O plano Biden e os limites do capitalismo desregulado

Por André Moreira Cunha e Andrés Ferrari Haines, professores do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS

 

“… the idea of a self-adjusting market implied a stark utopia. Such an institution could not exist for any length of time without annihilating the human and natural substance of society; it would have physically destroyed man and transformed his surroundings into a wilderness.” ― Karl Polanyi, The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time

 

“There is no alternative.” (slogan de campanha de Margaret Thatcher)

 

“For the past 40 years, the federal government has gradually shrunk its investment in public goods: schools, infrastructure, and research into new technologies. This slow decline has undermined broad-based growth. It has weighed-down productivity and curtailed our ability to respond to our nation’s most pressing challenges, including the threat of climate change.” (Janet Yellen, Secretária do Tesouro dos Estados Unidos)[1]

 

Os Limites do Capitalismo Desregulado

Em seu livro mais recente, o cientista político Robert Putnam explora as características centrais na evolução da sociedade estadunidense[2] e suas oscilações entre o individualismo e o coletivismo. Entre o fim da Guerra Civil e a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o forte dinamismo econômico, que transformou o país na maior economia do mundo, conviveu com desigualdades profundas, perda de vitalidade da sociedade civil e riscos crescentes para a nascente democracia, dado o acúmulo desproporcional de poder e riqueza na elite.

A assim chamada “Gilded Age” (“Era Dourada”) coincidiu com o predomínio da ideologia liberal, ainda que na prática os Estados Nacionais protegessem as suas empresas da concorrência externa por meio de elevadas tarifas de importação e criassem mercados consumidores e acesso privilegiado a insumos pelas políticas de expansão imperial[3]. Sua crise nos anos entre as guerras permitiu a emergência de uma fase mais igualitária que, por sua vez, começou a ruir nos anos 1970.

O moderno capitalismo desregulado e globalizado se desenvolveu a partir da convergência de duas forças fundamentais[4]: a rebelião das elites econômicas contra as políticas de bem-estar criadas no pós-Segunda Guerra; e o fim da Guerra Fria, com a posterior ascensão da China à condição de potência global. A chegada ao poder de Margaret Thatcher e Ronald Reagan representou o início do longo processo de desmonte do “consenso keynesiano”, segundo o qual o Estado priorizava o pleno emprego e a coesão social. Aquele, por sua vez, foi o produto da traumática ruptura da ordem liberal. A crise de 1929, a ascensão de regimes totalitários, duas guerras mundiais – que implicaram na morte de pelo menos 100 milhões de pessoas[5] – e o medo do avanço do socialismo soviético criaram as condições para a emergência do capitalismo regulado nesta quadra histórica.

Nesse novo contexto, houve ampla disseminação de direitos políticos e sociais, consubstanciados na intensa elevação dos gastos sociais (educação, saúde, previdência, seguridade social, etc.)[6]. A recuperação econômica no pós-guerra se deu pela atuação do Estado na provisão de infraestrutura física (transportes, comunicações, energia, etc.) e social, bem como pela regulação de vários setores, particularmente os mercados financeiros. Da mesma forma, o financiamento deste novo modelo implicou em ampliação da carga tributária[7], com a introdução de sistemas fortemente progressivos.

Entre os anos 1950 e 1970, os países ocidentais de alta renda e o Japão colheram os frutos da combinação entre Estados atuantes e mercados controlados. As massas populacionais não-proprietárias melhoraram de vida, sem que a elite proprietária tenha sido prejudicada de forma objetiva.  O pacto keynesiano promoveu o período de maior crescimento da renda e da produtividade no moderno capitalismo[8]

Tal trajetória passou a ser revertida a partir do final dos anos 1970 e, com redobrada intensidade, depois dos anos 1990. Rompeu-se, neste momento, a amalgama que havia criado as condições políticas para a pacto keynesiano, qual seja: o medo do comunismo. A queda do Muro de Berlim e o desmonte da União Soviética minaram as políticas inclusivas da social-democracia.

