Mar calmo não faz bons marinheiros

Por Marco Antônio dos Santos Martins, professor do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS

O IBOVESPA encerrou a última sexta-feira (10) em 100.032 pontos, com alta de 5,23% no mês e redução de perdas do ano para 13,5%. O índice voltou próximo aos patamares de 6 de março, quando abriu a seção em 102.230 pontos e encerrou aquele dia a 97.997 pontos, iniciando uma trajetória de queda que em apenas nove pregões empurraria o índice para 66.895 pontos, perdendo 34,5% entre o dia 5 e o dia 18 de março.

Naqueles dias, em que muitos investidores enfrentavam a sua primeira crise no mercado de ações, os melhores conselheiros de investimentos eram os velejadores, que, em suas viagens, sabem que as tempestades sempre passam, que elas fazem parte da vida, e que ter um bom barco e um bom sistema de informações meteorológicas ajuda a manter a calma para melhor enfrentar as ondas, pois, como diz um dito antigo, “mar calmo não faz bons marinheiros“. O gráfico disponível neste link mostra a evolução no ano do IBOVESPA.

Passadas exatas 79 seções desde aquele fatídico 18 de março, com uma valorização de 49,5%, taxa Selic em 2,25% ao ano, inflação sob controle, incentivos fiscais e monetários, proximidade da descoberta de vacina contra a Covid-19 e relaxamento do isolamento social, os investidores são tomados por certa dose de exagero em suas projeções, por um sentimento de “olha o movimento de alta que eu perdi“, ou ainda, a simples e velha inveja de amigos que aproveitaram a crise para ir às compras, o que pode levá-los a correr atrás do mercado de forma precipitada. Mais uma vez, vale recorrer à experiência dos velejadores, seguindo o conselho de sempre ficar muito atento aos perigos das águas tranquilas e do vento a favor, evitando um “jibe acidental“.

O “jibe”, também conhecido como cambada em roda ou virada em roda, é uma manobra feita para mudar a direção do barco com a proa a favor do vento. Trata-se de uma manobra arriscada, já que – com maior velocidade do vento e navegando-se a favor dele –, o barco ganha impulso com mais facilidade e há risco da retranca, ou seja, que o tubo horizontal que sustenta a vela golpeie a tripulação com a rápida mudança de lado.  No “jibe acidental“, em uma velejada tranquila e rápida com vento a favor, o melhor vento para se velejar, um pequeno descuido no controle do leme e o barco sai da linha do vento, com a vela mudando de lado de forma brusca e a retranca atravessando o convés em alta velocidade, jogando tripulantes ao mar e, muitas vezes, quebrando o mastro principal.

Assim, o movimento de recuperação dos preços das ações demonstra ser consistente no longo prazo, mas precisa ser analisado com toda cautela, pois, como na vela, o risco de “jibe acidental” pode surpreender os investidores, principalmente, quando ainda temos um considerável nível de incerteza associado ao ritmo de recuperação da atividade econômica, a indefinição do cenário eleitoral nos Estados Unidos e a elevada taxa de desemprego e situação fiscal brasileira. A principal expectativa continua sendo a chegada da vacina e o desafio de curto prazo é tentar conter o forte ritmo de contaminação pelo novo coronavírus em estados dos EUA, no Brasil e até mesmo na Ásia.

O Brasil, por exemplo, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa – boletim de domingo (12), edição das 13h – registra 71.584 mortes e 1.846.249 casos. Já em Hong Kong as escolas estão sendo fechadas novamente, de acordo com uma reportagem da mídia local, porque houve aumento nos casos de Covid-19 após um longo período sem infecções, o que forçou o governo a restabelecer as restrições que foram afrouxadas.

Em linhas gerais, cabe ao investidor manter suas posições diversificadas em setores da economia com alto nível de resiliência à crise, realizar lucros de posições adquiridas na crise e aproveitar a volatilidade para aumentar sua exposição ao risco.

Uma boa notícia da semana foi a divulgação do IPCA-IBGE de junho que foi de 0,26%, melhor do que a expectativa do mercado que era de 0,30%. Desta forma, o indicador acumula alta de 0,10% no ano, enquanto o acumulado em 12 meses é de 2,13%, acima dos 1,88% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em junho de 2019, a taxa havia ficado em 0,01%.

De acordo com o IBGE, dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, sete apresentaram alta em junho. O maior impacto (0,08 ponto percentual) veio do grupo Alimentação e Bebidas (0,38%), que acelerou em relação ao resultado de maio (0,24%). A segunda maior contribuição (0,06 p.p.) veio dos Transportes, cujos preços subiram 0,31% após a queda de 1,90% em maio.

Outros destaques foram os grupos Artigos de Residência (1,30%), que apresentou a maior variação positiva no Índice do mês, e Saúde e Cuidados Pessoais (0,35%). No lado das quedas, destaca-se a variação de Vestuário (-0,46%), que contribuiu com -0,02 p.p. no índice de junho. Os demais grupos ficaram entre a queda de 0,05%, ocorrida em Despesas Pessoais, e a alta de 0,75% registrada no setor de Comunicação.

Na mesma linha de entusiasmo do IBOVESPA, o dólar PTAX fechou a semana cotado a R$ 5,344, com uma desvalorização de 2,41% no mês, mas ainda acumulando uma alta de 32,58% no ano.

Já o entusiasmo do mercado de renda fixa é mais tímido que vivido na bolsa e no câmbio, com o que a demanda por Letras do Tesouro Nacional (LTN) e por Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F) permanece limitada à parte curta da curva. As taxas das NTN-Bs mais longas estão sendo negociadas na faixa dos 3,90% a.a., inferior aos 4% a 4,2% de algumas semanas, mas não estão acompanhando o movimento de queda nas taxas de curto prazo.

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