Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilhão de Coisas #2
Por Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes
Na nenêtuk, os debutantes foram dormir cedo
No dia 18 de outubro, quatro cabeças pensantes saíram de suas casas para ir até o Esquenta Batuk Baile, festa criada, feita por e direcionada à pessoas negras. Os ânimos estavam meio baixos graças à rotina corrida da semana e ao cansaço do final do ano. Ninguém estava com muito saco para ir, porém as expectativas eram de que haveria ao menos um incentivo (nem que fosse só pelo álcool) e o trabalho a ser feito.
A metodologia do grupo era a de analisar o senso de coletividade presente na festa e como as sonoridades afetavam cada pessoa que estivesse no ambiente, inclusive nós. No entanto, isso logo caiu por terra porque até que as pessoas chegassem na festa…demorou um pouquinho.
Enfim, ao longo da noite, os objetivos mudaram e novos rumos foram traçados. Mesmo levemente desanimados, as quatro cabeças pensantes colocaram suas roupas e foram à luta.
Laura: uma astronauta sem lua
Nos encontramos todos na calçada em frente ao Workroom. Não havia nenhuma fila. O meu primeiro pensamento quando entramos no lugar foi: esse rolê vai flopar. Não me levem a mal. Porém, ainda eram apenas 23h da noite e o pessoal não tinha chegado. Normal. Me acalmei. Mas o lugar seguia vazio. As luzes escuras dançavam sem companhia e uma DJ (a DJ Karina) mexia na mesa de som, sozinha. As músicas ecoavam no ambiente, reverberando sem nenhum corpo para absorver o som na pista de dança. Meio triste.
Sabe quando o Neil Armstrong e outros astronautas pisaram na lua? Pois. Na Lua, não tinha ninguém além deles e foi esse o sentimento que tive enquanto entrava na festa. Ok, existiam outras pessoas no espaço, mas tinha um vácuo tão grande no começo. E eu era uma astronauta sem lua para pousar. Fui filosófica demais? Talvez. Credo. Mas enfim.
Superada essa primeira impressão cósmica, observei a arquitetura da festa. No canto esquerdo da casa, ficava o bar. No direito, uma área de convivência com uns sofázinhos meio insalubres. A pista era… todo o resto. O lugar não era um quadrado, mas um retângulo. Deu pra entender? Enfim, ficamos espremidos num cantinho, nervosos demais para se desprender no início da festa. O sentimento chato de vergonha e cansaço já estava em mim e nem tinha gente ainda para me julgar. Patético, honestamente.
Até que a música foi ultrapassando as minhas barreiras. Aos poucos, meus ombros relaxaram. Na minha frente, vi um moço usando uma blusa regata branca com a frase “Se o Brasil não presta como você me explica” nas costas. Meu pensamento foi “que divo” assim que olhei para ele.
Ah, outra coisa, aparentemente o dress code do rolê envolvia regatas brancas. Vi muita gente usando. Eu não estava de regata branca.
Os minutos foram passando. Fomos comprar bebida. Paguei uns 20 pila numa caipirinha que não estava boa e isso já piorou o meu humor. Deu para ver que eu não estava nas minhas melhores noites. Mas tá. Fomos andando pelo lugar, todos juntinhos. A DJ Karina seguia tocando e eventualmente uma música eu conhecia e murmurava quando largava o canudo da caipirinha da boca (não havia SABOR naquela bebida, só gelo. Mas se eu paguei, eu vou desfrutar de cada segundo com o copo na mão). Na minha frente, o Dan, a Fabs e a Milena pareciam saber mais músicas. Achei fofo ver os três cantando. Mas, de astronauta, passei a me sentir um ET.
Já com a bebida em mãos, a Fabs disse que viu os tios do bar cheirando (é. Cheirando. O quê? Só Deus sabe. Ou talvez nem Ele queira saber, coitado). Rimos do relato dela. As pessoas começaram a chegar.
