Constrangimentos

Por Flávio Fligenspan

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), em sua primeira reunião ordinária de 2016, resolveu manter a taxa de juros básica da economia brasileira (Selic) em 14,25% ao ano, contrariando as expectativas de boa parte do mercado que apostava numa ação enérgica da autoridade monetária para diminuir a inflação. Ação enérgica quer dizer elevação dos juros, a despeito da estagnação da atividade econômica e do crescimento acelerado da taxa de desemprego.

O discurso do presidente do Banco Central e de alguns de seus diretores nas semanas anteriores a esta reunião indicava a alta dos juros e era aplaudido pela ala mais conservadora do mercado que entende, simplesmente, que este é o melhor – na verdade o único e eficaz – instrumento para combater uma inflação disseminada, persistente e além do teto da meta. Trata-se de mostrar força e “ganhar a batalha das expectativas” do mercado, doa a quem doer.

Na visão dos que abraçam o modelo de metas de inflação na sua forma mais crua, o Banco Central tem que apresentar suas armas de forma a evitar que aumentos de preços, mesmo que não originados em excesso de demanda, se propaguem. Desconsidera-se que a metade da inflação de 2015 foi causada por choques de preços administrados e por forças de inércia.

No entanto, quando tudo estava praticamente definido a favor da elevação da taxa de juros, o presidente do Banco Central teve uma reunião com a presidente Dilma e logo a seguir fez declarações que pareceram estranhas por dois motivos. Primeiro porque não é comum (trata-se de uma regra implícita, não escrita) a diretoria do Banco fazer declarações logo antes das reuniões, para não dar pistas do que vai acontecer, o que poderia deixar o mercado mais volátil, com alguns agentes mudando suas posições nervosamente e acabando por influenciar movimentos bruscos de outros agentes.

O segundo motivo tem a ver com o conteúdo das declarações, pois se fazia referência a uma análise do FMI sobre a desaceleração da economia mundial, mais forte do que a esperada recentemente, e isto poderia influenciar negativamente a já frágil economia brasileira. Foi uma fraca tentativa de construir uma justificativa, já que o Banco Central conhece bem as informações que embasaram a análise do FMI. Ora, o mercado entendeu que se tratava de um sinal claro de que o Copom estava mudando de posição e bem poderia evitar a esperada alta dos juros.

Tal declaração passou a ideia de que a maior parte da diretoria do Banco estava com muita vontade de não seguir o caminho que já havia indicado – de alta dos juros –, mas não sabia muito bem como fazê-lo; afinal boa parte do mercado exigia uma posição considerada firme, até para contrabalançar a recente troca do ministro da Fazenda, com a saída de Levy, considerado “linha dura” e representante legítimo do pensamento conservador.

Para os que pensam desta forma, pouco importa a conhecida defasagem entre os aumentos dos juros ocorridos em 2015 e seus efeitos sobre o nível de atividade, o emprego e os preços que ainda estão por acontecer e que seriam ampliados por juros ainda mais altos. Há sempre que se mostrar firmeza. Contudo, contrariando esta forma de pensar, o Copom decidiu – entre constrangido e envergonhado – manter os juros em 14,25%, o que não é um nível baixo para o estado atual da economia brasileira e muito menos se o parâmetro for a economia mundial.

Para piorar a situação, o registro da reunião com a presidente Dilma e a manifestação fora de hora de Alexandre Tombini renderam comentários críticos do mercado financeiro, obviamente referidos à falta de autonomia e firmeza do Banco Central, o que geraria desconfiança sobre a efetiva capacidade do Banco no trato da inflação. Passo seguinte, naturalmente, subiram as projeções de inflação para os próximos anos, as taxas de juros do mercado futuro, fora do controle direto da autoridade monetária, e a taxa de câmbio.

Por outro lado, não foram poucos os economistas de visão tradicionalmente conservadora, incluindo muitos representantes do sistema financeiro, que se manifestaram nos dias anteriores à reunião do Copom contra a alta dos juros. Contrariando seu receituário usual, eles entendiam que a economia brasileira já sofreu muito com a recessão de 2015 e concordavam com a projeção de nova queda do PIB em 2016, sendo razoável neste momento esperar pelos efeitos que ainda estão por aparecer das últimas subidas dos juros.

Eles bem podem piorar as variáveis reais – produto, emprego e renda das famílias – e, na sua visão, reduzir a inflação, sendo desaconselhável ampliar tal terapia. Chegou a ser surpreendente o número de manifestações deste tipo, principalmente tendo em conta a postura tradicional das instituições que estes analistas representam. Muitas destas manifestações foram acompanhadas de algum constrangimento, como se seus autores estivessem traindo seus colegas e sua própria forma de pensar a economia brasileira.

Curiosamente, o que salvou a posição destes economistas foi a tal reunião de Tombini com Dilma e sua declaração fora de hora. Eles se agarraram na crítica forte à postura do Banco e todas as suas consequências negativas no curto e médio prazo, aproveitando para retomar o eterno debate sobre a independência do Banco Central. O tema dos juros perdeu protagonismo e o constrangimento ficou parcialmente encoberto.

Na sua visão, uma diretoria independente, com mandato fixo, não passível de demissão, poderia agir livremente sem se submeter às pressões políticas. Livre da política, poderia fazer o que “é melhor tecnicamente”, como se a técnica fosse superior e neutra. Ah, por certo, uma diretoria independente também estaria livre das pressões e interesses do mercado financeiro, afinal a boa técnica é neutra. Será que é possível acreditar nisto?

Artigo originalmente publicado no portal Sul 21.

Flávio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.

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