Revista digital. Atividade para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.
Capa por Manu Couto, Gezebel Bender e João Guilherme Gomes
por Guilherme Vivan, Linda Schwarz, Luiza Weiler, Nicoly Ramão e Raquel Bruhn
O cenário musical nacional contemporâneo se expandiu muito além das músicas brasileiras e anglófonas, abrindo espaço para que sonoridades de diversos continentes circulem e criem novas comunidades de escuta. Nossa intenção inicial era observar esse fenômeno na festa de K-pop Black Cherry, mas, ao ampliar o olhar, percebemos que dinâmicas semelhantes acontecem também no funk, no reggaeton e em outras expressões musicais que ressoam territorialidades, afetos e disputas. Para Proto (2019):
A complexidade e discrepância sócio-cultural que se instaura no Brasil é o que dita o caosmo destas polifonias territoriais, que organizam-se no fluxo das linhas de escape, através da arte e da insurgência, em busca de estabelecer uma resistência política, cultural e emergencial. (PROTO, 2019. p. 122)
Dessa forma, decidimos analisar não apenas a festa de K-pop, mas também uma festa de reggaeton, a fim de compreender como se dá a relação de consumo e afeto dos fãs com esses gêneros musicais dentro do fenômeno da festa aqui em Porto Alegre. Queríamos compreender como o público interage com esses gêneros musicais estrangeiros, relativamente novos, e que tem feito bastante sucesso. Também tínhamos o desejo de observar a forma como a música se manifestava em cada um dos eventos: entender como o som, no lugar de instituição social, cultural e política, aproximava e distanciava cada um desses estilos e dessas comunidades.
Dia 24 de outubro, fomos em uma festa de música latina, a Caliente, edição Noche de Los Muertos, que aconteceu no bar Ocidente. A festa era dividida entre a pista “latina”, onde tocavam músicas majoritariamente em espanhol, enquanto a pista do segundo andar tocava música brasileira. E, no próximo dia, depois de não tanto sono, mas bastante café, fomos numa festa de K-pop, a Black Cherry. Também era uma edição de Halloween, desta vez na Workroom.
Os locais das duas festas são bem diferentes. Fundado em 1980 no coração do Bom Fim, o bar Ocidente é uma das casas de festa mais antigas da cidade de Porto Alegre, com um público fiel frequentador do espaço. É tão tradicional que sequer precisa de um letreiro, se destacando apenas como um prédio amarelo na esquina da Osvaldo Aranha.
A fachada leva apenas um discreto símbolo gráfico do ocidente na grade da janela, o círculo preto com um ponto vermelho. Foto: Google Maps
Em contrapartida, o Workroom é um local de referência entre a comunidade alternativa de Porto Alegre. Bar de drag, o espaço é recheado de cores vibrantes por todos os lados, manifestos políticos que decoram as paredes e luzes multicoloridas que contribuem para criar uma ambientação intensa. Infelizmente, o bar estava se preparando para encerrar suas atividades só uma semana depois da Black Cherry de Halloween, no dia 1° de novembro. De acordo com a DJ da Black Cherry Ágatha Souza, “É um espaço que era muito necessário, principalmente para a comunidade drag. Foi meio inesperado, ainda mais nesse meio político atual de Porto Alegre. É um ponto de resistência a menos.”
Letreiro luminoso da Workrooom era um farol no meio da rua deserta e até na frente da boate enchia de gente, que saía para fumar e conversar. Foto: Guilherme Vivan
Apesar disso, Júlia Rocha, uma das organizadoras e também DJ da festa, destaca que a Black Cherry é uma festa itinerante, e deve continuar ocupando espaços de expressão alternativa na Capital e na região metropolitana. De acordo com ela, o desenvolvimento da festa acompanha as mudanças no mundo do K-pop há mais de uma década. “A Black Cherry existe desde 2011 e ela era lá em São Leopoldo na época. A gente alugava vanzinhas para fazer caravana pra ir juntos. Ela iniciou com uma festa de J-rock e K-pop, as duas coisas juntas, e depois evoluiu para uma festa só de K-pop”, conta ela.
