A professora Ana Tércia Lopes Rodrigues, do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da FCE, assumiu em janeiro deste ano a presidência do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRCRS). Em 70 anos da Instituição, é a primeira mulher eleita para gerir a Entidade. Entrevistamos a docente, que comentou sobre suas expectativas à frente do CRCRS e também mostrou sua visão sobre a área das Ciências Contábeis.
À frente do CRCRS, ela planeja impulsionar a inovação e ampliar o uso das novas tecnologias na área, que passa por grandes modificações atualmente. Segundo a professora, o principal objetivo de sua gestão é o de posicionar o Conselho com entidade orientadora para os profissionais de Ciências Contábeis, tanto em relação a aspectos legais quanto à educação continuada. Ana Tércia quer que o CRC seja o canal de comunicação entre os contadores e o mercado.
Além disso, a professora pretende aproximar academia e mercado, alinhando as visões entre esses ambientes, facilitando a inserção dos estudantes na esfera corporativa e preparando as empresas para receber esses alunos. Ana Tércia explicou ainda a paixão por ensinar e a descoberta da contabilidade como uma ciência social, pois prefere atividades mais “humanas”, como lecionar e gerenciar pessoas, do que técnicas.
De acordo com a docente, o fato de ser contador não significa que o profissional deva se limitar ao perfil pré-desenhado para o curso. Segundo ela, atualmente a contabilidade está bastante voltada à área da sustentabilidade e para uma série de outros nichos de mercado que possibilitam a um contador com um perfil mais extrovertido realizar profissionalmente.
A professora explicou ainda que sempre aconselha os estudantes a tentarem encontrar, dentro da profissão, aquilo que seja realmente prazeroso. “Acho muito triste uma pessoa passar sua vida trabalhando em alguma coisa que ela não gosta, ou estudando algo que não gosta”, completou.
Leia a entrevista completa, realizada pela bolsista de Relações Públicas Gabriela Trezzi:
Portal – Por que você escolheu se candidatar à presidência do Conselho?
Ana Tércia – Além de já ter um histórico com a Instituição – fui funcionária do Conselho, depois assumi como conselheira, fui vice-presidente durante várias gestões -, também há uma questão bem desafiadora, que é a questão do protagonismo feminino. Aqui no Rio Grande do Sul nunca havíamos tido uma mulher presidente, e eu percebi que havia esse espaço para ser preenchido. Também, principalmente, para poder influenciar decisões, poder influenciar minha profissão, dentro de ideias que eu imagino que sejam úteis para o ambiente contábil no momento atual. Logo, acho que isso foi o que mais me motivou: o desafio. Fazer algo novo e poder fazer a diferença na área em que eu atuo.
Portal – Sobre a questão do protagonismo feminino, você acredita que as Ciências Contábeis são uma área predominantemente masculina? Falta espaço para as mulheres nessa profissão?
Ana Tércia – Na verdade, já foi. Atualmente, quantitativamente, está quase meio a meio a quantidade de homens e mulheres na profissão. Mas a gente ainda precisa desenvolver algumas ações no sentido de que as mulheres se mostrem mais nas funções de liderança profissional, no sentido de encabeçarem alguns projetos, de estarem mais ativas politicamente. Acho que esse é o desafio da mulher, não só na contabilidade, como na sociedade de uma forma geral. Não basta estarmos presentes nas entidades e lugares, precisamos também participar do projeto de liderança que precisamos para o nosso país e as entidades em sua generalidade.
Portal – E quais são os seus projetos à frente do CRCRS?
