cultura ser comum e até estar se popularizando ainda mais na esfera da música pop, o evento da Syon Trio mostrou como outros gêneros estão adotando essa estratégia de tornar o show uma “experiência” para o espectador, e remover a tênue linha entre música e entretenimento. O Baile da Syon, com o uso de luzes, distribuição de brindes (copos e óculos coloridos) e imagens projetadas fez uso do audiovisual para capturar ouvintes novos e convidar as pessoas a ir em seus próximos shows – o que já podemos adiantar que funcionou.

Claro que, apesar de a Syon Trio ter inovado em Porto Alegre com a sua performance, o Alok foi o primeiro artista a tornar esse elemento o principal dos seus shows no Brasil. O artista, autor dos hits “Hear Me Now” e “Never Let Me Go”, ficou conhecido em 2020 pelo uso de luzes fortes e dinâmicas em seus shows. Há quatro anos, ele usava apenas luzes que se alongavam até quase o final da platéia que piscavam e se mexiam, mas ele vem inovando cada vez mais com esse elemento visual, que se tornou quase uma marca registrada. Em seu show no Planeta Atlântida, em 2024, sua equipe usou drones iluminados, de forma com que pareciam apenas pontos de luz, para fazer formas, como corações e estrelas, escrever “Bah! Tchê!”, entre outros.

Sabemos que o Alok é um artista nacional com anos de carreira, e já passamos a esperar inovações em suas performances. Entretanto, participar de um evento como o Baile da Syon, em que os dj’s, natos de Pelotas, com poucos anos de carreira, também fizeram um uso incrível de elementos audiovisuais para cativar o público foi transformador para nós. É interessante também ver como os ritmos e características de gêneros estão se mesclando na modernidade. Soares descreveu há quase dez anos elementos usados quase que exclusivamente para o pop, e que hoje estão presentes não apenas na performance de artistas de eletrônica nacionais, mas também de rap e trap. Além dessas características, é comum um artista tocar mais de um gênero em seu show. Como descrevemos anteriormente, a Syon Trio misturou perfeitamente músicas da eletrônica (com batidas constantes e nenhuma parte cantada), hits pop dos anos 2000 e melodias nacionais, especialmente em torno do rap, trap e funk.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Audiovisualidades de video clipes produzidos para web (4/5)

O FALSO, O FANTASMA E O FANTÁSTICO

Cogitamos que o videoclipe possua três potências que o caracterizam como tal, que o fazem ser aquilo que ele é. Inspiradas na imagem-tempo de Deleuze (1990), nas personagens do filme Ano Passado em Marienbad (Alan Resnais, 1961) e no filme Fantasia de Disney (1940), elas seriam, respectivamente: o falso, o fantasma e o fantástico. As definições no dicionário para estas três palavras são semelhantes, o que permite dizer que estas características confluem, sendo, assim, não-excludentes, estando, até certo ponto, incluídas uma na outra:

• Falso. Adj. Contrário à realidade; Em que há mentira, fingimento, dissimulação ou dolo; Diz-se daquilo que é feito à semelhança ou imitação do verdadeiro.

• Fantasma. Sf. Imagem ilusória; fantasmagoria; Visão terrífica, medonha, apavorante; Imagem multiplicada que em aparelhos de televisão às vezes se observa, em conseqüência de más condições de recepção.

• Fantástico. Adj. Só existe na fantasia ou imaginação; fantasmagórico; Falso, simulado, inventado, fictício.

Vamos analisar em especial MC Jeremias. O material capturado na delegacia onde Jeremias fora entrevistado foi montado de acordo com as “normas” do cinema clássico, visando uma sensação de continuidade, por mais que os planos que se sucedem possam ter sido registrados fora da ordem disposta no vídeo.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=MsdnufGPG1A]

Na edição ainda entram as legendas, logotipos do programa e outras imagens adicionadas e sobrepostas no panorama, que ajudam a passar uma sensação de fluidez da entrevista, disfarçando a montagem. Esta reportagem é composta de maneira a organizar imagens descontínuas de maneira que desenvolvam uma narrativa, fazendo com que pareçam contínuas. É o falso apresentado como verdadeiro.