Livres das garras da regulação e da tributação, as grandes fortunas se internacionalizaram e passaram a influenciar o mundo da política de forma desproporcional[9]. A plutocracia política e seus avatares na academia celebraram a cultura da meritocracia, a despeito de haver evidências empíricas abundantes de baixa mobilidade intergeracional entre os estratos de renda, particularmente nos Estados Unidos[10]. Vale dizer, salvo as exceções anedóticas, os ricos são ricos não por mérito próprio, mas porque herdaram tal condição. E os pobres seguem pobres porque as oportunidades de avanço lhes senão sonegadas. Os ajustes fiscais baseados na austeridade – redução de investimentos sociais e de impostos dos estratos de renda mais alta e dos ganhos financeiros – reduziram os mecanismos que antes viabilizaram aquela mobilidade, especialmente o acesso amplo à educação superior de qualidade e gratuita. Isso não impediu a manutenção do apoio fiscal e creditício aos rentistas e empresas de setores conectados ao poder, como exemplifica a forte intervenção estatal nos anos que se seguiram à crise financeira de 2007-2009.

A credibilidade das políticas de desregulamentação e de redução das capacidades estatais[11] foi comprometida com a crise financeira de 2007-2009. Todavia, nem mesmo ela foi capaz de romper a inércia da ideologia anti-Estado. Nos anos que se seguiram, a intervenção estatal se deu, via política monetária, para socorrer os intermediários financeiros. Muito pouco foi feito para recuperar a vitalidade produtiva e disseminar oportunidades entre indivíduos e empresas de menor porte. Para se colocar em perspectiva, a expansão do balanço dos principais bancos centrais entre 2008 e 2018 foi da ordem de US$ 10 trilhões. Com a pandemia, em apenas um ano foram injetados cerca de US$ 9 trilhões[12]. Nos dois casos, a expansão da base monetária evitou a deflação nos preços dos ativos financeiros e estimulou ciclos de elevação intensa em alguns segmentos, particularmente no mercado acionário. No plano fiscal, os estímulos durante a pandemia chegaram a US$ 10 trilhões em 2020, montante três vezes superior àquele empregado em 2008-2010[13].

O rancor dos excluídos, particularmente nos países de alta renda, se manifestou politicamente pelo apoio aos movimentos antissistema, dos quais o Brexit e a eleição de Trump tornaram-se os exemplos mais notórios. A pandemia da Covid-19, aprofundou os problemas distributivos e de fragilização social dos segmentos menos vulneráveis[14]. No mundo desenvolvido, em geral, e nos Estados Unidos, em particular, a polarização política e econômica foi alimentada por anos de distribuição desigual dos frutos do progresso e de ampliação das barreiras à mobilidade social ascendente. No “Fiscal Monitor” de abril de 2021, o Fundo Monetário Internacional aponta que os Estados Unidos lideram o ranking da desigualdade distributiva da renda e da riqueza dentre os países de alta renda. Da mesma forma, esse estudo reafirma que, desde os anos 1980, houve redução na tributação dos estratos superiores de renda e redução na vitalidade das políticas inclusivas, fenômenos que contribuíram para a concentração dos ganhos derivados do crescimento econômico no decil superior da população[15].

A dissonância cognitiva acentuada pela proliferação das redes sociais, controladas por grandes corporações do segmento vencedor das tecnologias de informação, permitiu a canalização da frustação disseminada em temas culturais e políticos. Aos olhos do grande público, as dificuldades dos que “ficaram para trás” poderiam ser atribuídas não aos bloqueios estruturais criados pelo próprio capitalismo desregulado e globalizado, mas sim aos conflitos criados pelos “outros”: os imigrantes; os exportadores asiáticos que exploram mão de obra barata em regimes autoritários; as elites intelectuais que controlam o sistema; e assim por diante[16].

