A liberdade inacabada

A liberdade inacabada

Jorge Amaro de Souza Borges*

 

Mais do que um ato de liberdade, aquele momento representou também uma escolha política do Estado brasileiro: libertar sem reparar


O 13 de maio de 1888 entrou para a história oficial do Brasil como o dia da abolição da escravidão. A assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel encerrou formalmente um dos períodos mais violentos da humanidade no território brasileiro. Contudo, mais do que um ato de liberdade, aquele momento representou também uma escolha política do Estado brasileiro: libertar sem reparar, libertar sem incluir, libertar sem garantir dignidade.

A escravidão terminou no papel, mas os negros libertos foram abandonados à própria sorte. Não houve distribuição de terras, não houve política de moradia, não houve acesso à educação, não houve inclusão econômica, não houve reconhecimento social. Milhões de pessoas, arrancadas durante séculos de sua humanidade, foram lançadas à margem da sociedade brasileira sem qualquer medida concreta que lhes garantisse condições mínimas de vida.

A liberdade chegou sem direitos.

E talvez seja justamente por isso que o Brasil ainda carregue, em pleno século XXI, as marcas profundas de uma abolição incompleta. O que se construiu após 1888 foi um país que substituiu as correntes de ferro pelas correntes da exclusão social, do racismo estrutural e da invisibilidade histórica. A pobreza teve cor. A ausência de oportunidades teve cor. A violência, o encarceramento, a dificuldade de acesso à educação, à terra e ao trabalho digno continuaram tendo cor.

A chamada “abolição” não foi acompanhada de um projeto de nação capaz de reconhecer os negros como sujeitos plenos de cidadania. Ao contrário: o Estado brasileiro investiu em políticas de branqueamento populacional, incentivou a imigração europeia e construiu um imaginário nacional que associava progresso à negação da presença negra.

No Rio Grande do Sul, essa contradição aparece de forma ainda mais evidente. Durante décadas, consolidou-se a ideia de um estado essencialmente europeu, como se a história gaúcha tivesse começado com a chegada dos imigrantes alemães e italianos no século XIX. Pouco se fala, porém, que os negros chegaram muito antes. Foram eles que abriram caminhos, construíram estradas, ergueram igrejas, fortalezas e cidades. Foram eles os responsáveis pelo trabalho nas charqueadas, pela criação do gado, pelo manejo da terra e pela sustentação econômica do território sulino.

O próprio imaginário do gaúcho tem profundas raízes negras. Os lanceiros, os domadores, os peões, os tropeiros, os tosquiadores e tantos trabalhadores anônimos ajudaram a construir a identidade cultural do Estado. Ainda assim, a contribuição negra foi sistematicamente invisibilizada.

O Rio Grande do Sul celebra com justiça os 200 anos da imigração alemã e italiana, mas ainda hesita em reconhecer plenamente os Lanceiros Negros, mortos em Porongos, e tantos outros homens e mulheres negros que deram a vida pela construção do Estado. A memória oficial muitas vezes escolheu o silêncio quando o protagonismo negro ameaçava a narrativa de um sul branco e europeu.

Mas a história resiste.

Ela resiste nos quilombos espalhados por todo o Brasil. Mais de cinco mil comunidades quilombolas seguem lutando por reconhecimento, território, respeito e dignidade. Lutam pelo direito à terra que historicamente lhes pertence. Lutam pelo reconhecimento de sua cultura, de sua ancestralidade e de sua identidade. Lutam para que o Brasil reconheça que os quilombos não são vestígios do passado, mas expressões vivas de resistência, pertencimento e produção de vida. Lutam pelo direito existir.

A permanência dessa luta revela que a liberdade continua inacabada.

Quando comunidades quilombolas ainda aguardam regularização fundiária; quando crianças negras enfrentam maiores índices de evasão escolar; quando jovens negros são as principais vítimas da violência; quando mulheres negras recebem os menores salários; quando o racismo ainda estrutura relações sociais e institucionais, é impossível afirmar que a abolição foi plenamente concluída.

O 13 de maio não pode ser lembrado apenas como uma data comemorativa. Ele precisa ser entendido como um marco contraditório da história brasileira: o fim jurídico da escravidão, mas também o início de uma nova forma de exclusão social institucionalizada.

Por isso que o movimento negro, guiado pelas teses de Oliveira Silveira, escolheu o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, como símbolo maior da luta negra no Brasil. Porque a liberdade não se resume à assinatura de uma lei. Liberdade exige terra, educação, renda, cultura, pertencimento, memória e dignidade.

A verdadeira abolição ainda está em construção.

E ela somente será completa quando o Brasil reconhecer integralmente a contribuição do povo negro para sua formação histórica, econômica, cultural e social. Quando os quilombos forem respeitados. Quando a igualdade deixar de ser promessa e se tornar realidade concreta. Quando o país compreender que reparar não é favor, é justiça histórica.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos vivendo sob o peso de uma liberdade incompleta, interrompida, negada.

Uma liberdade inacabada.

(*) Quilombola dos Teixeiras, Doutor em Políticas Públicas, Professor da Faculdade de Ciências Econômicas – UFRGS 

Texto originalmente publicado em 13 de maio de 2026, em Sul21

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