Quando as imagens são atualizadas pelo videoclipe, elas deixam de fazer parte de uma narrativa, de um esquema sensório-motor, e passam a apresentar situações óticas e sonoras puras ao invés de uma imagem indireta do tempo (Deleuze, 1985, 1990). Por isto, MC Jeremias e os videoclipes em geral não têm o propósito de representar o “real”; pelo contrário, eles imaginam outro mundo: o mundo fantástico do próprio videoclipe. Eles apresentam o falso como potência do falso.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Myt9GTT7Gk0]

Outro aspecto que devemos considerar como potência é o caráter fantasmagórico das personagens e dos cenários de videoclipe. Desse ponto de vista, um filme interessante a ser pensado é O ano passado em Marienbad. Segundo Maciel (2001:85), o diretor, Alan Resnais, decompõe a noção cartesiana de espaço-tempo através da montagem do filme, que

[…] explora as zonas de inconsistência do tempo e da memória, a partir da diluição dos limites entre realidade e imaginação. […] o filme joga com a sincronia do tempo e com a temporalidade do espaço, à medida que mistura presente, passado e futuro em um espaço vertiginoso, representado pelas salas, corredores e jardins labirínticos de um hotel barroco.

A câmera passeia pelo espaço físico do gigantesco hotel, seus corredores, janelas, espelhos e quartos repetitivos, criando miradas vertiginosas, tensionadas por falsos-raccords e uma música hipnótica, que fazem o espectador “perder o chão” do espaço-tempo instituído pelo cinema clássico. Tudo se passa como se fosse um sonho, e o tempo parece jorrar sem direção, como se se congelasse na densidade visual do hotel. Aliás, não só o hotel, mas os personagens também parecem congelados, como se fossem instantâneos.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=VbWwrMzhT-A]

No entanto, há algo que tenta romper com essa sensação: são os travellings que a câmera insiste em realizar. É como se o hotel e as personagens fossem memória, e a câmera, um pensamento que se esforça em tentar lembrar de algo que ocorreu naquele lugar, com aquelas pessoas, há algum tempo atrás, vasculhando essa memória. Ao invés de buscar uma representação da realidade, Resnais apresenta imagens-lembrança, um filme inteiro constituído de flash-backs, que busca incessantemente a memória pura (a origem do fato), estabelecendo assim temporalidades descontínuas. Aqui, nem os diálogos, nem o narrador conseguem manter um princípio de temporalidade contínua. A única coisa que parece simular uma continuidade temporal é a trilha musical.

Marienbad afirma a existência e a inexistência do encontro ao mesmo tempo […]. Ao contrário da imagem-movimento do cinema clássico, onde o espectador reconhece no filme situações, comportamentos, a representação de um estado de coisas, na imagem do cinema moderno, o mundo perde sua identidade, entra em crise e se torna falsificante, múltiplo. (FRANÇA, 2005:32-33)

Dessa forma, as personagens também adotam identidades múltiplas, e essa impossibilidade de reconhecer uma identidade no rosto de outra personagem faz com que acabem se perdendo no espaço atemporal construído pela diegese do filme. Como diz Deleuze (1990:55),

Outra coisa acontece no cinema dito moderno: não algo mais bonito, mais profundo, nem mais verdadeiro, mas outra coisa. É que o esquema sensório-motor já não se exerce, mas também não é ultrapassado, superado. Ele se quebra por dentro. Quer dizer que as percepções e as ações não se encadeiam mais, e que os espaços já não se coordenam nem se preenchem. Personagens, envolvidas em situações óticas e sonoras puras, encontram-se condenadas à deambulação ou à perambulação. São puros videntes, que existem tão-somente no intervalo de movimento, e não têm sequer o consolo do sublime, que os faria encontrar a matéria ou conquistar o espírito. […] A relação situação sensório-motora/imagem indireta do tempo é substituída por uma relação não-localizável situação ótica e sonora pura/imagem-tempo direta. Os opsignos e sonsignos são apresentações diretas do tempo. Os falsos raccords são a própria relação não-localizável: as personagens não os saltam mais, mas mergulham neles.

