Uma análise do álbum “Blonde” de Frank Ocean e como a obra se tornou uma referência na música contemporânea

Make Fabico Weird Again #1 

por Gabriel Vieira da Silva

Frank Ocean é um renomado cantor, compositor e produtor norte-americano, que ao longo da década de 2010, se tornou uma das maiores referências quando falamos do gênero R&B e pop alternativo. Através das suas letras extremamente sensíveis e produções para outros grandes magos da indústria musical, Ocean se consolidou como um dos grandes e mais icônicos nomes dessa geração. Antes de se tornar um fenômeno, Ocean apenas compunha para outros gigantes da indústria como Justin Bieber e John Legend. Até que através de Tyler, the Creator, tornou-se membro do Odd Future, que o lançou como artista finalmente. No grupo, ele participou de diversos trabalhos do próprio Tyler, de Jay-Z, Kanye West e Beyoncé, além de lançar sua primeira mixtape, Nostalgia, Ultra. Em seguida, Ocean lança Channel Orange, seu primeiro álbum de estúdio que já obteve um sucesso estrondoso rendendo até mesmo Grammy. Músicas como Lost, Thinking About You e Pyramids já chamavam a atenção para o que trataremos neste trabalho posteriormente: a forma como o artista produz música e expõe seus sentimentos através das suas letras profundas e sensíveis.  Após 4 anos de fãs especulando o que viria a seguir, Ocean lança Blonde em 20 de agosto de 2016, que posteriormente foi elencado na lista de melhores álbuns de todos os tempos pela revista Rolling Stone[1]. Se o seu primeiro álbum de estúdio já foi um grande sucesso, Blonde conseguiu superar esse feito. Entre uma produção fora dos padrões e divergências com a sua gravadora, o álbum apresenta temáticas como amor, sexualidade, racismo, família e espiritualidade.

Foto: Ensaio fotográfico de Blonde, 2016

 

Originalidade e a produção fora do padrão

Blonde apresenta uma produção complexa e repleta de experimentações. O álbum é um trabalho muito mais experimental considerando os seus projetos anteriores, com várias mudanças na estrutura das canções e na composição das letras. A produção do álbum no geral é muito complexa, e por conta disso, conta também com o auxílio de outros gênios da indústria musical como co-compositores e co-produtores. Kendrick Lamar, Beyoncé, Kanye West, Pharrell Williams, Paul McCartney, Andre 3000 e Tyler, The Creator são exemplos. Com essa gama de opiniões e ideias que surgiram com esse conjunto de artistas e de anônimos que compõem a extensa lista de créditos, em Blonde, Ocean consegue construir canções das mais diferentes formas. A voz do cantor é utilizada para além de ser um instrumento, mas também como tradução de sentimentos e sensações. Ela é utilizada nas músicas de uma maneira diferente do que era padrão na indústria musical da época do pop e R&B. Mais do que nunca, Frank Ocean perdeu todos os rótulos que estavam sendo empregados a ele. 

“Às vezes eu sentia que você não estava ouvindo versões suficientes de mim dentro de uma música, porque havia muito pensamento hiperativo. Mesmo que o ritmo do álbum não seja frenético, o ritmo das ideias sendo lançadas é”, disse Ocean ao The New York Times, em 2016.

 

A primeira faixa do álbum, Nikes, foi lançada junto a um videoclipe um dia antes do lançamento oficial do disco. A música que inicia os trabalhos dessa nova era de Ocean já apresenta algumas mudanças na sua produção quando relacionamos com seu trabalho anterior. A mudança na estética musical está representada principalmente na forma como a voz é utilizada. Nos primeiros versos da canção, o cantor utiliza de um pitch mais alto do que o usual. Já na segunda parte da música, ele faz o uso de auto-tune. Nos últimos versos, Ocean declama a letra de uma forma mais falada e menos cantada, se assemelhando com o rap.  Em meios gerais, a faixa resume bem o que a produção musical apresentará nas demais músicas.

Frame do clipe de Nikes – Blonde, 2016

 

A segunda faixa, Ivy, uma das favoritas dos fãs, Ocean traz na sua composição uma história do seu passado e bem pessoal como já era de se esperar. A história de uma relação que falhou, muitos os questionamentos e os arrependimentos foram traduzidos na letra. Na produção, o cantor revelou em entrevista para o The New York Times que subiu um pouco o pitch da voz para aparentar ser mais novo, o que traria toda uma atmosfera junto a letra da canção. No instrumental chama a atenção a presença de riffs de guitarra durante toda a música, o que não é usual na estética do R&B. Na sequência, Pink+White, outra faixa que ganhou o coração dos fãs e com participação de Pharrell Williams na produção, repetindo o sucesso de Sweet Life, do álbum anterior. A canção apresenta uma energia de verão e fim de tarde, o que foi representado na letra e no nome da música. Essa é mais uma letra que trata sobre amor e seus sentimentos. Para encerrar, a faixa tem vocais de Beyoncé fechando o último refrão da faixa [2]. 

“Just the same way you showed me, showed me

You showed me love

Glory from above

Regard, my dear

It’s all downhill from here”

Refrão de Pink+White

 

A seguir, Ocean traz um interlúdio, uma produção que é mais falada, geralmente mais curta e sem foco na questão musical, mas sim na mensagem. Na época era muito raro álbuns de R&B e Rap terem essas pausas para transitar as músicas. O cantor, então, inova ao trazer mais uma novidade à indústria musical. Posteriormente se tornou cada vez mais usual álbuns terem interlúdios em diversos gêneros. Be Yourself é uma chamada telefônica com ensinamentos de uma mãe de um amigo do cantor que dá conselhos a seu filho. Ainda sobre a primeira metade do álbum, Solo trata de solitude e é uma das poucas faixas que tem um ritmo marcado, guitarra e com o cantor se aventurando fazendo rap. Self Control, sendo uma balada de respeito, toca no coração e faz os olhos marejarem, e ainda entrega uma performance vocal impecável de Ocean. 