O que a galera quer escutar
Um dos melhores lugares para entender quem é o público de uma festa é na fila. Na Caliente, a primeira a chegar foi a Raquel, que pôde observar as pessoas chegando, bebendo, fumando, e entrando na casa. A idade do público chamava a atenção, a maioria com mais de 30 anos, mais velhos que a gente. Ainda do lado de fora, algumas pessoas um pouco mais jovens falavam em espanhol, as mesmas que horas depois dariam seus depoimentos em uma entrevista no fumódromo da festa.
Quanto à sexualidade, na Black Cherry, o público majoritariamente LGBTQIAP+ fortalecia o senso de comunidade. Na Caliente, a configuração heteronormativa era responsável pela criação de uma tensão entre os frequentadores dos dois gêneros. De acordo com Trotta (2023), todas as relações interpessoais, quando são permeadas pela música, abrem margem para a criação de incômodos e angústias:
Proponho aqui pensar o gosto musical no sentido inverso. Não apenas como um elemento que agrega sensibilidades convergentes ou divergentes (como os “haters”), mas como um contexto norteador de movimentos de rechaço a determinadas experiências musicais que funciona como potencializador de incômodos. (TROTTA, 2023, p. 26)
Nesse sentido, na festa no Ocidente, pudemos observar a manifestação desse incômodo na proximidade e frequência com a qual os homens abordam as mulheres, causando um ambiente por vezes desconfortável para as participantes do gênero feminino. Naquele ambiente, a música com letras e danças marcadas pela sensualidade parecia atuar como um potencializador para mais expressões do cunho do desejo.
Na Caliente, havia muitos casais em ambas as pistas, mas os da pista brasileira pareciam mais animados. Entre si, compartilhavam mais beijos, mais abraços, mais dança “agarradinha”. Christian, um colombiano de Bogotá que mora em Porto Alegre há oito meses, acredita que essa característica seja uma diferença cultural. “Em termos de festa, diria que o relacionamento com as pessoas é bem diferente aqui [no Brasil]”, conta, “Não quero ser explícito, mas aqui as questões interpessoais são de muito mais confiança do que como acontece em Bogotá. Esses relacionamentos não se dão em um primeiro encontro como acontece muitas vezes aqui no Brasil. Essa é uma grande diferença para mim”.
Festa Morta-Viva
Tô me preparando para festa latina e pensando na roupa. Será que vou com a camiseta de turista escrito Machu Picchu, alguma do brasil ou aquela que acabei de comprar da URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Não que eu tenha ido pro Peru ou conhecido a URSAL kkkkk, comprei todas no brechó mesmo. Decido ir com a da URSAL. Talvez alguém ache engraçado e queira falar com a gente. Chamo meu mototáxi e vou pro Ocidente sentindo o vento forte ao som de Tropicoqueta da Karol G no fone pra entrar no clima.
Chegamos lá, no Día de los Muertos do Ocidente. Uma sexta-feira à noite perfeita: clima ameno, ar propício e céu limpo. Aquele tipo de noite que parece feita pra coisas boas acontecerem. Em Porto Alegre, o Ocidente é quase um mito boêmio da cidade. Mas pra maioria de nós, era a primeira vez.
Estávamos animados e, quando entramos mais ou menos às 23h30 esperávamos uma pista fervendo e encontramos meia dúzia de pessoas mais velhas, uns casais desanimados, uma galera perdidos. Será que chegamos cedo demais? A gente olhava uns pros outros com aquela cara de “é isso?”. Fazíamos anotações, não dançávamos. O corpo parado, o olhar analítico. E isso já era um sinal. Estávamos buscando por algo, sem ter nenhuma pista de energia, acontecimento ou frenesi.
Resolvemos então fazer a maquiagem do dia de los muertos. Por que não? Era gratuito, chegar e fazer. Na fila, vemos algumas pessoas sentadas, que pareceriam ser do Chile ou Colômbia. Sentimos alguns olhares, especialmente de homens. Com um grupo majoritariamente de mulheres, estávamos nos sentindo desconfortáveis. Decidimos ver se a maquiagem nos animaria.