E eu esqueci de dizer, até agora, onde a gente estava, né? Enfim:
Estávamos na festa Batuk Baile, criada para valorizar pessoas negras, ritmos e encontros negros. Proposta massa. Foda mesmo. Mas confesso que, sei lá, me cruzou o pensamento de que me podiam me barrar da festa porque eu sou branca KKKKKKK, idiota, eu sei. Não me barraram.
Quando o quórum de pessoas já aumentou, a DJ Karina foi embora e uma pessoa (a organizadora do evento?) apareceu. Discursou. Deu as boas-vindas e tal. Foi querida. Perguntou “quais são os protagonistas da noite?” e todo mundo respondeu “negros!”. Aí entrou o DJ Kevin que, logo na primeira música, tocou algo em uma língua que ninguém entendeu e cortou o clima. Olhei para o meu grupo e todos estávamos com cara confusa. Rimos.
Lembrei que um dos textos que separamos tinha palavras complicadas que traduziam o sentimento daquele instante: “[um regime de escuta] não é onipotente e monolítico, mas sim aberto a idiossincrasias, transgressões, usos desviados, improvisos e imprevistos.” (ESTIVALET, 2019) (obviamente pesquisei isso depois da festa, né). Mas o ponto é que me senti muito idiossincrática (falei certo?) porque nada fazia muito sentido, igual essa palavra não faz sentido nenhum (brincadeira, rs).
A vibe foi mais para umas músicas afrobeat, latinoamerica. Ui, caliente. Finalmente terminei a caipirinha. Sequei a mão na calça, jogando a água gelada que suava do copo pra longe. De repente, notei que não estávamos mais na Lua. Já existia povoamento! Estávamos no meio das pessoas e o som já chegava de uma maneira diferente. Menos cru. Ele carregava risadas e flertes (e sons inteligíveis) junto com o ritmo e a letra de cada música. Fiquei quase surda, tenho ouvidos sensíveis.
Mas tá, ficamos ali. Dançando mesmo sem entender as músicas do DJ Kevin. Ai, eu, uma pessoa muito velha de alma, já comecei a cansar nessa hora. Por algum motivo, segui dobrando os joelhos de leve e pensei em comprar outra caipirinha, mas não comprei porque era ruim e o dinheiro tava curto (qual é a do meu hiperfoco na caipira?). Enfim, tá. Dançamos. Pessoal se amontoou ao nosso redor. Gente de tudo o que era jeito e tipo: vi um guri de blusa de time e outro que parecia ter saído de um escritório, com camisa social. Na minha frente, duas meninas dançavam juntas e, adivinha, uma delas estava de regata branca.

Materiais amontoados no fundo do palco
O Dan foi embora primeiro por motivos de: ônibus. Quando ficamos só eu, a Milena e a Fabs, fomos para longe da mesa do DJ, do outro lado do rolê. Eu disse que a mesa ficava no meio do espaço? Não? É. Ficava. Fomos para trás da mesa. Olhei para o teto, já sentindo os pés darem aquela falhada. O som pulsava nos meus ouvidos e fazia o meu corpo retumbar, mesmo fracamente. Era difícil resistir à melodia, mesmo que eu não estivesse entendendo nada. Atrás de mim tinha um palco, melancolicamente abandonado no escuro, com algumas coisas jogadas por cima.
Tudo isso, e era a recém 1h e pouca da manhã. A festa ia até 6h? 5h? Não lembro.
Eu e as meninas ficamos naquele canto até que desistimos e fomos nos sentar nos sofás insalubres. Botei as pernas pra cima. Mudou o DJ, já era o 3°, mas não prestei atenção no nome. As músicas estavam mais frenéticas e já eram meio conhecidas porque mais gente cantava. Mesmo assim, nós três nos olhamos. Sabíamos que precisávamos fazer o trabalho. Mas…
“E se a gente fosse…”
“Embora?”
“É.”
“Sim. Vamos. Por favor.”
“Mas e o trabalho?”