“Be yourself and know that that’s good enough

Don’t try to be someone else

Don’t try to be like someone else, don’t try to act like someone else

Be yourself, be secure with yourself’

Trecho de Be Yourself 

 

A segunda metade do álbum segue com as mesmas temáticas, porém com uma pegada mais densa, profunda e escura. É possível perceber essa diferenciação graças a produção e a forma como as canções são construídas. Após a parte “escura” de Nights, vem a reprise de Solo, interpretada por Andre 3000 e um cover magnífico de Close To You de Stevie Wonder. A canção tem um auto-tune que multiplica voz em várias notas que formam um acorde e apresenta samples da versão original. Em seguida, o cantor apresenta a sua disposição para explorar os seus impulsos estranhos mais evidentes em Good Guy e Pretty Sweet, trazendo um lado mais experimental na produção. 

E ainda mais canções imersas nas paixões do cantor e no seu passado White Ferrari traz toda uma energia nostálgica. Entretanto, para chegar a esse resultado, foram necessárias 50 versões até que Ocean decretasse qual seria a melhor. Uma das mais longas do disco é Seigfried que fala sobre pensamentos, devaneios, decisões e indecisões. Ao analisarmos a estrutura da canção, ela se assemelha a uma peça teatral, principalmente pela forma que as harmonias são construídas. Ocean se despede com Godspeed e Future Me, canções que apresentam uma sonoridade mais gospel e com as letras sintetizadas em todos os pensamentos que Blonde trouxe. 

“Quando eu estava fazendo o disco, havia 50 versões de “White Ferrari”. Tenho um irmão mais novo de 15 anos, e ele ouviu uma das versões e disse: “Você tem que lançar essa, é essa”. E eu disse: “Não, essa não é a versão”, porque ela ainda não me deu paz”,  disse ao The New York Times. 

 

A produção do álbum ainda entrega a sensação de estar imerso em uma obra de arte por completo. Todas as canções harmonizam muito bem umas com as outras levando em consideração uma coerência geral. Entretanto, todas elas também funcionam muito bem separadamente, a produção de Frank e seus parceiros trouxe muita qualidade à escuta do público.

 

Dualidade e a semiótica por trás de Blonde

Dois aspectos que Frank Ocean trás em seu álbum são a dualidade das coisas e a forma como as informações são apresentadas de uma maneira indireta e por outros meios. A dualidade fica escancarada em Nights, a nona faixa do álbum e que Ocean utiliza para marcar o ponto de virada do trabalho. O tempo de duração do disco é de exatamente 1 hora, e bem no minuto 30, há um ponto de virada extraordinário [3], lembrando até da sua prima do disco anterior Pyramides. A partir dessa transição, o álbum que vinha trazendo temáticas mais românticas e um aspecto mais solar e diurno, começa a apresentar sua face mais noturna, escura e densa. A produção fica mais lenta e com batidas mais fortes, o rap fica mais presente e as músicas mais faladas. 

 

Foto: Capa de Blonde, 2016

 

Blonde, ou “Blond” , como também pode ser chamado, apresenta várias formas de dualidade do próprio artista. Sua bissexualidade, o dia e a noite, o feliz e o triste. Além disso, a semiótica apresentada na capa do álbum retrata extrema vulnerabilidade, portanto a imagem dele chorando ou não é outra representação dessa dualidade. O cenário que remete a um banheiro pode ser considerado intencional por retratar um momento de vulnerabilidade e intimidade, conectando com a mão ao rosto e a carga sentimental que as letras do disco carrega, pode-se compreender que as lágrimas que estariam caindo, se confundem com as gotas de água do chuveiro.

A análise semiótica de Blonde envolve a interpretação de diversos significados, símbolos e signos presentes não só na estética visual do álbum como também nas músicas. A capa pode representar o público e o privado, podendo ainda refletir a complexidade da jornada emocional de Ocean. A Partir da virada de Nights, por exemplo, é possível relacionarmos com uma transição do presente para o passado, sugerindo que experiências anteriores moldam a identidade de um artista. Em Self Control, podemos fazer uma reflexão sobre o tempo, que não podemos controlá-lo, mas que Ocean tenta capturá-lo em momento de introspecção. A semiótica do disco revela um trabalho profundo e introspectivo, além de multifacetado, em que o artista utiliza tanto o som quanto a imagem para explorar questões complexas de identidade, do amor e do tempo. As escolhas estéticas, as letras e a produção sonora estão imersas em uma rede de significados que questionam o papel da música e da arte na construção do eu e na compreensão das experiências humanas.

Liberdade criativa X Gravadoras 

Uma questão que permeia diversos artistas contemporâneos é a sua liberdade para criar sua música e a relação que estes têm com suas gravadoras. Tendo em vista que as grandes gravadoras visam estritamente o lucro, muitas músicas produzidas que saem do padrão comercial, são cortadas pela alta cúpula das empresas. Nesse sentido, uma massa de cantores acaba se tornando reféns e não produzindo o que quer de fato. Na maioria dos casos, os artistas entram nas gravadoras jovens e sem entendimento de contratos e por conta disso, acabam sendo prejudicados no futuro. Em alguns casos pode ocorrer o risco de até perder o direito de uso das suas próprias canções. Citando como exemplo, a cantora Taylor Swift perdeu o direito de utilizar suas músicas mais antigas [4], pois seu antigo escritório vendeu os direitos de suas produções contra a vontade da cantora e sem a possibilidade de compra da mesma. Por conta disso, a artista norte-americana começou a regravar seus álbuns antigos [5] com pequenas alterações, os “Taylor’s Version”, como uma forma de impedir a venda desses produtos e focar nas produções novas.

