Artigo de Giácomo Balbinotto Neto, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS
A economia da saúde se preocupa com a eficiência, eficácia, valor e comportamento na produção e consumo de bens e serviços de saúde. A hidroepidemiologia econômica, dentro deste contexto, fornece uma abordagem especializada para analisar os custos e benefícios relacionados à saúde pública em situações de desastres naturais como as enchentes valendo-se também dos dados epidemiológicos envolvidos. Ela pode desempenhar um papel crucial e importante na avaliação dos impactos econômicos das doenças e condições de saúde causadas por eventos hidrológicos, orientando políticas públicas e decisões de investimento em saúde e de análises de custo-benefício de projetos e ações em termos de prevenção de enchentes e dos seus efeitos sobre a saúde pública decorrente dos efeitos das enchentes e de eventos climáticos semelhantes.
Calcular os custos diretos e indiretos associados aos problemas de saúde decorrentes das enchentes, incluindo despesas médicas, internações hospitalares e perda de dias de trabalho torna-se, em situações como a que estamos vivendo atualmente, importantes e relevantes para todos os agentes econômicos envolvidos, sejam eles públicos ou privados. Estas avaliações são cruciais para a alocação de recursos e planejamento de respostas emergenciais a desastres ambientais bem como de políticas e obras de infraestrutura para prevenção e para minimizar perdas decorrentes deste eventos climáticos.
As enchentes frequentemente levam à contaminação da água potável com patógenos, resíduos industriais, lixo dos mais diversos tipos e fezes de animais, aumentando, assim, o risco de doenças como leptospirose, hepatite A e gastroenterites entre outras. Estes surtos podem sobrecarregar o sistema de saúde e gerar custos significativos com tratamento e controle de epidemias que podem surgir.
Determinar o escopo da análise de impactos indiretos na saúde pode ser um desafio. No entanto, a incorporação dos custos de saúde na avaliação de perdas devido a desastres climáticos é crucial, uma vez que tais impactos podem ser consideráveis e não desprezíveis.
A hidroepidemiologia é uma área interdisciplinar que estuda as interações entre os fenômenos hidrológicos e os processos epidemiológicos. Esta disciplina busca combinar conhecimentos de hidrologia, epidemiologia, saúde pública e ciências ambientais para entender como a água e os eventos relacionados a ela, como enchentes e inundações, influenciam a disseminação de doenças e afetam a saúde das populações atingidas. A hidroepidemiologia ajudaria, assim, a identificar e quantificar esses riscos, permitindo ações rápidas para proteger a saúde pública.
Após enchentes, doenças como leptospirose, dengue e gastroenterites podem se espalhar rapidamente. Deste modo a hidroepidemiologia busca monitor esses surtos, facilitando a implementação de medidas preventivas e de controle. Além disso, o uso de dados hidrológicos e epidemiológicos, irá auxiliar na preparação e respostas a eventos extremos, oferecendo, deste modo, previsões sobre possíveis impactos à saúde e orientando a alocação de recursos em casos de emergência.
A análise hidroepidemiológica também pode contribuir para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências sobre a necessidade de melhorar infraestruturas de saneamento, comportas, diques e sistemas drenagem, que são cruciais e importantes para reduzir a vulnerabilidade a futuras enchentes e proteger a saúde pública das áreas mais vulneráveis e de maior risco. Outra área importante é que ela pode ajudar e contribuir, de modo significativo, na elaboração de campanhas educativas para informar a população e os formuladores de políticas públicas, bem como os gestores públicos sobre os riscos à saúde associados às enchentes e as medidas de prevenção necessárias.
Já hidroepidemiologia econômica é também uma área interdisciplinar que irá combinar elementos da hidrologia, epidemiologia, economia e saúde pública para estudar como os eventos hidrológicos, como enchentes e inundações, afetam a economia e a saúde das populações. Este campo analisa os impactos econômicos das doenças transmitidas pela água e as consequências econômicas, financeiras e orçamentárias de eventos extremos relacionados à água, fornecendo insights valiosos para a tomada de decisões e políticas públicas. A hidroepidemiologia econômica permite, assim, calcular os custos associados aos riscos de saúde decorrentes das enchentes, como despesas médicas, perda de produtividade e impacto no bem-estar da população e prever a necessidade de recursos para lidar com um evento deste tipo. Esses dados e abordagem são essenciais para justificar investimentos em infraestrutura de prevenção e resposta a desastres climáticos como os ocorridos no Rio Grande do Sul neste ano.
Com a incorporação e o uso de modelos econômicos e dados de saúde e epidemiológicos podemos avaliar as relações custo-benefício e custo-efetividade de diferentes medidas preventivas, como a construção de barragens e diques, sistemas de drenagem e comportas, casas de bomba e melhorias no saneamento básico, medidas preventivas de combate a doenças, vacinação e prevenção. Isso ajuda a mostrar quais são os impactos econômicos, sociais e as necessidades orçamentárias envolvidas, bem com redirecionar recursos de forma mais eficiente e eficaz para minorar os custos de enchentes.
