Make Fabico Weird Again #1
por Brenda Trindade e Julia Caye

Syon Trio toca em espaço Multiverso Cais Embarcadero, em Porto Alegre.
Fonte: Post on Instagram
Eram seis horas da tarde de um sábado comum em Porto Alegre, e nós entrávamos no Multiverso Cais Embarcadero, localizado perto da Orla do Guaíba, um local conhecido por suas festas diurnas, chamadas de “sunset”, que buscam proporcionar como maior atração o pôr do sol. A atmosfera era única, muito diferente do que era costume ser presenciado naquele local, parecia um planetário ou algo do tipo. Era uma esfera escura, em que a única iluminação saía do chão, e havia projeções por todas as paredes, com bolas de discoteca e dizeres como “Baile da Syon”, “Syon”, entre outros. Definitivamente não pareciam ser apenas seis horas da tarde. Muito pelo contrário, parecia que estávamos em uma balada normal, e já era de madrugada – exclusivamente por causa da atmosfera.
Segundo a produção do trio, a proposta da festa era de nos proporcionar uma experiência audiovisual, missão cumprida logo que adentramos ao espaço. Junto com os dizeres projetados nas paredes, as luzes alternavam entre amarelo, vermelho, verde e azul, quase como em uma dança seguindo o ritmo da música. A música, atração principal da festa, foi iniciada com os DJ’s Léo Bueno e Zé, que misturaram remixes da própria Syon Trio, como uma espécie de preparação para o show a seguir, e grandes hits do funk e trap nacional.
O público no local era composto majoritariamente por estudantes universitários, entre 19 e 25 anos, de classe média alta. Lá eles formavam uma grande cena, entre pessoas que se juntam frequentemente, mas que naquela tarde estavam unidos para viver uma experiência visual diferente de outras festas em Porto Alegre, em conjunto com músicas que faziam já parte do seu cotidiano: músicas eletrônicas. Apesar de ser uma espécie de inauguração do local, era perceptível que os donos do empreendimento do Embarcadero estavam tentando tornar o espaço uma verdadeira cena, ou melhor, buscando atingir “aquele momento especial quando um florescimento criativo parece formar todo um novo centro social” (Byrne, 2012). No entanto, nos pareceu que os criadores do evento buscaram implementar esse momento forçadamente, para a camada elitizada da população, o que não acreditamos que vá funcionar, pois, comparado com o movimento acompanhado por Byrne, que se tornou seu foco de estudo, que acontecia de forma natural, e por isso se propagava, já que unia o público a artistas ainda pouco conhecidos, o Baile da Syon nos pareceu como uma “jogada de marketing”, forçando um pouco o movimento.
De qualquer forma, apesar de acreditarmos que o espaço não vá se tornar uma cena por não seguir as regras descritas por David Byrne, o evento foi muito bem aproveitado por todos os presentes com quem conversamos. Isadora Schramm, estudante de publicidade da UFRGS, contou que nunca tinha ido a um show de eletrônica, apenas conhecia o Syon Trio por suas músicas mais populares, que começaram a viralizar nas redes sociais em 2022, mas que estava no show exclusivamente para vê-los:
“Eu nunca gostei muito de música eletrônica, mas minhas amigas me chamaram para vir então pensei ‘por quê não né?’. Eu imaginei que seria completamente diferente, e que iria me sentir de fora. Mas, pra minha surpresa, a maioria das músicas que eles tocaram eu conhecia, e o pessoal agitou muito também. Eu sabia mais ou menos quem eles [Syon Trio] eram, mas assistir eles tocando ao vivo foi uma experiência completamente diferente. A energia do público e a performance deles me surpreenderam muito. Com certeza fiquei com vontade de ver eles de novo.”
Já a Camille Fossati, estudante de biomedicina da UFCSPA, nos contou que já estava acostumada a rolês com atrações do gênero eletrônica e que o “Baile da Syon” revolucionou esse tipo de festa:
“Quando vamos nessas festas, somos acostumadas com ambientes normais, de festas mesmo, com luzes e tudo mais. Vamos nessas festas só por causa das atrações, mas a Syon nos chamou atenção pela proposta completa, um lugar legal com música boa.”
