A crise do corona vírus, segurança alimentar e abastecimento

Por Fabian Scholze Domingues, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS

Os recentes desdobramentos da crise sanitária provocada pelo corona vírus trouxeram à tona a questão da fome nos grandes centros urbanos brasileiros. Como assinalou Josué de Castro, o maior cientista brasileiro a tratar do tema, a fome contemporânea é essencialmente um problema de natureza social e política, e não de produção. A quarentena imposta pelas autoridades sanitárias e a política desorientada do governo federal de estimular as pessoas a trabalharem durante o surto epidêmico – contrariando as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e ignorando as projeções científicas da pandemia – trará miséria e doença aos grandes subúrbios brasileiros. A causação circular da miséria se reforçará com fome e consequente baixa imunidade, fazendo com que os cidadãos pobres e periféricos sejam os mais afetados pelo vírus e pela conjuntura econômica adversa nas próximas semanas e meses. Este fato deve ser agravado pelo compartilhamento das habitações subnormais país afora, nas favelas, comunidades e ocupações. Tendo em comum um excesso de residentes por cômodo e a ausência de bens e serviços básicos de infraestrutura, como água potável e coleta de lixo e esgoto, será nesses territórios que a pandemia se fará sentir com mais força e as mais nefastas consequências.

Dado este contexto, faz-se urgente e necessário mobilizar esforços para minimizar os problemas nas áreas de abastecimento e de segurança alimentar e nutricional. Sem sermos exaustivos, listamos abaixo 14 propostas para reduzir a insegurança alimentar, que já ameaça as casas de 40% ou mais da população brasileira, com potencial devastador em termos de saúde, nutrição e economia.

Propostas para abastecimento e segurança alimentar e nutricional durante a pandemia

  1. Utilizar os estoques reguladores do governo e o poder de confisco administrativo facultado em situações de calamidade pública para realizar distribuição direta (descentralizada) de gêneros alimentícios da cesta básica em locais estratégicos dos grandes centros urbanos, evitando aglomerações e grandes deslocamentos dos beneficiados.
  2. Subsidiar e tabelar o preço do gás de cozinha, baixando o preço do botijão de gás de 13kg para cerca de R$ 30,00 e garantido sua oferta à população mediante fiscalização. A baixa dos preços do petróleo nos mercados internacionais já permite uma redução dos preços, mesmo sem subsídios.
  3. Identificar e financiar as cadeias de produção de alimentos próximas aos grandes centros urbanos, permitindo o acesso a linhas de crédito para os pequenos agricultores que formam os chamados cinturões verdes nas grandes regiões metropolitanas e incentivando os mercados locais.
  4. Garantir a operação e o abastecimento das Centrais de Abastecimento das grandes regiões metropolitanas, coibindo o desabastecimento e as práticas abusivas de preços a partir dos mercados atacadistas, especialmente para produtos da cesta básica, mediante fiscalização.
  5. Orientar os municípios na criação (ou utilização) de mapas municipais que permitam identificar fontes de produção e de abastecimento local, em funcionamento e potenciais, especialmente de produtos frescos, para orientar políticas locais imediatas de abastecimento.
  6. Orientar a criação de hortas comunitárias em espaços urbanos vazios e ociosos, com a assistência técnica rural da Embrapa, da Emater ou de congênere sempre que possível.
  7. Garantir a normalidade do funcionamento das feiras urbanas, estabelecendo critérios mínimos de distância e orientando procedimentos que minimizem os riscos de contágio. Em hipótese alguma, o poder público deverá impedir que feiras de alimentos sejam realizadas, pois proibições dessa natureza tornam os alimentos mais escassos e caros.
  8. Facilitar o credenciamento e ampliar a informação aos pequenos produtores, por meio de tecnologia de TIC disponível nos órgãos do Estado, para que possam participar de feiras e de sistemas diretos de distribuição.
  9. Organizar sistemas de pedido e de entrega de alimentos alternativos a partir de orientações do poder público municipal para organizar a distribuição associada às feiras de rua, seja mediante venda direta, seja por promoção de encontros entre cooperativas de produtores e de consumidores.
  10. Promover estudos expeditos das cadeias alimentares locais, para minimizar as distâncias de abastecimento e de distribuição, com incentivo à compra e à distribuição de cestas com alimentos locais.
  11. Promover o plantio de espécies comestíveis nativas e não convencionais nos espaços urbanos em que for possível a realização desta prática, orientando as comunidades a produzirem o máximo possível de alimentos por conta própria. Um exemplo no estado é o do APL da abóbora de pescoço.
  12. Desenvolver aplicativo (app) público que permita o contato direto entre produtores e consumidores de alimentos, permitindo tanto a inscrição de produtores e consumidores individuais, quanto de cooperativas de produtores e consumidores. No Rio Grande do Sul, a tecnologia pode ser estabelecida numa parceria entre a Procergs e a Emater, com apoio dos municípios e das universidades regionais.
  13. Suspender as privatizações das centrais de abastecimento, em particular da CEAGESP.
  14. Criar de maneira rápida e efetiva um programa universal de renda mínima para brasileiros urbanos de baixa renda, a partir de dados do Cadastro Único, Bolsa Família e demais programas assistenciais nos âmbitos dos governos estaduais e federal.

Últimas atualizações:

Links úteis

Cursos de graduação

Programas de pós-graduação

Professores

Tua UFRGS

Datas letivas

Catálogo do servidor

  • All Post
  • Oportunidades

15 de outubro de 2026

Oportunidade de bolsa para estudantes da FCE

13 de outubro de 2026

Oportunidade de estágio para estudantes da FCE

Redes sociais

Edit Template

Faculdade de Ciências Econômicas | UFRGS
Av. João Pessoa, 52 | 90046-901
Porto Alegre/RS – Brasil
51 3308.3502
fce@ufrgs.br