Ana Tércia – Meus projetos são muito voltados à questão da inovação. O Conselho é uma entidade que tem 70 anos e a profissão contábil no Brasil vem passando por uma mudança muito forte, uma influência tecnológica muito forte, e isso requer uma alteração na postura dos profissionais, uma nova forma de enxergar a contabilidade. É quase que um reposicionamento de carreira que precisará ocorrer para que a profissão atenda essas novas demandas que estão acontecendo no mercado. Meu projeto à frente do Conselho é de levar essa mensagem de maneira a provocar essa mudança de comportamento que é necessária para que a profissão continue prosperando e crescendo. Para que ocorram, realmente, novas oportunidades de mercado para os contadores. Percebo que o Conselho tem um papel importante nesse processo, pois ele é o órgão regulador, é uma entidade que tem capilaridade. Consegue atingir os 40 mil profissionais dentro do Estado e também tem uma interlocução muito boa com outras entidades dentro da sociedade civil organizada, com entidades empresariais, com o segmento político. Assim sendo, eu quero que o Conselho seja a entidade orientadora para que os profissionais possam buscar não só como referência legal, mas também por estar atualizado em questões de educação continuada, de tentar saber o que está realmente acontecendo com a profissão. Desejo que o Conselho possa ser o canal de comunicação dos profissionais com o mercado.
Portal – De que modo tu achas que a tua experiência junto ao conselho pode auxiliar na tua carreira acadêmica?
Ana Tércia – Penso que o grande desafio atual é aproximarmos a academia do ambiente profissional. Circular nesses dois ambientes é muito gratificante, porque dentro da academia existe um anseio, principalmente por parte dos alunos, de realmente conhecer o mercado, saber como ele funciona, como as coisas acontecem. E, dentro do ambiente profissional, empresarial, mais técnico, também há essa expectativa de que os profissionais que estão saindo da academia tenham uma visão mais realista do mercado. Parece que a gente está falando de dois mundos completamente diferentes, quando na verdade deveria ser uma coisa só. Fazer essa integração entre o ambiente profissional do dia-a-dia de uma empresa contábil, ou de um contador inserido dentro das contabilidades das empresas, com o que acontece no meio acadêmico é muito desafiador, mas ao mesmo tempo é recompensador. Hoje, eu consigo circular nesses dois ambientes, mas vejo que existe uma realidade que é completamente diferente. Como é que se traz a tecnologia que está operando dentro das empresas para dentro da Universidade? Ainda mais uma Universidade como a UFRGS, pois sabemos das carências que temos em termos de infraestrutura – mas, ao mesmo tempo, temos um potencial humano valiosíssimo, pois são alunos com uma vontade de aprender, com expectativa e desempenhos muito bons. Portanto, achar exatamente qual é esse elo é o que mais me desafia, e o que me faz perceber o quanto é importante a gente ter nesse momento atual uma aproximação entre esses dois ambientes. Eu me sinto muito confortável transitando entre esses dois mundos, que na verdade deveriam ser um mundo só.
Portal – Então você também acredita que a sua carreira acadêmica poderá auxiliar na presidência do CRCRS.
Ana Tércia – Acredito, pelo fato de ser um novo olhar. Historicamente, o Conselho sempre foi presidido por empresários, profissionais que estão no mercado mais técnico, e não é um ambiente muito acadêmico. Estou levando para dentro do Conselho a minha realidade de ter a linguagem atual do jovem profissional, que é uma coisa da qual o Conselho precisa se aproximar, visto que a grande maioria dos profissionais são profissionais formados nos últimos 5 anos – então, teoricamente, é um profissional novo. Mas o que me preocupa é, principalmente, não o profissional que se formou nesses últimos 5 anos e está dentro do Conselho, registrado, atuando na profissão. E, sim, o grande volume de pessoas formadas e que não se aproximam do universo profissional das ciências contábeis – que estão trabalhando em áreas periféricas da contabilidade, ou até em outras áreas que não a contabilidade, que não enxergaram o potencial da área profissional. Por que uma pessoa que escolhe certa profissão não atua nela? Provavelmente porque houve um desvio de rota, ou, de repente, essa pessoa está atuando na área, mas não está próxima das entidades que podem trazer essa melhoria de desempenho dela no ambiente de trabalho.
Portal – Que tipo de desafios tu enfrentaste até agora para chegar ao teu atual momento da vida acadêmica? E quais desafios que tu acreditas que podem surgir agora neste teu novo cargo no CRCRS?