Syon Trio é composta por três gaúchos.
Fonte: Post on Instagram
QUEM É SYON TRIO
A maioria dos jovens do Rio Grande do Sul já ouviram falar da Syon Trio. Naturais de Pelotas, cidade há 260 quilômetros de Porto Alegre, Henrique Moré, Gabriel Castilhos e Liruan Corteletti são três DJs que buscam unir a música eletrônica com os ritmos mais populares do Brasil – o funk e o trap.
A primeira vez que nós – duas estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no início dos nossos 20 anos – ouvimos falar sobre eles foi no primeiro semestre da universidade, quando começamos a frequentar a vida noturna da cidade e, consequentemente, a cena musical que a acompanha.
Entretanto, a Syon Trio é um pequeno mistério que buscamos desvendar – e esclarecer – ao longo deste texto. Primeiramente, apesar de ser composto por três pessoas, eles fazem parte de algo que atua quase como uma instituição, e que pode ser definido como uma espécie de banda, ou a figura de apenas um artista. Isso porque, apesar de colecionarem quase trinta mil seguidores no Instagram como um conjunto, individualmente apenas um deles utiliza a rede social, e mesmo assim não se expõe muito. Além disso, os três se apresentam para o público sempre como um trio, seja nos shows ou em entrevistas. Também é incrivelmente difícil de encontrar qualquer informação pessoal de qualquer um deles, ou de descobrir como era a vida deles antes de se tornarem “A Syon Trio”.
Ou seja, por mais que seja um dos grupos musicais em maior ascensão entre a camada jovem da população brasileira, eles se mantêm a uma certa distância do público. É como se, ao entrarem na persona da Syon Trio, eles deixassem de ser Henrique, Gabriel e Liruan, e se tornassem um só. Isso pode parecer um pouco óbvio, ou normal, mas vai totalmente contra o movimento que se desencadeou depois que a 30PRAUM, um dos maiores grupos de trap do Brasil atualmente, foi criado. Esse conjunto é formado por Matuê, Wiu e Teto, três jovens de Fortaleza que atuam de forma independente, mas que constantemente se unem para compor músicas juntos, darem entrevistas e participarem dos shows uns dos outros. Ou seja, apesar de também participarem de um trio, eles são independentes entre si, criando as suas próprias carreiras musicais sem depender dos outros.
Na contemporaneidade, especialmente em termos de grupos brasileiros e de estilos musicais populares, como o trap e o funk, isso é o que há de mais comum: artistas que, apesar de performar e criar diversas músicas juntos, possuem suas próprias identidades e histórias. Ao analisarmos a Syon Trio, percebemos que eles não vão de encontro com isso. Muito pelo contrário, parece que suas identidades se perdem ao incorporarem o grupo. Isso pode ser por muitos motivos, mas acreditamos que os principais sejam que eles não atraem o público em cima de suas imagens pessoais – no sentido de que se víssemos um deles na rua não saberíamos exatamente quem é – e que eles buscam atuar como uma espécie moderna de banda, trazendo um novo significado para esse conceito na cena musical moderna.
O SHOW DA SYON
O show da Syon Trio, o momento mais esperado da noite por nós e um pouco mais de 400 pessoas presentes na festa, foi um verdadeiro espetáculo audiovisual. O trio caprichou na entrada, com um grande jogo de luzes e efeitos especiais. Os gaúchos adentraram a festa enchendo o ambiente com som e alegria. O público a nossa volta vibrava, ansiosos para o show a seguir.
Com grandes hits, como “Gimme Gimme / Baile do Cinga” do próprio trio, o lugar foi invadido por uma euforia contagiante. Desde Justin Bieber até Bonde do Tigrão, os dj’s conseguiram montar sets que traziam um misto de nostalgia e felicidade no público, dupla essencial para uma boa festa. As viradas, de um som para o outro, eram feitas com perfeição, quase não deixando a plateia descansar entre uma música e outra.