Além de Taylor, outros artistas como Kanye West, Rihanna e The Beatles passaram por situações semelhantes. No Brasil, Anitta também enfrentou dificuldades relacionadas ao controle de sua carreira com sua antiga gravadora, a Warner Music. Recentemente, ela conseguiu romper o contrato após uma longa negociação pública, alegando falta de liberdade criativa. Esses casos destacam a importância de contratos justos e da posse dos direitos autorais, incentivando artistas a se informarem melhor sobre as implicações de suas decisões no início de suas carreiras.

Nesse sentido, Frank Ocean passou por uma situação parecida com sua antiga gravadora. Seu contrato com a Def Jam previa o lançamento de dois álbuns de estúdio do cantor. Entretanto, mesmo após Channel Orange ser um sucesso, sua gravadora ainda assim mantia uma pressão sobre o que Ocean deveria produzir em seu próximo trabalho e os direitos dele. O cantor então, elaborou uma estratégia ousada e visionária para driblar as imposições contratuais e reconquistar sua autonomia. Ocean cumpriu seu contrato com a gravadora ao lançar o álbum visual Endless, disponível apenas na plataforma Apple Music, e no dia seguinte, lançou Blonde de forma independente, mantendo controle total sobre os direitos e a criação do segundo álbum. Essa manobra não apenas libertou Frank Ocean das limitações impostas por sua antiga gravadora, mas também se tornou um marco na indústria musical. Sua decisão atraiu outros artistas para reconsiderar suas relações com gravadoras tradicionais e buscar modelos de trabalho que priorizem sua autonomia criativa e financeira.

“Você sabe, o sucesso tem que ser como Frank Ocean. Agora, obviamente, você sabe, ele é super popular, mas eu não diria que ele está jogando conforme as regras da indústria. Ele está tocando de acordo com suas próprias regras — ele está fazendo a música que quer, e não se encaixa em um formato. […] Ele não tem músicas que se encaixem nas rádios pop ou que cheguem a um bilhão de streams”, argumentou Jay-Z à Rolling Stone em 2021 [6].

 

Blonde como referência a outros artistas

Como já citado anteriormente, Blonde é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos segundo a Revista Rolling Stone [7]. Isso só se deu graças a qualidade do trabalho de Ocean e o apelo que a obra recebeu do público e da crítica. Tendo em vista disso, o trabalho do artista se tornou referência a quem produz música em diferentes aspectos. 

Através do seu lirismo pessoal, da narrativa íntima e a forma como Ocean se despe sobre as letras que, cantadas ou faladas, podem traduzir sentimentos que não são individuais, o cantor mostra que é possível se apresentar dessa forma. A vulnerabilidade presente do disco promove uma série de identificações entre o público, o que para outros artistas como Lil Nas X pôde influenciar no processo de produção e composição de suas próprias músicas. O cantor já relatou que Ocean influenciou diretamente sobre as questões envolvendo sua sexualidade e a comunidade LGBTQIAPN+. 

“Acho que artistas como Frank em geral e, como Tyler e outros, eles tornaram mais fácil para mim estar onde estou, confortavelmente”, disse Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe em 2020 [8]. 

 

Através da sua autonomia criativa, Frank Ocean influenciou outros vários artistas a repensarem seus contratos e acordos relacionados aos direitos das suas produções. A liberdade criativa é um dos pontos primordiais para que a arte seja mais autêntica, e para além disso, é possível obter sucesso comercial e criativo sem ter um vínculo com grandes empresas por trás. Tornar-se um artista independente é um desafio enorme, mesmo assim, Ocean influenciou outros colegas da indústria musical como Tyler, The Creator. 

“[…] É minha coisa favorita dele. É estranho porque eu sou amigo dele e esse álbum me fez um fã muito, muito, muito fã”, Tyler The Creator, sobre Blonde a Revistas QG em 2016 [9].

 

Pela visão da produção do disco, é possível compreender que a mistura de diversos elementos do R&B, soul, indie e pop proporcionou novas percepções a uma nova geração de músicos que viria a seguir. Isso demonstra a forma como em Blonde os instrumentos e as camadas de voz empregados tiveram influência em álbuns lançados anos depois. Essa estética teve uma influência notável em álbuns como Melodrama de Lorde, onde a narrativa emocional e a produção orquestral se unem de maneira íntima, e When We All Fall Asleep, Where Do We Go? de Billie Eilish, que explora o minimalismo e o uso criativo de camadas vocais para criar um ambiente sonoro único. Ambos os artistas foram impactados pela capacidade de Blonde de combinar introspecção com inovação sonora, reinventando a maneira de abordar gêneros e emoções na música pop contemporânea.

“É sobre essa grande estúpida felicidade e é intenso – eu sinto como se o instrumental nesta canção meio que ajudou a chegar lá […] Neste tipo de paisagem pós-‘Blonde’, nós meio que podemos fazer o que quisermos em termos de instrumental. É animador. Eu posso usar guitarras e ter uma batida deformada de Flume e jogar isso debaixo d’água”, Lorde disse à NME em 2017 [10].

 

Para finalizar, é possível notar o quão importante Blonde foi e continua sendo para a indústria musical contemporânea. O disco atravessa a ideia de ser apenas uma coletânea de músicas e se apresenta como um manifesto profundo e autêntico, além de independente e experimental pela visão do artista. Frank Ocean não apenas rompeu barreiras estilísticas, mas também redefiniu a maneira como os artistas podem expressar sua vulnerabilidade e explorar temas pessoais em suas produções. 

A produção de Blonde influenciou a criação de novos sons, e ainda, inspirou novos artistas a abordarem suas próprias narrativas. Ocean mostra que a música pode ser extremamente íntima, explorando nuances das emoções e dilemas existenciais, sem perder sua capacidade de agradar o grande público que consome música. Além de impactar a sonoridade da indústria musical, o álbum também influencia na liberdade criativa de uma geração inteira de músicos que o encontraram como inspiração para romper paradigmas e mergulhar na sua singularidade.  