É interessante comparar esse comportamento das personagens de Marienbad com as do cinema dos primórdios. Prendergast, em seu livro intitulado Film music: a neglected art (1992:3), fala da necessidade de haver trilha musical para o cinema mudo:

Sentiu-se essa necessidade para poupar o espectador do estranhamento envolvido em ver efígies de pessoas vivendo, atuando e até mesmo falando, que eram ao mesmo tempo mudas. O fato de que elas são vivas e não-vivas ao mesmo tempo é o que constitui seu caráter fantasmagórico, e a música foi introduzida não para supri-los com a vida que lhes faltavam […] mas para exorcizar o medo ou ajudar o espectador a absorver o choque. [tradução minha]

No cinema moderno (que também é cinema falado), a possibilidade das personagens produzirem som “dá vida” a elas, e faz com que se criem novos modos de articulação das mesmas com a trilha sonora. Assim, se no cinema mudo era a imagem que assustava, em Marienbad é a música que produz um clima fantasmagórico, desta vez não por insuficiência técnica, mas como proposta estética, para construir um ambiente próprio para este filme. Daí esse desconforto das personagens, impactadas pela imagem direta do tempo e pela composição assombrosa da trilha musical.

Se no cinema a música servia em grande parte para ambientar a narrativa – e, no caso de Marienbad, para causar um desconforto -, nos videoclipes a música é o ambiente, uma vez que, se não há música (ou potência de música), não há videoclipe. E suas canções populares (como as dos vídeos analisados neste trabalho), são fantasiosas em suas letras: contam histórias, falam de desejos, sonhos ou até mesmo de nada em especial, ao sabor do nonsense. A partir desses elementos e também do ritmo, melodia e harmonia da canção, o diretor imagina o lugar onde o videoclipe se passa, o qual, assim como o das letras das canções, acaba sendo um espaço fictício, alhures, o lugar algum como “marienbad” em Marienbad.

O alhures é de natureza intrínseca do videoclipe. Isso acaba acontecendo porque, do mesmo modo que as imagens técnicas, a música também tem o poder de imaginar o mundo. A música integra essa característica ao videoclipe, sendo que quem criou a canção é o mesmo músico que está atuando, cantando e tocando em playback. Talvez por isso as personagens do videoclipe – e também os espectadores – não “estranhem” o espaço/tempo em que estão inseridos. É como se já possuíssem uma memória-hábito do meio onde estão inseridas, pois são parte de sua criação.

As três potências que apontei são características intrínsecas de todo videoclipe, e podem ser pensadas como seus modos de agir. Todo videoclipe soa falso, soa fantasmagórico e soa fantástico, porque videoclipes constituem-se de tempos criados dentro de si, imageticamente. São todos, talvez, no extremo, manifestações de tempo-fantasia.

Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

FRANÇA, Andréa. Foucault e o cinema contemporâneo. ALCEU, V.5, nº10, p. 30 a 39, jan/jun 2005.

MACIEL, Maria Esther. A poesia no cinema: de Buñuel a Greenaway. Cadernos de Tradução (UFSC), v.7, p. 81-91, 2001.

PRENDERGAST, Roy M. Film music: a neglected art: a study of music in films. 2ª ed. New York: W. W. Norton, 1992.

Audiovisualidades de video clipes produzidos para web (4/5)

O FALSO, O FANTASMA E O FANTÁSTICO

Cogitamos que o videoclipe possua três potências que o caracterizam como tal, que o fazem ser aquilo que ele é. Inspiradas na imagem-tempo de Deleuze (1990), nas personagens do filme Ano Passado em Marienbad (Alan Resnais, 1961) e no filme Fantasia de Disney (1940), elas seriam, respectivamente: o falso, o fantasma e o fantástico. As definições no dicionário para estas três palavras são semelhantes, o que permite dizer que estas características confluem, sendo, assim, não-excludentes, estando, até certo ponto, incluídas uma na outra:

• Falso. Adj. Contrário à realidade; Em que há mentira, fingimento, dissimulação ou dolo; Diz-se daquilo que é feito à semelhança ou imitação do verdadeiro.

