Nos últimos dias como diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, o professor Carlos Henrique Horn trata sobre conquistas, desafios e aprendizados dos quatro anos de gestão, realizada em conjunto com a docente Maria de Lurdes Furno, vice-diretora. A partir do dia 21 de dezembro, Maria de Lurdes assume como diretora para um novo mandato de quatro anos, tendo como vice André Cunha.
Em entrevista, Horn explica que as estratégias de austeridade fiscal adotadas pelo governo federal desde 2015, os cortes de recursos e os ataques ideológicos às universidades dificultaram a administração da FCE. Além disso, o docente cita o quanto a concentração dos esforços na adaptação das atividades de ensino afetou a realização de alguns projetos na Faculdade durante a pandemia de coronavírus.
Embora em um contexto descrito como “pouco promissor” pelo diretor, foi possível realizar diversas iniciativas na Faculdade, as quais resultaram em benefícios à comunidade acadêmica. Entre elas, Horn destaca a consolidação da Gerência Administrativa, a criação da Assessoria de Comunicação, a unificação do Setor de Pós-Graduação, a alocação do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas no anexo da FCE e a ampliação do espaço destinado às empresas juniores. O professor pontua ainda a institucionalização do Programa de Pós-Graduação Profissional em Economia (PPECO), que foi criado em 2020 e possibilitou a parceria com o Itaú Cultural para a realização do curso de mestrado profissional em Economia, com área de concentração em Economia e Política da Cultura e Indústrias Criativas.
Em relação às oportunidades no âmbito da FCE, Horn enfatiza o projeto de reforma completa do auditório via Lei de Incentivo à Cultura. A iniciativa, que está no segundo ano de captação de recursos, já arrecadou R$ 195 mil, do total de R$ 750 mil necessários. O auditório foi inaugurado no final da década de 1950 e é o principal espaço para eventos da Faculdade. A última revitalização foi realizada há 30 anos, de modo que hoje o local sofre com infiltrações, carpete antigo, pintura descascando e mobiliário danificado.
Na entrevista, o docente fala ainda sobre as maiores dificuldades que enfrentou à frente da Faculdade e seus aprendizados como gestor. Para ele, a UFRGS conta com um enorme potencial, decorrente da competência de docentes, estudantes e técnico-administrativos, mas que nem sempre essas capacidades geram resultados positivos para a academia. Leia a entrevista completa a seguir.
Como avalia sua gestão na direção da Faculdade de Ciências Econômicas?
Começo pelas circunstâncias que vivemos durante o período de gestão. Entre 2016 e 2020, houve uma forte reversão no desenvolvimento das instituições públicas de ensino superior da país depois de quase uma década de expansão do ensino universitário público sob a égide do REUNI. A adoção de uma estratégia de “austeridade fiscal” pelo governo federal desde 2015 acarretou um drástico corte de recursos, o qual foi sistematicamente renovado em face do aprofundamento da recessão e das perdas de receitas que dele decorreram. A contração dos recursos, em especial para investimentos, atingiu em cheio as universidades.
A partir de 2019, sobreveio outro e mais grave problema, na forma de um misto de falta de compromisso e ataque ideológico do próprio governo federal às universidades públicas. Para completar o quadro adverso, o ano de 2020 foi marcado pelos efeitos da crise sanitária, fazendo com que projetos de toda ordem tivessem que ser reavaliados a fim de que os esforços se concentrassem na adaptação das atividades de ensino ao ambiente extraordinário.
Neste cenário pouco promissor, nossa gestão procurou reafirmar o compromisso da FCE e da UFRGS com o ensino, a pesquisa e a extensão e aproveitar eventuais oportunidades para melhorias. De modo geral, avalio que mantivemos o passo firme neste caminho, dando sequência ao trabalho positivo das gestões anteriores da FCE.”
Quais as principais conquistas da Faculdade durante a sua gestão?
Sem querer fazer uma lista exaustiva, que mais caberia num relatório, realizamos inúmeras atividades pontuais que revertem em benefício da comunidade da FCE. De modo geral, deu-se continuidade aos ajustes nos setores administrativos da Faculdade, com a consolidação da Gerência Administrativa e clara alocação de funções. Isto repercutiu na nossa capacidade de renovar os Projetos de Desenvolvimento Institucional e o Planejamento Estratégico. Ainda em termos de arranjos institucionais, unificamos o Setor de Pós-Graduação – agora prestando suporte a quatro programas –, cujo espaço único e ampliado de atendimento deve ganhar materialidade a partir do retorno às atividades presenciais na universidade.
Também direcionamos a ocupação do prédio anexo da FCE para atividades de nossa direta responsabilidade. Assim, o Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (IEPE) passou a ocupar o espaço físico originalmente projetado para seu funcionamento tão logo se consolidasse a criação do CISADE, e as Empresas Juniores ganharam um novo e maior espaço no piso térreo do anexo, o que também deverá se completar tão logo sejam possíveis as atividades presenciais. Dentre as iniciativas de melhoras do espaço físico, cabe também destacar a nova sala de informática, cujo projeto, da mesma forma que outros, ganhará vida após o término da emergência sanitária.
