A Economia das Superestrelas, 45 anos depois de Roger Federer a Cristiano Ronaldo: talento, atenção e renda na
economia digital
Fernando Boeira Sabino
Professor no Departamento de Economia e Relações Internacionais da FCE/UFRGS
1 Introdução
Roger Federer encerrou sua carreira profissional vencendo aproximadamente 54% dos pontos disputados no circuito. Embora sua vantagem sobre os adversários fosse de apenas cerca de 8% nos pontos jogados, Federer venceu mais de 80% das partidas que disputou e conquistou 20 títulos de Grand Slam. Pequenas vantagens acumuladas ao longo do tempo produziram resultados esportivos extraordinários.
No mercado, porém, a diferença foi ainda maior. Federer acumulou uma fortuna estimada em mais de US$ 1 bilhão, embora não fosse centenas de vezes mais talentoso do que os demais jogadores do circuito.
A mesma aparente contradição aparece em outros esportes. Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar jamais estiveram centenas de vezes acima dos demais jogadores profissionais de futebol em termos de habilidade. Da mesma forma, Michael Jordan não era dezenas de vezes melhor do que os demais jogadores da NBA.
Uma lógica semelhante aparece em muitos mercados de trabalho altamente competitivos. Diferenças relativamente pequenas de produtividade podem gerar diferenças muito maiores de remuneração, especialmente quando tecnologia, escala e preferência dos consumidores amplificam essas vantagens. Cantores, atores, atletas e criadores de conteúdo raramente são centenas de vezes mais talentosos do que seus concorrentes, mas frequentemente recebem centenas de vezes mais.
Por que pequenas diferenças de desempenho produzem diferenças tão grandes de renda?
Essa foi a pergunta formulada por Sherwin Rosen no artigo The Economics of Superstars, publicado no American Economic Review em 1981.
A ideia central da teoria das superestrelas é simples: quando consumidores preferem os melhores produtos disponíveis e a tecnologia permite distribuição em larga escala, pequenas diferenças de talento podem gerar enormes diferenças de renda.
A Figura 1 ilustra esse mecanismo.
Figura 1: Relação convexa entre talento e renda em mercados de superestrelas
Quarenta e cinco anos depois, em um mundo dominado por plataformas digitais, redes sociais e streaming, os mecanismos descritos por Rosen tornaram-se ainda mais visíveis. […]
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