Produzir para aprender: o motor oculto do crescimento econômico

Por Prof. Giacomo Balbinotto Neto (PPGE/UFRGS – EA)

 

Por que algumas economias se tornam progressivamente mais produtivas à medida que produzem mais, enquanto outras permanecem presas a trajetórias de baixo crescimento? A resposta foi antecipada por Kenneth Arrow em 1962: produzir é, também, um processo de aprendizado.

A ideia parece simples, mas representa uma inflexão importante na teoria do crescimento. Até então, modelos neoclássicos, como o de Robert Solow, tratavam o progresso tecnológico como exógeno — essencial para explicar o crescimento, mas sem uma origem econômica claramente identificada. Arrow altera esse paradigma ao mostrar que o próprio processo produtivo gera conhecimento.

O mecanismo é direto. À medida que empresas acumulam experiência, trabalhadores tornam-se mais eficientes, processos são aperfeiçoados, erros diminuem e novas soluções técnicas emergem. O resultado é a queda sistemática dos custos unitários — um fenômeno conhecido como learning by doing. Esse padrão foi documentado empiricamente por Theodore Paul Wright na indústria aeronáutica e, desde então, replicado em diversos setores.

O aspecto mais sofisticado da teoria está nas externalidades. O conhecimento gerado por uma firma não é plenamente apropriável e se difunde para o restante da economia — por mobilidade de trabalhadores, imitação tecnológica e interações produtivas. Isso cria uma divergência entre retornos privados e sociais do investimento, levando a um nível de investimento inferior ao socialmente desejável.

As implicações são relevantes. No nível da firma, prevalecem rendimentos decrescentes ao capital. No agregado, porém, o aprendizado coletivo pode gerar retornos crescentes, uma vez que a produtividade depende da experiência acumulada da economia. Essa intuição antecipa a teoria do crescimento endógeno, posteriormente desenvolvida por Paul Romer e Robert Lucas.

O caso do Ford Modelo T é emblemático. Entre 1909 e 1923, o preço do veículo caiu de forma expressiva à medida que a produção aumentava, refletindo não apenas economias de escala, mas ganhos associados ao aprendizado contínuo.

A força dessa abordagem torna-se ainda mais clara quando observamos casos concretos. No Brasil, a experiência da Embraer é particularmente ilustrativa. A produção do avião Brasília (EM-120), nos anos 1980, revelou ganhos expressivos de produtividade à medida que a produção acumulada avançava. Estimativas econométricas indicam reduções significativas nas horas de trabalho por unidade, refletindo aprendizado organizacional, engenharia incremental e aperfeiçoamento contínuo dos processos produtivos.

Esse aprendizado, contudo, não se restringe à firma. Ele se difunde para fornecedores, engenheiros e para o sistema produtivo como um todo, ampliando seus efeitos sobre a produtividade agregada.

Fenômeno semelhante ocorre na área da saúde. Hospitais e equipes médicas com maior volume de procedimentos tendem a apresentar melhores resultados clínicos e maior eficiência operacional. Em cirurgias complexas — como transplantes ou procedimentos minimamente invasivos — a experiência acumulada é determinante para o desempenho. Aqui, o learning by doing não apenas reduz custos, mas melhora resultados e salva vidas.

A atualidade da teoria é evidente. Na energia solar, os custos caíram mais de 80% nas últimas décadas, em grande parte devido ao aprendizado associado à expansão da produção. Na indústria de semicondutores, a redução de custos segue padrões semelhantes. Na economia digital, plataformas aprendem continuamente com dados — e transformam esse aprendizado em vantagem competitiva.

Esses elementos ajudam a explicar o retorno recente das políticas industriais em economias avançadas. Mais do que proteção, trata-se de acelerar processos de aprendizado que geram ganhos de produtividade de longo prazo.

A contribuição de Arrow pode ser resumida de forma direta: crescimento econômico é, em grande medida, um processo de aprendizado coletivo. Economias que produzem mais não apenas acumulam capital — acumulam conhecimento.

No limite, não são apenas as economias que produzem mais que crescem — são aquelas que aprendem mais rápido.

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