Tudo isso demonstra que a música, quando produzida com dedicação e autenticidade, sem se preocupar com métricas e opiniões, pode ultrapassar diversas barreiras, tocando corações e mexendo com a vida de milhões de pessoas por todo o mundo. Blonde é um ótimo exemplo de como a arte e a emoção podem caminhar juntas e criar algo atemporal e universal, reafirmando o papel transformador que a música pode desempenhar em nossa sociedade.

 

Notas:

[1] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79

[2] Beyoncé em Pink+White: https://www.tiktok.com/@onelastlyric/video/7288436470476541189 

[3] Nights, no minuto 3:30. 

[4] Rolling Stone: Taylor Swift perde os direitos de suas músicas: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-esta-enfurecida-com-venda-da-suas-gravacoes-o-pior-cenario-possivel/

[5] Rolling Stone: Taylor Swift regrava seus discos antigos: https://rollingstone.com.br/noticia/taylor-swift-vai-regravar-os-6-primeiros-discos-depois-de-perder-os-direitos-autorais/#google_vignette

[6] Jay-Z em entrevista à Rolling Stone: https://rollingstone.com.br/musica/jay-z-elogia-frank-ocean-tem-algumas-das-melhores-musicas/#google_vignette

[7] Os 500 melhores álbuns de todos os tempos, segundo a Revista Rolling Stone: https://www.rs500albums.com/100-51/79 

[8] Lil Nas X em entrevista a Zane Lowe: https://youtu.be/EVYGTPg5BMY?si=NMXXTBU5uCotl7V0 

[9] Tyler, The Creator em entrevista a Revista QG: https://www.gq.com/story/tyler-the-creator-frank-ocean-interview 

[10] Lorde em entrevista à NME: https://www.nme.com/news/music/lorde-frank-ocean-influence-melodrama-2090372

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo.” — Uma análise do álbum “As Quatro Estações”, Legião Urbana 

 

Make Fabico Weird Again #1

por Julia Hoppe, Jornalismo UFRGS

Aos nove anos, os graves versos de Renato Russo me soavam lentos, quase deprimentes, mas eu ouvia porque meu pai curtia e eu queria dividir isso com ele. Dez anos depois, apesar de agora apertar o play por gosto, ainda escuto porque meu pai curte e eu quero poder dividir isso com ele. 2.114,7 km separam Porto Alegre de Brasília, cidade onde a Legião Urbana nasceu, em meados de 1982. Meu pai, por coincidência, também mora na capital acinzentada, e essa mesma distância às vezes parece dobrar. Triplicar. Transcender tempo e espaço. 

Para construir esse relato, pedi ajuda a ele, que encaminhou meu pedido para o grupo dos amigos de colégio com quem dividiu adolescência, fitas, discos e escutas. O que os filhos da década de 80 têm a dizer aos pais de 2024? As respostas foram diferentes entre si, mas se entrelaçaram em um mosaico que levava certas palavras em comum: rebeldia, jovem, atemporal, permanente. 

O quarto álbum de estúdio da Legião Urbana, As Quatro Estações, foi lançado em outubro de 1989 e vendeu mais de dois milhões de exemplares. Com a expulsão do baixista Renato Rocha, consolidou-se a formação da banda que perdurou até seu fim, integrando Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Produzida logo após o incidente traumático no Estádio Mané Garrincha que resultou em 70 pessoas detidas e quase 400 feridos, a obra marca uma era mais introspectiva do grupo, que preferiu se resguardar aos estúdios de gravação. Essa foi a última vez que a Legião Urbana se apresentou em sua cidade natal.

No verso do disco, o vocalista adiciona uma curiosa nota de rodapé que conta a história de um livro chamado ‘A Doutrina de Buda’, encontrado por ele em uma gaveta qualquer de um quarto de hotel em São Paulo. No livro está escrito que todas as partes dele podem ser citadas livremente, desde que respeitadas as condições de 1. creditar a fonte e 2. enviar uma cópia da obra que cita o livro para a sede da tal sociedade budista, no Japão. Apesar de não ter feito nenhuma citação literal ao longo do LP, alguns versos do livro serviram de inspiração para sua quarta faixa, Quando o sol bater na janela do teu quarto, o que fez com que Renato seguisse o protocolo, creditando a obra e mandando uma cópia de As Quatro Estações diretamente para o Japão. Até hoje, não se sabe se o disco realmente chegou ao seu destino ou se os budistas gostaram do som, mas o relato diverte os desavisados que passeiam os olhos pela tracklist da contracapa prateada.

 

Vitrola regulável meio enferrujada e disco As Quatro Estações

 Foto: Julia Hoppe, arquivo pessoal

 

Sendo assim, de budismo a Luís de Camões, passando por versos de Cordeiro de Deus, uma emblemática declaração de bissexualidade e uma homenagem aos amigos perdidos em razão do surto de AIDS que se intensificava por volta de 1980, o álbum é uma melancólica viagem para dentro do ser. Escutando nos formatos analógico (disco e vitrola) e digital (via Spotify), é possível perceber diferenças que vão muito além do frio na barriga que o barulho da agulha deslizando pelo vinil arranhado proporciona. O aparelho utilizado por mim para rodar o disco possibilitava regular os graves e agudos do que ele transmitia com o toque de um botão, me permitindo novas interpretações sonoras a cada volta do bolachão. As transições eram mais claras e o fade out do final poderia ter sido mais bem traduzido para a plataforma de streaming, mas a essência é mantida.

 

Neste álbum estão algumas das canções mais lembradas de toda a carreira da banda. Entre eles, logo na segunda faixa, está Pais E Filhos. A escolha perfeita do jovem (não necessariamente atual) semi-alternativo que está no processo de aprender a lidar com o divórcio dos pais. Clássica. O ritmo lento do início que simula uma canção de ninar contrasta perfeitamente com o vocal rasgado e crescente dos últimos refrões. 