“Ai.”
“Pois é.”
“Mas, gente, os meus pés estão doendo.”
“É. E tá uma bosta isso aqui.”
“Vambora?”
“Vamos. Vou ver quanto tão os Ubers, pera.”
Não lembro quem falou o quê nesse diálogo, mas foi mais ou menos assim. Resultado? Fomos embora. No Uber, sozinha, encostei a cabeça no vidro do carro e senti meu corpo todo brigar comigo para que eu ficasse acordada. O som ainda me perseguia e meu coração não estava conseguindo deixar para trás o tum tum tum tum de dentro da festa. Aquela batida infernal da caixa de som que faz o quadril mexer e o ouvido doer. Tenho uma relação de amor e ódio com ela.
Chegando em casa, com a chave na mão, fiz uma mediação da noite. Foi bom? Meh. Mas tá, nem toda noite precisa ser gloriosa. Tínhamos material para o trabalho? Sim, talvez. Eu tava cansada? Aham. Eu precisava dormir. Vamos parar de pensar, tomar um banho, tirar a maquiagem e ir deitar? Por favor. Foi isso o que eu fiz.
No silêncio do quarto escuro, o som da Batuk não me pegou mais. Porém, lá no meio do meu coração, entre o átrio direito e o esquerdo, um tum tum tum tum ainda ressoava.
Voltei a me sentir astronauta. O silêncio era a minha gravidade, que me ancorava ao chão do conhecido. Ai, como ela é metafóricah.
Fabs: esquentatuk, afrobeats e afins
No início não era como se eu não soubesse que essa era apenas um esquenta pra BatukBaile, mas essa era uma batukinha, nenêtuk.
Tava bem animada com a festa mas muito, muito cansada da rotina e tava nos meus planos levar minha câmera pequena pra fazer uns registros mais diferentes, sabe. Aquela qualidade duvidosa que só uma cybershot sabe trazer. Eu realmente tinha uma lista de coisas pra fazer antes da festa pra entrar no clima, tipo o ritual de ouvir músicas do gênero da festa pra ir aquecendo.
Mas estamos aqui na frente da Workroom metade do grupo ansioso e outra metade tentando não parecer nervoso. Já tinha passado nessa rua uma centena de vezes mas nunca de noite e é legal como tem uma atmosfera diferente. Do outro lado da rua tem um centro cultural que fiz uma oficina de Abayomis e bonecas negras quando mais nova, dessa vez, na mesma rua, eu aos meus 20 e poucos anos me encontro numa reunião entre iguais de novo. Só que dessa vez com álcool e musica alta. Eu e a Milena rachamos o Uber, chegando na esquina da rua vi o Dan e comentei com ela.
“Ah, não vi.”
Mas pela minha perspectiva de 1,58 era um pouco difícil não ver alguém com 1,80. Nos reunimos na calçada assim como outros dois pequenos grupos de amigos, entre um papo furado e outro pra descontrair eu e o Dan começamos a lembrar de trends que o pessoal faz em uma pré-festa, obviamente tentamos puxar a ideia de gravar junto com a Milena e a Laura, as duas com cara de quem não faziam ideia do que estávamos falando aceitaram.
“Oi meu nome é Milena, tenho 26 anos e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)
“Meu nome é Fabiola, tenho 21 anos e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)
“Meu nome é Laura, tenho 21 anos e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)
“Oi meu nome é Daniel e essa é a minha primeira BatukBaile” (eeeeeeeeee)
Comicamente, não sabemos o porquê o Dan não falou a idade. E a Laura tem 20 anos, não 21.
Percebi que o pessoal da volta tava olhando “de rabo de olho” pra gente como se fosse proibido achar graça das coisas, mas relevei porque tava tentando fazer os meus colegas descontraírem dessa tensão no ar.
Entramos, a primeira coisa que vi quando entrei foi o banheiro sem gênero à minha direita e dentro dele um pôster das irmãs de pau, logo senti que tava em território amigo. Na cabine uma faixa daquelas de cena de crime escrito “cuidado masculinidade frágil”
A pista? Vazia.