Às vésperas da posse do seu 46º presidente, a sociedade estadunidense se viu diante de um processo acentuado de polarização e violência, que culminou com a invasão do Capitólio, ato extremo, por muitos considerado como uma tentativa frustrada de golpe de Estado[17]. Tal fato abriu a perspectiva de que o novo governo democrata poderia aprofundar as fraturas da sociedade se optasse por ser simplesmente uma retomada do que fora a administração Obama. A pandemia, a concorrência crescente da China, a perda internacional de prestígio do país, a ameaça produzida pelas mudanças climáticas e a corrosão das instituições sociais eram heranças não somente da gestão Trump, mas de quatro décadas de capitalismo desregulado.

 

Sim, Há Alternativas

Em 2021, os Estados Unidos estavam, uma vez mais, assolados por problemas similares aos da “Gilded Age” e pelos novos desafios, especialmente a pandemia da COVID-19 e as mudanças climáticas. Por isso mesmo, o presidente afirmou à nação que:

 

“Few periods in our nation’s history have been more challenging or difficult than the one we’re in now. A once-in-a-century virus silently stalks the country. It’s taken as many lives in one year as America lost in all of World War II. Millions of jobs have been lost. Hundreds of thousands of businesses closed. A cry for racial justice some 400 years in the making moves us. The dream of justice for all will be deferred no longer. A cry for survival comes from the planet itself. A cry that can’t be any more desperate or any more clear. And now, a rise in political extremism, white supremacy, domestic terrorism that we must confront and we will defeat. To overcome these challenges – to restore the soul and to secure the future of America – requires more than words.” (Joe Biden, 20 de janeiro de 2021[18], grifos nossos)

 

Biden não ficou restrito às palavras. Em pouco mais de dois meses o novo presidente assinou 37 ordens executivas[19], muitas delas revertendo medidas da administração Trump em áreas sensíveis como meio ambiente, políticas de gênero, migração, assistência social, dentre outras. E, mais importante, garantiu a aprovação de um amplo pacote de US$ 1,9 trilhão com medidas para mitigar os efeitos sociais, econômicos e sanitários da pandemia.

O “American Rescue Plan”[20]  garante o envio de cheques no valor de US$ 1.400 para cada cidadão em dificuldades, créditos tributários e estudantis, apoio financeiro para os governos locais, alívio para o pagamento de alugueis e demais contas de manutenção das famílias (águas, energia, internet), ampliação da cobertura de saúde (Obamacare) etc.

Poucos dias depois, em 31 de março, a administração Biden divulgou o seu “American Jobs Plan”[21]. São previstos aportes de US$ 2,3 trilhões, que serão direcionados para a infraestrutura física e social. Com isso, espera-se incrementar os investimentos públicos em áreas como energia, transporte e comunicação em 1 ponto percentual do PIB por ano no período de oito anos. Nas demais áreas o incremento seria de 0,5 ponto percentual. O seu financiamento se dará ao longo de um horizonte mais dilatado de tempo – 15 anos – a partir de uma reforma tributária progressista, vale dizer, pela elevação dos impostos das corporações e dos segmentos de alta renda.

A proposta de Biden converge com as estimativas do Mckinsey Global Institute[22] sobre a necessidade de se investir US$ 2,1 trilhões em uma década para recuperar a infraestrutura do país. O Plano Biden pode ser considerado moderado, sem quaisquer indícios de uma proclividade estatizante. Ele simplesmente repõe níveis já observados de investimento público e de tributação sobre empresas e ricos. Como nos lembra Paul Krugman, é longa a tradição estadunidense de utilizar grandes obras de infraestrutura para alavancar o conjunto da economia (“Bidenomics Is as American as Apple Pie”, NYT, 01/04/2021).

 

O quadro abaixo detalha as áreas priorizadas:

Detalhamento em áreas específicas (US$ bilhões) Total

(US$ bilhões)

Infraestrutura Física Saneamento (111), Internet de Alta Velocidade (100), Eletricidade (100), Habitação (213), Educação (137), Outros (8), Transporte aéreo, fluvial e marítimo (42), 689
Transporte Estradas e pontes (115), Transporte Público (85), Ferrovias (80), Veículos elétricos (174), Transporte aéreo, fluvial e marítimo (42), Desigualdades de acesso ao transporte (45), reforço de infraestruturas existentes (50), outros (30). 621
P&D, Indústria e Treinamento P&D (180), Indústria de transformação e pequenos negócios (300), Treinamento (100) 580
Social Apoio para idosos e pessoas que necessitam de atendimento especial 400
Total 2.290

Fonte: elaboração própria com base em Washington Post (https://www.washingtonpost.com/us-policy/2021/03/31/what-is-in-biden-infrastructure-plan/.)