Os versos finais sussurrados vêm como um soco despreparado na boca do estômago. Como pode uma estrofe, 35 anos depois de lançada, continuar assombrando a insônia de tantos filhos do Brasil? Renato Russo também foi pai, de um filho que nasceu cerca de seis meses antes desse álbum. À parte das polêmicas, biológico ou não, alguém que compõe:

“Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser quando você crescer?” 

Não está imune de experienciar a paternidade como um acontecimento que transforma e transcende. 

Em Feedback Song For A Dying Friend, uma carta de amor ao fotógrafo americano Robert Mapplethorpe se torna uma ode a tantas histórias, incluindo a do próprio Renato, mastigadas pela epidemia do vírus HIV. A peculiar mistura do rock puro e gritado com o instrumental de inspirações árabes distrai da angústia lírica de um intérprete que abre o coração para cantar sangrando. Ainda, a canção abre com um solo de guitarra colocado para tocar ao contrário, a la disco da Xuxa, que deixa tudo propositalmente mais cru e desconfortável. 

Apesar das linhas conformadas escolhidas para intitular este ensaio, a quarta faixa, Quando O Sol Bater Na Janela Do Seu Quarto, é realmente um respiro budista de positividade. Sempre tive o pensamento de que, se pudéssemos organizar as músicas em caixinhas, essa estaria na mesma prateleira de Here comes the sun, dos Beatles. Já a sua vizinha, Eu Era Um Lobisomem Juvenil, não me causava pensamento algum. Ela seria aquela caixa de papelão que a gente esquece lá no alto do armário e reencontra dez anos mais tarde em uma terça-feira aleatória só para descobrir que dentro estava justamente aquele vestido que estava procurando com tanta vontade. Revisitar esse álbum me deu de presente uma nova-velha música preferida.

“Não falo como você fala, mas vejo bem o que você me diz / Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo / Prefiro acreditar no mundo do meu jeito.” 

Mais sucinto e intimista, quase como uma conversa (ou talvez uma sessão de terapia), As Quatro Estações tem seu momento de gritaria rebelde e revolucionária tão característica da banda com 1965 (Duas Tribos). Ironizando o período da ditadura militar desde o título, a música referencia produtos infantis americanizados como Hanna-Barbera (estúdio americano de desenhos animados) e modelos Revell (réplicas em miniatura colecionáveis de veículos militares) como metáforas capitalistas, seguidas pela antagônica frase “O Brasil é o país do futuro”.  Para os fãs de Índios e Geração Coca-Cola, a acidez punk da faixa é bem mais familiar.

Muitas coisas mudam de significado com o tempo. Expressões, músicas, siglas, pessoas. Confesso que os versos emprestados e melosos de Camões nunca me convenceram, mas com o vozeirão a plenos pulmões de Renato Russo em Monte Castelo no volume máximo do fone de ouvido mais barato, é impossível não se arrepiar. O mesmo vale para Meninos E Meninas, uma desafiadora, orgulhosa e pessoal declaração pública do vocalista de uma das maiores bandas brasileiras da história. Interpretada como um hino plural e muitas vezes platônico, a música, anos depois dos primeiros contatos, mudou de significado para mim e serviu como trilha sonora da descoberta da minha própria bissexualidade, da minha própria identidade.

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre / Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente”

Para o meu pai, escutar essas canções, compartilhar essa juventude com os amigos e então o que sobrou dela comigo era o jeito de sentir que estava preservando a memória de um passado. Em uma realidade tão efêmera, comunicar e construir laços baseados em situações de nostalgia que não podem ser replicadas é natural do ser social. É assim que criamos e mantemos redes de identificação que, quando agrupadas, formam culturas. 

Rebeldia, jovem, atemporal, permanente. São as palavras que meu pai e sua legião urbana de amigos utilizaram para descrever a sensação de escutar as músicas na época de seus lançamentos. Identidade, pertencimento, permanência, saudade. São as palavras que eu, Julia, encontro para descrever a sensação de fazer parte disso no presente.

Clique aqui para acessar o álbum As Quatro Estações na íntegra no Spotify

REFERÊNCIAS:

(DISCLAIMER: As referências foram utilizadas como fonte de consulta dos fatos citados, o texto é de autoria total de Julia Lima Hoppe)

ALMEIDA, Marcello – “Parece cocaína, mas é só tristeza” em: https://www.teoriacultural.com.br/post/especial-legi%C3%A3o-urbana-as-quatro-esta%C3%A7%C3%B5es-1989-parece-coca%C3%ADna-mas-%C3%A9-s%C3%B3-tristeza – Acesso em 20 de dezembro

LIMA, Irlam – “Há 30 anos, fãs da Legião Urbana provocaram um badernaço no Mané Garrincha” em:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/06/17/interna_diversao_arte,689065/ha-30-anos-fas-da-legiao-urbana-provocaram-um-badernaco-no-mane-garri.shtml – acesso em 20 de dezembro

MAIATO, Gustavo – “O clássico da Legião Urbana que precisou de autorização de budistas no Japão para sair” em: https://whiplash.net/materias/news_720/340982-legiaourbana.html – acesso em 20 de dezembro

FUSCALDO, Chris (2016). Discobiografia Legionária.

Com o uso autorizado dos relatos pessoais de Rodrigo Hoppe, Tiago Godoy da Rosa e Dartagnan Faller

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Resenha do álbum Human After All

Make Fabico Weird Again #1

por Ernesto Miguel L. de Souza

Decidi fazer uma análise do álbum Human After All, terceiro álbum de estúdio do Daft Punk, lançado em 2005. Escolhi analisá-lo devido à sua recepção por parte da crítica na época de lançamento, que não deu opiniões muito positivas (na visão deles) pro álbum, com algumas críticas do tipo “é muito robótico”, algo que ganha contornos de ironia pelo fato dos compositores da obra sempre terem se apresentado em público com capacetes de robôs. 