Os camarotes? Também.
E o pessoal do bar com aquele semblante de quem espera a festa ferver pra também entrar no ritmo.
Nos reunimos num cantinho, as gurias resolveram comprar bebidas e o Dan também. Bisbilhotando qualquer coisa que se mexesse vi dois senhores do bar cheirando algo de um objeto cilíndrico, pensei “ah, recém 23h né não vai ser droga” decidi compartilhar com o grupo porque não ia guardar pra mim ao mesmo tempo que fico encucada pensando que poderia ser algum remédio pra rinite tipo Sorinan. Fico analisando a fotógrafa tirar várias fotos do pequeno público. E fotos elaboradas tá?! Do tipo que mais um pouco virava um photoshot individual. Pensei: bah, acho que não to muito arrumada pra tirar foto. Ela nem se quer olhou na bolota do meu olho e cada vez que ela passava pelo nosso grupo eu tentava não transparecer que queria sim uma fotinha posada!
A primeira DJ tocava muito bem além de estar com um look baphonico e de novo, “bah, acho que não to muito arrumada” a régua era um pouco alta pra quem estava de casaco de crochê, uma blusa justa cinza e calça jeans. Sim, casaco de crochê porque prezei pelo conforto. De set em set eu conhecia várias músicas e as que não conhecia o ritmo era do meu gosto.
O segundo set (e maior acredito eu) era Savannah (Kobby b2b Jon Boss) e foi um dos melhores que eu vi, afrobeats em francês. O ritmo me agradava bastante e eu tava com Kulosa na cabeça que era do mesmo ritmo, de novo tô me sentindo em território amigo. Parei de dançar um pouco pra olhar como o pessoal tava, Milena e Laura com cara de deslocadas, já o Dan parecia se sentir bem só não conhecia a música porque não tinha costume de ouvir.
Ainda que a pista estivesse um pouco vazia já estava mais cheia que no início e instaurou-se o front! Duas divas dançando sincronizadamente, e a cereja em cima do bolo, elas não se conheciam. Com o front de duas pessoas já pensei que agora sim a festa ia melhorar pq o pessoal ia se juntar pra todo mundo dançar algum passinho. Engano meu, o front morreu quando as duas pararam de dançar e eu broxei na hora. Daí em diante decidi curtir as músicas e conversar com os meus colegas.
Fomos para trás de onde o DJ estava, agora com a casa muito mais cheia. Tinha gente dançando de tudo quanto é jeito, mas todos com os seus grupinhos. Diferente do que eu achava, o batuk era algo mais coletivo em que todo mundo curtia em conjunto. Nós, meninas, já estávamos sozinhas. O Dan teve que ir embora cedo por morar longe e não ter como voltar para casa. A essa altura do campeonato as três já estavam muito cansadas. Com o fumódromo escaneando nossas almas, fomos embora no início do fervo.
Dan: estranho dentro do ninho
Fui o primeiro a chegar no local, com bons minutos de antecedência (20 minutos). Acostumado à rotina metropolitana, busco sempre estar adiantado para os eventos. Ao chegar na Av. Cristóvão Colombo, 772, tive o primeiro espanto: eu era a única pessoa no local, além do segurança que conversava com alguém que, muito provavelmente, também trabalhava na festa. No mais, uma rua vazia, com prédios de arquitetura simples, somados a outros possivelmente preservados de séculos passados, que destoavam do enorme prédio da MedSênior, com sua estrutura espelhada e letreiros incrivelmente iluminados.

Chegada na Av. Cristóvão Colombo pré-festa
Eu estava de fones de ouvido, mas os tirei para captar as sonoridades que o ambiente transmitia: apenas as vibrações do vento, os sons dos carros, um ruído abafado vindo da festa ao fundo e a conversa entre o segurança e a outra pessoa, que tentei ouvir, mas não parecia ter grande relevância para o trabalho. Voltei a colocar o fone e escolhi uma música dançante da Ludmilla (Bom) para entrar no clima da festa.