Além das melhorias administrativas e prediais, uma das principais conquistas da FCE neste período foi a criação da Assessoria de Comunicação, com a vinda de uma jornalista e duas bolsistas para a Faculdade. Elaborou-se um detalhado plano de comunicação com o objetivo principal de melhorar a visibilidade das atividades da Faculdade junto à comunidade da FCE e à UFRGS em geral. O trabalho das colegas foi percebido por todos: renovação do site, presença contínua em redes sociais, edição dos Anuários da FCE de 2017 e 2018, newsletter semanal, suporte a ações de extensão, dentre tantas outras ações que foram desenvolvidas.
A Assessoria de Comunicação, professores e alunos dedicados foram cruciais na realização dos Fóruns de Debates FCE de 2017 a 2019. Os Fóruns nasceram no movimento dos estudantes ao final de 2016 como uma alternativa nova de juntar toda a comunidade em torno do exame de questões contemporâneas da economia e da política nacional e internacional. Sua estrutura de paineis e oficinas abertas à iniciativa de qualquer membro da FCE mostrou-se bem-sucedida e nos ofereceu um amplo leque de assuntos em debate.
Vale destacar, ainda, a institucionalização do Programa de Pós-Graduação Profissional em Economia (PPECO), que assumiu o curso de mestrado profissional antes sob a guarda do PPGE. E, já no âmbito do PPECO, tivemos a formalização de uma importante parceria entre a FCE e o Itaú Cultural no ano de 2020, para a oferta desse curso fora de sede, na área de Economia e Políticas da Cultura e Indústrias Criativas.”
Por fim, e sem querer alongar em demasia a resposta, uma realização de toda a comunidade da FCE que merece ser destacada foi o zelo com que as comissões de graduação, os departamentos e os setores administrativos conduziram a necessária adaptação das atividades ao Ensino Remoto Emergencial no contexto da pandemia da Covid-19. Premidos pelas condições adversas, avalio que, em geral, conseguimos executar nossa obrigação para com os estudantes da melhor maneira possível.
Qual foi a sua maior dificuldade à frente da Faculdade?
A maior dificuldade esteve no contexto geral péssimo às universidades federais. Um episódio particularmente ilustrativo dessa desafortunada circunstância foi a captura dos recursos próprios da UFRGS, pelo governo federal, para pagamento de aposentadorias.
Esses recursos, dos quais uma parcela de mais de R$ 600 mil era da FCE, são aqueles obtidos por meio de projetos de ensino e pesquisa com arrecadação própria. Neste lance, perdemos um valor importante cuja alocação estava projetada para melhoras prediais.”
Houve outra dificuldade que vivenciamos em certos processos administrativos da universidade, cuja solução pode ser buscada por nós mesmos. Trata-se da excessiva rede de normas e instâncias decisórias que hoje operam na UFRGS. Essa malha burocrática cresceu a ponto de ser um fator de dificuldades e desincentivo àqueles que realizam as atividades de ensino, pesquisa e extensão, nossa razão de existir. Penso estar na hora de uma simplificação da estrutura e das rotinas e, também muito importante, de uma completa manualização das rotinas que assegure maior objetividade aos processos decisórios.
Quais os maiores projetos e oportunidades da FCE hoje?
A professora Maria de Lurdes Furno e o professor André Cunha, que assumem a gestão no dia 21 de dezembro, enfrentarão uma conjuntura imediata em que as dificuldades que referi acima não terão sido dissipadas. Para tanto, precisarão contar com a colaboração de toda a Faculdade e da Administração Central para a realização dos projetos que têm em vista.
Neste cenário de maiores restrições, todavia, uma oportunidade ímpar é a de finalmente se levar adiante a reforma geral do auditório da Faculdade. Essa oportunidade associa-se ao credenciamento do projeto com o objetivo de captar recursos por meio da lei de incentivo à cultura. Iniciamos, na gestão que encerra, esse processo e já foi obtido um valor razoável para o financiamento da reforma.
Assim, é importante que a comunidade da FCE se engaje nessa busca de recursos a fim de completarmos o montante necessário à renovação completa do nosso auditório.”
O que o senhor aprendeu como diretor da FCE nessa gestão?
Houve a confirmação de várias ideias que já tinha sobre a Faculdade e a UFRGS, sem, todavia, ter antes vivenciado uma experiência administrativa tão ampla na universidade. A principal delas refere-se ao enorme potencial existente na universidade em decorrência das capacidades de seus docentes, técnicos e estudantes. Potencial este que encontra livre espaço de manifestação. A UFRGS, como não poderia deixar de ser, preza a liberdade acadêmica, sem a qual pereceria como instituição de ensino e pesquisa.
Não obstante, este potencial vê-se freado, por vezes, diante da escassez de recursos e de certa dificuldade em se obterem consensos estratégicos quanto às prioridades para o futuro da universidade num mundo em rápida mudança. Isto se manifesta, por exemplo, na adoção de planos com uma multiplicidade de objetivos e metas, onde tudo cabe a fim de acomodar os mais diversos entendimentos. Tais planos, sabe-se, são de improvável realização por conta do considerável volume de recursos humanos, materiais e financeiros de que necessitam.
Em algum momento, precisaremos definir estratégias claras para lidar com a maior escassez de recursos por longo tempo e o avanço das tecnologias digitais a fim de sustentar o binômio qualidade-inclusão no ensino e na pesquisa que tem sido a diretriz maior da UFRGS.”