 

A administração Biden trabalha em um terceiro pacote de estímulos na área social[23], com ênfase para a ampliação da cobertura de saúde, os subsídios para o cuidado de crianças, a gratuidade do ensino superior, dentre outras. Assim, se o pacote de alívio aos efeitos da pandemia trata dos problemas de curto prazo com um horizonte de execução em 2021-2022, as novas iniciativas miram solucionar os desequilíbrios do passado e pavimentar alternativas para a recuperação econômica e social do país[24].

A nação mais poderosa do planeta apresenta indicadores de desenvolvimento socioeconômico que estão aquém da autoimagem projetada em sua própria sociedade. No último Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas[25], os EUA aparecem na 17ª posição, dentre 190 países, com um índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,926. Dos três componentes que definem o IDH, o único em que o desempenho dos EUA é significativamente superior à média dos 66 países classificados como de “desenvolvimento humano muito alto” é a renda per capita. Nos outros dois, expectativa de vida ao nascer e escolaridade, os resultados estadunidenses estão ao redor da média.

No caso da expectativa de vida ao nascer, o indicador dos EUA (78,9 anos) equivale ao de Cuba (78,8 anos) e está muito abaixo dos níveis observados nos países mais longevos: Hong Kong (84,9 anos) e Japão (84,6 anos). Já a expectativa de vida saudável ao nascer nos EUA é de apenas 65,3 anos – 3 anos a menos do que a média dos países de IDH muito alto (68,3 anos) e do que Cuba (68,4 anos) e China (68,5 anos); ou 9 anos a menos do que os países com melhores indicadores nesse quesito.

O mesmo acontece quando são analisados os indicadores sobre educação. Os resultados dos EUA estão ao redor da média observada nos países com IDH muito alto, mas abaixo dos líderes em desenvolvimento humano. Assim, por exemplo, os países escandinavos (Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca), que lideram o ranking geral do IDH, apresentam volumes de gasto público em educação entre 7% e 8% do PIB, contra a média de 5% do PIB dos países com IDH muito alto. Já o poder público estadunidense gasta 4,9% do PIB. Portanto, não causa surpresa o fato de que os EUA estão somente na 13a. posição no ranking dos testes educacionais padronizados da OCDE (PISA)[26].

A vulnerabilidade social e os indicadores de violência também são piores nos EUA em comparação aos países com alto desenvolvimento humano: a população encarcerada por 100 mil habitantes é de 4 vezes maior nos EUA (663 versus 173); a taxa de homicídios por 100 mil habitantes é 5,0 nos EUA contra 3,0 naquela média. Ainda nesse tipo de comparação, os EUA apresentam indicadores sociais piores do que a média de seus pares nos seguintes quesitos: número de médicos e leitos hospitalares por mil habitantes; relação entre o número de alunos em sala de aula e professores; jovens entre 15 e 24 anos que não estão na escola ou trabalhando; para citar alguns.

Além dos indicadores estritamente sociais, o desempenho relativo dos EUA também se revela inferior às demais economias avançadas e emergentes em outros quesitos. O “World Competitiveness Report 2020”[27], produzido pelo Fórum Econômico Mundial, destaca que os EUA possuem o melhor ambiente regulatório para o desenvolvimento de novas tecnologias e o quinto melhor em termos de flexibilidade no mercado de trabalho. Todavia, o país sequer conta no ranking dos dez mais competitivos em termos de competências digitais ou na provisão de uma rede de proteção social adequada aos requisitos da moderna competição capitalista.