Minutos depois, finalmente começaram a chegar pessoas, assim como minhas colegas. Chegamos à primeira conclusão para iniciar as atividades: começamos a tirar algumas fotos para registro, mas eu ainda tentava assimilar que estava ali com um objetivo acadêmico. Fizemos alguns combinados, trocamos conversas, gravamos vídeos. Eu estava animado, até havia me esquecido que havia meia dúzia de gato pingado ali na frente.

Fachada da festa
Decidimos entrar. A primeira cena foi um enorme espaço vazio, que ao fundo revelava a DJ dando a vida com seu setlist, enquanto duas moças andavam de um lado para o outro com equipamentos. Na hora, me veio o pensamento “vai flopar isso aqui”. Verbalizei, verbalizamos, mas continuamos com o caráter investigativo da coisa.
Algumas pessoas começaram a chegar. Algo que foi perceptível notar foi a diferença nos looks das pessoas: que parecíamos deslocados de fato. O que gerou algo curioso: mesmo com esse baixo número de pessoas, 10 no máximo, a fotógrafa passou por todos os grupos tirando fotos, mas não chegou perto de falar com a gente, que somávamos 4. Isso perdurou por um bom tempo, quase metade da festa. Era quase como se comunicasse que não estávamos esteticamente adequados ao ambiente. Ainda que fôssemos em maioria negros entre nós, existiam signos que não eram compatíveis.

Primeiro contato

Caixa de uma caipirinha aguada
Eu e a Fabs ficamos fazendo graça com isso. “Não somos negros o suficiente?”
Em meio à tensão do possível flop, com o som torando ao fundo, músicas até interessantes (funks, em sua maioria) e a DJ Karina, como depois descobrimos, tocando para raras pessoas, decidimos comprar algo. Por algum motivo pensei que, por ser uma festa voltada a um público negro, os preços estariam mais em conta, mas a realidade é que o capitalismo ainda é o sistema vigente. Então paguei 12 reais em uma lata de Amstel, enquanto a Laura pegou uma caipirinha e a Milena uma long neck. Tomei a minha em questão de minutos, enquanto as meninas pareciam degustar cada ml superfaturado das bebidas.
Voltei a prestar atenção no ambiente, ainda desconfortável. Continuávamos excluídos da dinâmica fotográfica, a Karina seguia tocando para quase ninguém, o corpo queria dançar, mas nada parecia convidativo. No máximo alguns balanços no ritmo da música, enquanto eu me questionava: “onde tão as pessoas, Jesus Cristo?”. Nervoso, fui comprar uma caipirinha, mais gelo do que qualquer outra coisa, mas parecia ser o caminho para me adequar mais ao ambiente e fluir. (Quando reli o que vivi nessa noite, lembrei do trecho de uma leitura da aula que descreve a escuta como uma “porta de entrada do mundo”, algo que não só registra sons, mas que também nos desloca por dentro. Percebi que muita coisa que me atravessou ali só ganhou sentido depois, quando pude pensar no modo como eu mesmo estava escutando aquele espaço. Na hora, era só estranhamento, desconforto, ruído, e até uma certa tensão (ESTIVALET, 2019, 225); mas com distância, entendi que tudo aquilo também fazia parte de um tipo de escuta que envolve não apenas o que chega de fora, mas o que a gente movimenta por dentro para tentar compreender a experiência). Depois de uma hora, as pessoas começaram a povoar aquele espaço, majoritariamente negras, mas com um número de pessoas brancas maior do que eu imaginava.