• Fantasma. Sf. Imagem ilusória; fantasmagoria; Visão terrífica, medonha, apavorante; Imagem multiplicada que em aparelhos de televisão às vezes se observa, em conseqüência de más condições de recepção.

• Fantástico. Adj. Só existe na fantasia ou imaginação; fantasmagórico; Falso, simulado, inventado, fictício.

Vamos analisar em especial MC Jeremias. O material capturado na delegacia onde Jeremias fora entrevistado foi montado de acordo com as “normas” do cinema clássico, visando uma sensação de continuidade, por mais que os planos que se sucedem possam ter sido registrados fora da ordem disposta no vídeo.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=MsdnufGPG1A]

Na edição ainda entram as legendas, logotipos do programa e outras imagens adicionadas e sobrepostas no panorama, que ajudam a passar uma sensação de fluidez da entrevista, disfarçando a montagem. Esta reportagem é composta de maneira a organizar imagens descontínuas de maneira que desenvolvam uma narrativa, fazendo com que pareçam contínuas. É o falso apresentado como verdadeiro.

Quando as imagens são atualizadas pelo videoclipe, elas deixam de fazer parte de uma narrativa, de um esquema sensório-motor, e passam a apresentar situações óticas e sonoras puras ao invés de uma imagem indireta do tempo (Deleuze, 1985, 1990). Por isto, MC Jeremias e os videoclipes em geral não têm o propósito de representar o “real”; pelo contrário, eles imaginam outro mundo: o mundo fantástico do próprio videoclipe. Eles apresentam o falso como potência do falso.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Myt9GTT7Gk0]

Outro aspecto que devemos considerar como potência é o caráter fantasmagórico das personagens e dos cenários de videoclipe. Desse ponto de vista, um filme interessante a ser pensado é O ano passado em Marienbad. Segundo Maciel (2001:85), o diretor, Alan Resnais, decompõe a noção cartesiana de espaço-tempo através da montagem do filme, que

[…] explora as zonas de inconsistência do tempo e da memória, a partir da diluição dos limites entre realidade e imaginação. […] o filme joga com a sincronia do tempo e com a temporalidade do espaço, à medida que mistura presente, passado e futuro em um espaço vertiginoso, representado pelas salas, corredores e jardins labirínticos de um hotel barroco.

A câmera passeia pelo espaço físico do gigantesco hotel, seus corredores, janelas, espelhos e quartos repetitivos, criando miradas vertiginosas, tensionadas por falsos-raccords e uma música hipnótica, que fazem o espectador “perder o chão” do espaço-tempo instituído pelo cinema clássico. Tudo se passa como se fosse um sonho, e o tempo parece jorrar sem direção, como se se congelasse na densidade visual do hotel. Aliás, não só o hotel, mas os personagens também parecem congelados, como se fossem instantâneos.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=VbWwrMzhT-A]

No entanto, há algo que tenta romper com essa sensação: são os travellings que a câmera insiste em realizar. É como se o hotel e as personagens fossem memória, e a câmera, um pensamento que se esforça em tentar lembrar de algo que ocorreu naquele lugar, com aquelas pessoas, há algum tempo atrás, vasculhando essa memória. Ao invés de buscar uma representação da realidade, Resnais apresenta imagens-lembrança, um filme inteiro constituído de flash-backs, que busca incessantemente a memória pura (a origem do fato), estabelecendo assim temporalidades descontínuas. Aqui, nem os diálogos, nem o narrador conseguem manter um princípio de temporalidade contínua. A única coisa que parece simular uma continuidade temporal é a trilha musical.

