Por Giácomo Balbinotto Neto, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS
Após um desastre natural é preciso avaliar o quanto foi perdido para começar a recuperar o local. Um desastre natural, do ponto de vista econômico, pode ser definido sendo como qualquer perda de valor de recurso no espaço e no tempo acima de algum nível limite. Nessa definição ampla, qualquer perda de ativos, seja resultante de destruição física ou alteração de valor, pode ser qualificada como um desastre.
Para a análise econômica um desastre natural, tal como as inundações que estão ocorrendo no Rio Grande do Sul atualmente representam um caso oposto da implementação de um projeto de investimento. Os projetos econômicos, sejam eles públicos ou privados, que muitas vezes assumem a forma de obras físicas como compra de máquinas e equipamentos, construção de estradas, portos, barragens etc., envolvem decisões sobre o uso de recursos escassos para aumentar, manter ou melhorar ou ainda aumentar a produtividade da produção de bens e serviços.
Os três parâmetros básicos que os caracterizam estas análises são o valor do investimento inicial, a vida útil do projeto e o fluxo de benefícios e custos gerados por ele. Do ponto de vista econômico, a avaliação de projetos consiste em comparar os custos e benefícios que eles geram, a fim de decidir sobre a conveniência ou não de realizá-los. Contudo, os desastres naturais, como o que estamos vivendo, causam danos ao estoque (que seriam desinvestimentos tanto públicos como privados) e alteram os fluxos de produção de bens e serviços, reduzindo sua disponibilidade e a eficiência de sua produção e distribuição. Isto sem contar efeitos indiretos sobre a saúde física e mental da população atingida bem como a perda de capital humano devido a interrupção de aulas em escolas e universidades. Deste modo, assumindo uma abordagem baseada na avaliação do projeto, é possível e factível avaliar e obtermos algumas estimativas das perdas econômicas causadas por um desastre natural. Para tal é necessário conhecermos ou obtermos informações sobre três parâmetros básicos: (a) o montante de perdas de ativos (ou desinvestimentos); (b) o impacto, em termos de preços e quantidades, no fluxo de bens e serviços que compõem o setor e (c) o período em que ocorreu a ruptura do mercado e a duração da sua volta num período pré-desastre. As várias abordagens e metodologias que veremos abaixo, tem estas ideias como pano de fundo.
As estimativas das perdas econômicas causadas por enchentes como a que se abatem sobre o Rio Grande do Sul atualmente são importantes para as medidas de mitigação de catástrofes climáticas como a que estamos vivendo e termos alguns paramentos e números para a necessidade de recursos e da implementação de projetos e infraestrutura de mitigação de eventos semelhantes que podem ocorrer.
A estruturação de modelos econômicos para obtermos estimativas confiáveis e robustas, ainda que preliminares, dado o conjunto de dados atualmente existentes, é essencial para este propósito. Tais modelos tem uma ampla gama de aplicação em vários aspectos de mitigação de desastres, que vão desde medidas estruturais, tais como, melhoria de obras para controle de inundações etc., até medidas não estruturais, tais como, alerta de inundação, desenvolvimento de apólices de seguro contra inundações, medidas de mitigação de inundações em tempo real, obras contra enchentes etc. As estimativas das perda econômicas e sociais após um desastre pode ser muito útil também na alocação e na captação de recursos junto a instituições financeiras nacionais e internacionais e bancos de desenvolvimento que financiem a recuperação e reconstrução da economia gaúcha.
O objetivo deste breve artigo é indicar quais são as principais abordagens econômicas e modelos que podem ser usados para estimar os impactos e os custos de eventos climáticos como o ocorrido no Rio Grande do Sul a fim de servir de subsídios para se estimar a necessidade de recursos necessários para uma reconstrução econômica e suas interrelações econômicas e sociais.
Os economistas utilizam principalmente modelos para estimar os impactos e as implicações decorrente de eventos como este que estamos vivendo. Um modelo nada mais é do que uma representação simplificada da realidade. A função de um modelo é a de exibir as relações e a interdependência entre as variáveis endógenas e exógenas que compõe e estruturam um modelo. Assim, os modelos abstraem, deliberadamente, os detalhes que não são considerados importantes a fim de esclarecer quais são as variáveis chaves ou fundamentais e as relações importantes para explicar o fenômeno em questão. Deste modo, podemos considerar que um modelo nada mais é do que uma representação simplificada e abstrata da realidade. Ele não têm por objetivo ser idêntico à realidade. Pelo contrário, ele busca representar o mundo real através de uma abstração, algo que é extraído da realidade, do mundo real, e que nos ajuda a entender como ele funciona e as relações existentes.
O modelo, enquanto seja uma representação difere em vários aspectos do original ou da realidade em termos de escala, montante de detalhes ou grau de complexidade, mas ao mesmo tempo preserva o que é importante na realidade em seus aspectos fundamentais ou mais salientes e destacados. Assim, sendo, os modelos econômicos que veremos abaixo devem ser vistos como sendo representação simplificada da economia que permite aos analistas compreender, medir e prever o comportamento econômico em diferentes cenários. Isso envolve, quase sempre, que se assuma, de modo implícito, hipóteses simplificadoras que permitem aos economistas isolar determinadas variáveis específicas e entender melhor sua influência nas decisões econômicas.
Um dos principais objetivos dos modelos econômicos é fazer previsões. Isso, no caso específico pelo qual está passando o Rio Grande do Sul pode incluir previsões sobre o crescimento econômico, efeitos sobre o mercado de trabalho, custos sociais em termos de saúde, necessidade de recursos para reconstrução, perdas de patrimônio e as interrelações econômicas. Essas previsões são valiosas para governos, empresas, agentes financeiros e investidores na tomada de decisões informadas no curto, médio e longo prazos.
A maioria das análises econômicas busca estimar perdas de fluxo, como mudanças na produção, renda ou consumo. Metodologias comuns para estimar perdas incluem modelos econométricos, modelos de insumo produto, modelos de equilíbrio geral computável e modelos de crescimento econômico. Isso porque grande parte da contribuição da análise econômica é a estimativa das perdas de fluxo, que são causadas por danos e perdas patrimoniais.
Como veremos, não existe uma metodologia padronizada e uniforme para estimar os custos das inundações e eventos semelhantes. Também não há uma terminologia padronizada usada para descrever as consequências adversas de inundações ou desastres naturais relacionados.
A terminologia de custos comum para conciliar entre os campos de engenharia e economia inclui custos diretos e indiretos, custos intangíveis, perdas de estoque e fluxo, perdas de ativos e produção, valores de mercado e não de mercado e perdas de bem-estar.
Na literatura econômica, existe uma distinção importante entre perdas de estoque e de fluxo. As existências referem-se a uma quantidade num determinado momento, enquanto os fluxos são os serviços ou a produção durante um determinado período.
As avaliações de engenharia de perdas por desastres tendem a se concentrar em perdas de estoque, como danos a ativos. No entanto, danos a ativos podem afetar subsequentemente os fluxos de serviços e produção.
