Discriminação no mercado de trabalho: o que a economia realmente explica?
Giácomo Balbinotto Neto (Prof. de Economia do PPGE/UFRGS-EA)
Por que mulheres continuam recebendo salários menores do que homens mesmo tendo, muitas vezes, maior escolaridade média? Por que trabalhadores negros enfrentam taxas mais elevadas de desemprego, informalidade e menores oportunidades de promoção? E por que essas desigualdades persistem mesmo em economias modernas e competitivas?
Essas perguntas estão no centro de uma das áreas mais importantes da economia do trabalho: a economia da discriminação.
Embora o tema frequentemente apareça em debates jurídicos, políticos ou sociológicos, a economia desenvolveu modelos sofisticados para entender como a discriminação afeta salários, emprego, produtividade e crescimento econômico.
O ponto de partida dessa revolução intelectual foi o trabalho seminal de Gary Becker (ganhador do Prêmio Nobel de Economia). Em The Economics of Discrimination (1957), Becker mostrou que o preconceito também pode ser analisado como um fenômeno econômico racional — ainda que socialmente injusto e economicamente ineficiente.
Antes de Becker, muitos autores tratavam a discriminação apenas como um problema moral, sociológico ou psicológico. Becker inovou ao incorporar o preconceito aos modelos microeconômicos de comportamento. Sua hipótese era simples: algumas pessoas estariam dispostas a “pagar” para evitar interagir economicamente com determinados grupos. Na prática, isso significa que um empregador preconceituoso age como se contratar uma mulher, um negro ou um imigrante fosse mais caro do que realmente é. O preconceito funciona como um “custo subjetivo”. Mas Becker foi além. A discriminação poderia surgir não apenas do lado do empregador, mas também do consumidor e até dos próprios colegas de trabalho.
Imagine um restaurante em que parte dos clientes prefira ser atendida apenas por determinados grupos sociais. Mesmo que o garçom discriminado seja igualmente produtivo, a empresa pode acabar deslocando esse trabalhador para funções com menos contato com o público. Segundo Becker, esse tipo de discriminação ajuda a explicar por que alguns grupos ficam concentrados em ocupações “invisíveis”, enquanto outros dominam funções de atendimento, liderança ou representação pública. Isso ajuda a entender fenômenos observados historicamente em hotéis, comércio, serviços financeiros e até no entretenimento.
Becker também chamou atenção para outro mecanismo importante: a discriminação praticada pelos próprios colegas de trabalho. Em muitos ambientes, trabalhadores podem rejeitar trabalhar com determinados grupos por preconceito racial, religioso, étnico ou de gênero. Nesse caso, empresas podem acabar segregando equipes ou pagando “prêmios salariais” para evitar conflitos internos. O resultado pode ser a formação de ambientes de trabalho segregados, mesmo quando não existe discriminação explícita nas regras formais da firma.
Gary Becker Becker acreditava que mercados altamente competitivos tenderiam a punir empresas discriminadoras. Afinal, firmas preconceituosas deixariam de contratar trabalhadores produtivos e poderiam perder eficiência e lucros. Mas a realidade mostrou que o problema era mais complexo. Mesmo em mercados competitivos, desigualdades persistem há décadas. Isso levou economistas como Kenneth Arrow e Edmund Phelps, também ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, a desenvolverem a teoria da discriminação estatística.
Na teoria da discriminação estatística, o problema surge da informação imperfeita. Empresas não conhecem perfeitamente a produtividade futura de cada candidato. Para reduzir incertezas, acabam utilizando “atalhos estatísticos”, baseados em características médias dos grupos aos quais os indivíduos pertencem. Por exemplo: um empregador pode supor que mulheres terão maior rotatividade devido à maternidade ou que determinados grupos possuem menor qualificação média. Mesmo que isso não seja verdadeiro para o indivíduo específico, essas expectativas afetam salários e contratações. O resultado é perverso: pessoas igualmente produtivas recebem tratamentos diferentes apenas por pertencerem a grupos distintos.
Os dados recentes do IBGE mostram que essas desigualdades continuam relevantes no Brasil. Segundo a PNAD Contínua do quarto trimestre de 2024, a taxa de desemprego entre homens foi de 5,1%, enquanto entre mulheres chegou a 7,6%. Entre pessoas brancas, a taxa foi de 4,9%, mas atingiu 7,5% entre pretos e 7,0% entre pardos. As diferenças de renda também permanecem expressivas. Estudos recentes baseados na PNAD mostram que trabalhadores negros continuam recebendo rendimentos substancialmente inferiores aos trabalhadores brancos. Em 2024, o rendimento médio dos trabalhadores negros foi cerca de 40% inferior ao dos não negros. Essas diferenças persistem mesmo após avanços educacionais e expansão do acesso ao ensino superior.
Um dos maiores desafios da economia é separar desigualdades “explicáveis” — como educação, experiência ou treinamento — da discriminação propriamente dita. Para isso, economistas usam diferentes métodos empíricos.
Um dos mais famosos é a decomposição Oaxaca-Blinder, que separa a parcela do diferencial salarial explicada por capital humano daquela que permanece sem explicação observável — frequentemente interpretada como discriminação.
Outro método importante são os experimentos de campo (audit studies). Pesquisadores enviam currículos praticamente idênticos para vagas de emprego, alterando apenas características como nome, gênero ou raça. Diferenças nas respostas recebidas ajudam a identificar discriminação nas contratações.
Hoje também são utilizados modelos econométricos avançados, bases administrativas massivas, técnicas de machine learning e estudos sobre vieses algorítmicos em recrutamento digital.
A principal contribuição da economia foi mostrar que discriminação não é apenas um problema ético, moral, sociológico ou jurídico. Ela também reduz eficiência, desperdiça talentos, distorce incentivos e limita o crescimento econômico. Economias que impedem parte de sua população de desenvolver plenamente suas capacidades tendem a inovar menos, produzir menos e crescer menos.
Ao transformar o preconceito em objeto de análise econômica rigorosa, Gary Becker abriu caminho para uma das áreas mais influentes da moderna economia do trabalho. E, quase sete décadas depois, suas perguntas continuam extremamente atuais, relevantes e importantes para o entendimento do mercado de trabalho.