Ana Tércia – A minha carreira acadêmica tem 25 anos. Tive experiências anteriores, já trabalhei na PUC, na São Judas Tadeu e fui coordenadora de pós-graduação. Atuo na UFRGS há 10 anos. Comecei atuando no mercado e depois eu fui para a academia – e ainda depois é que fui me preparar para ser professora, já que, primeiro, comecei a dar aula, para, depois, entender como funcionava e me profissionalizar na carreira docente. O principal desafio é justamente essa diferença existente entre o ambiente acadêmico e o ambiente profissional, como, por exemplo, fazer pesquisa em contabilidade. É extremamente complexo, porque acredito que a pesquisa precise refletir algo, trazer um ganho para o ambiente profissional, para o mercado. Eu vejo que a pesquisa, dentro da área contábil, ainda está muito fora do contexto da realidade. Faz-se muita pesquisa que não é consumida pelas pessoas que praticam a contabilidade. Acredito que a pesquisa deve evoluir para a busca por novos conhecimentos, e não ficarmos pesquisando apenas pela necessidade de produção científica. Esse, para mim, é um desafio bastante complexo, pois precisamos acreditar nas coisas que fazemos, que estamos pesquisando ou orientando – e vejo dentro da Academia muitas pessoas pesquisando pela obrigação. Na Universidade, pela obrigação de apresentar o TCC ou de pontuar para a CAPES, por exemplo. E, muitas vezes, essa pesquisa não gera o conhecimento que deveria gerar. Na medicina, vemos pesquisas que desenvolvem medicamentos para curar doenças, ou que irão ajudar as pessoas a mudar seus hábitos alimentares: são pesquisas úteis. Temos que começar a desenvolver pesquisas de mais utilidade para o ambiente profissional na área de Ciências Contábeis.
Portal – Agora a sua rotina vai ficar bastante atribulada com reuniões, aulas e afins. Como você vai conciliar vida acadêmica, com o CRCRS e tua vida pessoal?
Ana Tércia – Eu conto com o meu dinamismo. Tenho uma personalidade muito agitada, inquieta, dinâmica. Segundas-feiras, por exemplo, venho para a UFRGS, começo a dar aula às 7h30min e termino às 22h. Neste meio tempo, resolvo coisas dentro da Universidade ou faço alguma reunião em que preciso me deslocar. O que nos facilita muito, hoje, é a possibilidade de trabalhar remotamente. Acesso o sistema da UFRGS em qualquer lugar que eu esteja, o material está todo em plataformas virtuais, me comunico com os alunos presencialmente, mas também através do Moodle e da Sala de Aula Virtual. Entendo que a Universidade hoje está nos permitindo isso. O que nos falta em estrutura física sobra em recursos tecnológicos. O nosso ganho profissional pode estar em dominar essas ferramentas tecnológicas para que possamos potencializar nosso trabalho acadêmico. O que trabalhamos em sala de aula vira um volume de materiais que está disponível nas plataformas virtuais e através dos links que disponibilizamos. O aluno pode acessar um mundo com aquelas informações. Na vida pessoal, obviamente, temos que achar as brechas. Eu não acredito em um profissional bem-sucedido que não seja feliz. Acho que nossa felicidade está justamente em fazer aquilo que se gosta, em poder atuar com tranquilidade tanto na vida familiar quanto na vida profissional. Tenho a satisfação de estar feliz tanto dentro da UFRGS, em uma sala de aula, quanto em reuniões técnicas, representando o Conselho. Muitas vezes, onde estou representando o Conselho, estou falando da UFRGS, e, na UFRGS, falo de projetos que estou desenvolvendo. Eu posso fazer esse link, pois é o mesmo mundo. Só está em caixinhas separadas. O que eu falo em sala de aula, muitas vezes, também está sendo discutido em reuniões na Receita Federal – e tem muito a ver com a realidade que os alunos querem conhecer. Ou, dentro de uma empresa, posso estar atendendo a uma demanda de algum processo que futuramente se torna um case dentro da sala de aula. Quando eu consigo fazer essa conexão toda, é o máximo da satisfação. Poder estar realizando várias coisas dentro de um só projeto – que é a valorização da nossa profissão.
Portal – E, nas horas de folga, o que você gosta de fazer? O que deixa você feliz?