Maaaas, depois de um tempinho na fila o espaço começou a ficar um pouco mais recheado de gente e de dança e nos surpreendemos com o quanto deu pra aproveitar a pista de música latina. As músicas foram muito envolventes e o coração latino se rendeu. Os sons eram de tão longe geograficamente, e ao mesmo tempo tão perto culturalmente. Ficávamos procurando identificações.
Esse divo que esperava conosco na fila de maquiagem mais tarde iria distribuir uns shots de tequila direto da garrafa aompanhados de uma sacudida na cabeça de quem tomava. Foto: Linda Esperanza
Quando vimos que uma das integrantes do grupo chegou com uma blusa bem curta, falamos “¡Ui que latina!”. Cada peça de roupa, gesto e fala eram um sinal da nossa própria latinidade que nos orgulha. Mesmo assim, não foi uma festa tão boa. Sentimos que estávamos nos esforçando para curtir, trocamos de pista e de lugar constantemente, à procura de algo que não estava lá.
Fora do Brasil, ser latino é motivo de orgulho. Na Caliente, sentimos o que é ser latino no restante da América Latina. Dentro do Brasil, nem entendemos direito nossas diferenças, principalmente na palavra latino. Essa festa parecia mais nos diferenciar do que unir-nos. Os brasileiros para cá num andar, o resto para lá, noutro andar.
Parece que a festa não teve uma conexão identitária entre os participantes tão grande, como veríamos na Black Cherry, no dia seguinte. Faz sentido, afinal não era uma festa para um gênero, como reggaeton, era só uma festa “latina” – conceito bastante amplo. No público, não víamos uma riqueza de símbolos ou semelhanças indicando comunidade.
Na pista brasileira tocou bastante forró, e algumas coisas mais tradicionais, em vez de pop, funk e rap, gêneros brasileiros mais exportados para outros países. Era uma playlist com mais complexidade do que o estereótipo estrangeiro de música brasileira. Ao contrário da festa latina, que tocou apenas o reggaeton e salsa. Isso se confirmou a partir da nossa entrevista com César, um mexicano de 34 anos que mora há um pouco mais de um ano em Porto Alegre.
“Eu acho que o povo brasileiro acredita muito que o negócio da música hispana é muito reggaeton. Mas nem sempre. Tipo, reggaeton foi bem da Colômbia, do Caribe. Mas, no México, na real, a gente tem música muito diferente. Música que até certo ponto é muito mais parecida que sertanejo e forró, sabe? […] Então, é bem diferente, pelo menos aqui agora no ocidente, tá rolando um negócio de música latina hispânica ser reggaeton e salsa. Ok. Mas isso não envolve todos os países que falam espanhol, entendeu? […] Até certo ponto, eu consigo me identificar um pouco também com essa música, principalmente porque a letra é em espanhol.”
Foto: Linda Esperanza
Foto: Linda Esperanza
Foto: Linza Esperanza
Foto: Linda Esperanza
Foto: Linda Esperanza
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Raquel Bruhn
Na festa de k-pop, qual o seu idol favorito?
Antes mesmo da festa, já tínhamos expectativas positivas. Conversamos previamente com a Júlia Rocha e a Ágatha Souza, DJs envolvidas na Black Cherry. Ambas exalaram uma real paixão por música, por performance e por criar um espaço seguro e acolhedor para quem ama o K-pop.
“Combinei de uma amiga minha de vir na minha casa para nos arrumarmos e irmos juntas para a festa. Tomei banho, me vesti e quando ela chegou fomos para o meu quarto. Mostrei para ela minha coleção de photocards. Começamos a nos maquiar enquanto conversávamos sobre o mundo do K-pop, sobre músicas novas, músicas velhas, fofocas de grupos e etc. Comentei com ela que eu passei algum tempo meio distante do K-pop e por isso estava escutando uma playlist com os lançamentos mais novos para me “inteirar” sobre o assunto. Ninguém quer parecer uma poser, certo? Conversamos tanto que saímos de casa às 23h30.”
Mesmo sem todos conhecermos muito sobre o K-pop, pudemos perceber como essa comunidade funciona como um grupo extremamente diverso e, ao mesmo tempo, unido. Nas entrevistas que fizemos durante a festa, chamou atenção a variedade demográfica do público, pessoas completamente diferentes convivendo num mesmo espaço sem estranheza, uma heterogeneidade que não é tão natural em outras festas e que costuma criar tensões.