Nos arriscamos a dizer que foi um dos melhores shows de eletrônica que já comparecemos. Diferente de grandes sucessos do gênero, como Alok e Vintage Culture, a Syon Trio traz consigo um ar jovial, uma semelhança tão grande com o público que cria uma conexão pouco vista nesse tipo de show.
Outra coisa que nos chamou atenção, e não menos importante, foi o compromisso do trio em resgatar a cultura brasileira, característica às vezes um pouco esquecida entre DJ’s do gênero, que tentam ao máximo se aproximarem da forma de tocar dos norte-americanos. A Syon Trio traz para as suas músicas o estilo do jovem brasileiro da última década, aposta em estilos familiares aos festeiros da região sul e sudeste do país, os tornando requisitados nas casas de festas dessas duas regiões brasileiras.
Mas é claro, a performance do trio não fica pra trás dos grandes DJ’s da música eletrônica mundial. Nomes como Martin Garrix e David Guetta, conhecidos por seus shows ao vivo cativantes, que agitam multidões pelo mundo, são referência quando falamos desse tipo de assunto. A Syon, ainda iniciante e com infinitamente menos recursos que esses artistas, tem potencial em expandir seu público e até mesmo revolucionar o cenário brasileiro com a experiência completa que o trio proporciona aos seus fãs.
A PERFORMANCE
A performance sempre foi muito associada a shows de música pop, e os artistas da geração Z – especialmente as mulheres – estão reforçando e até elevando o patamar. Nomes como Chappell Roan, Sabrina Carpenter e Charli XCX estão entre os mais pesquisados do Twitter e do Tiktok especialmente por performances feitas em suas turnês. Thiago Soares (2015, p. 22) defende que a relação entre a mídia ultrapassa a simples interpretação e envolve aspectos de percepção e sensibilidade, nos levando a uma nova era, que experimenta não apenas nos sons, mas também nos aspectos visuais (como coreografias, elementos do palco, vídeos que passam nos telões, uso de luzes) e na experiência inteira de presenciar o artista.
Apesar de essa cultura ser comum e até estar se popularizando ainda mais na esfera da música pop, o evento da Syon Trio mostrou como outros gêneros estão adotando essa estratégia de tornar o show uma “experiência” para o espectador, e remover a tênue linha entre música e entretenimento. O Baile da Syon, com o uso de luzes, distribuição de brindes (copos e óculos coloridos) e imagens projetadas fez uso do audiovisual para capturar ouvintes novos e convidar as pessoas a ir em seus próximos shows – o que já podemos adiantar que funcionou.
Claro que, apesar de a Syon Trio ter inovado em Porto Alegre com a sua performance, o Alok foi o primeiro artista a tornar esse elemento o principal dos seus shows no Brasil. O artista, autor dos hits “Hear Me Now” e “Never Let Me Go”, ficou conhecido em 2020 pelo uso de luzes fortes e dinâmicas em seus shows. Há quatro anos, ele usava apenas luzes que se alongavam até quase o final da platéia que piscavam e se mexiam, mas ele vem inovando cada vez mais com esse elemento visual, que se tornou quase uma marca registrada. Em seu show no Planeta Atlântida, em 2024, sua equipe usou drones iluminados, de forma com que pareciam apenas pontos de luz, para fazer formas, como corações e estrelas, escrever “Bah! Tchê!”, entre outros.
Sabemos que o Alok é um artista nacional com anos de carreira, e já passamos a esperar inovações em suas performances. Entretanto, participar de um evento como o Baile da Syon, em que os dj’s, natos de Pelotas, com poucos anos de carreira, também fizeram um uso incrível de elementos audiovisuais para cativar o público foi transformador para nós. É interessante também ver como os ritmos e características de gêneros estão se mesclando na modernidade. Soares descreveu há quase dez anos elementos usados quase que exclusivamente para o pop, e que hoje estão presentes não apenas na performance de artistas de eletrônica nacionais, mas também de rap e trap. Além dessas características, é comum um artista tocar mais de um gênero em seu show. Como descrevemos anteriormente, a Syon Trio misturou perfeitamente músicas da eletrônica (com batidas constantes e nenhuma parte cantada), hits pop dos anos 2000 e melodias nacionais, especialmente em torno do rap, trap e funk.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.