A literatura econômica oferece metodologias para estimar perdas de estoques e de fluxos. Estimar as perdas de fluxo é crucial para entender a gama mais ampla de impactos dos desastres no bem-estar social (ou seja, no bem-estar).
As variáveis de estoque referem-se a variáveis que buscam medir a quantidade ou uma magnitude de algo que existe num determinado ponto do tempo, por exemplo, estoque de capital, número de máquinas e equipamentos, produtos nas prateleiras para venda.
Já as variáveis de fluxo referem-se a variáveis que buscam medir a quantidade de algo que é consumido, ganho, produzido por unidade de tempo. Essas variáveis são importantes para entender como a economia está funcionando em um determinado momento, bem como para fazer previsões sobre como a economia pode evoluir no futuro.
Basicamente temos oito abordagens econômicas para tentar avaliar as consequências de eventos como os que tem ocorrido devido as desastres climático: (i) avaliação de danos diretos e indiretos; (ii) a abordagem de custos de reposição; (iii) custos de interrupção das atividades econômicas; (iv) modelos de equilíbrio geral computável, (v) modelos de insumo-produto; (vi) modelos Baseados na Teoria Neoclássica do Crescimento (vii) modelos econométricos (viii) consultas a especialistas (método Delphi).
Avaliação de danos diretos e indiretos: esta abordagem envolve estimar os danos físicos causados pelo evento climático, bem como os custos associados à interrupção das atividades econômicas em todos os setores e para os agentes envolvidos, danos às infraestruturas físicas (pontes, estradas, aeroportos, portos etc.), maquinário, implementos agrícolas, imóveis, perdas de emprego, custos de saúde pública, entre outros.
Os danos físicos e de infraestrutura constituem-se na parte mais visível e evidente da avaliação de danos. Esta envolve quantificar os danos diretos causados pela inundação, como a destruição de casas, edifícios, estradas, pontes, sistemas de energia, redes de água e saneamento, aeroportos, perda de estoques, entre outros. Esse aspecto da avaliação de danos geralmente é feito por meio de inspeções no local após o evento e pode ser apoiado por imagens de satélite de alta resolução.
Além dos danos físicos temos também os impactos econômicos diretos relacionados a interrupção das atividades comerciais e industriais devido à destruição de instalações, equipamentos e perda de estoques e insumos. Isso pode incluir perdas de receita para empresas locais, perda da arrecadação de impostos, interrupção na cadeia de suprimentos e perda de empregos temporários ou permanentes. A isto deve ser acrescentado os custos relacionados ao setor primário, tais como perda de safra, locais de armazenamento, perda de insumos (sementes, adubos etc.), maquinário (tratores, colheitadeiras etc.).
Quanto aos impactos econômicos indiretos estes podem ser podem ser ainda mais significativos e difíceis de quantificar pois eles envolvem efeitos secundários em setores que não foram diretamente afetados pela inundação, como o turismo, serviços financeiros e de seguro e outros serviços. Por exemplo, a redução no fluxo devido à interrupção a destinos turísticos pode ter um impacto econômico significativo em toda uma região bem como os pontos de acesso aos mesmos como estradas e aeroportos.
Outros custos que não devem desprezados são os custos sociais e de saúde pública associados evento. Isso inclui custos relacionados à saúde mental, surgimentos de epidemias e custos de tratamento médico para lesões relacionadas ao desastre, perda de vidas humanas e impactos na qualidade de vida das comunidades afetadas, reconstrução de hospitais, postos de saúde, farmácias. Deve-se ter conta também os efeitos causados em escolas, creches, asilos, casas de repouso e estruturas similares. Por fim devem ser avaliados os riscos futuros e considerar os custos de medidas de mitigação e preparação para eventos climáticos futuros. Isso pode incluir investimentos em infraestrutura resiliente, estruturas de governança para lidar com eventos climáticos, sistemas de alerta precoce, programas de seguro e educação pública sobre preparação para desastres semelhantes.
Na prática, existem duas abordagens para estimar perdas de propriedade – estimativa empírica e funções de dano. Para estimar empiricamente a perda de construção e conteúdo, a medida correta é o valor depreciado do ativo perdido, que reflete o valor do dano quando o dano foi incorrido. O uso do custo total de substituição normalmente superestima o custo do desastre. No entanto, os custos de reposição são mais prováveis de serem observados; os valores de substituição depreciados não estão disponíveis na maioria dos conjuntos de dados.
As avaliações Banco Mundial, que utilizam a metodologia de Avaliação de Danos e Perdas (DaLA – Damage and Loss Assessment), normalmente se baseiam no valor de reposição, como os custos médios de construção. Além disso, algumas avaliações governamentais incluem a adaptação pós-desastre, mesmo que estes não sejam custos atribuíveis a eventos de desastres passados.
A metodologia DALA (Damage and Loss Assessment) foi inicialmente desenvolvida pela Comissão Econômica para a América Latina e no Caribe(CEPAL, 2003), em 1972.
Para sua avaliação são utilizados os cálculos estatísticos governamentais dos diversos setores afetados abrangendo as atividades: (i) a elaboração de uma base cartográfica da área afetada pelo desastre; (ii) delimitação da área afetada diretamente; (iii) caracterização do evento e dados meteorológicos; (iv) impacto socioeconômico e ambiental do desastre e, (v) desenvolvimento da metodologia e (vi) consolidação dos parâmetros para valoração dos danos.
A Metodologia DALA na sua concepção original utiliza para o cálculo de valoração as seguintes variáveis:
(i) população afetada: coleta dos resultados obtidos através das pesquisas realizadas pelos provedores de dados e informações dos Estados ou municípios referentes à população afetada;
(ii) habitações: levantamento das condições das residências antes e depois do desastre;
(iii) comércio e indústria: estimativa dos valores computados referente aos prejuízos e danos diretos como: avarias na edificação, perda de material, maquinários, veículos e estoques e, aqueles indiretos referentes ao tempo de paralisação da atividade;
(iv) infraestrutura de educação e cultura: contabilização dos prejuízos acarretados nas escolas, teatros, bibliotecas, cinemas, museus, prédios históricos, etc.
(v) Setor de saúde: estimativa dos custos envolvidos para o tratamento das diversas doenças e danos à saúde da população na área afetada;
(vi) transporte: identificação dos modais afetados pelo desastre, e os custos envolvidos para o reestabelecimento da malha rodoviária,
(vii) energia elétrica e telecomunicações: levantamento dos custos dos reparos da rede elétrica e de comunicação avariadas e o fornecimento provisório de geradores de energia;
(viii) abastecimento de água: estimar os custos de abastecimento provisório de água potável durante a interrupção do serviço;
(ix) rede de esgoto: estimar os custos de captação provisória e destino do esgoto devido as avarias na rede coletora;
(x) agricultura e pecuária: estimar os custos das perdas das atividades agropecuárias e a recuperação dessas áreas, bem como a perda dos animais, afetadas pelo desastre;
(xi) turismo: estimar os custos da atividade turística suspensa em decorrência do desastre e,
(xii) meio ambiente: contabilizar as perdas e danos ocorridos na flora e fauna local, bem como recursos hídricos, geológicos afetados.