Já no estudo detalhado de 2019[28], pelo mesmo Fórum, os EUA aparecem com a segunda nação mais competitiva do mundo em um modelo multidimensional. Em aspectos regulatórios, de tamanho de mercado e sofisticação do ambiente financeiro e empresarial se relevam os mais positivos. Já em outras dimensões, as fragilidades não são desprezíveis: em infraestrutura física o país aparecia somente na 13ª posição dentre os 141 países analisados. A qualidade da saúde (55ª posição), a adoção de novas tecnologias de informação (27ª posição), a estabilidade macroeconômica (37ª posição) e a qualidade geral das instituições (20ª posição) estão claramente desalinhadas com a perspectiva de uma nação que se propõe a estar sempre na liderança global.

O Plano de Biden tem um horizonte de mais longo prazo, sendo mais do que uma política de alívio aos efeitos da pandemia ou de ajuste cíclico do nível de atividades. Ela se direciona ao enfrentamento de gargalos estruturais do desenvolvimento econômico nos mercados das tendências atuais, que enfatizam a importância da qualificação dos recursos humanos, da infraestrutura associada à revolução digital e a renovação dos setores de energia, transportes e produção de manufaturas, dados os efeitos negativos das mudanças climáticas. Portanto, as fragilidades da infraestrutura física e social do país comprometem a competitividade do país. Esses aspectos aparecem no diagnóstico oficial que o fundamentou, qual seja:

 

“While the American Rescue Plan is changing the course of the pandemic and delivering relief for working families, this is no time to build back to the way things were. This is the moment to reimagine and rebuild a new economy. The American Jobs Plan is an investment in America that will create millions of good jobs, rebuild our country’s infrastructure, and position the United States to out-compete China.”

 

Ademais, são enfatizados os seguintes problemas estruturais: queda nos investimentos públicos nas últimas décadas; perda de liderança em infraestrutura, na produção manufatureira e na qualificação da mão de obra; avanço maior dos concorrentes na pesquisa e no desenvolvimento de novas tecnologias[29]; o comprometimento de avanços sociais prévios, como nos temas de gênero, raciais e sindicais. E, acima disso, a administração Biden enfatiza a necessidade de enfrentamento da mudança climática e a emergência de uma “China autocrática”.

Na média do período 1980-1985, a economia dos EUA representava 31% da renda global em valores de mercado e 22% em paridade poder de compra. No mesmo período, a participação chinesa nesses agregados era de, respectivamente, 2,6% e 2,8%. Em 2019, os EUA passaram a ter 25% e 15%; e a China, 16% e 19%. Vale dizer, em 2019, a renda chinesa medida em preços internacionais já era maior do que a estadunidense. Nesse mesmo ano, o estoque de capital chinês (21%) já ultrapassava o estadunidense (12%) como proporção do total internacional. A liderança chinesa também já se explicitava nas exportações de bens e na produção de manufaturas.

Diante da perda relativa de vigor econômico e da necessidade de ampliar investimentos produtivos e sociais, a gestão Biden propõe um esquema de financiamento denominado de “Plano de Impostos Made in America”. Busca-se reverter aqui um dos pilares da “rebelião das elites”: a progressiva queda na tributação das grandes empresas e ricos. No Plano de Biden se afirma que é preciso “… make sure corporations pay their fair share in taxes and encourage job creation at home”. Identificou-se que, em 2018, 91 das 500 maiores empresas listadas na lista da revista Fortune não pagaram nenhum centavo em impostos federais.

Sobre esse esquema de financiamento, a Secretária do Tesouro, Janett Yellen, afirmou que:

“The plan revamps a flawed corporate tax code that incentivizes off-shoring and, instead, rewards companies that invest in America’s workers. It ends the global race to the bottom for lower and lower tax rates, something that will stop corporations from shifting their profits into tax havens abroad. It also pays, over the next 15 years, for projects and investments that will build the planet’s most state-of-the-art infrastructure and make America’s workers the most highly-skilled in the world.”

