Professores da FCE falam sobre os 20 anos do Plano Real

O Plano Real completou 20 anos este ano e, para relembrar os méritos e falhas do plano, o Portal FCE conversou com os professores da Faculdade de Ciências Econômicas Fernando Ferrari, Flavio Fligenspan e Ricardo Dathein acerca do tema. Confira a entrevista completa abaixo.

Portal FCE: Além do mérito do controle inflacionário no contexto, quais outros méritos e falhas podem ser apontadas na criação da moeda que está vigente no país há 20 anos?

Fernando Ferrari Filho: O mérito inquestionável foi ter eliminado um crônico e acelerado processo inflacionário ao redor de 50,0% ao mês, para uma inflação média anualizada na ordem de 7,9%. Para tanto, foi imprescindível ter desmantelado o mecanismo generalizado de indexação de preços e salários da economia. A falha foi que o Plano Real e as demais sistemáticas de estabilização inflacionária implementadas nos últimos anos, tais como o regime de metas de inflação, preocuparam-se, unicamente, em manter a inflação sob controle, negligenciando a dinâmica do crescimento. O resultado dessa negligência é que o PIB cresceu, em média, nos últimos 20 anos, somente 3,0% ao ano.

Flavio Fligenspan: O grande mérito foi controlar uma inflação que sempre ameaçou se transformar numa hiperinflação sem controle, além de recuperar a credibilidade da moeda nacional e, assim, dar estabilidade às relações econômicas. As falhas incluem o fato de ainda termos uma inflação que pode ser considerada alta, ainda mantermos mecanismos formais e informais de indexação, não termos um amplo mercado de capitais – por falta de confiança no longo prazo -, e não termos conseguido aumentar a taxa de investimento e as taxas de crescimento da economia.

Ricardo Dathein: O Plano Real foi uma medida heterodoxa muito bem elaborada e executada. Ele possibilitou, em tese, mudar o foco do curto prazo para o longo prazo na gestão da política econômica. No entanto, infelizmente, estávamos em um contexto liberal no qual se pensava que o mercado resolveria a questão do crescimento econômico, o que não se concretizou. Portanto, considero que o maior problema não esteve no Plano Real em si, mas na interpretação que se fez. Mas um problema que persiste é que ainda existem indexações que impedem uma maior redução da taxa de inflação.

 

Fernando Ferrari Filho

 Fernando Ferrari Filho. 

Portal FCE: Como uma moeda relativamente mais estável altera as expectativas dos agentes econômicos, tanto internos como externos?

Fernando Ferrari Filho: Ela mantém relativamente estável o poder de compra e os lucros dos agentes econômicos, bem como permite a realização de planejamento de gastos e tomadas de decisão.

Flavio Fligenspan: Uma moeda estável permite o planejamento das empresas, dos consumidores e do governo. Assim, esses agentes podem projetar com mais acuidade suas receitas e despesas por prazos mais longos, oferecer e tomar crédito e projetar o futuro com menor risco. Isso também vale para as relações do país com o exterior, oferecendo maior estabilidade às operações cambiais, de importação e exportação e de transferências de recursos.

Ricardo Dathein: O controle inflacionário deu mais estabilidade para a decisão de produção e investimento, o que é fundamental, mas não suficiente. Os empresários investem se houver perspectivas adequadas de lucratividade, e isso não pode ser garantido apenas pela estabilidade de preços.

 

Fligespan

Flávio Fligenspan

Portal FCE: Há quem defenda que a inflação dentro do controle de metas inflacionárias ainda não é um grave problema para a economia brasileira. Quais as perspectivas para os próximos anos para a desvalorização do Real e como podem se dar as alterações cambiais que não são influenciadas pelo fenômeno inflacionário?

Fernando Ferrari: Desde a implementação do regime de metas de inflação, em junho de 1999, a inflação média é da ordem de 6,7% ao ano, bem como somente em três ocasiões, 2001, 2002 e 2003, ela ultrapassou o teto da meta. Portanto, entendo que, sim, a inflação não é o principal problema da economia brasileira. Os principais problemas são os recorrentes desequilíbrios do balanço de pagamentos e a falta de perspectiva de crescimento econômico. Em relação às perspectivas para a inflação, ela convergirá, a médio prazo, para o centro da meta, independentemente dos juros e do câmbio.

Flávio Fligespan: A inflação brasileira, que tem ficado em torno de 6% ao ano nos últimos anos, é tida como um bom resultado em comparação com o período pré Real de completo descontrole. Mas, para uma economia que deseja ter preços estáveis e ainda guarda elementos importantes de indexação, 6% é uma taxa elevada, até porque ela dá margem para níveis mais altos. O ideal é que consigamos taxas de inflação próximas de 3% ao ano, evitando o mais possível a indexação e mecanismos artificiais de controle, tais como o câmbio e os preços administrados. É sabido que o câmbio está valorizado artificialmente por intervenção da política econômica, como um elemento importante de controle da inflação. Mas isto traz distorções, como a perda de competitividade dos produtos brasileiros.

Ricardo Dathein: A inflação é tanto mais prejudicial quanto mais pobres são as pessoas. Portanto, ela deve ser sempre combatida. No entanto, não é com valorização cambial que isso deve ser feito, a não ser que não haja outra alternativa. A taxa de câmbio continua excessivamente valorizada e, portanto, precisa ser mais desvalorizada para dar maiores condições de lucratividade aos exportadores e para deter importações “subsidiadas”. Isso deve ser feito paulatinamente, para evitar maiores pressões inflacionárias. Depois de se alcançar um novo e adequado patamar, as pressões sobre os preços se reduzirão, também pelo novo estímulo ao lado da oferta.

***

Fernando Ferrari Filho é Professor Titular do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador do CNPq. Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado em Economia pela University of Tennessee e pela University of Cambridge.

Flávio Benevett Fligenspan possui Graduação em Ciências Econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1979), Mestrado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992) e Doutorado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2009). Atualmente é Professor Adjunto – 3o grau – da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: industria, crescimento, producao, comercio externo, emprego e rendimento.

Ricardo Dathein possui graduação em Ciências Econômicas (1985) e em Engenharia Civil (1983) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialização em Economia do Trabalho e Sindicalismo (1994) pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/UNICAMP), mestrado em Economia (1992) pela UFRGS e doutorado em Ciências Econômicas (2000) pelo IE/UNICAMP. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Teoria Econômica, atuando principalmente nos seguintes temas: economia brasileira, desenvolvimento, mercado de trabalho, políticas econômicas e economia internacional. Foi chefe do Departamento de Ciências Econômicas e Vice Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Atualmente é Professor Associado da UFRGS e Editor da revista Análise Econômica.

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