Esta metodologia foi aplicada, por exemplo, as análises das ações realizadas pela Defesa Civil de Santo André na execução do seu Plano de Contingência de 2012/2013 e 2013/2014. Ele foi aplicado a desastres como o tsunami na Índia (2005); o tsunami nas Maldivas (2005); as enchentes na Guiana (2005); o terremoto na Indonésia (2006); o terremoto no Paquistão (2005), dentre outros eventos desta natureza.
Abordagem de custo de reposição envolve estimar o custo de substituir os ativos danificados ou destruídos. Isso pode incluir custos de reconstrução de edifícios, estradas, pontes, sistemas de energia, saneamento, entre outros.
Esta abordagem constitui-se numa metodologia direta e útil para estimar os custos de reconstrução de cidades atingidas e da infraestrutura em estradas, pontes, aeroportos etc. É importante a correta e precisa identificação dos ativos realmente comprometidos. Assim, primeiro passo é identificar e avaliar os ativos que foram atingidos, danificados ou destruídos pelo desastre. Aqui o papel de prefeituras e agências estatais é fundamental, bem como a participação da sociedade civil.
Uma vez identificados os ativos, é necessário estimar os custos de reconstrução e de reposição de cada um deles. Isso envolve não apenas o custo direto de substituir a estrutura ou o equipamento danificado, mas também os custos associados à mão de obra, materiais, equipamentos, custos financeiros, administrativos e outras despesas relacionadas à reconstrução.
Os custos diretos dizem respeito aos custo de materiais, mão de obra, equipamentos, e outras despesas diretamente relacionadas à reconstrução propriamente dita. Há também os custos financeiros, que dizem respeito aos juros sobre empréstimos ou financiamentos necessários para a reconstrução. Outro custo que não pode ser desprezando são os custos administrativos, que dizem respeito as despesas relacionadas à gestão e supervisão das obras. Há também os custos de limpeza e remoção de escombros devido ao lixo e aos destroços causados pelas enchentes.
Deve-se levar em conta também os custos de mobilização de recursos, mão de obra e transporte e logística, que envolvem custos com o transporte de materiais e equipamentos para os locais de reconstrução. Há ainda os custos temporários ou de emergência que estão associados a soluções e estruturas provisórias criadas até a conclusão da reconstrução total.
Outras considerações que devem ser levadas em conta segundo esta abordagem dizem respeito as incertezas inerentes aos projetos de reconstrução, como variações nos preços dos materiais, atrasos na entrega de equipamentos e insumos, bem como imprevistos de toda a ordem que podem acontecer durante a construção. Neste caso é recomendável e prudente incluir-se uma margem de contingência para lidar com essas incertezas, garantindo, deste modo, que os projetos possam ser concluídos dentro do orçamento previsto.
Além disso deve-se ter em conta a possibilidade de melhorias e atualizações que podem e devem ser feitas, pois, em alguns casos, a reconstrução após um desastre pode apresentar uma oportunidade para melhorar e atualizar a infraestrutura existente ou até mesmo de realocação de uma estrutura urbana. Isso pode incluir a adoção de padrões de construção mais resilientes, a incorporação de tecnologias mais eficientes e sustentáveis, ou a implementação de medidas de mitigação de riscos. Essas melhorias devem ser consideradas ao estimar os custos de reconstrução.
Outro ponto que deve ser considerado no caso atual no que se refere aos custos diretos de reconstrução e a inclusão dos custos de remoção de escombros, custos de transporte e logística, custos de temporários ou de emergência, entre outros.
Esta abordagem referente estimativas de custos de um desastre como este recomendável por gera transparência e clareza no processo de reconstrução, pois proporciona uma metodologia clara e estruturada para estimar os custos de reconstrução. Ela também facilita o planejamento e fiscalização e a alocação de recursos de forma mais eficiente e eficaz. Outro ponto importante é que podem ser geradas redução de vulnerabilidades e resiliência com relação a futuros desastres, pois pode permitir a incorporação de melhorias que aumentam a resiliência da infraestrutura contra futuros desastres. Por fim, esta abordagem permite uma base sólida para justificar os investimentos necessários para a reconstrução e melhoria da infraestrutura.
A abordagem de custo de reposição utiliza uma metodologia que é clara e estruturada para estimar os custos de reconstrução, o que é essencial para a transparência e fiscalização dos recursos gastos e investidos. Isso envolve procedimentos sistemáticos de identificação, avaliação e cálculo dos custos necessários para substituir ou reparar os ativos danificados. A utilização de padrões e práticas consistentes e facilmente auditáveis por todos os agentes envolvidos (governo, órgãos de fiscalização, bancos, sociedade) permite que todas as partes interessadas compreendam e acompanhem o processo, promovendo a confiança nas estimativas de custos e na alocação dos recursos.
A compreensão de todos os custos envolvidos irá permitir a criação de cronogramas realistas e orçamentos detalhados que permitem o acompanhamento e fiscalização. Isto auxilia na previsão de possíveis atrasos e problemas de suprimento e logística, permitindo a implementação de medidas mitigadoras antecipadamente. Isso resulta em uma execução mais suave dos projetos de reconstrução e minimiza o risco de gostos adicionais no de orçamento inicial.
Deste modo, vemos que a abordagem de custo de reposição fornece dados concretos e detalhados sobre os custos envolvidos na reconstrução. Isso ajuda a criar uma base sólida, transparente e auditável, que justifique os investimentos necessários perante investidores, governos e principalmente frente aos organismos internacionais. Na medida em que estas estimativas se mostrarem precisas e bem documentadas a necessidade dos fundos e a viabilidade dos projetos propostos podem se tornar viáveis e financiáveis e contar com a ajuda externa.
A abordagem dos custos de interrupção de negócios inclui a produção perdida e atrasada de bens e serviços. A interrupção pode ocorrer devido a inundações, danos aos ativos da empresa ou efeitos indiretos, como interrupção dos serviços públicos e dos efeitos multiplicadores decorrentes destas efeitos, como mudanças na demanda ou na oferta de insumos ou bens ou serviços finais. A abordagem dos custos de interrupção de negócios considera tanto a produção perdida quanto a atrasada de bens e serviços. A produção pode ser interrompida devido a danos físicos às instalações e equipamentos, bem como por efeitos indiretos, como a interrupção de serviços públicos (eletricidade, água, transporte, internet) e os efeitos multiplicadores nas cadeias de suprimentos. Esses efeitos multiplicadores podem incluir mudanças na demanda ou na oferta de insumos, além de variações na produção de bens e serviços finais. Estes custos podem ser substanciais, dado que os efeitos podem repercutir nas cadeias de suprimentos e de logística e as empresas podem fechar ou interromper a produção.