Diversidade

Bombou

Primeiro tchau
Fiquei indignado, pois quando a festa começou a lotar, a Karina saiu para dar espaço a outro DJ, cujo nome não lembro, mas me recordo do moletom com o coelhinho da Playboy. Ele trouxe outra ambientação para a festa, com ritmos latinos que pareciam confluir melhor com o espaço. A festa tinha um mestre de cerimônias (?) que não deixava a vibe cair, chamava o pessoal para o front, exaltava a cultura preta. E acho que ali residia a coisa: era um rolê feito por pessoas pretas para pessoas pretas, com toda a interseccionalidade e respeito pelos corpos. Ali me senti em um ambiente acolhedor, com pessoas parecidas comigo, e isso foi legal. Quando a festa começou a bombar, precisei ir embora, pois, ainda que empoderado, eu continuava sendo um metropolitano, e meu último ônibus era às 1:40. Me despedi das meninas e fui embora com um sentimento de incompletude, mas com a sensação de ter vivido algo, minimamente, diferente. Tirei duas fotos antes de ir embora: uma réplica da primeira ao entrar e outra da entrada.
Milena: Jesus e os discípulos dançam
A noite não tinha grandes promessas. Eu e meu grupo já havíamos entrado em consenso que a nossa experiência seria estritamente analítica, pois o cansaço que acometia a todos não nos possibilitava muito além disso. De qualquer forma, eu tentava, com a última energia restante, me manter um pouco animada. Além disso, era a primeira vez saindo do ambiente acadêmico com o meu grupo, pois conheci os colegas na disciplina. Isso adicionou um grau de nervosismo a mais na experiência.
Pra me deslocar até lá, eu e Fabs rachamos um Uber. Chegando no local, reconheci o lugar e ela reconheceu o Dan de longe. Assim, nos reunimos todos pois a Laura também já estava lá. Não haviam muitas pessoas além de nós e, a animação, que já era pouca, não foi muito alimentada nesses minutos aguardando o início da festa. Depois de algum tempo conversando, trocando ideias sobre o trabalho e rindo de algumas conversas, entramos no ambiente.
Minha primeira percepção foi relacionada ao formato do local, pois era uma pista longa em formato retangular, com os ambientes como bares e banheiros nas laterais e ao fim dela, um palco com luzes de LED rosa e estruturas metálicas ao fundo. No instante em que entramos, o clima era de enterro. A música era extremamente alta, o ambiente era bem escuro e a pista tomada pela ausência dos corpos. Éramos nós 4 naquela grande pista, tentando nos sentir menos deslocados entre nós e também no lugar.
Nos momentos onde a conversa cessava, tentava observar as coisas ao redor, notei bandeiras, uma delas com o escrito “St. Patricks Gay”, as luzes e as poucas pessoas que transitavam pelo espaço pareciam ansiosas pelos momentos empolgantes da festa. Numa dessas observações, encontrei uma foto que fazia referência ao quadro da santa ceia, no entanto, no lugar de Jesus e seus discípulos, estava um grupo de drags, cada uma em uma pose diferente. À nossa volta, uma fotógrafa andava pelo ambiente, com uma câmera e um bastão de LED super potente, coletando modelos super bem vestidos para suas fotos e eu lembro de pensar que tudo iria parar no Instagram mais tarde.

Bandeira do St. Patricks GAY

Santa Ceia Drag
Durante o set da DJ que abria a pista, ia tentando identificar algumas músicas e lembrar do nome, algo que sou particularmente péssima. Íamos conversando um pouco sobre a música ou ficávamos em silêncio tentando analisar a experiência. Eu, que por vezes me sentia como uma novata no grupo, ia tentando achar um assunto pra quebrar o gelo e a tensão que em alguns momentos pairava no ar. Nessa hora, a ideia de comprar alguma bebida foi bem vinda. Observei o bar tentando entender como funcionava, e fui em direção ao caixa. Lá, era praticamente impossível se comunicar verbalmente com a pessoa que atendia, e ela, já habituada com a situação, me mostrou um pedaço de papel onde estavam escritas as formas de pagamento. Paguei, peguei minha bebida e voltei ao grupo.