Perguntamos sobre fantasias, músicas esperadas e percepções sobre a noite. As respostas mostraram uma expectativa forte típica da comunidade K-pop: animação, energia, coreografias e identificação estética. Percebemos o preparo dos fãs. Para eles, não era simplesmente uma balada, houve um planejamento prévio, gastando tempo preparando as fantasias e aprendendo coreografias. Entre o público leigo, percebemos curiosidade, um certo estranhamento positivo e admiração pela dedicação dos fãs.
O público vibrava em unidade, como uma onda que varria a pista de dança. Foto: Guilherme Vivan
Esse sentimento também foi compartilhado pelas organizadoras, que ainda ficam impressionadas com o engajamento dos frequentadores. “Para mim, o grande diferencial da Black Cherry é o público. O pessoal sempre fala que o nosso público dança muito, porque o K-pop tem essa coisa da coreografia, né? Ele é um estilo musical muito visual, na minha percepção. Porque não é um estilo que tu só escuta, o negócio é tu assistir enquanto tá escutando. Ele tem todo um negócio visual do conceito da roupa, da dança, de tudo”, comenta Júlia. “E a gente bota músicas que o pessoal sabe dançar, porque o negócio mesmo é que o pessoal vai pra festa pra dançar. Não é ‘vou ir pra pegar gente, pra ficar bêbado’, não. O pessoal vai dançar mesmo”.
Uma festa de K-pop, que envolve uma performance muito mais coreografada, pensada e simbólica, contrastava com a Caliente que teve muito mais sensualidade, improviso, rebolado e interação. Na Black Cherry, tudo parecia ensaiado, mesmo quando não era. A animação surgia naturalmente, mas ao mesmo tempo havia um quê performático, algo que faz parte da cultura: dançar do jeito certo importa.
Esse objetivo, de participar e fazer danças coreografadas, expõe uma lógica na construção dos set radicalmente diferente entre as duas festas. Os DJs da Black Cherry precisam tocar músicas que sejam bastante conhecidas e amplamente consumidas pelo fandom a ponto de decorarem a coreografia. Na festa latina, o objetivo é muito mais de criar uma “vibe”. O público desconhecer a música tem um impacto menor porque não precisam ter preparado uma coreografia para serem afetados por ela do jeito desejado. As transições mais longas e intervenções dos DJs nas faixas também eram mais frequentes na Caliente do que na Black Cherry pelo mesmo motivo. Intervir demais nas músicas de K-pop podia atrapalhar a coreografia, algo que não era um problema na festa latina.
Quando subimos no palco para fotografar a DJ Ágatha, conseguimos ver a pista toda. Na frente, todos dançavam perfeitamente sincronizados. Sabiam cada passo, cada quebra e refrão. É assombroso ver algumas dezenas de pessoas se movimentando em sincronia sem qualquer ensaio conjunto prévio. Mais pra longe do palco a sincronia ia se diluindo em tentativas de acompanhar a coreografia.
A make verde da DJ (pintada de Elphaba de Wicked) derretia com o calor da casa cheia, mas ela seguia tocando com a energia contagiante e eventualmente se abanando com o leque. Às vezes uma ou duas pessoas subiam com ela no palco e dançavam coreografias perfeitas, mas não era algo invasivo, era natural e respeitoso.
A DJ Ágatha Souza ferveu e suou tanto que até retocamos a maquiagem verde na foto, que já tava derretendo. Foto: Guilherme Vivan
Isso também despertou reflexões sobre ambientação: enquanto muitas festas ocidentais (trocadilho intencional) seguem uma lógica mais hierárquica (seguranças rígidos, pouca interação, receio com câmeras), o clima da Workroom era completamente diferente, íntimo e participativo, quase familiar. Os seguranças se mostraram tranquilos e acostumados com a pista mais performática, fantasias, câmeras e gravações.