As interrupções das atividades econômicas podem ser medidas em termos de variação no valor adicionado na arrecadação de impostos, por exemplo. As empresas enfrentam interrupções na forma de perda e atraso na produção. A recuperação das receitas dependerá da concorrência com as empresas não afetadas pelas inundações e das alterações nos gastos dos consumidores como resultado da resposta aos custos relacionados com as inundações.
As cadeias de suprimentos e logística são particularmente vulneráveis a interrupções causadas por desastres naturais como enchentes. Empresas enfrentam dificuldades em termos, por exemplo, da obtenção matérias-primas, transporte produtos acabados e em cumprir os prazos de entrega. As interrupções podem levar ao fechamento temporário ou permanente de empresas, resultando em perda de empregos e redução da atividade econômica.
A recuperação das receitas por parte das empresas irá depender de vários fatores, incluindo a concorrência com empresas não afetadas pelo desastre e as mudanças nos padrões de consumo pós desastre. As empresas que conseguirem retomar a produção de bens e serviços rapidamente podem recuperar parte das receitas perdidas, enquanto outras podem enfrentar dificuldades prolongadas, especialmente se os consumidores alterarem seus hábitos de compra em resposta ao desastre.
A análise deve ser baseada em um cenário contrafactual, que considera as condições econômicas que prevaleceriam se o desastre não tivesse ocorrido. Esta análise será detalhada abaixo, tomando como exemplo o caso de Santa Catarina em 2008. Isso envolve comparar as condições atuais com as condições esperadas num cenário sem o evento, em vez de simplesmente medir a produção antes e depois do desastre.
A avaliação da interrupção de negócios é, portanto, mais complicada do que estimar a perda de propriedade. As mudanças na produção dependem do comércio e das interações complexas entre as empresas e os consumidores. Isso significa que as escalas espaciais e temporais de análise devem ser cuidadosamente definidas para estimar a produção perdida e atrasada. Em escalas espaciais e temporais maiores, há maior possibilidade de que a produção interrompida seja compensada por empresas fora da área inundada ou aumento da produção pós-desastre. As interrupções de negócios devem ser estimadas comparando as condições com e sem o evento de desastre. Isso não equivale a medir a produção antes e depois do evento. A análise deve estimar a mudança a partir do cenário contrafactual no qual o evento não tivesse ocorrido.
Dados primários sobre interrupções diretas e indiretas de negócios podem ser obtidos por meio de pesquisas com empresas através de federações e sindicatos empresariais e depois consolidadas num único órgão, tal como o IBGE, o qual pode propor uma metodologia adequada a fim de consolidar os dados de forma rigorosa e transparente segundo uma metodologia aceita internacionalmente. Interrupções de serviços públicos como eletricidade, transporte, telefonia, água e internet podem ser fornecidos pelas agências reguladoras especificas que fazem estes levantamentos.
No caso das enchentes no Rio Grande do Sul, a abordagem de custo de interrupção de negócios é essencial para estimar os impactos econômicos. As enchentes causam danos significativos às infraestruturas urbanas e rurais, afetando a produção agrícola, industrial e de serviços. A análise deve considerar os danos diretos aos ativos das empresas e os efeitos indiretos nas cadeias de suprimentos e serviços públicos.
Outra estratégia a ser considerada pelos economistas, pelo menos num primeiro momento, a fim de obtermos uma estimativa preliminar são os modelos de equilíbrio geral computável (EGC). Estes modelos tentam capturar o impacto macroeconômico de um evento climático, considerando as interações entre os diferentes setores da economia. Eles podem ser úteis para estimar os efeitos diretos e indiretos de desastres naturais, como mudanças nos padrões de consumo, produção e comércio, impostos, gastos do governo e as necessidades de recursos presentes e futuros para a reconstrução e das interações existentes entre todos os setores da economia.
Os modelos de Equilíbrio Geral Computável (CGE) usam uma série de equações para resumir a dinâmica dos diversos mercados analisados simultaneamente e que são calibradas por dados econômicos para estimar como uma economia poderá responder a mudanças na política, tecnologia ou outras condições.
Segundo Adeel et. al. (2020), os modelos CGE continuem-se numa das ferramentas mais utilizadas para o planejamento do desenvolvimento e análise de macropolíticas e avaliação dos impactos econômicos das inundações. Estes modelos nos ajudam a compreender a gravidade dos danos e perdas associados ao aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos, tais como as inundações. Embora os danos e perdas sejam normalmente calculados pela totalização de sinistros de seguro ou levantamento de vítimas de inundações, as perdas de atividade econômica causadas por um evento com este normalmente não são incluídas nos cálculos. Assim, com o uso da metodologia EGC, os danos iniciais são modelados como sendo um choque no estoque de capital, e a recuperação requer a reconstrução desses estoques. O método do EGC leva em conta os muitos impactos econômicos que ocorrem como resultado das inundações, incluindo consumo privado, consumo do governo, assistência financeira a desastres, investimentos, importações, exportações, impostos e danos por setor econômico – ao mesmo tempo em que aplica esses impactos a diferentes cenários de danos potenciais. O método ultrapassa, assim, os impactos económicos diretos (tais como danos materiais e de infraestruturas) e aplica um quadro mais abrangente para medir os impactos econômicos das inundações ao longo do tempo.
Os modelos de equilíbrio geral computável (EGC) constituem-se também numa valiosa ferramenta para entender os impactos macroeconômicos de eventos climáticos como o que está ocorrendo atualmente no Rio Grande do Sul. Eles buscam representar a economia como um sistema complexo de interações entre diferentes setores produtivos, consumidores e governo. Aqui a economia é dividida em setores (por exemplo, agricultura, indústria, serviços) e levam em consideração as relações de oferta e demanda em cada setor, bem como os fluxos de recursos entre eles. Estes modelos buscam capturar como a economia reage a choques externos, tais como as enchentes ocorridas. Isso inclui ajustes em todos os mercados considerados e seus efeitos sobre os preços, na produção e no consumo em resposta a mudanças nas condições econômicas decorrentes do evento.
No caso específico do Rio Grande do Sul podemos obter, por exemplo, através deles, uma estimativa dos impactos na produção agrícola, causando escassez de alimentos e aumentando os preços dos produtos, maquinário e insumos agrícolas. Isso, por sua vez, pode levar a mudanças nos padrões de consumo das famílias e nas decisões de investimento das empresas. Por exemplo, a interrupção da produção agrícola devido as enchentes no Rio Grande do Sul podem levar o Estado a importar mais alimentos de outras regiões, afetando o saldo comercial e os preços dos produtos importados.
