Qualquer abalo na economia chinesa representa grande temor para investidores e governantes mundo afora. O fechamento da Bolsa de Xangai após declínio 7% das ações, duas vezes na mesma semana, abre o ano confirmando as perspectivas de mais um ano difícil para a economia global.
O professor do Departamento de Economia da UFRGS, Fernando Ferrari Filho, fala sobre as motivações para a queda das ações e as estimativas de prejuízos para a economia brasileira, considerando que a China é o principal parceiro comercial do país. Por outro lado, destaca o economista, as turbulências internas podem contribuir para recrudescer ainda mais o atual cenário desfavorável da economia brasileira.
Quais fatores explicam a queda da Bolsa de Xangai e o consequente reflexo nas bolsas mundo afora?
A queda das bolsas era um comportamento já esperado por vários motivos. A elevação da taxa de juros dos EUA é um fator. Toda vez que ocorre elevação dos juros, principalmente da locomotiva da economia mundial, há um impacto na economia internacional, uma vez que os juros norte-americanos são referência para os juros dos demais bancos centrais mundiais. A taxa aumentou para 0,5%, porém, segundo a presidente do Banco Central, Janet Yellen, poderão ocorrer novos aumentos ao longo de 2016. As expectativas de mercado são de que no final de 2016 a FED Funds esteja em 1,25% ao ano. Além disso, a recuperação da economia norte-americana está ocorrendo de forma muito lenta.
Outro fator é que, nos últimos anos, o desaquecimento da economia da China, especialmente a desaceleração de sua produção industrial, e os problemas de endividamento público e de crise bancária acabaram impactando o mercado internacional.
Se acrescentarmos o fato de que a economia europeia está estagnada há muito tempo, bem como há um cenário de instabilidade política internacional decorrente do conflito no Oriente Médio, da possibilidade de novos atentados terroristas e do processo descontrolado de migração síria para a Europa, então tem-se um ambiente mundial perfeito para a queda nas bolsas.
Quando começou a crise na China?
O governo chinês sabia das dificuldades em manter a dinâmica de crescimento acelerado muito antes da crise do subprime (2007-2008). Hoje é impossível se ter a mesma dinâmica de seis, sete anos atrás. A China crescia, em média, 11% ao ano; agora o crescimento médio anual é de 6,5%. O desaquecimento chinês passou a ocorrer após a crise financeira internacional. Ademais, em um cenário mundial de menor crescimento econômico, a desaceleração da China é uma tendência.
Nesse sentido, não é por nada que a China está se voltando para o mercado doméstico.
Voltando à questão da queda da Bolsa de Xangai, os preços dos ativos financeiros são formados com base nas expectativas de dinâmica de crescimento, de investimentos e de taxas de juros e câmbio condizentes, entre outras.
Ademais, o grau de confiança dos empresários é fundamental para a expansão dos investimentos que, por sua vez, geram a valorização dos preços das ações. Infelizmente, a incerteza econômica em nível mundial está afetando o grau de confiança dos empresários. Assim, os investimentos, sejam na China, sejam mundo afora, se retraem, provocando desaceleração econômica.
Nos últimos anos, os investimentos estrangeiros diretos, tanto na China, quanto em outras economias emergentes, se arrefeceram.
Como o Brasil será impactado por essas turbulências?
Há poucos dias foi divulgado o superávit da economia brasileira em 2015, que foi de 19,6 bilhões de dólares. Se não fossem a queda dos preços das commodities agrícolas e minerais e a diminuição das demandas internacionais por produtos do Brasil, esse superávit seria de quase 30 bilhões de dólares, segundo estimativas do governo federal. Portanto, a desaceleração das economias chinesa e mundial já vem afetando o Brasil.
Para 2016 são esperadas várias turbulências, inclusive relacionadas ao câmbio. Nesse particular, pode-se ter uma externalidade positiva: como estamos em recessão e não será possível apostar no aumento do consumo interno, a busca do mercado externo, mesmo desaquecido, é uma solução.
No ano passado o câmbio foi desvalorizado em 48%. O que esperar para 2016? Uma desvalorização que, pelo menos, reponha a inflação de 2015 que deve ter ficado entre 10% e 11%. Ou seja, ao final do ano a taxa de câmbio deverá estar próxima a R$ 4,40. Ótimo para os exportadores e as contas externas brasileiras. Agora, não tenhamos dúvidas: haverá muita volatilidade da taxa de câmbio ao longo do ano.
Por Samantha Klein, jornalista


