Por Gislaine Thompson, Enfermeira da DPS
Historicamente, ainda que a classe trabalhadora tenha conquistado importantes direitos trabalhistas, a desigualdade de gênero socialmente estabelecida permeia as relações de trabalho, no que se estabelece uma relação de inferiorização da mulher em relação ao homem. Socialmente e, por muito tempo, legalmente estabelecidos, os costumes patriarcais separaram o trabalho com base no gênero, designando aos homens o trabalho de produção e às mulheres, restritas pela privacidade do lar, à reprodução e o cuidado doméstico (FONSECA, JORGE e SALIBA, 2021; MATA et al, 2021).
Mesmo após o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e em outros tantos aspectos da vida em sociedade, o trabalho doméstico e de cuidado de pessoas, ainda que seja algo de interesse de todos, continua quase que exclusivamente, sob responsabilidade das mulheres. A necessidade de associar o trabalho laborativo com a rotina de responsabilidades da família configura o que foi denominado de dupla (ou até tripla) jornada; situação considerada como cerceadora da capacidade de emancipação total da mulher (IPEA, 2019; FONSECA, JORGE e SALIBA, 2021; DORNA, 2021).
Anteriormente à pandemia de COVID-19, as desigualdades de gênero já estavam em evidência no Brasil. Estudo do IBGE (2020ᵃ) demonstrou que as mulheres dedicavam o dobro de horas às tarefas de cuidado da casa e de outras pessoas. Tal situação associada ao fato de as mulheres comporem no mundo 70% da força de trabalho na área da saúde e social, resultou em uma enorme sobrecarga às mulheres durante o período da pandemia (ONU MULHERES, 2020; DORNA, 2021).
Recentemente, um estudo identificou que mais da metade das mulheres entrevistadas passou a cuidar de alguém por conta da situação pandêmica. Para 72% dessas mulheres, o cuidado com idosos e crianças passou a ser redobrado, já que houve o fechamento das escolas e a ausência dos cuidadores pelo risco do contágio (GÊNERO E NÚMERO e SEMPREVIVA, 2020). Esse contexto refletiu na desigualdade associada ao desemprego que, ao atingir 14,3% dos brasileiros nos primeiros três meses de 2020, foi ainda mais prevalente sobre as mulheres (25% a mais que os homens), obrigadas a sair dos empregos para cuidar dos filhos ou familiares ou demitidas por “não conseguir” conciliar o trabalho e as responsabilidades de cuidado com o lar ou família (IBGE, 2020ᵇ).
Outro aspecto, característico do período pandêmico, foi a ampliação do trabalho em home office que, dada as características de dupla jornada, sobrecarregou ainda mais as mulheres ao unir e sobrepor as jornadas, aliado ao aumento da carga mental e das responsabilidades de cuidado (DORNA, 2021; MATA et al, 2021; PORCIÚNCULA, 2022). As medidas de distanciamento social, necessárias para o controle da pandemia, também resultaram, por outro lado, em maiores dificuldades para mulheres vítimas de violência doméstica. A diminuição ou perda da autonomia financeira, o aumento do tempo de convívio com o agressor, o estresse causado pelo medo da doença, a restrição de acesso à serviços, foram fatores associados ao agravamento dos indicadores de violência doméstica.
Cabe ressaltar que todos os aspectos descritos até aqui estão permeados por desigualdade na desigualdade. Ou seja, são ainda mais críticos quando analisados direcionando o olhar para mulheres negras e pobres. A pandemia e a desigualdade afetam a todas as mulheres, mas afetam a todas de maneira desigual, conforme a raça, a renda, o trabalho e a orientação sexual.
A saúde das mulheres, entendida em seu conceito amplo, é diretamente impactada pela desigualdade e, no contexto atual, pela pandemia e suas consequências. Pensar na saúde da mulher, portanto, é pensar e debater, urgentemente, essas desigualdades e a forma como a sociedade se organiza, objetivando mudanças culturais e estruturais sólidas e efetivas.
DORNA, L.B.H. O trabalho doméstico não remunerado de mães na pandemia da COVID-19: mudanças e permanências. Laboreal [Online], v. 17, n. 1, 2021. Disponível em: ˂http://journals.openedition.org/laboreal/17860˃. Acesso em: 03 maio 2022.
FONSECA, B.G.; JORGE, C.; SALIBA, G.R. Da sobrecarga de trabalho ao desemprego: os impactos da pandemia sobre a mulher que trabalha. Cadernos de Direito, v. 20, n. 38, 2021. p. 141-155. Disponível em: ˂https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/cd/article/view/41704222˃ . Acesso em: 04 maio 2022.
GÊNERO E NÚMERO; SEMPREVIVA ORGANIZAÇÃO FEMINISTA. Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia. Sempreviva Organização Feminista, 2020. Disponível em: ˂http://mulheresnapandemia.sof.org.br/wp-content/uploads/2020/08/Relatorio_Pesquisa_SemParar.pdf˃. Acesso em: 05 maio 2022.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Agência IBGE Notícias. Em média, mulheres dedicam 10,4 horas por semana a mais que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Editoria de Estatísticas Sociais, 2020. Disponível em: ˂https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-notici as/releases/27877-em-media-mulheres-dedicam-10-4-horas-por-semana-a-mais-que-oshomens-aosafazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas.˃. Acesso em: 03 maio 2022.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19, 2020. Disponível em: ˂https://covid19.ibge.gov.br/pnad-covid/˃. Acesso em: 11 maio 2022.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICAAPLICADA (IPEA). Trabalho para o mercado e trabalho para casa: persistentes desigualdades de gênero. Comunicados do IPEA, n. 149. Brasília, 2012. Disponível em: https://oig.cepal.org/sites/default/files/usodotempo_br.pdf. Acesso em: 05 maio 2022.
MATA, C.C.I.B.; ARAÚJO, M.M.; MELO, J.K.F; SOUZA, L.A.A.; SILVA, A.I.G.; CRUZ, J.R.; SOARES, L.R.; GUIMARÃES, N.S.; AZEVEDO, V.G.M.; SANTOS, L.J. A mulher no mercado de trabalho uberizado em tempos de pandemia: breve análise sobre os caminhos da desigualdade de gênero laborativo no Brasil. Revista Laborare, Dossiê Fórum Social Mundial Justiça e Democracia, v. 4, n. 7, 2021. Disponível em: ˂https://revistalaborare.org/index.php/laborare/article/view/91˃. Acesso em: 06 maio 2022.
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