O álbum na época foi considerado o “diferentão” dentro da discografia do Daft Punk, o que até aquele momento fazia até que um pouco de sentido, já que o álbum de fato tem uma sonoridade “menos complexa” que os anteriores, com samples mais simples, embora isso não necessariamente se aplique aos arranjos, porém em 2013 eles lançaram o álbum Random Access Memories (ou simplesmente RAM), que foi um sucesso não se de vendas como de crítica, que curiosamente não reproduziu o mesmo tipo de opinião negativa que foram emitidas com o Human After All, sendo que, na opinião desse que vos escreve, o RAM é que o álbum mais destoante da discografia da banda, que trás uma sonoridade mais acústica, não sendo tão baseado em samples como eram os álbuns anteriores, sendo mais um motivo do porque o decidi investigar mais o Human After All. 

Assim, farei uma análise musical do álbum (ou pelo menos tentarei, já que não tenho nenhuma experiência como crítico), tentando decifrar seus principais elementos de composição, compará-los com outros álbuns do Daft Punk e tentar de alguma forma ponderar se as críticas que eram feitas ao álbum tem sentido ou não.

 

Análise do álbum

Numa análise superficial, logo de cara o que se percebe é que as músicas são em sua maioria formadas por samples, isto é; trechos, acordes e sons de outras músicas, que são mesclados para formar composições diferentes das originais, algo que já é de se esperar do Daft Punk (pra quem conhece os álbuns anteriores), bem como de qualquer banda de house music em geral. 

O que faz com que esse álbum se difira um pouco em relação aos outros é que, como já dito na introdução acima, o Daft Punk optou por fazer composições mais simplificadas em termos da quantidade de samples utilizados, trazendo uma sonoridade mais “industrial” para as faixas, e assim trazendo um tom um pouco mais repetitivo para o álbum, mas não é como se as músicas da banda já não fossem repetitivas antes, principalmente quando revisitamos primeiro álbum deles, Homework, de 1997, que teve sua sonoridade muito pensada como “música de balada”, e isso tampouco impediu que ele tivesse sucesso na época de seu lançamento; faixas como Around the World, que é basicamente a frase título sendo repetida a música inteira com uma batida de fundo, mas é justamente na parte da batida em que vão sendo adicionados elementos novos conforme a música avança, que engajam o ouvinte, e nas músicas do Human After All o Daft Punk continua fazendo isso muito bem, principalmente em faixas como Robot Rock e Technologic.

Mas apesar das músicas serem simples em termos instrumentais e terem uma estrutura repetitiva, isso não impede que haja variedade entre as faixas do álbum, pois aqui temos desde músicas calmas, como a Make Love e Emotion, passando por faixas enérgicas e viciantes como as duas citadas acima, até algumas que beiram a cacofonia como a The Brainwasher (pelo menos para alguns), que ironicamente vem logo depois da calmaria da Make Love.

E uma coisa curiosa são as faixas On – Off e Television Rules The Nation, que eram pra ser uma música só, já que uma é quase que uma intro para a outra, tanto que muita gente comenta que nem percebeu que são duas músicas diferentes quando escutaram o álbum inteiro uma primeira vez, a banda revelou que as músicas só foram separadas porque a Gravadora que eles tinham na época queria que os álbuns tivessem pelo menos 10 músicas, mas esse deles só teria 9 sem esse corte que foi feito, inclusive vale notar que esse álbum é o mais curto do Daft Punk (pelo menos entre os álbuns de estúdio).

 

Análise das críticas ao álbum e comparações

Como dito na introdução, o que me motivou a escrever essa análise foi a descoberta que o álbum não foi bem recebido pela crítica especializada na época de seu lançamento, e eu que tenho esse álbum como o meu preferido do Daft Punk decidi fazer um contraponto, mas antes irei mostrar o que foram essas críticas que foram feitas na época, para que vocês possam ter a noção do tom que elas tinham:

A Pitchfork deu uma nota 4,9 para o álbum, e logo de cara já declara no subtítulo:

“Infelizmente fazendo jus ao título do álbum, o Daft Punk segue o requintado e alegre Discovery com um disco no qual eles parecem estar cumprindo a tarefa e, pela primeira vez na carreira, soando como cínicos.”

Link: https://pitchfork.com/reviews/albums/2137-human-after-all/

Com o resto da review basicamente falando o quanto as músicas dele são uma “versão de pobre” das músicas do Discovery, que é o álbum antecessor deste, e lamentando o fato de que o álbum foi produzido em poucas semanas e por isso não tem a mesma qualidade. 

Já a Rolling Stone, em uma review que até nem está mais disponível no site deles, mas (in)felizmente arquivada, deu duas estrelas e meia de cinco para o álbum, em uma análise que de início parece que será positiva, com o autor falando sobre como o objetivo da banda com esse álbum ser sobre “como a tecnologia transforma nós em robôs”, porém a após isso ele passa apenas a dizer que o álbum sacrificou a musicalidade e que as músicas “não elaboram”, terminando com a frase “(O) Daft Punk pode ter se tornado vítima de sua própria sátira animatrônica.”, fazendo uma clara provocação ao clipe de Technologic, que usava um animatrônico para “cantar” a música). 

Link da review: https://web.archive.org/web/20080316123813/http://www.rollingstone.com/reviews/album/7072263/human_after_all

Pelo The Guardian tivemos uma nota ainda menor, de só duas estrelas de cinco, onde o autor da review relembra o fato de que algumas músicas do álbum vazaram antes do lançamento na época e que os fãs tinham odiado, como se não fosse algo produzido pelo Daft Punk, e assim como outros, a review destaca o baixo tempo de produção da álbum como justificativa de sua suposta qualidade inferior, terminando com o “lacre”: “Se o Daft Punk tocasse isso na sua casa, você os expulsaria.”

Link da review: https://www.theguardian.com/music/2005/mar/11/popandrock.shopping3 

…

Enfim, já está claro que os pontos mais criticados pelos “profissionais” na época foram a repetitividade, simplicidade, “ser muito diferente” e “roboticidade” do álbum. 

