Após proposição da Faculdade de Ciências Econômicas, a UFRGS aprovou, no dia 27 de novembro, a concessão do título de Doutor Honoris Causa a José Graziano da Silva. A distinção é concedida pela Universidade a personalidades eminentes, nacionais ou estrangeiras, que tenham se destacado por sua contribuição à sociedade. Silva contribuiu com mais de 30 anos de conhecimento acadêmico, profissional e político em questões relacionadas à segurança alimentar e ao desenvolvimento rural.
Graduado em Agronomia pela Universidade de São Paulo, onde também concluiu o mestrado em Economia e Sociologia Rural, Silva é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde foi docente, e tem pós-doutorado pelas Universidades de Londres e da Califórnia. De acordo com o professor Marcelo Conterato, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da FCE, Silva “influenciou e continua influenciando gerações de intelectuais, acadêmicos ou não, no Brasil e fora dele”. Conterato e o colega Sérgio Schneider são os autores da proposta de concessão do título ao ex-docente da Unicamp.
“Ao longo de sua belíssima trajetória, suas preocupações sempre se voltaram a influenciar o desenvolvimento e a necessária correção das desigualdades sociais e econômicas. Sempre à frente na percepção das mudanças sociais e econômicas nos níveis local, regional, nacional e internacional, sedimentou temas de extrema relevância, como as questões envolvendo a segurança alimentar, as condições de acesso aos alimentos e o empenho no alcance aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, destacou Conterato.
Trajetória acadêmica
Antes de se aposentar como docente na Unicamp, Silva lecionou por mais de 30 anos e publicou 25 livros sobre desenvolvimento rural, segurança alimentar e economia agrícola. Entre as principais obras, destaca-se A modernização dolorosa, que aborda as transformações da base tecnológica da agricultura brasileira, lançado em 1982, e Progresso técnico e relações de trabalho na agricultura, de 1981, em que trata sobre como a agricultura se insere e se integra ao processo de desenvolvimento das economias capitalistas retardatárias. Com suas publicações, tornou-se autor referencial nos estudos sobre mercado de trabalho rural, especialmente no que se refere aos “bóias-frias”, trabalhadores temporários que migravam do Nordeste para atuar no corte de cana-de-acúçar na região Sudeste.
O pesquisador também foi um dos expoentes no debate sobre agronegócios e um dos mentores do Núcleo de Economia da Unicamp. O grupo se tornou uma escola de pensamento crítico sobre o desenvolvimento agrário brasileiro e formou intelectuais que hoje atuam em universidades e órgãos de governo.
Contribuições ao Brasil
Nos início dos anos 2000, Silva coordenou o desenvolvimento do programa Fome Zero, à frente do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome. O programa introduziu no Brasil um novo modelo de desenvolvimento focado na erradicação da fome e na busca de inclusão social por meio de políticas macroeconômicas, sociais e industriais. A medida ajudou a tirar 24 milhões de pessoas da pobreza extrema em cinco anos e a reduzir a desnutrição no Brasil em 25%.
Em 2014, o Brasil foi removido do Mapa Mundial da Fome, sendo considerado o primeiro país em desenvolvimento a erradicá-la. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) considerou dois períodos distintos para analisar a subalimentação no mundo: de 2002 a 2013 e de 1990 a 2014. Segundo os dados analisados, entre 2002 e 2013, caiu em 82% o número de brasileiros em situação de subalimentação. A organização apontou também que, entre 1990 e 2014, o percentual de queda foi de 84,7%.
Contribuições à comunidade internacional
A partir das experiências brasileiras, Silva conquistou proeminência internacional e se tornou diretor-geral adjunto na FAO para a América Latina e Caribe, em 2006. Ele também assumiu o cargo de diretor geral do órgão por dois mandatos, no período de 2012 a 2019. À frente da organização, voltou o foco do trabalho da FAO em objetivos estratégicos e conduziu uma reforma interna da agência da ONU, reduzindo a burocracia e os custos administrativos.
Além disso, desenvolveu parcerias entre o órgão e sociedade civil, setor privado, instituições acadêmicas e de pesquisa e fundação, e impulsionou a capacidade da FAO de apoiar a cooperação Sul-Sul – intercâmbio de recursos, tecnologia e conhecimento entre países em desenvolvimento. Com a contribuição de Silva, a abordagem do Fome Zero brasileiro tornou-se modelo de um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, que prevê a erradicação da fome e de todas as formas de desnutrição até 2030.
Ao longo dos anos, o pesquisador conquistou vários prêmios acadêmicos. Já recebeu título de Doutor Honoris Causa de universidades de países como Albânia, Azerbaijão, Bélgica, Cazaquistão, Chile, China, Índia, Paquistão, Portugal, Romênia e Rússia.
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