 

A rebelião das elites das últimas quatro décadas está sendo colocada em xeque pela nova administração democrata. Da mesma forma que Franklin. D. Roosevelt, com o New Deal, e Lyndon Johnson, com o Great Society, Joe Biden parece disposto a enfrentar os desequilíbrios gerados pelo capitalismo desregulamentado. Como nos alertou Karl Polanyi, os mercados livres são ficções perigosas, pois produzem desestruturação da vida social e minam a própria possibilidade de preservação das liberdades individuais e da democracia.

Ainda está longe de ser evidente que Biden será bem-sucedido em seu intento. Os primeiros passos em direção à construção de alternativas para reformar o capitalismo estão sendo dados. Porém, as nuvens no horizonte seguem pesadas e a estrada que se avizinha é longa e tortuosa. A capacidade de veto das elites econômicas não foi desconstituída. A oposição do Partido Republicano, tanto por razões ideológicas (o predomínio da perspectiva antiestatal), quanto pragmáticas (não dar fôlego demais aos adversários), seguirá intensa. As alianças internacionais do país estão mais frágeis.  A China se tornou uma economia sistemicamente importante demais para ser ignorada, isolada ou mesmo totalmente contida. Se a agenda doméstica de Biden está se cristalizando, o mesmo ainda não ocorreu plenamente com a política externa. Pelo menos não na mesma direção ou intensidade.

Não se sabe ainda até que ponto Biden está disposto a avançar em uma política global de regulação capitalista em prol da redução das desigualdades e do enfrentamento dos problemas internacionais, especialmente as mudanças climáticas. Para tanto, haveria de se avançar no combate aos paraísos fiscais, refúgios da riqueza da elite internacional, bem como garantir: (i) a tributação dos fluxos de capitais nos moldes sugerido por James Tobin[30], e (ii) o estabelecimento níveis mínimos de contribuição das corporações, de modo a evitar a arbitragem tributária. Janet Yellen sinalizou neste sentido em discurso recente[31].

 

“Another consequence of an interconnected world has been a thirty-year race to the bottom on corporate tax rates. Competitiveness is about more than how U.S.-headquartered companies fare against other companies in global merger and acquisition bids. It is about making sure that governments have stable tax systems that raise sufficient revenue to invest in essential public goods and respond to crises, and that all citizens fairly share the burden of financing government.”

 

Da mesma forma, haveria de se avançar na regulação das grandes corporações em setores como o de tecnologia de informação, finanças e petróleo, para citar alguns. O poder excessivo desses grupos cria assimetrias incompatíveis com a manutenção da democracia liberal. Por fim, não parece ser suficiente ter-se uma economia dinâmica e uma sociedade mais segura em um mundo instável e cada vez mais sujeitos à choques adversos. A cooperação internacional seria outro passo importante no sentido promover uma atuação estadunidense estabilizadora. Nesse sentido, a China já revelou sua capacidade de ampliar parcerias econômicas e políticas por meio do acesso ao seu mercado e seus investimentos. Todos esses elementos já apareceram na renovação do capitalismo estadunidense, tanto na Era Progressiva, que combateu a concentração de poder econômico e político das grandes empresas, quanto no New Deal, no Plano Marshall e no Great Society. A história nos mostra que o capitalismo desregulado é uma fonte permanente de instabilidade social, econômica e política. Resgatar e atualizar as formas de regulação e de ativismo estatal são elementos centrais para tornar as nossas sociedades mais resilientes às transformações em curso, cujos impactos (e soluções) são globais.

[1] Statement by Secretary of the Treasury Janet L. Yellen on the President’s Jobs Plan, 01/04/2021. Em: https://home.treasury.gov/news/press-releases/jy0094.

[2] Robert D. Putnam and Shaylyn Romney Garrett “The Upswing: How America Came Together a Century Ago and How We Can Do It Again”, 2020. Dizem Putnam e Garrett: “We will examine how economic inequality, political polarization, social fragmentation, cultural narcissism, racism, and gender discrimination each evolved over the course of the last 125 years—not merely the last fifty… The story of the American experiment in the twentieth century is one of a long upswing toward increasing solidarity, followed by a steep downturn into increasing individualism. From “I” to “we,” and back again to “I.””