Ana Tércia – Eu sou muito musical, gosto de frequentar ambientes festivos, faço atividades físicas regularmente, academia, uma modalidade de boxe. Tento sempre estar fazendo uma atividade física regular. E estou sempre conectada com música. Quando venho para a faculdade de manhã, ouço sempre alguma música que me anime, dirijo cantando: isso me deixa muito relaxada. No final do dia, também volto para casa e sempre tenho CDs dentro do carro, um pendrive cheio de músicas, ou faço alguma playlist legal. Em casa, assisto a um filme ou a um seriado, mas a música costuma ser minha válvula de escape.
Portal – Sempre quis ser contadora ou já almejou alguma outra profissão?
Ana Tércia – Comecei minha carreira como técnica em química, trabalhei durante quatro anos na área, mas depois migrei para a contabilidade. Já desejei até ser jornalista, repórter etc. Acabei caindo na contabilidade pela facilidade de lidar com números, o que na verdade é uma visão equivocada, hoje eu sei disso. Presumia que minha facilidade com a matemática seria o fator principal do meu trabalho, ao ingressar na contabilidade. Depois, já trabalhando, descobri outro mundo, pois tenho um viés muito mais social do que técnico. Na contabilidade, encontrei este outro lado e acabei descobrindo que esta é, também, uma ciência social. E, dentro desde viés social da contabilidade e do ambiente acadêmico, consigo desenvolver meus anseios de me comunicar e me conectar com pessoas, de fazer um trabalho muito mais voltado para o humano do que para o ambiente técnico. Dentro da sala de aula, me vejo liderando um grupo de alunos e conduzindo através do conhecimento. Mesmo no Conselho, também exerço um trabalho de coordenar pessoas, visto que liderar uma entidade é um exercício de lidar com pessoas e fazer uma construção política. Assim, acabei reencontrando esse meu lado humano, pois achava que era uma pessoa muito técnica, mas descobri que sou uma muito mais humana, social. As ciências contábeis, surpreendentemente, me deixam exercer esse meu perfil. Isso também me permite orientar, muitas vezes, alunos que vêm para a contabilidade e não querem ficar fechados a um escritório de contabilidade. Eu costumo dizer a eles que o fato de ser contador não significa que tenhas que te limitar a um perfil pré-desenhado para a profissão. Um contador pode exercer tantas funções dentro da contabilidade, inclusive na área acadêmica, como pesquisador. O aluno pode ser um auditor; um perito; um pesquisador; também pode, sim, ser um contador do modelo mais tradicional, trabalhando em uma empresa e fazendo uma atividade mais técnica. Porém é importante lembrarmos que há todo um outro universo: hoje a contabilidade está mais voltada à área da sustentabilidade, para as causas sociais, para um série de outros nichos de mercado que um contador com um perfil mais extrovertido também consegue se realizar profissionalmente na contabilidade.
Portal – Por fim, que conselho você deixa para quem deseja seguir essa carreira, ou para quem ainda está no início na vida acadêmica?
Ana Tércia – O conselho que gosto de deixar para os meus alunos é: tente encontrar, dentro da profissão, aquilo que realmente vai te dar prazer. Acho muito triste uma pessoa passar sua vida trabalhando em alguma coisa que ela não gosta, ou estudando algo que não gosta. O conselho seria encontrar, dentro deste universo de coisas que a contabilidade possibilita fazer, aquilo que realmente vai ser prazeroso. Hoje, por exemplo, uma área que tem se desenvolvido muito é a área de coach. Você pode aplicar a metodologia do coach para a contabilidade. Um contador pode ser um coach financeiro, pode ser um personal financeiro de um empresário, pode ser o que quiser dentro da contabilidade. Mas aquilo que ele escolher fazer deve fazer com gosto e vontade. Esse, em minha opinião, é o segredo de um profissional bem-sucedido. Para mim, profissional bem-sucedido não é aquele que ganha muito dinheiro, é aquele que faz o que gosta, e o sucesso vem por consequência. Inclusive gosto muito de uma frase que diz “carreira é uma escolha, o sucesso, consequência”.
Foto: Gabriela Trezzi/FCE