Os modelos de equilíbrio geral computável podem ser úteis ainda nas análise de políticas públicas. Além de estimar os impactos dos eventos climáticos, os modelos de equilíbrio geral também podem ser usados para analisar o efeito de diferentes políticas de resposta na reconstrução e nos investimentos públicos e privados a serem realizados. Por exemplo, eles podem ajudar a avaliar os efeitos de medidas de estímulo econômico, investimentos na reconstrução da infraestrutura ou de transferência de renda. Em resumo, os modelos de equilíbrio geral computável constituem-se numa poderosa e útil uma ferramenta para uma análise das necessidades de recursos e os prováveis impactos na economia.
Os modelos de equilíbrio geral computável também oferecem, em princípio, a possibilidade de realizar análises contrafactuais simuladas, comparando o que aconteceu e o que teria acontecido na ausência das inundações.
Dada a complexidade dessas interações econômicas envolvidas, os modelos de EGC podem se concentrar em menos setores do que a análise de insumo produto (a qual veremos abaixo), mas ele pode fornecer uma resposta aos gestores públicos e empresas sobre os gargalos e restrições de oferta e a mudanças gerais nas condições de mercado causadas pelo evento analisado.
Outra estratégia que os economistas podem fornecer são os modelos de modelos de insumo-produto os quais descrevem as relações entre diferentes setores da economia em termos de insumos e produtos. Eles podem ajudar a entender como os choques em um setor afetam outros setores da economia dada a interrelação existente entre todos os setores da economia, tanto dentro como fora do Estado.
Um dos pressupostos centrais do modelo de insumo-produto é que qualquer insumo afetado propagará sua escassez por toda a economia, através de todos os bens para cuja produção é utilizado. Isso pode ser verdade até certo ponto no curtíssimo prazo, mas eventualmente, e muitas vezes muito rapidamente, as empresas serão capazes de encontrar fornecedores alternativos ou insumos de áreas não afetadas para poder atender às suas necessidades de produção. Isso implica que, quanto maior o horizonte de tempo em que o pesquisador estiver interessado, maior a probabilidade de que o modelo de insumo-produto superestime as perdas e os efeitos das enchentes.
O método de insumo-produto se concentra no lado da oferta da economia. Ele reconhece que a produção normalmente requer vários insumos (primários e intermediários). Quando esses insumos ficam restritos de alguma forma, isso afeta a capacidade dos produtores de atender à demanda. Como tal, se o desastre levar a gargalos e redução da disponibilidade de insumos, as implicações disso para o fornecimento de produtos podem ser medidas. Essa abordagem pode ser particularmente útil se quisermos medir o efeito de um choque de oferta em indústrias e setores específicos de uma economia. Por exemplo, um modelo de insumo-produto pode ser usado para estimar como a destruição de infraestrutura afeta a produção industrial, comercial e agrícola.
Os modelos de insumo-produto assumem uma função de produção invariante no tempo, de proporções fixas, para todos os setores econômicos e preveem como os danos em um setor afetam o comércio e a produção relacionada em todos os outros. Estes tipos de modelos, embora tenham o nível de detalhe desejado e possam fazer previsões quantificadas, a tecnologia e o comportamento são geralmente assumidos como “fixos”, portanto, ele nos fornece uma primeira impressão útil da ordem de grandeza e difusão dos efeitos em todos os setores da economia. Isto pode ser útil num primeiro momento para quantificar a necessidade de recursos que devem ser mobilizados na reconstrução dos setores atingidos.
A utilidade da abordagem de insumo-produto está na medida em que ele permite ao analista diferenciar e quantificar impactos em diferentes setores e agentes, por meio de diversos canais de causalidade refletindo a complexidade existente na economia. Contudo, das principais preocupações com a abordagem de insumo produto é que ela não leva em conta a possível substituição de insumos, seja porque alguns insumos não estão mais disponíveis, seja por causa de mudanças de preços.
Estudos usando modelos de insumo-produto tem sido usados para examinar vários tipos de desastres naturais, concentrando-se nas consequências econômicas indiretas da falha de infraestrutura crítica (por exemplo, portos, estradas, pontos, aeroportos) ou interrupções em uma variedade de setores (por exemplo, indústria, construção, serviços de energia elétrica). Os trabalhos que utilizam esta abordagem adotam um modelo adaptado, chamado do modelo de insumo-produto de inoperância, que busca capturar os efeitos da inoperabilidade de um setor que é diretamente impactado por um desastre natural como no caso de uma enchente. Essa inoperabilidade distorce os insumos fornecidos a outros setores, o que causa perdas indiretas de produção e custos de produção e, portanto, limita o consumo final de bens e serviços. Isso significa que os modelos de insumo produto buscam capturar as interdependências econômicas entre setores que estão a montante e a jusante da cadeia de suprimentos de bens interrompidos na economia. Isso permite que se analise, ainda que de modo preliminar, como uma perda em uma área é diretamente impactada por um desastre se propaga para outros setores econômicos.
Modelos recentes que usam a abordagem de insumo produto, como o modelo regional adaptativo de insumo-produto (ARIO), incluem a modelagem de aumentos de preços após um desastre (que limita a demanda), a imposição de restrições de oferta específicas do setor ou o uso de excesso de capacidade, o ajuste da forma e da duração dos períodos de recuperação ou a inclusão de medidas específicas de resiliência.
Modelos Baseados na Teoria Neoclássica do Crescimento – Em sua forma mais simples, essa abordagem assume uma função de produção agregada que utiliza capital e trabalho (com retornos constantes em escala), uma taxa fixa de poupança e depreciação, e retornos decrescentes ao capital. Tais modelos partem do pressuposto de que a economia iria voltar, de modo gradual, ao estado estacionário pré-desastre após qualquer choque no estoque de capital ou na oferta de trabalho na economia. Aqui é assumido que os desastres naturais só podem ter um impacto econômico duradouro se mudarem permanentemente os parâmetros básicos que determinam o estado estacionário da economia, especialmente a poupança, a depreciação ou o crescimento da produtividade. Esta visão é derivada do modelo básico de crescimento econômico de Solow (1956), que prevê que os países e regiões devem seguir uma trajetória de crescimento com relação ao seu estado estacionário. Nesse contexto, um desastre natural, tal como uma inundação, como ocorrida no Rio Grande do Sul, representaria um choque de capital negativo que reduziria a relação capital trabalho. O modelo assume que, após esse choque, que a economia se reconstrua e tenha um crescimento acelerado até que retorne à trajetória de crescimento anterior. Assim, prevê que, no longo prazo, não deve haver impacto significativo com relação ao desastre natural.
Em última análise, esses modelos servem como uma base teórica razoável para verificar se uma área impactada retorna à tendência, bem como quanto tempo leva e a que velocidade ela irá retornar a sua trajetória de crescimento. A abordagem mais comum empregada na avaliação do impacto de qualquer choque negativo (como um desastre natural) é usar técnicas estatístico-econométricas para verificar se um país retornou ou não à sua linha de tendência.