O público, então, amou as câmeras, algo que nem sempre acontece nas festas. Às vezes o ser registrado pode gerar incômodo. Na Black Cherry, ao contrário, muita gente pedia pra aparecer, queria registrar, queria mostrar sua fantasia. Fomos confundidos com fotógrafos oficiais e tiramos fotos de um monte de gente
O público veio em sua maioria fantasiado e alguns traziam elementos da comunidade K-pop. Na calça de uma delas podemos ver um photocard, um pequeno cartão colecionável com a foto de um idol(artista de K-pop). Foto: Guilherme Vivan
E a pista realmente estava quente — MUITO quente. Quando fomos para o meio dela, a energia era ainda maior: mais apertado, mais calor, mais animação. Distribuíram pirulitos, todo mundo pegou, e isso virou outro símbolo da festa, pequenos elementos que fortalecem ainda mais o senso de comunidade.
“Em certos momentos eu senti vergonha de dançar, mas ao mesmo tempo me senti inspirada, então fui observando e replicando como dava. E tudo isso sendo mulher: algo que, em outras festas, sempre vem acompanhado de incômodos como olhares insistentes, cantadas ou falta de respeito. Aqui, ao contrário, me senti muito segura. As pessoas estavam focadas na música, na dança, nos grupos, e não em sexualizar corpos.”
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Foto: Guilherme Vivan
Difícil caber a expressão musical de um país num set, né?
O som nas duas festas visitadas é o que transforma o local em território, o grupo em comunidade. E para nós, a maior diferença entre as festas foi justamente a relação do público com o gênero musical de outro país, fora do “mainstream”.
“Ao analisarmos estas manifestações artísticas e culturais, percebemos estar diante de processos performativos de ordem efêmera que, através de agentes sonoros expressivos capazes de produzir um território mutável, questionam o complexo arte-cultura legitimado institucional e socialmente.” (PROTO, 2019. p. 121)
Na festa latina, a música era um plano de fundo, era apenas o tema da festa, já na de K-pop, o gênero é algo celebrado, comemorado, compartilhado. Com isso, podemos pensar a festa latina como uma balbúrdia, pessoas conversando, flertando, bebendo enquanto uma música toca e poucos sabem a letra. Já na festa de K-pop, o que escutamos é o uníssono dos fãs cantando palavra por palavra, em inglês ou, mesmo, em coreano, e dos pés batendo chão de forma sincronizada enquanto a maioria dança.
Na Caliente, as músicas eram parecidas, bem animadas, com um ritmo rápido. Era impossível ficar parado, mesmo não conhecendo a música. Às vezes tinham remix de músicas com um toque de música eletrônica. O que faz sentido, considerando o ritmo e a velocidade das batidas do reggaeton. Enquanto isso, na pista das brasilidades estava tocando músicas de gêneros como o forró e mpb, com um ritmo mais embalado, mais romântico. Já na festa de K-pop, em meio às performances, existia uma troca de ritmos. O K-pop consegue misturar estilos diferentes em apenas uma música, com partes mais puxadas para o hip hop, outras partes mais pop e outras mais eletrônicas. A música é tão bem trabalhada e construída que essas mudanças podem nem ser percebidas por alguém de fora da comunidade. Na festa de K-pop também ouvimos remix, mas dessa vez era de K-pop com funk dos anos 2000, um momento muito esperado e especial tanto para os frequentadores como para a DJ. Quando o Brasil se conecta com a Coreia, quando dois gêneros se tornam um.
Na Caliente também ouvimos funk. Isso chamou atenção porque foi um gênero musical brasileiro que apareceu nas duas festas com bastante destaque. E causou nos públicos de ambas um êxtase, acendendo uma explosão de rebolado pela pista e deixando a dança mais frenética ainda. É como se, para esses públicos, fosse uma necessidade dançar esse ritmo. Parece que o gênero é uma exigência para atingirmos um estado orgásmico de movimentos que buscamos quando vamos a uma balada, até dançar sem ter mais qualquer pensamento na cabeça.