Sobre a repetitividade, aqui eu sou obrigado a repetir o que eu escrevi na análise do álbum: o Daft Punk SEMPRE fez isso, o que não seria um problema você achar ruim, só que aí isso significa que você seria avesso à essa banda, o que não é o caso dos reviewers mencionados, que exaltam os álbuns anteriores do Daft Punk, que novamente, também tem sua dose de repetição.

Sobre o argumento da simplicidade, isso me parece muito o argumento do pessoal que acha que o Funk Brasileiro é ruim por “ser simples e não ter nada a agregar”, ou pra fazer uma analogia com outro ramo do entretenimento, de gamer que acha que gráfico de jogo é sinônimo de qualidade, desprezando jogos com gráficos “ultrapassados” ou direção artística mais minimalista que normalmente são feitos por estúdios independentes, e normalmente caindo num elitismo junto com isso, por causa do fato de que jogos graficamente realistas exigem alto poder de hardware, o que não é barato, e é claro que esse tipo de pessoa faz questão de esfregar na cara dos outros o quão melhor ele é só por ter um computador ou console superior, e o mesmo se aplica aqui com a crítica ao fato do álbum ter sido composto em pouco tempo, o que faz eu me perguntar se quem falou isso, ou qualquer outro músico, conseguiria fazer algo melhor no mesmo espaço de tempo…

Outra crítica foi o fato do álbum “ser diferente demais” dos outros do Daft Punk, o que de novo eu repito que não é tanto assim, AINDA MAIS se botarmos em perspectiva que esses mesmos sites deram excelentes notas e recomendações pro álbum de estúdio seguinte do Daft Punk: o Random Access Memories, que adivinha; É MAIS DIFERENTE AINDA, pois ele traz composições muito mais acústicas que as dos outros álbuns, até com músicas que não trazem vocais sintetizados como a Get Lucky. Fica a impressão de que essas pessoas sequer conhecem a discografia da dupla francesa.

E quanto à crítica do álbum ser “robótico demais”, po**a, pelo amor de deus cara, é uma banda onde literalmente os caras sempre se vestem de robôs em público, VOCÊ ESPERAVA O QUÊ?

Enfim, esse texto já está longo e provavelmente vai ficar confuso se eu continuar, porque não foi fácil ler algumas dessas críticas, deixo aqui meu agradecimento por ter chegado até aqui.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A unidade musical de Esteban Tavares

Make Fabico Weird Again #1

por Diego Zapata de Oliveira

 

O álbum “Saca la Muerte de Tu Vida”, composto por Esteban Tavares, funciona quase como um autorretrato da alma do autor em forma de som e poesia. Por meio de composições que expressam seus sentimentos mais íntimos e que são compostas por instrumentos, ritmos e ideias que fazem parte da música de diferentes culturas que influenciaram a vida do músico, ele consegue nos fazer emergir tanto poeticamente quanto sensorialmente nas complexidades do seu ser. Dessa forma, Tavares amarra todas os elementos expressivos de suas músicas em uma unidade, que é esse álbum, e que representa seu ser. Uma constante declaração de um homem que tenta comunicar seu interior de uma maneira que palavras sozinhas não conseguem.

Por mais íntimo que seja a obra de Esteban, o conteúdo que essa traz à tona não cai muito distante de várias lamentações até que comuns no MPB, se pensarmos como exemplo Legião Urbana. A temática do “homem contemporâneo deprimido” que sofre pelo sistema capitalista que o oprime e enquadrada suas relações de amor nessa vida já não é algo tão novo. A reivindicação ao sistema não é completamente explícita em todo o álbum, mas isso claramente está presente e aparece em alguns momentos com mais força, como na faixa  Carta aos desinteressados e outros mais sutis (Janeiro). 

Ainda assim, o principal norte do compositor é a desilusão amorosa. Todas as músicas são praticamente uma lamentação diferente de um amor que já se partiu. É quase como se toda a obra fosse uma constante tentativa do próprio Esteban de implorar para que as coisas se consertem, uma aclamação de alguém que não consegue aceitar que algo acabou e não segue em frente, mas parece tentar. Em alguns momentos o eu lírico parece mais confiante da possibilidade do conserto de tudo, e em outros parece completamente desolado.  

Há algumas exceções que trabalham outros sentimentos e emoções, como Me sinto humano, que fala de instintos mais intensos e, mesmo assim, ainda se encaixa nessa unidade estilística que reflete o âmago do ser de Esteban. A faixa Se não contém nenhuma letra e, talvez não coincidentemente, consegue ser uma das músicas mais alegres do álbum inteiro, perdendo talvez somente para Cigarros e Capitais. 

Combinando essas duas ideias, além de outras que giram em torno desse espectro, a obra propõe reflexões a respeito de problemas da vida contemporânea, como a efemeridade do amor, a opressão para se encaixar dentro de um sistema, solidão, e falta de propósito. É como se o eu-lírico de Esteban quisesse se livrar de todas as amarras invisíveis que predem o seu ser por conta de uma dor decorrida da desilusão amorosa. Uma alma em rebelião por conta, segundo o próprio autor, da tragédia anunciada que é o amor. 

Junto da prosa de suas músicas, a composição se amarra de forma muito natural, forte e ressignificativa. As melodias contêm influências da música gaúcha, argentina, uruguaia e do rock estadunidense. O primeiro elemento de expressão que merece destaque é a gaita de Tavares, instrumento extremamente intrínseco na música gaúcha e países vizinhos. Para quem conhece o instrumento mais familiarmente por essa convenção, ao escutar Saca la Muerte de Tu Vida, a impressão que fica é que sua função expressiva ganha um significado totalmente novo. Quem apresentou a gaita para Esteban foi a cultura gaúcha, mas a gaita que vemos não é a que foi apresentada para ele, mas sim aquela que foi criada dentro dele. Ela é quem rege o tom predominantemente melancólico que arrasta praticamente todo o álbum, como se fosse o violino do Titanic particular do autor. Isso quando também não funciona como uma mensageira do caos, um elemento que anuncia uma tragédia já reconhecida (Chacarera da saudade). Sem sobra de dúvidas é um dos instrumentos mais criativamente bem usados. 