Os efeitos macroeconômicos mais relevantes de um desastre como o que estamos vivendo são aqueles projetados sobre o nível e a taxa de crescimento do produto interno bruto estadual e setorial sobre as finanças públicas e o investimento das empresa. Contudo, é importante também estimarmos os efeitos sobre os aumentos dos preços, aluguéis e residências e os níveis de emprego, rendimento das famílias e das decisões de investimento dos setores público e privado. Além disso, a classificação de risco de crédito, a liquidez e as taxas de juros também deverão ser afetadas e devem ser analisadas pelo setor financeiro e o risco de novos eventos semelhantes a este pelas companhias de seguros.
As despesas do setor público, no curto prazo, irão aumentar devido às despesas período de emergência e na fase de reabilitação, e as receitas fiscais cairão devido a menores receitas fiscais resultantes da diminuição da produção de bens e serviços. De qualquer forma, o déficit fiscal, principalmente na esfera estadual e municipal deverá aumentar significativamente. Por outro lado, é possível que os preços de certos itens aumentem devido ao desabastecimento ou aumento dos custos de transporte e distribuição causado pelo desastre, gerando uma inflação de custos, pelo menos temporariamente.
Entre os efeitos macroeconômicos, destaca-se também a deterioração das condições de vida da população afetada pelas dificuldades de acesso às suas fontes de abastecimento, pela redução da disponibilidade de serviços essenciais, bem como, e principalmente, pela perda de fontes de emprego e a correspondente diminuição da renda.
Deve-se levar em conta também os efeitos sobre o capital humano saúde, decorrente de doenças que ocorrem depois das inundações e o efeito sobre a saúde mental devido a efeito traumático que estas enchentes estão causando. Embora a diminuição da qualidade de vida não possa ser expressa em termos monetários, é possível assumir que ela terá efeitos não desprezíveis população economicamente ativa decorrente da perda de renda e de empregos causada pela paralisação parcial ou total de muitas atividades econômicas por um período considerável.
Segundo a uma meta-análise realizada por Klomp e Valckx (2014), durante as últimas duas décadas, a frequência e a gravidade dos desastres naturais aumentaram dramaticamente e grande número de estudos empíricos tem tentado estimar o impacto dessa tendência crescente sobre o desenvolvimento econômico. No entanto, o quadro geral que emerge da evidência empírica mostrou-se bastante inconclusivo. Segundo eles, existem várias revisões da literatura sobre as consequências dos desastres naturais sobre o crescimento econômico, no entanto eles foram os primeiros a aplicar a análise de meta regressão sobre a vasta quantidade de estudos empíricos que examinam o impacto de desastres naturais no crescimento real do PIB per capita. Seus resultados indicaram que, usando mais de 750 estimativas de desastres naturais, os principais resultados da análise podem ser resumidos da seguinte forma: (i) em primeiro lugar, as catástrofes naturais parecem ter um efeito negativo sobre o crescimento; (ii) em particular, as catástrofes climáticas, nos países em desenvolvimento, têm o impacto mais severo no crescimento económico per capita; (iii) os desastres naturais têm impacto apenas no curto prazo, enquanto no longo prazo o PIB per capita retorna à sua trajetória original de crescimento. (iv) há um impacto crescente dos desastres naturais no crescimento econômico nas últimas quatro décadas devido ao aumento do número de eventos de grande escala; (v) eles encontraram algumas evidências de que a literatura sobre crescimento econômico e desastres naturais sofre um viés de publicação. Isso indica que os resultados negativos são publicados com mais facilidade.
Modelos com produtividade endógena – Os investimentos impulsionam a tecnologia nesses modelos, que preveem que qualquer depreciação acelerada do capital devido a um choque devido a um desastre natural resultará em maior crescimento da produtividade porque a tecnologia será atualizada. Isso é chamado de hipótese “build-back-better” na literatura.
Em contraste, nos modelos AK (onde A representa a produtividade e K se refere ao estoque de capital), a produção e a produção por trabalhador estão relacionadas ao nível de capital físico acumulado e em uso. Isto implica, então que que choques negativos de capital têm um impacto negativo duradouro na produção por trabalhador.
Finalmente, nos modelos de aprendizagem, o conhecimento se acumula nas pessoas à medida que elas produzem mais, e o nível de produtividade é assumido como dependente de variáveis como produção cumulativa ou investimento. Nesses modelos, a destruição do capital ou do trabalho pode estimular o aprendizado e o crescimento da produtividade durante a reconstrução,
Esses primeiros ramos dos modelos de crescimento endógeno já permitem algumas mudanças de produtividade ao longo do tempo em resposta a desastres naturais. No entanto, poucas aplicações de desastres naturais utilizam os modelos de crescimento endógeno.
Outra abordagem bastante usada para estimar os custos dos desastres ambientais e a uma abordagem econométrica. Esta abordagem foi utilizada por Ribeiro et. al (2014), para o caso de Santa Catarina, em 2008, e nos parece bastante útil para a aplicação ao caso gaúcho atual. Segundo os autores, seria importante saber se a economia conseguirá se recuperar e atingir o nível de riqueza e produção que teria caso o desastre natural não tivesse ocorrido, e caso consiga, quanto tempo dura esse processo de recuperação.
As estimativas geradas pela abordagem econométrica serão importantes e fundamentais para que o Governo, nos seus três níveis (federal, estadual e municipal), tenha dados e estimativas que lhe permitam calcular o quanto será necessário investir em termos de recursos financeiros para, pelo menos atingir os níveis de produção e renda na ausência do desastre. Como reconhecem os autores, a mensuração dos impactos econômicos de desastres naturais como o que está ocorrendo no Rio Grande do Sul não deve é tarefa simples. Segundo eles, a principal questão referente à análise de choques, consiste em obter o contrafactual adequado para servir à avaliação do impacto. Baseando-se no caso semelhante ao ocorrido em Santa Catarina em 2008, a medição do impacto das enchentes na economia gaúcha após a ocorrência deste evento, o contrafactual necessário deverá ser trajetória dela no caso das chuvas não tivesse ocorrido e nem as enchentes provocassem dados da magnitude pela qual estamos vivendo.
Ribeiro et. al (2014) utilizaram o método de controle sintético para avaliar o impacto das chuvas na produção industrial de Santa Catarina e, posteriormente, a estratégia utilizada para investigar o impacto das chuvas no PIB per capita dos municípios do Estado catarinense. Esta mesma estratégia poderia ser replicada para o caso gaúcho, mas ampliado o escopo para os setores agrícolas e de serviços.
O controle sintético, segundo Ribeiro et. al (2014), consiste em construir, para unidades que recebem determinado tratamento, a trajetória da variável de interesse na ausência do tratamento com base em algumas variáveis correlacionadas com a variável de interesse de unidades que não receberam o tratamento. Esta trajetória sintética, a ser construída, com base nas informações das unidades não tratadas, em tese, não estaria sujeita aos efeitos do tratamento e, portanto, serve como contrafactual para a avaliação dos impactos econômicos decorrentes das enchentes que ocorrem no território gaúcho.