Marienbad afirma a existência e a inexistência do encontro ao mesmo tempo […]. Ao contrário da imagem-movimento do cinema clássico, onde o espectador reconhece no filme situações, comportamentos, a representação de um estado de coisas, na imagem do cinema moderno, o mundo perde sua identidade, entra em crise e se torna falsificante, múltiplo. (FRANÇA, 2005:32-33)

Dessa forma, as personagens também adotam identidades múltiplas, e essa impossibilidade de reconhecer uma identidade no rosto de outra personagem faz com que acabem se perdendo no espaço atemporal construído pela diegese do filme. Como diz Deleuze (1990:55),

Outra coisa acontece no cinema dito moderno: não algo mais bonito, mais profundo, nem mais verdadeiro, mas outra coisa. É que o esquema sensório-motor já não se exerce, mas também não é ultrapassado, superado. Ele se quebra por dentro. Quer dizer que as percepções e as ações não se encadeiam mais, e que os espaços já não se coordenam nem se preenchem. Personagens, envolvidas em situações óticas e sonoras puras, encontram-se condenadas à deambulação ou à perambulação. São puros videntes, que existem tão-somente no intervalo de movimento, e não têm sequer o consolo do sublime, que os faria encontrar a matéria ou conquistar o espírito. […] A relação situação sensório-motora/imagem indireta do tempo é substituída por uma relação não-localizável situação ótica e sonora pura/imagem-tempo direta. Os opsignos e sonsignos são apresentações diretas do tempo. Os falsos raccords são a própria relação não-localizável: as personagens não os saltam mais, mas mergulham neles.

É interessante comparar esse comportamento das personagens de Marienbad com as do cinema dos primórdios. Prendergast, em seu livro intitulado Film music: a neglected art (1992:3), fala da necessidade de haver trilha musical para o cinema mudo:

Sentiu-se essa necessidade para poupar o espectador do estranhamento envolvido em ver efígies de pessoas vivendo, atuando e até mesmo falando, que eram ao mesmo tempo mudas. O fato de que elas são vivas e não-vivas ao mesmo tempo é o que constitui seu caráter fantasmagórico, e a música foi introduzida não para supri-los com a vida que lhes faltavam […] mas para exorcizar o medo ou ajudar o espectador a absorver o choque. [tradução minha]

No cinema moderno (que também é cinema falado), a possibilidade das personagens produzirem som “dá vida” a elas, e faz com que se criem novos modos de articulação das mesmas com a trilha sonora. Assim, se no cinema mudo era a imagem que assustava, em Marienbad é a música que produz um clima fantasmagórico, desta vez não por insuficiência técnica, mas como proposta estética, para construir um ambiente próprio para este filme. Daí esse desconforto das personagens, impactadas pela imagem direta do tempo e pela composição assombrosa da trilha musical.

Se no cinema a música servia em grande parte para ambientar a narrativa – e, no caso de Marienbad, para causar um desconforto -, nos videoclipes a música é o ambiente, uma vez que, se não há música (ou potência de música), não há videoclipe. E suas canções populares (como as dos vídeos analisados neste trabalho), são fantasiosas em suas letras: contam histórias, falam de desejos, sonhos ou até mesmo de nada em especial, ao sabor do nonsense. A partir desses elementos e também do ritmo, melodia e harmonia da canção, o diretor imagina o lugar onde o videoclipe se passa, o qual, assim como o das letras das canções, acaba sendo um espaço fictício, alhures, o lugar algum como “marienbad” em Marienbad.

O alhures é de natureza intrínseca do videoclipe. Isso acaba acontecendo porque, do mesmo modo que as imagens técnicas, a música também tem o poder de imaginar o mundo. A música integra essa característica ao videoclipe, sendo que quem criou a canção é o mesmo músico que está atuando, cantando e tocando em playback. Talvez por isso as personagens do videoclipe – e também os espectadores – não “estranhem” o espaço/tempo em que estão inseridos. É como se já possuíssem uma memória-hábito do meio onde estão inseridas, pois são parte de sua criação.