Ao lado de sua gaita, as influências do rock estadunidense transformam as angustias de Esteban em uma declaração emocional potente. Quase todo o álbum é elevado a uma intensidade que funciona na medida certa, sempre dialogando com os outros elementos sonoros expressivos que o autor traz. Certas faixas vão a um tom similar ao rock em termos de composição (Me sinto humano) e outras buscam essa referência mais na maneira forte e alta que certas frases são expressadas. No geral, é essa inspiração que traz uma força necessária em meio a desolação para sentirmos o grito e a necessidade de que as coisas mudem, ou, pelo menos, se concertem. 

Olhando para suas inspirações na música uruguaia e argentina, Chacarera da saudade, Chacarera 2, Tango novo (Nada impede a onda de passar) e Martes são com certeza as faixas mais carregadas com essas duas culturas. Martes é simplesmente uma música com a letra toda em espanhol, um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Chacacera da saudade e Chacacera 2 são músicas bem parecidas com letras quase idênticas, é como se fossem uma a releitura da outra. A palavra “chacacera” é o nome de uma dança popular originária do noroeste da Argentina desde o século XIX.  Ambas são melancólicas, mas Chacacera da saudade se assume com um tom completamente melancólico e desolado no seu som, enquanto Chacacera 2 também preserva um pouco disso, mas se identifica muito mais com um tom latino que lembra mais as características da chacacera. Dessa forma, a segunda versão traz até um ar mais romântico ao invés de uma desolação.

Aproveitando a deixa da pequena análise das músicas com influencia latina, venho apontar as músicas que para mim mais se destacam, começando com Janeiro.

Janeiro 

A faixa começa calma e cresce em dois momentos que o eu-lírico se refere para, provavelmente, algum amante, pedindo que ajude ele a sair de suas angustias. Esses saltos na intensidade, que procedem a uma construção calma de lamentações, se tornam um grande e romântico pedido de ajuda. Melodias que, talvez em um cenário em que considerássemos essas falas como não musicais e ditas na vida real e por alguém real, seriam substituías por sons de choro bem menos belos e poéticos.

Martes

Única música em língua espanhola e provavelmente a mais otimista em termos de relacionamentos amorosos, pois, como já foi dito antes, é um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Por mais que todas as músicas saibam juntar organicamente essa simbiose musical de culturas que Esteban propõe, Martes é a faixa em que todos esses aspectos conseguem ter seu espaço e se expressarem ao extremo. O principal aspecto disso é o cover de guitarra ao final, após o termino da letra. 

 

Carta aos desinteressados 

Sendo essa a música inspiradora para todo esse texto surgir, sem dúvidas é a música mais interessante e reivindicadora do álbum. Aqui, Esteban abre mão de sua temática mais voltada para o amor e encara a sociedade, pedindo que essa o liberte. 

Mais uma vez, Tavares cria uma grande unidade com todos os elementos anteriormente citados e cria uma atmosfera de um mundo distópico, que se torna o maior trunfo da faixa. Ao escuta-la, sensação que é criada é como se ainda vivêssemos em um governo autoritário e essa música é um ato de resistência. Foi a música que mais se beneficiou de toda a ideia que compõe a unidade expressiva do álbum.

 

Chacacera da saudade e Chacacera 2 

Duas versões muito parecidas de uma letra, mas com uma diferença muito crucial: A postura do cantor perante a poesia. Enquanto que Chacacera da saudade, terceira na ordem das faixas do álbum, propõe um tom extremamente desolador e melancólico, estando mais em sintonia com todo o álbum, Chacacera 2, faixa que encerra o álbum, por mais que esse tom ainda existe na melodia, ele é ressignificado pelo canto imponente de Esteban. Agora, a música deixa aflorar suas composições mais latinas, fazendo até nuances de som mais abruptas e seduzentes, abraçando uma pitada do romantismo quente sul-americano. 

 

Saca la muerte de tu vida

Por fim, Esteban Tavares nos oferece um ingresso para uma viagem sensorial e emocional para dentro de ser para presencia-lo tentar achar a saída para tanta lamentação e melancolia. O próprio nome Saca la muerte de tu vida representa essa ideia de superar os problemas do passado e seguir em frente. Na sua ultima música dessa jornada, Chacacera 2, diferentemente da primeira versão Chacacera da saudade, ambas recém comentadas, Esteban apresenta uma postura mais determinado, mais confiante e disposto a enfrentar os demônios de sua alma. Entretanto, Tavares parece que conformar que nunca conseguirá se livrar deles e aceita isso de bom grado. Não é à toa que as palavras de encerramento do álbum são:

“eu não sei ficar só e não quero aprender”.

Referências

NASCIMENTO , Anderson . Resenha do Cd Saca La Muerte De Tu Vida. Galeria Musical, 2015. Disponível em: https://www.galeriamusical.com.br/resenhas.php?url=1019-esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida. Acesso em: 07 dez. 2024. ‌

 

ALOI, André . Saca la Muerte de Tu Vida. Rolling Stone Brasil, 2015. Disponível em: https://rollingstone.com.br/guia-cd/saca-la-muerte-de-tu-vida/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DALCIN, Jurandir . Intenso, “Saca La Muerte de Tu Vida” é o melhor álbum de Esteban Tavares. Portal Comenta, 2024. Disponível em: https://www.portalcomenta.com.br/2024/09/intenso-saca-la-muerte-de-tu-vida-e-o.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DE OLIVEIRA, Dinho. Ex-baixista da Fresno atinge o ápice de sua carreira com novo trabalho. Previamente, 2015. Disponível em: https://previamente.com/2015/06/15/esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida-critica/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024. 

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.