Ainda segundo os autores [Ribeiro et. al (2014)], a hipótese central para a identificação do impacto de interesse e do estabelecimento da relação causal é que o processo estrutural, que gera a trajetória da variável de interesse da unidade tratada, é idêntico ao processo que gera a mesma trajetória das unidades controles. Portanto, quaisquer choques, em qualquer período (que não o choque de interesse, no caso aqui em questão, as enchentes e chuvas que ocorrem no Rio Grande do Sul no presente mês de maio), que tenham ocorrido durante a janela de investigação do estudo devem afetar, da mesma forma, a variável dependente de todas as unidades. Deste modo, segundo Ribeiro et. al (2014), teríamos, uma medida do impacto do excesso de chuvas na economia, utilizam-se duas metodologias. Na primeira, calcula-se o quanto uma variação de 1% na produção industrial incrementa no PIB gaúcho por meio de uma regressão linear obtida a partir da primeira diferença do PIB gaúcho comparando-o com relação a primeira diferença da média anual da produção industrial do Estado, utilizando as base existente para os setores avaliados.
Utilizando-se da metodologia acima, para o caso das chuvas ocorridas em Santa Catarina, em 2008, Ribeiro et. al (2014), estimaram que, por exemplo, um choque negativo permanente de 5,13% geraria um impacto total negativo próximo a 1,7% no nível de PIB catarinense.
Na segunda metodologia, utiliza-se a proporção entre VBPI e Valor Adicionado Industrial (VAI), para o período compreendido entre 2007 e 2010, com a finalidade de trazer uma estimativa adicional, novamente em termos do PIB catarinense, do quanto que a perda de 5,13% na produção industrial representa. Segundo eles, proporção para o período citado foi de aproximadamente 43,4%.
O efeito médio mensal negativo estimado por Ribeiro et. al (2014), pelo método de controle sintético, foi de 5,13% para índice da produção industrial catarinense e representou, em valor, uma perda estimada de R$ 4,7 bilhões a preços de 2010 (baseado no Valor Bruto da Produção Industrial – VBPI). Como em 2010 o VBPI foi de R$ 87,3 bilhões, segundo o IBGE, na ausência do desastre, o VBPI seria de R$ 91,9 bilhões. Deste modo, ainda segundo eles, a proporção de 43,4% entre VBPI e VAI, resultado obtido mostrou que que o montante deixado de se adicionar na cadeia produtiva catarinense foi de aproximadamente R$ 2,0 bilhões, o que significou cerca de 1,5% do PIB estadual catarinense naquele ano.
Finalizando, então, Ribeiro et. al (2014) destacaram que aquela estimativa obtida, 1,5%, estaria, em termos percentuais, muito próxima à obtida pela primeira metodologia (1,69%), indicando a robustez das estimativas calculadas. Tal metodologia poderia ser, então, replicada ao caso gaúcho atual a fim de orientar as autoridades governamentais, do montante de recursos a serem obtidos para a reconstrução do Estado e de sua economia. Ribeiro et. al (2014) também fizerem outras estimativas com o objetivo de medir o efeito do excesso de chuvas sobre o nível emprego, indicando a utilidade desta abordagem.
As estimativas feitas por Ribeiro et. al (2014), para o caso catarinense em 2008, indicaram que, para o caso do setor industrial, que passados mais de dois anos do referido evento, a produção industrial de Santa Catarina ainda foi impactada com o excesso de chuvas ocorridas no final do ano de 2008. As estimativas obtidas por eles indicaram que a produção industrial mensal de Santa Catarina foi, em média, pelo menos 5,13% menor ao que seria na ausência das chuvas. A redução da atividade industrial catarinense também afetou severamente o mercado de trabalho. Foram perdidos cerca de 33,1 mil postos de trabalho e renda diminuiu ente 1,5 a 1,7%.
Ribeiro et. al (2014), por fim, destacam que – “que método de controle sintético utilizado para realizar a mensuração dos efeitos da chuva em Santa Catarina, quando bem implantando, gera o contrafactual necessário. Esta é uma metodologia que parece ser bastante adequada para a investigação de impactos dos desastres naturais na esfera econômica”. Esta metodologia poderia ser replicada a fim de obtermos estimativas mais confiáveis e robustas para o que está ocorrendo no Rio Grande do Sul.
Outra lição importante, com base na experiência catarinense de 2008, destacada pelos autores, e que deve servir de lição para o governo gaúcho, é que os impactos negativos estimados, devem perdurar por um prazo de pelo menos dois anos após as enchentes, mesmo elevando-se em conta as políticas emergências e de auxílio financeiro dos governos estadual, federal e do BNDES. Os autores enfatizam ainda que, aquelas políticas não foram suficientes para que Santa Catarina, no período subsequente as chuvas recuperassem sua pujança econômica, pelo menos a curto prazo e, em termos de produção industrial, presumivelmente acompanhada por PIB e emprego. Deste modo, baseado na experiência catarinense recente, podemos esperar que os efeitos e os custos econômicos se façam sentir por cerca de, pelo menos, 2 anos.
Validação de Modelos Quantitativos: Os modelos quantitativos são ferramentas poderosas como vimos acima, mas estão sujeitos a limitações e incertezas. Consultar especialistas permite validar as previsões e estimativas obtidas por meio desses modelos, comparando-as com o conhecimento prático e a experiência dos profissionais de campo e que atuam nas regiões atingidas. Os especialistas podem identificar fatores críticos que os modelos podem ter negligenciado ou subestimado. Isso ajuda a aprimorar os modelos existentes e a garantir que as análises considerem todos os aspectos relevantes para as estimativas das perdas. A consulta a especialistas pode ajudar, também, na antecipação dos impactos das inundações em diferentes setores, como infraestrutura, economia local e saúde pública. Isso permite o desenvolvimento de estratégias de mitigação futuras mais eficazes e a preparação adequada para lidar com novos efeitos adversos que poderão ocorrer.
No entanto, é importante reconhecer que o método Delphi também tem suas limitações. A qualidade das previsões depende da seleção dos especialistas, da formulação adequada das perguntas e da capacidade de síntese das respostas. Além disso, os resultados podem ser influenciados por vieses individuais ou pelo grupo, portanto, é essencial adotar medidas para mitigar esses efeitos.
O uso de consultas a especialistas, como parte de um método Delphi, pode ser uma abordagem eficaz para avaliar e aprimorar a compreensão e a gestão de eventos climáticos extremos, como inundações. Ao combinar o conhecimento especializado com a modelagem quantitativa, é possível obter insights mais abrangentes e robustos, que podem informar políticas e práticas mais eficazes de preparação e resposta a desastres como o que estamos vivendo no momento.
Em resumo, uma abordagem combinada que incorpore tanto modelos quantitativos quanto conhecimento especializado é geralmente a mais robusta para estimar os custos de reconstrução de eventos climáticos extremos para uma região como o Rio Grande do Sul.
