Crescimento sem limites? O que o modelo AK ensina sobre investimento e produtividade
Giácomo Balbinotto Neto PPGE/UFRGS-EA
O que explica o crescimento sustentado de algumas economias ao longo de décadas? Por que países como Coreia do Sul e China, nas últimas duas décadas, conseguiram acelerar sua renda per capita, enquanto outros permanecem presos a trajetórias de baixo dinamismo?
A resposta passa por uma mudança relevante na teoria econômica a partir dos anos 1980: o surgimento dos modelos de crescimento endógeno. Entre eles, o modelo AK se destaca pela simplicidade e pela força explicativa.
Durante décadas, o modelo neoclássico de Robert Solow dominou a análise do crescimento econômico. Sua principal conclusão era clara: a acumulação de capital, isoladamente, não sustenta crescimento permanente, pois está sujeita a rendimentos decrescentes. O progresso tecnológico — essencial para o crescimento de longo prazo — aparecia como fator exógeno.
As contribuições de Paul Romer e Sergio Rebelo mudaram esse diagnóstico. No modelo AK, o crescimento econômico pode ser gerado internamente, desde que o capital seja entendido de forma ampla: não apenas máquinas e infraestrutura, mas também educação, conhecimento, inovação e capacidade institucional.
Nesse contexto, o produto cresce proporcionalmente ao capital — investir não reduz a produtividade marginal. A taxa de crescimento passa a depender da taxa de investimento e da qualidade desse investimento. Em linguagem direta: economias que investem mais — e melhor — tendem a crescer mais.
Os dados corroboram essa intuição. Informações da Penn World Table mostram que, entre 2000 e 2019, economias asiáticas com taxas de investimento superiores a 30% do PIB cresceram, em média, entre 5% e 8% ao ano, enquanto países com investimento próximo de 20% do PIB, como o Brasil, apresentaram crescimento inferior a 3% ao ano.
A China é o caso mais evidente: combinou investimento elevado, rápida urbanização e absorção tecnológica. A Coreia do Sul seguiu trajetória semelhante, com forte ênfase em educação e inovação. O Brasil, por outro lado, manteve taxas de investimento relativamente baixas e produtividade estagnada, limitando seu crescimento. O caso brasileiro sugere que o problema não é apenas investir menos, mas investir com menor produtividade.
Essa evidência está em linha com o modelo AK. O crescimento não depende apenas de acumular capital físico, mas de transformar investimento em capacidade produtiva permanente. Máquinas importam — mas máquinas combinadas com educação, inovação e instituições inclusivas importam muito mais.
Outra implicação relevante é a ausência de convergência automática. Diferentemente do modelo neoclássico, países não tendem necessariamente a alcançar os mais ricos. Economias que investem mais em capital humano e inovação podem sustentar vantagens ao longo do tempo. O crescimento gera capacidade de investir, e o investimento sustenta o crescimento.
Esse ponto é central para países de renda média. Sem ganhos persistentes de produtividade, educação de qualidade e ambiente institucional favorável, o crescimento tende a permanecer baixo. O modelo AK ajuda a entender por que essa armadilha é difícil de superar.
As implicações para política econômica do modelo AK são diretas. Educação, pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura e qualidade institucional deixam de ser apenas desejáveis: tornam-se determinantes da taxa de crescimento de longo prazo.
O modelo AK, naturalmente, é uma simplificação. Nem todo investimento é produtivo, e retornos constantes não são observados em todos os contextos. Ainda assim, sua contribuição é clara: o crescimento pode ser explicado por decisões internas à economia — e não apenas por choques tecnológicos.
Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, a lição permanece atual: crescer não é apenas acumular capital físico. É ampliar continuamente a capacidade de aprender, inovar e investir com eficiência em um ambiente de instituições inclusivas.