Nos minutos seguintes, mais pessoas começaram a chegar e o segundo DJ iniciou seu set.
A música era diferente da primeira, num ritmo afrobeat com um idioma que eu não reconheci. No entanto,as músicas tocadas me impactaram e me envolveram mais do que as da primeira DJ. A pista, agora com um número maior de pessoas, também parecia mais agitada. Em contraste aos passos tímidos do nosso grupo, algumas pessoas na pista se destacavam pelos passos bem elaborados em uma dança expressada pelo corpo todo. Era bonito observar a desenvoltura dos movimentos e ao mesmo tempo intimidador para uma pessoa, que como eu, tropeçaria nos próprios pés se tentasse algo parecido. Por isso, me mantive nos passos tímidos e contidos, mas aproveitando a música da minha forma.
Mais tarde naquela noite, resolvemos nos deslocar para a área da pista que contornava a parte de trás do palco, tendo uma visão um pouco diferente da festa. Éramos uns dos únicos naquele espaço e conseguíamos observar as pessoas dançando do outro lado. De certa forma, a configuração do palco possibilitava uma integração maior do público, mesmo que as interações ainda fossem bastante segregadas pelos grupos já formados.

Pov: você está atrás do DJ
Nesse momento, o Daniel se despediu de nós três e em seguida acordamos de também voltar pra casa. Nos despedimos da Laura, e eu e a Fabs rachamos um Uber de novo na volta. No trajeto, desejei estar um pouco mais animada e menos cansada, mas pensei também que fiquei feliz por ter tido aquela experiência dentro da proposta da festa.
Mas e aí? O que aprendemos da noite? Que é meio chato quando não entendemos a música que toca nas caixas de som? Que fotógrafos podem nos ignorar nas festas? O ambiente era acolhedor, mas não nos sentimos pertencentes dele. Isso não tira o mérito da Batuk e do que ela promove.
No pós-festa, chegamos a conclusão de que aquele espaço de pessoas negras, para pessoas negras, não era um ambiente incomum em Porto Alegre e Região. Na verdade, essas festas são muito comuns. Corpos pretos em maioria, musicalidades negras em maioria, são comuns, mas em zonas periféricas, nos morros, nas favelas, como dito usualmente, entre becos e vielas. Não no Centro de Porto Alegre. Como disse Gabriel Bernardo em “Marginália Metropolitana”: “Em Porto Alegre e na região metropolitana, existe uma cena consolidada e cada vez mais protagonizada por corpos não brancos e de origens periféricas, o que oferece para o cenário cultural local uma gama de possibilidades de acesso e um senso de resgate de narrativas
historicamente ofuscadas pelo processo de elitização da música eletrônica”, e a Batuk consolida essa cena cada vez mais.
A Batuk faz essa emigração. Ela ocupa novos espaços nos centros, zonas de aglomeração massiva. Isso pode estar associado ao desengajamento inicial que percebemos no evento: enquanto outras festas possuem filas enormes, a BatukBaile começou a angariar festantes somente após duas horas de festa, não existia uma cultura, um rito inicial. Éramos todos extraterrestres num planeta colorido e com a presença de algumas drogas ilícitas atrás do balcão do bar. Haviam barreiras simbólicas que iam além das barreiras do som. A música não estava musicando muito, mas talvez esse não fosse o principal ponto. Mesmo que os corpos não estivessem presentes naquele ambiente retangular, o som reverberava. A Batuk alinhava o som ao corpo. O som era política e entretenimento.
REFERÊNCIAS
ESTIVALET, Felipe. Virtuosismo da escuta e produção de introspecção. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: políticas, escutas e identidades. Florianópolis: Insular, 2019. p. 213-229.
BERNARDO, Gabriel (org.). Marginália Metropolitana. Porto Alegre: Marginália Metropolitana, 2025.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edição #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilhão de coisas. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.



