No pós-festa, revisitando as fotos e lembrando da vibe, percebemos o quanto essa experiência foi marcante. A Black Cherry apresentou muitos de nós a uma cultura musical que não conhecíamos, mas que nos recebeu de braços abertos. A Caliente deveria ser uma orgia. E demorou, mas no final encontramos o frenesi que buscávamos. Mas existe maior orgia do que rever amigos antigos, conhecer novas pessoas, entrevistar pessoas com ideias, sentimentos e culturas diferentes, analisar festas, e se conectar com amigos da faculdade? Que tesão transformar uma festa flopada e uma festa desconhecida em um acontecimento marcante. E ainda dançar por entre linhas.
Lembra um verso da Marina Lima que ouvimos na primeira festa “A felicidade não está escondida nem no passado e nem no futuro”. Temos capacidade de criar momentos de alegria. Se fantasiando, comungando, aglomerando, dançando, cantando. Expressando nossos sentimentos e também pertencendo a uma identidade cultural ou a uma tribo, um fandom.
Entramos nas festas com o intuito de observar a relação do público brasileiro com dois gêneros musicais não-anglófonos que foram submetidos a um processo de internacionalização nas últimas décadas. Saímos dos dois eventos, no entanto, com uma pilha de impressões e sensações que resultaram em uma análise bem mais complexa e íntima do que havíamos antecipado.
Apesar das diferenciações apontadas anteriormente sobre o ambiente e o público, há pontos de convergência entre as duas noites. As experiências vivenciadas na Caliente e na Black Cherry revelam um movimento singular sobre o envolvimento do público brasileiro com os gêneros escutados (reggaeton, salsa, K-pop): um fluxo de afastamentos e fricções que dialogam entre si e, eventualmente, produzem conflito.
Essa tensão e atrito que atravessam toda a cena se manifestam de maneiras distintas conforme as circunstâncias do ambiente e a subjetividade de cada um dos frequentadores. Ainda é possível, porém, apreender um senso de comunidade nos dois casos, que é construído sobre os princípios mais fundamentais de qualquer rolê – a música, a pista e as pessoas dançando. São essas características que permitem uma forma de “intervenção coletiva”, e que transformam a participação nas festas num ato de resistência por si só. De acordo com Fernandes:
“Podemos pensar como a ideia de contágio é negociada entre as pessoas: a transmissão, muito além do caráter físico, é um mecanismo social, que atua no controle do que é permitido, na manutenção dos tabus, diferenciando o que é sagrado do que é profano. O risco da contaminação é a desordem, o risco de uma ruptura do que está estabelecido. Mudança. Perigo.” (FERNANDES, 2025. p. 60)
Sob essa lógica, é possível perceber que, apesar das evidentes e marcantes diferenças entre os sons apresentados, a música cumpre um papel similar na Caliente e a Black Cherry: o do contágio. Na vivência de ambas as noites, passamos a entender o som e a sonoridade não como um elemento secundário que reside no plano de fundo das festas, mas como um mecanismo dominante que possibilita, em última instância, a criação de uma experiência comunitária e social do rolê, transmitida e propagada entre todos os envolvidos.
Acompanhamos de perto o esforço dos organizadores, a dedicação dos fãs, a diversidade da comunidade e como o Brasil responde ao K-pop e ao reggaeton: com intensidade, criatividade e uma pitada daquela energia brasileira que transforma qualquer evento em algo maior do que só uma festa.
Acima de tudo, foi legal ver como esses ritmos não anglófonos produziram nos corpos dos participantes consequências distintas, que uma festa de rock, por exemplo, não conseguiria. Junto das letras e da identidade das festas, a Caliente instiga no público um sentimento de identificação regional intrínseco. Já na Black Cherry, motivava nos participantes um esforço ativo de pertencimento à tribo.
O grupo estava se divertindo na festa. Na bolsa da Raquel (esquerda), um photocard. Foto: Guilherme Vivan
Referências
TROTTA, Felipe da Costa. Gosto musical, moral e incômodos. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 17, n. 2, p. 25–48, 2023.
FERNANDES, Eduarda Heineck. Contágio: pista de dança e intervenção coletiva. BERNARDO, Gabriel (org.). Marginália Metropolitana. Porto Alegre: Marginália Metropolitana, 2025.
PROTO, Camila. Territórios resistentes: arte, som e sociedade. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 107-126.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e mestrando Gabriel Guedes Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de Coisas.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.