As enchentes podem interromper atividades econômicas importantes, como agricultura, indústria e comércio. A hidroepidemiologia econômica, então, estuda esses impactos e fornece estimativas sobre as perdas econômicas, auxiliando na formulação de políticas de recuperação e mitigação focando especificamente na questão da saúde do ponto de vista epidemiológico.
A compreensão dos impactos econômicos das enchentes e das doenças a ela associadas permite uma melhor alocação de recursos para a priorização das emergências e reconstrução bem como dos investimentos em prevenção. Isso inclui a priorização de áreas críticas e a distribuição de ajuda financeira de forma mais equitativa e eficaz. Por exemplo, um estudo adotando a abordagem da hidroepidemiológica econômica poderia determinar o impacto econômico total (custo) de uma doença ou condição de saúde devido a uma enchente, através da identificação, medição e avaliação de todos os custos diretos e indiretos envolvidos. Estes custos incluem os custos diretos, indiretos e intangíveis. O objetivo de calcular o custo da doença é compreender o ônus econômico que uma condição de saúde coloca sobre a sociedade, o sistema de saúde e os indivíduos afetados. Estes custos envolvem o custo da doença, que permite quantificar o impacto econômico global de uma condição de saúde em uma população. Isso inclui não apenas os custos diretos relacionados ao tratamento médico, como medicamentos e consultas médicas, mas também os custos indiretos, como perda de produtividade devido à dias de trabalho perdidos, e os custos intangíveis, como a dor e o sofrimento dos pacientes.
Os resultados do custo da doença devido a eventos como as enchentes são valiosos para formuladores de políticas de saúde, sistemas de saúde e pesquisadores, pois ajudam a identificar as áreas em que os recursos podem ser mais eficazmente alocados. Isso é particularmente importante quando se trata de priorizar doenças ou condições para alocar recursos limitados. Os custos da doença permitem comparar o ônus econômico de diferentes doenças que ocorrem devido a eventos desta magnitude. Isso é útil para determinar quais condições têm um impacto mais significativo na sociedade e merecem uma atenção prioritária em termos de prevenção, tratamento e pesquisa. Além disso, ao calcular o custo da doença antes e depois da implementação de uma intervenção em saúde ou de uma determinada política pública em saúde, será possível avaliar o impacto econômico dessa intervenção. Isso ajuda a determinar se a intervenção é custo-efetiva e se os benefícios econômicos superam os custos. Por fim, os resultados do custo da doença podem informar a elaboração de políticas públicas de saúde e projetos para lidar com eventos desta magnitude. Por exemplo, eles podem ser usados para justificar investimentos em prevenção e tratamento de doenças específicas causas pelas enchentes e da adequação do sistema de saúde face a eventos decorrentes destas mudanças climáticas.
Assim, ao quantificar o custo da doença e seus impactos, os estudos podem aumentar a conscientização pública e dos gestores municipais, estaduais e federais sobre a gravidade de certas condições de saúde decorrentes de enchentes, incentivando ações preventivas e a alocação de verbas orçamentárias adequadas.
As análise que utilizam a hidroepidemiológica econômica fornecem, assim, uma base sólida para o desenvolvimento de políticas públicas baseadas evidências que visam reduzir os riscos e impactos referentes a saúde pública decorrente de eventos como as enchentes. Isso pode incluir regulamentações de uso da terra, melhorias em infraestrutura e programas de seguro bem como educar a população e alertar e conscientizar as autoridades sobre a importância da preparação e da mitigação para estes eventos.
Assim, hidroepidemiologia econômica é fundamental para entender e mitigar os impactos econômicos e dos efeitos sobre a saúde pública de enchentes como a que tem ocorrido no Rio Grande do Sul. Sua aplicação ajuda na tomada de decisões informadas, na alocação eficiente de recursos e na implementação de políticas públicas eficazes para proteger a população e a economia do Estado bem como a saúde de toda a população.
A hidroepidemiologia econômica tenderá a desempenhar um papel vital na compreensão e mitigação dos impactos econômicos e de saúde pública das enchentes no Rio Grande do Sul. Ao fornecer uma base sólida do ponto de vista teórico e dados robustos para a tomada de decisões informadas para sua implementação, ela contribui para a alocação eficiente de recursos, desenvolvimento de políticas públicas eficazes e implementação de medidas preventivas para a mitigação de enchentes.
Referências:
Allaire, Maura. (2018). Socio-economic impact of flooding: A Review of Empirical Literature. Water Security, 3: 18-26.
Kay, David; Falconer, Roger. (2008). Hydro-epidemiology: the emergence of a research agenda. Environment Fluid Mechanics. 8:451–459.