[3] Ver: Ha Joon Chang “Kicking Away the Ladder” (2002); Richard Evans “The Pursuit of Power” (2016).

[4] Ver: Christopher Lasch, “The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy”, 1996; Francis Fukuyama, “Identity: The Demand for Dignity and the Politics of Resentment” (2018); e Thomas Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (2014) e “Capital and Ideology” (2020).

[5]Ver:https://www.britannica.com/event/World-War-I/Killed-wounded-and-missing; https://www.britannica.com/event/World-War-II/Human-and-material-cost

[6] Entre o último quartel do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, o gasto público total (incluindo o pagamento de juros) não ultrapassava os 10% do PIB nos países de alta renda. Já o gasto social era inferior a 2% do PIB. Depois da Segunda Guerra Mundial, ambas as medidas se expandiram, atingindo valores acima de 40% do PIB (gasto total) e 30% do PIB (gasto social). Ver: https://ourworldindata.org/government-spending

[7] Até a Primeira Guerra Mundial, as receitas tributárias raramente ultrapassavam 10% do PIB nos países de alta renda. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve um movimento generalizado de elevação, particularmente até os anos 1970. Detalhes em:https://ourworldindata.org/taxation.

[8] As evidências e os detalhes estão em dois estudos recentes do Banco Mundial: Global Productivity: Trends, Drivers, and Policies (https://www.worldbank.org/en/research/publication/global-productivity); e “Global Recessions” (https://elibrary.worldbank.org/doi/abs/10.1596/1813-9450-9172). No primeiro estudo, lê-se que: “In advanced economies, productivity growth has experienced a long-run decline over the past 40 years, while in general, EMDE labor productivity growth has trended up over the same horizon until the GFC. In EMDEs, labor productivity growth has declined from pre-crisis levels in the longest and most-broad based multi-year decline since the 1980s. EMDE commodity exporters have had the weakest average productivity growth since 2013. Productivity growth in commodity importers and LICs has been more resilient, although the post-crisis slowdown has affected all regions.” (p.9)

[9] Paul Volcker, o ex-presidente do FED na era da grande desinflação e reconhecido conservador (Keeping At It: The Quest for Sound Money and Good Government, 2018), sugeriu que a perda de credibilidade nas instituições públicas aconteceu a partir da sua capturada pelo poder corrosivo do dinheiro e afastadas dos interesses mais gerais da sociedade. Ver, também, Robert Skidelsky, “What’s Wrong with Economics? A Primer for the Perplexed” (2021)

[10]Ver: Is the United States Still a Land of Opportunity? Recent Trends in Intergenerational Mobility (https://www.nber.org/search?page=1&perPage=50&q=intergenerational%20inequality); The intergenerational transmission of wealth in rich countries (https://voxeu.org/article/intergenerational-transmission-wealth-rich-countries); e Thomas Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (2014) e “Capital and Ideology” (2020).

[11]Francis Fukuyama, um dos seus ideólogos, fez uma revisão de sua posição, agora no contexto da crise da COVID-19: “Given the importance of strong state action to slow the pandemic, it will be hard to argue, as Reagan did in his first inaugural address, that “government is not the solution to our problem; government is the problem.” Nor will anybody be able to make a plausible case that the private sector and philanthropy can substitute for a competent state during a national emergency” https://www.foreignaffairs.com/articles/world/2020-06-09/pandemic-and-political-order)

[12] Ver: https://www.yardeni.com/pub/peacockfedecbassets.pdf.

[13] Ver: https://www.mckinsey.com/featured-insights/coronavirus-leading-through-the-crisis/charting-the-path-to-the-next-normal/total-stimulus-for-the-covid-19-crisis-already-triple-that-for-the-entire-2008-09-recession; “What will last? The long-​term implications of COVID-​19” (https://www.credit-suisse.com/about-us/en/reports-research/studies-publications.html).

