Economia cresce, mas Brasil não se recupera da recessão

O Núcleo de Análise de Política Econômica (Nape) publicou na última semana a nova edição da Carta de Conjuntura. Os dados demonstram que, no primeiro trimestre de 2021, a economia brasileira cresceu 1,2% e voltou ao mesmo nível do final de 2019, ou seja, pré-pandemia.

No entanto, de acordo com o professor Flávio Fligenspan, coordenador do Núcleo, o crescimento não significa uma recuperação da recessão. “Numa visão de médio prazo, importa notar que, ao se voltar ao nível do final de 2019, as perdas mais diretamente ligadas ao pior momento da pandemia foram superadas, mas ainda estamos com um PIB 3,1% inferior ao do início de 2014, antes da recessão de 2014-2016”, explica.

A análise do desempenho das diversas atividades que compõem os setores de indústria, comércio e serviços mostra a heterogeneidade da recuperação e confirma o fato de que os níveis atuais (maio de 2021) de produção e vendas são menores que os dos picos já alcançados, que ocorreram principalmente entre os meses finais de 2020 e os iniciais de 2021. “Trata-se de uma recuperação com avanços e recuos, não de uma recuperação firme ou consolidada”, argumenta Fligenspan.

“Um mercado de trabalho ainda muito frágil, com elevado desemprego e muitos vínculos informais, não oferece renda suficiente para o aumento do consumo, o que tem levado ao aumento do comprometimento da renda das famílias com o serviço de dívidas contraídas no passado”, acrescenta o docente.

O pesquisador destaca ainda a questão da inadimplência, que não cresceu durante a pandemia. Para o docente, a explicação reside no fato de o sistema financeiro e as empresas de serviços públicos terem postergado as cobranças de empréstimos e tarifas, com o objetivo de aliviar a situação financeira das famílias no auge da pandemia. “Mas há que se ter cuidado com a análise deste ponto, pois postergar não significa perdoar, e nos próximos meses essas dívidas vão sobrepor-se aos pagamentos regulares, trazendo dificuldades às famílias de rendas médias e baixas”, alerta Fligenspan.

A Carta de Conjuntura do Nape é publicada trimestralmente, com o objetivo de avaliar a conjuntura econômica nacional e internacional. A Carta contém informações e análises sobre economia mundial, política fiscal, política monetária, inflação, balanço de pagamentos e nível de atividade econômica, entre outros temas. Todas as edições podem ser consultadas aqui: ufrgs.br/fce/carta-de-conjuntura. Contatos pelo fli@ufrgs.br.

 

Assista à transmissão com a análise completa:

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