Esta breve revisão do arsenal econômico para estimar os custos de eventos climáticos como o que se abate sobre o Rio Grande do Sul atualmente sugere uma série sugestões e metodologias para os gestores e formuladores de políticas públicas em nível local, estadual e nacional a fim de contabilizar e estimar as perdas decorrentes das inundações e da duração de seus efeitos tanto no curto como no longo prazo. Assim, vamos começar a reconstrução fazendo algumas contas!
Referências:
ALBALA-BERTTRAND, J M. (1993). Political Economy of Large Natural Disasters. Oxford Clarendon Press.
ANDERSON, J. L., and Jones, Eric L. (1988). Natural Disasters and the Historical Response. Australian Economic History Review 28: 3–20.
ASHIZAWA, Takuro, SUDO, Nao, e YAMAMOTO, Hiroki. (2022). How do Floods Affect the Economy? An Empirical Analysis using Japanese Flood Data, Bank of Japan Working Paper Series, No. 22-E-6
BANCO MUNDIAL. (2012a) Avaliação de Perdas e Danos: Inundações Bruscas em Santa Catarina – novembro de 2008. Relatório elaborado pelo Banco Mundial com apoio do Governo do Estado de Santa Catarina.
BANCO MUNDIAL. (2012b) Avaliação de Perdas e Danos: Inundações Bruscas em Pernambuco – junho de 2010. Relatório elaborado pelo Banco Mundial com apoio do Governo do Estado de Pernambuco.
BANCO MUNDIAL. (2012c), Avaliação de Perdas e Danos: Inundações Bruscas em Alagoas – junho de 2010. (“Educação para prevenção de desastres: a persistência do conhecimento …”) “Relatório elaborado pelo Banco Mundial com apoio do Governo do Estado de Alagoas.”
BANCO MUNDIAL. (2012d). Avaliação de Perdas e Danos: Inundações e Deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro – janeiro de 2011. Relatório elaborado pelo Banco Mundial com apoio do Governo do Estado do Rio de Janeiro. (“Public Disclosure Authorized – The World Bank”)
BENSON, C.; CLAY, E. J. (2004). Understanding the economic and financial impacts of natural disasters. Disasters Risk Management Series, n. 4. World Bank, Washington DC.
CARRERA, Lorenzo, STANDARI, Gabriele, BOSELLO, Francesco , MYSIAK , Jaroslav. (2015). Assessing direct and indirect economic impacts of a flood event through the integration of spatial and computable general equilibrium modelling. Environmental Modelling and Software, 63: 109-122.
CASTRO, A. L. C. Manual de Planejamento em Defesa Civil. Secretaria de Defesa Civil, Ministério da Integração Nacional, Brasília. DF, 1999.
CAVALLO, E.; GALIANI, S., NOY, I.; PANTANO, J. (2010). Catastrophic natural disasters and economic growth. Working Papers 201006 – University of Hawaii at Manoa, Department of Economics. (“The impact of earthquakes on economic activity: evidence fro”)
CAVALLO, E. e NOY, I. (2011). The economics of natural disasters: a survey International Review of Environmental and Resource Economics, 5: 63-102.
CHARVÉRIAT, C. (2000). Natural Disasters in Latin America and the Caribbean: an overview of risk. Inter-american development bank, Working Paper n. 434.
COMISIÓN ECONÓMICA PARA AMÉRICA LATINA Y EL CARIBE – CEPAL. Manual para la evaluación del impacto socieconómico y ambiental de los desastres, Banco Mundial México 2003. p.52-61.
CROPPER, M. L.; SAHIN, S. (2009). Valuing mortality and morbidity in the context of disaster risks. Washington, D.C.: The World Bank Development, Research Group Sustainable Rural and Urban Development Team.
DUTTA, D.; HERATH, S. (2002). GIS based flood loss estimation modeling in Japan. Tokyo, Japan: The University of Tokyo.
DOUTY, Christopher M. (1977). The Economics of Localized Disasters. New York; Arno Press.
GALBUSERA, Luca e GIANNOPOULOS, Georgios. (2018). On input-output economic models in disaster impact assessment. International Journal of Disaster Risk Reduction 30: 186–198.
HADDAD, Eduardo Amaral; TEIXEIRA, Eliane. (2015). Economic impacts of natural disasters in megacities: The case of floods in Sao Paulo, Brazil. Habitat International, 45: 106-113.
HIRSHLEIFER, Jack. Economic Behaviour in Adversity. (1987). Chicago; University of Chicago Press.
HORWICH, George. (1990). Disasters and Market Response. Cato Journal 9 (1990): 531–555.
KLOMP, Jeroen; VALCKX, Kay. (2014). Natural disasters and economic growth: A meta-analysis. Global Environmental Change, 26: 183-195.
KUNREUTHER, H.; PAULY, M. (2006). Rules rather than discretion: lessons from hurricane Katrina. Journal of Risk and Uncertainty, v. 33(1): p. 101-116.
NOY, I. (2009). The macroeconomic consequences of disasters. Journal of Development. Economics, 88: 221-231.
MEL, S.; McKENZIE, D.; WOODRUFF, C. (2010). Enterprise recovery following natural disasters. Policy Research Working Paper Series 5269. The World Bank.
NOY, I.; VU, T.B. (2010). The Economics of natural disasters in a developing country: the case of Vietnam. Journal of Asian Economics 21, p. 345–354.
RASMUSSEN T. N. (2004). Macroeconomic implications of natural disasters in the Caribbean. IMF Working Papers 04/224, International Monetary Fund.
RIBEIRO, Felipe Garcia; STEIN, Guilherme; CARRARO, André; RAMOS, Pedro Lutz. (2014). O Impacto Econômico dos Desastres Naturais: O Caso das Chuvas de 2008 em Santa Catarina.” Planejamento e Políticas Públicas, (43): 299-322.
SILVA DIAS, M. A. F.; NOBRE, C.; MARENGO, J.; RODRIGUES, M. L. G.; LIMA, M.; MINUZZI, R. B. (2009). As chuvas de novembro de 2008 em Santa Catarina: um estudo de caso visando a melhoria do monitoramento e da previsão de eventos extremos. (Estudo/análise de informações). Cachoeira Paulista: CPTEC/INPE.
SKIDMORE, M.; TOYA, H. Do natural disasters promote the long run growth? Economic Inquire , v. 40 (4), p. 664-687, 2002.
TOYA, H.; SKIDMORE, M. (2007). Economic development and the impacts of natural Disasters . Economics Letters , v. 94(1), p. 20-25.
TRAN, Brigitte e WILSON, Daniel.(2023). The Local Impact of Natural Disasters, Federal Reserve Bank of San Francisco Working Paper Series, WP 2020-34.
VIADANA, T., NOGUEIRA, F., ABIKO, A. (2018). Aplicação da Metodologia de Avaliação de Perdas e Danos (DALA) no Bairro Vila América no Município de Santo André. In: ENCONTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA DO AMBIENTE.