[14]Por isso não surpreende que o Financial Times tenha defendido a renovação do contrato social: “Radical reforms — reversing the prevailing policy direction of the last four decades — will need to be put on the table. Governments will have to accept a more active role in the economy. They must see public services as investments rather than liabilities, and look for ways to make labour markets less insecure. Redistribution will again be on the agenda; the privileges of the elderly and wealthy in question. Policies until recently considered eccentric, such as basic income and wealth taxes, will have to be in the mix” Ver o editorial “Virus lays bare the frailty of the social contract”, https://www.ft.com/content/7eff769a-74dd-11ea-95fe-fcd274e920ca

[15] “Since the 1980s both the average market income inequality and the capital share of income at the top of distribution have risen … Tax policy has meanwhile become less progressive, with significant declines in top marginal tax rates for both labor and capital incomes. “(IMF Fiscal Monitor, April 2021, p. 36).

[16] Ver: Steven Levitskye Daniel Ziblatt “How Democracies Die” (2019); Yascha Mounk “The People vs. Democracy: Why Our Freedom Is in Danger and How to Save It” (2019).

[17] Ver: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2021/01/attempted-coup/617570/; https://www.nytimes.com/2021/01/07/world/americas/what-is-a-coup-attempt.html

[18] Ver: https://www.whitehouse.gov/briefing-room/speeches-remarks/2021/01/20/inaugural-address-by-president-joseph-r-biden-jr/

[19]Ver: https://www.federalregister.gov/presidential-documents/executive-orders/joe-biden/2021.

[20] Ver: https://www.whitehouse.gov/american-rescue-plan/

[21] Ver: https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2021/03/31/fact-sheet-the-american-jobs-plan/

[22] Ver: https://www.mckinsey.com/business-functions/operations/our-insights/reimagining-infrastructure-in-the-united-states-how-to-build-better

[23] Ver: https://www.washingtonpost.com/us-policy/2021/03/31/what-is-in-biden-infrastructure-plan/.

[24] O caso dos EUA é paradigmático dentre as economias de alta renda, tendo em vista o menor vigor das políticas sociais em comparação a outros países, especialmente europeus. De acordo com o Mckinsey Global Institute a crise no contrato social moderno se expressa, principalmente, pois: “… work have expanded, employment rates have risen to record levels in many countries, and many benefits have improved, although not everywhere. At the same time, work polarization and income stagnation, while varying in magnitude across countries, have grown. While the availability and cost of many discretionary goods and services have fallen sharply, the cost of basic necessities such as housing, healthcare, and education has grown and is absorbing an ever-larger proportion of incomes. Coupled with wage stagnation effects, this is eroding the welfare of the bottom three quintiles of the population by income level (roughly 500 million people in 22 countries). Public pensions are being scaled back, and roughly the same three quintiles of the population do not or cannot save enough to make up the difference. Moreover, in the post-crisis macro and monetary policy environment especially, the investment opportunities for a majority of households have been unattractive. While the average wealth for individuals has recovered to pre-crisis levels, the wealth of the median individual is still almost one-fourth below pre-crisis levels.” (p. 1) – “The social contract in the 21st century”, McKinsey Global Institute, 2020.

[25] Ver: http://hdr.undp.org/en/content/download-data

[26] Ver: https://www.oecd.org/pisa/publications/pisa-2018-results.htm

[27]http://www3.weforum.org/docs/WEF_TheGlobalCompetitivenessReport2020.pdf.

[28]http://www3.weforum.org/docs/WEF_TheGlobalCompetitivenessReport2019.pdf

[29] De acordo com o “Plano de Empregos”: “We are one of the few major economies whose public investments in research and development have declined as a percent of GDP in the past 25 years. Countries like China are investing aggressively in R&D, and China now ranks number two in the world in R&D expenditures.”

[30] James Tobin (July–October 1978). “A Proposal for International Monetary Reform”. Eastern Economic Journal. 4 (3–4): 153–159;

[31] https://home.treasury.gov/news/press-releases/jy0101.

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