Após abrir consulta a respeito de discussões sobre paridade na UFRGS, a Direção da Faculdade de Ciências Econômicas divulgou os resultados da pesquisa. O questionário, enviado para docentes, estudantes e técnico-administrativos da FCE, coletou os dados de maneira anônima entre setembro e outubro de 2023.
Ao todo, 334 pessoas responderam ao questionário (outras 192 apenas abriram o formulário ou responderam parcialmente e não enviaram as respostas). A FCE tem uma comunidade formada por 102 docentes, 44 técnico administrativos, 2.419 estudantes de graduação e 498 discentes de pós-graduação, conforme informações do Painel de Dados da UFRGS.
Em conjunto com os resultados, os professores Maria de Lurdes Furno da Silva, diretora, e André Cunha, vice-diretor, voltaram a se manifestar sobre o assunto. Além de repercutir os dados da pesquisa, a Direção defendeu a realização de uma consulta oficial na Universidade sobre a paridade e propôs que a Comissão Especial promova debates sobre o tema.
“A maioria das pessoas que responderam ao questionário sobre a paridade não se sente suficientemente informada sobre este importante tema. Deseja-se que a Comissão Especial do Consun, criada para tanto, promova debates amplos, abertos, plurais e com palestrantes com distintas visões. Ademais, entende-se ser importante a realização de consulta oficial para saber a opinião de toda a comunidade da UFRGS. Se escolhido o caminho da paridade, espera-se segurança jurídica por meio de alterações no Estatuto e no Regimento da UFRGS”, destacou Cunha.
Veja a manifestação da Direção da FCE
A ideia da consulta nasceu de uma percepção de que a nossa comunidade não tinha informações suficientes sobre o andamento da discussão sobre o tema da paridade na UFRGS. Por decorrência, e na ausência de iniciativas oficiais no âmbito de toda a instituição, tomamos esta iniciativa. Esta consulta foi precedida de uma manifestação da Direção, cuja motivação foi a divulgação de uma proposta preliminar da Comissão Especial (CE) criada pelo Conselho Universitário, a qual nos foi apresentada em reunião daquela com algumas Direções.
Já naquele momento perguntamos aos componentes da Comissão se havia planos para a realização de debates amplos, abertos, públicos, veiculados por canais oficiais diversos na universidade. Ficamos extremamente preocupados com a resposta sistemática de que isso não seria necessário ou, mesmo, conveniente. Afirmava-se, em tal reunião, que se tratava de debate de décadas e que a Comissão havia conversado com lideranças diversas.
Manifestamos que tal procedimento era importante, mas que poderia haver mais debates públicos e consultas formais à toda a comunidade da UFRGS. Argumentamos que há cerca de 50 mil pessoas na UFRGS, entre discentes, técnicos e docentes. Trata-se de um universo amplo e diverso. A maioria daquelas pessoas entrou na instituição em período recente. Por decorrência, debates, informações mais completas, contraditório e consultas amplas poderiam criar um processo mais robusto, democrático e participativo.
Até aqui não tivemos informações de algo assim tenha ocorrido de forma oficial, com ampla divulgação e participação. Ainda não sabemos se houve debates promovidos pela Comissão, quem foram as pessoas que debateram, onde estão registrados os mesmos, quantas pessoas participaram e assim por diante.
Resultados
As respostas das 334 pessoas da FCE no nosso questionário revelam que há, de fato, a expectativa por mais informações e debates. Quando questionados se tinham conhecimento da existência da Comissão Especial da paridade, 64% dos respondentes disseram “Não”; 58% não se sentiam com esclarecimentos suficientes sobre o tema; 82% gostariam que a Comissão promovesse debates nos termos do mandato que lhe foi outorgado pelo Consun; 78% desejariam uma consulta eletrônica sobre o tema em toda a universidade, sendo esta oficial e conduzida formalmente pelo Consun; 76% das pessoas indicam que a eventual introdução da paridade deveria ser dar por meio de mudanças no Estatuto e no Regimento, de modo a garantir a segurança jurídica. Também foi interessante perceber que mais da metade dos respondentes gostaria que o voto fosse obrigatório e que houvesse algum tipo de cláusula de barreira (percentual mínimo de votos) para garantir a condução de representantes ou dirigentes em seus respectivos cargos.
Estes resultados não nos autorizam a dizer o que toda a comunidade da FCE pensa ou não pensa. Nosso pressuposto é que convivemos com um amplo e diverso leque de percepções, experiências e visões. Ainda assim, as respostas nos dão indícios de que, de fato, há: pouca informação; carência de debates amplos, diversos, abertos, públicos; e desejo de participação por diversos meios, inclusive consultas públicas formais e oficiais. Ademais, notamos a perspectiva de que todos os processos e decisões devem ter amparo legal e segurança jurídica.
Assim, nossa interpretação dos dados pode ou não convergir com outras visões, posições e análises. Estas são sempre legítimas e merecem o nosso mais elevado respeito. O que nos preocupa é que uma decisão tão importante esteja se dando sem o amparo da possibilidade de ampla consulta às 50 mil pessoas que fazem parte da UFRGS. Tais informações poderiam agregar evidências sobre os caminhos a serem trilhados, para além das já existentes e derivadas de outros processos.
Cabe registrar que, em nossa perspectiva, divergir, convergir, construir e reconstruir são dinâmicas normais na vida acadêmica e institucional de universidades. Já a desinformação, a informação incompleta, os julgamentos precipitados e sem fundamentação em análises serenas e desapaixonadas dos fatos, a ausência de contraditório, dentre outros aspectos, minam a ciência, as universidades e a própria experiência democrática. A democracia se realiza em processos interativos que podem (ou devem) passar por aperfeiçoamentos. Torná-la mais sólida e resiliente é um dever de quem ainda resiste aos impulsos iliberais, os quais visam a imposição de pensamentos únicos e de procedimentos que limitam o acesso amplo à informação de qualidade e às diferentes visões de mundo.
Nossa contribuição com esta consulta foi a de tentar somar esforços na direção de informar e de colher tais visões distintas, sem quaisquer prejuízos a outras iniciativas portadoras das mesmas premissas democráticas.
Por fim, agradecemos imensamente às pessoas de dedicaram tempo para ler, refletir e responder ao questionário proposto. Seguimos sempre à disposição para promover espaços para que toda a nossa comunidade possa se manifestar sobre temas relevantes, sempre no desejo que isso se faça nos marcos do saudável convívio cordial, civilizado e democrático.
Maria de Lurdes Furno da Silva, diretora
André Moreira Cunha, vice-diretor
Gráficos da pesquisa
Veja alguns gráficos com os resultados da pesquisa. Os dados completos estão disponíveis aqui.