As três potências que apontei são características intrínsecas de todo videoclipe, e podem ser pensadas como seus modos de agir. Todo videoclipe soa falso, soa fantasmagórico e soa fantástico, porque videoclipes constituem-se de tempos criados dentro de si, imageticamente. São todos, talvez, no extremo, manifestações de tempo-fantasia.

Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

FRANÇA, Andréa. Foucault e o cinema contemporâneo. ALCEU, V.5, nº10, p. 30 a 39, jan/jun 2005.

MACIEL, Maria Esther. A poesia no cinema: de Buñuel a Greenaway. Cadernos de Tradução (UFSC), v.7, p. 81-91, 2001.

PRENDERGAST, Roy M. Film music: a neglected art: a study of music in films. 2ª ed. New York: W. W. Norton, 1992.

Audiovisualidades de videoclipes produzidos para web (2/5)

JEREMIAS E A MENINA PASTORA: A PRODUÇÃO BRASILEIRA

Na web, tem se tornado cada vez mais freqüentes as vídeo-respostas. São vídeos que fazem paródia, comentam, citam ou reutilizam imagens de outro vídeo. O clipe MC Jeremias, assinado por “Viniciux” e postado no YouTube em 2006, faz quase tudo isso. O criador aproveitou dois vídeos publicados na rede um ano antes, ambos extraídos do programa de TV Sem Meias Palavras, exibido pela TVI, de Pernambuco, afiliada do SBT. Neles, um rapaz chamado Jeremias foi levado à delegacia duas vezes por ter dirigido embriagado e sem carteira uma moto; nas duas ocorrências ele é entrevistado pelo repórter Givanildo Silveira. No primeiro vídeo, Jeremias responde às perguntas do repórter aos gritos e palavrões. O repórter se aproveita da situação e consegue fazer com que Jeremias cante uma música, ainda que ininteligível.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=MsdnufGPG1A]

“Viniciux” encontrou especialmente neste vídeo um devir de videoclipe, congelado na matéria como potência. Com um software de edição de vídeo, ele produziu uma batida eletrônica e sobre ela (numa segunda trilha de áudio) sincronizou as falas de Jeremias de modo que se assemelhasse a um funk carioca. A construção provavelmente só tenha se elucidado na mente do realizador por dois motivos: primeiro, o rapaz embriagado canta durante a entrevista e, segundo, seus gritos se aproximam do modo como os funkeiros cariocas cantam, sem ter uma preocupação com afinação ou melodia. Quanto às imagens, “Viniciux” as monta, na batida criada por ele, exatamente como elas se encontravam montadas ao áudio original.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Myt9GTT7Gk0]

Num movimento muito semelhante, Raphael Mendes realiza outro videoclipe de música funk, desta vez remixando o vídeo de uma menina pastora, que foi registrada pregando alucinadamente num culto evangélico. A concepção é a mesma que a do vídeo MC Jeremias: da mesma forma que “Viniciux”, Mendes reconheceu nos gritos da menina um devir de funk carioca e um devir-refrão, neste caso devido a uma melodia suave, tocada por metais, em segundo plano no vídeo original, justo quando a menina fala “é maravilhoso; Deus forte; conselheiro; pai da eternidade […]”, frase que é repetida diversas vezes. Como a essência do refrão é a repetição, Mendes encontra também nessa fala um devir-refrão para seu clipe, que estava congelado como potência junto da melodia tocada pelos metais.

[videolog 371662]

Como podemos ver no vídeo que Raphael Mendes utiliza, já havia sido feita uma manipulação antes por outro internauta, que adicionou legendas à fala da menina pastora, que, por sua vez, em alguns momentos é ininteligível. As legendas são de caráter sarcástico, e muitas vezes também são ininteligíveis, como se levassem ao pé da letra o discurso da pastora mirim. Vale ainda lembrar que tanto este vídeo quanto os que originaram MC Jeremias foram postados por outros internautas na web, provavelmente anônimos, criando assim uma rede compartilhada de realização audiovisual.

No próximo post, mais um ótimo exemplo desse tipo de vídeo.