Por André Luiz Reis da Silva, professor de Relações Internacionais da FCE/UFRGS
O primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil em 26 de fevereiro. Em 26 de março, o Brasil já contabilizava cerca de três mil casos confirmados. Em 22 de abril, o número de casos passava dos 45 mil, com quase três mil mortes confirmadas. Neste período, a política externa brasileira manteve a mesma posição, de alinhamento com a ideologia do presidente norte-americano Donald Trump, de críticas e provocações à China e de negacionismo quanto ao possível impacto em número de casos e mortalidade. Depois que o próprio presidente Trump (assim como outros lideres, como Obrador no México e Boris Jonhson na Inglaterra) reviu esta posição e vem trabalhando políticas de isolamento mais amplas, Bolsonaro tem experimentado um certo isolamento.
O negacionismo da crise do coronavírus tem como origem os líderes da extrema direita, assentada numa ideologia “antiglobalista” e sintetizada numa dupla desconfiança: com organismos internacionais e com a China. Eles veem uma ameaça em qualquer órgão da ONU, como a OMS, neste momento. Entretanto, o próprio estrategista conservador americano Steve Bannon, interlocutor e referência ideológica da família Bolsonaro no Brasil, vinha defendendo medidas de isolamento social para os Estados Unidos e ficou inclusive surpreso com a manutenção da posição brasileira. E Bolsonaro, a cada dia, foi dobrando a aposta. Reiteradamente, Bolsonaro manifesta desconhecimento e desprezo pela atividade científica, divulga informações distorcidas e mantém um comportamento de ignorar ou ironizar recomendações de “isolamento social”.
Enquanto isso, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo publicou, em seu Blog, no dia 22 de abril, um artigo intitulado “comunavirus”. Neste artigo, a principal preocupação do chanceler é o “vírus ideológico” do comunismo, que pode se aproveitar do coronavírus para expandir seu “projeto globalista”. De acordo com Araújo, “O vírus aparece, de fato, como imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista. Este já se vinha executando por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do cientificismo. São instrumentos eficientes, mas a pandemia, colocando indivíduos e sociedades diante do pânico da morte iminente, representa a exponencialização de todos eles. A pretexto da pandemia, o novo comunismo trata de construir um mundo sem nações, sem liberdade, sem espírito, dirigido por uma agência central de “solidariedade” encarregada de vigiar e punir.”[1] No contexto da crise pandêmica, com enormes desafios, a preocupação central do chanceler brasileiro é com o comunismo.
O governo brasileiro tenta, inclusive, reproduzir o dilema norte-americano cooperação/competição com a China. Nesse contexto, o Brasil conseguiu criar dois incidentes diplomáticos gratuitos com a China. Um primeiro, com Eduardo Bolsonaro publicando confusas mensagens contra a China, contestado pela embaixada da China no Brasil e agravado por uma desastrada nota do ministro das Relações Exteriores brasileiro. O segundo, por uma ironia, também de raciocínio e de redação confusa, do ministro da Educação Abraham Weintraub, repelida pela embaixada chinesa como “racista”. Duas crises gratuitas que deveriam ter sido evitadas em qualquer período, mas que ganham maior gravidade com a centralidade da China, tanto na produção de insumos médicos, como na sustentação da pauta de comércio exterior brasileira.
O presidente Bolsonaro claramente já está tentando encontrar culpados pelo fracasso de sua liderança, tanto para combater a doença, quanto para mitigar as dificuldades econômicas. Nos círculos diplomáticos e na imprensa internacional, as palavras são pouco elogiosas ao presidente brasileiro. Com essa política, ao passo em que critica internamente o “isolamento social”, Bolsonaro está experimentando um isolamento político no Brasil e no exterior. O resultado disso tudo é isolacionismo brasileiro, afastamento da China e outros parceiros, e baixa capacidade de influenciar concertações regionais e globais no manejo da crise.
No âmbito multilateral, o Brasil também tem se mostrado um ator distante e opaco, seguindo de forma geral os interesses norte-americanos. O Brasil seguiu os EUA ao não endossar uma resolução da Assembleia Geral da ONU, apoiada por 179 países, que rogava por cooperação internacional para combater a pandemia.
Essa política isolacionista pode também ter implicações no comércio exterior brasileiro: 1) afastamento político de importantes compradores, como China; 2) problemas de exportação, resultantes de descontrole sanitário; 3) isolamento nas articulações multilaterais de defesa comercial. As expectativas são de uma redução do PIB global e do comércio exterior a curto e médio prazo, o que traz como previsível a elevação da disputa comercial e dificuldades adicionais de exportação (ajustes em cotas, medidas sanitárias, preferências). Os países que detêm maior poder econômico e político tendem a dar as cartas nas regras e negociações comerciais, num jogo duro que exige do Brasil uma forte articulação diplomática para colocar à mesa seus interesses.
O enfraquecimento e esvaziamento das instituições regionais também estão cobrando seu preço, com a ausência de uma clara, forte e determinada articulação regional (em especial do Mercosul). Não interessa ao Brasil a fragilização econômica e sanitária dos vizinhos e é necessário um papel de liderança para resguardar nossos interesses estratégicos na região. As cadeias internacionais de valor tendem a se regionalizar neste contexto, para garantir mais segurança logística.
A contenção da pandemia e a reconstrução da economia regional e global nos próximos meses e anos exigirão da diplomacia brasileira a intensificação da cooperação, em especial a cooperação científica e tecnológica na área de saúde, mas também nos seus aspectos políticos e econômico-comerciais. Exigirá do Brasil também ter uma compreensão clara das mudanças no sistema internacional e suas fricções geopolíticas, para se posicionar corretamente e defender os interesses do País.
Abaixo estão listadas algumas tarefas urgentes para a diplomacia brasileira:
- O Brasil, como uma potência regional, com fronteiras com quase todos os países da América do Sul, deveria estar articulando uma concertação regional, tanto para combater a disseminação do vírus quanto para mitigar seus efeitos, em especial sobre a economia regional. O Mercosul precisa trabalhar ações conjuntas de mitigação da crise sanitária e seus reflexos no comércio internacional.
- O Brasil, como uma potência emergente, deveria estar engajado multilateralmente nas discussões globais sobre a crise. As instituições multilaterais e regimes internacionais devem ser espaços de articulação e busca de consensos para a solução da crise. O Brasil tem sua carga de responsabilidade pelas suas dimensões e projeção num sistema crescentemente multipolar. Da mesma forma, os BRICS podem ser testados na sua coesão exatamente em um momento como esse.
- O Brasil, como uma potência intermediaria, deveria estar inserido em múltiplos pontos nodais de cooperação, tanto com os países desenvolvidos, quanto com os países mais pobres. A cooperação Sul-Sul do Brasil na área de saúde, em especial em relação aos países africanos, é um patrimônio que o Brasil pode aproveitar. A articulação IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) teve origem em uma positiva cooperação em saúde e pode ser reativada neste contexto. A cooperação científica ganha centralidade neste processo.
Para finalizar, a diplomacia brasileira está atuando num patamar muito abaixo das suas capacidades e das necessidades do país, que continua consumindo seu patrimônio diplomático e fragilizando sua inserção internacional, num rápido processo de isolamento. Tal postura poderá ter efeitos altamente nocivos para o país no período sombrio que se avizinha.
[1] Ver ARAUJO, Ernesto. Chegou o comunavírus. Blog Metapolítica. https://www.metapoliticabrasil.com/post/chegou-o-comunav%C3%ADrus.


